sábado, março 14, 2009

O bispo que lembrou

É importante trazer a opinião da CNBB sobre o caso da menina estuprada. Jõao, tá vendo, você foi ouvido por setores da própria igreja. Eles lembraram que o crime maior foi o estupro, que não deveria ser esquecido por conta do debate sobre a excomunhão:

"O presidente da CBNBB reclamou que, diante da excomunhão, a gravidade do crime contra a menina acabou sendo esquecida. “Parece que diante da excomunhão se esqueceu de quem cometeu crime”. Ele destacou que é necessária punição ao estuprador, mas não como “vingança”. (texto na integra aqui)

Acho que é isso. Segundo a CNBB (apagando o fogo do inferno acendido pelo bisbo Dom José) o que houve foi uma lembrança a respeito de um pecado que existe e muitas vezes é esquecido... Só não dá para apagar o que o padre escreveu.

quarta-feira, março 11, 2009

À Santa Morte de um bisbo: louvemos

Hoje pedi excomunhão por e-mail ( Via: Lula). Coisas da nova era. Foi minha primeira

vez. E a primeira vez a gente nunca esquece, não é seu padre?

Ora bolas, não creio em Deus e nutro certo desgosto pela Igreja Católica. Mas tendo a tentar ser tolerante com os principios defendidos pela Igreja. Eu tento, juro.


O contraponto do meu ateismo é meu respeito laico pela crença católica de meus familiares. Sempre transijo : preciso conviver pacificamente com dizeres racistas, com posturas anacrônicas, homofobicas, preconceituosas (que tem sua lógica na razão conservadora da Igreja) e não destruir laços e vínculos afetivos importantes para mim. Eis minha postura quando penso no que vivi com meus avós, por exemplo. Mas não, dessa vez não dá para respeitar. E me digo: ainda bem que meus avós já morreram e esse conflito vai ser evitado, que outro Deus os tenha.

O problema é que tenho aquela gostosa descrença provinda de realmente não saber, sabem? Então é fácil. Formado em sociologia, vejo-me descontente com a arrogancia insuperável da metafísica, tenho horror das palavrar fixadoras de essências improvadas e, provavelmente, improvaveis. E apesar de ainda escorregar muito pela fé escorregadia e teorreica das palavras começadas com maiusculas, eu sempre me corrijo quando pego-me falando em “realidades fixas” (na verdade creio que elas sejam mais “fixadas do que fixas”) , porque entendo que entre as palavras e as coisas existe, sempre, uma “política do entendimento”, uma “vontade de saber” que nos impele a se ater, também, sobre esse “aspecto de política” onde encontramos nossas mascaras , esconderijos recalcados de quem procura as “supostas verdades escondidas no mundo”.E quem procura e reconhece essas mascaras ainda tá bem, mas quem já tem respostas e ainda esconde que quer esconder certos interesses... ai meu Deus, que prezo tanto por Sua inexistência, tende piedade de Nós.

Entendi mais sobre a “lógica” da “defesa da vida” quando li o e-mail endereçado a nós, povo brasileiro, por um mensageiro-impiedoso-arauto-da-pseudo-inteligência-juridico-religiosa (Via: Idelber) do Deus do Bisbo Endiabrado Dom José do Cão Infernal.

Deus escrevera através Dele. E escrevera em letra Times New Roman. Uma mensagem muito bonita, onde falava que a justiça era coisa invertida. Aborto, sejamos justos, é um crime. Estupro de uma criança, ora bolas, é pecado pequeno. Mandou foto. Pense num Homem Bonito, Barbudo, Inteligente. Com aquela cara dele eu me disse orgulhoso: Homem, Adulto, Macho, sempre no comando!

Sem medo do eco, oremos: Morte Santa ao nosso bispo que defende com tanto vigor a morte santa para os outros...


Ps: O "Vinde a mim as crianças” mais conhecido dos padres, sabemos, é bem outro... o melodrama do aborto , o apelo ao feto morto, tem muito de hipocrisia.

sábado, março 07, 2009

Até quando a paixão?

Conversar. Pense numa atividade esquisita. Você vê suas palavras faladas se pederem na efemeridade própria do que foi dito.

Meu primo me explicou: “estavamos todos juntos e discutindo. Falavamos sobre o tempo de duração das paixões e eu havia lido em algum lugar que a ciência havia provado que a paixão dura apenas e no máximo 2 anos. Será que é verdade? Se for, o que diabos faço com a minha mulher?”

Bem, resposta para o que fazer com a mulher dele eu não tenho. Até porque acho que ela não precisa, necessariamente, de um homem para viver bem e feliz. E óbvio, como é coisa pessoal demais, cada um sabe e não sabe o que faz de sua vida. E quando se decide ficar mais seriamente dividido, ficando intimamente na vida com outra pessoa, seja ela do sexo oposto ou não, o tempo se torna inimigo e aliado das coisas do amor. Mas eu sei bem de uma coisa. Nesses debates acolorados entre primos e primas (netos da especialíssima Maria Pereira), eu começaria, pelo seguinte conselho de sociólogo:

Sobre o que consideramos “científico”, levemos primeiro em conta outros aspectos do debate. De bom grado, eu que não sou “cientista” nem nada, teria muito cuidado ao aceitar um texto de vulgarização como sendo algo que traduz com justeza os resultados e os inqueritos de uma pesquisa.

Muitas vezes, o que os cientistas realmente dizem (ou querem dizer) a respeito de dados, objetos e fenômenos é distorcido pela liguagem inapropriada usada para dar acesso ao maior número de pessoas numa vulgarizção. Não digo isso desmerecendo o trabalho da vulgarização que em si, é importatíssimo. Quando este é bem feito, não tenho dúvidas, ele é mais um instrumento que ajuda também a ciência ganhar seu melhor lugar em sociedade, lugar esse que deve ser sempre debatido, mas nunca questionado em seu alicerce de liberdade nas pesquisas, na produção de conhecimento, acredito.

Dito isso, convém mostrar um exemplo...


"seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses". Ela entrevistou e testou 5.000 pessoas de 37 culturas diferentes e descobriu que a paixão possui um "tempo de vida" longo o suficiente para que o casal se conheça, copule e produza uma criança. E então eu pergunto: E NO CASO DOS HOMOSSEXUAIS?? Se for parar pra pensar, a ciência nem ninguém explica muita coisa!!” (daqui)

O comentário vinha seguido de resposta de cunho minimamente sociológico que dizia:

“Olha, parece que a paixão não dura muito não. Se são três anos mesmo, como diz a ciência, eu não sei. Mas arriscando responder sua última pergunta, parece que o elo entre o animal e o homem está perdido para todo o sempre, se é que algum dia foi achado. Existe um abismo entre nós e o cachorro, por exemplo, que foi cavado pela linguagem e pela possibilidade da cultura. Então essa explicação baseada na biologia e reprodução que a ciência realmente propaga é uma furada e não explica tudo.”

Dos dois comentários tiro a seguinte reflexão: estou certo de que as coisas estabelecidas nas relações humanas tem uma natureza distinta da existente em fenômenos meramente descritiveis e explicaveis por metodologia indutiva proposta por certas “enquetes científicas”. É possível que a pesquisa revele algo sobre algumas manifestações daquilo que se convencionou chamar paixões num dado momento da história humana em diferentes culturas. Mas como todo “dado culturamente estruturado” as paixões possuem “dimensões artificiais demais de auto-apreciação” que exigiria do método de investigação utilizado, no mínimo, uma definição mais historicizada da categoria paixão. Isso revelaria, sem dúvidas, para desespero de certa ciência, muito mais coisas existindo entre a produção bioquimica de substancias geradoras de sensação de bem estar e encantamento do mundo no cerebro humano e as práticas culturais (namoro, encontro casual, traição conjugal etc.)que tornam possíveis a exitência daquilo que se convencionou chamar paixões, e só assim, encotrar aspectos mais específicos de sua “durabilidade”.

Conselho decorrente: nunca tente justificar atitude sua (sempre moralmente orientada por certos valores que podem também sempre serem questionados) por argumentos supostamente científicos de que certas coisas teriam tempo para acabar em nossas vidas amorosas (socio-culturalmente estruturadas). É conselho, não verdade. Da sociologia do amor, que não fiz nem quis fazer aqui, fica só o substrato que diz: “amar se aprende amando”, todo amor é construcionista, com mais ou menos paixão.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

O futebol e a morta

Cheguei no CFCH para ver uma defesa de tese sobre futebol. Eu havia visto a apresentação parcial do trabalho em seminário e fiquei curioso para ver o resultado final. Deixei o carro estacionado atrás do prédio, ao lado do Centro de Educação. Observei o espaço retrabalhado na estrutura lateral inferior do colosso vertical e pensei nas reclamações de meu amigo Bernardo acerca do desrespeito ao patrimônio moderno que constitui as modificações ali feitas. E ensimesmado refleti : eu sempre achei que o característico de nossa arquitetura - mais do que as linhas mestras desenhadas por um arquiteto, e redesenhadas pelos os usuários e outros arquitetos- eram as inumeras reapropriações e modificações realizadas ao longo dos anos sob o mero improviso das demandas práticas do espaço.

O pensamento veio rápido e, sem o vento típico do lugar, não mais voltou. Subi o elevador pensando coisas desconexas. Tentei inutilmente modificar meu Currículo Lattes na sala de computadores do PPGS. Saí da sala meio irritado e...

A mulher estava lá, no chão com a cabeça espragatada. Tomou o lugar da minha reflexão e o da de Bernardo (que estava lá só em meu pensamento). O CFCH virou um espaço simbólico marcado pelo suicidio desesperado de alguém. Por que não colocar grades, perguntaram alguns já acostumados com outras prisões civis. Por que não telas? Devolveu um de relance. Um outro, mais nobre, fala em crachás, mas é retrucado em seguida: “a maioria dos suicidas era estudante daqui.” Não houve tréplica.

