Blogue, Visita de Ton e coisas da vida
O tempo é de resignar. Minha teimosia era a de querer tratar de maneira insuportável das coisas simples. Fui teimoso para não ser reconhecido como blogueiro fajuto, daqueles que aceitam a facilidade de agradar e querer ser amado pelo resultado da carícia textual produzida. A pequena história do meu blogue é uma marca do esforço gorgico para reter a separação entre sedução e argumentação, retórica e ciência, doxa e episteme, derme e epiderme. Vontade tôla e vã de invadir o mundo alheio, de tonar o espaço cibernético um pouco menos repetitivo, de contrariar os "não dá para ser de outra forma" ou "é isso mesmo, é assim mesmo, tinha de ser assim", e, a contragosto, ir infligindo às normas ditadas pelos "esse espaço não é para isso", "niguém suporta ler esse tipo de coisa", "você acha que as pessoas podem entender palavras dificeis", "isso é muito intelectual", etc.
A maioria dos "posts" foram escritos de maneira livre. Mantinha como rigor apenas o esforço de reflexão a respeito do que se ia dizendo. Nos textos mais chegados à crônica, a idéia implícita era de situar e reorganizar fragmentos de minha memória para uma confrontação com o universo mais literário, ou seja, quis dar forma ao conteúdo mal estruturado de minas recordações. Mas a consciência dos meus limites objetivos no lidar com a lingua portuguesa foram minando a boa vontade e o espírito de partilha presentes no intento. A lição fica: quem desse mundo não espera apenas agradar, aprende que, pelo rumo das coisas, a quem ele não agrada, agride.
***
A vinda de Ton à Nancy foi muito agradável. Encontrar um amigo o qual a muito não via dá-me sempre a boa impressão de ver no velho algo novo. Não que ele parecesse envenlhecido, mas nossa amizade começa a fazer seus decênios. E com isso, a ausência acompanhada da distância move nosso olhar na busca de confrontar o presente à lembrança, à memória. O resultado disso é a sensação de ver no mesmo o outro, um claro renovar da amizade.
Engraçado foi perceber os pequenos atritos devidos às formações acadêmicas disntintas. Um Ton físico e um Jampa sociólogo. Dois maristados formatados por caminhos rigorosamente diferentes. Deus nos acuda para as incompreensões mutuas. Leituras de mundo dissonantes, ligadas entre si pelo fio tênue da camaradagem e do respeito. " Preste atenção querid[os], o mundo é um muinho", tinha em mente quando conversavamos, maneira de me conformar. Pois, bom ou mau sociólogo que eu seja, sei bem da posição de "inferioridade acadêmica" da minha disciplina em relação à dele. Expeterza sociológica ou não, o certo era a alegria de vê-lo aplicado ao trabalho científico, sonhando com pés no chão com a carreira que tão bem começou.
domingo, fevereiro 06, 2005
sábado, fevereiro 05, 2005
Notas
Cronograma do futuro próximo (Ou: de como funciona a cabeça de Jampa)
Amanhã (Sabado de carnaval no Brasil): das 10:00 hs às 12:00 hs, redação de um texto. A tarde, leituras de O Pão. Finalizar leitura de Literatura e Cordialidade. A noite, dependendo do cansaço, traduzir para o francês as passagens de Raizes do Brasil a serem aproveitadas dentro da dinâmica da argumentação visada para análise sociológica de O pão.
Questões a não perder de vista:
Faz sentido falar de cordialidade dentro da pratica dos "padeiros"? Se sim, em qual medida ela (a cordialidade) pode servir de auxilio para uma compreensão mais precisa do processo configuração do "campo literário" existente dentro do campo intelectual ?
Pistas: levar em consideração a cordialidade como espécie de "ethos de classe", ou seja, como visão de mundo relativamente homogênia causada por uma vivência em comum, por uma socialização vivida nos mesmos moldes (no sentido de consonância dos "problemas de uma geração", dos "livros incontunáveis", etc.), é, se estou no bom caminho, tornar mais clara as estratégias dos agentes no que diz respeito às influências de suas motivações na produção da atividade intelectual e literária. Pensar nos efeitos do tipo de formação que boa parte de nossa intelectualidade teve(Não esquecer Antônio Cândido na Formação, e em Literatura e Sociedade: formação que parece uma deformação, mas a deformação-formação vista em comparação a uma formação vista como mais autentica- termina por informar da formação deformada.)
Risco: Reproduzir o discurso normativo segundo o qual teríamos no Brasil uma forma de modernidade incompleta ou a completar, tendo como base uma modernidade autêntica: a da Europa.
Contra-agurmento do risco: Levar em consideração uma tal tipologia perde o seu carater puramente normativo se a utilização do conceito de cordialidade guardar seu carater heurístico e se articular bem, como espécie de habitus intelectual existente, à construção das modalidades de configuração do espaço social analisado.
Questão a responder: em que a cordialidade ajuda a restituir com mais precisão as modalidades do campo intelectual?
Vem pessoal, vem moçada, carnaval começa na frente do computador... As vezes de madrugada!
Cronograma do futuro próximo (Ou: de como funciona a cabeça de Jampa)
Amanhã (Sabado de carnaval no Brasil): das 10:00 hs às 12:00 hs, redação de um texto. A tarde, leituras de O Pão. Finalizar leitura de Literatura e Cordialidade. A noite, dependendo do cansaço, traduzir para o francês as passagens de Raizes do Brasil a serem aproveitadas dentro da dinâmica da argumentação visada para análise sociológica de O pão.
Questões a não perder de vista:
Faz sentido falar de cordialidade dentro da pratica dos "padeiros"? Se sim, em qual medida ela (a cordialidade) pode servir de auxilio para uma compreensão mais precisa do processo configuração do "campo literário" existente dentro do campo intelectual ?
Pistas: levar em consideração a cordialidade como espécie de "ethos de classe", ou seja, como visão de mundo relativamente homogênia causada por uma vivência em comum, por uma socialização vivida nos mesmos moldes (no sentido de consonância dos "problemas de uma geração", dos "livros incontunáveis", etc.), é, se estou no bom caminho, tornar mais clara as estratégias dos agentes no que diz respeito às influências de suas motivações na produção da atividade intelectual e literária. Pensar nos efeitos do tipo de formação que boa parte de nossa intelectualidade teve(Não esquecer Antônio Cândido na Formação, e em Literatura e Sociedade: formação que parece uma deformação, mas a deformação-formação vista em comparação a uma formação vista como mais autentica- termina por informar da formação deformada.)
Risco: Reproduzir o discurso normativo segundo o qual teríamos no Brasil uma forma de modernidade incompleta ou a completar, tendo como base uma modernidade autêntica: a da Europa.
Contra-agurmento do risco: Levar em consideração uma tal tipologia perde o seu carater puramente normativo se a utilização do conceito de cordialidade guardar seu carater heurístico e se articular bem, como espécie de habitus intelectual existente, à construção das modalidades de configuração do espaço social analisado.
