sexta-feira, janeiro 25, 2008

A refutação sociológica do argumento biologizante de fenômenos culturais


Existe uma máxima metodológica no trabalho de Emile Durkheim que diz que um fato social só pode ser explicado por outro fato social. Enunciada num livro que tratava dos pressupostos pelos os quais o autor propunha os procedimentos e as disposições intelectuais necessárias para a produção de uma disciplina autônoma, a sociologia, tal requisito metodológico só ganhava plena força quando associado ao que ordenava tratar os fatos sociais como coisa.

Dito dessa forma, a região epistemológica da sociologia se confundiria facilmente com um empirismo ingênuo( que chamaremos aqui-acolá de empiricismo). Empiricismo que esquece que, como dizia Saussure, “o ponto de vista cria o objeto”. Seria injusto chamar Durkheim de empirista tosco, uma vez percebida a ênfase dada pelo autor de As formas elementares da vida religiosa ao principio de exterioridade como sendo um “tratar como”. Ele de fato defendia que o procedimento metodológico fundamental (aquele que garantia a objetividade especifica da sociologia) era também uma “atitude mental” que procura reter aspectos pertinentes do real que não poderiam ser tratados como entidades isoladas sem relações entre si.

Pois bem, feito esse breve preâmbulo de epistemologia da sociologia, gostaria de refletir sobre a possibilidade do estabelecimento concreto de dialogo entre disciplinas como a sociologia e a biologia, em especifico desta última o seu galho chamado neurociência. Instigado pelo interessante debate a respeito de uma pesquisa que busca formular hipóteses sobre os condicionantes neurofisiológicos da violência ( cf : http://www.idelberavelar.com/) ,volto-me para um debate clássico para explorar meu ponto de vista. A ruptura com a lógica da biologia é elemento constituinte da especificidade do tipo de raciocínio ao qual designamos de sociológico.

A questão que me faço é: o que está em jogo quando, por exemplo, queremos saber se existe ou não condicionantes neurofisiológicos para o fenômeno da violência? Se pusermos em par de “equidade epistemológica” a sociologia e as neurociências, se convimos que os dois tipos de ciência formulam seus objetos no mesmo espaço de asserção, é possível e aceitável que o debate a respeito da violência se dê em termos de questionamento sobre procedimentos técnicos de pesquisa (o que a meu ver, é recorrer a uma visão empiricista não condizente com o atual estatuto epistemológico de nenhuma ciência social), como por exemplo, explorar a deficiência ou qualidade da amostragem estatística(ver comentário de Marden Muller, cidato por César, na caixa de mensagens do Biscoito Fino). Por desconhecer às especificidades da neurociência, falo apenas do espaço assertivo da sociologia que, ao que parece, não entra no mesmo regime de verificação e prova (graças!) das ciências, digamos assim, mais popperianas. É nesse sentido que acho que o dialogo entre as duas disciplinas se dá em diferentes regimes de asserção onde o caráter ontológico da violência é situado de maneira diametralmente oposta em cada uma delas.

Trabalhando em analogia, pego um exemplo dessa lógica numa obra de Norbert Elias, Mozart: sociologie d´un genie. Trata-se da afirmação do principio durkheimiano da explicação do fato social pelo fato social. Lidando com as explicações correntes da obra de Mozart ele reage da maneira seguinte às idéias de “gênio nato” e de “dom nato da composição”:

Dizendo de uma particularidade estrutural de um individuo que ela é inata, deixamos entender que ela é geneticamente condicionada e depende da hereditariedade biológica, ao mesmo título que as cores de cabelo e olhos. Entretanto é completamente excluído que um ser humano possa apresentar uma disposição natural inscrita nos seus genes correspondentes a algo de tão artificial como é a música mozartiana”. (Mozart: sociologie d´un genie, 1991,Paris, Seuil. p. 89)

Não se trata, como se vê, na argumentação de Elias, de negar a existência da realidade especifica dos determinantes genéticos, mas da impossibilidade de compatibilizá-los à natureza distinta do fenômeno, para com isso dar sentido a explicações biológicas de coisas pertencentes a ordens extra-biológicas. No caso analisado por Elias um objeto sócio-cultural como a música. É por isso que mais a diante no texto ele conclui:

Se uma disposição biológica intervinha no seu imenso talento, ela não poderia ser outra coisa senão uma disposição extremamente genérica, e não especifica, e para a qual não teríamos nem mesmo conceitos adequados no estado atual das coisas”. (idem, p.90)


No caso de um objeto como a violência, onde algumas reações físico-quimicas parecem dar sustentação às explicações estritamente neurofisiológicas da violência, a relevância do principio da homogeneidade da argumentação científica me parece mais do que necessária para pensar o que se está em jogo nesses debates.

Acredito que, talvez, se a questão for apenas o dialogo que as duas disciplinas podem manter entre si mesmo sendo epistemologicamente heterogêneas, se possa tirar proveito da própria repercussão do caso do anúncio da pesquisa da PUC-RS. (http://www.apm.org.br/aberto/noticias_conteudo.aspx?id=5598)

As refutações que eu julgo inoperantes por não distinguirem o registro de asserção específico das ciências em questão são extremamente ilustrativas de como o dialogo poderia se estabelecer de maneira sadia para o desenvolvimento do saber científico. O fato de existir na sociologia uma larga e relevante experiência na construção de amostragem significativa de populações levando em conta aspectos relevantes contidos nas informações sociológicas produtoras de viés (classe, grupo, agrupamento etc.) faz com que seja possível a identificação de limites técnicos de amostragem (mesmo para fins de conhecimento de reações neurofisiológicas em indivíduos). O que não pode, é querer que o fenômeno social da violência, identificado e construído sociologicamente, seja negado ou explicado em nome de determinantes que por si sós, só conseguem se auto-justificar a si mesmas no domínio de asserção que lhes são próprias, o da ciência que lhes deu estatuto de realidade. É como querer, pelo contrário, que explicações em termos de legitimidade, ou socialização, expliquem a realidade “contextual” dos nossos códigos genéticos ou coisas dessa natureza. Parece-me, nos dois casos, lógicas absurdas.

sábado, janeiro 05, 2008

A letra A para novo Ânus...


Este é um blogue para aventureiros. Pela falta de ritmo do autor, os parcos e fieis leitores passam semanas sem ter notícia de quando palavras confusas vão novamente jogar para beira-blogue antigas asneiras. Assim, vez por outra, incansáveis, esses bravos arriscam seus olhos nesse bravo mar de incertezas que é o Oxymore.

Não vou aqui assumir novos velhos compromissos de estabilidade na produção das reflexões até então esparsas desse blogueiro esfarrapado. Mas, porque mais começo do que fim de ano, eu me arrogo aos votos de que a produção de textos seja plena. Ou... ao menos maior e um pouco mais sistemática.

Letra A Do ânus do piauiense: da relação entre humor e sociologia

Neste post trago um comentário meu a respeito do livro Transpiauí, uma peregrinação proctológica, de Mr. Manson, famoso blogleiro dono do Cocadaboa. Tomei conhecimento do livro através de outro blogue, o Biscoito Fino, que considero muito bom e pode ser acessado no seguinte endereço: http://www.idelberavelar.com/. Nele o autor comenta de maneira descontraída temas como literatura, futebol, política etc. e indica vez por outra, claro, outros blogues interessantes, como o polêmico e humorístico site de Mr. Manson, autor de grandes peripécias na blogosfera.

Claro, minha reflexão não valerá nunca a experiência de cada um ao ler o texto. Pessoalmente qualificaria de maneira espontânea o livro chamando-o de um verdadeiro experimento de etnohumoristografia anal, novo gênero que associa etnografia e humor num relato de viagem realizada pelos confins do Piauí (apelidado para fins literários de cu do mundo). É fortemente aconselhada a leitura bem feita do livro que se encontra na íntegra na internet no site do Mr. Manson.

Deixando os rodeios, vamos lá...


O nascimento de um clássico


Minha primeira impressão do livro me diz que se trata de um livro sério, muito sério. Sim, porque nenhum livro de etnohumosristografia que se preze (mesmo sendo esse o primeiro do gênero, talvez por isso já um clássico com marcas indeléveis para a posteridade) pode dispensar a gravidade tensa que se faz presente na produção aparentemente despretensiosa de piadas que evoquem tão fortemente o estranhamento intra-brasil de brasis que, por preconceito (que é tudo aquilo que existia antes da viagem e das piadas do autor), se desconhecem.

O livro todo é acompanhado por essa tensão psicológica que é representada literariamente pela narrativa em primeira pessoa e liga o bom humor ao mau do autor através de (e)vocação humorística. Na luta entre esses dois pólos de natureza psicológica, a piada sempre vence, pois, torna-se o foco narrativo, trazendo a tona desconfortos sórdidos de natureza sócio-culturais.

É extraordinário exemplo disso o capítulo que o autor dedica a uma sarcástica e bem humorada descrição de uma revelação mística à Paulo Coelho. Se é certo que brincadeiras com os exercícios místicos propostos pelo autor do Diário de um Mago, não é nenhuma cartada de gênio, é preciso também convir: o tom falsamente despretensioso de um misticismo que zomba do misticismo aliado à evocação bem alocada de elementos sócio-culturais específicos dão elementos suficientemente contrastantes para nos impelir a uma reflexão bem ou mal humorada a respeito de nossa realidade complexa.

Vale a pena transcrever trecho revelador nesse sentido:

Já tinha perdido toda a minha fé nas tais “divindades do humor”. Para mim, a brincadeira tinha definitivamente acabado. Se pudesse, sairia dali direto para a minha casa sem pensar duas vezes. Foda-se livro, foda-se peregrinação, foda-se o Piauí! Como eu pude ser tão idiota a ponto de achar que conseguiria sair de casa sozinho, mergulhar no cu-do-mundo sem plano ou estrutura e sair ileso? Todo mundo que me chamou de maluco, me alertou, se preocupou e disse que eu não precisava fazer isso para escrever um livro estava certo. A minha mania de ser sempre “do contra” e a minha arrogante pretensão de querer estar sempre nos “limites do humor” tinham me colocado nessa merda. Me convenci de que o pior desfecho possível para essa viagem era a coisa mais provável e lógica que poderia acontecer. Qualquer ser de bom senso seria capaz de prever isso.

