quarta-feira, junho 18, 2008

Blogue de roupa nova

Bem, decidi aderir ao Layout. O problema é que perdi todos os comentários e já não sei mais como resgatá-los. Fiquei bastante triste com isso. Acho que não tem como recuperar. O blogue tá até mais bonito (com mais enfeites), mas perdeu muito... o espaço comentários era o que ele tinha de melhor até aqui. Aos comentaristas desse espaço, minhas sinceras desculpas.
Ps: como vocês podem ver, consegui reverter o processo! Ufa!



Sem Zapping do Domingão


No domingo passado vi ao mesmo tempo estarrecido e emocionado a apresentação da Orquestra Criança Cidadã do Recife no Domingão do Faustão. Quem não se emocionaria com crianças crescidas na miséria que mostram talento e superação ao aprenderem técnicas musicais da música erudita? Talvez minha segunda pergunta não seja tão apelativa e melodramática quanto a primeira, mas preciso fazê-la. Sinto-me impelido, mesmo sabendo correr o risco de ser chamado de aliado de bandidos. Quem não achou absurdo e sem sentido a comparação entre o investimento nas crianças e nos presos, feita pelo maestro Cussy de Almeida? Para quem não viu recordo: “Em Pernambuco, um preso custa aos cofres públicos algo em torno dos R$ 2,5 mil. Sem falar que ressocializar esses detentos é difícil. Por menos da metade conseguimos mudar e dar um direcionamento positivo a essas crianças” (aqui). Achei revoltoso. E, para meu desespero, não encontrei reações a isso. Pensei: claro, quem vai criticar no Brasil alguém que está dando oportunidades a criancinhas miseráveis, mesmo que essas oportunidades sejam dadas em nome de um discurso violento contra pessoas que estão cumprindo pena e que, segundo ele, não valem o dinheiro gasto pelo governo porque “é difícil ressocializar esses detentos”. O que ele sugere: a pena de morte? Tirar o dinheiro gasto nos presídios para se colocar em projetos sociais?

Há quem possa ter interpretado de outra forma o tal discurso. Será que a intenção dele não é só mostrar como é inteligente o governo investir em programas como o dele (de arte ou esporte) para crianças, que têm um custo relativamente baixo, evitando um custo com eventuais “futuros” detentos? Acho que se deve aprender que de boa intenção o inferno está cheio. O teor do que foi dito estava lá: por que gastar dinheiro com “casos perdidos” se podemos ainda apostar nas crianças que, por não estarem ainda totalmente socializadas no esmo da realidade social, custariam menos para aprender Mozart, Vivaldi e não se tornarem com isso vilões sociais? O que para mim demonstra das duas, no mínimo uma: ou pura demagogia, ou desapego aos problemas concretos do nosso sistema penitenciário e às pessoas humanas que estão submetidas (justas ou injustamente) a ele.
***


L´ Ensemble Meloinious: Bandolins Franceses


Fui assistir ontem à noite (17 de Junho) no Teatro Santa Isabel esse quarteto de bandolinistas franceses que muito me agradou. Tocando um repertório diversificado (Kink Kong de F. Zappa, Ainda me Recordo de Pixinguina, Suite Provençale de D. Milhaud entre outros), o conjunto de bandolins tocava arranjos muito criativos e bem humorados misturando de forma muito criativa o erudito com o popular. “ Nossa banda tenta tocar o erudito de forma popular e o inverso é também verdade” dizia um dos músicos durante a apresentação num português quase impecável. Valeu mesmo. Eles de fato mostraram ter uma idéia de “identidade bem elástica” como bem indicou a versatilidade com que os bandolins foram utilizados para tocar do Jazz ao Clássico, do Rock ao Chorinho brasileiro. De Istambul ao Rio de Janeiro, sim, “c´est très elastiques cette notion d´ identité”. Merci au Ensemble Melonious... Que em época de Sarkozis da vida nos lembra com “imaginário delicado e virtuoso” que a França também é terra de uma tênue mistura de ordem com liberdade!
PS: Obrigado Tigrão pela contribuição no nosso papo via MSN.
PS2: No A volta dos que não foram você encontra um interessante texto sobre o Soletrando no programa do Huck.
PS3: O presidente Lula tem mesma opinião que o maestro Cussy. Valeu pela dica Cesar.

terça-feira, junho 03, 2008

Diálogos DIssonantes no MSN ( e platônicos)
em alguma janela de conversação na internet...
[Sem Data Nem Horário] Fortunato Pata-de-Elefante diz: ei doido, qual é teu Marco Teórico?
[02/06/2008 23:28:42] Martinho Ferrador diz :meu marco teórico é Aristóteles e Platão - eu faço uma síntese, tá ligado?
[02/06/2008 23:29:03] Fortunato Pata-de-Elefante diz :hahahha
[02/06/2008 23:29:35] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Meu irmão. Tu num sabe de nada. Porra de Aristote e Plutão! Marco Teórico era um cara lá do Ibura, tá ligado...
[02/06/2008 23:30:05] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Ele ficou conhecido lá. Matou uma tal Dona Pesquisa. Uma velha era chata, ninguém gostava dela. Tinha uns doido meio sabido que chamava Marco de Raskolnikov, tá ligado!?
[02/06/2008 23:30:16] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Três balas na cabeça da velha doida.
[02/06/2008 23:30:25] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Botou pra fuder.
[02/06/2008 23:31:11] Fortunato Pata-de-Elefante:A galera gosta dele, porque essa Senhora dava dor de cabeça a todo mundo.
[02/06/2008 23:31:27] Martinho Ferrador diz :o bom do Marco é que o bicho gosta de começar tudo, né? qualquer papo ele monopoliza!
[02/06/2008 23:31:52] Fortunato Pata-de-Elefante diz : O Marco se agarante demai!
[02/06/2008 23:32:10] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Antes mermo de se perguntar ele já explica tá ligado...? né qualquer um não!
[02/06/2008 23:32:33] Fortunato Pata-de-Elefante diz :e se você discordar, doido, tá fudido, porque Marco bota pra fuder.
[02/06/2008 23:32:41] Martinho Ferrador diz :eh mermo...
[02/06/2008 23:33:23] Fortunato Pata-de-Elefante diz :( Marco é real, doido, não é um diálogo platônico não! Deixa essa história de Platão doido. Se liga nas paradas.heheheh)
[02/06/2008 23:33:44] Martinho Ferrador diz :e teu amigo Marco libera os agentes ou prende os agentes sociais? Teu amigo marco é gente boa com os agentes sociais? (a galera que vai fazer trabalho social lá no Ibura?)
[02/06/2008 23:34:32] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Oa, Marco é muito ligado nessa coisa de Agência contra Estrutura, tá ligado.
[02/06/2008 23:34:36] Martinho Ferrador diz :Eu ouvi dizer que teu amigo Marco bota pra fuder nos agentes. Mas tem uma boyzinha, que tem outro amigo Marco, e que ele é super gente boa com a galera, deixa ela fazer o que quiser.
[02/06/2008 23:35:30] Fortunato Pata-de-Elefante diz : Meu amigo libera os da Agência (Agência é o nome do puteiro lá do Ibura, tá ligado!) e prende os da Estrutura (que é a galera Associação de Moradores de lá também)... Marco é gente boa. Ele tá com a Agência, que libera. Nunca com a Estrutura, ta ligado? Estrutura prende. Esse outro Marco que tu falou aí é daquela galera lá do determinista. Maió sugeira doido! Tem polícia e tudo.
[02/06/2008 23:35:59] Martinho Ferrador diz :Eh verdade que teu amigo Marco Teórico é francês?
[02/06/2008 23:36:20] Martinho Ferrador diz :Por que eu ouvi falar que os melhores Marcos são estranjas, tudo gringo!
[02/06/2008 23:36:46] Fortunato Pata-de-Elefante diz : Sei direito não.Ele vive tirando onda, dizendo que se dá bem com as Europa e os EstadoZunidos, tá ligado.
[02/06/2008 23:37:09] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Se agarante, rapai. Né um zé mané do Brasil não... Aprendeu de fora. Se ligue mermo, né assim não doido!
[02/06/2008 23:37:23] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Ele só gosta de coisa fina, importada.
[02/06/2008 23:37:44] Martinho Ferrador diz :Aquela professora inglezia, adora um Marco, né?
[02/06/2008 23:38:35 Fortunato Pata-de-Elefante diz : Mai teco. Marco faz que tem gente rapai, tu num sabe, ele faz que tem gente que escreve um texto em português sobre autor sueco só com referencias em alemão, dá pra tu? tu se agarante?
[02/06/2008 23:39:03] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Ela gosta muito de Marco essa professora ai. Mai teco.
[02/06/2008 23:39:20] Fortunato Pata-de-Elefante diz :Dizem que todos abrem pra esse tal de Marco.
[02/06/2008 23:39:30] Martinho Ferrador diz :Tô ligado que Marco tá passando rodo geral nas boyzinhas do CENTRO DE FOFOCAS COTADAS SARCASTICAMENTE (CFCH).
[02/06/2008 23:40:25] Fortunato Pata-de-Elefante diz :totalmente!" Pode passar o rodo, e me mandar embora, que eu vou ficar com o Marco lá do lado de fora!" É o funk do Marco, o Teórico...
ps: Esse texto foi fruto de horas e horas de divagação sobre a filosofia dioreica de Platão. As idéias foram todas tiradas de aula ministrada pelo professor Cesiobaldo Rosa Melo.

segunda-feira, maio 26, 2008

Trecho da entrevista com Alfredo Cesar Melo



Como vocês que acompanham o blogue sabem, o que vou aqui dividir com vocês é parte de uma das entrevistas que vai servir de material empírico para um pequeno estudo sobre as maneiras de perceber a sociologia no CFCH, no departamento de sociologia. Decidi que não vou mostrar antes de terminadas todas as transcrições minhas opiniões e análises sociológicas. Maneira de ver o que as entrevistas dizem de maneira menos controlada, de refletir mais tranquilamente sobre o que se diz...


Escolhi alguns trechos para por conta do caráter de testemunho sobre a experiência escolar contido nele. Nele há informações sobre muitos de nós, que chegamos, quase todos, no universo das ciências sociais desconhecendo o que ele de fato pode nos oferecer, tanto no sentido de tipo de conhecimento que essas ciências caracterizam como no que se refere ao mercado de trabalho. Aqui, pessoalmente, com experiência oposta ao sucesso escolar de Cesar, percebo que o que ele diz pode ser lido, de alguma forma, como um testemunho que atesta a grande derrota que é nosso sistema escolar com esse sistema de vestibular tal como ele se apresentou para nós. Também mostra que outros obstáculos se apresentam para quem se aventura pela seara das ciências humanas. Vejamos.



Jampa – Eu queria voltar a essa relação entre você, sua família e a escola. Você lembra de algum momento onde existiam reações positivas ou negativas de seus pais com suas notas, seu processo de aprendizado?