Questão a responder: em que a cordialidade ajuda a restituir com mais precisão as modalidades do campo intelectual?
Vem pessoal, vem moçada, carnaval começa na frente do computador... As vezes de madrugada!
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Variações entre miserabilismo e populismo
Escrevo esse texto motivado por um pequeno debate existente entre mim e meu amigo Júlio. No fundo, uma pequena querela sobre o fenômeno do lixo cultural e das leituras que podemos fazer dele num texto para o "grande público". Além disso, também vou procurar alargar o debate no sentido de analisar a questão de maneira livre, porém me detendo aos pormenores das estruturas analíticas usadas por mim. Coisa que sempre costumo fazer para treinar, mesmo em textos despretensiosos, a pretensiosa prática da reflexividade levada ao extremo: analisar as condições de analise é sempre uma das maneiras mais seguras de tentar controlar o nível de "pré-julgamentos" daquilo que dizemos. Mesmo que isso não nos dê garantia plena da verdade dos nossos ditos, dá ao leitor elementos para entender melhor, em etapa posterior, os erros ocorridos e os preconceitos emitidos, garantido assim, senão a verdade dada pelo o esforço do autor, ao menos a verdade decorrente desse esforço.
A)- A variação entre miserabilismo e populismo em textos acadêmicos
Vou tentar discorrer em tipologia sobre coisas que em realidade só existem de maneira compósita nos textos. Apenas em alguns casos grotescos poderiamos encontrar miserabilismo e populismo de maneira pura, sem as oscilações e variações dos elementos constituintes das duas visões caricaturais do popular decorrentes de tipos de análise especificas do que se diz popular. Como não poderia deixar de ser, os tipos de análise são também variados e ambivalentes nunca aparecendo em estado puro. Motivo pelo qual concordo com a opinião emitida por Júlio quando disse que " é preciso ser cuidadoso para falar sobre esse assunto sem soar preconceituoso. Você vai experimentar e sentir isso." Porém, vejo que é justamente na palavra cuidadoso o lugar onde esconde-se os melhores indicadores para esse debate. Pois o preconceito é para mim geralmente o resultado de uma falta de cuidado. Porém é preciso cuidar do cuidado que devemos ter, se me faço claro. E para isso é preciso recorrer ao entendimento dos elementos constitutivos das formas de encarar a cultura popular no discurso. Além disso, deve-se evidenciar o que se coloca em jogo quando arbritamos entre essas formas.
B) Pequena Reflexão sobre a analise ideológica e da produção do miserabilismo
O que me incomda em certos textos é o fato de se aceitar de maneira acrítica um elemento do discurso recorrente em arte sobre a questão do bom gosto. Lixo cultural, parece-me, como também o kitch, duas faces de um mesmo fenômeno de classificação desvalorizante da produção artistica dita popular. Recorrem os artitas do kitch e do lixo cultural, enquanto ideólogos do discurso da reutilização das "artes menores", ao arbitrário argumento de que existem pessoas capazes de dar verdadeiro valor estético ao que antes se apresentava apenas como "experiência espontanea" da vulgata pseudo-artistica da produção popular. O que deveria obrigar, da parte de quem analisa a questão, seja ele jornalista, sociólogo ou qualquer outra coisa que os valha, uma preocupação sobre as razões e justificativas de um tal argumento.
Para mim, por um lado, é preciso recorrer à uma analise idelógica de corte sociológico para reenquadrar os elementos dessa problemática de maneira mais adequada. Porém sei que, por outro lado, isso seria imcompleto para uma leitura visando o perfeito entendimento do valor das obras produzidas por populares. De fato, além da questão da dominação das "elites culturais" sobre os produtores das "artes menores" existe o fato, ao meu ver pouco contestável hoje, da relativa autonomia entre as culturas. Fato que daria ao produto das artes populares um valor em si digno de nota e que, não poucas vezes, nos discursos demasiadamente relativisticos, incorrem no erro populista de eliminar o fator de dominação para afirmar de maneira errônea a autonomia total das artes populares.
C) Exemplo paraibando em Recife: um caso típico do discurso da reutilização.
Em Recife temos um bom exemplo desse contraste que mereceria um estudo: Ariano Suassuna e seu projeto estético armorial. Mas quem teria a coragem de fazer um trabalho crítico sobre o autor do Alto da compadecida? O fato é que a obra de Ariano é rica por ser produto da tensão entre as duas formas de ver a arte popular sendo também uma tentativa de superá-la. Não seria dificil perceber no projeto mesmo da arte amorial que a fusão do popular e do erudito acontece de maneira tal que os motes populares são estetizados à maneira erudita. A estética é um elemento próprio da erudição(enquanto trabalho refletido sobre o conhecimento de outras formas estéticas) e "populariza-la" seria incorrer em mau gosto. Melhor, mais artistico é fazer o contrário. Eis o conteudo implicito do miserabilismo presente na obra de Ariano. Claro que no discurso dele tudo parece se resolver em frases como: existe bom e mau popular como existem bom e mau erudito. Porém, como creio, isso não elimina o fato das diferentes práticas artisticas em seus respectivos graus de valorização na sociedade(principalmente no campo da arte) continuarem a ser os instrumentos de medida do valor em arte. E quando dou esse exemplo, sei que podemos encontrar no mesmo autor, elementos populistas oriundos de sua admiração da arte popular. Quantas e quantas vezes não vimos Ariano defender a arte do povo pelo simples fato de sua espontaneidade? Ser espontaneo é próprio da cultura popular. Questão de praxis: como averiguar e quem decide o que é o bom e o belo das expressões espotaneas? Ao que vejo só alguns ilustrados, eruditos, na mesma lógica miserabilista de antes, parecem ou aparecem, para conferir valor a tais práticas querendo lhes atribuir valor artistico(talvez o mesmo da arte erudita).
Vejam que não tento resolver aqui o problema, mas e mais apontar para a problemática. Insisto que a tensão é indissolúvel ao meus olhos, contudo acho que a anlise dos limites dela pode ajudar a amenizar os riscos de reprodução do preconceito alheio.
Por hoje é isso que estou cansado.
Escrevo esse texto motivado por um pequeno debate existente entre mim e meu amigo Júlio. No fundo, uma pequena querela sobre o fenômeno do lixo cultural e das leituras que podemos fazer dele num texto para o "grande público". Além disso, também vou procurar alargar o debate no sentido de analisar a questão de maneira livre, porém me detendo aos pormenores das estruturas analíticas usadas por mim. Coisa que sempre costumo fazer para treinar, mesmo em textos despretensiosos, a pretensiosa prática da reflexividade levada ao extremo: analisar as condições de analise é sempre uma das maneiras mais seguras de tentar controlar o nível de "pré-julgamentos" daquilo que dizemos. Mesmo que isso não nos dê garantia plena da verdade dos nossos ditos, dá ao leitor elementos para entender melhor, em etapa posterior, os erros ocorridos e os preconceitos emitidos, garantido assim, senão a verdade dada pelo o esforço do autor, ao menos a verdade decorrente desse esforço.