Eu gostaria de ter assistido a defesa da tese até o fim. Mas tinha psicanálise, ou seja, o meio de campo estava embolado. Naquele campo molhado, cheio de lama, falei da morta e do impalpável pathos da morte. O futebol, apesar de ser vários (profissional, amador, pelada), perdeu o impacto. A torcida morbida continuava presente, olhando o corpo colado ao solo. A inerte se perdeu para sempre, sem drible de volta... "sem drible de volta" respondeu a analista. Sim, "sem drible de volta". Respondi...


sábado, janeiro 10, 2009

Balanço do Oxymore: fronteiras da história de um blogue

Esse post vem falar do aniversário simbólico do Oxymore. Apesar de não ser exatamente o aniversário do blogue, já que ele teve início formal em março de 2004, existe um momento histórico que é de longe bem mais importante do que a data formal que o inaugurou: a eleição do meu pai para prefeito da cidade do Recife em 2000 (volto a isso mais adiante no texto).

Claro, o Oxymore surgiu e se firmou da confluência de várias pequenas coisas. Poderia citar algumas, sem ordenar a importância de cada uma delas:

- a sugestão de um amigo que me convenceu de que um blogue podia ser mais do que um mero espaço para publicação do vazio interior das pessoas. Para isso, ele primeiro argumentou: “ rapaz, um blogue pode ser também um espaço para debates, troca de idéias, etc.” Depois ele me mostrou (leiam esse antigo mas atualíssimo comentário de Cesar no Don Quijote, o segundo post dele , sobre o “caso Edward Said” e seu posicionamento sobre o conflito israelo-palestino). Fui convencido de vez porque vi na prática um blogue funcionando como espaço onde se escreviam muitas coisas interessantes e inteligentes sobre os mais diversos assuntos.

- ter saído do país e ter ido morar e estudar na França. Estar longe me estimulava a querer manter algum contato com o meu Brasil falando coisas sobre ele.

- o blogue era uma maneira relativamente fácil de manter contato com as pessoas queridas do Brasil que saberiam um pouco do que fazia e estudava.

Mas apesar todos esses elementos serem importantes, acredito que o mais determinante para a forma e conteúdo que o blogue tem ainda hoje tenha sido outro: eleições de 2000 e vou tentar explicar as razões. Não sem antes explorar outras aspectos menores.

Do primeiro contato com o mundo dos blogues retenho meu problema incial. Eu precisei responder a seguinte pergunta: será que como Cesar eu teria coisas interessantes a dizer sobre acontecimentos do mundo, sobre filmes, livros lidos, etc. ? Na minha cabeça a resposta era clara, eu não tinha. Ora bolas, de alguma forma o Oxymore é o resultado da não aceitação de minha resposta. Até hoje ele é a prova (para mim) de que a consciência de minha prórpria incapacidade não me serve como desculpa para nada nessa vida. Tanto, que a boa pergunta a se fazer hoje é de que forma o blogue se tornou um elemento de superação pessoal que continua funcionando para além de interesses meramente individuais meus.

Apesar de ter mudado muito nesses quase cinco anos de funcionamento, o blogue sempre manteve um certo padrão. Acho que hoje posso dizer que a linha diretriz encontrada aqui foi delineada já no seu primeiro momento de existência. Fiquem à vontade para discordar, mas, pessoalmente, eu vejo todo sentido em afirmar que minha atividade blogueira foi um esforço para me situar diante das novas configurações que se colocavam para mim naquele momento inicial. Eu quis fazer desse esforço algo de valor para um público mais amplo que meu próprio umbigo. Sinceramente não sei se consegui. E talvez por isso esse post faça ainda mais sentido.


O que fiz das limitações e medos inciais? Eu diria o seguinte: por conta de minha insegurança (e de incapacidades concretas) eu assumi uma postura que designaria mista na produção dos textos que hoje formam o conjunto até aqui postado. Mista porque ela se expressa através testemunhos pessoais que gostariam de ter um valor minimamente coletivo. Explico isso.

É preciso reconhecer que eu ainda não sabia ao certo a amplitude que um blogue poderia ter. Terminei por conta disso dando uma certa “amplitude quase familiar” aos textos, uma dimensão quase íntima contida nas recordações que nada mais eram do que posts direcionados aos amigos citados naquelas lembranças e que, na minha cabeça, eram os únicos que leriam os textos.

Mas essa tentativa de recordar foi algo mais também. Trazer minhas reflexões sobre coisas vividas, normalmente as que tivessem mais a ver com minha atividade intelectual, era uma maneira de buscar desmistificar um pouco minha própria trajetória para mim e para os outros (os amigos). Essa maneira de me relacionar com os textos tinha uma razão de ser que funcionava como modus operandi da produção. O que estruturava\estrutura o blogue era\é uma espécie de consciência difusa que me fazia/faz sentir fazer parte de maneira um pouco diferente da história política recente do país.

Na verdade, vejo hoje que na minha cabeça a única contribuição individual de interesse coletivo minha para um espaço como é o do Oxymore seria a o do testemunho. O que de interessante eu tinha para dizer só poderia vir do fato de ser filho de um dos principais expoentes da política de esquerda local. Mas é preciso entender isso de uma forma muito específica. O mais impotante não é o fato, mas aquilo que está escondido por trás dele. A importância da trajetória do meu pai no meu blogue estaria menos na posição por ele ocupada(veriador, depudato, prefeito), e mais no caminho, no percurso de transições bruscas que as vitórias políticas do PT e de meu pai desencadiaram na minha própria vida. O Oxymore tem sido através de mim um retrato social de alguém que sintetiza internamente um pouco das tensões das disparidades sociais do Recife.

O que quero dizer com isso? Que o interesse maior do Oxymore para o seu autor está naquilo que ele conseguiu fazer até agora. A meu ver o grande mérito do blogue foi o de expor alguém que, mal ou bem – através dos anseios, oscilações, afirmações, comentários, análises, erros de português, do estilo pouco convencional, dos temas tratatos, dos receios internos de falar sobre alguns assuntos – enfim, expor alguém que condensa, pelos defeitos e qualidades, os traços de uma trajetória de ascensão social e política num país estruturado e se desenvolvendo em meio a um fosso social incomensuravel.

Imaginei que simplesmente contar coisas a partir desse ponto de vista, do de alguém que evoluia em tensão dentro desse processo socio-político maior, que desse contar e contar-me num work in progress de si e das inúmeras “tensões sem síntese” geradas pelo rebuliço de me ver mudando de classe social, de estatuto, de ambições, imaginei que disso tudo sobraria algo interessante para quem pudesse e quisesse se servir.

No dia primeiro meu pai deixou de ser prefeito da cidade. Talvez ele não tenha muito idéia de como o avanço dele balança firme com o resto de nós, os da família. É provável que o impacto da trajetória dele não seja o mesmo em cada um separadamente.O Oxymore, nesse seu tempo de existência, tentou resgatar e registrar os aspectos mais significativos dessa relação implícita que é tão mais evidente quando os elementos que a fundam se dissipam no passado, mesmo que ainda recente.

Lembro-me bem dos tempos em que já no segundo mandato de deputado dele (ele foi veriador por dois anos, e depois três vezes deputado estadual), ainda morávamos na UR-6 por alguma razão. Qual seria? Por que ficamos nesse lugar onde amigos de infância entram no crime e se matam entre si? Seria a presença dos meus avós ainda então vivos? Seria um sentimento difuso de culpa que nos dizia que sair do suburbio seria uma espécie de traição social? O fato é que nossa condição social havia mudado. Daquele ponto em diante, tudo era possível. Meu pai ser prefeito da cidade. E eu criar um blogue. Lugar onde eu não quis confudir a lógica das minhas coisas com as coisas da lógica (minha e dos outros). E que hoje comemora um aniversário simbólico, com toda coerência antinômica desse mundo que se chama o Oxymore.
(continua... em breve)

sábado, janeiro 03, 2009

Balanço ...

Em breve, o Oxymore trarah balanço de seu tempo de vida. Ele vem um pouco retardado por andanças em além mar, porém com muita vitalidade... Afinal o blogue se segura desde 05/03/04, quando seu proponente se viu impelido a dizer algo de si ... e depois do que ela via e pensava a respeito de coisas do Recife, do Brasil entre outas paragens. Nesse entretempo, feliz tudo que passou... Natal, virada de ano... para amigos e simpatizantes do blogue.


segunda-feira, dezembro 15, 2008

"Entrevista" com Gilmar Mendes Links

Para quem vai acompanhar a "entrevista"de Gilmar Mendes no Roda Morta na TV Cultura hoje à noite a sugestão é antes ler o post do Idelber, passar pelo do B J, e depois, se tiver uma pergunta a acrescentar, fazê-la ao próprio Gilmar Mendes, aqui. Façamos, se a estrutura do programa permitir, o papel que os jornalistas escolhidos dificilmente farão. Vamos lá. Vale a pena tentar.

sábado, dezembro 13, 2008

Teste da foto: memória presente de algumas veredas



Hoje encontrei por acaso com alguém inesperado. Luciana, talvez minha primeira namorada. Não lembro nem se a beijei um dia. De recordação presa na memória, mesmo, só ficou aquela imagem da casa dela, na frente de uma praça que era um pouco distante da minha, na UR-6.
Encontrá-la e ver esta foto aqui hoje me deixou reflexivo...


Já tentei lembrar o que diabos estavamos vendo nesse dia. Mas desisti. Acho até que Diogo já me lembrou uma vez, mas minha memória é por demais seletiva. Já apaguei da minha a recordação dele. Talvez alguém falando sobre marxismo, ou sobre a sociologia pós-estruturalista, ou sobre alguma bobagem dessa que se vê num auditório cheio de estudantes de graduação em ciências sociais. Mas nada disso importa, mesmo.

Na foto temos, dos que mais convivi, da direita para esquerda (a ordem é quase sempre importante): Dosta, Frávio, Cesar, Jampa e Diogo. Logo atrás, Cunegundes e mestre Giva... Acho que Simone está à esqueda, mais ao fundo, sempre de preto. E penso reconhecer Adriana ainda mais atrás , mas não tenho certeza alguma.

***

Cada um com seu cada um, dizia um amigo da UR-6. Ele repetia essa frase em alguns tipos de situação. Um amigo te traiu, "cada um faz o seu. Cada um com seu cada um. Não é assim não?" Eu achava incrível aquela franqueza individualista. Era uma coisa tupiniquim, violenta. Não confie em ninguém. Seja auto-suficiente, assim você sobrevive melhor. Ainda hoje acho isso raro. Não sei bem a razão, mas essa frase me ficou e acho que individualismo é isso: "cada um com seu cada um" E depois, para piorar, tendo a pensar que essa maneira de ver sempre acompanha um certo naturalismo conservador "não é assim não?". O individualismo, para mim, é fruto do medo naturalizado do outro.

