A escrita
Escrever é uma atividade artificial. No sentido de ser o resultado final, o texto, um artefato. Tratar de temas sensíveis pela escrita parece sempre deixar no homem um sentimento de traição. Pois ater-se aos sentimentos é fazer jogar a razão contra o sensível: refletimos contra o sentimento da péle que sente a dor quando dói, o ardor na quentura.
Escrever é trair
E mesmo a criação do paragrafo impessoal, sem primeira e única pessoa, é ainda assim um efeito produzido pela tecnica. Construimos o distanciamento, a impressão da distância. Na verdade vê-se nisso uma maneira de tentar encontrar palavras falantes por si mesmas, sem intermédio, sem mediação. Tudo ilusão proposital. Traição.
Traição
Intento, mesmo assim, traindo-me, escrever sobre a morte.
Le retable d'Issenheim
Começo afirmando: viver a morte é caracterizar a existência. Digo isso pensando na arte de Ionesco. Na crítica dele à naturalização da morte feita na modernidade. Sim. O mundo moderno impôs seu hedonismo barato, adotou seu carpem diem coagulado no cinismo e ocultou o apelo do momento mori, que é uma espécie de aproveite o dia com lembrete final: “teu dia chegará”. Le roi s’est mort, anunciou Ionesco falando da vida como se ela fosse uma continuação da morte, não o contrário. Inverteu o sinal da cruz... Como Nietzsche salvando o cristo do cristianismo, Ionesco salva a imagem da morte no seu carater emblemático de prática contestatória: se o cristo é lembrado pelo filósofo alemão como um individuo notável o qual teve como qualidade maior um espírito crítico negador da autoridade sacerdotal, a morte em Ionesco aparece como força de negação de uma vida dada ao além, ela é o presente vivido enquanto perda. Lembrei disso ao ver domingo passado no Museu d’Unterlinden Le Retable d’Issenheim de Grünewald. Uma pintura da crucificação de Jesus. Impressionante. Bacon muito inspirou-se dela para nos seus quadros reproduzir as imagens da dor humana. O sensível da carne sangrenta, dos pregos cravados na palma das mãos expressando a agudez da dor pelo estirar dos dedos recontorcidos para cima, da boca azulada, do expressionismo dos pés rasgados. Tudo estático como se a agônia fosse se enternizar... Sempre tive dificuldade com as artes plásticas... Nunca consigo imaginar o movimento indicado nas obras. Alí vi, por isso, uma grande cristalização da dor. Fotografia da agônia dolorida e infinita.
Lembrança mistica
Lembrei também que Tereza e meu pai sempre expressaram uma concepção mística da morte. Acho que a grandeza da visão deles decorre da recusa de apagar a presença da morte na vida. Os dois associam pela mística o carpem diem e momento mori. Vendo o Retable d’Issenheim entendi um pouco dessa associação. Ela quer dizer algo sobre a vida e sua vocação de ser uma busca constante de sentido. Associar vida e morte é uma maneira de preencher o vazio deixado pela dúvida maior, pelo medo de achar que tudo pode acabar simplesmente acabando...
segunda-feira, maio 31, 2004
segunda-feira, maio 24, 2004
Quase de férias
Acabo de entrengar quatro cópias da dissertação na Universidade. Alívio. O cansaço vinha corroendo meu espírito de flagelado intelectual. Intelectual? Raça complicada. Defendo-a. Mas apenas no necessário, na vocação dessa estirpe de ser massa crítica. Digo sim à reflexividade do pensar. Excetuando esse aspecto reflexivo, abomino-a. Triste intelectualidade. Eh Séria demais. Produz alegria profunda, porém dificilmente se pode com ela simplesmente sorrir. A dor? A dor confunde-se com as entranhas do homem. Este, pensando, constroi-se de destruções do dito assim e assado. Levado a dizer não ao obvio para poder estabelecer uma relação de proximidade com uma suposta verdade (seja ela relativa ou universal, coerente ou arbitrária...)o o ser humano busca. E então a liberdade se transforma em designo da crítica que, negando para afirmar, afirma negando pela razão sua função libertadora...
Dialogo entre Paulo Freire, o estatuto do PT, e o Governo Lula, etc.
Paulo Freire:
"Eh então a coerência entre a sua prática e suas opções proclamadas que virá fazendo o PT, enquanto educador, reconhecer-se como educando. Vale repetir: para que o PT assuma o seu papel de educador enquanto partido, coerentemente com as suas opções proclamadas, ele tem de assumir também o papel de educando das massas populares. A sua tarefa formadora, como partido de massas e não de quadros, se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre".
Estatuto do PT:
"O Partido dos Trabalhadores pretende que o povo decida o que fazer da riqueza produzida e dos recursos naturais do País. As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade. Para isto é preciso que as decisãoes sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas estes interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade."
O governo Lula(suprareal):
"Não se pode ser fiel ao estatuto, que é um documento formal.Temos um probléma crônico de anemia. "
FHC: "hahahahahahahahah!!"
Puchkin: " Contra Burguês vote 16! O governo Lula é pós-estruturalista! Fora Lula! Revolução proletária já!"
Jampa: " Isso não é dialogo. Niguém responde a ninguém. Cadê o Sidnay Magal?"
Estou de quase de férias! Valeu Anne-Sophie. Obrigado pela força!
Valeu Cesar, tuas dicas foram uteis.
Valeu Diogo, teu incetivo me foi valioso.
Valeu Pai, Valeu mãe: por tudo!
Helder, Pedro: Saudades!
Val... Vamos estudar juntos!
Ton, curiosity kill's the cat!
Tato: tu vais ficar cheroso pras minas!
João Lima: não vou estar na França quando tu chegares!
Lula: faça a revolução!
Eveline: a chapada nos espera.
Ainton Senna... Xuxa... sim. Xuxa eu te amo!!
Francisco José: Queremos uma onça nova, Fernando de Noronha enche o saco.
Marx: como podemos dizer não ao capitalismo de hoje?
Weber: no fundo, tudo é uma questão de afinidade eletiva: estamos todos fodidos no Brasil.
... Cansei.
Acabo de entrengar quatro cópias da dissertação na Universidade. Alívio. O cansaço vinha corroendo meu espírito de flagelado intelectual. Intelectual? Raça complicada. Defendo-a. Mas apenas no necessário, na vocação dessa estirpe de ser massa crítica. Digo sim à reflexividade do pensar. Excetuando esse aspecto reflexivo, abomino-a. Triste intelectualidade. Eh Séria demais. Produz alegria profunda, porém dificilmente se pode com ela simplesmente sorrir. A dor? A dor confunde-se com as entranhas do homem. Este, pensando, constroi-se de destruções do dito assim e assado. Levado a dizer não ao obvio para poder estabelecer uma relação de proximidade com uma suposta verdade (seja ela relativa ou universal, coerente ou arbitrária...)o o ser humano busca. E então a liberdade se transforma em designo da crítica que, negando para afirmar, afirma negando pela razão sua função libertadora...
Dialogo entre Paulo Freire, o estatuto do PT, e o Governo Lula, etc.
Paulo Freire:
"Eh então a coerência entre a sua prática e suas opções proclamadas que virá fazendo o PT, enquanto educador, reconhecer-se como educando. Vale repetir: para que o PT assuma o seu papel de educador enquanto partido, coerentemente com as suas opções proclamadas, ele tem de assumir também o papel de educando das massas populares. A sua tarefa formadora, como partido de massas e não de quadros, se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre".
Estatuto do PT:
"O Partido dos Trabalhadores pretende que o povo decida o que fazer da riqueza produzida e dos recursos naturais do País. As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade. Para isto é preciso que as decisãoes sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas estes interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade."
O governo Lula(suprareal):
"Não se pode ser fiel ao estatuto, que é um documento formal.Temos um probléma crônico de anemia. "
FHC: "hahahahahahahahah!!"
Puchkin: " Contra Burguês vote 16! O governo Lula é pós-estruturalista! Fora Lula! Revolução proletária já!"
Jampa: " Isso não é dialogo. Niguém responde a ninguém. Cadê o Sidnay Magal?"
Estou de quase de férias! Valeu Anne-Sophie. Obrigado pela força!
Valeu Cesar, tuas dicas foram uteis.
Valeu Diogo, teu incetivo me foi valioso.
Valeu Pai, Valeu mãe: por tudo!
Helder, Pedro: Saudades!
Val... Vamos estudar juntos!
Ton, curiosity kill's the cat!
Tato: tu vais ficar cheroso pras minas!
João Lima: não vou estar na França quando tu chegares!
Lula: faça a revolução!
Eveline: a chapada nos espera.
Ainton Senna... Xuxa... sim. Xuxa eu te amo!!
Francisco José: Queremos uma onça nova, Fernando de Noronha enche o saco.
Marx: como podemos dizer não ao capitalismo de hoje?
Weber: no fundo, tudo é uma questão de afinidade eletiva: estamos todos fodidos no Brasil.
... Cansei.
terça-feira, maio 18, 2004
Tradução de Introdução(enviada por Ton)
A tradução não está perfeita. Longe disso. Acho que Ton deve ter colocado meu texto num tradutor automático desses da vida. Corrigi os erros mais grosseiros. Perde-se em estilo, mas também um pouco de sentido. A palavra "demarche", por exemplo, deve ser substituida por um grupo de palavras que designe as maneiras de fazer algo especificamente. "Demarche" é a maneira pela qual se usa um método. E a tradução disso é dificil. Mas vou postar a mando de Ton. Assim democratizo mais as minhas lezeiras.
Introdução
Nietzsche, num texto sobre os filósofos pré-socraticos, tentou transformar aquilo que é considerado como um defeito (a ausência de demonstração) numa qualidade.Analisando a frase emblemática de Tales de Mileto "tudo é água", observou que a virtude do primeiro filósofo ocidental era ter encontrado a boa pergunta (que é que tudo é?), sem passar por todas as exigências de verificação empírica. É a intuição que existe uma tensão desta ordem entre a literatura e a Sociologia que conduziu-nos a escrever esta dissertação.
Recordamo-nos igualmente os pensamentos de Nietzsche, de acordo com o qual o homem criou a arte para poder suportar a realidade, e Weber, quem dizia ter escolhido a ciência a fim de verificar até onde poderia suportar esta realidade. Daí um paralelo nos apareceu entre estas duas disciplinas freqüentemente opostas devido às suas diferentes formas de abordagem, a literatura mais livre, ou seja, liberada das exigências metodológicas de representatividade, das demonstrações teóricas e da produções de dados empíricos próprias às ciências.Assim se deu em nós a idéia de um estudo que põe em relação Sociologia e literatura.
Desejávamos, além disso, estudar um autor brasileiro e a nossa escolha levou-se rapidamente sobre Graciliano Ramos, este por várias razões que desenvolveremos na nossa parte consacrada à metodologia. Digamos apenas aqui que é um dos maiores escritores brasileiros século XX e que tem uma maneira específica de criar baseada numa observação meticulosa da sociedade, que reproduz nos seus romances, conferindo a estes um interesse sociológico certo. No entanto, como veremos, é no seu caráter propriamente literário que os seus romances são produtores de uma leitura sociológica da realidade da época. É o que qualificaremos de "reciprocidade explicativa". Toda nosso esforço
visará demonstrar como esta reciprocidade nasce da tensão que existe entre literatura e Sociologia.
A fim de levar a efeito esta investigação, começaremos por mostrar como, na história da Sociologia, surgiu e em seguida se desenvolveu a idéia de uma análise sociológica da literatura. De Comte a Pierre Bourdieu, passando por Durkheim e Wolf Lepenies, o nosso trabalho será destacar a forma como a Sociologia reconheceu gradualmente elementos literários como utilizáveis no âmbito de uma maneira sociológica.
Em seguida explicaremos as posturas metodológicas que adotamos para este estudo. Justificaremos principalmente o cruzamento das nossas referências teóricas (Pierre Bourdieu e Bernard Lahire principalmente), e orientaremos a confrontação da teoria com o objeto, quem é a fonte da construção da nossa problemática.
Por último, analisaremos o romance São Bernardo de Graciliano Ramos a fim de mostrar como funciona nesta livro a reciprocidade explicativa entre literatura e Sociologia. A análise dispositionnalista desenvolvida por Bernard Lahire nos permite mostrar como a verossimilhança literária deste livro nasce da compreensão da sua verossimilhança sociológica.
A tradução não está perfeita. Longe disso. Acho que Ton deve ter colocado meu texto num tradutor automático desses da vida. Corrigi os erros mais grosseiros. Perde-se em estilo, mas também um pouco de sentido. A palavra "demarche", por exemplo, deve ser substituida por um grupo de palavras que designe as maneiras de fazer algo especificamente. "Demarche" é a maneira pela qual se usa um método. E a tradução disso é dificil. Mas vou postar a mando de Ton. Assim democratizo mais as minhas lezeiras.
Introdução
Nietzsche, num texto sobre os filósofos pré-socraticos, tentou transformar aquilo que é considerado como um defeito (a ausência de demonstração) numa qualidade.Analisando a frase emblemática de Tales de Mileto "tudo é água", observou que a virtude do primeiro filósofo ocidental era ter encontrado a boa pergunta (que é que tudo é?), sem passar por todas as exigências de verificação empírica. É a intuição que existe uma tensão desta ordem entre a literatura e a Sociologia que conduziu-nos a escrever esta dissertação.
Recordamo-nos igualmente os pensamentos de Nietzsche, de acordo com o qual o homem criou a arte para poder suportar a realidade, e Weber, quem dizia ter escolhido a ciência a fim de verificar até onde poderia suportar esta realidade. Daí um paralelo nos apareceu entre estas duas disciplinas freqüentemente opostas devido às suas diferentes formas de abordagem, a literatura mais livre, ou seja, liberada das exigências metodológicas de representatividade, das demonstrações teóricas e da produções de dados empíricos próprias às ciências.Assim se deu em nós a idéia de um estudo que põe em relação Sociologia e literatura.
Desejávamos, além disso, estudar um autor brasileiro e a nossa escolha levou-se rapidamente sobre Graciliano Ramos, este por várias razões que desenvolveremos na nossa parte consacrada à metodologia. Digamos apenas aqui que é um dos maiores escritores brasileiros século XX e que tem uma maneira específica de criar baseada numa observação meticulosa da sociedade, que reproduz nos seus romances, conferindo a estes um interesse sociológico certo. No entanto, como veremos, é no seu caráter propriamente literário que os seus romances são produtores de uma leitura sociológica da realidade da época. É o que qualificaremos de "reciprocidade explicativa". Toda nosso esforço
visará demonstrar como esta reciprocidade nasce da tensão que existe entre literatura e Sociologia.
A fim de levar a efeito esta investigação, começaremos por mostrar como, na história da Sociologia, surgiu e em seguida se desenvolveu a idéia de uma análise sociológica da literatura. De Comte a Pierre Bourdieu, passando por Durkheim e Wolf Lepenies, o nosso trabalho será destacar a forma como a Sociologia reconheceu gradualmente elementos literários como utilizáveis no âmbito de uma maneira sociológica.
Em seguida explicaremos as posturas metodológicas que adotamos para este estudo. Justificaremos principalmente o cruzamento das nossas referências teóricas (Pierre Bourdieu e Bernard Lahire principalmente), e orientaremos a confrontação da teoria com o objeto, quem é a fonte da construção da nossa problemática.
Por último, analisaremos o romance São Bernardo de Graciliano Ramos a fim de mostrar como funciona nesta livro a reciprocidade explicativa entre literatura e Sociologia. A análise dispositionnalista desenvolvida por Bernard Lahire nos permite mostrar como a verossimilhança literária deste livro nasce da compreensão da sua verossimilhança sociológica.