A)- A variação entre miserabilismo e populismo em textos acadêmicos
Vou tentar discorrer em tipologia sobre coisas que em realidade só existem de maneira compósita nos textos. Apenas em alguns casos grotescos poderiamos encontrar miserabilismo e populismo de maneira pura, sem as oscilações e variações dos elementos constituintes das duas visões caricaturais do popular decorrentes de tipos de análise especificas do que se diz popular. Como não poderia deixar de ser, os tipos de análise são também variados e ambivalentes nunca aparecendo em estado puro. Motivo pelo qual concordo com a opinião emitida por Júlio quando disse que " é preciso ser cuidadoso para falar sobre esse assunto sem soar preconceituoso. Você vai experimentar e sentir isso." Porém, vejo que é justamente na palavra cuidadoso o lugar onde esconde-se os melhores indicadores para esse debate. Pois o preconceito é para mim geralmente o resultado de uma falta de cuidado. Porém é preciso cuidar do cuidado que devemos ter, se me faço claro. E para isso é preciso recorrer ao entendimento dos elementos constitutivos das formas de encarar a cultura popular no discurso. Além disso, deve-se evidenciar o que se coloca em jogo quando arbritamos entre essas formas.
B) Pequena Reflexão sobre a analise ideológica e da produção do miserabilismo
O que me incomda em certos textos é o fato de se aceitar de maneira acrítica um elemento do discurso recorrente em arte sobre a questão do bom gosto. Lixo cultural, parece-me, como também o kitch, duas faces de um mesmo fenômeno de classificação desvalorizante da produção artistica dita popular. Recorrem os artitas do kitch e do lixo cultural, enquanto ideólogos do discurso da reutilização das "artes menores", ao arbitrário argumento de que existem pessoas capazes de dar verdadeiro valor estético ao que antes se apresentava apenas como "experiência espontanea" da vulgata pseudo-artistica da produção popular. O que deveria obrigar, da parte de quem analisa a questão, seja ele jornalista, sociólogo ou qualquer outra coisa que os valha, uma preocupação sobre as razões e justificativas de um tal argumento.
Para mim, por um lado, é preciso recorrer à uma analise idelógica de corte sociológico para reenquadrar os elementos dessa problemática de maneira mais adequada. Porém sei que, por outro lado, isso seria imcompleto para uma leitura visando o perfeito entendimento do valor das obras produzidas por populares. De fato, além da questão da dominação das "elites culturais" sobre os produtores das "artes menores" existe o fato, ao meu ver pouco contestável hoje, da relativa autonomia entre as culturas. Fato que daria ao produto das artes populares um valor em si digno de nota e que, não poucas vezes, nos discursos demasiadamente relativisticos, incorrem no erro populista de eliminar o fator de dominação para afirmar de maneira errônea a autonomia total das artes populares.
C) Exemplo paraibando em Recife: um caso típico do discurso da reutilização.
Em Recife temos um bom exemplo desse contraste que mereceria um estudo: Ariano Suassuna e seu projeto estético armorial. Mas quem teria a coragem de fazer um trabalho crítico sobre o autor do Alto da compadecida? O fato é que a obra de Ariano é rica por ser produto da tensão entre as duas formas de ver a arte popular sendo também uma tentativa de superá-la. Não seria dificil perceber no projeto mesmo da arte amorial que a fusão do popular e do erudito acontece de maneira tal que os motes populares são estetizados à maneira erudita. A estética é um elemento próprio da erudição(enquanto trabalho refletido sobre o conhecimento de outras formas estéticas) e "populariza-la" seria incorrer em mau gosto. Melhor, mais artistico é fazer o contrário. Eis o conteudo implicito do miserabilismo presente na obra de Ariano. Claro que no discurso dele tudo parece se resolver em frases como: existe bom e mau popular como existem bom e mau erudito. Porém, como creio, isso não elimina o fato das diferentes práticas artisticas em seus respectivos graus de valorização na sociedade(principalmente no campo da arte) continuarem a ser os instrumentos de medida do valor em arte. E quando dou esse exemplo, sei que podemos encontrar no mesmo autor, elementos populistas oriundos de sua admiração da arte popular. Quantas e quantas vezes não vimos Ariano defender a arte do povo pelo simples fato de sua espontaneidade? Ser espontaneo é próprio da cultura popular. Questão de praxis: como averiguar e quem decide o que é o bom e o belo das expressões espotaneas? Ao que vejo só alguns ilustrados, eruditos, na mesma lógica miserabilista de antes, parecem ou aparecem, para conferir valor a tais práticas querendo lhes atribuir valor artistico(talvez o mesmo da arte erudita).
Vejam que não tento resolver aqui o problema, mas e mais apontar para a problemática. Insisto que a tensão é indissolúvel ao meus olhos, contudo acho que a anlise dos limites dela pode ajudar a amenizar os riscos de reprodução do preconceito alheio.
Por hoje é isso que estou cansado.
sábado, janeiro 08, 2005
As perguntas
A Padaria Espiritual foi um grupo literário que existiu no fim do século XIX, em Fortaleza. Existindo em época de grandes transformações estruturais da sociedade brasileira(o programa de instalação da Padaria Espiritual apareceu em maio de 1892 quando República e Abolição eram novidades apreciáveis), o exemplo desse grupo pode servir de indicador das alterações nas maneiras de pensar e agir dos agentes socio-culturais do período.
Como?(Indicações)
A Padaria é o primeiro reagrupamento literário fundado depois da proclamação da República em Fortaleza. E isto, nos diz Nobert Bandier, reforça o traço característico dessa agremiação com relação às outras naquilo que ela aparece como "imediatamente associada à transformação ideológica e cultural do movimento repuplicano no Brasil". E com efeito, encontramos em Antônio Sales, principal organizador da Padaria, a opinião de que existia uma feição boêmia gerada desde os primeiros dias de República gerando alí (no Café Java na Praça Ferreira, onde os integrantes da Padaria se encontravam)o ambiente proprício para "trocas de impressões sobre arte, os comentários sobre leituras". E é pensando nessas indicações que se tenta (re)traçar os "efeitos simbólicos da proclamação da República em Fortaleza". Num colóquio sobre o assunto, foi da relação entre duas formas de cultura, uma de inspiração oral e outra ligada à escrita,que o sociológo "lionais" propunha a hipótese segudo a qual a "modernidade" do período acusa as tensões entre as duas formas de cultura num momento em que a instauração da República reativa dentro do campo intelectual toda uma série de outras contradições.E é de nosso interesse seguir tal pista reorganizando a problemática da modernidade a patir das relações entre formas de cultura em ângulo diferente, redimencionado a compreensão do significado das contradições existentes e caracterizando as tensões socio-culturais enraizadas também na textura de nossas escolhas teóricas...