Hoje percebo que aquela maneira de falar de meu amigo da UR-6 era um código. Decifro-o agora: para o pior, que ocorre tão freqüentemente, é sempre bom estar preparado. Cada um com seu cada um é uma vacina que prepara o espirito para a virose chamada mundo. Uma vacina que parecia proteger contra a certeza de um futuro incerto, sem perspectivas onde quem vence é sempre um traidor. Lugar hobbesiano, onde em todos os momentos se vivencia a luta do bem contra o mal, onde uns são bons e outros são maus. Um universo sem muitas palavras "não é assim não é ?"

***



A foto do post traz um mundo sobreposto a esse, espaço onde encontrei as palavras para falar sobre o silêncio que aquele outro sem foto evoca. Uma descrição do meu visual semi-punk, pós-nietzschiano, peseudo-filosófico, pode, com o esforço amigo do leitor, denunciar a tensão existente entre invisíveis co-existindo alí. Em mim, naquela cabeça raspada com uma mecha de cabelo correndo até a orelha esquerda, os dois mundos se degladiavam. E o look debochado, nem totalmente marginal nem perto de ser convencional, era uma maneira de expressar toda a violência daquele momento de aprendizado.

Incorporar um vocabulário esquisito, formal, era também senão esquecer, impultar ao mundo silencioso, aquela nova maneira de falar e entender as coisas, inclusive do velho mundo, cheio de girias e palavrões vulgares que, naquele contexto, só queria calar.
A foto traz amigos que hoje mal ou bem, ou mal e bem, estão aí inseridos nesse mundão a fora. Professores universitários, pesquisadores, empregados de orgãos públicos, etc. Da UR-6 quase nunca tenho notícia. Luciana, a encontrei no parque da Jaqueira, ela tem uma pscina de bolas para crianças bricarem. Do meu amigo autor da frase que deliniou minha recusa institiva à filosofia complexa que enfatiza o individuo como base analítica da vida social (sociedade, such a impossible thing to think!), soube apenas que o irmão dele foi preso por traficar cigarros. Mas já se soltou e vive uma vida muito parecida com a minha, onde cada um faz o seu, não é assim não é?

sexta-feira, novembro 28, 2008

Levis-Strauss: Homenagem Estrutural aos seus 100 anos

Hoje, sexta feira 28 de novembro de 2008, comemora-se o centenário de Claude Lévis-Strauss. Para quem não conhece a obra do famoso antropólogo francês é uma ótima oportunidade de fazer o primeiro contato com os escritos do pai da antropologia estrutural. Para quem domina o francês a dica é dar uma olhada nas homenagens do Courrier De L’ UNESCO. O velhinho, longe de ser o Papai Noel, foi estudioso erudito atento dos mitos de diversas culturas. E é com essa imagem que ele aparece vivinho da silva em uma homenagem feita pela TV Arte. Vale a pena assistir o vídeo baseado no Tristes Trópicos. No site da Arte você também encontra discursos e textos de Levis-Strauss sobre a relação entre raça e cultura. Um deles podemos inclusive ouvir o áudio. Em português, Ana Cesar lembrou da comemoração.

Senti falta de comentários críticos, mas acho que essas datas comemorativas são assim mesmo. A ciência fica um pouco de lado, talvez infelizmente, e fica o mito... se conseguirmos sobrepor essa linguagem e decifrar a espinha dorsal que a estrutura, fica aquele saborosa sensação de que apesar da continuidade, o mito Lévis-Strauss não é apenas um invariante estrutural dos outros mitos que ele tanto analisou a ponto de propor um método universal para dar inteligibilidade a todos eles!

quinta-feira, novembro 27, 2008

Desvio narrativo ou... o dinheiro dado as putas

Desci as escadas estreitas. Já era quase noite e a Av. Conde da Boa Vista parecia a mesma de sempre. O que digo? As calçadas agora são um pouco mais largas, feitas com tijolos retangulares de um colorido fosco, encardido. Aguns deles são de um vermelho esbraquiçado pela poeira. Ao pisá-los imagino sangue coagulado com terra em cima. As pessoas são tijolos. Olho para uma menina na rua, uma garota de rua, como se dizia. Agora ela está em “situação de rua”. A liguagem são tijolos.

Fico com pena da criança. Lembro que ela é uma criança. Ela tem pouca cor e sorrisos cinzas a enfeitam por contraste quando se confrontam ao seu olhar. Algumas pessoas tem ainda coragem de encarar. Meu sorriso é cinza. Dela não se conhece o riso. E isso é julgamento meu. Sempre sou claro, conciso, moral, miserabilista. Rir também não é meu forte.

Não estou no meu carro, isso é raro. E agora me surpreendo vendo as pessoas dentro dos automóveis. Será que sou assim também quando olhado de fora? Aquele homem de oculos. O que ele faz? Ele alonga o braço direito fazendo uma pequena inclinação para baixo com o ombro, suponho que muda a estação de rádio. Nada mais normal. Logicamente está voltando para casa depois de mais um dia trabalhando sei lá onde. Será que esse cara é feliz? Tem filhos? Afasto-me da minha síndrome Marta Suplicy. Afinal, o cara pode estar satisfeito com a vida de muitas formas.

Mas e aquela menina alí. Uma patricinha, deduzo. Deve estar falando com o namorado. O jeito de sorrir ao celular, de morder o pedaço da unha olhando no retrovisor interno e de não dar a mínima para o engarafamento que tira a paciência de outros motoristas menos distraídos, tudo denucia o namorico da moça. Uma formosura.

Sigo andando. Um ônibus abarrotado, ótima amostra representativa. Não lembro a última vez que entrei numa lata apertada daquelas. Observo do chão o jogo de janelas. Uma mulher alta e bonita sentada perto da porta dianteira projeta seus olhos para fora, ela os move em direção ao que se passa em baixo. Alí, numa Mercedes Bens cinza, um homem conversa com uma menina sorrindo no banco traseiro. Ele usa para isso o mesmo artificio da moça apaixonada, mostrando que os espelhos de carro tem muitas funções latentes.
Fora dos veículos as pessoas olham e não percebem a divisão espacial injusta contida entre as duas janelas, uma alta, transparente e panorâmica, a outra baixa, escura, mas automática e climatizada.

Alguém com uma cara de tijolo vermelho vem perdir esmola no sinal ao homem de janela automática. Esmola é dinheiro encardido, é compra violenta da vergonha esquecida pelo hábito de pedir(e de dar e não dar). O vidro desce e uma nota de cinco reais aparece, sai da mão limpa e passa para uma suja, de cor escura como a do encarnado calçamento. Somos cristãos, compadecemos limpos da miséria alheia empodrecida. Dar dinheiro não é um gesto de compra, diria. Porque essa troca entre a culpa e o cinco reais não revela a elevação maior de nossas relações humanas.

Continuo minha caminhada. Penso no dinheiro. Faço uma pequena digressão filosófica sobre a natureza humana... Da força de trabalho ao corpo da prostituta, do carro importado à passagem do ônibus superlotado, do valor das coisas ao das pessoas, tudo está mediado pela monetarização de nossas sociedades. No caso das putas, essa coisa do dinheiro as coloca em situação ambivalente: na prostituição a relação entre os sexos está submetida absolutamente ao ato sexual( ou sensual no sentido mais amplo), a mulher está aí rebaixada à sua generalidade sem especificidade humana própria, ela representa o que cada exemplar genericamente pode oferecer (nenhum aspecto específico de sua personalidade é levado em conta). O dinheiro aí, como na psicanalise, tem um papel fundamental porque ele é o equivalente econômico dessa relação reificante. Ele, como a mulher prostituta, é o tipo genérico dos valores econômicos. Simmel tem uma frase lapidar a esse respeito:
“ O nível inferior da dignidade humana é alcançado quando, por uma retribuição tão anônima, tão exterior e objetiva, uma mulher concede o que ela possue de mais íntimo e mais pessoal e que não deveria sacrificar a não ser por um impulso totalmente individual, contrabalançado por uma doação não menos individual do homem em relação a mulher”( Simmel 2006, p.52)*.


Deixo a filosofia. Na verdade não existe ambivalência alguma. Chego ao fim da minha caminhada inesperada. Olho meu carro parado na garagem de casa. Vejo-me no retrovisor... as olheiras são o contorno do passeio que fiz. Elas delineiam também o peso dos meus pés calçados por um par de tênes Nike, pesados e sujos com a poeira das culpas de minha condição de classe média.
*Gerg Simmel (2006), A Filosofia do Amor, São Paulo, Martins Fontes.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Posições: Cesar, Jampa e uma tese sobre Graciliano Ramos

Pé na Jaca no meu Eunismo blogueiro ( entre amigos)



Minha amiga Wander me enviou recentemente as matérias da Bravo! (não encontrei o link da matéria mesma, mas quem quiser pode me pedir que mando por e-mail) de março de 2003. Naquele momento se comemoravam os 50 anos da morte de Graciliano Ramos e a revista dedicara a capa e alguns artigos ao autor de Vidas Secas. O título presente na capa: “A resistência do camarada Graciliano”. A ele se seguia um complemento: “ Começa a ser relançada a obra do militante que dispensou o discurso panfletário para se tornar um dos maiores romancistas brasileiros”. Ok.

A matéria agora me interessa pouco. Na verdade, a lembrança da amiga me fez relfetir sobre alguns elementos pessoais que julgo importantes sobre construção de minha tese. Como eles não poderão aparecer de forma real no corpo de meu trabalho, aproveito o tom sempre mais egocentrado do blogue para fazer de mais um dia improdutivo de trabalho, um momento de dividir os dilemas e os percalços de quem se aventura numa empreitada intelectual como esta. Por que diabos escolhi estudar a obra de um autor tão canonizado?

Confessaria que a culpa foi de meu amigo Cesar. Eu cometi esse desvio em direção à literatura por pura falta de conhecimento e pela interlocução que estabelecemos e que continuamos até hoje. Fui ludibriado pelo amigo. E agradeço.