Cesar – Sim. Sim. Sim [com ênfase]. Eu acho nesse sentido sim. Eu sempre fui bom aluno. Aluno cdf , aluno certinho. Daqueles que choravam quando tirava uma nota abaixo de sete. Né? Sempre fui muito aplicado. Nunca fiquei em recuperação. E meus pais sempre se orgulharam muito disso. E eu acho que isso era importante, né? Sobretudo numa época na infância em que você não está estudando porque você tem algum tipo de ambição, ou porque você quer ser alguém na vida, você está estudando sobretudo para agradar enfim as pessoas que lhe cercam, existe uma tentativa de conformidade às convenções sociais. Mas apesar disso, assim, eu nunca nunca gostei, da da, da minha experiência na escola, apesar de ser um bom aluno, eu nunca gostei muito da escola, como ela, como ela, sobretudo no ensino médio, eu sempre achei insuportável, a maneira como tinha que decorar as informações, como eu tinha que estudar muito mais matemática, química e física do que as matérias que eu gostava,que era ciência e filosofia ou... ciência, filosofia, matérias especulativas como história, né sociologia [com certa ênfase, talvez por ser eu o entrevistador] Isso tudo era absolutamente abafado no ensino médio, e e... nesse sentido eu sempre achei o ensino médio muito medíocre, e eu acho que gostava... eu cheguei às Ciências Sociais, apesar do ensino médio e não por causa do ensino médio. Não houve nenhum estimulo a que eu seguisse essa carreira, eu acho que não houve nenhum estimulo a especulação, a crítica, é, entende?, sempre um ensino médio voltado às carreiras de classe média, um ensino médio arrivista, voltado às carreiras de classe média, às carreiras de direito, administração, a conhecimentos técnicos que levem você a posições de ascensão social, e eu sempre, eu nunca me identifiquei com isso, apesar de ser um bom aluno... e de ter... inclusive, no vestibular de Ciências Sociais de 98, eu entrei com uma nota que podia ter entrado em Direito, que Direito e Ciências Sociais estavam no mesmo grupo, no grupo dois, e eu entrei com uma nota que podia ter entrado na faculdade de direito, o que realmente revoltou pessoas da família, etc. “como é que você abandona uma carreira promissora pra uma certeza de desemprego”, né? Então...

[...]

Jampa – [tem algumas perguntas que vou pular...] Por que Ciências Sociais (CS) na Federal (UFPE)?

Cesar — Assim, por que CS na UFPE?, como eu te disse, só pra complementar... eu não sabia exatamente o que estudar, então eu fiz vestibular de filosofia na Católica, é... CS na UFPE, e a Administração na FESPE, porque como eu não podia fazer economia na FESPE, ou... perdão, economia na Federal nem economia na FESPE, perai, economia na Católica nem economia na Federal, porque na Católica eu ia fazer Filosofia e na Federal Ciências Sociais, resolvi fazer administração que seria um curso que poderia me dar algum conhecimento nessa área, obviamente que era um engano completo, eu não fazia a menor idéia do que era um curso de administração, uma coisa insuportável pra mim, enfim... E, e... Filosofia, eu nem me lembro se eu fiz o vestibular, eu acho que não. Porque eu já tinha passado nas duas universidades, na Federal e na FESPE. Então eu acho que nem cheguei a fazer o vestibular de Filosofia. E ai fiz durante um ano as duas faculdades, que serviu como estratégia d´eu fazer.... em termos de política da boa vizinhança na classe média, né, de você não entrar cem por cento num curso de CS, você sempre dizia eu também tou fazendo um curso de administração que é um curso socialmente aceito, então foi uma maneira também de dar uma resposta para aquelas pessoas, né, que você precisa de certa forma tá numa profissão rentável, então eu sempre dizia tou fazendo CS que um curso que eu gosto mas também tou fazendo administração. Ai um ano depois do primeiro ano, no segundo ano, eu entrei no PET, que é o programa especial de treinamento de CS da UFPE, e ai isso me dava uma bolsa, de 240 reais que na época eram dois salários mínimos, era bastante dinheiro, e isso exigia dedicação exclusiva, então foi uma ótima desculpa para sair da faculdade de administração, tranquei a faculdade, e ai ingressei totalmente no curso de CS, agora dizendo que recebia uma bolsa, recebia dinheiro, então era uma maneira também de indicar minha seriedade nesse curso, entede as opções? Ficou claro?

Jampa - [...] Então pergunta é: houve encantos, deslumbramentos [na chegada à universidade]?


Cesar- sim, sim, sim. Porque como eu lhe disse, entrar na UFPE foi uma experiência absolutamente fundamental, uma experiência, assim, que me desasnou também. Nesse sentido como lhe falei eu tive um ensino médio muito reprimido, onde as grandes questões, toda minha curiosidade intelectual era reprimida, digamos assim, por um ensino médio idiotizador, marcador de X, né, chegar na universidade foi quase como chegar numa terra prometida, a muito tempo prometida, né? Eu me lembro o quanto eu me deslumbrei com a biblioteca da universidade federal, com a biblioteca central, com a biblioteca do CFCH, ver autores que eu só via no rodapé de artigos da F.de São Paulo, e poder conhecer esse mundo, né, foi um mundo, foi um encontro assim, foi um belíssimo encontro nesse sentido, né de..., eu aproveitei muito a biblioteca, todo aquele mundo enfim que eu esperava e que eu ansiava finalmente existia, e também eu acho que a grande diferença, é... o que faz a universidade ser não um repositório de livros e de cadeiras são as pessoas que estão lá, e essa é grande diferença que faz entre universidade federal e as outras faculdades ou faculdades no Recife, eu acho que foi um lugar de encontro também, um lugar de encontro que também mudaram minha vida, com pessoas muito interessantes, e que compartilhavam comigo desse ideal e dessa vontade de discutir, etc, então eu acho que foi uma experiência, o primeiro ano foi algo muito importante assim, o mundo que eu descobri e que eu me senti muito a vontade nele.
[to be continue?]
ps: O registro oral foi guardado por conta de seu interesse no tipo de análise que depois iremos fazer.
ps2: a publicação foi autorizada pelo entrevistado. :)

segunda-feira, abril 28, 2008

Antes da entrevista com Cesar




Antes de publicar algo, como havia prometido, da minha conversa com Cesar, gostaria de atentar para algumas idéias norteadoras que deram origem a entrevista. Faço isso porque acho importante falar de onde parto para tratar as informações deixadas no material, uma vez que as perguntas foram formuladas no sentido de trazer elementos para dar respostas a algumas dessas inquietações mais gerais. E por achar também que isso não gera problemas para trabalho em si, no sentido de pessoas que ainda não foram entrevistadas lerem esse texto e isso criar um enviesamento na mini-pesquisa. Acho que traria apenas mais reflexividade às resposta o que não seria de todo ruim. Claro, a entrevista com Cesar vai valer por por si só como leitura. A sociologia chega apenas como “maneira de adentrar” nesse universo e problematiza-lo. Ela bem poderia ser lida de outra forma, e a validade não seria necessariamente menor por isso.

Então vejamos: a entrevista foi realizada na intenção de recolher informações sobre os processos sociais agindo no momento da formação intelectual de alguns alunos do CFCH. A escolha de Cesar como “personagem” dessa análise tem como justificativa principal o enquadramento dele, em termos objetivos, nas categorias escolhidas como pertinentes para inteligibilidade de nosso argumento. Tais categorias existem para e na construção sociológica de nosso estudo na medida em que são empiricamente reconhecíveis no percurso escolar (agora sociologicamente enquadrado) e universitário da pessoa entrevistada. Como se trata de problematizar as relações sociais que influenciam no percurso acadêmico lidando com questões de legitimidade (queremos descrever os momentos das escolhas intelectuais salientando as tomadas de posição diante de um cenário de possibilidades existentes), as categorias retidas como operacionais são as que indicam, de alguma maneira, o que podemos chamar de modelo de excelência nos resultados escolar-acadêmicos. Dessa forma a “amostra” de entrevistados leva em conta a rentabilidade escolar dos escolhidos (que o são em função dessa mesma rentabilidade) e de suas respectivas trajetórias de “sucesso reconhecido” dentro da instituição. “Rentabilidade escolar” e “sucesso reconhecido” são categorias operacionais para nós na medida em que aceitamos, ou melhor, na medida em que se é aceito a legitimidade do sistema de notas e avaliação no qual as capacidades dos estudantes são postas a prova e reconhecidas formalmente pela instituição como sendo válidas. Não sou eu, Jampa, quem diz da rentabilidade ou sucesso escolar, são as notas, o currículo, o capital escolar medido em função desse desempenho de ordem formal.

Nas entrevistas nos interessamos por todas as informações que tratem das estratégias de posicionamento no meio, que digam respeito ao ambiente de aceitação de certas idéias e posturas e, claro, rejeição de outras. As expectativas de aceitação no meio (que tipo de estudante é tido como melhor? Que tipo de trabalho é melhor, mais inteligente?) podem servir como “indicadores sociológicos” ou “indícios de um processo de socialização escolar-acadêmico” onde hierarquias de objetos, assuntos, maneiras de encarar a sociologia e outras disciplinas são estabelecidas.

Com suas construções hierárquicas sendo operadas por um jogo sutil de aceitação e acomodação sociais das potencialidades dos estudantes em universo universitário, essas lógicas de construção social operam no sentido de se camuflar e, socialmente, aparecem apenas como intelectualmente estabelecidas. Na verdade, fazemos hipótese, é o pertencimento mesmo ao mundo dado, pré-reflexivo num universo de reflexão, que explica alguns porquês dos sociólogos terem tanta dificuldade em aceitar que o mundo da sociologia também é regido por condicionamentos de ordem social. Com esse recorte teórico de material empírico específico (as entrevistas, que além da de Cesar pretendemos trazer outras de perfis diferentes) esperamos encontrar surpresas muito interessantes sobre as formas de funcionamento social de um universo que imagina se auto-conhecer e usa, não poucas vezes, a própria sociologia como recurso velador dos processos sociais que operam na produção de sociólogos e de suas respectivas sociologias.

segunda-feira, abril 21, 2008

O Oxymore volta oxigenado. A viagem aos Estados Unidos trouxe gás para esse blogueiro que, depois de uma pequena crise de identidade (o blogue queria tomar ares de produtividade não condizentes com a personalidade de seu autor), volta para blogosfera com todo gosto! E esse primeiro post fala um pouco das minhas peripécias intelectuais na terra do Tio Sam.



O BRASA em NOLA e Jampa nel@s!


O BRASA aconteceu na aconchegante cidade de New Orleans. O congresso que contou com a presença de vários estudiosos do Brasil nacionais e (im-ex-)portados já foi comentado aqui (segunda-feira, 31 de março 2008.) De minha parte, falarei apenas de minhas impressões pessoais do evento, da experiência de quem viu e participou como um "estranho no ninho".