Para isso, antes de vislumbrar um encaminhamento analítico para o estudo do grupo em questão é preciso, ao meu entender, confrontar-se às dificuldades imbrincadas à escolha da orientação teórica tomada como pano de fundo do estudo ainda em estado de projeto. Força da envidência com a qual incorre em erro o fato de rejeitar, esquecer ou ignorar precauções com relação ao fator de inclinação ideológica com o qual lida qualquer sociologia ao se deparar com a construção de seus objetos, por mais neutros que possam parecer. Particularidades socio-culturais brasileiras constituem assim, naquilo que elas implicam por "antecipação" decorrente do esquema analítico escolhido, uma reflexão sobre a autonomia nos mais diversos sentidos da palavra.
Nesse sentido tentaremos nos escrever em duas frentes teóricas de teor empírico.
Uma Primeira se propondo a realizar o aparante truísmo bourdieusiano se servindo do método comparativo, para comparar: "Analisar diferentes campos(religioso, político, científico, etc.), nas diferentes configurações em que eles podem se encontrar segundo às tradições nacionais, tratando cada um deles como "caso particular" no sentido verdadeiro, ou seja, como um "caso exemplo" entre as configurações possiveis, é conferir toda eficacidade ao método comparativo". Nssa primeira frente o que está em jogo são as modalidades de construção do campo enquanto conceito operacional, o como considerar os elementos objetivos (posições existentes no espaço social, instituições, etc.) e os elementos subjetivos(tomada de posição, estratégias dos agentes,etc.). Uns e outros devem responder nos seus efeitos heuríticos as exigências da especifidade do caso particular enquanto tal.
A outra frente pode ser vista como complementar à primeira. Ela consiste em dar estabilidade a analise comparativa introduzindo uma reflexão "ad doc" que dê suporte às limitações indicadas pelo tema da autonomia relativa do campo seja ela vista como dado objetivo ou objetivo visado pelo grupo a ser analisado. Ela se insere na reflexão sobre a alternância e/ou ambivalência entre miserabilismo e populismo em sociologia e literatura quando se trata de trabalhos sobre temas nos quais deve-se escolher entre análise ideológica(que é cunho sociológico, estudos sobre formas de dominação) e análise cultural(de cunho digamos assim, antropológico: trantando em relativismo cultural, em termos de autonomia cultural,etc.). O primeiro tipo analítico toma como elemento crucial do real a ser estudado a dissimetria do social e o segundo a simetria interna (cultura) do mesmo. Um e outro nunca se apresentam em estado puro e transitam em alternância e ambivalências pelos textos a fora. Lições dessa tensão devem incorrer da natureza mesmo da Padaria Espiritual que, querendo dar pão de espírito ao povo cearence, parecia querer defender uma arte em sua autonomia artística. Um jornal(O pão)foi criado como forma de expressão da Padaria, e não uma revista literária. Populismo? Se sim, em que sentido? Existe traços daquilo que Sergio Buarque chamou de cordialidade na proposta mesma da Padaria? As questões a tratar são muitas: que é que ser intelectual para um brasileiro intelectualizado da época? O que é o povo para ele? O que é ser intelectual para alguém não escolarizado? Em que a resposta a essas questões podem ser importantes para a consideração das modalidades de constituição do campo intelectual e o entendimento por meio do estudo da Padaria da configuração social local da época?
A Padaria Espiritual foi um grupo literário que existiu no fim do século XIX, em Fortaleza. Existindo em época de grandes transformações estruturais da sociedade brasileira(o programa de instalação da Padaria Espiritual apareceu em maio de 1892 quando República e Abolição eram novidades apreciáveis), o exemplo desse grupo pode servir de indicador das alterações nas maneiras de pensar e agir dos agentes socio-culturais do período.
Como?(Indicações)
A Padaria é o primeiro reagrupamento literário fundado depois da proclamação da República em Fortaleza. E isto, nos diz Nobert Bandier, reforça o traço característico dessa agremiação com relação às outras naquilo que ela aparece como "imediatamente associada à transformação ideológica e cultural do movimento repuplicano no Brasil". E com efeito, encontramos em Antônio Sales, principal organizador da Padaria, a opinião de que existia uma feição boêmia gerada desde os primeiros dias de República gerando alí (no Café Java na Praça Ferreira, onde os integrantes da Padaria se encontravam)o ambiente proprício para "trocas de impressões sobre arte, os comentários sobre leituras". E é pensando nessas indicações que se tenta (re)traçar os "efeitos simbólicos da proclamação da República em Fortaleza". Num colóquio sobre o assunto, foi da relação entre duas formas de cultura, uma de inspiração oral e outra ligada à escrita,que o sociológo "lionais" propunha a hipótese segudo a qual a "modernidade" do período acusa as tensões entre as duas formas de cultura num momento em que a instauração da República reativa dentro do campo intelectual toda uma série de outras contradições.E é de nosso interesse seguir tal pista reorganizando a problemática da modernidade a patir das relações entre formas de cultura em ângulo diferente, redimencionado a compreensão do significado das contradições existentes e caracterizando as tensões socio-culturais enraizadas também na textura de nossas escolhas teóricas...
Para isso, antes de vislumbrar um encaminhamento analítico para o estudo do grupo em questão é preciso, ao meu entender, confrontar-se às dificuldades imbrincadas à escolha da orientação teórica tomada como pano de fundo do estudo ainda em estado de projeto. Força da envidência com a qual incorre em erro o fato de rejeitar, esquecer ou ignorar precauções com relação ao fator de inclinação ideológica com o qual lida qualquer sociologia ao se deparar com a construção de seus objetos, por mais neutros que possam parecer. Particularidades socio-culturais brasileiras constituem assim, naquilo que elas implicam por "antecipação" decorrente do esquema analítico escolhido, uma reflexão sobre a autonomia nos mais diversos sentidos da palavra.
Nesse sentido tentaremos nos escrever em duas frentes teóricas de teor empírico.
Uma Primeira se propondo a realizar o aparante truísmo bourdieusiano se servindo do método comparativo, para comparar: "Analisar diferentes campos(religioso, político, científico, etc.), nas diferentes configurações em que eles podem se encontrar segundo às tradições nacionais, tratando cada um deles como "caso particular" no sentido verdadeiro, ou seja, como um "caso exemplo" entre as configurações possiveis, é conferir toda eficacidade ao método comparativo". Nssa primeira frente o que está em jogo são as modalidades de construção do campo enquanto conceito operacional, o como considerar os elementos objetivos (posições existentes no espaço social, instituições, etc.) e os elementos subjetivos(tomada de posição, estratégias dos agentes,etc.). Uns e outros devem responder nos seus efeitos heuríticos as exigências da especifidade do caso particular enquanto tal.