Itrodução do Mestrado
Estou sem dormir(não quero revelar as razões). Seguindo o exemplo de Cesar posto a introdução do meu trabalho de mestrado. Como o Marti do ultimo comentário de Cesar, meu Paulo Honório se transfomou em homem multiplo, fruto de uma socialização diversa e dos contatos com outros de formação não menos variada. Tento explicar a vida do personagem pela analise (talvez forçada)disposicional, entender a variação de seus atos, a inquietação de seu espirito. Encontro mesmo um argumento razoavel para explicar a escolha de Paulo Honório pela escrita, coisa que poderia parecer estranha vinda de um homem como ele completamente avesso as inclinações artisticas e intelectuais. Meu trabalho foi muito simples, apesar da parafernalha teórica mobilizada para dizer o que foi dito. Infelizmente(?), porque tenho de me preparar para defesa, não terei tempo de traduzi-la e ofereço-a apenas aos amigos que de alguma forma tem contato com o francês. Um abraço a todos e até logo. Pois em breve, jah que vou conseguir entregar a tempo a dissertação, estarei em Recife. Cesar, minha introdução é o puro oposto da prolixia dos sociólogos. Espero que Wander não veja nela "uma contaminação pela pscicologia ou piscanalise" como ela comentou sobre alguns de meus textos. Bem, se assim o for... Não tem problemas, o Freud que li ajoudou a entender muitas coisas na sociologia. Sem mais. Abraços.
Introduction
Nietzsche, dans un texte sur les philosophes pré-socratiques, a essayé de transformer ce qui est considéré comme un défaut (l’absence de démonstration) en une qualité. En analysant la phrase emblématique de Thalès de Millet « Tout est eau », il a remarqué que la vertu du premier philosophe occidental était d’avoir trouvé la bonne question (Qu’est-ce que tout est ?), sans passer par toutes les démarches de vérification empirique. C’est l’intuition qu’il existe une tension de cet ordre entre la littérature et la sociologie qui nous a amené à écrire ce mémoire.
Nous nous sommes également rappelé les pensées de Nietzsche, selon lequel l’homme a crée l’art pour pouvoir supporter la réalité, et de Weber, qui disait avoir choisi la science afin de voir jusqu’où il pourrait supporter cette réalité. Un parallèle nous est alors apparu entre ces deux disciplines souvent opposées du fait de leur démarches respectives, la littérature étant plus libre, c’est à dire libérée des exigences méthodologiques de représentativité, des démonstrations théoriques et des productions de données empiriques propres aux sciences. Ainsi a germé en nous l’idée d’une étude mettant en rapport sociologie et littérature.
Nous désirions par ailleurs étudier un auteur brésilien et notre choix s’est rapidement porté sur Graciliano Ramos, ce pour plusieurs raisons que nous développerons dans notre partie consacrée à la méthodologie. Disons seulement ici que c’est l’un des plus grands écrivains brésiliens du XXe siècle et qu’il a une démarche particulière basée sur une observation minutieuse de la société, qu’il reproduit dans ses romans, leur confèrent ainsi un intérêt sociologique certain. Néanmoins, comme nous le verrons, c’est dans leur caractère proprement littéraire que ses romans sont producteurs d’une lecture sociologique de la réalité de l’époque. C’est ce que nous qualifierons de « réciprocité explicative ». Toute notre démarche visera à démontrer comment cette réciprocité naît de la tension existant entre littérature et sociologie.
Afin de mener à bien cette recherche, nous commencerons par montrer comment, dans l’histoire de la sociologie, a germé puis s’est développée l’idée d’une analyse sociologique de la littérature. De Comte à Bourdieu en passant par Durkheim et Wolf Lepenies, notre effort sera de mettre en évidence la façon dont la sociologie a graduellement reconnue des éléments littéraires comme étant utilisables dans le cadre d’une démarche sociologique.
Puis nous expliquerons les postures méthodologiques que nous avons adoptées pour cette étude. Nous justifierons notamment le croisement de nos références théoriques (Pierre Bourdieu et Bernard Lahire principalement), et nous ciblerons la confrontation de la théorie avec l’objet, qui est la source de la construction de notre problématique.
Enfin, nous analyserons le roman São Bernardo de Graciliano Ramos afin de montrer comment fonctionne dans ce roman la réciprocité explicative entre littérature et sociologie. L’analyse dispositionnaliste développée par Bernard Lahire nous permettra de montrer comment la vraisemblance littéraire de ce livre né de la compréhension de sa vraisemblance sociologique.
Estou sem dormir(não quero revelar as razões). Seguindo o exemplo de Cesar posto a introdução do meu trabalho de mestrado. Como o Marti do ultimo comentário de Cesar, meu Paulo Honório se transfomou em homem multiplo, fruto de uma socialização diversa e dos contatos com outros de formação não menos variada. Tento explicar a vida do personagem pela analise (talvez forçada)disposicional, entender a variação de seus atos, a inquietação de seu espirito. Encontro mesmo um argumento razoavel para explicar a escolha de Paulo Honório pela escrita, coisa que poderia parecer estranha vinda de um homem como ele completamente avesso as inclinações artisticas e intelectuais. Meu trabalho foi muito simples, apesar da parafernalha teórica mobilizada para dizer o que foi dito. Infelizmente(?), porque tenho de me preparar para defesa, não terei tempo de traduzi-la e ofereço-a apenas aos amigos que de alguma forma tem contato com o francês. Um abraço a todos e até logo. Pois em breve, jah que vou conseguir entregar a tempo a dissertação, estarei em Recife. Cesar, minha introdução é o puro oposto da prolixia dos sociólogos. Espero que Wander não veja nela "uma contaminação pela pscicologia ou piscanalise" como ela comentou sobre alguns de meus textos. Bem, se assim o for... Não tem problemas, o Freud que li ajoudou a entender muitas coisas na sociologia. Sem mais. Abraços.
Introduction
Nietzsche, dans un texte sur les philosophes pré-socratiques, a essayé de transformer ce qui est considéré comme un défaut (l’absence de démonstration) en une qualité. En analysant la phrase emblématique de Thalès de Millet « Tout est eau », il a remarqué que la vertu du premier philosophe occidental était d’avoir trouvé la bonne question (Qu’est-ce que tout est ?), sans passer par toutes les démarches de vérification empirique. C’est l’intuition qu’il existe une tension de cet ordre entre la littérature et la sociologie qui nous a amené à écrire ce mémoire.
Nous nous sommes également rappelé les pensées de Nietzsche, selon lequel l’homme a crée l’art pour pouvoir supporter la réalité, et de Weber, qui disait avoir choisi la science afin de voir jusqu’où il pourrait supporter cette réalité. Un parallèle nous est alors apparu entre ces deux disciplines souvent opposées du fait de leur démarches respectives, la littérature étant plus libre, c’est à dire libérée des exigences méthodologiques de représentativité, des démonstrations théoriques et des productions de données empiriques propres aux sciences. Ainsi a germé en nous l’idée d’une étude mettant en rapport sociologie et littérature.
Nous désirions par ailleurs étudier un auteur brésilien et notre choix s’est rapidement porté sur Graciliano Ramos, ce pour plusieurs raisons que nous développerons dans notre partie consacrée à la méthodologie. Disons seulement ici que c’est l’un des plus grands écrivains brésiliens du XXe siècle et qu’il a une démarche particulière basée sur une observation minutieuse de la société, qu’il reproduit dans ses romans, leur confèrent ainsi un intérêt sociologique certain. Néanmoins, comme nous le verrons, c’est dans leur caractère proprement littéraire que ses romans sont producteurs d’une lecture sociologique de la réalité de l’époque. C’est ce que nous qualifierons de « réciprocité explicative ». Toute notre démarche visera à démontrer comment cette réciprocité naît de la tension existant entre littérature et sociologie.
Afin de mener à bien cette recherche, nous commencerons par montrer comment, dans l’histoire de la sociologie, a germé puis s’est développée l’idée d’une analyse sociologique de la littérature. De Comte à Bourdieu en passant par Durkheim et Wolf Lepenies, notre effort sera de mettre en évidence la façon dont la sociologie a graduellement reconnue des éléments littéraires comme étant utilisables dans le cadre d’une démarche sociologique.
Puis nous expliquerons les postures méthodologiques que nous avons adoptées pour cette étude. Nous justifierons notamment le croisement de nos références théoriques (Pierre Bourdieu et Bernard Lahire principalement), et nous ciblerons la confrontation de la théorie avec l’objet, qui est la source de la construction de notre problématique.
Enfin, nous analyserons le roman São Bernardo de Graciliano Ramos afin de montrer comment fonctionne dans ce roman la réciprocité explicative entre littérature et sociologie. L’analyse dispositionnaliste développée par Bernard Lahire nous permettra de montrer comment la vraisemblance littéraire de ce livre né de la compréhension de sa vraisemblance sociologique.
quinta-feira, maio 13, 2004
Jah que não tenho tempo de escrever eu mesmo, deixo pra vocês opiniões de amigos sobre temas atuais. Abraço.
Liberdade de imprensa e democracia(Por Diogo Valença)
As manifestações de repúdio à cassação do visto do jornalista norte-americano Larry Rother, autor de artigo calunioso e desrespeitos à imagem do Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, são, no mínimo, hipócritas e farisaicas, típicas do pensamento elitista e conservador brasileiro, “dos que sabem mais”, “dos que sabem governar”, “dos políticos profissionais”, “doutos na arte do diálogo” e “paladinos da democracia”, ou melhor, dos “defensores da normalidade democrática, da ordem e da paz social”. Não sou favorável ao Governo Lula, não por motivos de incompetência ou de irresponsabilidade ou burrice ou amadorismo da administração petista. Meus motivos estão relacionados com o que se poderia de chamar de “cretinismo parlamentar” do PT, o seu jogo desastroso de alianças políticas, que não são estratégicas para uma alternativa popular de poder, com a sua submissão ao ideário burguês, já demonstrado na prática pela manutenção da política econômica de nítidos contornos neoliberais e a sua colocação como esquerda da burguesia, ao assumir a tarefa de uma transição histórica que a direita não tinha mais forças para realizar. Porém, minhas discordâncias são de caráter político e não estão relacionadas aos estigmas e aos preconceitos das origens sociais do Presidente Lula, que se expressam nas piadas de mal gosto sobre o nível formação do Presidente, sua incapacidade, sua burrice, seu hábito de beber, que seria típico do homem do povo, bêbado e vagabundo. O pensamento elitista brasileiro concede apenas às elites a capacidade de pensar, de governar, de ser competente e profissional, ao mesmo tempo em que a massa de miseráveis deve ser guiada e governada porque não sabe pensar e só entende a linguagem do mandonismo e da violência. O mais lamentável nisso tudo não é fato de um repórter norte-americano escrever o que escreveu sobre o Presidente, mas o fato de isso ser uma crença íntima de muitos brasileiros acéfalos, de mente turva e preconceitos arcaicos.
As manifestações de repúdio nada mais significaram do que uma demonstração do conservadorismo e do arcaísmo do pensamento elitista brasileiro, não se poupando qualificações de burrice, amadorismo político, autoritarismo (safa!) e falta de respeito aos princípios democráticos da parte de quem mais esteve ao lado da repressão e da institucionalização da repressão no Brasil, ao lado dos interesses do grande capital internacional e da burguesia nacional títere e pró-imperialista, em suma, de quem contribuiu para uma tão apregoada transição democrática, a chamada Nova República, que, na verdade, foi um engodo e uma perpetuação da ditadura militar por outros meios. Esse acontecimento, como não podia deixar de ser, foi um prato cheio para a imprensa e os órgãos que defendem a sua liberdade de expressão. O Jornal do Commercio, apenas para citar um exemplo, ocupou duas páginas quase que inteiramente para tachar de burra a atitude do Presidente, engrossando o coro de uma suposta causa da democracia. Ora, só alguém muito ingênuo para acreditar que as notícias veiculadas pela grande imprensa não estão destinadas a manipular a opinião pública a favor dos interesses das oligarquias brasileiras. Não estamos falando aqui de uma imprensa verdadeira, mas de uma imprensa que serve a interesses bem específicos e que procuram perpetuar os preconceitos mais nojentos contra os movimentos sociais populares. Essa imprensa não merece nenhum respeito e não tem moral para criticar uma atitude enérgica, necessária e indispensável. A cassação do visto do norte-americano foi a melhor atitude que se devia tomar, não porque o jornalista tenha sujado o nome do presidente aos bons olhos da opinião pública internacional, mas porque não podemos deixar que qualquer um, seja ele quem for, perpetue preconceitos contra os países latino-americanos, africanos e asiáticos. Yankee go home!
Liberdade de imprensa e democracia(Por Diogo Valença)
As manifestações de repúdio à cassação do visto do jornalista norte-americano Larry Rother, autor de artigo calunioso e desrespeitos à imagem do Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, são, no mínimo, hipócritas e farisaicas, típicas do pensamento elitista e conservador brasileiro, “dos que sabem mais”, “dos que sabem governar”, “dos políticos profissionais”, “doutos na arte do diálogo” e “paladinos da democracia”, ou melhor, dos “defensores da normalidade democrática, da ordem e da paz social”. Não sou favorável ao Governo Lula, não por motivos de incompetência ou de irresponsabilidade ou burrice ou amadorismo da administração petista. Meus motivos estão relacionados com o que se poderia de chamar de “cretinismo parlamentar” do PT, o seu jogo desastroso de alianças políticas, que não são estratégicas para uma alternativa popular de poder, com a sua submissão ao ideário burguês, já demonstrado na prática pela manutenção da política econômica de nítidos contornos neoliberais e a sua colocação como esquerda da burguesia, ao assumir a tarefa de uma transição histórica que a direita não tinha mais forças para realizar. Porém, minhas discordâncias são de caráter político e não estão relacionadas aos estigmas e aos preconceitos das origens sociais do Presidente Lula, que se expressam nas piadas de mal gosto sobre o nível formação do Presidente, sua incapacidade, sua burrice, seu hábito de beber, que seria típico do homem do povo, bêbado e vagabundo. O pensamento elitista brasileiro concede apenas às elites a capacidade de pensar, de governar, de ser competente e profissional, ao mesmo tempo em que a massa de miseráveis deve ser guiada e governada porque não sabe pensar e só entende a linguagem do mandonismo e da violência. O mais lamentável nisso tudo não é fato de um repórter norte-americano escrever o que escreveu sobre o Presidente, mas o fato de isso ser uma crença íntima de muitos brasileiros acéfalos, de mente turva e preconceitos arcaicos.
As manifestações de repúdio nada mais significaram do que uma demonstração do conservadorismo e do arcaísmo do pensamento elitista brasileiro, não se poupando qualificações de burrice, amadorismo político, autoritarismo (safa!) e falta de respeito aos princípios democráticos da parte de quem mais esteve ao lado da repressão e da institucionalização da repressão no Brasil, ao lado dos interesses do grande capital internacional e da burguesia nacional títere e pró-imperialista, em suma, de quem contribuiu para uma tão apregoada transição democrática, a chamada Nova República, que, na verdade, foi um engodo e uma perpetuação da ditadura militar por outros meios. Esse acontecimento, como não podia deixar de ser, foi um prato cheio para a imprensa e os órgãos que defendem a sua liberdade de expressão. O Jornal do Commercio, apenas para citar um exemplo, ocupou duas páginas quase que inteiramente para tachar de burra a atitude do Presidente, engrossando o coro de uma suposta causa da democracia. Ora, só alguém muito ingênuo para acreditar que as notícias veiculadas pela grande imprensa não estão destinadas a manipular a opinião pública a favor dos interesses das oligarquias brasileiras. Não estamos falando aqui de uma imprensa verdadeira, mas de uma imprensa que serve a interesses bem específicos e que procuram perpetuar os preconceitos mais nojentos contra os movimentos sociais populares. Essa imprensa não merece nenhum respeito e não tem moral para criticar uma atitude enérgica, necessária e indispensável. A cassação do visto do norte-americano foi a melhor atitude que se devia tomar, não porque o jornalista tenha sujado o nome do presidente aos bons olhos da opinião pública internacional, mas porque não podemos deixar que qualquer um, seja ele quem for, perpetue preconceitos contra os países latino-americanos, africanos e asiáticos. Yankee go home!
sábado, maio 01, 2004
Acerto de contas e pequeno adeus do blogue
Dado é para mim um grande amigo. Exagerado como só ele, parece às vezes não medir a força das palavras. O engraçado é vê-lo diante de suas próprias hiperboles, vivenciando sempre a posteriori(depois de ter dito, claro!) as mais diversas e adversas situações de constragimento. Porém nem tudo nessa caracteristica dele é excessivo em excesso. Este acerto de contas é uma pequena tentativa de mostrar algo de bom de uma relação amical impestada de conflitos cômicos. Talvez seja mesmo uma forma de agradecer explicando as razões pelas quais as coisas não podiam ser de outra forma.