José Miguel Wisnik


Logo no hotel, encontrei um homem que me observava com um olhar esguio, porém curioso. Notei no jeito dele de me afeiçoar um traço triste no olhar. E aquilo nos olhos dele combinava com algo mais, parecia ser simpático e tímido. Aproximou-se e falou rapidamente comigo:
– tudo bem? Brasileiro?
– sim, brasileiro. Vim pro congresso. Você também?
– Sim.
– vai apresentar um trabalho também?
– fui convidado para fazer a palestra de abertura, vou falar sobre Machado de Assis e a música, o maxixe, a polca.


Sim. É claro Jampa. Você estava falando sem saber com José Miguel Wisnik. E é lembrando dessa cena falando com o Wisnik e, claro, as devidas proporções guardadas, que penso em um filme do Tim Burton, onde o cineasta imagina o encontro de Orson Welles com um hoje celebrado autor de cinema de péssima qualidade técnica chamando Ed Wood (considerado por muitos como autor “cult” em nossos dias): na cena a qual me refiro os dois cineastas se ignorando mutuamente falam de igual para igual descrevendo suas respectivas paixões pelo cinema...

Sim. Eu o ignorava em todos os sentidos, da obra à fisionomia, da formação uspiana á leitura aparentemente já famosa do conto de Machado de Assis. Ele era para mim, ali, apenas e mais nada um homem de olhar triste, um brasileiro de cabelos grisalhos que iria fazer uma palestra de abertura no meu primeiro congresso internacional... E isso já era muito.

Ele seria, um dia depois desse encontro casual, o executor de uma aula magistral, onde com muito carisma fascinou e cativou a platéia inteira. Com sua leitura de um conto de Machado de Assis, onde ele encontra uma inesperada e contra-intuitiva maneira de entender a sensibilidade machadiana para tratar de dilemas da cultura brasileira, Wisnik, dialogando a contrapelo com as “idéias fora do lugar” de Roberto Schwarz (leitura minha), conquistou a todos com seu bom humor na apresentação de um Machado de Assis sensível ao “maxixamento da música brasileira”...

Numa noitada depois da abertura, encontrei-o novamente, mais uma vez por acaso. No meu deslumbre, meio que cheio de trejeito suburbano, dessa vez tentei falar de meu trabalho de tese para ele, em busca de comentários críticos ou algo parecido. Simpático, ele me ouviu com o mesmo sorriso triste do primeiro diálogo. Suas feições finas me intimidavam e a situação, dentro de um bar, a espera do recomeço de um show agitadíssimo e dançante, não era de fato a ocasião mais adequada para se falar de sociologia implícita no romance social. E creio que, mesmo em ocasião apropriada, não chamaria tanto do entusiasmo dele. Meio cabreiro com a simpatia e amabilidade do homem de olhar triste e cabelos grisalhos, agora intelectual reputado e respeitado, senti aquela sensação de vira-lata com fome ao procurar carinho, atenção e quem sabe comida de transeuntes...


A sociologia implícita no BRASA



Numa sala com pouca gente, falei durante vinte minutos sobre a idéia de sociologia implícita e de como a utilizo para tentar captar lógicas sociais e enquadrar a relação da sociologia com o romance social, como também a do romancista com o sociólogo, usando a obra romanesca de Graciliano Ramos como base de leitura. O público se reduzia a um pequeno grupo de latinoamericanistas da Ohaio University que havia organizado a mesa sobre literatura e teatro no Brasil do século XX. Havia ainda um brasileiro que estuda Graciliano Ramos e que faz o doutorado dele na Paraíba, que também já conhecia o pessoal da Ohaio.( Coisas de Brasil, falamos sobre o mesmo tema e tomamos conhecimento um do outro nos EUA.).

Repercussão e sociabilidade dos intelectuais


Mais uma vez saio de um congresso sem saber o que as pessoas acharam do meu trabalho. Nenhum comentário crítico. Nenhuma ponderação a respeito dos procedimentos, nenhum adendo aos ou negação dos argumentos defendidos. Nem positivo, nem negativo. Silêncio total. Nenhuma palavra sobre as análises feitas ou pretendidas. Fico com a impressão de que o trabalho não tem ressonância, que é uma espécie de voz que não ecoa por alguma razão. Portanto, peso, houve reação ao outro trabalho sobre Graciliano Ramos. O que há então? Será que existe vácuo no ar no qual a sociologia implícita tenta se propagar? Seria uma idéia tão sem lugar de ser a que tenta mostrar, apoiada em documentação apropriada, uma articulação tensa entre sociologia e literatura na qual se apóia boa parte das formas de classificação de práticas intelectuais que são até hoje vistas como infusas no Brasil? Ou será a insipidez do trabalho que gera tanta insensibilidade?

Na verdade, percebi já antes de minha apresentação, que congresso é um lugar mais de sociabilidade, de trocas sociais, do que propriamente de trocas acadêmicas em sentido estrito. As pessoas que vão ao congresso na verdade sabem que em 15 minutos não se consegue falar muito sobre nenhum propósito intelectual mais complexo. Assim, naturalmente, o ambiente do congresso é mais um espaço para o encontro e a troca de contatos e onde, ocasionalmente, existe debate acurado sobre algo, aqui e acolá.

Notei isso porque junto com meu amigo Lula gostaríamos de ter encontrado com Idelber Avelar, blogueiro do Biscoito Fino (citado em posts anteriores) e professor em Tulane University, instituição que acolheu o congresso. Mas depois de tentar algumas vezes o contato com ele, sem sucesso, não por falta de acessibilidade de Idelber, mas e mais pelo volume de demanda de colegas e conhecidos dele, a aproximação ficou completamente tumultuada e inviabilizada.

Outra coisa que notei por conta dessa sociabilidade específica ao congresso: existe uma tensão tênue e difusa estabelecida entre os estudiosos do Brasil que estão no país e os que estão nos EUA. É perceptível que questões como “o que significa estudar o Brasil sendo um scholar numa universidade americana?”, ou como “o que significa produzir conhecimento sobre o Brasil fora das condições de produção intelectuais brasileiras (que ainda diferem entre si de federação para federação)?” aparecem de forma muito recalcada. Ficam latentes, sobretudo, a meu entender, na impaciência de alguns brasileiros trabalhando nos EUA com maneiras de trabalhar e encarar o trabalho de alguns brasileiros fincados no Brasil. Por outro lado, é engraçado perceber, por exemplo, o quanto o encantamento com a biblioteca latino-americana da Tulane Univerty representava num “assim é muito fácil pesquisar” uma espécie de posicionamento ambíguo com relação à qualidade dos trabalhos produzidos e a se produzir por partes do estudiosos trabalhando nas instituições brasileiras...

Transparecendo de maneira desigual em diferentes momentos do congresso, a textura da relação de poder (diria relação de dominação, mas sei que as coisa não se dão de maneira linear, de cima para baixo) que se estabelece entre os que buscam ter “mais condição de dizer coisas sensatas a respeito do Brasil”, tanto aqui como lá, é o revés de uma sociabilidade que, longe de ser traço apenas de uma “brasilidade”, se imiscui no brasilianismo que, dessa forma tenta ser, também, uma letra americana sobre o Brasil para brasileiro ver. Bem, falo essas coisas de maneira muito livre, são impressões minhas isso que digo. E é algo a ser analisado com mais vagar.

Jampa em São Francisco: a visita


Além do BRASA, houve outro momento de intensidade intelectual na minha viagem. A visita ao meu querido amigo Cesar, “exilado” teuto-sergipano na California, um dos únicos intelectuais a conseguir fugir de Alcatraz (ele acaba de ser banido para Chicago por excesso de bom comportamento!).

Olha, falar de Cesar é tão difícil do que conversar com ele. Não digo isso como algo negativo. Passamos horas e horas a fio em nossas conversas intermináveis sobre nossos projetos intelectuais, sobre nossas lembranças de uma formação conjunta em solo recifense, sobre política brasileira, sobre nossos amigos e inimigos comuns, sobre as eleições nos EUA, em Recife, sobre relações afetivas...

Mas não deixa de ser engraçado e sintomático. Cesar possui uma erudição discreta, no sentido de ser contida na grandeza dela, de não se expandir em alardes intelectualistas. E isso torna possível nosso dialogo intelectual, já que existe desnível na acumulação de referências. A dele muito maior que a minha. Digo isso porque é essa minha percepção do amigo que, muitas vezes, põe e transpõe a diferença mesma no volume de conhecimento. O que é fascinante em nossas trocas é que elas parecem ser, sempre, a expressão de formas de encarar o trabalho intelectual diferentes, de reconhecê-lo em si(em nós), porque são elementos constitutivos de duas trajetórias que são muito diferentes entre si, mas que são o traquejo do que se chama “intelectualidade” nele e em mim.

Fiz uma entrevista com ele, belíssima por sinal, que em breve fará parte de um pequeno estudo sobre lógicas de funcionamento sociais na maneira de produzir conhecimento dos sociólogos do departamento de sociologia da UFPE. Pretendo deixar aqui no Oxymore uma amostra grátis da entrevista com trechos interessantes e ilustrativos de uma fala que mostra alguém em início carreira, mas que com uma base sólida, com reflexividade suficiente para inferir sobre aspectos de um socialização acadêmica, deixa informações importantes para o sociólogo ávido por explicar como funciona seu próprio universo de produção. A Cesar meu muito obrigado por tudo, pela gentileza de conceder a entrevista, pela amizade e hospitalidade!


Loïc Wacquant


Como estava em Berkeley, aproveitei e fui ter uma conversa com Loïc Wacquant Recebeu-me cordialmente em sua sala. Falamos basicamente sobre a tradução que fiz de um dos textos dele, ainda não publicada, e de Bourdieu. Na verdade, discutimos a recepção enviesada da obra de Bourdieu que é lido, não raramente, tanto lá quanto aqui, como um teórico da sociedade, como estudioso da cultura, e pouco como sociólogo. Ele me falou da importância da revista Actes de la Recherche en Science Sociales para a formação dele, e eu, brevemente, de minha formação francesa. Para mim foi importante ouvir dele que existe resistência dentro das instituições (por parte de outros professores e dos alunos) ao tipo de procedimento (principalmente na escrita) de trabalhos científicos onde a idéia de rigor está justamente embasada na explicitação dos passos, na descrição do protocolo de condutas, na enumeração das dificuldades encontradas e das soluções estabelecidas. A aparência inacabada de um trabalho que expõe os passos de seu procedimento (que é uma das idéias motoras da revista Actes de la recherche) é muitas vezes confundida com falta de rigor e, por conta disso, uma epistemologia séria contida nessa conduta, vinculada à tradição oriunda do racionalismo aplicado de Bachelard (lida por Bourdieu a luz de uma sociologia sensível às lógicas práticas presente na ação social), é vista com maus olhos por muitos, principalmente por representar uma ameaça a formas de pesar e fazer o trabalho intelectual muito entranhadas no universo acadêmico. Muito proveitosa nossa conversa.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

A refutação sociológica do argumento biologizante de fenômenos culturais


Existe uma máxima metodológica no trabalho de Emile Durkheim que diz que um fato social só pode ser explicado por outro fato social. Enunciada num livro que tratava dos pressupostos pelos os quais o autor propunha os procedimentos e as disposições intelectuais necessárias para a produção de uma disciplina autônoma, a sociologia, tal requisito metodológico só ganhava plena força quando associado ao que ordenava tratar os fatos sociais como coisa.