Mas até aqui nenhum problema. Nossos amigos tem todo o dever de nos ajudar a encontrar nossos caminhos, mesmo quando eles não estão conscientes (nem nós) do impacto deles em nossas vidas. Existe algo nessas influências que não são apenas do domínio do anedótico, elas entram no terreno do emblemático. Daqui em diante é esforço de situar minhas tomadas de posição intelectuais (digamos assim) em função das que eu imaginava serem as dele (de Cesar), formulando assim uma parte, não a menos importante, do que me levou chegar até aqui.

Hoje meu trabalho se encontra numa situação interessante e delicada justamente por conta do tipo de relação hesitante que tenho com a literatura (sobretudo em relação à crítica literária, domínio do conhecimento que detém, no Brasil, e não só aqui, uma espécie de monopólio sobre o discurso literário). Na minha busca inicial por legitimação num universo até então desconhecido por mim (o acadêmico), o modelo que tentei seguir, em certo sendido a minha revelia, era o de uma intelectualidade tal como a que incarnava o meu amigo teuto-sergipano. E não creio que isso tenha sido ruim.

Foi assim:

Foi com ele que ouvi pela primeira vez nomes que desconhecia, como o de Roberto Schwarz e, pasmem, Antonio Candido. Foi depois dele que li um pouco desses autores. Sim. E através dele, por conta de suas visitas constantes e intermináveis as bibliotecas, que percebi que o conhecimento não vinha sozinho para nós durantes as aulas. Sim, obrigado. Essas coisas se aprendem. E para mim é sempre engraçado ouvir de outras pessoas testemunhos parecidos com o meu.

Tem mais. A partir dele fui modulando as percepções que eu mesmo tinha e tenho sobre o que a literatura representava para mim. E ter ficado na sociologia parece-me uma maneira embora lacunar, legítima de tentar consolidar as especificidades de um tipo típico de intelectual a habitus clivado. Eu escolhi a literatura, em outras palavras, para poder aceitar mal ou bem as impressões de Jampa sobre Jampa. Eu estou permanentemente seduzido por uma visão de mim mesmo como sendo a de um “intelectual pela metade”, formado pelo esforço de vencer pelcaços, e não pela positividade de um percuso escolar e acadêmico impecável que corroborariam com as expectativas do mundo sobre minha própria intelectualidade.
Essa visão de intelectual completo, pelo recurso da proximidade, quem me dava era ele, Cesar. Não que ele fosse de fato (ninguém é completo, sabemos), mas o modelo, digamos assim, do que era ser mais inteiro em termos de dedicação e obtenção de resultados estava para mim delineado naquele sergipano de estirpe recifense.

Essa impressão de imperfeição em mim tem portanto ligação com minha relação de amizade com o amigo (poderia citar outras pessoas como Diogo, ou Mestre Giva no caso dessa minha gênese intelectual, mas fico com Cesar para não complexificar demais o sistema). Tal impressão continua e se acentua no caso da tese na medida em que sou forçado a forjar meu discurso sociológico contra a autonomia perniciosa da crítica literária. Crítica literária que é a profissão par excelence daquele que me enfiou sem saber nessa enrascada dos diabos.


Devo uma explicação quanto ao "perniciosa" dito a respeito da autonomia da crítica literária. Não tenho nada contra a crítica literária e muito menos contra o meu amigo Cesar, muito pelo contrário, retiro dos dois (da crítica e de Cesar) grande parte de minha motivação para dar cabo de meu trabalho. Mas a elaboração da autonomia disciplinar sobre o objeto literário impele meu trabalho a margem do processo de inteleção das obras. E isso porque a crítica é aparentemente invencível, uma vez que, como crítica da sociologia, a crítica literária está sempre se definindo e se redefinindo em refinamento e autenticidade. E isso na medida em que concebe sua autonomia, em redundância cabida, no estudo do que existe de mais autonomo na literatura: suas formas. Quem em sã consciência ousaria dizer que em se trantando de estudos literários, a sociologia não deva ser apenas uma “visão de mundo” que apoia à critica no desvendar dos mistérios literários? Eu heim!


Pois bem, noves fora minha “ousadia” de tentar tratar a obra de Graliano Ramos pelo seu contexto, coisa batida, mas também menosprezada e pouco feita (tendo em vista aqui o desnível do tratamento dado entre os demais elementos do Arquivo Graciliano Ramos no IEB e o dado à serie Recortes, onde se encontram recortes de jornais feitos pelo próprio autor sobre as opiniões críticas aparecidas em jornais sobre sua obra, esta última parte é a que eu estudo), eu ousaria dizer em meu favor o seguinte: em meio a deficiência e a leituras precarias fica a idéia de uma preocupação legítima com os elementos que compõem uma obra para além dela e de seu autor. Coisa que é também batida, sem dúvidas, mas que raramente é feita e que pode ter sua valia independentemente do refinamento alcançado no tratamento analítico da obra ela mesma.


E nesse breve percurso, arrogo-me a dizer: dos muitos escritos que li sobre a obra do Velho Graça, de tão tematizados por adjetivos repetidos, eu diria que esse volume de crítica dedicada a sua obra dá à idéia de “lugar comum” uma semântica toda apropriada onde a redundância chega a ser uma coisa desleal, ela reforça em pleonasmo as coisas que são sempre ditas e reditas a respeito do autor. “Obra indissociavel do homem”, “homem engajado que não se rendeu aos ditames da hortodoxia do realismo socialista”, “um dos maiores romancistas brasileiro”. Não diria que essas coisas são mentiras, ou que estão erradas. Mas elas vem sendo ditas desde do falecimento do autor, em 1953. Por que não se fala no processo de legitimação pública pelo qual sua obra passou durante a comemoração do seu aniversário de 50 anos largamente registrada pela imprensa da época? E depois, com mais intensidade, quando sabida a gravidade de sua doença, no aniversário de 60? Nenhum estudo dessa ordem tiraria dele(Graciliano), a meu ver, a importância e a relevância de sua obra literária(atribuida pelo julgo da crítica), só acrescentaria, mais uma vez a meu ver, um conhecimento sobre os mecanismo que toda obra (grande ou pequena em valor artístico) tem que enfrentar para se tornar grande ou pequena na representação que nos fazemos dela socialmente (o que inclui também, ora bolas, seu valor estético).

Assim realizo e explicito esse meu diálogo implícito com meu amigo Cesar. Um diálogo tão latente quanto a sociologia que analiso na obra e nos leitores que registraram opinião sobre os livros de Graciliano nos jornais. Neles (nos diálogos implícitos) se revelam aspectos de um caminho percorrido (não todos, e nem os que foram salientados se esgotam em si mesmos). Devem continuar ocultando muito(ainda os diálogos), mas, no blogue como na vida, é precisso confiar no processo. E continuar executando as etapas, e se possível melhorar o que produzimos levando em conta o que é possível fazer ao condiderar nossos limites atuais. Assim, mais um texto se finda, mas deixa em aberto, como não poderia deixar de ser, o que deve ser desvelado desse esforço de tentar desvelar tantas coisas.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Para não dizer que não postei...

Querid@s,

estou sem conseguir parar para postar... Então para não deixar vocês na mão (com o perdão do trocadilho de mau gosto), trago a melhor indrodução de filme pornô jamais produzida.



Via: Na prática a teoria é outra

domingo, novembro 09, 2008

Impressões sobre o Pré-ALAS





Participei como platéia do encontro chamado Pré-ALAS. O ALAS é o congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia que ocorrerá ano que vem no Rio de Janeiro. O evento que se realizou entre 03 e 05 de novembro aqui no Recife tinha como objetivo ser uma espécie de aperitivo ao congresso maior que estar por vir.

Vi pouco e não poderia emitir uma opinião mais ampliada sobre o evento como um todo. Mas gostaria de tecer comentário sobre três atividades as quais tive acesso. A mesa redonda “Uma agenda para os estudos sobre crime e violência no século XXI”(04/11/08, das 8 ao meio dia no auditório do CCSA), o grupo de trabalho (GT) “Pensamento Social na América Latina” (04/11/08, 14 às 17 horas no CFCH) e por último a mesa redonda “Democracia, desigualdade, participação e novos atores na América Latina” (05/11/08, 8 ao meio dia no Centro de Educação).
Opinião sobre mesa redonda sobre crime e violência: agenda social, agenda sociológica


Na mesa redonda sobre a agenda de estudos sobre crime e violência o que mais me impressionou foi perceber o vínculo intervencionista das preocupações das possíveis “agendas científicas”. Se as ciências sociais surgem historicamente em parte por conta do volume e densidade que as sociedades industriais deram à morfologia de suas cidades, e o sem número de fenômenos sociais que vão aparecer em decorrência disso, não deixa de ser interessante perceber o quanto uma idéia de “medicina social” (conhecer para intervir e sanar problemas) permeia os objetivos das agendas ali propostas. Nada contra.

Mas é interessante porque perigoso, eu acrescentaria. Essa definição de agendas nos moldes da relação de heterônomia entre sociologia e política pública de segurança define contornos políticos (na verdade sociais) à agenda científica que passa a pensar seus objetos em função de ideais de diminuição das taxas de criminalidade e violência. Mais uma vez, nada contra o uso do conhecimento sociológico nas agendas políticas dos políticos e governantes. Porém é preciso convir, é preciso ter preocupação com a ciência e sua função específica principal cujo a qual, creio eu, ainda ser aquela de produzir conhecimento sobre as lógicas de funcionamento do mundo social.

Se esse meu receio for real, ou seja, se for verdade que aquelas proposições de agendas de estudo foram estruturadas apenas em função de vínculos com a demanda pública por segurança, numa situação como essa descrita, parece-me que é factível aceitar o declínio da distinção instituinte e instrutiva dada pela própria sociologia entre um problema social e um sociológico. Aparecendo de maneira dissolvida nos moldes para lá de perniciosos dessa razão sociológica (uma sociologia aparentemente desprovida de sua função latente), a sociologia do crime visa encontrar soluções para o crime e para violência (criminologia) sem muitas vezes se ater ao entendimento das lógicas, mecanismos, formas de funcionamento do mundo social que engendram “situações de violência”, “formação de criminosos”, “culturas do crime” etc. Estuda-se polícia, estudam-se políticas de segurança (e querem se estudar seus impactos, onde?, na diminuição ou não das taxas disso e daquilo), mas, e isso me intriga, estudar o caldo sócio-cultural que estrutura essa agenda parece não interessar ninguém. É démodé. Podem me chamar de leigo e conservador, de desconhecer as teorias da janela quebrada ou de suas semelhantes, mas fazer sociologia para mim sem falar sistematicamente de aspectos de socialização sempre vai me parecer algo como fazer bolo de trigo sem colocar margarina: produz algo seco, ruim de digerir e, last but not least, não parece bolo.