O segundo ponto deste post é um aviso. Um adeus provisório do blogue que ficará algumas semanas inativo.
Como diria Paulo Honório: Continuemos. Conheci Dado ainda no Marista e pela razão mais esquisita do mundo: o cara era a fim de minha namorada! Não liguei, nem tive raiva. Convencido de viver uma relação extremamente sólida, dizia-me: aquele gordinho playboizinho de Casa Forte não tem nenhuma chance. Soube inclusive das investidas dele, paquerando, tentando impressionar a gatinha, levei tudo na onda porque achava-o "gente fina", mesmo tendo uns quilinhos a mais. Até aqui tudo tranquilo. Egraçado foi o primeiro conflito. Ainda hoje não entendo a razão daquela agressão de Eduardo. Estavamos em Casa Amarela e eu estava completamente perdido entre o entusiasmo de começar algo novo e um vazio enorme deixado pelo fim de uma relação duradoura. Dado chega e diz umas brutalidades, afirma meu machismo, acusa-me de comedor de criancinhas, devorador da predação alheia. Não lembro se respondi de imediato àquelas palavras duras, acho mesmo que na minha confusão aceitei todas as acusações como sendo verdadeiras. Furei meus olhos. Parti para um exílio, uma caminhada a procura do lugar onde Edipos esquecem as suas Jocastas. Neste lugar distante do inferno terrestre, o exílio da alma como dizia Vitor Hugo, encontrei a paz para mim e meu amigo. Alguns meses depois conversamos, pedimo-nos desculpas e prosseguimos.
Uma outra marca é a contínua birra de Dado com a minha decisão de prosseguir meus estudos acadêmicos. Outro dia, cansado do meus devaneios diários, estava percorrendo os blogues indicados como links no "Sangue de Barata" e descobri o de Carlós. Nele vi um comentário de Eduardo dizendo o seguinte: "Queria ter sabido dizer isso sobre a necessidade que ser filho de quem somos causa. Eu já tentei falar sobre isso para Jampa (mas queria que ele tomasse para si a responsabilidade de ser melhor que o pai - que talvez seja demais até para Jesus). A vida é essa coisa mutante mesmo e resumos sobre o Todo servem só para encher o bolso dos que os vendem." Sempre entendi essa posição crítica dele sem concordar. Não segui a política por várias razões. Mas nunca vi de fato incongruência entre leituras mais ou menos acadêmicas do mundo e a tomada de postura política, prática, atuante e atual. Podemos e devemos, como diria e disse Marx, não confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas. Isso sim seria e é motivo de deturpação da ordem das coisas(da lógica e do mundo). Estudando, imagino, tomo posição em favor de um tipo de postura pro liberdade possível, aquela que vincula consciência da impossibilidade de ser completamente livre com o esforço de entender os motivos desses limites para deles tentar se desfazer. Não acho por isso que a vida deva ser necessáriamente mediada por livros científicos ou filosóficos. Não acredito em Acrópoles ou utopias afins! A intriga do amigo foi e é bem recebida, pois é verdade a fragilidade do espirito humano diante do encanto de seu próprio engenho. E essa insistência do Amorim sempre me fez lembrar daquele algo básico que aprendi em família com as pessoas simples e pouco escolarizadas que me rodeavam: ao valor de uma vida não se tem mesura intelectual apropriada. A matemática prática de meu avô era tão importante nele, quanto as caretas que nos faziam tanto rir. As rezas de minha avó eram tanto expressão de sua fé, quanto seu amor estranho e maternal pelo marido doente era digno de um respeito crédulo. Dessas pessoas carrego em mim mais do que qualquer livro lido. Na falta delas aprendi a fazer o retorno ao início e pela saudade refletir os avanços e recuos das escolhas feitas. E é pensando neles e em outros que julgo importante entender o que eles não podiam e não puderam compreender. E dividir isso tudo parece ser a única forma de tonar essas crenças mais verdadeiras para mim. Pois do contrário, acredito, todo esse esforço para se tornar homem seria apenas mais uma luta vã e pequeno-burguesa para construir um lugar onde pudesse viver minha felicidade encantada com os frutos de minha própria inteligência(mesmo a conseiderando sem substancia, sinto-me capaz de seduzir-me pelo que ela é capaz de produzir). Findo, mesmo em certa tristeza, sempre agradecendo a Dado pela exageração de seus propósitos. Neles encontro alimento pra uma coerência limitada minha, porém cheia de sentido.
Para bem e para mal, acaba aqui o acerto de contas fraterno e carinhoso.
***
Aviso aos navegantes que nas próximas três semanas ou mais não haverá post neste blogue maldito. Razões: o mestrado. Um abraço a todos os amigos, um outro, um pouco diferente para os "inimigos"(Puchkin e companhia!).
Ps: Porra: Puchkin é muito mais violento no blogue de Carlós do que no meu.
Dado é para mim um grande amigo. Exagerado como só ele, parece às vezes não medir a força das palavras. O engraçado é vê-lo diante de suas próprias hiperboles, vivenciando sempre a posteriori(depois de ter dito, claro!) as mais diversas e adversas situações de constragimento. Porém nem tudo nessa caracteristica dele é excessivo em excesso. Este acerto de contas é uma pequena tentativa de mostrar algo de bom de uma relação amical impestada de conflitos cômicos. Talvez seja mesmo uma forma de agradecer explicando as razões pelas quais as coisas não podiam ser de outra forma.
O segundo ponto deste post é um aviso. Um adeus provisório do blogue que ficará algumas semanas inativo.
Como diria Paulo Honório: Continuemos. Conheci Dado ainda no Marista e pela razão mais esquisita do mundo: o cara era a fim de minha namorada! Não liguei, nem tive raiva. Convencido de viver uma relação extremamente sólida, dizia-me: aquele gordinho playboizinho de Casa Forte não tem nenhuma chance. Soube inclusive das investidas dele, paquerando, tentando impressionar a gatinha, levei tudo na onda porque achava-o "gente fina", mesmo tendo uns quilinhos a mais. Até aqui tudo tranquilo. Egraçado foi o primeiro conflito. Ainda hoje não entendo a razão daquela agressão de Eduardo. Estavamos em Casa Amarela e eu estava completamente perdido entre o entusiasmo de começar algo novo e um vazio enorme deixado pelo fim de uma relação duradoura. Dado chega e diz umas brutalidades, afirma meu machismo, acusa-me de comedor de criancinhas, devorador da predação alheia. Não lembro se respondi de imediato àquelas palavras duras, acho mesmo que na minha confusão aceitei todas as acusações como sendo verdadeiras. Furei meus olhos. Parti para um exílio, uma caminhada a procura do lugar onde Edipos esquecem as suas Jocastas. Neste lugar distante do inferno terrestre, o exílio da alma como dizia Vitor Hugo, encontrei a paz para mim e meu amigo. Alguns meses depois conversamos, pedimo-nos desculpas e prosseguimos.
Uma outra marca é a contínua birra de Dado com a minha decisão de prosseguir meus estudos acadêmicos. Outro dia, cansado do meus devaneios diários, estava percorrendo os blogues indicados como links no "Sangue de Barata" e descobri o de Carlós. Nele vi um comentário de Eduardo dizendo o seguinte: "Queria ter sabido dizer isso sobre a necessidade que ser filho de quem somos causa. Eu já tentei falar sobre isso para Jampa (mas queria que ele tomasse para si a responsabilidade de ser melhor que o pai - que talvez seja demais até para Jesus). A vida é essa coisa mutante mesmo e resumos sobre o Todo servem só para encher o bolso dos que os vendem." Sempre entendi essa posição crítica dele sem concordar. Não segui a política por várias razões. Mas nunca vi de fato incongruência entre leituras mais ou menos acadêmicas do mundo e a tomada de postura política, prática, atuante e atual. Podemos e devemos, como diria e disse Marx, não confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas. Isso sim seria e é motivo de deturpação da ordem das coisas(da lógica e do mundo). Estudando, imagino, tomo posição em favor de um tipo de postura pro liberdade possível, aquela que vincula consciência da impossibilidade de ser completamente livre com o esforço de entender os motivos desses limites para deles tentar se desfazer. Não acho por isso que a vida deva ser necessáriamente mediada por livros científicos ou filosóficos. Não acredito em Acrópoles ou utopias afins! A intriga do amigo foi e é bem recebida, pois é verdade a fragilidade do espirito humano diante do encanto de seu próprio engenho. E essa insistência do Amorim sempre me fez lembrar daquele algo básico que aprendi em família com as pessoas simples e pouco escolarizadas que me rodeavam: ao valor de uma vida não se tem mesura intelectual apropriada. A matemática prática de meu avô era tão importante nele, quanto as caretas que nos faziam tanto rir. As rezas de minha avó eram tanto expressão de sua fé, quanto seu amor estranho e maternal pelo marido doente era digno de um respeito crédulo. Dessas pessoas carrego em mim mais do que qualquer livro lido. Na falta delas aprendi a fazer o retorno ao início e pela saudade refletir os avanços e recuos das escolhas feitas. E é pensando neles e em outros que julgo importante entender o que eles não podiam e não puderam compreender. E dividir isso tudo parece ser a única forma de tonar essas crenças mais verdadeiras para mim. Pois do contrário, acredito, todo esse esforço para se tornar homem seria apenas mais uma luta vã e pequeno-burguesa para construir um lugar onde pudesse viver minha felicidade encantada com os frutos de minha própria inteligência(mesmo a conseiderando sem substancia, sinto-me capaz de seduzir-me pelo que ela é capaz de produzir). Findo, mesmo em certa tristeza, sempre agradecendo a Dado pela exageração de seus propósitos. Neles encontro alimento pra uma coerência limitada minha, porém cheia de sentido.
Para bem e para mal, acaba aqui o acerto de contas fraterno e carinhoso.
***
Aviso aos navegantes que nas próximas três semanas ou mais não haverá post neste blogue maldito. Razões: o mestrado. Um abraço a todos os amigos, um outro, um pouco diferente para os "inimigos"(Puchkin e companhia!).
Ps: Porra: Puchkin é muito mais violento no blogue de Carlós do que no meu.
domingo, abril 25, 2004
A festa dos dinossauros
Ontem foi o aniversário de meu irmão Pedro. Hoje vai ser a festa para comemorá-lo. Queria tanto estar lá para desejar ao pequeno algo de bom, pessoalmente. Com todo amor que tenho por ele, tentaria abraça-lo e expressar pelo olhar meu apego a todas as nossas diferenças e semelhanças.
***
Diferentes/Iguais
Somos diferentes sim, porém iguais. Sempre o tratei como um igual. Desagradava-me sempre o exageiro dos próximos com seus cuidados em damasia. Pedro é uma rocha. E sempre foi. Desde quando o vi pela primeira vez, quando voltei de Cuba, entendi sua disposição de carater estabelecida pela força :tinha menos de um mês e se fazia reconhecer pela potência inegualável do grito conciso, cortante.
***
Dinossauro(de Pedro): ou a fidelidade.
O carinho dele pelos dinossauros é de uma fidelidade pouco comum em tempos de pouca fé como o nosso. Não lembro de ter sido fiél assim na minha infância.Talvez minha primeira fidelidade tenha sido Valéria. Não. Já devia ter aprendido algo sobre essa insistência do mesmo, na escola. Mas para mim era como se a fidelidade fosse uma mémoria necessária de uma preferência minha. Ela consistia, se formulada em palavras de Pedro, no fazer esforço para reencontrar os dinossauros e de manter e reproduzir em mim os sentimentos de desejo fundamental, aquele que nos dá vontade de continuar a ir ao encontro de todos os repteis com mais de 20 metros de altura. Desde do primeiro pedido até hoje, Pedro sempre me pediu dinossauros de presente.
***
Pedro, Helder(Lorão), Eu e socialização
Acho incrível o fato dele viver na mesma familia a qual vivi e ter uma socialização tão diversa da minha e da de Helder. Está claro, Lorão e eu somos diferentes, mas nossas socializações têm semelhanças que nos explicam mutuamente e esclarecem tanto as distâncias como as proximidades de comportamento entre nós. Eh evidente as causas dessa diferença: as mudanças de posição social do núcleo familiar coloca Pedro em situações sociais as quais nunca nem eu nem Helder vivenciamos em nossa infância.
***
Bolsas Company e objetividade de classe
Pedro, espero, nunca vai precisar chorar e fazer chatagem emocional para os pais a fim de pressioná-los a comprar uma bolsa "Company" no shopping. Eh amargo depois descobrir que o fato de ter a bolsa não é suificiente para mudança de classe social desejada. Peupeu não precisa desejar mudar de classe social, pois ele é burguês e tem hábitos quase autênticos de burguês.(Um dia ele terá consciencia disso.)
A diferença de Peupeu no Capiparibe, para mim e Helder ter isso ou aquilo era um disfarce social necessário para nossa boa integração aos outros alunos do colégio Marista. Mas, para nossa triteza(temporária), o fazer de conta intrisseco ao fato de dois gorotos da UR-6 possuirem as tais bolsas da moda foi logo desmascarado. Desmoronou-se diante da resposta violenta da divisão objetiva das classes, diria um sociologo. Helder e eu, voltando para casa, chorando depois de um assalto o qual o ladrão colocara em evidência nosso plano de fingir ser como os outros da escola, eis um golpe forte. Descobrimos então o porquê dos estudantes do Marista possuirem bolsas "Company": os pais deles possuiam carros, eles voltavam seguros para casa. Podiamos ser classificados nesse momento como "novos classe média" fazendo analogia aos "novos ricos". Os "novos ricos" tem o dinheiro necessário para serem ricos, mas falta-lhes os modos de agir, as sabedorias do que se deve e não de se deve fazer, e eles terminam por trair a própria riqueza na falta de trato com os habitos aristocráticos ainda visados como forma de distinção social. Apenas pelo apredizado dessas "maneiras" o "novo rico" poderia objetivar sua nova classe social e ser socialmente aceito como rico sem aspas. Eu e Helder, inconcientes das forças sociais em questão, queriamos parecer crianças da classe média. Ora, não eramos isso e o esforço para parecer, aparecia. Hoje chamaria isso de sofrimento social, pois gerado por mecanismos própios a uma sociedade dividida em clases onde o risco de classificação(numa ou outra classe) é também um risco de desclassificação. Só o tempo e leitura crítica para curar as feridas e destruir o desejo tôlo de ser uma "criança burguesa".
Ontem foi o aniversário de meu irmão Pedro. Hoje vai ser a festa para comemorá-lo. Queria tanto estar lá para desejar ao pequeno algo de bom, pessoalmente. Com todo amor que tenho por ele, tentaria abraça-lo e expressar pelo olhar meu apego a todas as nossas diferenças e semelhanças.