A outra frente pode ser vista como complementar à primeira. Ela consiste em dar estabilidade a analise comparativa introduzindo uma reflexão "ad doc" que dê suporte às limitações indicadas pelo tema da autonomia relativa do campo seja ela vista como dado objetivo ou objetivo visado pelo grupo a ser analisado. Ela se insere na reflexão sobre a alternância e/ou ambivalência entre miserabilismo e populismo em sociologia e literatura quando se trata de trabalhos sobre temas nos quais deve-se escolher entre análise ideológica(que é cunho sociológico, estudos sobre formas de dominação) e análise cultural(de cunho digamos assim, antropológico: trantando em relativismo cultural, em termos de autonomia cultural,etc.). O primeiro tipo analítico toma como elemento crucial do real a ser estudado a dissimetria do social e o segundo a simetria interna (cultura) do mesmo. Um e outro nunca se apresentam em estado puro e transitam em alternância e ambivalências pelos textos a fora. Lições dessa tensão devem incorrer da natureza mesmo da Padaria Espiritual que, querendo dar pão de espírito ao povo cearence, parecia querer defender uma arte em sua autonomia artística. Um jornal(O pão)foi criado como forma de expressão da Padaria, e não uma revista literária. Populismo? Se sim, em que sentido? Existe traços daquilo que Sergio Buarque chamou de cordialidade na proposta mesma da Padaria? As questões a tratar são muitas: que é que ser intelectual para um brasileiro intelectualizado da época? O que é o povo para ele? O que é ser intelectual para alguém não escolarizado? Em que a resposta a essas questões podem ser importantes para a consideração das modalidades de constituição do campo intelectual e o entendimento por meio do estudo da Padaria da configuração social local da época?
segunda-feira, dezembro 20, 2004
Filosofemas: Socio-temas
"Seus filosofemas me lembraram o raciocínio de alguns filósofos de que se uma bala fosse atirada contra eles, a bala teria sempre que seguir a metade da trajetória. Quando chegasse na metade, teria que seguir outra metade, e assim por diante. Ou seja, a bala nunca chegaria no filósofo, por causa de infinitas metades que teria que percorrer. Por precaução, esses filósofos nunca foram chegados à empiria de suas teorias." (Cesar)
Uma certeza existe: o formal se mostrou nos mais diversos campos da produção do saber o lugar próprio da produção das verdades mais irrefutáveis já formuladas pelo espírito humano. Verdades, é verdade, por definição desviculadas de qualquer realidade empírica. E quando falta o real concreto toda verdade pode ser de fato acusada de vázia e cínica. Afinal, quais são os reais limites entre a lógica formal e o que esta pode dizer do mundo real? Depois de Marx podemos ainda confundir a lógica das coisas com as coisas da lógica?
A ciência moderna, como sabemos, tentou burlar essa tensão maldita entre razão de pura abstração e razão empírica. Minha querida sociologia quer ser uma ciência humana e talvez seja mesmo a disciplina mais bem posicionada para equacionar um tal dilema. Por um lado, se simplificamos o assunto, podemos dizer que a sociologia no seu uso da estatística seja uma ciência visando um grau de formalização específico através de ferramentas matemáticas. Por um outro, se somos mais atentos, podemos encará-la como uma disciplina que reconhece no uso mesmo de tais ferramentas e na necessidade de tranferência da "liguagem estatística" à "liguagem natural" o interesse do "arbritio sociológico" que necessita abdicar do formalismo das informações para dar sentido histórico(Weberiano isso não?) ao que se quer dizer...(Esta é por sinal a sociologia que acredito possível, histórica e contingente).
Por que diabos digo isso?
Meus filosofemas podem fazer pensar a filosofias criadoras de falsos paradoxos, mas se revestem de uma certa consciência da matéria mais ou menos abstrata dos seus dizeres. Se muro e arvore são elementos imaginários para um filosofema amorfo, a verdadeira lição empírica se encontra na marreta. Todo curioso de plantão(e não à Platão) devia usar tal ferramenta para justamente parar de ficar se perguntando se atrás de um muro existe ou não um arbusto. Com ou sem dialética derrubar o muro é única solução científica(?) para um tal "problema". Mas problemas lógicos são como chifres, "são coisas que colocam na sua cabeça". E "chifres" é "numeros" em francês.
Claro, no caso de uma bala atirada o enigma da incongruência entre argumento formal e realidade pode trazer conseqüâncias mais sérias para os filósofos de Platão(digo, dos que crêem no realismo das idéias). Vacinado, acho que a razão e mesmo a lógica podem encontrar caminhos mais seguros de evitar uma morte prematura ou cinismo conscientemente concebido.
"Seus filosofemas me lembraram o raciocínio de alguns filósofos de que se uma bala fosse atirada contra eles, a bala teria sempre que seguir a metade da trajetória. Quando chegasse na metade, teria que seguir outra metade, e assim por diante. Ou seja, a bala nunca chegaria no filósofo, por causa de infinitas metades que teria que percorrer. Por precaução, esses filósofos nunca foram chegados à empiria de suas teorias." (Cesar)
Uma certeza existe: o formal se mostrou nos mais diversos campos da produção do saber o lugar próprio da produção das verdades mais irrefutáveis já formuladas pelo espírito humano. Verdades, é verdade, por definição desviculadas de qualquer realidade empírica. E quando falta o real concreto toda verdade pode ser de fato acusada de vázia e cínica. Afinal, quais são os reais limites entre a lógica formal e o que esta pode dizer do mundo real? Depois de Marx podemos ainda confundir a lógica das coisas com as coisas da lógica?
A ciência moderna, como sabemos, tentou burlar essa tensão maldita entre razão de pura abstração e razão empírica. Minha querida sociologia quer ser uma ciência humana e talvez seja mesmo a disciplina mais bem posicionada para equacionar um tal dilema. Por um lado, se simplificamos o assunto, podemos dizer que a sociologia no seu uso da estatística seja uma ciência visando um grau de formalização específico através de ferramentas matemáticas. Por um outro, se somos mais atentos, podemos encará-la como uma disciplina que reconhece no uso mesmo de tais ferramentas e na necessidade de tranferência da "liguagem estatística" à "liguagem natural" o interesse do "arbritio sociológico" que necessita abdicar do formalismo das informações para dar sentido histórico(Weberiano isso não?) ao que se quer dizer...(Esta é por sinal a sociologia que acredito possível, histórica e contingente).
Por que diabos digo isso?
Meus filosofemas podem fazer pensar a filosofias criadoras de falsos paradoxos, mas se revestem de uma certa consciência da matéria mais ou menos abstrata dos seus dizeres. Se muro e arvore são elementos imaginários para um filosofema amorfo, a verdadeira lição empírica se encontra na marreta. Todo curioso de plantão(e não à Platão) devia usar tal ferramenta para justamente parar de ficar se perguntando se atrás de um muro existe ou não um arbusto. Com ou sem dialética derrubar o muro é única solução científica(?) para um tal "problema". Mas problemas lógicos são como chifres, "são coisas que colocam na sua cabeça". E "chifres" é "numeros" em francês.