Dito dessa forma, a região epistemológica da sociologia se confundiria facilmente com um empirismo ingênuo( que chamaremos aqui-acolá de empiricismo). Empiricismo que esquece que, como dizia Saussure, “o ponto de vista cria o objeto”. Seria injusto chamar Durkheim de empirista tosco, uma vez percebida a ênfase dada pelo autor de As formas elementares da vida religiosa ao principio de exterioridade como sendo um “tratar como”. Ele de fato defendia que o procedimento metodológico fundamental (aquele que garantia a objetividade especifica da sociologia) era também uma “atitude mental” que procura reter aspectos pertinentes do real que não poderiam ser tratados como entidades isoladas sem relações entre si.

Pois bem, feito esse breve preâmbulo de epistemologia da sociologia, gostaria de refletir sobre a possibilidade do estabelecimento concreto de dialogo entre disciplinas como a sociologia e a biologia, em especifico desta última o seu galho chamado neurociência. Instigado pelo interessante debate a respeito de uma pesquisa que busca formular hipóteses sobre os condicionantes neurofisiológicos da violência ( cf : http://www.idelberavelar.com/) ,volto-me para um debate clássico para explorar meu ponto de vista. A ruptura com a lógica da biologia é elemento constituinte da especificidade do tipo de raciocínio ao qual designamos de sociológico.

A questão que me faço é: o que está em jogo quando, por exemplo, queremos saber se existe ou não condicionantes neurofisiológicos para o fenômeno da violência? Se pusermos em par de “equidade epistemológica” a sociologia e as neurociências, se convimos que os dois tipos de ciência formulam seus objetos no mesmo espaço de asserção, é possível e aceitável que o debate a respeito da violência se dê em termos de questionamento sobre procedimentos técnicos de pesquisa (o que a meu ver, é recorrer a uma visão empiricista não condizente com o atual estatuto epistemológico de nenhuma ciência social), como por exemplo, explorar a deficiência ou qualidade da amostragem estatística(ver comentário de Marden Muller, cidato por César, na caixa de mensagens do Biscoito Fino). Por desconhecer às especificidades da neurociência, falo apenas do espaço assertivo da sociologia que, ao que parece, não entra no mesmo regime de verificação e prova (graças!) das ciências, digamos assim, mais popperianas. É nesse sentido que acho que o dialogo entre as duas disciplinas se dá em diferentes regimes de asserção onde o caráter ontológico da violência é situado de maneira diametralmente oposta em cada uma delas.

Trabalhando em analogia, pego um exemplo dessa lógica numa obra de Norbert Elias, Mozart: sociologie d´un genie. Trata-se da afirmação do principio durkheimiano da explicação do fato social pelo fato social. Lidando com as explicações correntes da obra de Mozart ele reage da maneira seguinte às idéias de “gênio nato” e de “dom nato da composição”:

Dizendo de uma particularidade estrutural de um individuo que ela é inata, deixamos entender que ela é geneticamente condicionada e depende da hereditariedade biológica, ao mesmo título que as cores de cabelo e olhos. Entretanto é completamente excluído que um ser humano possa apresentar uma disposição natural inscrita nos seus genes correspondentes a algo de tão artificial como é a música mozartiana”. (Mozart: sociologie d´un genie, 1991,Paris, Seuil. p. 89)

Não se trata, como se vê, na argumentação de Elias, de negar a existência da realidade especifica dos determinantes genéticos, mas da impossibilidade de compatibilizá-los à natureza distinta do fenômeno, para com isso dar sentido a explicações biológicas de coisas pertencentes a ordens extra-biológicas. No caso analisado por Elias um objeto sócio-cultural como a música. É por isso que mais a diante no texto ele conclui:

Se uma disposição biológica intervinha no seu imenso talento, ela não poderia ser outra coisa senão uma disposição extremamente genérica, e não especifica, e para a qual não teríamos nem mesmo conceitos adequados no estado atual das coisas”. (idem, p.90)


No caso de um objeto como a violência, onde algumas reações físico-quimicas parecem dar sustentação às explicações estritamente neurofisiológicas da violência, a relevância do principio da homogeneidade da argumentação científica me parece mais do que necessária para pensar o que se está em jogo nesses debates.

Acredito que, talvez, se a questão for apenas o dialogo que as duas disciplinas podem manter entre si mesmo sendo epistemologicamente heterogêneas, se possa tirar proveito da própria repercussão do caso do anúncio da pesquisa da PUC-RS. (http://www.apm.org.br/aberto/noticias_conteudo.aspx?id=5598)

As refutações que eu julgo inoperantes por não distinguirem o registro de asserção específico das ciências em questão são extremamente ilustrativas de como o dialogo poderia se estabelecer de maneira sadia para o desenvolvimento do saber científico. O fato de existir na sociologia uma larga e relevante experiência na construção de amostragem significativa de populações levando em conta aspectos relevantes contidos nas informações sociológicas produtoras de viés (classe, grupo, agrupamento etc.) faz com que seja possível a identificação de limites técnicos de amostragem (mesmo para fins de conhecimento de reações neurofisiológicas em indivíduos). O que não pode, é querer que o fenômeno social da violência, identificado e construído sociologicamente, seja negado ou explicado em nome de determinantes que por si sós, só conseguem se auto-justificar a si mesmas no domínio de asserção que lhes são próprias, o da ciência que lhes deu estatuto de realidade. É como querer, pelo contrário, que explicações em termos de legitimidade, ou socialização, expliquem a realidade “contextual” dos nossos códigos genéticos ou coisas dessa natureza. Parece-me, nos dois casos, lógicas absurdas.

sábado, janeiro 05, 2008

A letra A para novo Ânus...


Este é um blogue para aventureiros. Pela falta de ritmo do autor, os parcos e fieis leitores passam semanas sem ter notícia de quando palavras confusas vão novamente jogar para beira-blogue antigas asneiras. Assim, vez por outra, incansáveis, esses bravos arriscam seus olhos nesse bravo mar de incertezas que é o Oxymore.

Não vou aqui assumir novos velhos compromissos de estabilidade na produção das reflexões até então esparsas desse blogueiro esfarrapado. Mas, porque mais começo do que fim de ano, eu me arrogo aos votos de que a produção de textos seja plena. Ou... ao menos maior e um pouco mais sistemática.

Letra A Do ânus do piauiense: da relação entre humor e sociologia

Neste post trago um comentário meu a respeito do livro Transpiauí, uma peregrinação proctológica, de Mr. Manson, famoso blogleiro dono do Cocadaboa. Tomei conhecimento do livro através de outro blogue, o Biscoito Fino, que considero muito bom e pode ser acessado no seguinte endereço: http://www.idelberavelar.com/. Nele o autor comenta de maneira descontraída temas como literatura, futebol, política etc. e indica vez por outra, claro, outros blogues interessantes, como o polêmico e humorístico site de Mr. Manson, autor de grandes peripécias na blogosfera.

Claro, minha reflexão não valerá nunca a experiência de cada um ao ler o texto. Pessoalmente qualificaria de maneira espontânea o livro chamando-o de um verdadeiro experimento de etnohumoristografia anal, novo gênero que associa etnografia e humor num relato de viagem realizada pelos confins do Piauí (apelidado para fins literários de cu do mundo). É fortemente aconselhada a leitura bem feita do livro que se encontra na íntegra na internet no site do Mr. Manson.

Deixando os rodeios, vamos lá...


O nascimento de um clássico


Minha primeira impressão do livro me diz que se trata de um livro sério, muito sério. Sim, porque nenhum livro de etnohumosristografia que se preze (mesmo sendo esse o primeiro do gênero, talvez por isso já um clássico com marcas indeléveis para a posteridade) pode dispensar a gravidade tensa que se faz presente na produção aparentemente despretensiosa de piadas que evoquem tão fortemente o estranhamento intra-brasil de brasis que, por preconceito (que é tudo aquilo que existia antes da viagem e das piadas do autor), se desconhecem.

O livro todo é acompanhado por essa tensão psicológica que é representada literariamente pela narrativa em primeira pessoa e liga o bom humor ao mau do autor através de (e)vocação humorística. Na luta entre esses dois pólos de natureza psicológica, a piada sempre vence, pois, torna-se o foco narrativo, trazendo a tona desconfortos sórdidos de natureza sócio-culturais.

É extraordinário exemplo disso o capítulo que o autor dedica a uma sarcástica e bem humorada descrição de uma revelação mística à Paulo Coelho. Se é certo que brincadeiras com os exercícios místicos propostos pelo autor do Diário de um Mago, não é nenhuma cartada de gênio, é preciso também convir: o tom falsamente despretensioso de um misticismo que zomba do misticismo aliado à evocação bem alocada de elementos sócio-culturais específicos dão elementos suficientemente contrastantes para nos impelir a uma reflexão bem ou mal humorada a respeito de nossa realidade complexa.

Vale a pena transcrever trecho revelador nesse sentido:

Já tinha perdido toda a minha fé nas tais “divindades do humor”. Para mim, a brincadeira tinha definitivamente acabado. Se pudesse, sairia dali direto para a minha casa sem pensar duas vezes. Foda-se livro, foda-se peregrinação, foda-se o Piauí! Como eu pude ser tão idiota a ponto de achar que conseguiria sair de casa sozinho, mergulhar no cu-do-mundo sem plano ou estrutura e sair ileso? Todo mundo que me chamou de maluco, me alertou, se preocupou e disse que eu não precisava fazer isso para escrever um livro estava certo. A minha mania de ser sempre “do contra” e a minha arrogante pretensão de querer estar sempre nos “limites do humor” tinham me colocado nessa merda. Me convenci de que o pior desfecho possível para essa viagem era a coisa mais provável e lógica que poderia acontecer. Qualquer ser de bom senso seria capaz de prever isso.

Uma hora e dez minutos. Finalmente eu vejo uma moto no horizonte! Estava puto com aquele arrombado, mas não poderia esconder a minha felicidade em vê-lo. Senti um alívio, mas logo percebi algo estranho. Ela se aproximava muito lentamente. Aos poucos percebi que não era uma moto, mas uma bicicleta! Quando já estava bem perto, vi que se tratava de um velhinho com chapéu de palha e cachimbo na boca!
Não sei quem achou esse encontro mais surreal, eu ou o velho! Ele estava diante de um cara fritando no meio do deserto. Eu via um coroa surgido do nada e pedalando debaixo de um sol escaldante rumo a lugar nenhum. De longe, os nossos olhares já se cruzaram. Não con-seguíamos parar de nos encarar. Quando chegou bem na minha frente, ele parou. Ajeitou o chapéu, tirou o cachimbo da boca e ficou olhando para mim, aguardando uma explicação.