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Diferentes/Iguais
Somos diferentes sim, porém iguais. Sempre o tratei como um igual. Desagradava-me sempre o exageiro dos próximos com seus cuidados em damasia. Pedro é uma rocha. E sempre foi. Desde quando o vi pela primeira vez, quando voltei de Cuba, entendi sua disposição de carater estabelecida pela força :tinha menos de um mês e se fazia reconhecer pela potência inegualável do grito conciso, cortante.
***
Dinossauro(de Pedro): ou a fidelidade.
O carinho dele pelos dinossauros é de uma fidelidade pouco comum em tempos de pouca fé como o nosso. Não lembro de ter sido fiél assim na minha infância.Talvez minha primeira fidelidade tenha sido Valéria. Não. Já devia ter aprendido algo sobre essa insistência do mesmo, na escola. Mas para mim era como se a fidelidade fosse uma mémoria necessária de uma preferência minha. Ela consistia, se formulada em palavras de Pedro, no fazer esforço para reencontrar os dinossauros e de manter e reproduzir em mim os sentimentos de desejo fundamental, aquele que nos dá vontade de continuar a ir ao encontro de todos os repteis com mais de 20 metros de altura. Desde do primeiro pedido até hoje, Pedro sempre me pediu dinossauros de presente.
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Pedro, Helder(Lorão), Eu e socialização
Acho incrível o fato dele viver na mesma familia a qual vivi e ter uma socialização tão diversa da minha e da de Helder. Está claro, Lorão e eu somos diferentes, mas nossas socializações têm semelhanças que nos explicam mutuamente e esclarecem tanto as distâncias como as proximidades de comportamento entre nós. Eh evidente as causas dessa diferença: as mudanças de posição social do núcleo familiar coloca Pedro em situações sociais as quais nunca nem eu nem Helder vivenciamos em nossa infância.
***
Bolsas Company e objetividade de classe
Pedro, espero, nunca vai precisar chorar e fazer chatagem emocional para os pais a fim de pressioná-los a comprar uma bolsa "Company" no shopping. Eh amargo depois descobrir que o fato de ter a bolsa não é suificiente para mudança de classe social desejada. Peupeu não precisa desejar mudar de classe social, pois ele é burguês e tem hábitos quase autênticos de burguês.(Um dia ele terá consciencia disso.)
A diferença de Peupeu no Capiparibe, para mim e Helder ter isso ou aquilo era um disfarce social necessário para nossa boa integração aos outros alunos do colégio Marista. Mas, para nossa triteza(temporária), o fazer de conta intrisseco ao fato de dois gorotos da UR-6 possuirem as tais bolsas da moda foi logo desmascarado. Desmoronou-se diante da resposta violenta da divisão objetiva das classes, diria um sociologo. Helder e eu, voltando para casa, chorando depois de um assalto o qual o ladrão colocara em evidência nosso plano de fingir ser como os outros da escola, eis um golpe forte. Descobrimos então o porquê dos estudantes do Marista possuirem bolsas "Company": os pais deles possuiam carros, eles voltavam seguros para casa. Podiamos ser classificados nesse momento como "novos classe média" fazendo analogia aos "novos ricos". Os "novos ricos" tem o dinheiro necessário para serem ricos, mas falta-lhes os modos de agir, as sabedorias do que se deve e não de se deve fazer, e eles terminam por trair a própria riqueza na falta de trato com os habitos aristocráticos ainda visados como forma de distinção social. Apenas pelo apredizado dessas "maneiras" o "novo rico" poderia objetivar sua nova classe social e ser socialmente aceito como rico sem aspas. Eu e Helder, inconcientes das forças sociais em questão, queriamos parecer crianças da classe média. Ora, não eramos isso e o esforço para parecer, aparecia. Hoje chamaria isso de sofrimento social, pois gerado por mecanismos própios a uma sociedade dividida em clases onde o risco de classificação(numa ou outra classe) é também um risco de desclassificação. Só o tempo e leitura crítica para curar as feridas e destruir o desejo tôlo de ser uma "criança burguesa".
quarta-feira, abril 21, 2004
Separação sujeito-objeto(à Julia)
Outro dia lembrava-me com carinho de um debate já antigo: Eu, Julia e Rafa discutiamos sobre cobras e largatos. Meu último post fez vir a tona essa lembrança, aproveito dela para considerar os comentários.
***
Aproveitando
Estavamos não sei onde (também desconheço o motivo e o porquê) e falavamos algo sobre "a verdade", "o necessário relativismo", etc. Julia, já na UFPE e cursando psicologia, Eu e Rafa ainda naquele lenga lenga de cursinho para fazer vestibular. Não deixa de ser engraçado tentar lembrar dos recursos, dos esforços, das estripulias de uma forma de pensar diletante e intuitiva diante da maior lucidez de uma lógica regrada(para não dizer sistematizada, pois imagino que isso seja um passo a mais). E é assim como vem a lembrança: de um lado Julia com exemplos precisos, justos, organizados pela razão; de outro Eu e Rafa, mais eu porque sou teimoso e não era irmão, tentando juntar fragmentos de nossa "experiência escolar" com outros de outra ordem, para negar a verdade de Julia(que era relativa para ela) e deveria ser universal, para nós.
Claro, nenhum detalhe da conversa me ficou. Porém, por lembrar da época, advinho qual argumento eu devo ter tentado usar para provar a verdade última: a velha e boa matématica. Devo ter dito indignado e enfurecido com a superioridade de Julia: "mas dois mais dois são quatro em qualquer lugar do mundo, isso não é relativo!é?" Hoje teria vergonha de cair nesse "realismo platônico"(quase pitagórico), porém é preciso responder aos comentários explicando os avanços(?) dados por mim em busca de um realismo outro, a fim de explicitar o meu ponto de vista sem reduzi-lo.
***
Racionalismo aplicado
Pois bem. Não creio que o esforço de objetivação, que passa necessáriamente por um tipo de separação sujeito-objeto, seja contestável de todo. Se implosão dessa separação foi feita, tenho a impressão de vê-la apenas na crítica incontestável da fenomenologia ao estatuto positivista da desvinculação entre os dois, em absoluto. Ou seja: o que antes era dado pelos positivistas como dado(os famosos fatos), agora tem que ser visto como construido(para alegria dos jornalistas que podem pensar às vezes que a realidade é construida por eles!) .Porém, se é verdade que "o ponto de vista cria o objeto", não é menos que não o pode criar a sua imagem e semelhança(como fazem alguns jornalistas e ciêntistas sociais mais ou menos bem informados!), e é nesse sentido que não me conformo na fenomenologia(tenho cuidado com os usos dela), e busco alcançar outros parametros epistemologicos de concepção do real.
***
Exemplo da sociologia
Bourdieu dizia que o progresso nas ciências sociais dependia de um progresso nas condições de conhecimento. Para isso são nessarias, dizia ele, idas e vindas aos memos objetos, ocasioões para objetivar a relação subjetiva e objetiva ao objeto.
A sociologia que se diz fenomenológica, ao meu entender, faz meio trabalho e dificulta o trabalho de elaboração de objetos mais condizentes com a realidade empirica por não aceitar o trabalho necessário de objetificação das relações subjetivas e objetivas que mantemos com o objeto. Um exemplo disso em termos mais metodologicos que epistemologicos é a etnometodologia. Nela se fala até de "generosidade epistemologica" em oposição à tradicional "ruptura epistemológica". "Os atores são conscientes de si[nesse sentido a psicanalise ajuda-me a dizer não a certos exageros!], o esforço do sociologo deve ser descritivo e não analítico, etc." Todos esses argumentos que, de uma maneira ou de outra, nivelam formas de pensar diferentes em nome de um falso humanismo, são por mim rejeitados. Pois não vejo como a ciência pode não estar em oposição ao senso comum. E Husserl em pessoa, como também Bergson(representante maior do elitismo itelectual na França deve demorar em aparecer!) opunham suas formas de pensar ao "vulgato ordinário".
***
Voltando ao individuo, ao "eu socializado"
Falando da "teoria da personalidade" Luicien Sève diz o seguinte: " é naquilo que sua personalidade tem de mais essencialmente social que o individuo é mais singular, naquilo que ela(a personalidade) tem de essencialmente singular que ela é mais social". A grande dificuldade a superar é essa. Acho porém que podemos nos pensar como individuos sociais e socializados. E isso para o bem de nossa psicologia. Mesmo sendo aqui uma psciqué um pouco blogueira e cheia de narcisismo. Pois é isso.
Outro dia lembrava-me com carinho de um debate já antigo: Eu, Julia e Rafa discutiamos sobre cobras e largatos. Meu último post fez vir a tona essa lembrança, aproveito dela para considerar os comentários.
***
Aproveitando
Estavamos não sei onde (também desconheço o motivo e o porquê) e falavamos algo sobre "a verdade", "o necessário relativismo", etc. Julia, já na UFPE e cursando psicologia, Eu e Rafa ainda naquele lenga lenga de cursinho para fazer vestibular. Não deixa de ser engraçado tentar lembrar dos recursos, dos esforços, das estripulias de uma forma de pensar diletante e intuitiva diante da maior lucidez de uma lógica regrada(para não dizer sistematizada, pois imagino que isso seja um passo a mais). E é assim como vem a lembrança: de um lado Julia com exemplos precisos, justos, organizados pela razão; de outro Eu e Rafa, mais eu porque sou teimoso e não era irmão, tentando juntar fragmentos de nossa "experiência escolar" com outros de outra ordem, para negar a verdade de Julia(que era relativa para ela) e deveria ser universal, para nós.
Claro, nenhum detalhe da conversa me ficou. Porém, por lembrar da época, advinho qual argumento eu devo ter tentado usar para provar a verdade última: a velha e boa matématica. Devo ter dito indignado e enfurecido com a superioridade de Julia: "mas dois mais dois são quatro em qualquer lugar do mundo, isso não é relativo!é?" Hoje teria vergonha de cair nesse "realismo platônico"(quase pitagórico), porém é preciso responder aos comentários explicando os avanços(?) dados por mim em busca de um realismo outro, a fim de explicitar o meu ponto de vista sem reduzi-lo.
***
Racionalismo aplicado
Pois bem. Não creio que o esforço de objetivação, que passa necessáriamente por um tipo de separação sujeito-objeto, seja contestável de todo. Se implosão dessa separação foi feita, tenho a impressão de vê-la apenas na crítica incontestável da fenomenologia ao estatuto positivista da desvinculação entre os dois, em absoluto. Ou seja: o que antes era dado pelos positivistas como dado(os famosos fatos), agora tem que ser visto como construido(para alegria dos jornalistas que podem pensar às vezes que a realidade é construida por eles!) .Porém, se é verdade que "o ponto de vista cria o objeto", não é menos que não o pode criar a sua imagem e semelhança(como fazem alguns jornalistas e ciêntistas sociais mais ou menos bem informados!), e é nesse sentido que não me conformo na fenomenologia(tenho cuidado com os usos dela), e busco alcançar outros parametros epistemologicos de concepção do real.
***
Exemplo da sociologia
Bourdieu dizia que o progresso nas ciências sociais dependia de um progresso nas condições de conhecimento. Para isso são nessarias, dizia ele, idas e vindas aos memos objetos, ocasioões para objetivar a relação subjetiva e objetiva ao objeto.
A sociologia que se diz fenomenológica, ao meu entender, faz meio trabalho e dificulta o trabalho de elaboração de objetos mais condizentes com a realidade empirica por não aceitar o trabalho necessário de objetificação das relações subjetivas e objetivas que mantemos com o objeto. Um exemplo disso em termos mais metodologicos que epistemologicos é a etnometodologia. Nela se fala até de "generosidade epistemologica" em oposição à tradicional "ruptura epistemológica". "Os atores são conscientes de si[nesse sentido a psicanalise ajuda-me a dizer não a certos exageros!], o esforço do sociologo deve ser descritivo e não analítico, etc." Todos esses argumentos que, de uma maneira ou de outra, nivelam formas de pensar diferentes em nome de um falso humanismo, são por mim rejeitados. Pois não vejo como a ciência pode não estar em oposição ao senso comum. E Husserl em pessoa, como também Bergson(representante maior do elitismo itelectual na França deve demorar em aparecer!) opunham suas formas de pensar ao "vulgato ordinário".
***
Voltando ao individuo, ao "eu socializado"
Falando da "teoria da personalidade" Luicien Sève diz o seguinte: " é naquilo que sua personalidade tem de mais essencialmente social que o individuo é mais singular, naquilo que ela(a personalidade) tem de essencialmente singular que ela é mais social". A grande dificuldade a superar é essa. Acho porém que podemos nos pensar como individuos sociais e socializados. E isso para o bem de nossa psicologia. Mesmo sendo aqui uma psciqué um pouco blogueira e cheia de narcisismo. Pois é isso.
segunda-feira, abril 12, 2004
Coisas do amor (sentimentalismo livresco, entre outros)
A coisa mais irritante de um blogue é esse aspecto puramente autobiografico, egocêntrico, egoísta, "eu isso e eu aquilo", que na maioria das vezes parece inevitável na construção desses espaços virtuais do narcisismo mais vil e concreto de nosso tempo. Pode parecer inútil a busca desse distânciamento de si, desse esforço de objectivação de si, numa tetativa de mostrar que o importante é misturar uma miséria individual com outras, onde elas (as misérias) se transformam em fenômeno coletivo, se não social. Talvez não seja nunca vão relembrar,e vou fazê-lo sempre que possível, que quando escrevo em primeira pessoa, nesse eu teatralizado, não é de mim que falo, mas de um objeto, distanciado na mesura do possível no intento mesmo de não ser reduzida a minha existência recontada ao fardo dessa irreductibilidade, dessa unicidade tão única que proibe toda forma de troca simbólica.
E não foi por outra razão, falo do sentimento de antipatia para comigo mesmo ao atender a esse eunismo blogueiro, que li ontem de maneira um pouco compulsiva um livro de um sociólogo o qual não consigo esconder meu entusiasmo. Intitulado Esquisse pour une auto-analyse( Esboço para uma auto-análise), esse pequeno texto de pouco mais de cem páginas de Pierre Bourdieu, encheu minha fraca cultura de franca empatia, único sentimento possível para um estudante como eu diante de uma confissão tão sensível aos valores da ciência, da sociologia. Sem sentir-me mais inteligente ou capaz que outros, não pude não sentir uma emoção profunda ao ler as frases finais do livro: " Je n'ai jamais pensé que je commettais un acte d'arrogance sacrilège lorsque je posais, sans me prendre pour lui pour autant, comme tant de critiques inspirés, que Flaubert ou Manet était qulqu'un comme moi. Et rien ne me rendrait plus heureux que d'avoir réussi à faire que certains de mes lecteurs ou lectrices reconnaissent leurs expériences, leurs difficultés, leurs interrogations, leurs souffrances,etc., dans les miennes et qu'ils tirent de cette identification réaliste, qui est tout à fait à l'opposé d'une projection exaltée, des moyens de faire et de vivre un tout petit peu mieux ce qu'ils vivent et ce qu'ils font."( Eu nunca pensei cometer um ato de arrogância quando colocava, sem me colocar como ele, como tantos criticos inspirados, que Flaubert ou Manet era alguém como eu. E nada me faria mais feliz do que ter conseguido fazer que alguns de meus leitores ou leitoras reconhecendo suas experiencias, suas dificuldades, suas interogações, seus sofrimentos,etc., nas minhas, tirassem dessa identificação realista, que é exatamente o oposto de uma projeção exaltada, os meios para fazer e viver um pouco melhor o que vivem e o que fazem.)