Claro, no caso de uma bala atirada o enigma da incongruência entre argumento formal e realidade pode trazer conseqüâncias mais sérias para os filósofos de Platão(digo, dos que crêem no realismo das idéias). Vacinado, acho que a razão e mesmo a lógica podem encontrar caminhos mais seguros de evitar uma morte prematura ou cinismo conscientemente concebido.
segunda-feira, dezembro 13, 2004
O credo
Uma arvore atrás de um muro alto. O curioso quer saber o que há além daquele obstáculo. A própria dúvida leva-o à hipótese da existência de algo. Por que não um arbusto? Se eu creio que ele pode existir antes mesmo de apreender qualquer atributo dele em minha consciência, sou realista. Se diz a si mesmo, curiosamente.
Um realista é todo homem ou mulher crente em formas de existência independentes da razão. Ou relativamente independentes, pois, tais pessoas podem se dar conta da relativa igenuidade dessa crença. Do que vale o fato das coisas idependerem de meu modo de pensá-las se sempre que as penso verifico a integração dependente entre mim e elas? Objetos pensados são objetos construidos. Mas só isso?
A imbricação mutua entre sujeito e objeto não elimina a relação de resistência deste para com aquele. Mas o que isso quer dizer?
Quer dizer por exemplo que Jampa(sujeito), cansado e triste, vem para o seu blogue testar a paciência(objeto) dos seus poucos leitores(também objetos) para com assuntos completamente desprovidos de interesse(mais objetos que a paciência e que os leitores). O sujeito (Jampa), como vemos, não tem total contrôle sobre os objetos (leitores, assuntos desinteressantes e paciência). Nesse caso o elemento de objetificação não funciona como devido.Ou seja, o esforço de distanciamento entre o sujeito(Eu) e objeto(Vocês, etc.), responsável do trato epistemológico de ruptura entre um e outro(sujeito/objeto), não é efetivado. Isso ocorre porque de fato vocês e eu fazemos parte de um mesmo corpus de humanidade. Em resumo isso tudo ficaria assim: eu sujeito, sujeito vocês objetos-sujeitos a serem apenas objetos pora fins científicos(de paciência).
A arvore existe sem minha autorização cognitiva. Fico indignado com esse fato. Acho que ela só existe pensada. Pois que é que existe fora do pensamento racional ou não? Mas o pensamento imagina o mundo antes da Razão, da cultura, dos homens...
O curioso olha o muro. Ele se diz, sabe de uma coisa, na dúvida eu vou pegar é minha marreta...
Uma arvore atrás de um muro alto. O curioso quer saber o que há além daquele obstáculo. A própria dúvida leva-o à hipótese da existência de algo. Por que não um arbusto? Se eu creio que ele pode existir antes mesmo de apreender qualquer atributo dele em minha consciência, sou realista. Se diz a si mesmo, curiosamente.
Um realista é todo homem ou mulher crente em formas de existência independentes da razão. Ou relativamente independentes, pois, tais pessoas podem se dar conta da relativa igenuidade dessa crença. Do que vale o fato das coisas idependerem de meu modo de pensá-las se sempre que as penso verifico a integração dependente entre mim e elas? Objetos pensados são objetos construidos. Mas só isso?
A imbricação mutua entre sujeito e objeto não elimina a relação de resistência deste para com aquele. Mas o que isso quer dizer?
Quer dizer por exemplo que Jampa(sujeito), cansado e triste, vem para o seu blogue testar a paciência(objeto) dos seus poucos leitores(também objetos) para com assuntos completamente desprovidos de interesse(mais objetos que a paciência e que os leitores). O sujeito (Jampa), como vemos, não tem total contrôle sobre os objetos (leitores, assuntos desinteressantes e paciência). Nesse caso o elemento de objetificação não funciona como devido.Ou seja, o esforço de distanciamento entre o sujeito(Eu) e objeto(Vocês, etc.), responsável do trato epistemológico de ruptura entre um e outro(sujeito/objeto), não é efetivado. Isso ocorre porque de fato vocês e eu fazemos parte de um mesmo corpus de humanidade. Em resumo isso tudo ficaria assim: eu sujeito, sujeito vocês objetos-sujeitos a serem apenas objetos pora fins científicos(de paciência).
A arvore existe sem minha autorização cognitiva. Fico indignado com esse fato. Acho que ela só existe pensada. Pois que é que existe fora do pensamento racional ou não? Mas o pensamento imagina o mundo antes da Razão, da cultura, dos homens...
O curioso olha o muro. Ele se diz, sabe de uma coisa, na dúvida eu vou pegar é minha marreta...
segunda-feira, dezembro 06, 2004
Drummond e sua lanterna
Num texto postado logo após minha volta para os ares franceses falei de minhas angustias usando uma lanterna, ela era emprestada. Era do Drummond. Então resolvi mostrá-la com o dono. Como vocês poderão notar, ela é mais bonitinha sem as sombras do emprestimo. Abraço carinhoso. Jampa.
A lanterninha
APAGUEI TODAS AS LUZES, e não foi por economia; foi porque me deram uma lanterna de bolso, e tive a idéia de fazer a experiência da luz errante.
A casa, com seus corredores, portas, móveis e ângulos que recebiam iluminação plena, passou a ser um lugar estranho, variável, em que só se viam seções de paredes e objetos, nunca a totalidade. E as seções giravam, desapareciam, transformavam-se. Isso me encantou. Eudescobria outra casa dentro da casa.
A lanterna passava pelas coisas com uma fantasia criativa e destrutiva que subvertia o real. Mas o que é o real, senão o acaso da iluminação? Apurei que as coisas não existem por si, mas pela claridade que as modela e projeta em nossa percepção visual. E que a luz é Deus.
A patir daí entronizei minha lanterninha em pequeno nincho colocado na estante, e dispensei-me de ler os tratados que me perturbavam a consciência.Todas as noites retio-a de lá e mergulho no divino. Até que um dia me canse e tenha de inventar uma outra divindade.
Num texto postado logo após minha volta para os ares franceses falei de minhas angustias usando uma lanterna, ela era emprestada. Era do Drummond. Então resolvi mostrá-la com o dono. Como vocês poderão notar, ela é mais bonitinha sem as sombras do emprestimo. Abraço carinhoso. Jampa.
A lanterninha
APAGUEI TODAS AS LUZES, e não foi por economia; foi porque me deram uma lanterna de bolso, e tive a idéia de fazer a experiência da luz errante.
A casa, com seus corredores, portas, móveis e ângulos que recebiam iluminação plena, passou a ser um lugar estranho, variável, em que só se viam seções de paredes e objetos, nunca a totalidade. E as seções giravam, desapareciam, transformavam-se. Isso me encantou. Eudescobria outra casa dentro da casa.