Jessé Souza: discurso inaudível, sociologia morta e seus diálogos sem interlocutores



O principal personagem do grupo de trabalho sobre “Pensamento Social na América Latina” e da mesa redonda sobre democracia e desigualdade tem nome: Jessé Souza. Primeiro por fazer uma exposição crítica à idéia de pensamento social num grupo sobre pensamento social. E depois por defender idéias fortes como é a de ralé estrutural, que por sua vez reveste uma crítica por si só já instigante, onde elementos culturais fortemente presentes e aceitos como sendo parte de nossa brasilidade são colocados como elementos de um “mito do Brasil” a ser triturado pela ciência.

O que achei extremamente interessante nos dois momentos foi a impossibilidade de comunicar que se externalizava na hexis corporal de Jessé Souza ao expor, sempre com muita clareza e destreza, o seu pensamento crítico. O suor, os suspiros de impaciência com apresentações que reproduziam contextualizações teóricas de pensamentos teóricos, traduziam o apelo da consciência de alguém que sabia estar falando para um auditório onde os principais interlocutores (os integrantes da mesa) eram surdos ao que ele dizia.

O problema é que se por um lado Jessé Souza tem toda a razão de se colocar da maneira que se colocou(dando argumento-patada em todos), o limite de sua postura está, a meu ver, na pouca ênfase dada às propriedades sociológicas de seu discurso sociológico. Aceitando discutir os resultados teóricos de seu estudo sobre a ralé estrutural como mais uma teoria sobre o mundo social, perde-se de vista o essêncial de sua crítica, caindo-se assim no mesmo equivoco que torna inaudível a especificidade do discurso que deu vazão a produção dessa teoria: ou seja, o sociológico (Jessé de Souza) não enfatizando que é com sua maneira de investigar que ele produz crítica, ou seja, através de seus métodos, seus recursos técnicos de pesquisa – entrevistas, análise estatística, análise de documentos, uso de conceitos, etc. –, ele perde a oportunidade de interar e fazer entender que a verdade e não apenas a veracidade de suas proposições depende do bom uso desses procedimentos.

Nesse sentido acho típicas as exemplificações de alguns elementos de pesquisas dados durante a sua exposição. A mais característica sendo a que visa explicar a tendência ao fracasso escolar de alunos oriundos da ralé. A capacidade de concentração é algo que se aprende, diz Jessé Souza. Ele acrescenta depois de forma imagética que as pessoas de classe média, quando na idade escolar aprenderam a se concentrar em casa, vendo seus pais lendo jornais e livros, descobrindo a concentração como algo possível.

(O que vou dizer agora pode ser uma injustiça produzida pela temporalidade limitada de uma apresentação de meia hora num evento como o que comento. Mas julgo da pertinência dessa crítica por não ter percebido em nenhum momento uma preocupação que levasse o debate para esse ponto que trato.)



Pois bem, Jessé usa nesse exemplo sobre a concentração um argumento estruturado dentro de uma lógica bourdieusiana do A Reprodução. Parênteses para dizer que esse é um livro aparentemente mal lido no Brasil tendo em vista as acusações tolas de estruturalismo que detêm tanto o interesse de nossos debates acadêmicos. Nesse argumento a inteligibilidade do fenômeno da “burrice” (dos não atentos em sala de aula) aparece quando se sobrepõe (depois de descrições muito detalhadas no caso das pesquisas que deram origem ao livro de Bourdieu e Passeron) a congruência ideologicamente camuflada das estruturas da cultura dominante (porque legitima, a ecolar) e a da classe dominante ( a cultura das famílias mais abastadas sociocultural e economicamente). Até aqui tudo bem.
O problema é que se você omite, como tende também a fazer Jessé Souza, a importância da análise estatística, da etnografia que descreve as relações de aprendizado no seio familiar e escolar, da construção de uma relação específica no uso dos conceitos para a construção de um argumento sociológico interpretando essa base material (por que usar a estatística para “explicar” ou dar “conformidade” ao dito real que a teoria trata?), você acaba por ratificar as “razões da inaudibilidade” do seu discurso. Por isso minha simpatia pelo discurso de Jessé Souza é grande, mas parece esbarrar naquilo que ele critica só até certo ponto, seu vínculo com uma maneira de refutar e conjecturar sobre o mundo social vinculada ao modo de operar do pensamento social.
Atualização: coloco abaixo o texto de Diogo Valença que trata das impressões dele do evento. O texto está nos comentários, mas julguei que ele ilustra bem e dá uma perspectiva a mais (mais completa) ao que disse e "de coup" que era de interesse da maioria.

Jessé Souza e a arrogância da "grande teoria" (por Diogo Valença)
Gostaria de tecer um rápido comentário às impressões do meu amigo Jampa sobre o Pré-ALAS. Primeiro, queria fazer um reparo. O próximo ALAS não será no Rio de Janeiro, mas em Buenos Aires. Quanto à mesa sobre criminalidade, gostei da visão crítica de Jampa e tendo a concordar com o cuidado que ele teve na defesa da especificidade do ponto de vista sociológico. Ele não desconsidera ser legítima a preocupação prática na sociologia, mas tenta colocar as balizas norteadoras desse intento. Como envolver a sociologia em problemas práticos? Eu acho que isso pode ser feito, mas deve ser feito dentro da contribuição que à sociologia pode dar ao conhecimento sobre o mundo social, ou então a sociologia não servirá de nada. Foi assim que entendi o comentário crítico de Jampa. Porém, eu acho que há toda uma discussão na sociologia, que está meio esquecida, sobre a possibilidade de unir o raciocínio pragmático ao raciocínio científico, numa espécie de sociologia aplicada, para usar uma expressão tão cara a Florestan Fernandes. Seria a idéia de que o sociólogo pode atuar nos processos de intervenção social, a partir do prisma de sua especialidade científica, e ao mesmo tempo ser um agente político de transformação. Isso implica, de certo modo, união entre fato e valor no próprio terreno da ciência. Haveria várias perguntas aí, é claro, sobre qual a direção da mudança, a quem interessa essa intervenção social, que cabe à análise sociológica desvendar. Acho que só em processos de intervenção social, nos quais os sociólogos venham a participar, é que essas questões podem ser respondidas e não adianta nada conjecturar sobre isso. Mas acho importante o questionamento de Jampa e esses comentários que agora fiz desejo que sejam vistos apenas como um acréscimo das minhas posições às palavras do amigo.(Continua...)

Jessé Souza (comentário)Eu também estive presente na apresentação de Jessé Souza no GT Pensamento Social Latino-Americano. Como Jampa, reconheço que Jessé está fazendo um trabalho importante de investigador e simpatizo com as críticas radicais que ele tem feito a vários dos mitos do pensamento social brasileiro. No entanto, o que mais me chamou a atenção na postura dele foi um enorme desconhecimento de toda uma tradição de pensamento desenvolvida na América Latina, não só por cientistas sociais, mas também por pensadores políticos, como Mariátegui, que construíram uma visão original de nossas formações sociais. O que estava em jogo no GT "pensamento social latino-americano", a meu ver, era exatamente isso. Esses autores não são importantes para Jessé porque ele considera que a grande teoria, mais "complexa" (termo que ele utilizou), desenvolvida na Europa, pode dar conta de nossos fenômenos sociais, brasileiros e latino-americanos. Por isso ele não vai ler autores latino-americanos e sim pegar os autores verdadeiramente complexos. Ora, Jessé é um leitor atento de Bourdieu, como bem apontou Jampa, e sabemos que Bourdieu foi um sociólogo que refletia teoricamente a partir de seus objetos de investigação, realizando uma verdadeira construção conceitual na sociologia a partir de elementos concretos, numa simbiose marcante entre teoria e empiria. A meu ver, esse é o verdadeiro caminho na teorização das ciências sociais. Por isso Bourdieu tinha uma forte aversão à grande teoria à la Parsons, ou mesmo à teoria de médio alcance de um Merton. Acho que nesse ponto Jessé não aprendeu a lição do mestre, porque ele deixa de ter a visão da especificidade do concreto quando tenta retirar de Foucault, por exemplo, que ele citou, elementos para entender o poder nas instituições modernas e aplicar esses conceitos ao Brasil. Ele diz, com razão, que o Brasil é uma nação "moderna" e, por isso, a teorização construída na Europa também nos cabe. Nisso estou de acordo, porém se há problemas universais das nações modernas, há problemas específicos de cada uma das nações modernas quando lidamos com as diferenças de suas origens históricas. Isso já é muito sabido e não vou discutir algo que já foi tão debatido pelos cientistas sociais latino-americanos desde os anos 60. Acho que Jessé pensa estar fazendo algo totalmente novo e desconsiderando que a perspectiva de interpretação global que ele tenta levar adiante, criticando o culturalismo e tentando realizar a ponte entre cultura e estrutura, foi algo muito desenvolvido nas ciências sociais latino-americanas a partir de investigações muito concretas, como as de Pablo González Casanova, Anibal Quijano, Orlando Fals Borda, Florestan Fernandes e vários outros. O que ele fez foi algo típico da grande teoria, achar que pode explicar tudo e todos os casos concretos. Penso que na sua prática de pesquisador Jessé possa ter superado essa visão, que, a meu ver, é um índice de colonialismo mental. Basta estudarmos a teoria altamente complexa dos centros hegemônicos de produção cultural e, pronto, seremos capazes de lidar com qualquer problema empírico do Brasil, ou da África, ou da Ásia. Não acredito que esse seja o caminho, porque seria descontextualizar teorias importantes, mas que levam a marca de seu meio social e colocam questões que muitas vezes não podem ter muito sentido para nós. É uma forma de perpetuar relações de dominação que se dão no âmbito internacional dentro da reflexão sociológica. Não sei se Jampa notou, mas muitas vezes Jessé demonstrava estar fazendo algo totalmente novo, inventando a roda e desconsiderando toda uma produção importante feita anteriormente que, em muitos aspectos, foi mais longe do que ele conseguiu, com um "grau menor de complexidade", porque os cientistas sociais latino-americanos foram capazes de superar o complexo de inferioridade do cultivo da "grande teoria" na periferia. Foram cientistas sociais que não tinham as grandes ambições teóricas de Jessé, mas que realizaram estudos concretos da realidade concreta e, por conta disso, deram uma contribuição muito importante à teoria geral, por exemplo, do capitalismo, que tem sido reaproveitada na análise global do capitalismo. É marcante, por exemplo, como Florestan Fernandes apontou certas tendências do capitalismo mundial a partir das análises que ele fez do capitalismo dependente na periferia e, sem o tom arrogante da grande teoria, ele deu uma contribuição muito original a partir de suas pesquisas concretas. Esses comentários nada tendem a desmerecer o trabalho de Jessé, porém acho que há contradições entre seu talento de pesquisador e a sedução que ele sofre pela grande teoria, daí o tom arrogante de achar que ele está fazendo algo totalmente inédito. Sob esse prisma, eu acho que ele não conseguiu fazer uma crítica do pensamento social latino-americano, fez a crítica apenas de uma das vertentes desse pensamento, que ele chama de culturalista, e desconhece outros trabalhos que seriam dignos de nota. Penso que ele não deve ter cuidado para acabar no exercício escolástico de aplicar ao Brasil os o comentário de obras dos autores mais complexos que ele leu e que produziram em outros contextos sociais...