– Eu estava indo para o parque de moto-táxi, só que o pneu furou e o guia teve que voltar até a cidade para buscar outra moto. Já estou há mais de uma hora esperando aqui e nada...
O velho colocou o cachimbo na boca, deu uma tragada, abriu um sorriso meio sacana e disse com uma voz bem falha:
Ôxe, menino! Sai desse sol, tá muito forte. Aproveita que tá com a toalha na mão e vai ali naquele riacho se refrescar...
Riacho? Estava rodando ali há mais de uma hora e não tinha visto nenhum sinal de riacho. Mesmo assim, talvez sofrendo mais um delírio por causa da insolação, me virei e olhei para os dois lados procurando a merda do riacho. Quando me dei conta que poderia estar sendo vítima de uma grande sacanagem, me virei de volta, já puto da vida, e perguntei para o velho:
– MAS QUE RIACHO, PORRA!?!?
Tarde demais. Ele já estava pedalando de novo, se afastando lentamente enquanto sacudia a cabeça num sinal de negação. Negação é o caralho! Aquilo era um sinal de afirmação. Afirmação da minha idiotice, isso sim!
Estava quase apedrejando aquele velho sarcástico filho de uma puta quando escutei um barulho de motor. Era o “guia motoboy” surgindo milagrosamente no horizonte. Ele já chegou estendendo um cantil com água geladinha e dizendo desesperado: – Pôxa, amigo, desculpa! Meu irmão tinha saído com a outra moto, tive que procurá-lo pela cidade inteira. Desculpa mesmo!
Cara, tu não imagina a merda que tu me deixou! Já tava passando mal aqui, com sede e insolação!

Foram xingamentos, praguejamentos e resmungos para todos os lados. A sorte do cara é que a água que ele tinha trazido funcionou como um calmante, senão ele ficaria escutando minhas reclamações a tarde inteira. Meu mal-estar foi passando aos poucos. Molhei a nuca e consegui me recompor para seguir viagem.
Logo ultrapassamos o velho e a sua bicicleta. Ele acenou para mim e deu um sorriso. Nos quinze quilômetros restantes, refrescando a cabeça com o vento, fiquei pensando naquele episódio inusitado. Será que as “divindades do humor” colocaram aquele velho no meu caminho para me mostrar algo? “Elas” armariam essa situação toda para me provar que, mesmo você estando desesperado, na maior merda do mundo, pode chegar alguém e fazer uma piada?

Provei do meu próprio remédio. Era exatamente isso que eu fazia com os outros desde o começo do Cocadaboa. Senti na carne que uma piada recheada com sarcasmo, por mais simples que seja, pode ter um gosto amargo e tirar qualquer um do sério. Mas também tive a oportunidade de descobrir que quando a dificuldade vai embora, a piada fica. E que piada! Aquele velho piauiense mandou bem pra caralho! Durante o resto do caminho fiquei rindo da minha própria miséria, sem conseguir tirar aquele sorriso bobo da cara.

Tudo que eu escrevia no site passou a fazer sentido. Um velho surgido do nada, numa estrada vazia no interior do estado mais esquecido do Brasil, me ensinou uma coisa que vai me acompanhar para o resto da vida. Revelação mais poderosa do que essa era impossível, nem mesmo se eu fumasse muita maconha nas margens do Rio Piedra ou me embebedasse com chá de cogumelo no cume do Monte Cinco. Agora sim, tinha certeza do sucesso de minha peregrinação. A Transpiauí estava disposta a me dar as respostas para todas as perguntas que eu nunca achei que teria necessidade de fazer. (capítulo 14: A revelação)

Diria que a descrição por trás da piada, ou a piada descritiva, ou a indiscrição descritiva da piada, ou ainda o desvelar da descrição piadista... etc. são meios de análise que não vagam num vazio abstrato no livro porque vinculados às experiências de vida onde o autor ao mesmo tempo lida e relata a experiência dele com as pessoas que ele encontra.

Não vou aqui discorrer de maneira detalhada sobre o livro para não tirar o gostinho de ler o dito cujo. Mas puxando a coisa pro meu lado, gostaria de trazer um pontinho para reflexão de sociólogos (não é uma reflexão sociológica por isso):

A relação entre humor e a sociologia: um breve comentário sobre uma experiência etnohumoristografica no Piauí como evento de sociologia implícita


Dizem que por conta de minha formação tendo a ver sociologia em tudo. Talvez. E, quiçá por conta disso, como faço uma pesquisa que visa buscar a sociologia implícita presente na produção literária de um famoso romancista brasileiro, tenho sido acusado de projeção, afinal, sociólogos tendem a ver sociologia em tudo mesmo. Bem, é o que dizem. Inclusive os “sociólogos”. Não sei por que há tantos que odeiam a sociologia, mas...

Então, por isso, penso ser preciso fazer comentário na defensiva, ou seja, atacando meus conterrâneos de sociologia.

Não é que o Mr. Manson tenha vocação de etnógrafo, mas, parafraseando o dito popular, em terra de cego, quem tem olho para ver o cu do mundo é rei. Dessa forma, atino para as qualidades sociológicas do autor do relato por uma razão de disposição de pensamento que julgo caríssima em sociologia ( e infelizmente totalmente ausente em boa parte de nossa intelectualidade bem pensante): A predisposição para coleta de dados empíricos para “desconstrução” dos pré-conceitos.

Claro que não se tem ali uma análise fina do ponto de vista estritamente sociológico sobre nenhum aspecto da vida daquelas pessoas, o livro não se propõe a isso e se quer “apenas” um relato bem humorado, ou bem mal humorado, de uma viagem desgraçada. Viagem desgraçada quer dizer, em sentido propriamente analítico do humor, viagem engraçada, ou, em sentido místico, uma peregrinação cheia de graça. Mas eis que meu veio contextetualista e quase crítico de sociólogo me impõe ao questionamento durante a leitura: que sociólogo brasileiro atualmente se dá o trabalho de “verificar”, como fez Mr. Manson, se suas sofisticadas teorias sociais (de sociablidade, de socialização, de legitimidade) explicam ou ajudam a entender melhor as formas atuais de vida de pessoas vivendo em cus-do-mundo (se souberem a resposta, por favor, me passem indicações das obras do referido autor)? Comparado com a punheta teórica a que somos obrigados a nos submeter nos departamentos de ciências sociais das universidades brasileiras, completamente desvinculada de realidades empíricas em demanda de cuidados analíticos e metodológicos suplementares (às suas aplicações em solo de autonomia na produção da teoria sociológica), a leitura de uma tal proctológica peregrinação me parece um verdadeiro exercício de vigor sociológico. Além disso, a situação crítica dada quase que de maneira imanente no ato de descrever o universo de vida de contemporâneos que é própria de uma “situação analítica” historicamente atribuível a qualquer sociologia que se preze, parece-me uma situação similar a do humorista, sempre pronto para aceitar a piada do outro, mesmo se “après-coup”, como o exemplo da piada do velho na bicicleta que, “mand[ando bem” faz Mr. Manson viver em si um outro que era o eu dele mesmo para tantos outros alguéns.

É maravilhoso o modo como o Mr. Manson crava a unha no polegar de nossas mazelas de povo unido por uma estranha diversidade de conhecimentos tácitos (pré-conceitos, que são também incompreensões) que são aos poucos postos em evidência ora pelo tom propositalmente politicamente incorreto, ora pela sincera simpatia impaciente do autor com os estranhos despropósitos de vida daquele fim de mundo se realizando e se materializando em fotos, descrições e, sobretudo piadas de situações e acontecimentos. Tem defeitos, sim, claro. Mas achei um livraço!

quinta-feira, novembro 22, 2007

A chave estava no bolso de seu Wilson





7:00 horas e meu celular toca. Minha ex-mulher com uma voz tremula e confusa me pergunta pela chave do carro.

-- Levou a chave do carro, esqueceu de deixar embaixo?
-- Não, deixei-a com o porteiro. Com o vigia.

Tinha passado o início da noite na casa dela, tomando conta de minha filha. Desci com a chave do carro dela porque ele estava estacionado atrás do meu. Fiz a troca de posição dos automóveis e desci do meu carro porque vi que o vigia estava concentrado em algo, ele havia aberto o portão maquinalmente, como sempre fazia. E não havia percebido que queria deixar algo com ele. De fato, a troca de olhares era a maior parte de nossa relação. Em um ano, duas ou três conversas. Ele falou-me de suas filhas. Eu falei da minha, que acabara de nascer. Tímido, feio, sem dentes, lembro de ter levado para ele, uma noite depois dessa nossa conversa, um chocolate quente. Depois disso, apenas um empréstimo de dinheiro (50 reais) ao qual ele me devolveu em dia.

7:00 horas da manhã e meu celular toca. Minha ex-mulher diz com uma voz tremula e confusa que o porteiro se jogou de cima do prédio e morreu. Lembro imediatamente do tapinha nas costas dele dado por mim ao deixar a chave do carro dela com ele. Ela relata que pediu a chave lá embaixo, não estava. Já bastante confuso tento lembrar do nome dele, como é o nome do porteiro?

Talvez ele não tenha se matado por eu não saber seu nome. Quiçá também ele não tenha previsto a frieza mórbida com a qual alguns moradores do prédio falavam a respeito da “morte do porteiro”. É incrível perceber esse tipo de reação nas pessoas: descem, olham o corpo, comentam algo, falam do “vigia”. Qual era o nome dele mesmo?

8:00 horas. Chego trazendo uma cópia da chave do carro para minha ex-mulher. Vejo a movimentação no prédio. Policiais, caminhão do IML, curiosos. O portão se abre. O vigia da manhã (qual é o nome dele mesmo?) me vê chegando e faz um sinal com os olhos para o faxineiro vir a mim (ai meu Deus, esses nomes todos!). Ele traz a chave do carro... “estava no bolso de Seu Winson.”

Não. Não é porque eu não sabia seu nome que ele se matou. Nem mesmo porque a morte dele não parecia importar a ninguém, a não ser ao faxineiro que parecia desolado. A culpa da morte dele é só dele, diz o auto-engano desencontrado de alguém que faz parte de uma sociedade produtora de autocentramento exacerbado, desacertado e insensível. Como vai seu Wilson, por que essa cara tão triste e preocupada? Fale-me mais de suas filhas...
Não, deve haver outra explicação que a indiferença. A sociedade não é culpa, é desculpa. Afinal de contas o suicídio é algo particular, não é mesmo senhor Durkheim?

quinta-feira, setembro 06, 2007

Dubliness...