Talvez pudesse dizer diante dessa minha juventude preguiçosa o quão o desejo do grande sociólogo francês parece próximo de meu desejo empacado(não vou divagar sobre as razões) de transformar-me num estudante aplicado.
Não sei da natureza das forças produtoras de minha lerdeza, porém ainda não desisti. Dentro desse percurso um pouco dolorido de construção de caminho, tento me inspirar desses textos condensadores da experiência alheia... Tento encontrar algo de mim lá dentro. Porém não de mim sozinho, isolado. Mas desse "eu" configurado na experiencia mesma do mundo, com outros tantos eus sigunlarmente comuns.
A coisa mais irritante de um blogue é esse aspecto puramente autobiografico, egocêntrico, egoísta, "eu isso e eu aquilo", que na maioria das vezes parece inevitável na construção desses espaços virtuais do narcisismo mais vil e concreto de nosso tempo. Pode parecer inútil a busca desse distânciamento de si, desse esforço de objectivação de si, numa tetativa de mostrar que o importante é misturar uma miséria individual com outras, onde elas (as misérias) se transformam em fenômeno coletivo, se não social. Talvez não seja nunca vão relembrar,e vou fazê-lo sempre que possível, que quando escrevo em primeira pessoa, nesse eu teatralizado, não é de mim que falo, mas de um objeto, distanciado na mesura do possível no intento mesmo de não ser reduzida a minha existência recontada ao fardo dessa irreductibilidade, dessa unicidade tão única que proibe toda forma de troca simbólica.
E não foi por outra razão, falo do sentimento de antipatia para comigo mesmo ao atender a esse eunismo blogueiro, que li ontem de maneira um pouco compulsiva um livro de um sociólogo o qual não consigo esconder meu entusiasmo. Intitulado Esquisse pour une auto-analyse( Esboço para uma auto-análise), esse pequeno texto de pouco mais de cem páginas de Pierre Bourdieu, encheu minha fraca cultura de franca empatia, único sentimento possível para um estudante como eu diante de uma confissão tão sensível aos valores da ciência, da sociologia. Sem sentir-me mais inteligente ou capaz que outros, não pude não sentir uma emoção profunda ao ler as frases finais do livro: " Je n'ai jamais pensé que je commettais un acte d'arrogance sacrilège lorsque je posais, sans me prendre pour lui pour autant, comme tant de critiques inspirés, que Flaubert ou Manet était qulqu'un comme moi. Et rien ne me rendrait plus heureux que d'avoir réussi à faire que certains de mes lecteurs ou lectrices reconnaissent leurs expériences, leurs difficultés, leurs interrogations, leurs souffrances,etc., dans les miennes et qu'ils tirent de cette identification réaliste, qui est tout à fait à l'opposé d'une projection exaltée, des moyens de faire et de vivre un tout petit peu mieux ce qu'ils vivent et ce qu'ils font."( Eu nunca pensei cometer um ato de arrogância quando colocava, sem me colocar como ele, como tantos criticos inspirados, que Flaubert ou Manet era alguém como eu. E nada me faria mais feliz do que ter conseguido fazer que alguns de meus leitores ou leitoras reconhecendo suas experiencias, suas dificuldades, suas interogações, seus sofrimentos,etc., nas minhas, tirassem dessa identificação realista, que é exatamente o oposto de uma projeção exaltada, os meios para fazer e viver um pouco melhor o que vivem e o que fazem.)
Talvez pudesse dizer diante dessa minha juventude preguiçosa o quão o desejo do grande sociólogo francês parece próximo de meu desejo empacado(não vou divagar sobre as razões) de transformar-me num estudante aplicado.
Não sei da natureza das forças produtoras de minha lerdeza, porém ainda não desisti. Dentro desse percurso um pouco dolorido de construção de caminho, tento me inspirar desses textos condensadores da experiência alheia... Tento encontrar algo de mim lá dentro. Porém não de mim sozinho, isolado. Mas desse "eu" configurado na experiencia mesma do mundo, com outros tantos eus sigunlarmente comuns.
sexta-feira, abril 09, 2004
"Cronologicamente a situação era a seguinte: um homem(sujeito) e uma mulher (obejeto) estavam casados"(Clarice Lispector)
Um texto de um não-filosofo
Na UFPE escutei pela primeira vez uma critica clara do positivismo. Lembro bem. Foi numa aula de introdução à Antropologia. Na época, incorporei bem e com entusiasmo àquela postura de negação da "arrogância iluminista", da "pretenção de descrever o real do mundo", do "mito do evolucionismo". Graças a não sei que Deus, não fui até o fim dessa caminhada. Tive oportunidade de rever alguns exageros. E assim, pude ler nessa união matrimonial entre sujeito e objeto, realizada na critica do "objetivismo positivista" , traços de uma arrogancia talvez mais brutal que a precedente.
A arrogância do primeiro consistia numa crença desmesurada na razão e na tecnica. Porém, o mundo restava timidamente uma realidade exterior ao homem que tentava desvendar seus mistérios. Na segunda, se aceitamos certos exageiros idealistas, o mundo existe apenas a partir de uma espécie de dependência entre o sujeito e sua consciência do mundo em questão. A realidade é tida como um dado imbricado ao sujeito/objeto, agora em uno. Ora, na minha opinião tentar descobrir um mundo que independe de mim é mais modesto, digamos, que aceitar uma verdade a qual precisa de mim para existir em si. Não acham?
Mas é preciso afinar ainda mais essa coisa toda. A fenomenologia é mais subtil e refinada e esquiva-se dos antigos quadros de disputa entre o idealismo vs matérialismo(realismo). Husserl faz uma leitura muito fina dos mecanismos de subjetivação e objetivação no sujeito. Constroi um "eu" todo especial para dar suporte a esse novo casamento entre sujeito e objeto. Porém, como diria Clarice Lispector, meu "eu" nunca é esse "em si" que responde livremente e faz escolhas. E é nesse sentido que essa filosofia da vida (mãe do existêncialismo de Heidegger a Sartre) parece tender a um universalismo emagador da historia. Eh assim que ela tenta lutar contra o determinismo forçando a produção teorica desse homem livre, um escolhedor de destinos. Eh engraçado ver como diferentes humanismos tentam atingir o mesmo obejtivo, a liberdade. Marx, por exemplo, também falava em homem como sujeito de sua propria historia. Porém, estudou os mecanismos externos da prisão de homens, produtores internos da ilusão de liberdade. Alain Touraine também fala de sujeito: homem que tem consciencia de sua historicidade. Que enfrenta a fragmentação do "moi" e constroi uma identidade na alteridade. A exceção de Marx, todos leram Husserl... Bem se não leram(falo da Clarice e de Touraine), tudo bem. Tem outro francês que leu, um tal de Michel Henry. Ele escreveu um livro que se chama Marx. Não sei se é irônia: mas é um estudo fenomenologico do barbudo.
Agora que disse todas essas asneiras sem nenhum controle. Termino sem conclusão. Para os que tiveram coragem de ler esses três paragrafos: boa noite.
Um texto de um não-filosofo
Na UFPE escutei pela primeira vez uma critica clara do positivismo. Lembro bem. Foi numa aula de introdução à Antropologia. Na época, incorporei bem e com entusiasmo àquela postura de negação da "arrogância iluminista", da "pretenção de descrever o real do mundo", do "mito do evolucionismo". Graças a não sei que Deus, não fui até o fim dessa caminhada. Tive oportunidade de rever alguns exageros. E assim, pude ler nessa união matrimonial entre sujeito e objeto, realizada na critica do "objetivismo positivista" , traços de uma arrogancia talvez mais brutal que a precedente.
A arrogância do primeiro consistia numa crença desmesurada na razão e na tecnica. Porém, o mundo restava timidamente uma realidade exterior ao homem que tentava desvendar seus mistérios. Na segunda, se aceitamos certos exageiros idealistas, o mundo existe apenas a partir de uma espécie de dependência entre o sujeito e sua consciência do mundo em questão. A realidade é tida como um dado imbricado ao sujeito/objeto, agora em uno. Ora, na minha opinião tentar descobrir um mundo que independe de mim é mais modesto, digamos, que aceitar uma verdade a qual precisa de mim para existir em si. Não acham?
Mas é preciso afinar ainda mais essa coisa toda. A fenomenologia é mais subtil e refinada e esquiva-se dos antigos quadros de disputa entre o idealismo vs matérialismo(realismo). Husserl faz uma leitura muito fina dos mecanismos de subjetivação e objetivação no sujeito. Constroi um "eu" todo especial para dar suporte a esse novo casamento entre sujeito e objeto. Porém, como diria Clarice Lispector, meu "eu" nunca é esse "em si" que responde livremente e faz escolhas. E é nesse sentido que essa filosofia da vida (mãe do existêncialismo de Heidegger a Sartre) parece tender a um universalismo emagador da historia. Eh assim que ela tenta lutar contra o determinismo forçando a produção teorica desse homem livre, um escolhedor de destinos. Eh engraçado ver como diferentes humanismos tentam atingir o mesmo obejtivo, a liberdade. Marx, por exemplo, também falava em homem como sujeito de sua propria historia. Porém, estudou os mecanismos externos da prisão de homens, produtores internos da ilusão de liberdade. Alain Touraine também fala de sujeito: homem que tem consciencia de sua historicidade. Que enfrenta a fragmentação do "moi" e constroi uma identidade na alteridade. A exceção de Marx, todos leram Husserl... Bem se não leram(falo da Clarice e de Touraine), tudo bem. Tem outro francês que leu, um tal de Michel Henry. Ele escreveu um livro que se chama Marx. Não sei se é irônia: mas é um estudo fenomenologico do barbudo.
Agora que disse todas essas asneiras sem nenhum controle. Termino sem conclusão. Para os que tiveram coragem de ler esses três paragrafos: boa noite.
terça-feira, abril 06, 2004
Les Choristes
Acabo de chegar do cinema. Vi muita beleza. Fazia tempo que procurava ternura na sétima arte em vão. Quanta vida recontada, e com qual graça e lirismo! Chorei porque fazia tempo que não via tantos sentimentos bons sem sentimentalismo. Saudade.
O filme reconta a historia de Clémont Mathieu, um educador. Um professor de musica fracassado, desempregado e aceito como "auxiliar de professor" num internato no periodo do pos-guerra. Logo na chegada Mathieu encontra um ambiente pedagogico repressivo. Não vou alongar em detalhes... Revelo logo, o bonito do filme é o seguinte: ele vai aos poucos, através do canto, mudando a forma de encarar as crianças dificeis la internadas. Mas mudando mesmo. Antes da chegada dele, os garotos eram violentos em e por principio aos olhos do diretor do estabelecimento, e aos do expectador também um pouco. Diante do olhar sereno do recem chegado, a meninada ganhava um outro sentido. Ela dava um sentido. E tudo isso mediado por um canto cheio ternura... Se eu pudesse escrever o canto, se pudesse cantar aqui, reproduzir a beleza, o som. Ah palavras inuteis!
Acho que fiquei apaixonado pelo personagem. Tudo nele me pareceu encantador. Talvez esse encanto, pondero, tenha sido fruto dessa estranha utopia dele a qual sinto-me atachado, a da educação. As vezes sinto vontade de me deixar levar por esse sonho de ensinar o fundamental, o basico e largar todo o resto. Ir ao contato do mundo em seu estado bruto, não se deixar levar pela dureza dos encontros. Educar. Verbo misterioso, sem sentido. Falar do prazer de aprender e apreender as coisas. Das dores e agonias geradas por isso. Voltar e dizer sobre a realidade da caverna produzida pelo efeito da luz. Luminosidade que machuca os olhos. Coisa da filosofia, dessa vontade de entender... Serah que isso se ensina? Tavez não.
Eita. Vi que foi empolgação demais por hoje. Terminei sem comentar o filme direito. Mas espero que vocês possam assisti-lo. Vale a pena. Boa noite!
Acabo de chegar do cinema. Vi muita beleza. Fazia tempo que procurava ternura na sétima arte em vão. Quanta vida recontada, e com qual graça e lirismo! Chorei porque fazia tempo que não via tantos sentimentos bons sem sentimentalismo. Saudade.
O filme reconta a historia de Clémont Mathieu, um educador. Um professor de musica fracassado, desempregado e aceito como "auxiliar de professor" num internato no periodo do pos-guerra. Logo na chegada Mathieu encontra um ambiente pedagogico repressivo. Não vou alongar em detalhes... Revelo logo, o bonito do filme é o seguinte: ele vai aos poucos, através do canto, mudando a forma de encarar as crianças dificeis la internadas. Mas mudando mesmo. Antes da chegada dele, os garotos eram violentos em e por principio aos olhos do diretor do estabelecimento, e aos do expectador também um pouco. Diante do olhar sereno do recem chegado, a meninada ganhava um outro sentido. Ela dava um sentido. E tudo isso mediado por um canto cheio ternura... Se eu pudesse escrever o canto, se pudesse cantar aqui, reproduzir a beleza, o som. Ah palavras inuteis!
Acho que fiquei apaixonado pelo personagem. Tudo nele me pareceu encantador. Talvez esse encanto, pondero, tenha sido fruto dessa estranha utopia dele a qual sinto-me atachado, a da educação. As vezes sinto vontade de me deixar levar por esse sonho de ensinar o fundamental, o basico e largar todo o resto. Ir ao contato do mundo em seu estado bruto, não se deixar levar pela dureza dos encontros. Educar. Verbo misterioso, sem sentido. Falar do prazer de aprender e apreender as coisas. Das dores e agonias geradas por isso. Voltar e dizer sobre a realidade da caverna produzida pelo efeito da luz. Luminosidade que machuca os olhos. Coisa da filosofia, dessa vontade de entender... Serah que isso se ensina? Tavez não.
Eita. Vi que foi empolgação demais por hoje. Terminei sem comentar o filme direito. Mas espero que vocês possam assisti-lo. Vale a pena. Boa noite!
domingo, abril 04, 2004
Poça de Lama
Descrição de personagens
Raul, irmão de Romero e Ricardo. Filho do meio, como se diz, de Isabel e Raimundo. Criança de olho triste, fundo. Quase negro.Tem jeito de trombadinha. A mãe, apesar disso, além de o achar bonito, insiste em chama-lo de Meu Rei, de Meu Rico, de Meu Reino. Taxonomia nobre, de profunda demonstração de carinho para com o garoto de pobreza tão evidente.Sim, o corpo dele é fino, sem esperança. Mesmo assim, bateu peladas no Buracão.
Romero, irmão menor e mais chato, é tão magro que mesmo a maldade dele em periodo de odio é mingua e fraca. Ele tem cacimbas la onde outros seres humanos calculam ter saboneteiras. Coisa incrivel, nele, entre o ombro e o peito, pode-se guardar um pouco de agua em épocas de chuva. Penoso. Tapado. Carniçeiro. Urubu. Uma criança como tantas outras daquele lugar. Ele também jogou bola no Buracão.
Ricardo. A ameaça do maior e do mais forte. Dentes de cavalo. Cascudo adulto, defensor da prole moribunda. Autoridade arbitraria. Um tirano. Menos magro. Ainda menos negro. Ja transa com garotas. Se não faz, ensina uma tal de punheta. Diz ser quase o mesmo que foder. Sim, foi atacante no Buracão.
Descrição do local
O Buracão é um campo de futebol nos cafundois do Judas. Situa-se entre o fim de mundo e o começo de um outro fim, mais duradouro. Depois dessa região limitrofe, existe apenas uma linha de trem onde mortos aparecem de quando em vez. Individuos sem importância, pois aprende-se rapido a razão da morte deles: são pessoas màs, gente ligada ao trafico. Sujeitos fadados a esse tipo de destino.