A lanterna passava pelas coisas com uma fantasia criativa e destrutiva que subvertia o real. Mas o que é o real, senão o acaso da iluminação? Apurei que as coisas não existem por si, mas pela claridade que as modela e projeta em nossa percepção visual. E que a luz é Deus.
A patir daí entronizei minha lanterninha em pequeno nincho colocado na estante, e dispensei-me de ler os tratados que me perturbavam a consciência.Todas as noites retio-a de lá e mergulho no divino. Até que um dia me canse e tenha de inventar uma outra divindade.
domingo, novembro 28, 2004
Jornalismo político de qualidade
Não sou de ficar lendo jornais e verificando erros de português desse ou daquele jornalista, até porque sei que faço os meus com certa freqüência. Mas como deixar de registrar uma jóia rara como é este parágrafo sobre as divergências internas do PT:
"O deputado federal pernambucano Paulo Rubem Santiago e o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, e a equipe econômica do governo, a ex-secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Social, Ana Fonseca, e o ministro Patrus Ananias, o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, e Palocci têm divergências."
(http://jc.uol.com.br/jornal/2004/11/28/not_117080.php) In: BRIGAS INTERNAS II - PT: moderados e radicais sempre em choque
Gostei do final: "e Pallocci têm divergências". Pois o "têm divergências" no plural dá à concordancia verbo-nominal o seu carater pleno: ele mostra que a pluraridade de nomes mal coordenados dificilmente desvenda o mistério de saber quem discorda de quem. Texto mistérioso. Acho que alguns filosofos desconstrucionistas encotrarão nele uma forma intrigante de dizer as coisas desdizendo: "no fundo ele revela o fato de não se poder entender os desentendimentos internos" dirão eles. Têm divergências é o mais importante final de parágrafo que li nesses ultimos dias.
Tá vendo, têm divergências gente!
Concordam?
Não sou de ficar lendo jornais e verificando erros de português desse ou daquele jornalista, até porque sei que faço os meus com certa freqüência. Mas como deixar de registrar uma jóia rara como é este parágrafo sobre as divergências internas do PT:
"O deputado federal pernambucano Paulo Rubem Santiago e o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, e a equipe econômica do governo, a ex-secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Social, Ana Fonseca, e o ministro Patrus Ananias, o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, e Palocci têm divergências."
(http://jc.uol.com.br/jornal/2004/11/28/not_117080.php) In: BRIGAS INTERNAS II - PT: moderados e radicais sempre em choque
Gostei do final: "e Pallocci têm divergências". Pois o "têm divergências" no plural dá à concordancia verbo-nominal o seu carater pleno: ele mostra que a pluraridade de nomes mal coordenados dificilmente desvenda o mistério de saber quem discorda de quem. Texto mistérioso. Acho que alguns filosofos desconstrucionistas encotrarão nele uma forma intrigante de dizer as coisas desdizendo: "no fundo ele revela o fato de não se poder entender os desentendimentos internos" dirão eles. Têm divergências é o mais importante final de parágrafo que li nesses ultimos dias.
Tá vendo, têm divergências gente!
Concordam?
sábado, novembro 27, 2004
Conversando com a sociologia (E dialogando com outros jovens melancólicos)
Tive minha primeira conversa com meu orientador de pesquisa. Boas horas de Padaria Espiritual, de questões sobre os poderes heurísticos de certos "conceitos bourdivinos"( Arron brincava assim falando das noções do jovém Bourdieu), de propostas e programas de análise para "O pão" e, talvez esta a melhor parte, de trocas mais pessoais sobre os diferentes percursos do aluno, agora pesquisador, e do ainda estudante, quem sabe um dia profissional da pesquisa.
Assim conto as coisas ditas.
Ele falou-me do porquê começou a fazer sociologia. Na época, disse ele, acreditava poder mudar o mundo através da ciência. Como a disciplina aparecia-lhe naquele período como altamente revolucionária, isso foi motivo suficiente para deixar a universidade de medicina e se engajar naquela ciência do social subversiva e potencialmente transformadora. Disse-me ainda que não continuaria os estudos começados sobre a Padaria Espiritual por causa da limitação dele com relação ao português. Expressou alegria com meu entusiasmo e motivou-me a continuar. Pareceu-me um sociológo extremamente tímido e pouco vaidoso.
Ele contava essas coisinhas de sua carreira com uma certa alegria. Um ar vivo de uma acumulação feita por decepções e descorbertas. Quando eu falava de minha impressão de inadaptação ao "ofício de sociólogo"(fazendo referência ao livro "metier de siciologue"), tratou logo de acalmar-me dizendo que sentia ainda hoje o mesmo, depois de tantos anos de pesquisa.E acrescentou: há alguns colegas de trabalho que por algum motivo insistem em mentir para os estudantes, mas se somos honestos conosco,devemos admitir que essa impressão de inadaptação é parte integrante de nossa profissão.
Depois ele falou um pouco de uma crise teórica dele. Da relação dele com a sociologia de Bourdieu e dos limites e qualidades da mesma. Foi um excelentre encontro.
Assim conto da introspecção.(O que pensei depois da conversa)
Alí pensei nos passos dados por mim. Como cheguei na sociologia. E o que me fez continuar apesar de todo o sentimento de impotência diante dos livros, da escrita, da erudiação alheia. Digo isso sem esquecer de minha fortuna inicial. Estudei em colégio particular e nele tive oportunidade de reunir alguns elementos necessários para a vida acadêmica. Contudo, o sentimento de incompetência e de preguiça adam sempre de par com a certeza da impotência diante da violência que é aprender(para mim). Dizer sim ao arbitrário da cultura escolar, coisa que fiz apenas em parte, é ceder de maneira resignada a um outro arbitrário, o da autoridade pedagógica e seus ilustres representantes( em geral professores no caso da instituição escolar e pais no caso da familiar).E é sim por causa dessa dupla de arbitrários que toda ação pedagógica, em teoria, é uma violência simbólica: ela é imposição de uma cultura "escolhida" (mas escolhida sem niguém escolher)aos individuos a serem educados. Passo necessário(socialmente) e difícil (individualmente) a "aceitação" da cultura escolar (que é sempre imcompleta) é, objetivamente, mais dificil para uns que para outros por causa das lógicas de reprodução das desigualdades existentes. Pois numa sociedade na qual se opera de maneira mais ou menos rígida, num determinado período da sua história, o vínculo entre duas formas de reprodução, a escolar e a social,nela, é possível notar a centralidade da relação de tipo cultura dominante/cultura dos dominates...
E relembrava pensando: Sociologia para que? No início, ainda na UFPE, tentava entender as razões dos diferentes destinos dos seres humanos. Pobres, por que pobres? Ricos, por que ricos? E também, talvez mais ainda, por que alguns pobres ficam ricos e outros não? Por que alguns ricos ficam pobres e outros não? O que impede, o que torna possível? Mudança, reprodução. O mesmo, mas outro. O outro, mas ainda assim, o mesmo.