A Dublin de Jampa Joyce começa na França. No Aeroporto Internacional Charles de Gaulle, onde etretive uma espera digna do apagão Companheiro De Lula: 6 horinhas. Nele pude comtemplar em minha memoria a completa inexistência de referencias sobre a Irlanda. Olhava para um ponto perdido onde pessoas perambulavam e tentava advinhar se os irlandeses pareceriam assim ou assado. Buscava referencias. Lembrei-me de Cristopher, um camarada irlandês que conheci... onde mesmo? Na França... Definitivamente, tudo dessa ilhota me lembra a... a França. Ate Saint Patrick's day eu festejei como La fête de la Saint Patrick quoi! Isso vai mudar, pensei.
Chegada ao Aeroporto de Dublin. 1 hora de interrogatorio no serviço de imigração.
-O Senhor faz o que da vida?
- Agora, aqui na Irlanda? Bem, eu vim de férias rever uns amigos franceses que moram e trabalham aqui na Irlanda. Mas de profissão sou sociologo, estou fazendo um doutorado no Brasil. (Tudo isso naquele meu inglês macarrônico... sem comentàrios!).
-Você fala francês? (O interrogatorio é todo feito em tom de sarcasmo e, na minha situação de dependência, minhas respostas eram dadas em uma tonalidade digna de imigrantes politicos que, correndo risco de vida ao voltarem aos seus lugares de origem, imploram por tolerancia das autoridades de "acolhimento").
- Falo.
-Como aprendeu?
- Morei 6 anos na França. (Pensei, e eu que vim pensando em esquecer minha "Irlanda afrancesada"!).
- Se você é brasileiro, como ficou là por tanto tempo?
- Além de ter estudado là, fui casado com uma francesa.
- Quem você veio ver aqui? Você tem um endereço, um telefone? (Passo para ele o papel onde havia anotado o endereço e o telefone em Dublin de onde eu ficaria)...
Não vou explicitar até onde a Santa Inquisição foi para averiguar supostos imigrantes como eu. As suas perguntas esdruxulas, muitas delas invadindo um espaço de foro intimo em qualquer cultura, são para mim prova cabal da eterna e violenta relação de poder entre fortes e fracos.
Do avião vi, depois de sobrevoar a Inglaterra, uma Irlanda coberta de nuvens densas. Ainda não visitei Belfast, onde um muro de concreto ainda separa catolicos de protestantes. Lembro que foi indo para Irlanda que uma familia de africanos morreu dentro de um contener de navio. Esse muro invisivel, simbolica, brutal e abruptamente inscrito no modelo inquisitorial do serviço de imigração, é para mim a marca desse outro muro deles, mais visivel.
Minha mala não chegou. Mas a acolhida foi excelente. As pessoas em Dublin parecem ser no geral simpaticas, acolhedoras e prestativas. A impressão tensa inicial se desfez. Vou tomar uma Guinnes e esperar por minha bagagem... Aproveitar as férias, não mais para equecer a França que dà referencia às minhas impressoes sobre a Irlanda. Até porque o teclado no qual escrevo é francês e a ausência de sinais não me deixaria esquecer dessa verdade: Jampa Joyce definitivamente tem um sotaque de imigrante brasilo-franco-estupido-inglês!

terça-feira, julho 31, 2007

Pan, TAM, Pan Boom! De quem é a culpa?



Final de tarde. O compromisso com o mundo de atividades mundanas se esvai com a chuva que começa a cair. Toró. Cordas d’água! Cargas de água. Aquecimento global, penso. Nós humanos, seres imundos que somos. Deu vontade de tomar banho com o molhado que vem do céu. Pororoca sem onda, piracema sem peixe. Menino pulando no asfalto espelhado de lamas. O sorriso desdentado esquecido das faltas, dos problemas políticos, das vitórias e derrotas do Pan, dos desastres de avião. Cadê o menino? Cadê? Ô menino esquecido!

Começo de noite. A toada é dos carros. O mundo idílico não pertence a nós, humanos de tipo brasileiro. A culpa é do lirismo, do nacionalismo, do Lula, do piloto, de Jampa (que quer ser menino!). Do acidente não acidental. Da tragédia não trágica. Dos pássaros que aqui gorjeiam. E dos homens que aqui “habiteiam” e dos que hão de habitar. Da História, a culpa é Dela. Fincou na terra, ficou na crosta, golpeou e solapou o fôlego dos esperançosos. Tudo já está dito. Cadê? Há mais algo a dizer? Ô menino esquecido!

Escombro de enoitecer. Concordes já não voam mais pelos ares, outros baques o desprojetaram do mundo celeste. Discordes vaiaram, concordes não voam mais, que mundo é esse? Esse deveria ser o último parágrafo de quem não tem nada pra dizer desse mundo... mas fracos como eu insistem em gorjeio. Vai, gorjeia como lá, gorjeia! Cadê? Cadê? Já esqueceu?

– Pan, Tam, Pan! Boom!

Que sórdido canto! Seria Assum Preto, cego dos olhos? Escombros de noite. Noite de chuva. Sem culpa. Sem espelho de água em lama preta. Sem nacionalismo. Sem silêncio, a toada é dos carros. Cadê o menino? Cadê o concorde? E o recorde? Sim, o jornal é o mesmo. Mais gorjeio: Pan, Tam, Pan! Boom!

Ironia ou não, no escuro do quarto, no meu colchão de classe média, deito-me ao som de Ludwig Van tocando Pan Pan Pan na televisão... Viro-me. Tento esquecer. Vai ver que a culpa é do aquecimento, do gorjeio (nunca do esquecimento). Do Gorgias de Platão! Do avião. A culpa é da culpa, lá onde tudo é mea culpa. Do reverso, da pista, mais uma vez do piloto, do menino, do cansaço, do “apagão” esotérico supra-lunar dos céus. A culpa é da Fátima Bernardes... é do superfaturamento do Pan, e dos cubanos que, apesar de povo miserável e comunista derrotado, continua na frente no quadro de medalhas...

A culpa é do cu, claramente, que é quem sempre começa a palavra culpa. E a catinga de cu, nunca acaba.

sábado, julho 07, 2007

Le Roi se Meurt : educação pela morte
Intelectualizar a morte talvez seja algo mórbido para alguns. Em alguns momentos seria mesmo arrogante tentar tirar lições de tal tema. Não pretendo fazer isso aqui. Esse pequeno texto, pegando minhas recordações de uma leitura antiga, vem apenas exorcizar alguns sentimentos meus que foram gerados pela consciência da dor de alguns amigos diante de uma perda recente.

Não encontrei o livro. E usarei, nesse breve comentário, algumas notas que fiz na época de minha leitura.


Alguns filósofos falam de uma “crise da morte” que envolve o ocidente desde o século XIX e dura até nossos dias. Os dados dessa crise se manifestariam de maneira contraditória: por um lado nós somos eternamente jovens, a medicina nos salva da morte (mesmo que a morte esteja sempre presente?); e de outro, a recusa da morte como problema apareceria como origem mesma da dita crise. O mote dessa crise seria uma verdade tipicamente moderna: a morte não é, para nós, uma “verdade nova”, é uma “verdade que esquecemos”. Eu me sinto profundamente identificado com essa interpretação do nosso lidar desajeitado com esse tema tão fundamental, com essa realidade tão necessária que... “esquecemos”.



Ao ler o Le roi se meurt de Eugène Ionesco nos deparamos com três fisionomias da morte que atormentam a personagem do rei: o morrer (que é fase terminal da vida, identificável, sobretudo, na velhice e na doença); a mortalidade ou, em outras palavras, o destino biológico, e, por fim, a finitude (consciência da mortalidade). O rei é que diz: “Não é natural morrer, porque não queremos. Eu quero ser.” O rei é quem encarna em si o “modelo” da citada crise da morte por “querer sempre ser, ele conhece apenas isso” e que sendo “sempre assim” organiza a trama da peça, como personagem principal que, como quer Ionesco, confronta-se aos designos do tempo num dado espaço: “seria preciso que ele não olhasse mais ao seu redor, que não mais se apegasse às imagens, seria preciso que entrasse nele mesmo e que ele se trancasse”, diz Marguerite ao rei, completando a frase dizendo “ não fale mais [da morte], cale-se, fique dentro. Não olhe mais, isto te fará bem”. Houve quem quisesse explicar a modernidade, o seu aparato tecnico e de espetacularização do mundo, como a tentativa de realização desse desejo de esquecimento da morte. Como odeio essas generalizações digo apenas que na peça encontramos os dados da reflexão de Ionesco: a morte como dado, a rejeição da necessidade dela pela vontade, a consciência que tensiona entre vontade e a inevitabilidade do fim.

O teatro, tido como espetáculo, convence mais do que a realidade. Talvez isso ajude a entender como a trama faz lembrar, dessa forma, um esquecimento nosso: a morte, precisamente sua atualidade que é constante, estando sempre presente, vem sempre a contrapelo do esquecimento que vai “reagir” erigindo-se em tautologias epidérmicas enraizadas em nosso próprio medo: “a vida é contrário da morte. Queremos a vida, a morte é um absurdo”. A morte, teatralizada, revela assim um paradoxo contido na linguagem: a morte, entendida como ausência/presença, é constrangida a dizer pela linguagem que não existe nada a dizer, um verdadeiro paradoxo dos paradoxos. Nada mais nada menos do que um problema sem idade: o que é viver quando sabemos que vamos morrer? o que é morrer quando sabemos que devemos viver?

Podemos de fato viver a morte (luto)? E falar a seu respeito, é possível? Sendo possível do que isso valeria?

De fato, e pensava isso comigo mesmo ao assistir “Six feet under”, a morte quando chega é fator de significação da vida. A sua presença redimensiona prioridades e equaciona valores. O fato de esquecê-la com freqüência, em rito de nossa modernidade frenética e medical, fazem-nos mais vulneráveis ao que chamamos de crise da morte: ao esquecer de nossa condição talvez mais fundamental de seres vivos, a vida e a morte, duas faces da mesma moeda, só se tornam sacras, infelizmente, na dor.

sábado, junho 30, 2007

Sobre Cacos


"O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito [o caco] para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata" (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser).