Finalmente a poça
Paulinho jogava bola com alguns amigos na quadra da UR-6. O chão pegava fogo, o sol era de rachar, e todos continuavam naquela danação de pelada. Imagino que Dante não poderia ver crianças em inferno daqueles.
Os pés dos pequenos demonios, ja acostumados com toda dor, so esperavam tocar na bola para driblar e mostrar mais pericia.
Entre os de seu time, Queinho, Raul e Piu. Entre os inimigos Dinho, Ricardo e Daniel Capeta. Depois de horas a fio de futebol violento, sangrento, e idas e vindas aos bancos de espera, Helder, irmão do tal Paulinho voltou para casa. Nesse momento alguns grandes chegaram expulsando os menores, mais ou menos às 4:00 horas da tarde. Era sempre assim, na hora que o sol decia e a temperatura ficava amena os maiores usavam da lei do mais forte.
Nesse dia os pequenos decidiram continuar o jogo no famoso e temido Buracão. O problema é que o tempo mudara rapidamente e o sol dera lugar a nunves negras. A chuva era certa. Mas a vontade de jogar talvez fosse ainda mais. Então os mais teimosos, cheios de medo, partiram pela primeira vez sozinhos para o campo dos grandes. Afinal, sair de um inferno seco para um molhado, não poderia ser tão horrivel assim.
Pelada de gigantes na lama. Do pescoço para baixo era canela. Porrada não faltou. Porém, nenhuma pancada podia ser maior do que a da bola parada na poça de lama...
Momento tenso. Raul, o menor dentre todos naquele lugar imenso foi buscar a bola encharcada.Paulinho olhava tudo, perplexo. Pegando nela com a mão, o menino com jeito de trobadinha sente um pé encravado na terra. Aquele negro pequeno e magro gritava, não queria mais jogar. Tinha visto um morto. Daqueles sem importancia. O grito de pavor parecia indicar uma consciencia esquisita: quem teria o mesmo destino?
O presente mostrou o seguinte:
Piu, morto com tiro na frente de casa. Dinho, perseguido, acuado e não se sabe se continua vivo. Daniel foi assassinado de maneira cruel e o corpo deixado na frente da casa da madrasta. Raul, Romero e Ricardo devem estar bem, graças a deus. Paulinho conta a historia em terceira pessoa, com medo do pavor intimo de toda confissão.
Descrição de personagens
Raul, irmão de Romero e Ricardo. Filho do meio, como se diz, de Isabel e Raimundo. Criança de olho triste, fundo. Quase negro.Tem jeito de trombadinha. A mãe, apesar disso, além de o achar bonito, insiste em chama-lo de Meu Rei, de Meu Rico, de Meu Reino. Taxonomia nobre, de profunda demonstração de carinho para com o garoto de pobreza tão evidente.Sim, o corpo dele é fino, sem esperança. Mesmo assim, bateu peladas no Buracão.
Romero, irmão menor e mais chato, é tão magro que mesmo a maldade dele em periodo de odio é mingua e fraca. Ele tem cacimbas la onde outros seres humanos calculam ter saboneteiras. Coisa incrivel, nele, entre o ombro e o peito, pode-se guardar um pouco de agua em épocas de chuva. Penoso. Tapado. Carniçeiro. Urubu. Uma criança como tantas outras daquele lugar. Ele também jogou bola no Buracão.
Ricardo. A ameaça do maior e do mais forte. Dentes de cavalo. Cascudo adulto, defensor da prole moribunda. Autoridade arbitraria. Um tirano. Menos magro. Ainda menos negro. Ja transa com garotas. Se não faz, ensina uma tal de punheta. Diz ser quase o mesmo que foder. Sim, foi atacante no Buracão.
Descrição do local
O Buracão é um campo de futebol nos cafundois do Judas. Situa-se entre o fim de mundo e o começo de um outro fim, mais duradouro. Depois dessa região limitrofe, existe apenas uma linha de trem onde mortos aparecem de quando em vez. Individuos sem importância, pois aprende-se rapido a razão da morte deles: são pessoas màs, gente ligada ao trafico. Sujeitos fadados a esse tipo de destino.
Finalmente a poça
Paulinho jogava bola com alguns amigos na quadra da UR-6. O chão pegava fogo, o sol era de rachar, e todos continuavam naquela danação de pelada. Imagino que Dante não poderia ver crianças em inferno daqueles.
Os pés dos pequenos demonios, ja acostumados com toda dor, so esperavam tocar na bola para driblar e mostrar mais pericia.
Entre os de seu time, Queinho, Raul e Piu. Entre os inimigos Dinho, Ricardo e Daniel Capeta. Depois de horas a fio de futebol violento, sangrento, e idas e vindas aos bancos de espera, Helder, irmão do tal Paulinho voltou para casa. Nesse momento alguns grandes chegaram expulsando os menores, mais ou menos às 4:00 horas da tarde. Era sempre assim, na hora que o sol decia e a temperatura ficava amena os maiores usavam da lei do mais forte.
Nesse dia os pequenos decidiram continuar o jogo no famoso e temido Buracão. O problema é que o tempo mudara rapidamente e o sol dera lugar a nunves negras. A chuva era certa. Mas a vontade de jogar talvez fosse ainda mais. Então os mais teimosos, cheios de medo, partiram pela primeira vez sozinhos para o campo dos grandes. Afinal, sair de um inferno seco para um molhado, não poderia ser tão horrivel assim.
Pelada de gigantes na lama. Do pescoço para baixo era canela. Porrada não faltou. Porém, nenhuma pancada podia ser maior do que a da bola parada na poça de lama...
Momento tenso. Raul, o menor dentre todos naquele lugar imenso foi buscar a bola encharcada.Paulinho olhava tudo, perplexo. Pegando nela com a mão, o menino com jeito de trobadinha sente um pé encravado na terra. Aquele negro pequeno e magro gritava, não queria mais jogar. Tinha visto um morto. Daqueles sem importancia. O grito de pavor parecia indicar uma consciencia esquisita: quem teria o mesmo destino?
O presente mostrou o seguinte:
Piu, morto com tiro na frente de casa. Dinho, perseguido, acuado e não se sabe se continua vivo. Daniel foi assassinado de maneira cruel e o corpo deixado na frente da casa da madrasta. Raul, Romero e Ricardo devem estar bem, graças a deus. Paulinho conta a historia em terceira pessoa, com medo do pavor intimo de toda confissão.
quinta-feira, abril 01, 2004
Clarice: amante de Cesar amante de livros
Puchkin parece impressinado com a intertextualidade dos blogs. Por isso decidi falar de um outro blog o qual gosto muito de ler. Além daquele de Dado, adoro ler o do amigo Cesar.(Nao vou dar o endereço para os chatos!)
Li outro dia alguns textos antigos, pois cheguei atrasado no universo do blogue dele. Encontrei um texto engraçado no qual reconheci uma Clarice um pouco modificada da minha. Cesar a tomava como amante, assim como ela fazia com o livro do Lobato, As reinaçoes de Narizinho, no conto Felicidade Clantdestina. Como por amizade lembrei que sempre vi no amigo com cabeça de sergipano aquela imagem de devorador de livros. Alguém com a capacidade de fingir que nao tinha um livro so para depois tomar o susto de o ter...
Dormir com a Clarice (Macabeia). Depois acordar com ela. Parece sonho falar assim. Intriga pensar nisso como uma outra forma de fingir(ler) um livro. Porém, em empatia, sinto-me livre para chamar isso de literatura. Pois transfigurada a imagem do real, o sonho quixotesco do blogue parece mais humano e vivo.
Vou indo. Acabou minha aula de informatica. Fim de tempo nesse espaço intertextual.
Puchkin parece impressinado com a intertextualidade dos blogs. Por isso decidi falar de um outro blog o qual gosto muito de ler. Além daquele de Dado, adoro ler o do amigo Cesar.(Nao vou dar o endereço para os chatos!)
Li outro dia alguns textos antigos, pois cheguei atrasado no universo do blogue dele. Encontrei um texto engraçado no qual reconheci uma Clarice um pouco modificada da minha. Cesar a tomava como amante, assim como ela fazia com o livro do Lobato, As reinaçoes de Narizinho, no conto Felicidade Clantdestina. Como por amizade lembrei que sempre vi no amigo com cabeça de sergipano aquela imagem de devorador de livros. Alguém com a capacidade de fingir que nao tinha um livro so para depois tomar o susto de o ter...
Dormir com a Clarice (Macabeia). Depois acordar com ela. Parece sonho falar assim. Intriga pensar nisso como uma outra forma de fingir(ler) um livro. Porém, em empatia, sinto-me livre para chamar isso de literatura. Pois transfigurada a imagem do real, o sonho quixotesco do blogue parece mais humano e vivo.
Vou indo. Acabou minha aula de informatica. Fim de tempo nesse espaço intertextual.
terça-feira, março 30, 2004
Tarde meta[física] (ao amigo Ton)
Era uma tarde de quarta-feira(chuto). Um dia de reunião para um grupo de estudantes militantes. Acredita-se em tantas coisas quando na primeira juventude, não é? De hoje o objetivo do encontro parece opaco: ver e debater O ponto de mutação, filme inspirado do livro de um físico crítico da física. Capra, vocês devem conhecer.
Diferente dos contatos iniciais com a ciência, esse encontro se iniciou em debate filosófico diletante. Coisa boa. Pois na escola, saber dos estados da matéria era chato. Alí não, todos queriam dar opinião sobre os fundamentos da ciência em si, um verdadeiro exercicio de epistemologia dos mais deliquentes. No fundo, acertava-se tudo. Quem discordava, estava certo no direito de não aceitar passivamente a opinião alheia. Disturbio postumo foi ter de admitir que tal principio já havia sido enunciado por Voltaire antes mesmo da Revolução Francesa. Não eramos inovadores. Já se havia dito antes" Discordo de você, mas morro para garantir o direito de poder lhe ouvir." Encontrava-se, porém, uma vantagem no propósito pos-iluminista: sabida as mortes, a guilhotina, a violência do Terror, resignavam-se os jovens do novo mundo ao verbo, à verborragia conciliadora e democrática. Os supostos revolucionários nunca chegaram as vias de fato. A forma detia o mundo sensível, a palavra retinha o universo, os macros, os micros. A exterioridade do real parecia evidente mesmo se questinável. Uma jovial cordialidade newtoniana à brasileira!
Ninguém via nesse clima problema de cinismo relativista. Afinal de contas, não existia respeito pela idéia falsa, apenas vontande de deixar sair o pensamento. A justeza era importante, mas a possibilidade do expressar tinha sido prioridade garantida pelo pricipio de Justiça. Naquele clima, questão de honra era encontrar-se mais proximo da verdade deduzida, extraída pela razão especuladora do real do mundo. Todo mundo era incoscientemente racionalista.
O que se entendeu do filme? Quem sabe? Eh provavel que apenas a noção de paradigma tenha sido clara o suficiente para resistir à ignorância do momento. Mas isso não é importante. Seriam essas lembranças puro saudosismo(mas longe de casa, não seria saudade, mesmo em "ismo", nobre?), ou elementos para tirar do passado não muito distante uma fortuna de motivações iniciais para uma reflexão sobre a importância da curiosidade extra-escolar?
***
Aproveitando o ensejo
(Retificando...)
O querido Bernardo Jurema pediu-me um texto sobre a escola. Não sei nada sobre escolas. Meu texto anterior não pretendia falar propriamente disso. Sempre tive problema com essa coisa. Dado diz que eu procuro pedagogização. Sou péssimo nisso. Tudo que é formal me apavora. Minhas notas atuais em estatistica são os indicadores.
O que tentei fazer em breves linhas foi refletir sobre as dificuldades e facilidades na escola de pessoas vindas de origens sociais diversas. Por quê? Bem, acho muito interessante a argumentação de Bourdieu nesse sentido, pois ela sai daquela coisa do "o cara tem jeito para escola" e consegue dar resposta sociológica às razões de tanta dificuldade dessas pessoas de classes sociais menos favorecidas, ela encontra causas para o "não dar certo na escola" delas. O dar certo fora da escola não era meu ponto. Menos ainda o papel que escola deveria ter num "dar certo na vida". Esclarecido esses detalhes, volto ao Graciliano.
Era uma tarde de quarta-feira(chuto). Um dia de reunião para um grupo de estudantes militantes. Acredita-se em tantas coisas quando na primeira juventude, não é? De hoje o objetivo do encontro parece opaco: ver e debater O ponto de mutação, filme inspirado do livro de um físico crítico da física. Capra, vocês devem conhecer.
Diferente dos contatos iniciais com a ciência, esse encontro se iniciou em debate filosófico diletante. Coisa boa. Pois na escola, saber dos estados da matéria era chato. Alí não, todos queriam dar opinião sobre os fundamentos da ciência em si, um verdadeiro exercicio de epistemologia dos mais deliquentes. No fundo, acertava-se tudo. Quem discordava, estava certo no direito de não aceitar passivamente a opinião alheia. Disturbio postumo foi ter de admitir que tal principio já havia sido enunciado por Voltaire antes mesmo da Revolução Francesa. Não eramos inovadores. Já se havia dito antes" Discordo de você, mas morro para garantir o direito de poder lhe ouvir." Encontrava-se, porém, uma vantagem no propósito pos-iluminista: sabida as mortes, a guilhotina, a violência do Terror, resignavam-se os jovens do novo mundo ao verbo, à verborragia conciliadora e democrática. Os supostos revolucionários nunca chegaram as vias de fato. A forma detia o mundo sensível, a palavra retinha o universo, os macros, os micros. A exterioridade do real parecia evidente mesmo se questinável. Uma jovial cordialidade newtoniana à brasileira!
Ninguém via nesse clima problema de cinismo relativista. Afinal de contas, não existia respeito pela idéia falsa, apenas vontande de deixar sair o pensamento. A justeza era importante, mas a possibilidade do expressar tinha sido prioridade garantida pelo pricipio de Justiça. Naquele clima, questão de honra era encontrar-se mais proximo da verdade deduzida, extraída pela razão especuladora do real do mundo. Todo mundo era incoscientemente racionalista.
O que se entendeu do filme? Quem sabe? Eh provavel que apenas a noção de paradigma tenha sido clara o suficiente para resistir à ignorância do momento. Mas isso não é importante. Seriam essas lembranças puro saudosismo(mas longe de casa, não seria saudade, mesmo em "ismo", nobre?), ou elementos para tirar do passado não muito distante uma fortuna de motivações iniciais para uma reflexão sobre a importância da curiosidade extra-escolar?
***
Aproveitando o ensejo
(Retificando...)
O querido Bernardo Jurema pediu-me um texto sobre a escola. Não sei nada sobre escolas. Meu texto anterior não pretendia falar propriamente disso. Sempre tive problema com essa coisa. Dado diz que eu procuro pedagogização. Sou péssimo nisso. Tudo que é formal me apavora. Minhas notas atuais em estatistica são os indicadores.
O que tentei fazer em breves linhas foi refletir sobre as dificuldades e facilidades na escola de pessoas vindas de origens sociais diversas. Por quê? Bem, acho muito interessante a argumentação de Bourdieu nesse sentido, pois ela sai daquela coisa do "o cara tem jeito para escola" e consegue dar resposta sociológica às razões de tanta dificuldade dessas pessoas de classes sociais menos favorecidas, ela encontra causas para o "não dar certo na escola" delas. O dar certo fora da escola não era meu ponto. Menos ainda o papel que escola deveria ter num "dar certo na vida". Esclarecido esses detalhes, volto ao Graciliano.
sábado, março 27, 2004
Reflexividade pela mimesis
Sempre reclamo de minha formação esburacada. Tenho mesmo a impressão de ter chegado na universidade sem saber ler, escrever. Lembro, de lembrança nítida acentuada de vergonha, do comentário duro e sem ternura vindo numa prova de teoria sociológica: " um texto sem parágrafos não é texto. Você deveria se dedicar a um estudo de redação." A dureza era mais na percepeção, pois se o texto havia saído sem as divisões era por ter imaginado aquele estudante pedante que poderia escrever como o Kant, que estava lendo. De fato, revendo a bendita avaliação vejo a inexistência nela de português inteligível. Na época acreditava de verdade numa tolice: escrever dificil era sinônimo de inteligência. Mas de onde vinha essa crença? Quais os motivos dela? Por que admirava tanto amigos inteligentes, "sabidos em escritura"? Acho que o problema vem da tentativa de imitar. Será?