Uma hora e dez minutos. Finalmente eu vejo uma moto no horizonte! Estava puto com aquele arrombado, mas não poderia esconder a minha felicidade em vê-lo. Senti um alívio, mas logo percebi algo estranho. Ela se aproximava muito lentamente. Aos poucos percebi que não era uma moto, mas uma bicicleta! Quando já estava bem perto, vi que se tratava de um velhinho com chapéu de palha e cachimbo na boca!
Não sei quem achou esse encontro mais surreal, eu ou o velho! Ele estava diante de um cara fritando no meio do deserto. Eu via um coroa surgido do nada e pedalando debaixo de um sol escaldante rumo a lugar nenhum. De longe, os nossos olhares já se cruzaram. Não con-seguíamos parar de nos encarar. Quando chegou bem na minha frente, ele parou. Ajeitou o chapéu, tirou o cachimbo da boca e ficou olhando para mim, aguardando uma explicação.

– Eu estava indo para o parque de moto-táxi, só que o pneu furou e o guia teve que voltar até a cidade para buscar outra moto. Já estou há mais de uma hora esperando aqui e nada...
O velho colocou o cachimbo na boca, deu uma tragada, abriu um sorriso meio sacana e disse com uma voz bem falha:
Ôxe, menino! Sai desse sol, tá muito forte. Aproveita que tá com a toalha na mão e vai ali naquele riacho se refrescar...
Riacho? Estava rodando ali há mais de uma hora e não tinha visto nenhum sinal de riacho. Mesmo assim, talvez sofrendo mais um delírio por causa da insolação, me virei e olhei para os dois lados procurando a merda do riacho. Quando me dei conta que poderia estar sendo vítima de uma grande sacanagem, me virei de volta, já puto da vida, e perguntei para o velho:
– MAS QUE RIACHO, PORRA!?!?
Tarde demais. Ele já estava pedalando de novo, se afastando lentamente enquanto sacudia a cabeça num sinal de negação. Negação é o caralho! Aquilo era um sinal de afirmação. Afirmação da minha idiotice, isso sim!
Estava quase apedrejando aquele velho sarcástico filho de uma puta quando escutei um barulho de motor. Era o “guia motoboy” surgindo milagrosamente no horizonte. Ele já chegou estendendo um cantil com água geladinha e dizendo desesperado: – Pôxa, amigo, desculpa! Meu irmão tinha saído com a outra moto, tive que procurá-lo pela cidade inteira. Desculpa mesmo!
Cara, tu não imagina a merda que tu me deixou! Já tava passando mal aqui, com sede e insolação!

Foram xingamentos, praguejamentos e resmungos para todos os lados. A sorte do cara é que a água que ele tinha trazido funcionou como um calmante, senão ele ficaria escutando minhas reclamações a tarde inteira. Meu mal-estar foi passando aos poucos. Molhei a nuca e consegui me recompor para seguir viagem.
Logo ultrapassamos o velho e a sua bicicleta. Ele acenou para mim e deu um sorriso. Nos quinze quilômetros restantes, refrescando a cabeça com o vento, fiquei pensando naquele episódio inusitado. Será que as “divindades do humor” colocaram aquele velho no meu caminho para me mostrar algo? “Elas” armariam essa situação toda para me provar que, mesmo você estando desesperado, na maior merda do mundo, pode chegar alguém e fazer uma piada?

Provei do meu próprio remédio. Era exatamente isso que eu fazia com os outros desde o começo do Cocadaboa. Senti na carne que uma piada recheada com sarcasmo, por mais simples que seja, pode ter um gosto amargo e tirar qualquer um do sério. Mas também tive a oportunidade de descobrir que quando a dificuldade vai embora, a piada fica. E que piada! Aquele velho piauiense mandou bem pra caralho! Durante o resto do caminho fiquei rindo da minha própria miséria, sem conseguir tirar aquele sorriso bobo da cara.

Tudo que eu escrevia no site passou a fazer sentido. Um velho surgido do nada, numa estrada vazia no interior do estado mais esquecido do Brasil, me ensinou uma coisa que vai me acompanhar para o resto da vida. Revelação mais poderosa do que essa era impossível, nem mesmo se eu fumasse muita maconha nas margens do Rio Piedra ou me embebedasse com chá de cogumelo no cume do Monte Cinco. Agora sim, tinha certeza do sucesso de minha peregrinação. A Transpiauí estava disposta a me dar as respostas para todas as perguntas que eu nunca achei que teria necessidade de fazer. (capítulo 14: A revelação)

Diria que a descrição por trás da piada, ou a piada descritiva, ou a indiscrição descritiva da piada, ou ainda o desvelar da descrição piadista... etc. são meios de análise que não vagam num vazio abstrato no livro porque vinculados às experiências de vida onde o autor ao mesmo tempo lida e relata a experiência dele com as pessoas que ele encontra.

Não vou aqui discorrer de maneira detalhada sobre o livro para não tirar o gostinho de ler o dito cujo. Mas puxando a coisa pro meu lado, gostaria de trazer um pontinho para reflexão de sociólogos (não é uma reflexão sociológica por isso):

A relação entre humor e a sociologia: um breve comentário sobre uma experiência etnohumoristografica no Piauí como evento de sociologia implícita


Dizem que por conta de minha formação tendo a ver sociologia em tudo. Talvez. E, quiçá por conta disso, como faço uma pesquisa que visa buscar a sociologia implícita presente na produção literária de um famoso romancista brasileiro, tenho sido acusado de projeção, afinal, sociólogos tendem a ver sociologia em tudo mesmo. Bem, é o que dizem. Inclusive os “sociólogos”. Não sei por que há tantos que odeiam a sociologia, mas...

Então, por isso, penso ser preciso fazer comentário na defensiva, ou seja, atacando meus conterrâneos de sociologia.

Não é que o Mr. Manson tenha vocação de etnógrafo, mas, parafraseando o dito popular, em terra de cego, quem tem olho para ver o cu do mundo é rei. Dessa forma, atino para as qualidades sociológicas do autor do relato por uma razão de disposição de pensamento que julgo caríssima em sociologia ( e infelizmente totalmente ausente em boa parte de nossa intelectualidade bem pensante): A predisposição para coleta de dados empíricos para “desconstrução” dos pré-conceitos.

Claro que não se tem ali uma análise fina do ponto de vista estritamente sociológico sobre nenhum aspecto da vida daquelas pessoas, o livro não se propõe a isso e se quer “apenas” um relato bem humorado, ou bem mal humorado, de uma viagem desgraçada. Viagem desgraçada quer dizer, em sentido propriamente analítico do humor, viagem engraçada, ou, em sentido místico, uma peregrinação cheia de graça. Mas eis que meu veio contextetualista e quase crítico de sociólogo me impõe ao questionamento durante a leitura: que sociólogo brasileiro atualmente se dá o trabalho de “verificar”, como fez Mr. Manson, se suas sofisticadas teorias sociais (de sociablidade, de socialização, de legitimidade) explicam ou ajudam a entender melhor as formas atuais de vida de pessoas vivendo em cus-do-mundo (se souberem a resposta, por favor, me passem indicações das obras do referido autor)? Comparado com a punheta teórica a que somos obrigados a nos submeter nos departamentos de ciências sociais das universidades brasileiras, completamente desvinculada de realidades empíricas em demanda de cuidados analíticos e metodológicos suplementares (às suas aplicações em solo de autonomia na produção da teoria sociológica), a leitura de uma tal proctológica peregrinação me parece um verdadeiro exercício de vigor sociológico. Além disso, a situação crítica dada quase que de maneira imanente no ato de descrever o universo de vida de contemporâneos que é própria de uma “situação analítica” historicamente atribuível a qualquer sociologia que se preze, parece-me uma situação similar a do humorista, sempre pronto para aceitar a piada do outro, mesmo se “après-coup”, como o exemplo da piada do velho na bicicleta que, “mand[ando bem” faz Mr. Manson viver em si um outro que era o eu dele mesmo para tantos outros alguéns.

É maravilhoso o modo como o Mr. Manson crava a unha no polegar de nossas mazelas de povo unido por uma estranha diversidade de conhecimentos tácitos (pré-conceitos, que são também incompreensões) que são aos poucos postos em evidência ora pelo tom propositalmente politicamente incorreto, ora pela sincera simpatia impaciente do autor com os estranhos despropósitos de vida daquele fim de mundo se realizando e se materializando em fotos, descrições e, sobretudo piadas de situações e acontecimentos. Tem defeitos, sim, claro. Mas achei um livraço!

quinta-feira, novembro 22, 2007

A chave estava no bolso de seu Wilson





7:00 horas e meu celular toca. Minha ex-mulher com uma voz tremula e confusa me pergunta pela chave do carro.

-- Levou a chave do carro, esqueceu de deixar embaixo?
-- Não, deixei-a com o porteiro. Com o vigia.

Tinha passado o início da noite na casa dela, tomando conta de minha filha. Desci com a chave do carro dela porque ele estava estacionado atrás do meu. Fiz a troca de posição dos automóveis e desci do meu carro porque vi que o vigia estava concentrado em algo, ele havia aberto o portão maquinalmente, como sempre fazia. E não havia percebido que queria deixar algo com ele. De fato, a troca de olhares era a maior parte de nossa relação. Em um ano, duas ou três conversas. Ele falou-me de suas filhas. Eu falei da minha, que acabara de nascer. Tímido, feio, sem dentes, lembro de ter levado para ele, uma noite depois dessa nossa conversa, um chocolate quente. Depois disso, apenas um empréstimo de dinheiro (50 reais) ao qual ele me devolveu em dia.

7:00 horas da manhã e meu celular toca. Minha ex-mulher diz com uma voz tremula e confusa que o porteiro se jogou de cima do prédio e morreu. Lembro imediatamente do tapinha nas costas dele dado por mim ao deixar a chave do carro dela com ele. Ela relata que pediu a chave lá embaixo, não estava. Já bastante confuso tento lembrar do nome dele, como é o nome do porteiro?