Uma vida pode ser lida como um amultuado de cacos. Se guiada pelo ímpeto da beleza, ela pode acomodar os pedaços, compondo as arrestas irregulares e, sem medo de imperfeições, conceber-se enquanto mosaico. Durante muito tempo esse foi um conceito realativamente aceito de arte, de composição artistica.
O que é uma vida bem vivida? Seria essa a pergunta mais fundamental?
Transformar cacos em beleza talvez seja, no fundo(de onde não me perguntem!), a tarefa de todo ser humano adulto diante de sua própria existência real. Reorganizar em lógica que busca harmonia, as frases, os temas (Jorge, não ria de mim, não sou músico!), que, se o compositor for bom, se fundirão todos em sonata...(em boa sonata). Numa dimensão de totalidade onde as partes interagem entre si de tal forma que não se pode mais notar a natureza fragmentada oriunda dos sons - (caramba, hegelianismo numa fase dessa da vida devia ser estritamente proíbido) , a melodia, ou seja, os cacos de uma vida reagrupados de maneira harmônica (ou harmoniosa), revelam o esforço de apagar dissonâncias (as arestas que são atributos de qualquer caco), e a "beleza" seria assim entendida como a vitória desse errafecer de disformidades sonoras.
Eu gosto de mosaicos. São metáforas formidáveis da existência humana. Nele, talvez esse o segredo do seu belo, os fragmentos não desaparecem: eles se conformam à beleza. As vezes, em momentos de paz, sinto-me um mosaico de mim mesmo.

quinta-feira, junho 28, 2007

“[...] E que o desprezo dos metodólogos por tudo que se distancie tanto dos cânones estreitos que eles mesmos forjaram em termos absolutos do rigor serve frequentemente para mascarar a superficialidade rotineira de uma prática sem imaginação e quase sempre alijada daquilo que constitui a condição verdadeira do verdadeiro rigor: a crítica reflexiva das técnicas e dos procedimentos.” (P. Bourdieu)


Por uma sociologia dos sociólogos recifenses

Primeira Parte

1- Homo Academicus à CFCH: lição de estranhamento


A aula inaugural de Pierre Bourdieu no College de France começa com as seguintes palavras:

“Nós devíamos poder pronunciar uma lição, mesmo que inaugural, sem se perguntar com qual direito: a instituição está aqui para descartar essa interrogação, e a angustia ligada ao arbitrário que se faz presente dentro dos começos.” (Leçon sur la Leçon, les editions de minuit, 1982.p 7)

Bourdieu sabia que era isso mesmo que ele estava fazendo, pronunciando uma aula que lhe era de direito e que lhe atribuía legitimidade. Tanto sabia que usou desse recurso para mostrar que a ciência que ele ali representava estava lá para por em suspenso, ou ao menos em suspeita, algumas das legitimidades ali presentes. A sociologia, dizia ele, " ciência da instituição e da relação, feliz ou infeliz, à instituição, supõe e produz uma distância intransponível, e às vezes insuportável, e não apenas para instituição; ela arranca o estado de inocência que permite de preencher com alegria (grifos do próprio Boudieu) as expectativas da instituição."

Para ele, imagino, jogando com o jogo de palavras e de posições que estão ao seu alcance, fazia-se possível, porque decorre daquilo mesmo que a sociologia exige e produz, uma defesa da reflexividade como propriedade mais fundamental da ciência que assumiu como sua: “todas as proposições que esta ciência enuncia podem e devem se aplicar ao sujeito que faz a ciência”. Não vou aqui discorrer sobre o que, nessa visão, acarretaria na falta de alegria dos intelectuais ao se verem como um objeto de estudo da sociologia. Mas falarei mais de meus incomodos de não poder tomar meu universo como objeto de conhecimento sociológico.

Começar falando de uma aula magistral (e aqui, realmente magistral, porque dada com a presença dos mestres já consagrados da instituição), realizada na França, numa das instituições de maior prestigio daquele país, para falar de meu estranhamento com o universo do CFCH, pode parecer, no mínimo dos mínimos, esdrúxulo. Mas como negar, de minha parte, que, tanto a leitura como o contato direto com uma sociologia tributária dessa perspectiva reflexiva, são fontes constantes de angustias e inquietações com relação aos padrões de produção sociológica do qual hoje faço parte? Mais. Em auto-crítica, ou em esforço disso, pergunto-me se minhas angustias com relação aos tais padrões, já que não estão, como tudo o mais, embasadas (as angustias) em um verdadeiro inventário sociologicamente fundado de razões, pergunto-me se não são elas apenas caprichos arrogantes herdados da assimilação de uma cultura sociológica produzida nos grandes centros de produção acadêmica. O que foi assimilado nesses centros parece ou aparece como deslocado quando transferido para uma região periférica de produção acadêmica. Essa é minha impressão. E estas as questões que dela decorrem: não estaria eu reproduzindo, em moldes um pouco diferentes, uma lógica normativa de imposição de uma maneira de lidar com a sociologia digna de uma mente colonizada? Não estaria assumindo para mim parte daquilo que imagino criticar quando extravaso minhas angustias?
De fato, digo-me, enquanto a angustia permanece em estado latente, como acontece comigo, ela não se torna capaz de elaborar a pergunta que seria a meu ver a única sociologicamente rentável: o padrão de produção da sociologia cefichiana não poderia ser ele, como pede a reflexividade própria à sociologia a qual me inspiro objeto de aplicação do conhecimento sociológico?


Não é sem auto-complacência que se diz que não se entra em sociologia sem esgarçar as aderências e adesões pelas quais integramos um grupo, sem condenar as crenças que são constitutivas do pertencer e renegar toda ligação de afiliação ou filiação. Mas para entrar em sociologia é preciso o quê? Quando e como podemos nos considerar sociólogos e ser considerados como sociólogos? Não seriam essas dúvidas que a instituição deveria neutralizar? Para quem essas questões realmente importam?

Pertencer ao mundo do CFCH para mim é entender que esse estranhamento meu deve encontrar respaldo na sociologia mesma na qual deposito minhas crenças (esperanças de elucidação e esclarecimento do modus operandi do mundo social) e com a qual me esforço de entender o mundo, inclusive o meu mundo de produção (o universo dos intelectuais cefichianos). Mas entender isso significa apenas e não mais do que isso um dizer-se a si mesmo que em um momento ou em outro seria preciso um debruçar-se propriamente sociológico sobre esse mundo, saindo assim de mera doxa intelectualizada com vínculos em visões sociológicas já feitas do mundo, para construção de um discurso real e sociologicamente embasado a respeito das condições de um tipo de produção que hoje de alguma forma desmereço sem conhecer realmente suas razões de ser.

Nas falsas brincadeiras com amigos nas quais falamos de “cefichismo” (doença intelectual com sintomas como “teoréia aguda” ou o “mal da erudição empaca pesquisa”, ou ainda um “antisociologismo crônico”), estamos diante desse estado de coisas cujo meu estranhamento é apenas mais um sintoma: ele é uma vontade de entender por que alguns valores da produção do conhecimento sociológico são postos em questão de maneira concreta, apesar de velada, por todos nós.

Por razões que julgo obvias não tomaria como objeto de estudo os intelectuais das ciências humanas e sociais do CFCH. Tão obvias quantos minhas razões seriam o valor de uma sociologia que, descrevendo nosso mundo de produção sociológica, mais ou menos do jeito que ele é e produz, nos daria os meios de entender, entre outras coisas, porque continuamos a não conseguir querer de fato saber quem nós somos.
Jampa.

quarta-feira, junho 27, 2007

Nuvens, Sonhos e ... Psicanálise.


“Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas – e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou.” (Graciliano Ramos, Infância, 1945).


Graciliano Ramos intitulou “Nuvens” o primeiro capítulo de suas memórias de infância. O título não se referia aos condensados de água, claro. Nele encontramos mais o atributo da imaginação contido nas nuvens que é em última instância forma que ganha forma através de imagens. Ou melhor dizendo, da imaginação. É aquilo que a literatura faz com o real (mesmo quando realista): ela transforma flocos flutuantes informes em dragões alados, em cachorros fantásticos, em tigres com dentes de sabre. Transforma pitombas em generalização teórica, mundo empírico em um abstrato.

Existe um site que sempre visito onde as pessoas contam sonhos . Na experiência psicanalítica, como numa grande construção literária dando formas às nuvens de nosso inconsciente, ao verbalizar e tornar visíveis as imagens sonhadas, damo-nos os meios para que nossa imaginação analítica interprete aspectos de nosso mundo psíquico que, naquele momento, torna inteligível, ou ao menos sensível, a natureza informe do universo dos sonhos. Um dos primeiro sonhos que li no site citado me impressionou bastante. Não consegui encontrá-lo novamente, mas o reformulo aqui em liberdade literária. Espero que o dono não venha tirar satisfações comigo de minhas interpretações, afinal de contas, tanto uma (a liberdade literária) como outra (minhas interpretações) são totalmente imaginadas. Então vamos a minha reformulação:

“Um adulto a quem penso ser eu chega para fazer sua análise. Não era bem um consultório, mas uma casa, familiar. A analista pedia para o adulto que ainda penso ser eu tirar a camisa e fechar os olhos. Eu achava, pensando que ele era eu, que ela queria me hipnotizar. Eu senti agora já sabendo de mim umas carícias nas costas e ela me balançava. A psicanalista falava coisas e eu não entendia. Perguntava-me por que eu continuava de olhos abertos. Eu tinha a impressão de fechá-los, mas de continuar sempre vendo.

Depois ela sentou, explicou-me umas coisas que não me lembro se entendi ou não. De repente entrava uma criança no quarto que estávamos. A psicanlista tentava explicar pra o meninote muito afavelmente que estávamos numa análise. Entrava outra criança. Eu tentava encontrar minha camisa. Linda, a analista me passava minha roupa e eu ia me vestir numa espécie de armário. Eu a via conversar com uma mulher enquanto tentava confusamente me vestir. Tinha medo de que alguém me visse naquela situação, mas ao mesmo tempo achava que todo mundo sabia que não havíamos feito nada demais. Só análise. Mesmo assim, achava que as pessoas desconfiavam da psicanálise como subterfúgio para o sexo. Alguma coisa aconteceu e me vi em situação de sair da casa sem conseguir estar vestido.
Vi-me vestido com uma calcinha. Na hora que tentei calçar meus sapatos, vi que já havia sapatos nos meus pés. Tirei-os e calcei os outros. Continuava de calcinha e isso me incomodava.
Ao sair da casa teve a coisa do peixe...
Uma rua que ficava ao lado de um canal ou um rio, não se sabe bem, foi cenário de um espetáculo nuca visto. As pessoas falavam do peixe sol. Observei, admirado, a estranha beleza desse peixe. Ele reluzia a água podre e fétida e ao redor dele, a água parecia pura e límpida. Existia uma particularidade nesse espécime que merece toda uma atenção: ele só morria por causa de uma doença, a gripe. ”


Claro, toda interpretação de sonho precisa de um contexto. Precisa de uma estrutura psíquica, de uma história de vida, que dêem suporte analítico a interpretação daquele sonho. Não conheço o dono do sonho e todas essas informações me são desconhecidas. Como encontrar nexo num peixe que morre de gripe? Ou nas imagens de um adulto com medo de ser julgado por fazer sexo ao fazer psicanálise? E o que dizer de calçar sapatos em pés já calçados? E a calcinha?