sábado, novembro 01, 2008

UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (I Parte)

Conheço pouco Luciano Oliveira. De encontro, lembro de uma única vez. Em sua sala marcamos para conversarmos acerca de Graciliano Ramos, personagem central de uma tese tratando da relação complexa entre sociologia e literatura no Brasil. Na ocasião eu percebi duas coisas dele. Por um lado, sua amabilidade para comigo. Ele me pareceu um sujeito extremamente educado, prestando atenção no que eu lhe falava mesmo deixando transparecer que considerava minhas preocupações um pouco tolas. (Elas devem ser de fato) Lembro que quando falei da polêmica que analisara em meu mestrado a respeito da verossimilhança de Paulo Honório, ele me disse em tom de brincadeira: “Paulo Honório escrevia do jeito que Graciliano imaginou e pronto”. Eu achei engraçado e amigável aquela maneira de relevar minhas preocupações. Não existia desrespeito, mas era como se ele me dissesse: “não tente tirar leite de pedra menino”. Como cabeça dura que sou, disse-me, meu propósito foi legítimo. Por outro lado, senti certo descontentamento da parte dele com o universo universitário. Algo no que ele me dizia soava aos meus ouvidos como: “não faço parte disso aqui”. As vezes me sinto assim também.


Pois bem, essas impressões do homem me ficaram. E a elas se juntaram outras de textos dele que li. Delas (das impressões) retiro motivação para esta pequena reflexão blogueira que pretendo desenvolver em duas partes.Deles (dos textos de Luciano) retiro as nuances do que quero dizer, tomo dalí os elementos nos quais me apoiar. (Essa primeira parte aqui, leitor, é uma justificativa metodológica do texto.)

Num artigo sobre Graciliano Ramos, por exemplo, que infelizmente não posso citar porque não tenho as referências, mas onde, foi assim que o li, com um olhar de “amador” (porque amante da obra e admirador do homem que a escreveu), Lucinano procurava indentificar e decifrar aquilo que a crítica chamou a atenção como sendo a imbricação necessária do homem Graciliano ao escritor. Uma bela homenagem. É um texto que guardo comigo e que com certeza vou usar em minha tese compondo com e contrapondo contra seus argumentos.


Gosto muito de um outro que me foi indicado por Alfredo Cesar. Acho-o fantástico. Um pequeno estudo de caso sobre a opinião de alunos de Direito no Recife sobre a pena de açoite para pichadores. E confesso: o que me mais me encantou nesse texto foi a atitude metodológica de exposição que, mostrando passo a passo o seu desenvolvimento, delineia com verdadeira honestidade os critérios da construção do objeto.
Nesses textos coerentemente com as minhas impressões do encontro percebo o mesmo contraste: algo que me aproxima do olhar e ao mesmo tempo me distancia na postura. Seria essa dupla impressão fruto de nossas experiências ao mesmo tempo similares e tão dispares?

Se me pergunto com sinceridade o que me leva a querer escrever sobre essa minha ínfima relação com o professor Luciano Oliveira, eu diria que mais do que nosso pequeno encontro e os artigos a cima evocados, foi seu texto de blogue que me impulsionou a reagrupar essas impressões e recordações e querer tratá-las de um ponto de vista mais... mais auto-analítico, digamos assim.


Lendo seu Brasil via Paris: descobertas de um estudante brasileiro no país dos bricoleurs senti uma vontade irresistível de entender meu sentimento paradoxal de empatia e estranhamento durante minha leitura deste artigo. Um sentimento daqueles que você tem quando, tendo partilhado uma experiência análoga, termina por perceber os pontos de semelhança e diferença e se perguntar encasquetado: “não sendo a mesma pessoa daquela vivência vivi situações e sensações semelhantes, mas por que algo daquela experiência recontada, portanto tão parecida, escapa a minha compreensão?”


Pensei, pensei, pensei. Por que não esboçar um paralelo? Algo do tipo contrastar alguns elementos do que julguei essencial no texto do Professor Luciano Oliveira, que é esse revelar a importância da viagem para construção de um olhar antropológico, de estranhamento a respeito do mundo que antes nos parecia familiar, comparando com minha própria experiência de estadia na França. Melhor. Que tal falar de um aspecto deixado de lado no relato/análise dele e que talvez mais do que todos os outros represente o calo recalcado de quem sai e volta de uma experiência acadêmica num país tido como desenvolvido: o estranhamento com o próprio meio universitário e acadêmico.


Traçar uma “comparação” com esse viés específico tem duas vantagens:
1) eliminar em parte o problema segundo o qual seria inapropriado tornar inteligível esse contraste entre a minha experiência e a dele na França porque se tratam de vivências que não se deram em mesmo tempo histórico e que foram vividas entre pessoas muito diferentes. Nesse sentido, contra esse argumento, eu diria que é justamente porque não se trata de uma comparação termo a termo, mas sim de uma avaliação a respeito da ausência ou quase ausência no olhar antropológico de Luciano Oliveira sobre o estranhamento com o mundo acadêmico mesmo (o nosso universo de produção cultural por excelência, a UFPE), que nos traria de quebra, em nosso favor, elementos para avaliar uma condição que é a nossa( a de intelectuais de um país periférico, num estado periférico). Claro, não se pode deixar de ter em mente o seguinte: em 1986, ano do início do doutorado de Luciano Oliveira na França, eu ainda estava me confrontando com meus dilemas de adolescente suburbano. Morando em um bairro de subúrbio violentíssimo (Ur-6 Ibura), entrando numa escola de classe média (Marista Recife), e, no período em que ele se tornava doutor, não sei nem se sabia onde era a França no mapa do mundo). Contudo, a Education Nationale continuou basicamente a mesma e as políticas de educação na França pouco se alteraram com as alternâncias de governo, como Luciano bem situou, educação na França é responsabilidade de Estado, fazendo com que a escolha de tratar do nosso estranhamento em função da experiência universitária seja uma fonte riquíssima de reflexividade. E isso porque se perguntar realmente sobre as condições de possibilidade da sociologia no Brasil, em Pernambuco e em Recife passa necessáriamente por uma preocupação sobre o tipo de sociologia que é produzida num país onde a educação não é (ao menos em sentido francês, do republicanismo francês, uma questão de Estado)
2) assim, mesmo sendo difícil comparar a França de 2000 (ano em que fui para lá) a de 1986(ano em que o Luciano Oliveira foi) – e sempre tendo em mente que no horizonte de comparação temos como mediadores do estranhamento antropológico um jovem estudante de graduação oriundo de classe popular marcado por uma trajetória de fracasso escolar recente e um mestre oriundo da classe média –, a escolha pelo contraste no próprio universo acadêmico pode ser extremamente interessante justamente por servir de reflexão a respeito não mais de generalidades da cultura brasileira, mas de elementos práticos de compatibilidade e incompatibilidade entre ethos acadêmicos do centro e da periferia do mundo de produção intelectual.
to be continue...
( A ser editado com o decorrer da análise).

sexta-feira, outubro 31, 2008

BJ para prefeito

Esse texto que vou postar é do meu amigo Bernardo Jurema e foi postado originalmento no seu Bocejo. É de longe, o melhor texto que já li dele. Claro, indignado, propositivo, crítico, auto-reflexivo. Como bem sugerido por Cesar, é um verdadeiro post-manifesto. Traduz coisas que tantas vezes discutimos mas que, como ele bem coloca, fica sempre em estado amorfo, isolado em nossas individualidades bem pensantes. Não pedi autorização ao autor. Tou publicando sem a foto.
Ai vai...
Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Viva o progresso!

Um lugar aprazível, aberto, com plantas, pessoas interagindo do lado de fora...e até dá pra ver o céu! Nem parece Recife.Agora, logo após as votações do primeiro turno, ficamos sabendo que os armazéns lá no São José foram vendidos para a Moura Dubeux. Por ali, passa a segunda malha férrea mais antiga do Brasil. Mais um patrimônio arquitetônico da cidade vai ser demolido, aniquilado, apagado do mapa sem deixar rastro, e não tem um único grito, manifestação, protesto, choro, o que quer que seja, em defesa da memórial material da nossa comunidade. Viva o progresso? Morra a cidade.