Talvez ele não tenha se matado por eu não saber seu nome. Quiçá também ele não tenha previsto a frieza mórbida com a qual alguns moradores do prédio falavam a respeito da “morte do porteiro”. É incrível perceber esse tipo de reação nas pessoas: descem, olham o corpo, comentam algo, falam do “vigia”. Qual era o nome dele mesmo?

8:00 horas. Chego trazendo uma cópia da chave do carro para minha ex-mulher. Vejo a movimentação no prédio. Policiais, caminhão do IML, curiosos. O portão se abre. O vigia da manhã (qual é o nome dele mesmo?) me vê chegando e faz um sinal com os olhos para o faxineiro vir a mim (ai meu Deus, esses nomes todos!). Ele traz a chave do carro... “estava no bolso de Seu Winson.”

Não. Não é porque eu não sabia seu nome que ele se matou. Nem mesmo porque a morte dele não parecia importar a ninguém, a não ser ao faxineiro que parecia desolado. A culpa da morte dele é só dele, diz o auto-engano desencontrado de alguém que faz parte de uma sociedade produtora de autocentramento exacerbado, desacertado e insensível. Como vai seu Wilson, por que essa cara tão triste e preocupada? Fale-me mais de suas filhas...
Não, deve haver outra explicação que a indiferença. A sociedade não é culpa, é desculpa. Afinal de contas o suicídio é algo particular, não é mesmo senhor Durkheim?

quinta-feira, setembro 06, 2007

Dubliness...


A Dublin de Jampa Joyce começa na França. No Aeroporto Internacional Charles de Gaulle, onde etretive uma espera digna do apagão Companheiro De Lula: 6 horinhas. Nele pude comtemplar em minha memoria a completa inexistência de referencias sobre a Irlanda. Olhava para um ponto perdido onde pessoas perambulavam e tentava advinhar se os irlandeses pareceriam assim ou assado. Buscava referencias. Lembrei-me de Cristopher, um camarada irlandês que conheci... onde mesmo? Na França... Definitivamente, tudo dessa ilhota me lembra a... a França. Ate Saint Patrick's day eu festejei como La fête de la Saint Patrick quoi! Isso vai mudar, pensei.
Chegada ao Aeroporto de Dublin. 1 hora de interrogatorio no serviço de imigração.
-O Senhor faz o que da vida?
- Agora, aqui na Irlanda? Bem, eu vim de férias rever uns amigos franceses que moram e trabalham aqui na Irlanda. Mas de profissão sou sociologo, estou fazendo um doutorado no Brasil. (Tudo isso naquele meu inglês macarrônico... sem comentàrios!).
-Você fala francês? (O interrogatorio é todo feito em tom de sarcasmo e, na minha situação de dependência, minhas respostas eram dadas em uma tonalidade digna de imigrantes politicos que, correndo risco de vida ao voltarem aos seus lugares de origem, imploram por tolerancia das autoridades de "acolhimento").
- Falo.
-Como aprendeu?
- Morei 6 anos na França. (Pensei, e eu que vim pensando em esquecer minha "Irlanda afrancesada"!).
- Se você é brasileiro, como ficou là por tanto tempo?
- Além de ter estudado là, fui casado com uma francesa.
- Quem você veio ver aqui? Você tem um endereço, um telefone? (Passo para ele o papel onde havia anotado o endereço e o telefone em Dublin de onde eu ficaria)...
Não vou explicitar até onde a Santa Inquisição foi para averiguar supostos imigrantes como eu. As suas perguntas esdruxulas, muitas delas invadindo um espaço de foro intimo em qualquer cultura, são para mim prova cabal da eterna e violenta relação de poder entre fortes e fracos.
Do avião vi, depois de sobrevoar a Inglaterra, uma Irlanda coberta de nuvens densas. Ainda não visitei Belfast, onde um muro de concreto ainda separa catolicos de protestantes. Lembro que foi indo para Irlanda que uma familia de africanos morreu dentro de um contener de navio. Esse muro invisivel, simbolica, brutal e abruptamente inscrito no modelo inquisitorial do serviço de imigração, é para mim a marca desse outro muro deles, mais visivel.
Minha mala não chegou. Mas a acolhida foi excelente. As pessoas em Dublin parecem ser no geral simpaticas, acolhedoras e prestativas. A impressão tensa inicial se desfez. Vou tomar uma Guinnes e esperar por minha bagagem... Aproveitar as férias, não mais para equecer a França que dà referencia às minhas impressoes sobre a Irlanda. Até porque o teclado no qual escrevo é francês e a ausência de sinais não me deixaria esquecer dessa verdade: Jampa Joyce definitivamente tem um sotaque de imigrante brasilo-franco-estupido-inglês!

terça-feira, julho 31, 2007

Pan, TAM, Pan Boom! De quem é a culpa?



Final de tarde. O compromisso com o mundo de atividades mundanas se esvai com a chuva que começa a cair. Toró. Cordas d’água! Cargas de água. Aquecimento global, penso. Nós humanos, seres imundos que somos. Deu vontade de tomar banho com o molhado que vem do céu. Pororoca sem onda, piracema sem peixe. Menino pulando no asfalto espelhado de lamas. O sorriso desdentado esquecido das faltas, dos problemas políticos, das vitórias e derrotas do Pan, dos desastres de avião. Cadê o menino? Cadê? Ô menino esquecido!

Começo de noite. A toada é dos carros. O mundo idílico não pertence a nós, humanos de tipo brasileiro. A culpa é do lirismo, do nacionalismo, do Lula, do piloto, de Jampa (que quer ser menino!). Do acidente não acidental. Da tragédia não trágica. Dos pássaros que aqui gorjeiam. E dos homens que aqui “habiteiam” e dos que hão de habitar. Da História, a culpa é Dela. Fincou na terra, ficou na crosta, golpeou e solapou o fôlego dos esperançosos. Tudo já está dito. Cadê? Há mais algo a dizer? Ô menino esquecido!

Escombro de enoitecer. Concordes já não voam mais pelos ares, outros baques o desprojetaram do mundo celeste. Discordes vaiaram, concordes não voam mais, que mundo é esse? Esse deveria ser o último parágrafo de quem não tem nada pra dizer desse mundo... mas fracos como eu insistem em gorjeio. Vai, gorjeia como lá, gorjeia! Cadê? Cadê? Já esqueceu?

– Pan, Tam, Pan! Boom!

Que sórdido canto! Seria Assum Preto, cego dos olhos? Escombros de noite. Noite de chuva. Sem culpa. Sem espelho de água em lama preta. Sem nacionalismo. Sem silêncio, a toada é dos carros. Cadê o menino? Cadê o concorde? E o recorde? Sim, o jornal é o mesmo. Mais gorjeio: Pan, Tam, Pan! Boom!

Ironia ou não, no escuro do quarto, no meu colchão de classe média, deito-me ao som de Ludwig Van tocando Pan Pan Pan na televisão... Viro-me. Tento esquecer. Vai ver que a culpa é do aquecimento, do gorjeio (nunca do esquecimento). Do Gorgias de Platão! Do avião. A culpa é da culpa, lá onde tudo é mea culpa. Do reverso, da pista, mais uma vez do piloto, do menino, do cansaço, do “apagão” esotérico supra-lunar dos céus. A culpa é da Fátima Bernardes... é do superfaturamento do Pan, e dos cubanos que, apesar de povo miserável e comunista derrotado, continua na frente no quadro de medalhas...

A culpa é do cu, claramente, que é quem sempre começa a palavra culpa. E a catinga de cu, nunca acaba.

sábado, julho 07, 2007

Le Roi se Meurt : educação pela morte
Intelectualizar a morte talvez seja algo mórbido para alguns. Em alguns momentos seria mesmo arrogante tentar tirar lições de tal tema. Não pretendo fazer isso aqui. Esse pequeno texto, pegando minhas recordações de uma leitura antiga, vem apenas exorcizar alguns sentimentos meus que foram gerados pela consciência da dor de alguns amigos diante de uma perda recente.

Não encontrei o livro. E usarei, nesse breve comentário, algumas notas que fiz na época de minha leitura.


Alguns filósofos falam de uma “crise da morte” que envolve o ocidente desde o século XIX e dura até nossos dias. Os dados dessa crise se manifestariam de maneira contraditória: por um lado nós somos eternamente jovens, a medicina nos salva da morte (mesmo que a morte esteja sempre presente?); e de outro, a recusa da morte como problema apareceria como origem mesma da dita crise. O mote dessa crise seria uma verdade tipicamente moderna: a morte não é, para nós, uma “verdade nova”, é uma “verdade que esquecemos”. Eu me sinto profundamente identificado com essa interpretação do nosso lidar desajeitado com esse tema tão fundamental, com essa realidade tão necessária que... “esquecemos”.



Ao ler o Le roi se meurt de Eugène Ionesco nos deparamos com três fisionomias da morte que atormentam a personagem do rei: o morrer (que é fase terminal da vida, identificável, sobretudo, na velhice e na doença); a mortalidade ou, em outras palavras, o destino biológico, e, por fim, a finitude (consciência da mortalidade). O rei é que diz: “Não é natural morrer, porque não queremos. Eu quero ser.” O rei é quem encarna em si o “modelo” da citada crise da morte por “querer sempre ser, ele conhece apenas isso” e que sendo “sempre assim” organiza a trama da peça, como personagem principal que, como quer Ionesco, confronta-se aos designos do tempo num dado espaço: “seria preciso que ele não olhasse mais ao seu redor, que não mais se apegasse às imagens, seria preciso que entrasse nele mesmo e que ele se trancasse”, diz Marguerite ao rei, completando a frase dizendo “ não fale mais [da morte], cale-se, fique dentro. Não olhe mais, isto te fará bem”. Houve quem quisesse explicar a modernidade, o seu aparato tecnico e de espetacularização do mundo, como a tentativa de realização desse desejo de esquecimento da morte. Como odeio essas generalizações digo apenas que na peça encontramos os dados da reflexão de Ionesco: a morte como dado, a rejeição da necessidade dela pela vontade, a consciência que tensiona entre vontade e a inevitabilidade do fim.