Uma pergunta que sempre me fiz e pode ajudar nesse esforço é: como, uma ferramenta tão especifica de análise, como é a da psicanálise, pode dar conta de casos tão diferentes, tão heterogêneos e se conceber, em fim de conta, como uma teoria explicativa de estruturas mais gerais do inconsciente humano. A mesma psicanálise que cuida das neuroses alheias cuida das minhas, que invariâncias psíquicas estão por trás dessa “funcionalidade” psico-analítica? Como pitombas podem virar esferas e “representar” tudo que é redondo no mundo? Como o sonho de outrem pode se transformar em nuvem com formas que dêem vazão a minha imaginação?

Como não tenho respostas, deixo aqui a esperança nublada do resto...

Jampa.

terça-feira, junho 19, 2007

Amor, Passado, Príncipe.


Tenho a mania estranhamente adolescente de guardar as minhas cartas de amor em um recanto. Tanto as escritas por mim quanto as recebidas. Narcisismo? Mais. Vez por outra, nas escondidas, recolho-me a uma leitura atenciosa dos afetos desfeitos. Eu acho um exercício valioso de treinamento sociológico. Objetivação do passado mais profundamente subjetivo. Os “te quero pra sempre ao meu lado”, “ nada na minha vida foi tão profundo do que o que vivemos nessa relação”, “te amo e acho que isso nunca vai acabar”, lidos com a distância do tempo, tem um efeito historicizante, e, e isso não é pouco, desnuda os invariantes estruturais de nossas sempre românticas expectativas amorosas, apaixonadas, colocando-nos secamente no fluxo instável de nossos afetos. Quanto mais sincero o amor, as palavras mais apaixonadas, mais e mais forte é o efeito crítico da percepção de um passado tão único, tão específico, que é estranho pensar naquelas palavras imaginando os sentimentos ali expressados. Sim, eles não existem mais.

Existe nessa bizarra prática algo de profundamente tragicômico: a gente lê, desfruta melancolicamente de um passado perdido para sempre, e, como não dizer, procura nela(na prática) e nele (no passado) refúgio para dilemas mais atuais que, para melhor efeito terapêutico, tenham fonte em mesma verdade profunda daqueles sentimentos de outrora. A história apesar de contextualizar também revela, mesmo que de maneira metafórica, invariâncias estruturais.

Um homem quer ser amado para ser príncipe, pequeno príncipe. Fazer da mulher a encarnação do desejo e do encanto é o imperativo de seu reinado amoroso, no passado e no presente. O bom pequeno príncipe revela-se quando descobre de maneira lírica a abstração que é amar loucamente.

Encontrando um aviador, o príncipe, sempre ingênuo, e por isso mesmo sempre amante, sempre apaixonado, deve pedir: “Aviador, desenha para mim uma mulher linda para que eu possa amar.” E ao olhar o desenho, e ver os traços delineando curvas, exibindo discretamente busto, sugerindo seios, o principezinho deve reclamar: “mas ela parece cansada.” Na esperança de contentar a nobreza do garoto o aviador deve fazer mais uma tentativa. Mais linhas em esboço para expressar com delicadeza as formas femininas. Uma longa silhueta ilustrar uma beleza helênica, proporcional, encantadora. “ Mas ela parece triste”. O aviador não perde a paciência. Reflete um pouco e lembra das ovelhas. Desenha uma bonita casa e diz: “ sua princesa está lá dentro”. O príncipe, feliz da vida, contenta-se com tamanha perfeição.

O passado morto, nunca morre de fato na gente. As emoções passam, as pessoas passam, a vida passa. Mas o menino príncipe guarda o desenho da casa na esperança de que um dia, a princesa saia dali de dentro, sem estar nem triste nem cansada, para depois disso, quem sabe, queimar as cartas do passado e dizer: não é mais meu, tudo isso que passou.
Jampa.
RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.

A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.

Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha ideia de família

viajando através da carne.

Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo, 1945

segunda-feira, junho 18, 2007

Impressões sobre Budapeste



Acabo de ler um romance de capa cor de mostarda. Gostei. Imaginei para ele diversos títulos como o piegas “Amar é como aprender uma nova língua” ou “Desamar e esquecer ”, ou “O pêndulo de José Costa”, ou ainda “ Sob o olhar de quem não assina”, e tantos outros que imaginei durante a leitura de Budapeste, de Chico Buarque.

A trama do livro se equilibra no fio tenso de uma crise conjugal contada a partir do universo de um "ghost writer": profissional que escreve para outros assinarem em seu lugar. Achei de fato ousado da parte de Chico tomar fio tão tênue para conduzir um romance. Perguntava-me a cada parágrafo se aquele mote manteria a narrativa viva até o fim. Para minha satisfação, o livro é um cuidado só. E, na medida em que tememos a ruptura desse fio de barbante que aparenta segurar a narrativa por um cadinho de nada, percebemos que as coisas vão acontecendo na vida de José Costa.


Como gostaria que as pessoas lessem o livro saboreando e descobrindo o enredo, não vou comentá-lo. Deixo aqui minha vaga e modesta opinião sobre esse equilíbrio tênue da trama como sendo a grande qualidade do livro. Sim. Pois a beleza, a poesia de que falam alguns críticos, provém dessa dilatação do romance que usa um foco aparentemente central como eixo da trama (relacionado à crise conjugal de José Costa e Vanda), mas que, ao atentarmos bem, só ganha sentido através da relação da personagem principal com a linguagem entendida em sentido amplo: sua profissão de escritor anônimo que cria um ponto de vista atravessado pela problemática do reconhecimento autoral, as línguas estranhas e familiares entrecortando as maneiras de conhecer e reconhecer o mundo e a si mesmo, os diferentes códigos culturais, tudo isso são espécies de personagens invisíveis do livro.

Exemplo disso se encontra nos momentos onde a confluência entre linguagem e percepção (da personagem) se exacerba, e vemos até José Costa se “tornar” Zsoze Kósta e Vanda aparecer germanicamente como Wanda.

Vale ainda ressaltar, entre tantas outras coisas do romance, a estrutura pendular na organização dos capítulos: a oscilação de José Costa entre duas mulheres (Vanda e Kriska) e duas cidades (Rio e Budapeste). Nela, os caminhos dos personagens se confundem com linguagens. O “real” é retido, modificado, construído pela palavra, e o jogo ficcional dialoga com ele mesmo, revelando, entre outras coisas, as artimanhas da própria literatura (do escritor), ao usar as palavras contra outras de maneira a exprimir idéias, sentimentos e anseios a respeito dele mesmo e do mundo. Claro, nesse caso, Budapeste também é livro bem cuidado, pois, sendo história contada por um “escritor de anonimato”, bela sacada de Chico, a artimanha dessa empreitada literária parece ganhar também um desvelar singelo. Prática sabida de todos, como quase tudo que é “segredo” no mundo social, o escrever para outrem se torna prática invisível porque, quanto mais sabida, mais (de)negada por ter que ocultar – e é justamente isso que garante sua funcionalidade e efetividade – a maneira que funciona sem ser desvendada. Assim, só um narrador empático ao mundo secreto dos escritores anônimos, um autêntico “ghost writer” poderia ver o que ninguém vê, sentir o que ninguém sente, e, porque não dizer, mostrar o que todos sabem mas ninguém mostra. Um verdadeiro exercício, vou arriscar, de sociologia implícita.
Jampa (será?)

sábado, junho 02, 2007

À Boa Viagem do Lindu de Oscar Niemeyer (Com a licença de João Cabral de Melo Neto).



Eis casas-grandes de engenho,
verticais, escancaradas,
onde se existe em extensão,
e a alma todoaberta se espraia.


Não se sabe se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Jampa
“imensos limites da praia”


ou ginástica(o parque), para ensinar
quem for viver naquelas bandas
um deixar-se, um deixar viver de
alma arejada, não fanática.

quinta-feira, maio 24, 2007



Pernambuco não para de surpreender. Veja o que encontramos no site http://www.pebodycount.com.br/, uma iniciativa que nos mantem em alerta para o volume de assassinatos no estado:
"Procurei ver onde Pernambuco se encaixava nessa tabela e, vejam só: considerando a média de assassinatos por armas de fogo entre 2002 e 2004 (3.639), superamos as baixas de 15 conflitos armados em outros países do mundo, entre eles, a Guerra das Malvinas e a disputa por território entre israelenses e palestinos."
Essa tabelinha do lado, indica isso: numeros de nossa miséria humanda. O que me faz lembrar uma antiga aula de estatistica que tive onde o professor perguntava: o que dizer daquilo que os dados nos dizem? Tarefa prosaica do sociólogo ficar lendo tabelas e "traduzindo" para uma linguagem mundana as taxas, as proporções e percentagens. Muita gente acha fria, desumana uma sociologia que se apoia em números. Para essas pessoas, ela oculta as histórias de sofrimento por trás da roupagem neutra dos simbolos matemáticos. Hoje tenho uma visão mais pragmática da sociologia e acho que numeros, conceitos, e outras ferramentas devem ser usadas conjutamente quando isso traz esclarecimento sobre o mundo. Mas não deixa de ser irônico perceber que certas questões "humanistas" só conseguem vir a tona com a medição e comparação desses "numeros de sofrimento e da dor".
Jampa

quarta-feira, maio 23, 2007

Depois da "fama"



Acho que desde o início desse blogue(Março 05, 2004) tomo de maneira razoavelmente constante os comentários dos amigos como mote paras outros textos. Depois de alguns anos nesse espaço, o mote da "fama" me faz ter vontande de avaliar um pouco dos objetivos desse lugar onde tantas vezes dividi inquietações e alegrias, tristezas e melancolias. Essse meu topus da "retorica de tensão" vem aqui e agora relembrar seu primeiro post e se perguntar se os objetivos ali imaginados foram cumpridos.

O que dizia?:

"Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as oscilações do espírito, caráter e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoável no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução."


Engraçado perceber que dizia com certo estilo, o que sabia não conseguir faze com destreza, escrever. Mas o fato é que o blogue continua sim(com ou sem mérito formal), acredito, cumprindo sua função de dividir minha miséria com a alheia. Apesar de restrita no alcance, nessa calçada da "fama" voltada para troca de idéias, onde o mérito que fica é a sujeira do concreto entre as unhas pintadas de esmalte vermelho(adoro essa imagem dos holofotes que iluminam as mentes tantas vezes debeis das belas atrizes), segue-se o caminho pouco estrelado do debate sobre o mundo (social, politico, artistico, etc.).

E nesse cineminha, o glamour quer dizer o seguinte: acordar cedo, estudar, ler, escrever, discutir idéias com amigos (pares da sociologia). Assim, vez por outra, quando por alguma circusntância da vida, for abordado por um jornalista por ser "filho de"( e as suposições que esse fato gera), poder dizer com humildade e orgulho do pai que, sim sou "filho de", mas com idéias e opiniões própias também uai! Lição aprendida em casa( inclusive com o próprio pai), mas ampliada e desenvolvida no mundo.

Jampa

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.