Habitus de senso prático
Disse um grande sociólogo da segunda metade do século XX: a escola reproduz as inegualdades sociais. Formulação contra-intuitiva, aparentemente simplória, mas de profundo teor crítico, pricipalmente se pensamos num país como a França onde a ideologia da escola republicana é imbricada ao estatuto da igualdade de condições gerados por um aparato esducativo único, universal. O interessante nesse argumento para um estudante de início traumático como o meu é o de poder estabelecer, por entendimento téorico, uma distinção téorica entre formas distintas de aprendizado, modelando assim, as relações causais entre dificuldade de aprender pela pedagogia (na escola) e a facilidade. Em outras palavras Bourdieu diz por quais razões práticas (na verdade, uma ausência de prática teorica), os filhos de trabalhadores vão ter mais dificuldade para se adaptar ao sistema escolar. Ele chega mesmo a usar a palavra aculturação para ilustrar, em oposição a uma continuação vivida pelos filhos dos profissionais liberais , o processo vivido por aqueles alunos no seio do universo pedagogizado. De um lado, crianças vivendo uma aprendizagem semelhante à da escola em casa: seria por isso que não conflituam. De outro, mulecada aprendendo em casa por mimetismo, por imitação do gesto (e não pela objetivação da regra como na pedagogia): motivo pelo qual sentem-se fora de lugar, e enfrentam dificuldades maiores para entender as razões desse estranhamento.
No Brasil não vejo cabimento para essas análises tais como elas se encontram em França. Nossa educação não é unica e não precisamos de análises mais finas para poder perceber tantas desigualdades. Porém, não há como negar: elas situam bem, se as entendemos em sentido inverso, o mal estar de muitos dos intelectuais brasileiros das mais diversas origens. Penso que muitos deles (sendo autoditatas) passam por um processo de aprendizagem de tipo mimético: eles imitam estilos, formas, conteúdos para em seguida, depois da assimilação, caminharem em discurso defensivo em direção à autenticidade relativa dos seus trabalhos. Na verdade, muitos de nossos mais talentosos pensadores, imagino, formaram-se por uma espécie de inversão do processo formal, institucional do aprender. Como se fossem a pele da crítica do construtivismo à pedagogia clássica. Em outras palavras, assimilaram em senso prático o valor da objetivação efetivada pelo recurso pedagógico.
Prova de recuperação
Nunca tirei notas ótimas. Fui um péssimo aluno, uma peste. Burro mesmo, por assimilação. Acho que a falta de verbalização das preceduras de aprendizado é um indicador forte nesses mecanismos de bestificação de garotos em relação à cultura escolar. Numa casa onde as pessoas articulam oralmente, por exemplo, etapa por etapa, os passos que uma criança deve dar para aprender a andar(sei, é piégas meu jogo de palavras!), nela a mesma criança vai imcorporar os instrumentos de aprendizagem próprios à disciplina escolar. Já em outra residência a qual o pupilo é um ente fadado ao ensinamento dos tombos, do olhar como se faz, a escola provavelmente vai aparece como elemento de resistência maior, pois uma apredizagem da apredizagem se torna necessária.
Não sei do valor disso que venho de escrever. Sabarei pelos comentários.
Sempre reclamo de minha formação esburacada. Tenho mesmo a impressão de ter chegado na universidade sem saber ler, escrever. Lembro, de lembrança nítida acentuada de vergonha, do comentário duro e sem ternura vindo numa prova de teoria sociológica: " um texto sem parágrafos não é texto. Você deveria se dedicar a um estudo de redação." A dureza era mais na percepeção, pois se o texto havia saído sem as divisões era por ter imaginado aquele estudante pedante que poderia escrever como o Kant, que estava lendo. De fato, revendo a bendita avaliação vejo a inexistência nela de português inteligível. Na época acreditava de verdade numa tolice: escrever dificil era sinônimo de inteligência. Mas de onde vinha essa crença? Quais os motivos dela? Por que admirava tanto amigos inteligentes, "sabidos em escritura"? Acho que o problema vem da tentativa de imitar. Será?
Habitus de senso prático
Disse um grande sociólogo da segunda metade do século XX: a escola reproduz as inegualdades sociais. Formulação contra-intuitiva, aparentemente simplória, mas de profundo teor crítico, pricipalmente se pensamos num país como a França onde a ideologia da escola republicana é imbricada ao estatuto da igualdade de condições gerados por um aparato esducativo único, universal. O interessante nesse argumento para um estudante de início traumático como o meu é o de poder estabelecer, por entendimento téorico, uma distinção téorica entre formas distintas de aprendizado, modelando assim, as relações causais entre dificuldade de aprender pela pedagogia (na escola) e a facilidade. Em outras palavras Bourdieu diz por quais razões práticas (na verdade, uma ausência de prática teorica), os filhos de trabalhadores vão ter mais dificuldade para se adaptar ao sistema escolar. Ele chega mesmo a usar a palavra aculturação para ilustrar, em oposição a uma continuação vivida pelos filhos dos profissionais liberais , o processo vivido por aqueles alunos no seio do universo pedagogizado. De um lado, crianças vivendo uma aprendizagem semelhante à da escola em casa: seria por isso que não conflituam. De outro, mulecada aprendendo em casa por mimetismo, por imitação do gesto (e não pela objetivação da regra como na pedagogia): motivo pelo qual sentem-se fora de lugar, e enfrentam dificuldades maiores para entender as razões desse estranhamento.
No Brasil não vejo cabimento para essas análises tais como elas se encontram em França. Nossa educação não é unica e não precisamos de análises mais finas para poder perceber tantas desigualdades. Porém, não há como negar: elas situam bem, se as entendemos em sentido inverso, o mal estar de muitos dos intelectuais brasileiros das mais diversas origens. Penso que muitos deles (sendo autoditatas) passam por um processo de aprendizagem de tipo mimético: eles imitam estilos, formas, conteúdos para em seguida, depois da assimilação, caminharem em discurso defensivo em direção à autenticidade relativa dos seus trabalhos. Na verdade, muitos de nossos mais talentosos pensadores, imagino, formaram-se por uma espécie de inversão do processo formal, institucional do aprender. Como se fossem a pele da crítica do construtivismo à pedagogia clássica. Em outras palavras, assimilaram em senso prático o valor da objetivação efetivada pelo recurso pedagógico.
Prova de recuperação
Nunca tirei notas ótimas. Fui um péssimo aluno, uma peste. Burro mesmo, por assimilação. Acho que a falta de verbalização das preceduras de aprendizado é um indicador forte nesses mecanismos de bestificação de garotos em relação à cultura escolar. Numa casa onde as pessoas articulam oralmente, por exemplo, etapa por etapa, os passos que uma criança deve dar para aprender a andar(sei, é piégas meu jogo de palavras!), nela a mesma criança vai imcorporar os instrumentos de aprendizagem próprios à disciplina escolar. Já em outra residência a qual o pupilo é um ente fadado ao ensinamento dos tombos, do olhar como se faz, a escola provavelmente vai aparece como elemento de resistência maior, pois uma apredizagem da apredizagem se torna necessária.
Não sei do valor disso que venho de escrever. Sabarei pelos comentários.
quarta-feira, março 24, 2004
Um bruto de sensibilidade
Pausa na melancolia pequeno-burguesa e egocêntrica do blogue para leitura de um poema seco, maduro. Poesia de faca e pedra, socos em palavras referidas a um homem duro, um cascudo. Na verdade, uma ode seca ás vozes de um autor retentor de palavras. Rentendo o dito para expressa-lo em língua de lâmina afiada(falo com o que falo), e depois refletí-lo(falo somente do que falo) de maneira humana e engajada( falo por quem falo), findando por repatí-lo(falo para quem falo). O rio que corre das vidas secas pelo verso de João Cabral.
Graciliano Ramos (por João Cabral de Melo Neto)
Falo somente com o que falo:
com as mesmas palavras
girando ao redor do sol
que limpa do que não é faca:
de toda crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
***
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
***
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo de míngua.
***
Falosomente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
e contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.
Pausa na melancolia pequeno-burguesa e egocêntrica do blogue para leitura de um poema seco, maduro. Poesia de faca e pedra, socos em palavras referidas a um homem duro, um cascudo. Na verdade, uma ode seca ás vozes de um autor retentor de palavras. Rentendo o dito para expressa-lo em língua de lâmina afiada(falo com o que falo), e depois refletí-lo(falo somente do que falo) de maneira humana e engajada( falo por quem falo), findando por repatí-lo(falo para quem falo). O rio que corre das vidas secas pelo verso de João Cabral.
Graciliano Ramos (por João Cabral de Melo Neto)
Falo somente com o que falo:
com as mesmas palavras
girando ao redor do sol
que limpa do que não é faca:
de toda crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
***
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
***
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo de míngua.
***
Falosomente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
e contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.
sábado, março 20, 2004
Bernardo contra a burguesia?
Dado já votou em Pantaleão. E com orgulho, disse ele. No fundo, o que houve foi um não-voto. Uma recusa: "votar em Humberto, nem a vaca tossindo e falando! O cara é um mau carater. Não voto em cabra safado não." Votou no "companheiro Panta" por pura vingança...
O primeiro paragrafo foi só para lembrar o como a extrema esquerda pode virar opção ética em momentos de crise no PT(risos, por favor!). Na verdade venho aqui falar de alguem que se considera inimigo número 1 do burguês sem ser do PSTU: Bernardo Jurema. E de maneira bem esquisita. Bem, o que venho dizer de fato não é sobre Bernardo, mas de algo causado por uma negação feita por ele, uma verdadeira confusão.
Foi assim
Tudo começou com um comentário de Rodrigo Wanderley (sem bricadeira, todos os cabeleireiros deviam ter o nome de Planeta, sem exceção!). Nele se lia uma crítica ao tratamento desigal dado pela F. de São Paulo em comparação a de um outro jornal em relação a crise no PT. Planeta pedia que antentassemos para a senguinte conclusão: "FOLHA de S.PAULO, um jornal a serviço da Burguesia."
Bernardo, burguês antiburguêsia que é, escreveu um texto indignado. Nele se lia uma crítica a forma pela qual se julgava a F. de São Paulo. Jurema dizia:"mas o que é que quer dizer ser burguês? Todo mundo é burguês. Jampa é burguês, o prefeito do Recife é burguês. Esse conceito de burguesia é datado." Até aqui, só descrição discreta.
Ponderação à esquerda de BJ
Mestre Diogo, sabido que é em marxismo e por conseguinte em burguesia, explicou em tom sabidamente marxista em que Bernardo se equivocava. Pois é verdade: negar a noção de burguesia é negar boa parte da sociologia (coisa grave!), negando assim a realidade dessa classe cujo a qual sem ela, não poderíamos falar do nosso querido sistema capitalista. Ora, o capitalismo existe e a classe que historicamente lhe deu sustentação foi a burguesia. Podemos falar sim de caráter bruguês de manutenção de privilégios, principalmente depois da Revolução Francesa(...)
Ponderação à direita de Diogo
Porém mesmo tendo sido acusado de tal doença por BJ, tendo a convir com ele nas entrelinhas. Muita vez o burguês sai do concreto de sua realidade de classe dententora e defensora de privilégios para adquerir, na boca de quem diz, uma força metafísica, transcendental. O contra buguês votee 16 é uma expressão que mostra a força redutora da palavra quando esta perde suas qualidades conceituais e entra no vulgo ordinário. Ao se expressar dessa forma, intuimos uma burguesia detentora do privilégio de encarnar o mal de uma sociedade de maneira abstrata e supranatural. Coisa que bons marxistas evitariam.
Dado já votou em Pantaleão. E com orgulho, disse ele. No fundo, o que houve foi um não-voto. Uma recusa: "votar em Humberto, nem a vaca tossindo e falando! O cara é um mau carater. Não voto em cabra safado não." Votou no "companheiro Panta" por pura vingança...
O primeiro paragrafo foi só para lembrar o como a extrema esquerda pode virar opção ética em momentos de crise no PT(risos, por favor!). Na verdade venho aqui falar de alguem que se considera inimigo número 1 do burguês sem ser do PSTU: Bernardo Jurema. E de maneira bem esquisita. Bem, o que venho dizer de fato não é sobre Bernardo, mas de algo causado por uma negação feita por ele, uma verdadeira confusão.
Foi assim
Tudo começou com um comentário de Rodrigo Wanderley (sem bricadeira, todos os cabeleireiros deviam ter o nome de Planeta, sem exceção!). Nele se lia uma crítica ao tratamento desigal dado pela F. de São Paulo em comparação a de um outro jornal em relação a crise no PT. Planeta pedia que antentassemos para a senguinte conclusão: "FOLHA de S.PAULO, um jornal a serviço da Burguesia."
Bernardo, burguês antiburguêsia que é, escreveu um texto indignado. Nele se lia uma crítica a forma pela qual se julgava a F. de São Paulo. Jurema dizia:"mas o que é que quer dizer ser burguês? Todo mundo é burguês. Jampa é burguês, o prefeito do Recife é burguês. Esse conceito de burguesia é datado." Até aqui, só descrição discreta.
Ponderação à esquerda de BJ
Mestre Diogo, sabido que é em marxismo e por conseguinte em burguesia, explicou em tom sabidamente marxista em que Bernardo se equivocava. Pois é verdade: negar a noção de burguesia é negar boa parte da sociologia (coisa grave!), negando assim a realidade dessa classe cujo a qual sem ela, não poderíamos falar do nosso querido sistema capitalista. Ora, o capitalismo existe e a classe que historicamente lhe deu sustentação foi a burguesia. Podemos falar sim de caráter bruguês de manutenção de privilégios, principalmente depois da Revolução Francesa(...)
Ponderação à direita de Diogo
Porém mesmo tendo sido acusado de tal doença por BJ, tendo a convir com ele nas entrelinhas. Muita vez o burguês sai do concreto de sua realidade de classe dententora e defensora de privilégios para adquerir, na boca de quem diz, uma força metafísica, transcendental. O contra buguês votee 16 é uma expressão que mostra a força redutora da palavra quando esta perde suas qualidades conceituais e entra no vulgo ordinário. Ao se expressar dessa forma, intuimos uma burguesia detentora do privilégio de encarnar o mal de uma sociedade de maneira abstrata e supranatural. Coisa que bons marxistas evitariam.
Trem das 11
Viagem corriqueira de fim de semana. Sair de Lyon e vir à França profunda, agrária, interiorana, não é mais novidade. Faço isso desde do início do ano universitário, em setembro. O percurso dura duas horas e trinta minutos no relógio, mas dependendo do livro que estiver lendo a impressão do tempo pode diminuir ou aumentar.
Confesso, ontem não teve leitura salvadora. O tempo não parou, mas o trem quebrou. A viagem durou seis horas e quinze minutos. Os segundos pareciam se contar: um segundo, dizia um segundo ao outro. O sengundo sou eu! Exclamava o terceiro segundo ao primeiro, que também era um segundo como o segundo segundo(...), e assim, seguiam eles, de segundo a segundo, de segundo em segundo, senguindo, em direção ao infinito, eu acho. Sim, eu juro, repetição de relógio digital é assim!