O teatro, tido como espetáculo, convence mais do que a realidade. Talvez isso ajude a entender como a trama faz lembrar, dessa forma, um esquecimento nosso: a morte, precisamente sua atualidade que é constante, estando sempre presente, vem sempre a contrapelo do esquecimento que vai “reagir” erigindo-se em tautologias epidérmicas enraizadas em nosso próprio medo: “a vida é contrário da morte. Queremos a vida, a morte é um absurdo”. A morte, teatralizada, revela assim um paradoxo contido na linguagem: a morte, entendida como ausência/presença, é constrangida a dizer pela linguagem que não existe nada a dizer, um verdadeiro paradoxo dos paradoxos. Nada mais nada menos do que um problema sem idade: o que é viver quando sabemos que vamos morrer? o que é morrer quando sabemos que devemos viver?

Podemos de fato viver a morte (luto)? E falar a seu respeito, é possível? Sendo possível do que isso valeria?

De fato, e pensava isso comigo mesmo ao assistir “Six feet under”, a morte quando chega é fator de significação da vida. A sua presença redimensiona prioridades e equaciona valores. O fato de esquecê-la com freqüência, em rito de nossa modernidade frenética e medical, fazem-nos mais vulneráveis ao que chamamos de crise da morte: ao esquecer de nossa condição talvez mais fundamental de seres vivos, a vida e a morte, duas faces da mesma moeda, só se tornam sacras, infelizmente, na dor.

sábado, junho 30, 2007

Sobre Cacos


"O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito [o caco] para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata" (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser).


Uma vida pode ser lida como um amultuado de cacos. Se guiada pelo ímpeto da beleza, ela pode acomodar os pedaços, compondo as arrestas irregulares e, sem medo de imperfeições, conceber-se enquanto mosaico. Durante muito tempo esse foi um conceito realativamente aceito de arte, de composição artistica.
O que é uma vida bem vivida? Seria essa a pergunta mais fundamental?
Transformar cacos em beleza talvez seja, no fundo(de onde não me perguntem!), a tarefa de todo ser humano adulto diante de sua própria existência real. Reorganizar em lógica que busca harmonia, as frases, os temas (Jorge, não ria de mim, não sou músico!), que, se o compositor for bom, se fundirão todos em sonata...(em boa sonata). Numa dimensão de totalidade onde as partes interagem entre si de tal forma que não se pode mais notar a natureza fragmentada oriunda dos sons - (caramba, hegelianismo numa fase dessa da vida devia ser estritamente proíbido) , a melodia, ou seja, os cacos de uma vida reagrupados de maneira harmônica (ou harmoniosa), revelam o esforço de apagar dissonâncias (as arestas que são atributos de qualquer caco), e a "beleza" seria assim entendida como a vitória desse errafecer de disformidades sonoras.
Eu gosto de mosaicos. São metáforas formidáveis da existência humana. Nele, talvez esse o segredo do seu belo, os fragmentos não desaparecem: eles se conformam à beleza. As vezes, em momentos de paz, sinto-me um mosaico de mim mesmo.

quinta-feira, junho 28, 2007

“[...] E que o desprezo dos metodólogos por tudo que se distancie tanto dos cânones estreitos que eles mesmos forjaram em termos absolutos do rigor serve frequentemente para mascarar a superficialidade rotineira de uma prática sem imaginação e quase sempre alijada daquilo que constitui a condição verdadeira do verdadeiro rigor: a crítica reflexiva das técnicas e dos procedimentos.” (P. Bourdieu)


Por uma sociologia dos sociólogos recifenses

Primeira Parte

1- Homo Academicus à CFCH: lição de estranhamento


A aula inaugural de Pierre Bourdieu no College de France começa com as seguintes palavras:

“Nós devíamos poder pronunciar uma lição, mesmo que inaugural, sem se perguntar com qual direito: a instituição está aqui para descartar essa interrogação, e a angustia ligada ao arbitrário que se faz presente dentro dos começos.” (Leçon sur la Leçon, les editions de minuit, 1982.p 7)

Bourdieu sabia que era isso mesmo que ele estava fazendo, pronunciando uma aula que lhe era de direito e que lhe atribuía legitimidade. Tanto sabia que usou desse recurso para mostrar que a ciência que ele ali representava estava lá para por em suspenso, ou ao menos em suspeita, algumas das legitimidades ali presentes. A sociologia, dizia ele, " ciência da instituição e da relação, feliz ou infeliz, à instituição, supõe e produz uma distância intransponível, e às vezes insuportável, e não apenas para instituição; ela arranca o estado de inocência que permite de preencher com alegria (grifos do próprio Boudieu) as expectativas da instituição."

Para ele, imagino, jogando com o jogo de palavras e de posições que estão ao seu alcance, fazia-se possível, porque decorre daquilo mesmo que a sociologia exige e produz, uma defesa da reflexividade como propriedade mais fundamental da ciência que assumiu como sua: “todas as proposições que esta ciência enuncia podem e devem se aplicar ao sujeito que faz a ciência”. Não vou aqui discorrer sobre o que, nessa visão, acarretaria na falta de alegria dos intelectuais ao se verem como um objeto de estudo da sociologia. Mas falarei mais de meus incomodos de não poder tomar meu universo como objeto de conhecimento sociológico.

Começar falando de uma aula magistral (e aqui, realmente magistral, porque dada com a presença dos mestres já consagrados da instituição), realizada na França, numa das instituições de maior prestigio daquele país, para falar de meu estranhamento com o universo do CFCH, pode parecer, no mínimo dos mínimos, esdrúxulo. Mas como negar, de minha parte, que, tanto a leitura como o contato direto com uma sociologia tributária dessa perspectiva reflexiva, são fontes constantes de angustias e inquietações com relação aos padrões de produção sociológica do qual hoje faço parte? Mais. Em auto-crítica, ou em esforço disso, pergunto-me se minhas angustias com relação aos tais padrões, já que não estão, como tudo o mais, embasadas (as angustias) em um verdadeiro inventário sociologicamente fundado de razões, pergunto-me se não são elas apenas caprichos arrogantes herdados da assimilação de uma cultura sociológica produzida nos grandes centros de produção acadêmica. O que foi assimilado nesses centros parece ou aparece como deslocado quando transferido para uma região periférica de produção acadêmica. Essa é minha impressão. E estas as questões que dela decorrem: não estaria eu reproduzindo, em moldes um pouco diferentes, uma lógica normativa de imposição de uma maneira de lidar com a sociologia digna de uma mente colonizada? Não estaria assumindo para mim parte daquilo que imagino criticar quando extravaso minhas angustias?
De fato, digo-me, enquanto a angustia permanece em estado latente, como acontece comigo, ela não se torna capaz de elaborar a pergunta que seria a meu ver a única sociologicamente rentável: o padrão de produção da sociologia cefichiana não poderia ser ele, como pede a reflexividade própria à sociologia a qual me inspiro objeto de aplicação do conhecimento sociológico?


Não é sem auto-complacência que se diz que não se entra em sociologia sem esgarçar as aderências e adesões pelas quais integramos um grupo, sem condenar as crenças que são constitutivas do pertencer e renegar toda ligação de afiliação ou filiação. Mas para entrar em sociologia é preciso o quê? Quando e como podemos nos considerar sociólogos e ser considerados como sociólogos? Não seriam essas dúvidas que a instituição deveria neutralizar? Para quem essas questões realmente importam?

Pertencer ao mundo do CFCH para mim é entender que esse estranhamento meu deve encontrar respaldo na sociologia mesma na qual deposito minhas crenças (esperanças de elucidação e esclarecimento do modus operandi do mundo social) e com a qual me esforço de entender o mundo, inclusive o meu mundo de produção (o universo dos intelectuais cefichianos). Mas entender isso significa apenas e não mais do que isso um dizer-se a si mesmo que em um momento ou em outro seria preciso um debruçar-se propriamente sociológico sobre esse mundo, saindo assim de mera doxa intelectualizada com vínculos em visões sociológicas já feitas do mundo, para construção de um discurso real e sociologicamente embasado a respeito das condições de um tipo de produção que hoje de alguma forma desmereço sem conhecer realmente suas razões de ser.

Nas falsas brincadeiras com amigos nas quais falamos de “cefichismo” (doença intelectual com sintomas como “teoréia aguda” ou o “mal da erudição empaca pesquisa”, ou ainda um “antisociologismo crônico”), estamos diante desse estado de coisas cujo meu estranhamento é apenas mais um sintoma: ele é uma vontade de entender por que alguns valores da produção do conhecimento sociológico são postos em questão de maneira concreta, apesar de velada, por todos nós.

Por razões que julgo obvias não tomaria como objeto de estudo os intelectuais das ciências humanas e sociais do CFCH. Tão obvias quantos minhas razões seriam o valor de uma sociologia que, descrevendo nosso mundo de produção sociológica, mais ou menos do jeito que ele é e produz, nos daria os meios de entender, entre outras coisas, porque continuamos a não conseguir querer de fato saber quem nós somos.
Jampa.

quarta-feira, junho 27, 2007

Nuvens, Sonhos e ... Psicanálise.


“Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas – e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou.” (Graciliano Ramos, Infância, 1945).


Graciliano Ramos intitulou “Nuvens” o primeiro capítulo de suas memórias de infância. O título não se referia aos condensados de água, claro. Nele encontramos mais o atributo da imaginação contido nas nuvens que é em última instância forma que ganha forma através de imagens. Ou melhor dizendo, da imaginação. É aquilo que a literatura faz com o real (mesmo quando realista): ela transforma flocos flutuantes informes em dragões alados, em cachorros fantásticos, em tigres com dentes de sabre. Transforma pitombas em generalização teórica, mundo empírico em um abstrato.