Comunidade? Eis aí um conceito que se desconhece em Recife. Prevalece a lei do cada um por si. Essa é a grande questão da cidade, sobre a qual ninguém falou. Os principais problemas da cidade se devem à subordinação do público ao privado. A iniciativa privada é que dita o ritmo, a intensidade e a direção do crescimento de Recife. O poder público corre atrás desesperadamente, fazendo arremedos de intervenções e equipamentos urbanos. Que sempre ficam prontos quando é tarde demais. O bem coletivo não é levado em conta, em detrimento de interesses particulares. São uns poucos - donos de casarões antigos, especuladores imobiliários, construtoras... O resto, todo mundo, paga o preço muito caro do lucro deles. E então onde antes numa rua qualquer havia 5 casas, de repente elas somem e em seus lugares emergem 5 mondrongos de 27 andares, 4 apartamentos por andar, 2 ou 3 vagas de estacionamento. Faça aí a matemática. A infra-estrutura viária, a tubulação do esgoto, outros equipamentos urbanos como parques etc, permanecem os mesmos de antes!

Aí fica agora todo mundo falando de crise em Wall Street. E a crise das grandes cidades brasileiras? E a crise de Recife? Recife está seguindo um rumo que é inviável. Este estado de coisas não é fruto do acaso, não é um acidente da natureza. Quer entender o que está acontecendo em Wall Street? Olhe em sua volta: Recife materializou o que ocorreu lá virtualmente. Esse estado de coisas é resultado de escolhas que foram feitas, e que continuam sendo feitas, e de uma certa ideologia hegemônica que permeia a nossa sociedade e que o legitima. A mesma lógica que levou à crise financeira mundial está por trás do caos urbano em que está se transformando o Recife. É a ausência radical de regras, é o capitalismo selvagem, predador. Pode-se destruir e construir em Recife à vontade. É o Estado-mínimo em prática. Na verdade, está mais para Estado seletivo. Quem é vítima da violência policial sabe bem que o Estado, muitas vezes, de mínimo não tem nada: ele pode ser monstruosamente grande. É a privatização dos lucros, a partir do espaço público, e a socialização dos prejuízos, porque somos todos os contribuintes que pagamos pelas conseqüências da verticalização sem limites. Regras! Eu quero regras!

Aliás, regras... Isso é algo que vai além da capacidade cognitiva do cidadão recifense. Estamos a matarmos uns aos outros. As regras, quando existem, são solenemente desrespeitadas. Fica evidente por onde se passa na cidade. Aliás, transportar-se em Recife poderia ser considerado um esporte radical. Emoção pura. Dirigir por aqui , como disse um amigo, é como entrar num trem fantasma: surpresas e obstáculos surgem de todos os lados... isso na melhor das hipóteses, quando o trânsito de fato flui! Sem falar do assalto que as classes médias fazem às águas públicas, enquanto 2/3 da população da cidade padece de falta d'água crônica! A lista é infindável. Assalto a mão armada na frente de prédio é NADA comparado com todas as outras violências implícitas e explícitas que sofre a maioria dos recifenses em favor de uma minoria mesquinha.

Todos os nossos problemas temos resolvidos, nós "classes média e alta" (vista a carapuça quem quiser), os problemas coletivos de forma individual e privada. O prédio foi uma solução para a moradia. O carro, para o transporte. A cidade do Recife é (mal) feita pro morador de prédio usuário do carro. Priu. O resto são inconvenientes que enfeiam o Canal de Setúbal no Natal ou que envergonham os visitantes na Centro ou que roubam minha carteira na Agamenon. E tome grade e muro e câmeras de vigilâncias e guaritas e vidro fumê. Outro dia fui com uns amigos, andando, até o Plaza Shopping. Surgiu o questionamento - por que não resolvem a fedentina do canal que passa ali ao lado. Eu apontei pra passarela que liga o edifício garagem ao prédio do shopping e falei: olha ali, resolveram sim.

O modelo urbano recifense é intrinsecamente excludente. O recifense (das classes médias e altas) não anda a pé. Andar a pé em Recife é uma experiência sui-generis. Porque ou você vai se achar numa cidade fantasma ou então no Marrocos. Toda semana vou almoçar na casa de um tio que mora no Parnamirim. São 15 minutos a pé da minha casa até a dele. Uns 7 de bicicleta. Riem da minha cara: tá liso diga! Para eles, é incompreensível que alguém, por escolha, não use o carro. As classes abastada da cidade têm vergonha da cidade em que vivem. Nunca andam na rua da Imperatirz, jamais pisarão num mercado público. O negócio é Shopping Recife. O negócio, mesmo, seria Miami, ou pelo menos São Paulo. Mas o Shopping Recife já está de bom tamanho. E tome prédio. E tome carro. Vivemos numa sociedade desintegrada, e cada vez mais indo nessa direção.

Se tudo isso fosse só uma questão estética (prédio alto é feio, carro é feio), eu nem diria nada. Poderia-se dizer que se trata apenas de questão de gosto... Para a maioria das pessoas, não importa que a cidade fique toda igualzinha a Boa Viagem. As particularidades de cada bairro, reflexo de histórias específicas, pode ser considerada frescura babaca burguesa sentimentalóide nostálgica... Pode, pode, não nego isso não. Mas reflete um descaso total com o futuro. Agora mesmo, o mar está avançando sobre os prédios de Piedade e Candeias e sobre o calçadão de Boa Viagem. Se lá atrás, nos anos 70, houvesse uma preocupação com uma ocupação mais racional da orla os problemas mais graves que estão ocorrendo e que vai piorar poderiam ter sido evitados.

Tem gente preocupada em Recife com essas questões? Tem. Muita gente boa. Muita gente jovem. Mas essas pessoas estão por aí, soltas, desarticuladas. Não há uma voz política. Estamos perdendo a batalha ideológica em prol de um Recife mais humano onde o bem coletivo passe a sobrepor-se aos interesses particulares. Quem sabe em 2012 poderemos votar em algum candidato a vereador preocupado com essas coisas?Ou então vamos oficializar logo essa parada: Moura Dubeux para prefeito do Recife!- - - - - - - - -

Já abordei esse assunto antes:- Recife ruirá- Privatizaram o horizonte!- Utopia recifense- A Terra Prometida da casta-média brasileira

terça-feira, outubro 28, 2008

Meu Nome é Lisa




Via Pedro Doria


Gostei muito desse pequeno vídeo. Tem humor, trata de um tema difícil, é sensível. Espero que gostem.

domingo, outubro 26, 2008

Dialogo com o feminismo: ainda sobre o caso Santo André

Eu gostaria de tentar expor de maneira mais clara minha opinião a respeito do caso Santo André situando-me em relação à visão feminista do caso, coisa que tentei fazer já no outro texto, mas de maneira incipiente.


Eu começaria dizendo que acho legítimo o esforço de fugir do efeito de ratificação do real que seria negar a presença das mediações dos esquemas de dominação masculina no caso de Lindemberg. Negar isso, seria ignorar um problema de ordem maior na estruturação das relações sociais que pesa, em todos os niveis da hieraquia social, sob a posição de subordinação das mulheres em relação aos homens. Não se trata de negar isso.

Porém, acredito ser preciso ponderar sobre o peso da análise desse tipo de fenômeno pelas feministas no caso da morte de Eloá(três opiniões aqui). Não raro, para fugir do efeito paradoxal que o descrever os efeitos negativos da dominação masculina e ou da exploração de mulheres por homens gera, somos impelidos a usar os recursos analíticos da análise feminista admitindo que é preciso “deixar de lado a análise da submissão, por medo de que, ao admitir a participação da mulher na relação de dominação, não se leve a tranferir dos homens para as mulheres a carga de responsabilidade”(J.Benjamin, 1988. p9*).
Sei. É difícil saber a real medida das coisas. Principalmente em situações onde se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Tratar a dominação masculina em termos de submissão pode significar estar dando mais armas à opressão. Não julgo a dificuldade. O paradoxo existe e consiste no risco mesmo de acentuar os elementos negativos das diferenças culturais na natureza dos dominados e explorados.

No caso dos textos feministas aqui comentados, “a culpabilização das vítimas” e a “vitimização dos culpados” aparecem como elementos centrais do tratamento equivocado dado ao crime visto que “[c]rime passional não existe! [O] crime é a misoginia do sequestrador, dos policiais, do governador e da mídia! As mulheres morrem porque os homens odeiam quando elas são mulheres, elas mesmas, em vez de SUAS namoradas, SUAS esposas, SUAS mães.”( Ana Reis, A "crise amorosa" do Coronel Felix); ou ainda que “eles não são apenas crimes passionais, eles podem [ser] situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição” (Sandra Raquew, Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem).

Sem negar que esses menanismos sociais balizados pela diferença de sexo estão em funcionamento no momento da crise, no seu desenvolvimento e final, acho que não podemos/devemos perder de vista uma coisa: do ponto de vista da sociologia, o por em evidência a influencia da dominação masculina sobre as culturas do masculino (habitus masculinos na terminologia bourdieusiana), não é, em nenhuma instância, tentar desculpar os homens. Como disse Bourdieu é mais, naquilo que uma perspectiva analítica pode ter de engajada “mostrar que o esforço no sentido de libertar as mulheres da dominação, isto é, das estruturas objetivas e incorporadas que se lhes impõem, não pode se dar sem um esforço paralelo no sentido de liberar os homens dessas mesmas estruturas que fazem com que eles contribuam para impô-la.”(Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, 2007.p 136).**

Ao ler os textos feministas com esse conteúdo tenho a impressão de entender melhor porque o militantismo às vezes torna delicada uma abordagem não apenas articulada com o particularismo político dela proviniente. O melhor dos movimentos políticos, nesse sentido, está fadado a fazer má ciência, isso, caso não consiga transformar suas disposições subversivas em instrumentos realmente reflexivos, em ferramentas de uma auto-crítica. Mais uma vez tento esclarecer que o objeto de minha reflexão é essa confusão: todo esforço de descrever a verdade da relação entre os sexos torna-se, numa visão particularista, sempre uma maneira de ser condescendente com as mulheres agora que pode se tratar, justamente, de uma decrição de como as mulheres terminam sendo objetos de codescendência.