Outra coisa
Sinto falta da fineza do humor recifense. Sim. Porque no Recife ônibus que pára em todas as paradas é cata-corno. Aqui a porra do trêm pára muito mais (sem falar no francês ao lado que quando fede o faz com gosto, bom gosto... ô povinho para feder com refinamento!!!). Porém, ao invez de serem realistas como nós, atribuem ao vuco-vuco um nome politicamente correto: "train à vitesse moderée" (trem a velocidade moderada). Para mim, um puta de um eufemismo.
Mais do refinamento
Nem tudo na viagem foi monotono e chato. Meu vagão, por exemplo, tinha gente muito refinada.
Uma mulher com uma voz bem aguda contava abertamente coisas da vida "intima" dela. Eu estava achando ótimo, pois quando ela falava os segundos calavam. De supetão um milico francês de voz bem grave mandou-a calar a boca. Exercicio difícil para tal "madame", ela não se conteve e disse como se fosse mulher nascida na UR-6: "vem me calar se tu és homem"! Bem, em francês dava uma coisa mais amena do tipo "si tu viens tu vera!" (Se tu vens, vais ver!) O militar não calou: "quebro-te a cara" (je te feut une gifle). Ela retrucou: " vem fazer" (viens!). - Nesse momento pensei em Nelson Rodrigues, não sei porquê!- Houve um momento de silêncio. A dama comentou baixinho com o moço do lado com quem se confessava antes da celeuma:" se ele vem e me bate, boto ele na justiça e ainda me faço uns trocados!"(s'il me frape, le tribunal est la place pour faire la justice).
Resumo: sou um péssimo tradutor de francês. Mas a história é veridica.
Viagem corriqueira de fim de semana. Sair de Lyon e vir à França profunda, agrária, interiorana, não é mais novidade. Faço isso desde do início do ano universitário, em setembro. O percurso dura duas horas e trinta minutos no relógio, mas dependendo do livro que estiver lendo a impressão do tempo pode diminuir ou aumentar.
Confesso, ontem não teve leitura salvadora. O tempo não parou, mas o trem quebrou. A viagem durou seis horas e quinze minutos. Os segundos pareciam se contar: um segundo, dizia um segundo ao outro. O sengundo sou eu! Exclamava o terceiro segundo ao primeiro, que também era um segundo como o segundo segundo(...), e assim, seguiam eles, de segundo a segundo, de segundo em segundo, senguindo, em direção ao infinito, eu acho. Sim, eu juro, repetição de relógio digital é assim!
Outra coisa
Sinto falta da fineza do humor recifense. Sim. Porque no Recife ônibus que pára em todas as paradas é cata-corno. Aqui a porra do trêm pára muito mais (sem falar no francês ao lado que quando fede o faz com gosto, bom gosto... ô povinho para feder com refinamento!!!). Porém, ao invez de serem realistas como nós, atribuem ao vuco-vuco um nome politicamente correto: "train à vitesse moderée" (trem a velocidade moderada). Para mim, um puta de um eufemismo.
Mais do refinamento
Nem tudo na viagem foi monotono e chato. Meu vagão, por exemplo, tinha gente muito refinada.
Uma mulher com uma voz bem aguda contava abertamente coisas da vida "intima" dela. Eu estava achando ótimo, pois quando ela falava os segundos calavam. De supetão um milico francês de voz bem grave mandou-a calar a boca. Exercicio difícil para tal "madame", ela não se conteve e disse como se fosse mulher nascida na UR-6: "vem me calar se tu és homem"! Bem, em francês dava uma coisa mais amena do tipo "si tu viens tu vera!" (Se tu vens, vais ver!) O militar não calou: "quebro-te a cara" (je te feut une gifle). Ela retrucou: " vem fazer" (viens!). - Nesse momento pensei em Nelson Rodrigues, não sei porquê!- Houve um momento de silêncio. A dama comentou baixinho com o moço do lado com quem se confessava antes da celeuma:" se ele vem e me bate, boto ele na justiça e ainda me faço uns trocados!"(s'il me frape, le tribunal est la place pour faire la justice).
Resumo: sou um péssimo tradutor de francês. Mas a história é veridica.
segunda-feira, março 15, 2004
A história do sindicato dos metalurgicos : versão infantil
Minha visão do PT foi construída na vida cotidiana. Ela tem a ver com o dia a dia de um garoto de suburbio recifence crescendo em meio a realidades distintas. Olhar de menino que via seus pais se bater pela sobrevivência deles e a dos outros. Perspectiva positiva e esperançosa, apesar da dureza de algumas experiências.
Pretendo aos poucos ir deixando aqui uma pequena história das marcas de várias crises vividas por mim em relação ao partido dos trabalhadores. Claro, nada com valor histórico. Apenas lembranças pessoais muito influentes em minha vida. Os amigos que quiserem acompanhá-la, devem entendê-la como esforço autocrítico também. Ela é, pois de certa forma real, história de transição entre duas negações minhas em relação ao PT: a primeira, infantil demais para ser levada a sério ; a segunda, vinda depois de uma afirmação mais ou menos racional e adulta, séria demais para ser levada em consideração. Não se deve ver nela nem uma crítica ao atual estado do partido, nem uma postura melancólica de minha parte em relação a um PT mais próximo do socialismo, ainda sonhado…
Sindicato X PT : a época de ouro de um sindicato inimigo
No início o PT não era importante. Ele era frágil demais, eu nem precisava fazer muito esforço para derrotá-lo. Nem saber de sua existência, sabia. E se sabia, não lembro. E isso confirma a insignificancia dele em épocas remotas de minha memória.
O que eu lembro primeiro é do sindicato dos metalurgicos. Meu pai era presidente : eu achava isso o máximo. Ter um pai presidente de alguma coisa, mesmo não entendendo absolutamente nada das palavras sindicato e metalurgico, parecia ser algo importante. E criança entende rápido as primeiras lições de sociologia : o status social é coisa séria, se não determina, indica que é uma beleza a disposição das relações de poder. Presidente! Poxa, coisa de gente grande e importante.
Porém, em contrapartida ao orgulho inicial, logo entendi uma outra lei sociológica formulada assim pelo garoto : « gente importante é muito ocupada, não tem tempo para brincar com os filhos ». Causalidade que num futuro próximo ganharia na minha cabeça nomes gigantes e confusos. A ciência de novas palavras só veio atrapalhar minha compreensão precisa dos fatos. Capitalismo era inimigo e socialismo, amigo. Desses elementos de base, todo um esforço vão era necessário para entender o porquê do meu pai nunca ficar em casa.
Pois era assim : o sindicato dos metalurgicos, essa entidade de nome esquisito, era um monstro que tomava meu pai todas as noites. « Cadê painho, mainha ? » Pergunta de menino amerelo (na época não imaginava que o amarelo podia ser cor oposta ao vermelho : as duas cores estavam nas bandeiras da China e URSS) ! « Tá no sindicato em reunião », respondia minha mãe. Se o sindicato era mau, reunião devia ser mais. Eles sempre diziam a esse respeito : « a união faz a força, precisamos nos reunir. »E iam para essa tal de reunião…
Reunião é uma palavra com poderes nefastos. Eu sempre imaginava David Cooperfild dizendo-a para fazer desaparecer pessoas aos domingos, no Fantástico. « Reunião !», dizia ele com aquele ar de mágico de oz, e a moça loira e gostosa desaparecia. « Metalurgico !», enfatizava, e ela se tranformava em tigre. Nada mais fácil. Acho ele deve ter dito « sindicato ! » para se livrar das correntes…
Minha visão do PT foi construída na vida cotidiana. Ela tem a ver com o dia a dia de um garoto de suburbio recifence crescendo em meio a realidades distintas. Olhar de menino que via seus pais se bater pela sobrevivência deles e a dos outros. Perspectiva positiva e esperançosa, apesar da dureza de algumas experiências.
Pretendo aos poucos ir deixando aqui uma pequena história das marcas de várias crises vividas por mim em relação ao partido dos trabalhadores. Claro, nada com valor histórico. Apenas lembranças pessoais muito influentes em minha vida. Os amigos que quiserem acompanhá-la, devem entendê-la como esforço autocrítico também. Ela é, pois de certa forma real, história de transição entre duas negações minhas em relação ao PT: a primeira, infantil demais para ser levada a sério ; a segunda, vinda depois de uma afirmação mais ou menos racional e adulta, séria demais para ser levada em consideração. Não se deve ver nela nem uma crítica ao atual estado do partido, nem uma postura melancólica de minha parte em relação a um PT mais próximo do socialismo, ainda sonhado…
Sindicato X PT : a época de ouro de um sindicato inimigo
No início o PT não era importante. Ele era frágil demais, eu nem precisava fazer muito esforço para derrotá-lo. Nem saber de sua existência, sabia. E se sabia, não lembro. E isso confirma a insignificancia dele em épocas remotas de minha memória.
O que eu lembro primeiro é do sindicato dos metalurgicos. Meu pai era presidente : eu achava isso o máximo. Ter um pai presidente de alguma coisa, mesmo não entendendo absolutamente nada das palavras sindicato e metalurgico, parecia ser algo importante. E criança entende rápido as primeiras lições de sociologia : o status social é coisa séria, se não determina, indica que é uma beleza a disposição das relações de poder. Presidente! Poxa, coisa de gente grande e importante.
Porém, em contrapartida ao orgulho inicial, logo entendi uma outra lei sociológica formulada assim pelo garoto : « gente importante é muito ocupada, não tem tempo para brincar com os filhos ». Causalidade que num futuro próximo ganharia na minha cabeça nomes gigantes e confusos. A ciência de novas palavras só veio atrapalhar minha compreensão precisa dos fatos. Capitalismo era inimigo e socialismo, amigo. Desses elementos de base, todo um esforço vão era necessário para entender o porquê do meu pai nunca ficar em casa.
Pois era assim : o sindicato dos metalurgicos, essa entidade de nome esquisito, era um monstro que tomava meu pai todas as noites. « Cadê painho, mainha ? » Pergunta de menino amerelo (na época não imaginava que o amarelo podia ser cor oposta ao vermelho : as duas cores estavam nas bandeiras da China e URSS) ! « Tá no sindicato em reunião », respondia minha mãe. Se o sindicato era mau, reunião devia ser mais. Eles sempre diziam a esse respeito : « a união faz a força, precisamos nos reunir. »E iam para essa tal de reunião…
Reunião é uma palavra com poderes nefastos. Eu sempre imaginava David Cooperfild dizendo-a para fazer desaparecer pessoas aos domingos, no Fantástico. « Reunião !», dizia ele com aquele ar de mágico de oz, e a moça loira e gostosa desaparecia. « Metalurgico !», enfatizava, e ela se tranformava em tigre. Nada mais fácil. Acho ele deve ter dito « sindicato ! » para se livrar das correntes…
Uma comparação
Fui ver uma adaptação da peça O diário de um Zoológico de Albee aqui em Lyon. Vi para poder comparar com a do meu amigo João, pois havia gostado muito da dele... Gostei do trabalho dos francêses, sobretudo do ambiente intimista do pequeno teatro d' Annagrame. Porém, achei que o nível de dramaticidade atingido na montagem recifence de qualidade superior. Na verdade tanto numa como n'outra existe um desnível entre os dois personagens da péça(lembro apenas de Jerry em ambas!). Talvez essa diferença exista já no texto e seja dificil de ser trabalhada cenicamente dando organicidade a ligação entre os dois individuos que se relacionam em um parque. Seja qual for o motivo dessa desigualdade, percebo que é importante notar as variações de comportamento de Jerry e a violência provocada por estas. Pude obeservar que o Jerry do meu amigo João conseguiu dar a essas variações, se comparado ao do ator francês, uma aparência bem mais coerente no sentido de construção de uma verossimilhança pscicológica do personagem. Um exemplo disso encontra-se num dos momentos mais fortes do texto: a hitoria de Jerry e o cachorro. Na montagém francesa, a formulação cênica não ajudava a intensificar o elemento trágico contido no texto. O cachorro era "vivido" por um cão em pelucia e isso impedia, ao meu ver, que o ator expressasse o sentimento de empatia contido no texto entre animal e homem. Já na adaptação recifence a solução cênica foi muito mais precisa. Eu penso sobretudo ao exercicio que assisti na UFPE que deu origem à motagem. Nele, em lugar de usar um objeto qualquer para produzir o efeito do dialogo com o canino, o outro ator faz o papel do animal. Impressinante a diferença. Eh preciso dizer que o efeito de contraste do texto que -- ao tentar exprresar o desespero de um homem ao se deparar com o olhar, o suor, os odores do "cachorro", ao estranhar e tentar inutilmente se comunicar, causar um efeito de empatia com um animal, com um objeto, com o papel higiênico -- é mais latente quando o objeto, o animal, o suor, dão respostas ao próprio texto? Ora, na montagem francesa o fato do cão ser um objeto faz com que o ator force uma relação homem/objeto traduzida cenicamente da mesma forma. O público percebe isso. Já o expectador da peça no Recife tinha impressão de ver no cão vivido por Rafael o outro lado de Jerry... O outro, por mais outro que seja, olhava pra mim quando eu olhava pra ele.
Por essas e por outras, sou mais a do meu amigo João! Será que é bairrismo?
Fui ver uma adaptação da peça O diário de um Zoológico de Albee aqui em Lyon. Vi para poder comparar com a do meu amigo João, pois havia gostado muito da dele... Gostei do trabalho dos francêses, sobretudo do ambiente intimista do pequeno teatro d' Annagrame. Porém, achei que o nível de dramaticidade atingido na montagem recifence de qualidade superior. Na verdade tanto numa como n'outra existe um desnível entre os dois personagens da péça(lembro apenas de Jerry em ambas!). Talvez essa diferença exista já no texto e seja dificil de ser trabalhada cenicamente dando organicidade a ligação entre os dois individuos que se relacionam em um parque. Seja qual for o motivo dessa desigualdade, percebo que é importante notar as variações de comportamento de Jerry e a violência provocada por estas. Pude obeservar que o Jerry do meu amigo João conseguiu dar a essas variações, se comparado ao do ator francês, uma aparência bem mais coerente no sentido de construção de uma verossimilhança pscicológica do personagem. Um exemplo disso encontra-se num dos momentos mais fortes do texto: a hitoria de Jerry e o cachorro. Na montagém francesa, a formulação cênica não ajudava a intensificar o elemento trágico contido no texto. O cachorro era "vivido" por um cão em pelucia e isso impedia, ao meu ver, que o ator expressasse o sentimento de empatia contido no texto entre animal e homem. Já na adaptação recifence a solução cênica foi muito mais precisa. Eu penso sobretudo ao exercicio que assisti na UFPE que deu origem à motagem. Nele, em lugar de usar um objeto qualquer para produzir o efeito do dialogo com o canino, o outro ator faz o papel do animal. Impressinante a diferença. Eh preciso dizer que o efeito de contraste do texto que -- ao tentar exprresar o desespero de um homem ao se deparar com o olhar, o suor, os odores do "cachorro", ao estranhar e tentar inutilmente se comunicar, causar um efeito de empatia com um animal, com um objeto, com o papel higiênico -- é mais latente quando o objeto, o animal, o suor, dão respostas ao próprio texto? Ora, na montagem francesa o fato do cão ser um objeto faz com que o ator force uma relação homem/objeto traduzida cenicamente da mesma forma. O público percebe isso. Já o expectador da peça no Recife tinha impressão de ver no cão vivido por Rafael o outro lado de Jerry... O outro, por mais outro que seja, olhava pra mim quando eu olhava pra ele.
Por essas e por outras, sou mais a do meu amigo João! Será que é bairrismo?
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Quem sou eu (no blogue)
- Jampa
- Recife, Pernambuco, Brazil
- Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.