Existe um site que sempre visito onde as pessoas contam sonhos . Na experiência psicanalítica, como numa grande construção literária dando formas às nuvens de nosso inconsciente, ao verbalizar e tornar visíveis as imagens sonhadas, damo-nos os meios para que nossa imaginação analítica interprete aspectos de nosso mundo psíquico que, naquele momento, torna inteligível, ou ao menos sensível, a natureza informe do universo dos sonhos. Um dos primeiro sonhos que li no site citado me impressionou bastante. Não consegui encontrá-lo novamente, mas o reformulo aqui em liberdade literária. Espero que o dono não venha tirar satisfações comigo de minhas interpretações, afinal de contas, tanto uma (a liberdade literária) como outra (minhas interpretações) são totalmente imaginadas. Então vamos a minha reformulação:

“Um adulto a quem penso ser eu chega para fazer sua análise. Não era bem um consultório, mas uma casa, familiar. A analista pedia para o adulto que ainda penso ser eu tirar a camisa e fechar os olhos. Eu achava, pensando que ele era eu, que ela queria me hipnotizar. Eu senti agora já sabendo de mim umas carícias nas costas e ela me balançava. A psicanalista falava coisas e eu não entendia. Perguntava-me por que eu continuava de olhos abertos. Eu tinha a impressão de fechá-los, mas de continuar sempre vendo.

Depois ela sentou, explicou-me umas coisas que não me lembro se entendi ou não. De repente entrava uma criança no quarto que estávamos. A psicanlista tentava explicar pra o meninote muito afavelmente que estávamos numa análise. Entrava outra criança. Eu tentava encontrar minha camisa. Linda, a analista me passava minha roupa e eu ia me vestir numa espécie de armário. Eu a via conversar com uma mulher enquanto tentava confusamente me vestir. Tinha medo de que alguém me visse naquela situação, mas ao mesmo tempo achava que todo mundo sabia que não havíamos feito nada demais. Só análise. Mesmo assim, achava que as pessoas desconfiavam da psicanálise como subterfúgio para o sexo. Alguma coisa aconteceu e me vi em situação de sair da casa sem conseguir estar vestido.
Vi-me vestido com uma calcinha. Na hora que tentei calçar meus sapatos, vi que já havia sapatos nos meus pés. Tirei-os e calcei os outros. Continuava de calcinha e isso me incomodava.
Ao sair da casa teve a coisa do peixe...
Uma rua que ficava ao lado de um canal ou um rio, não se sabe bem, foi cenário de um espetáculo nuca visto. As pessoas falavam do peixe sol. Observei, admirado, a estranha beleza desse peixe. Ele reluzia a água podre e fétida e ao redor dele, a água parecia pura e límpida. Existia uma particularidade nesse espécime que merece toda uma atenção: ele só morria por causa de uma doença, a gripe. ”


Claro, toda interpretação de sonho precisa de um contexto. Precisa de uma estrutura psíquica, de uma história de vida, que dêem suporte analítico a interpretação daquele sonho. Não conheço o dono do sonho e todas essas informações me são desconhecidas. Como encontrar nexo num peixe que morre de gripe? Ou nas imagens de um adulto com medo de ser julgado por fazer sexo ao fazer psicanálise? E o que dizer de calçar sapatos em pés já calçados? E a calcinha?

Uma pergunta que sempre me fiz e pode ajudar nesse esforço é: como, uma ferramenta tão especifica de análise, como é a da psicanálise, pode dar conta de casos tão diferentes, tão heterogêneos e se conceber, em fim de conta, como uma teoria explicativa de estruturas mais gerais do inconsciente humano. A mesma psicanálise que cuida das neuroses alheias cuida das minhas, que invariâncias psíquicas estão por trás dessa “funcionalidade” psico-analítica? Como pitombas podem virar esferas e “representar” tudo que é redondo no mundo? Como o sonho de outrem pode se transformar em nuvem com formas que dêem vazão a minha imaginação?

Como não tenho respostas, deixo aqui a esperança nublada do resto...

Jampa.

terça-feira, junho 19, 2007

Amor, Passado, Príncipe.


Tenho a mania estranhamente adolescente de guardar as minhas cartas de amor em um recanto. Tanto as escritas por mim quanto as recebidas. Narcisismo? Mais. Vez por outra, nas escondidas, recolho-me a uma leitura atenciosa dos afetos desfeitos. Eu acho um exercício valioso de treinamento sociológico. Objetivação do passado mais profundamente subjetivo. Os “te quero pra sempre ao meu lado”, “ nada na minha vida foi tão profundo do que o que vivemos nessa relação”, “te amo e acho que isso nunca vai acabar”, lidos com a distância do tempo, tem um efeito historicizante, e, e isso não é pouco, desnuda os invariantes estruturais de nossas sempre românticas expectativas amorosas, apaixonadas, colocando-nos secamente no fluxo instável de nossos afetos. Quanto mais sincero o amor, as palavras mais apaixonadas, mais e mais forte é o efeito crítico da percepção de um passado tão único, tão específico, que é estranho pensar naquelas palavras imaginando os sentimentos ali expressados. Sim, eles não existem mais.

Existe nessa bizarra prática algo de profundamente tragicômico: a gente lê, desfruta melancolicamente de um passado perdido para sempre, e, como não dizer, procura nela(na prática) e nele (no passado) refúgio para dilemas mais atuais que, para melhor efeito terapêutico, tenham fonte em mesma verdade profunda daqueles sentimentos de outrora. A história apesar de contextualizar também revela, mesmo que de maneira metafórica, invariâncias estruturais.

Um homem quer ser amado para ser príncipe, pequeno príncipe. Fazer da mulher a encarnação do desejo e do encanto é o imperativo de seu reinado amoroso, no passado e no presente. O bom pequeno príncipe revela-se quando descobre de maneira lírica a abstração que é amar loucamente.

Encontrando um aviador, o príncipe, sempre ingênuo, e por isso mesmo sempre amante, sempre apaixonado, deve pedir: “Aviador, desenha para mim uma mulher linda para que eu possa amar.” E ao olhar o desenho, e ver os traços delineando curvas, exibindo discretamente busto, sugerindo seios, o principezinho deve reclamar: “mas ela parece cansada.” Na esperança de contentar a nobreza do garoto o aviador deve fazer mais uma tentativa. Mais linhas em esboço para expressar com delicadeza as formas femininas. Uma longa silhueta ilustrar uma beleza helênica, proporcional, encantadora. “ Mas ela parece triste”. O aviador não perde a paciência. Reflete um pouco e lembra das ovelhas. Desenha uma bonita casa e diz: “ sua princesa está lá dentro”. O príncipe, feliz da vida, contenta-se com tamanha perfeição.

O passado morto, nunca morre de fato na gente. As emoções passam, as pessoas passam, a vida passa. Mas o menino príncipe guarda o desenho da casa na esperança de que um dia, a princesa saia dali de dentro, sem estar nem triste nem cansada, para depois disso, quem sabe, queimar as cartas do passado e dizer: não é mais meu, tudo isso que passou.
Jampa.
RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.

A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.

Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha ideia de família

viajando através da carne.

Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo, 1945

segunda-feira, junho 18, 2007

Impressões sobre Budapeste



Acabo de ler um romance de capa cor de mostarda. Gostei. Imaginei para ele diversos títulos como o piegas “Amar é como aprender uma nova língua” ou “Desamar e esquecer ”, ou “O pêndulo de José Costa”, ou ainda “ Sob o olhar de quem não assina”, e tantos outros que imaginei durante a leitura de Budapeste, de Chico Buarque.

A trama do livro se equilibra no fio tenso de uma crise conjugal contada a partir do universo de um "ghost writer": profissional que escreve para outros assinarem em seu lugar. Achei de fato ousado da parte de Chico tomar fio tão tênue para conduzir um romance. Perguntava-me a cada parágrafo se aquele mote manteria a narrativa viva até o fim. Para minha satisfação, o livro é um cuidado só. E, na medida em que tememos a ruptura desse fio de barbante que aparenta segurar a narrativa por um cadinho de nada, percebemos que as coisas vão acontecendo na vida de José Costa.


Como gostaria que as pessoas lessem o livro saboreando e descobrindo o enredo, não vou comentá-lo. Deixo aqui minha vaga e modesta opinião sobre esse equilíbrio tênue da trama como sendo a grande qualidade do livro. Sim. Pois a beleza, a poesia de que falam alguns críticos, provém dessa dilatação do romance que usa um foco aparentemente central como eixo da trama (relacionado à crise conjugal de José Costa e Vanda), mas que, ao atentarmos bem, só ganha sentido através da relação da personagem principal com a linguagem entendida em sentido amplo: sua profissão de escritor anônimo que cria um ponto de vista atravessado pela problemática do reconhecimento autoral, as línguas estranhas e familiares entrecortando as maneiras de conhecer e reconhecer o mundo e a si mesmo, os diferentes códigos culturais, tudo isso são espécies de personagens invisíveis do livro.

Exemplo disso se encontra nos momentos onde a confluência entre linguagem e percepção (da personagem) se exacerba, e vemos até José Costa se “tornar” Zsoze Kósta e Vanda aparecer germanicamente como Wanda.

Vale ainda ressaltar, entre tantas outras coisas do romance, a estrutura pendular na organização dos capítulos: a oscilação de José Costa entre duas mulheres (Vanda e Kriska) e duas cidades (Rio e Budapeste). Nela, os caminhos dos personagens se confundem com linguagens. O “real” é retido, modificado, construído pela palavra, e o jogo ficcional dialoga com ele mesmo, revelando, entre outras coisas, as artimanhas da própria literatura (do escritor), ao usar as palavras contra outras de maneira a exprimir idéias, sentimentos e anseios a respeito dele mesmo e do mundo. Claro, nesse caso, Budapeste também é livro bem cuidado, pois, sendo história contada por um “escritor de anonimato”, bela sacada de Chico, a artimanha dessa empreitada literária parece ganhar também um desvelar singelo. Prática sabida de todos, como quase tudo que é “segredo” no mundo social, o escrever para outrem se torna prática invisível porque, quanto mais sabida, mais (de)negada por ter que ocultar – e é justamente isso que garante sua funcionalidade e efetividade – a maneira que funciona sem ser desvendada. Assim, só um narrador empático ao mundo secreto dos escritores anônimos, um autêntico “ghost writer” poderia ver o que ninguém vê, sentir o que ninguém sente, e, porque não dizer, mostrar o que todos sabem mas ninguém mostra. Um verdadeiro exercício, vou arriscar, de sociologia implícita.
Jampa (será?)

sábado, junho 02, 2007

À Boa Viagem do Lindu de Oscar Niemeyer (Com a licença de João Cabral de Melo Neto).



Eis casas-grandes de engenho,
verticais, escancaradas,
onde se existe em extensão,
e a alma todoaberta se espraia.