Nesse sentido, e em outros ainda, continuo achando que outras lógicas sociais foram mais importantes para o resultado do caso. Lindemberg deve ser julgado pelos crimes que cometeu. Mas não apenas por representar o machismo de nossa sociedade, que do ponto de vista da análise de sua presença no mundo social, enquanto estrutura objetiva que ordena também elementos da subjetividade de homens e mulheres, torna a leitura desse código(o machismo) problemática já que homens e mulheres podem estar reproduzindo esse esquema de dominação masculina inscrito nos códigos socio-culturais mesmo com toda boa vontade(inclusive dentro de uma visão feminista). Como condenar estruturas cognitivas presente e difusas no mundo social por crimes por elas ocasionados? O crime será julgado pelo fato de ser crime. Deveria a polícia ter atirado no rapaz em nome dos direitos das mulheres e contra o androcentrismo? Acho sinceramente que os critérios de uma decisão como essa deveriam ser outros.

Continuo pensando que a mídia (razões de lógica de mercado, audiência, etc.) e a polícia (por incompetência) são as duas principais responsáveis pelo final trágico da história. E isso porque foram as instituições que mediaram os elementos dessa realidade social dada (mediando inclusive às lógicas machistas operando na visão de amor de Lindemberg).

Obs. Também fico indignado com a corbetura novelistica do assunto. O Jornal do Commercio (para assinantes) e o Diario de Pernambuco deste domingo (26/10/2008) trazem matérias com essa melosa e melodramatica visão de amor romântico, os que os pais devem fazer etc...

Ps: achei interessante esse exemplo ainda da visão feminista , ver nesta carta.

* J. Benjamin, The Bonds of Love, Psychoanalysis, Feminisme and the Problem of Domination, New York, Pantheon Books.

** Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Crise tira defunto da cova

No Hermeneuta (no post Mundo de loucos) encontramos a seguinte informação:

Crise aumenta procura por obras de Karl Marx na Alemanha

Editora vendeu em um mês nº de cópias de ‘O Capital’ que vendia em um ano.
- A atual crise financeira global parece estar aumentando a busca por obras de um dos maios conhecidos e ferozes críticos do capitalismo: o pai do comunismo, Karl Marx.
A editora alemã Karl Dietz, dedicada a livros de pensamento de esquerda disse já ter vendido, neste ano, 1,5 mil cópias da obra mais famosa de Marx, O Capital, escrita em 1867.
Só no mês passado, foram vendidas 200 cópias, o mesmo número que, no passado, costumava ser vendido em um ano.

A Dietz não é a única editora a publicar obras de Marx, mas, segundo a imprensa alemã, lojas ao redor da Alemanha têm visto um aumento de 300% na venda do livro nos últimos meses.
O correspondente da BBC David Bamford afirma que muitos vêem a atual crise como um fracasso do capitalismo e que a obra de Marx poderia ajudar a entender o que deu errado. Segundo Bamford, o número de visitantes a Trier, na Alemanha, cidade natal de Marx, subiu neste ano para 40 mil.

O curador do museu da cidade afirma que já perdeu as contas de quantos visitantes ele ouviu dizer que Marx estava, afinal, certo em suas críticas ao capitalismo.

Credo cruz, será que esse povo germânico estaria pensando nessas palavras e se dizendo "eu já li isso em algum lugar"?

“Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.” (Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)

terça-feira, outubro 21, 2008

Tragédia de Santo André: a culpa é dos Deuses gregos?

Uma das coisas que sempre admirei nas tragédias de Shakespeare é o fato da predestinação de seus personagens se transformar em elemento constitutivo da própria narrativa. Assim, nós leitores, que muitas vezes já sabemos o final da estória, temos sempre aquela impressão que algo vai mudar, e, junto com o impulso narrativo, esperamos que a luta contra o inelutável dos Romeus e Julietas (que configura a trama das tragédias) será retribuído com a vitória do amor em vida.


Ledo engano, Shakespeare, em bom leitor dos gregos sabia que a dimensão propriamente trágica do gênero estava nessa ruptura, nesse fosso existente entre o mundo da vida e suas expectativas mais nobres. O amor em pleno mundo hostil só pode se realizar plenamente ao eliminar sua possibilidade mesma. É preciso destruir os agentes da mediação chamada amor, é preciso matar os amantes. Destino por definição inelutável, obra silenciosa de acasos pré-ocasionados por maldições, por deuses furiosos, por forças conhecidamente desconhecidas às quais homens e mulheres se conformam com ou sem relutância, a tragédia não produziria efeito de força dramática sem o desfecho esperado (apesar de não desejado, nem pelos leitores nem pelos personagens).



Graças a mídia (sobretudo a cobertura da Globo e da TV Record) O caso de Santo André trouxe elementos trágicos da ficção para mundo real. Contudo é preciso reforçar algo: a ficção por mais realista que seja não é nunca mais do que a produção de um efeito do real. Ou seja, ela é a produção de um efeito de conformidade ao real fundado na sobreposição formal das normas sociais que aderimos num dado momento como sendo reais. A mídia “jornalística” (sobretudo a televisiva) criminosamente jogou com esses efeitos da relação entre mundo real e fictício. Mas, a meu ver criminosamente, o fez em sentido inverso. O efeito de ficção, que é bem real em seus efeitos foi nesse caso como em outros bastante desastroso.


O cineasta Bruno Barreto vendo a centralidade da mídia para entender o seqüestro disse o seguinte sobre o caso:


“Li tudo a respeito desse seqüestro em Santo André nos jornais. A presença que a mídia tem é muito grande na vida das pessoas, vejo a intersecção das duas histórias por aí [entre a história de Eloá e a que ele reconta em seu novo filme, o Última Parada 174.] A necessidade que Lindemberg [Fernandes Alves] tinha de ser visível também aconteceu com o ônibus, das pessoas verem sua dor. Esse é um dos subtextos presentes no filme."



Subtexto ao mesmo tempo do filme e do mundo a mídia agiu de maneira irresponsável no local da crise. Para mim ela foi enquanto visão de mídia não apenas um subtexto, mas um pré-texto do crime, agindo como principal responsável junto à polícia da tragédia real. Foi a mídia televisa quem deu o tom e contorno de coisa já vista.


Na sua relação corrosiva com o real (porque sensacionalista) trouxeram como marca das transmissões ao vivo do caso a arrogância dos que crêem “formar opiniões” ou acreditam “criar ou recriar o real”. A mídia televisiva (sobretudo as coberturas da Globo e Record) eliminando os registros da linguagem informativa insistiram na narrativização da situação tornando a realidade um "mero" efeito de ficção. A responsabilidade da mídia sensacionalista precisa ser discutida e apurada.


Na ficção do real a potência de evocação de um estilo produz, pelos princípios de apreensão do real dados pela linguagem para linguagem, o efeito de decifração do mundo, e, em sentido inverso ao efeito de ficção trazido pela espetacularização da vida real, dá acesso inteligível aos desígnios das trajetórias de vida por ele sendo narradas e ou descritas. No efeito de ficção a vida mundana ganha contornos extra-ordinários e a simples presença da mídia televisiva superdimensiona os fatos.
Narrativa da Narrativa
Assim...


No caso dessa tragédia real não shakespeariana, Eloá não amava mais Lindemberg. Inconformado, o rapaz partiu para o tudo ou nada do sentimento de posse. Como um Paulo Honório urbano Lidemberg não admitia dividir Eloá com ninguém. Covarde, preferiu coloca-la em cativeiro e depois mata-la a ceder os desígnios do acaso amoroso. Pressionado por todos (mídia, policia, entre outros),o amor doentio do jovem se desfez em dor sem volta e sem reparo. Para ele, para ela. De quem é a culpa? Claro, do rapaz.



Mas indo além da obviedade de que Lidemberg deve responder pelos crimes por ele cometidos, existe algo mais a se pensar para compreensão do ocorrido em termos do interesse público do caso: em que medida não foi o próprio criminoso também vítima de uma orquestração de forças (sociais, psíquicas, dos deuses gregos da mídia, da polícia) que o levaram a por fim de maneira tão covarde ao amor de sua vida? A essa pergunta nós deveríamos debater para procurar respostas a respeito da irreversibilidade e redundância de nossos destinos de brasileiros miseráveis (miserável aqui em sentido social da palavra).Digo de antemão não crer existir nessa proposição uma intenção de vitimizar o criminoso.


Pessoalmente acredito que os responsáveis institucionais dessa tragédia particular são no mínimo dois: a polícia incompetente que não soube lidar com a pressão da mídia cedendo à espetacularização do crime e a mídia irresponsável que na ânsia de audiência não soube manter-se em sua função. (ver comentários a esse respeito aqui –cf comentários). E mais, isso porque borrar as fronteiras entre ficção e realidade sem mostrar quem está mediando a estrangulação desses limites deveria ser considerado crime...


Claro que outras lógicas operaram no caso. Para o Colcha de Retalhos, por exemplo, a questão de gênero mediou o sentimento de posse do rapaz o que explicaria em certa medida o final trágico. Tudo bem, eu acredito que o fato de ser homem deve ter em alguma instância impactado no tipo de desespero de Lindemberg. Mas volto à inversão da lógica do real pela do ficcional: se considero a origem simples de Lidemberg, origem real de um jovem pobre saindo da adolescência, fica difícil não acreditar que a mídia não tenha sido o trunfo final do destino trágico dessa história, na sua operação de produzir a ficção do real. O que ela continua fazendo sem dó no decorrer de sua cobertura. Acuado, superdimencionando suas próprias atitudes em cadeia nacional, Lidemberg fez o que fez. Culpado, sim. Deve pagar pelos crimes que cometeu, sim.


Mas a culpa, dizia Camus, tem algo de supra-jurídico. A ignorância a atenua em direito, mas não em consciência, como no caso de Édipo Rei. Eu diria mais, a culpa tem algo de extra-social (ela é mais social ainda) no que ela tem de social nos indivíduos. Existindo em Lidemberg, não se encerra nele. E é sobre essa culpabilidade extensiva ao mundo social que o debate público deveria se ater mais fortemente. Pois a mídia e a polícia nos devem explicações, assim como os malvados deuses gregos... Afinal, mídia e polícia foram, a meu ver, os representantes modernos da hostilidade do mundo que, como numa peça de Shakespeare, apareciam como mediadores da esperança de um final diferente, mas foram, finalmente e verdadeiramente, os fatores da obstinação do destino. Destino de Eloá. Destino de Lidemberg. E nosso destino também. Porque o problema para nós cidadãos continua o mesmo: nossa impotência diante de certos Deuses...

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.