Não se sabe se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Jampa
“imensos limites da praia”


ou ginástica(o parque), para ensinar
quem for viver naquelas bandas
um deixar-se, um deixar viver de
alma arejada, não fanática.

quinta-feira, maio 24, 2007



Pernambuco não para de surpreender. Veja o que encontramos no site http://www.pebodycount.com.br/, uma iniciativa que nos mantem em alerta para o volume de assassinatos no estado:
"Procurei ver onde Pernambuco se encaixava nessa tabela e, vejam só: considerando a média de assassinatos por armas de fogo entre 2002 e 2004 (3.639), superamos as baixas de 15 conflitos armados em outros países do mundo, entre eles, a Guerra das Malvinas e a disputa por território entre israelenses e palestinos."
Essa tabelinha do lado, indica isso: numeros de nossa miséria humanda. O que me faz lembrar uma antiga aula de estatistica que tive onde o professor perguntava: o que dizer daquilo que os dados nos dizem? Tarefa prosaica do sociólogo ficar lendo tabelas e "traduzindo" para uma linguagem mundana as taxas, as proporções e percentagens. Muita gente acha fria, desumana uma sociologia que se apoia em números. Para essas pessoas, ela oculta as histórias de sofrimento por trás da roupagem neutra dos simbolos matemáticos. Hoje tenho uma visão mais pragmática da sociologia e acho que numeros, conceitos, e outras ferramentas devem ser usadas conjutamente quando isso traz esclarecimento sobre o mundo. Mas não deixa de ser irônico perceber que certas questões "humanistas" só conseguem vir a tona com a medição e comparação desses "numeros de sofrimento e da dor".
Jampa

quarta-feira, maio 23, 2007

Depois da "fama"



Acho que desde o início desse blogue(Março 05, 2004) tomo de maneira razoavelmente constante os comentários dos amigos como mote paras outros textos. Depois de alguns anos nesse espaço, o mote da "fama" me faz ter vontande de avaliar um pouco dos objetivos desse lugar onde tantas vezes dividi inquietações e alegrias, tristezas e melancolias. Essse meu topus da "retorica de tensão" vem aqui e agora relembrar seu primeiro post e se perguntar se os objetivos ali imaginados foram cumpridos.

O que dizia?:

"Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as oscilações do espírito, caráter e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoável no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução."


Engraçado perceber que dizia com certo estilo, o que sabia não conseguir faze com destreza, escrever. Mas o fato é que o blogue continua sim(com ou sem mérito formal), acredito, cumprindo sua função de dividir minha miséria com a alheia. Apesar de restrita no alcance, nessa calçada da "fama" voltada para troca de idéias, onde o mérito que fica é a sujeira do concreto entre as unhas pintadas de esmalte vermelho(adoro essa imagem dos holofotes que iluminam as mentes tantas vezes debeis das belas atrizes), segue-se o caminho pouco estrelado do debate sobre o mundo (social, politico, artistico, etc.).

E nesse cineminha, o glamour quer dizer o seguinte: acordar cedo, estudar, ler, escrever, discutir idéias com amigos (pares da sociologia). Assim, vez por outra, quando por alguma circusntância da vida, for abordado por um jornalista por ser "filho de"( e as suposições que esse fato gera), poder dizer com humildade e orgulho do pai que, sim sou "filho de", mas com idéias e opiniões própias também uai! Lição aprendida em casa( inclusive com o próprio pai), mas ampliada e desenvolvida no mundo.

Jampa

terça-feira, maio 15, 2007

As palavras por si só falam?



ASSALTO E MORTE IIentrevista » Acrísio CoutinhoPublicado em 15.05.2007 (em http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/15/not_231638.php - Para assinantes).

“Eu queria matar os dois”

Revoltado com a forma banal como a esposa foi assassinada, o executivo Acrísio Coutinho quis entrar na viatura da PM para pegar os dois adolescentes, mas foi contido por parentes. “Queria matar os dois.”
JC – Como o senhor ficou sabendo o que aconteceu com sua esposa?
CRÍSIO COUTINHO – Eu estava em casa. Mas nem em casa a gente consegue se sentir protegido, agora. Há menos de três meses assaltaram e mataram um aposentado na nossa rua. Mesmo assim, nada acontece. Para mim, os culpados por isso tudo são essas pessoas que defendem os direitos humanos. Por causa delas é que ninguém pode fazer nada com esses garotos que matam para roubar. Eu mesmo queria matar os dois, mas não deixaram. Ninguém pode encostar a mão num menino desses. Essa situação só vai mudar quando tragédias desse tipo começarem a acontecer na família desse pessoal.
JC – O que o senhor pretende fazer?
ACRÍSIO – Não faço idéia de como vai ser a minha vida daqui para a frente. Passamos o fim de semana em Gravatá. Comemoramos o Dia das Mães. Chegamos aqui às 7h e ela foi fazer uma feira rápida. De repente, aconteceu isso. Só quem está passando é quem sabe o tamanho da dor.
Opinião de Jampa? Respeito a dor. Mas a lógica do Jornal(na entrevista com o rapaz a "frieza" dele é ressaltada porque voltou para dormir depois de ter atirado numa pessoa), a reação do marido( "eu queria matar os dois, mas não deixaram"), e como tudo é tratado... (com o expanto da naturalidade em vários sentidos: a do adolescente sendo o mal a ser eliminado, a naturalidade com a qual o menino parece falar das sua própria brutalidade, a naturalidade com a qual a reação de querer matar o assassino de sua mulher aparece como um esforço de "fazer justiça com as próprias mãos"), tudo isso corrói demais a alma. Olho por olho, e o mundo acabará cego, dizia o pacifista. Ao que me parece... nossos olhos (espelhos de que alma meu Deus!) já não servem mais pra muita coisa não.

sexta-feira, maio 11, 2007

Opinião de classe: sobre uma autocrítica sem flagrante criminal



Nada pode denunciar melhor nossa hipocrisia do que os esforços toscos por parte dos membros de nossa elite para “reconhecer” publicamente que alguma coisa está errada (com as atitudes nunca antes contestadas por eles). Esse tipo de meia culpa, é meia, para não dizer medíocre, até quando tenta ponderar sobre dividas sociais históricas das elites com o todo social.

Não deixa de ser engraçado ver gente se rebolindo, inquieto, reclamando das “algemas da democracia” (http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/11/not_231132.php - para assinantes). O texto de José Paulo Cavalcanti Filho, aqui mais uma vez, advogado, cai como luva de aristocrata no Jornal de Pais Mendonça. Ele mais uma vez aparece como condensador de lógicas de classe que, por omitir a posição real de quem o escreve (de membro da elite que agora percebe ser atacada), torna visível e condensada a eterna falta de sensibilidade de nossas elites com os problemas de ordem pública.

É claro que no texto se defende, aparentemente, valores universais:

“Todos devem responder por seus atos, claro. Se for o caso, devem também ir à prisão. Mas só depois do devido processo legal e de sentença judicial. Prisão, antes do processo, só em casos bem específicos: flagrante delito, risco de violência física, coação de testemunhas. Fora disso, resta só um gesto desnecessário e menor de autoritarismo.”

Mas é mais evidente que a preocupação não é com universo social como um todo:

“Na primeira e mais espalhafatosa dessas operações, o presidente da Schincariol foi preso e algemado em seu quarto. De madrugada. Tudo sob as luzes da TV. A acusação (ou pretexto) era a de fraude fiscal – sem que sequer tivesse sido lavrado o correspondente auto de infração, mais isso só se soube mais tarde.”

Claro que numa sociedade como a nossa, dizer as coisas dessa maneira pareceria por demais elitista, então que se faça a meia culpa:

“Para os homens simples do povo, foi quase um delírio. Depois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos. A prática, no imaginário coletivo, funcionou como uma revanche dos oprimidos. Mas foi mesmo legal a operação?, eis a questão.”

Sim, a velha e boa legalidade dos ricos. Aquela feita para proteger:
“Homens sem antecedentes criminais, e com endereço certo[e que agora] são privados da liberdade – sem que representem qualquer perigo à sociedade. Nenhum deles jamais nos assaltaria, pelas esquinas do Recife.”
Exato. Quem nos assaltaria são os pretos, pardos e pobres, para os quais a lei universal não se enquadra da mesma maneira (o novo chefe de segurança de PE já informou sobre o tratamento que ele visa dar aos bandidos e marginais do povo, cadê as manifestações em prol da legalidade?), pois para eles ela funciona apenas no sentido de jogá-los nas celas amontoadas das nossas prisões. Mas diante de um tal estado de coisas, a meia culpa não podia ficar por aí:
“Nem é de hoje, esse autoritarismo. Que esses brasileiros anônimos, por tempo demais, são os mesmos que já sofrem nas cadeias sem mesmo ser condenados. Com nomes anunciados, com estardalhaço, pelas delegacias de polícia. Aviltados, diariamente, em programas policiais de rádio – em que são invariavelmente exibidos como arrombadores e maconheiros, também sem ser antes condenados. Tudo sob o silêncio cúmplice das elites.”
O que se esquece de dizer é que não apenas o silêncio é cúmplice, mas a palavra também. Porque no final das contas, a voz aparece em defesa de um ideal universal, não para responder aos exageros da policia e da imprensa cotidiana contra os mais oprimidos, mas num momento onde membros da elite estão “sofrendo” com possíveis exageros da Policia Federal (com direito, inclusive, a defesa pública de ex-governador - hilariante ver Jarbas falando de “espalhafato” da Policia Federal, porque a mesma prendeu empresários pernambucanos envolvidos com agora mais famoso do que nunca cartel dos combustíveis, diga-se, o objeto central da defesa de José Paulo Cavalcanti Filho).
Por essas e por outras, a crítica legitima dos possíveis exageros das autoridades policiais envolvidas no caso de prisões de ricos se revestem de um particularismo enviesado de classe. Nele, é o fato de “[d]epois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos” que influenciou no imaginário coletivo (que é coisa de pobre, de povinho que não pensa, só reage irracionalmente) dando a impressão de “revanche dos oprimidos”. E a lei ? pergunta atônito o autor que pensa nos pobres para salvar os ... seus.

Jampa

sábado, maio 05, 2007

Impressões do Mundo Cão (Sem dar nome aos bois)


Fui a uma palestra sobre política de segurança pública e sociedade na universidade. Julgo o assunto importante para mim, pessoalmente, por questões muito particulares, de história de vida. Cheguei atrasado e não quis atrapalhar. Ouvi de fora da sala o finalzinho da apresentação do palestrante, e na pausa entre a palestra e o debate, entrei me situando num recanto.

O debate não chegou a me assustar. A sociologia do crime, de alguma maneira desacreditada no discurso do palestrante, eram duas, e as duas, segundo ele, incorriam no mesmo erro: procurar causas primeiras da atitude criminosa, a razão de ser do criminoso. Apoiado em estudos críticos dessas vertentes, ele defendia uma sociologia mais pragmática, ela sim, em condições de ajudar a formular políticas de segurança pública. Uma sociologia que estudasse os agentes facilitadores da ação criminosa, e não suas causas sociais últimas ou primeiras (essas, segundo eles, não ajudam nas formulações de políticas de segurança pública eficazes, porque, pelo que entendi, são obviedades estruturais das quais não se pode tirar proveito).

O discurso me pareceu sóbrio, embasado em dados e em reflexões teóricas, dando ao trabalho ali apresentado alhures de cientificidade inquestionável (o que não quer dizer que o trabalho e as teses defendidas nele sejam inquestionáveis, bem ao contrário.) Apesar de conhecer pouco da literatura sobre a criminologia, a sociologia do crime, a sociologia das políticas de segurança (se é que isso já existe), aventuro-me aqui a comentar, de maneira despretensiosa e rápida (do meu ponto de vista sociológico) aspectos da discussão que participei apenas como expectador. Essa coisa de ser expectador é importante porque todo aquele debate me pareceu de fato espetacular. Feito para ser visto e apreciado como uma mis en scene onde as idéias são postas em tubos de ensaio para ganharem sua roupagem objetiva. Da minha cadeira, meu ponto de vista era de alguém que olha para quem está olhando o objeto de estudo. Eu quis, em exercício quase fenomenológico, pôr em suspensão o sujeito que observa o sujeito observando um objeto (que é também um sujeito, no caso das ciências sociais) para apreciar o debate a partir desse “ângulo inusitado” de uma reflexividade desinteressada.

Divertido, mas também tragicômico, encontrar nas questões sérias formuladas ao palestrante, um quê de um pedantismo intelectual que se preocupa com “os limites do conhecimento sociológico” para pensar no uso da sociologia na formulação de políticas públicas de segurança. “As ciências sociais não tendo o mesmo potencial de controle dos fenômenos que estuda, não tendo a mesma capacidade de experimentação, de verificação empírica no sentido estrito do termo, como elas podem ajudar na formulação de políticas que realmente melhorem um estado de coisas dado?” O engraçado é que esse pedantismo se reveste, claramente, de uma aparente modéstia: são os limites da utilidade do pensamento sociológico que estão em questão, é tudo aquilo que barra o potencial de aplicabilidade dos conhecimentos sociológicos no mundo social o que perturba.

Apesar de nunca ter acreditado, nem mesmo no início de minha formação, na neutralidade axiológica, ou na pureza cientifica de uma pesquisa sociológica (nem de outra ordem, apesar de reconhecer hoje que em outras ciências por muitas razões – inclusive sociais – a autonomia das condutas cientificas caracterizadas em ganhos epistemológicos em termos de estatuto de cientificidade é maior nas ciências tidas como exatas e/ou formais), acho que a questão da utilidade prática da sociologia tem mais chances de ser colocada adequadamente quando se assume uma perspectiva reflexiva (auto-reflexiva, com o perdão da redundância) o ponto de vista do sociólogo como, exatamente, o de expectador.

O que me aborrecia naquele debate todo era o constante auto-posicionamento dos seres pensantes na procura de soluções sociológicas para formulação de políticas públicas eficazes para o controle da violência. (Por não conhecer a literatura nem ter lido o livro do palestrante, minha intenção aqui, é menos de fazer uma digressão a respeito da inadequação da formulação teórica do que se defendeu na palestra, do que apontar para alguns pressupostos que, ao meu ver, com muita facilidade, são deixados de lado em nome de uma maior “operacionalidade” de um tipo de análise sociológica que combine políticas de prevenção e repressão da violência. Assim toda sociologia que se preocupe com o estudo das formas e conteúdos de socialização do criminoso, estão fadadas a serem tachadas de inadequadas quase que de imediato, pois não sugerem formas de controle e ou repressão dos agentes potenciais da violência.)

Eu defendi aqui em outro texto a idéia da natureza social da violência. Idéia segundo a qual algumas lógicas sociais, a serem estudadas com mais detalhes, estariam estruturando a conduta de alguns atores situados em posições especificas no mundo social. Seria essas lógicas que ao serem identificadas ao problema da violência justamente produziriam um fator de inteligibilidade sobre o ignorar mesmo das lógicas de classe operando na percepção mesma da gravidade do problema.

Não creio que o que eu penso seja uma heresia sociológica. E não creio que exista de fato incompatibilidade entre concepções da sociologia que prezem por perspectivas mais racionais (que se preocupem em identificar as estratégias de ação dos agentes criminais) e outras que considerem mais elementos históricos, do passado desses agentes, da maneira pela qual o tipo de socialização especifico ao qual foram submetidos tem valor “explicativo” do tipo de conduta adotada. Por mais que possa ser verdadeiro o fato desse conhecimento sobre a socialização não ter “aplicabilidade” para formulação de políticas porque “apenas” constatam dificuldades estruturais (entendi assim o argumento dele, mas é possível que esteja simplificando demais), acredito que, em caso de acumulação sistemática de conhecimento a respeito desses aspectos estruturais podem (se bem elaborados por uma sociologia de viés crítico) conceber conhecimento que sirva de guia para políticas localizadas de prevenção e, porque não, de repressão da violência em alguns casos.

Eu penso, por exemplo, não sei se forçando a analogia, em políticas de tratamento diferenciado que foram aplicadas na escola nacional francesa, depois dos estudos conclusivos da sociologia da educação(décadas de 60 e 70), que identificavam dificuldades escolares ligadas às lógicas de classe social funcionando como filtro seletor no seio dos mecanismos aparentemente meritocráticos da escola republicana. Claro que o problema da violência tem suas especificidades, mas não acredito, como leigo, que sejam singularidades que impeçam estudos sobre socialização dos agentes dos grupos criminosos. Nem que esses estudos sejam de todo incompatíveis com a vontade de tornar utilizável o conhecimento sociológico para fins de aplicabilidade social.

terça-feira, maio 01, 2007

Sobre a consciência das pequenas coisas



Quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas não sempre. Tive vontade mesmo, daquelas bem grandes, de brincar para sempre. Subir e descer as ladeiras gigantes, salvar a menininha linda que, em seguida, se apaixonaria por mim. (Tentei uma vez um ato heróico com a vizinha mais linda do mundo. Levei um murro. Até hoje desconfio de minha vocação de salvador daqui, dali, ou de qualquer lugar). O namorado dela, meu inimigo, fazia uma arte marcial. Passei dias com uma dor no rosto. Meses com vergonha. E guardo até hoje uma ferida na alma.


Na adolescência tive o meu primeiro contato com a política não mediada pela vida de meu pai. Do meu pai havia aprendido que ter ética tinha a ver com compromisso com causas coletivas (tinha uma idéia vaga do que isso queria dizer). Havia notado nele, antes disso, que a idéia de compromisso tinha a ver também com cumprimento de todo tipo de acordo, dos mais simples (pagar as contas) aos mais complexos, os que exigem confiança mutua. Alguns chamam isso de honra.

Outro dia, um grande amigo ligou e contou-me: você viu a nota no jornal falando de você? Ela dizia que seu pai quer lhe ver na política. Não havia visto. Fui ver. A nota tinha informações fidedignas. Deve ter sido meu pai, pensei.

Ao longo desse blogue escrito certamente em linhas tortas, venho deixando transparecer razões para o sucesso relativo do meu esforço para incorporar o metier de sociólogo. Numa época a qual vejo que vários amigos chegaram a pensar seriamente na possibilidade de suas candidaturas, é engraçado perceber que ocupando uma posição privilegiada em relação à deles no que diz respeito uma real possibilidade de congraçamento pelas urnas, assumi sempre a idéia segundo a qual em terra de “filhotismos” é legitimo com tudo correndo a favor, nadar contra, em nome também de uma dignidade e de convicções políticas. Alguns próximos dizem: “mas você sabendo disso, não pode evitar os erros do filhotismo. Os filhos de políticos de direita não ficam pensando nessas coisas”. Na minha cabeça de sociólogo, mesmo que barato (sem publicações, sem produção acadêmica), eu tenho clara uma coisa: apesar de entender o porquê de alguns amigos pensarem nisso dessa forma, não acho que a consciência de um mal (o filhotismo), per si, tenha o poder de impedir suas conseqüências. As relações de poder que se estabelecem ao logo de uma vida familiar não podem, pela dimensão mesma da relação parental, se estabelecer de maneira profissional no âmbito de uma política desprovida de confusões entre o público e o privado. Para mim o problema não é saber ou não de minhas qualidades políticas, de minhas competências para agregar pessoas em torno de um projeto (tudo isso talvez exista e seja proveitoso diante de um estado de coisas piores), mas saber da autonomia de uma empreitada como essa diante de lógicas de funcionamento do mundo social que colocariam em cheque ora a relação familiar ora a relação profissional.

A olhos desavisados isso que digo pode parecer resignação diante de condicionamentos sócio-culturais, ou um reconhecimento tosco de um autoritarismo paternal. Muito pelo contrário, vivi sempre numa casa onde o direito de opinar contra era possível e mesmo louvável. E meu esforço é e continua sempre o de encontrar boas maneiras de intervir e construir liberdades possíveis dentro do mundo social violento e obtuso que é o nosso. Porém, não julgo ser possível lutar contra um inimigo de tal envergadura histórica (o filhotismo) com a ingenuidade de uma consciência libertadora em meu favor. Quantas sanções íntimas e invisíveis para mim e para os outros não se fazem porque é o pai e não o homem público quem fica em dificuldades numa campanha eleitoral, ou numa polêmica no que diz respeito à cidade? É o filho ou cidadão o interlocutor?

Quando criança queria ser jogador de futebol, mas não sempre. Hoje, depois de ter levado um soco, mas já tendo beijado algumas namoradas (que amei), além de ter saído da adolescência sem ter participado de política estudantil estrito senso, sonho em me tornar sociólogo com produção e descobrir quem sabe algumas coisas sobre a nova revolução burguesa da classe média de Casa Forte, que por alguma ironia do destino parece estar começando em Boa Viagem, pela reivindicação popular de um parque arborizado e cheio de verde, salvando assim, não só BV do concreto de Niemeyer, mas o mundo do efeito estufa.
Jampa.

quinta-feira, abril 12, 2007

Sem reciprocidade: refletindo sobre as sugestões sociológicas de um médico



Cheguei numa clínica perto do DETRAN para fazer um exame médico. Sem ele, nada de renovação da carteira de motorista. A espera de mais de uma hora não me incomodava, lia trechos salteados de Memórias do Cárcere com algum interesse. As pessoas que chegaram antes de mim reclamavam:

— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!

— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.


Eu ouvia os comentários sem muito entusiasmo. A demora tediosa rendia mais tempo à leitura. As lembranças de Graciliano Ramos me faziam pensar em coisas desconexas, o Recife e a violência na época de sua passagem como prisioneiro por aqui. Quem seriam os militares que o receberam? Depois ficava resmungando num silêncio ensimesmado “caramba, como sou idiota! Aquelas pessoas, como o Velho Graça, estão hoje mortinhas da silva.” Só lezeira, como se percebe.

Minha vez chegou. O funcionário entreabre a porta e, pela fresta diz: “Sr. João Paulo, sua vez.” Entro. Observo que ainda não era ali, do lado de trás da porta, o consultório. Havia um corredor e mais adiante uma outra porta. O rapaz me indica o caminho.

O médico é um senhor de cara simpática. Pediu para que eu sentasse e ficasse a vontade. Sentei, mas não quis me sentir a vontade. Ele lê minha ficha e, olhando por cima dos óculos pendurado à ponta do nariz, comenta: “quer dizer que você é sociólogo, que coisa boa rapaz! Como nosso ex-presidente, o Fernando Henrique Cardoso.” Visto o ar de simpatia que ele quis passar com aquelas palavras pensei comigo: “Essa cara é um incompetente! Médico de verdade só se interessa por informações clínicas e tudo que sai desse terreno e se assemelhe ao humanismo, à pena, à misericórdia, sei lá, coisas de uma ordem pouco ou nada racional, ele não considera como importante. Por que diabo esse médico quer dar uma de gente boa?” Depois dessas acusações interiores, ponderei e decidi refletir de maneira menos pulsional.

De repente, não mais que de repente, tive a impressão de entender por que ele demorava tanto nas consultas lembrando das reclamações das pessoas na ante-sala de espera.

— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!

— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.


Acho que as pessoas devem estar pensando que o médico é meu melhor amigo, pensei. Quis esquecer o julgamento inicial, mas fiquei pensando nas pessoas que ainda estavam lá, esperando.

Antes de começar a fazer os exames, que um bom sociólogo não saberia dizer se ele fizera bem ou mal, Dr. Kleber passou uns vinte minutos a me dar conselhos sobre o que eu deveria fazer para entender melhor a sociedade. E aqui eu chego ao ponto da história do meu dia de paciente que merece alguma reflexão. Aproveito para mudar o tom da narrativa e para dizer que o que interessa de fato nesse texto começa aqui.

O médico me disse em tom de conselheiro: “mas por que você, como sociólogo, não pega um gravador, e sai recolhendo e registrando as informações do dia a dia das pessoas. Porque a sociedade somos nós. Você compra um gravador e coloca no bolso. Aí você encontra um fulano na rua, hoje mesmo vinha passando na Rosa e Silva e tinha os Sem Terra parando o trânsito lá. Você chega como quem não quer nada, começa a conversar com as pessoas envolvidas, registra. E vai fazendo isso. [...]” Na hora agradeci os conselhos, sem comentá-los. Disse-lhe apenas educadamente que ele tinha razão e, pensando na teoréica cefichiana, que era uma pena não termos muitos sociólogos dispostos a estudar a nossa realidade mais concreta.

Mas já voltando para casa, caiu minha ficha. Quem aquele médico filho da mãe pensa que é para achar que um sociólogo não sabe como fazer e desempenhar bem sua profissão? Não, ponderei em seguida, era preciso justamente provar para mim mesmo a eficácia de minha disciplina. Eu devia mais uma vez refletir sociologicamente. A boa pergunta a se fazer era: por quais razões um profissional de outra área se julga no direito de propor uma metodologia intuitiva para a sociologia a um sociólogo? Por que, no momento em que ele estava me propondo as suas sugestões, eu não reagi e achei até natural tais proposições? Por que eu não comecei a dizer: “senhor Dr. K. acho que seu diagnostico seria mais eficiente se, ao invés de conversar tanta potoca, o senhor ponderasse sobre os sinais múltiplos de alguma possível deficiência nervosa que eu pudesse ter ou coisa dessa natureza etc. e que me habilitariam ou não a renovar a porra da carteira?”

Pensando nestas questões lembrei de um vídeo que assisti ainda quando estava na França sobre a sociologia de Pierre Bourdieu. No final do documentário que seguia os passos do cotidiano do sociólogo vemo-lo numa situação inusitada. Ele está dando uma palestra numa comunidade periférica no subúrbio de Paris e se vê pressionado por um morador que, no debate final, acusa o sociólogo de intelectualismo e pergunta: “ você acha que porque é Bourdieu é Deus (Deus em francês é Dieu, como o final do nome de Bourdieu) e por isso sabe mais de nossas vidas do que nós mesmos. Mas somos nós que a vivemos, somos nós que sabemos o que vivemos. Você acha que sabe mais de nossas vidas do que nós?” Pierre Bourdieu, com uma voz tremula e que denunciava um certo nervosismo de sua parte respondeu com empenho a pergunta. Ele disse que o que ia dizer poderia parecer pedante, mas ele achava que sabia sim, mais sobre vida do rapaz, de certo ponto de vista, do que o rapaz mesmo. Ele passara a vida dele se dedicando a estudar o mundo social, a vida das pessoas, como elas viviam e em que condições. E que era justamente o fato, de ter abdicado de boa parte de viver a vida para poder pensar como a vida era vivida pelas pessoas, que, acreditava ele, lhe dava condições de dizer coisas interessantes sobre a vida dessas pessoas. E em tom mais emocionado ainda, falava de um outro sociólogo, para não mais falar em favor próprio, que segundo ele teria estudado com muita seriedade as condições de vida dos emigrantes na França e concluiu mais ou menos assim: “se em nome de um anti-intelectualismo qualquer você se nega a ler uma pessoa como ele, que fez um trabalho sério, e que pode ajudar a entender melhor as razões sociais pelas quais existe sofrimento na sua vida, então eu digo sem medo que você é um idiota.” Mas os que isso tem a ver com a sua história com o médico, vocês podem estar se perguntando.

Bem, as pessoas em geral, como o interlocutor de Bourdieu no debate e o médico que me atendia, acham, também geralmente, que o fato de pertencer ao mundo social lhes dá, imediatamente, uma espécie de legitimidade sociológica. Eu vivo minha vida, eu sei a respeito de mim mesmo. Ninguém sabe mais de mim do que eu mesmo. Esse tipo de idéia, que é justamente um dos principais mecanismos sociais que dificultam a aceitação da sociologia como uma disciplina cientifica, age de maneira constante e dificulta o entendimento daquilo que chamamos de ruptura epistemológica em sociologia. Essa ruptura nada mais é do que a diferença entre a experiência da vida (entendida como percepção, tal como estudada pela fenomenologia de maneira geral) e o pensar essa experiência (que se daria num movimento de objetivação, de distanciamento das coisas vividas). Dessa forma é que, num consultório médico para renovar minha carteira de motorista, recebi conselhos de um médico de como ser bom sociólogo. E se eu fizesse o mesmo e desse ao doutor sugestões de como tratar clinicamente seus pacientes... Bem, acho que isso seria socialmente um absurdo.

terça-feira, abril 03, 2007

Sertaozim: veredinhas de Jampa (sozim)


Viver é negocio muito perigoso. Exatos são os tempos incertos, neles sentem tudo assim, titim por titim. Será vigia de seqüela, não será? Existe Sertão realmente em tudo? E aquele... Que-Diga? Não diz. Vai que existe.
Veseja sem versejar. Essa não tinha no João. Mas comporta. Tinha sem ter.Nonada agora vem no meio. Mire veja. O João é torto, sem sagarana. Não existe astúcia em dizer assim a verdade. Ao contrario do difícil. Agouro de assim encontrar questão da morte: repetição, imitação. Só de muda só, sem ajunta. Diga se homem, qualquer sem nó, assim sozim, sozinho, não se quer assim ao lado?

Verde longe. Não gosto. Nenhuma presença quer tirar solução de mundo, dessa terra seca. O Sertão de um homenzinho assim de mim, meu sentimento. Imenso. Isso seja. Euzim, nem pra tanto. Agora, queria que queria. Mas do propósito maior desvantagem da vontade. Nem de longe quanto mais perto o senhorio estudado e doutor com glosa decora acordo. Discorda com a dose de onde sou chinfrim. Não é de dó de coisas ditas. São muito em mim assim, como mesmo.

Queria ser João. E assim Desdeus parou em mim. Não quero. Sirva de pagina de coisa blogueira, caso o fracasso assim acoite olhos de desaprovação. Queira não. Seja. Mas ser assim dói, comove. E como disse ele próprio de Rosa:

“Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: -- ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.”


Nem tudo que se diz faz assim, doer comigo. Sertão se sou, não careço de mim! Dera jeito de morrer varias vezes no viveiro das veredas. O grande peito era tudinho amor. Não sarava. Que-Diga! Tragamim Deus. Nonada. Já dissera: “O diabo não há! É o que digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”

Jampim. Fim.

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.