Acho que já por essas questões e constatações cheguei a ir com Cesar à UR-6, ainda no primeiro período do curso, se a memória é boa, para entrevistar uma amiga sobre o tema da morte ou algo assim. Lembro que Cesar se impressionou com a "naturalidade" com a qual eram tradados a violência, o assassinato, o extermínio, os crimes em geral. Minha amiga dizia: "ah, fulaninho, aquele alí morreu assim e assado. Ah, beltrano, aquele alí tinha mais jeito não, pegaram ele e fizeram isso e aquilo..." E os nomes e as formas de matar e morrer e mais nomes e mais mortes e mais formas e tudo o mais entrava no discurso como se ela estivesse falando de um capítulo da última novela. Creio que depois desistimos: talvez nunca se esteja pronto pra uma sociologia da verdade de verdade. Não sabia ainda o que um sociólogo fazia, mas o mundo real que um cientista deveria "desvendar" pareceu-me perto daquilo alí. Depois, vindo mais para o presente, acho que tenho perdido essa ilusão positivista da sociologia e do mundo social que ela tenta abarcar. Aos poucos e aos trancos e barrancos, na medida em que avanço em meus estudos, tenho tido a oportunidade de entender meus limites e controlar os desejos extrapolados de entender e explicar o mundo. Paradoxalmente, com mais calma, o meu "mudar a sociedade" parece estar menos necessariamente atrelado ao entendimento sociológico do mundo. Claro que o conhecimento adquirido e produzido pela sociologia pode ser utilizado, na minha opinião, para dar suporte as minhas convicções políticas. Mas ele não engendra necessariamente uma postura normativa do tipo "isso é científico então devemos fazer isso ou aquilo". Penso por fim que é de uma consciência desse tipo, ou bem parecida, de onde o meu orientador tirava seu ar um pouco melancólico, porém satisfeito. No fundo vejo minha felicidade num tipo de serenidade plena de melancolia e esperança, repleta de passado e futuro. E o presente? O presente é para mim moderno, tempo de mudanças, devo estar mudando...
Tive minha primeira conversa com meu orientador de pesquisa. Boas horas de Padaria Espiritual, de questões sobre os poderes heurísticos de certos "conceitos bourdivinos"( Arron brincava assim falando das noções do jovém Bourdieu), de propostas e programas de análise para "O pão" e, talvez esta a melhor parte, de trocas mais pessoais sobre os diferentes percursos do aluno, agora pesquisador, e do ainda estudante, quem sabe um dia profissional da pesquisa.
Assim conto as coisas ditas.
Ele falou-me do porquê começou a fazer sociologia. Na época, disse ele, acreditava poder mudar o mundo através da ciência. Como a disciplina aparecia-lhe naquele período como altamente revolucionária, isso foi motivo suficiente para deixar a universidade de medicina e se engajar naquela ciência do social subversiva e potencialmente transformadora. Disse-me ainda que não continuaria os estudos começados sobre a Padaria Espiritual por causa da limitação dele com relação ao português. Expressou alegria com meu entusiasmo e motivou-me a continuar. Pareceu-me um sociológo extremamente tímido e pouco vaidoso.
Ele contava essas coisinhas de sua carreira com uma certa alegria. Um ar vivo de uma acumulação feita por decepções e descorbertas. Quando eu falava de minha impressão de inadaptação ao "ofício de sociólogo"(fazendo referência ao livro "metier de siciologue"), tratou logo de acalmar-me dizendo que sentia ainda hoje o mesmo, depois de tantos anos de pesquisa.E acrescentou: há alguns colegas de trabalho que por algum motivo insistem em mentir para os estudantes, mas se somos honestos conosco,devemos admitir que essa impressão de inadaptação é parte integrante de nossa profissão.
Depois ele falou um pouco de uma crise teórica dele. Da relação dele com a sociologia de Bourdieu e dos limites e qualidades da mesma. Foi um excelentre encontro.
Assim conto da introspecção.(O que pensei depois da conversa)
Alí pensei nos passos dados por mim. Como cheguei na sociologia. E o que me fez continuar apesar de todo o sentimento de impotência diante dos livros, da escrita, da erudiação alheia. Digo isso sem esquecer de minha fortuna inicial. Estudei em colégio particular e nele tive oportunidade de reunir alguns elementos necessários para a vida acadêmica. Contudo, o sentimento de incompetência e de preguiça adam sempre de par com a certeza da impotência diante da violência que é aprender(para mim). Dizer sim ao arbitrário da cultura escolar, coisa que fiz apenas em parte, é ceder de maneira resignada a um outro arbitrário, o da autoridade pedagógica e seus ilustres representantes( em geral professores no caso da instituição escolar e pais no caso da familiar).E é sim por causa dessa dupla de arbitrários que toda ação pedagógica, em teoria, é uma violência simbólica: ela é imposição de uma cultura "escolhida" (mas escolhida sem niguém escolher)aos individuos a serem educados. Passo necessário(socialmente) e difícil (individualmente) a "aceitação" da cultura escolar (que é sempre imcompleta) é, objetivamente, mais dificil para uns que para outros por causa das lógicas de reprodução das desigualdades existentes. Pois numa sociedade na qual se opera de maneira mais ou menos rígida, num determinado período da sua história, o vínculo entre duas formas de reprodução, a escolar e a social,nela, é possível notar a centralidade da relação de tipo cultura dominante/cultura dos dominates...
E relembrava pensando: Sociologia para que? No início, ainda na UFPE, tentava entender as razões dos diferentes destinos dos seres humanos. Pobres, por que pobres? Ricos, por que ricos? E também, talvez mais ainda, por que alguns pobres ficam ricos e outros não? Por que alguns ricos ficam pobres e outros não? O que impede, o que torna possível? Mudança, reprodução. O mesmo, mas outro. O outro, mas ainda assim, o mesmo.
Acho que já por essas questões e constatações cheguei a ir com Cesar à UR-6, ainda no primeiro período do curso, se a memória é boa, para entrevistar uma amiga sobre o tema da morte ou algo assim. Lembro que Cesar se impressionou com a "naturalidade" com a qual eram tradados a violência, o assassinato, o extermínio, os crimes em geral. Minha amiga dizia: "ah, fulaninho, aquele alí morreu assim e assado. Ah, beltrano, aquele alí tinha mais jeito não, pegaram ele e fizeram isso e aquilo..." E os nomes e as formas de matar e morrer e mais nomes e mais mortes e mais formas e tudo o mais entrava no discurso como se ela estivesse falando de um capítulo da última novela. Creio que depois desistimos: talvez nunca se esteja pronto pra uma sociologia da verdade de verdade. Não sabia ainda o que um sociólogo fazia, mas o mundo real que um cientista deveria "desvendar" pareceu-me perto daquilo alí. Depois, vindo mais para o presente, acho que tenho perdido essa ilusão positivista da sociologia e do mundo social que ela tenta abarcar. Aos poucos e aos trancos e barrancos, na medida em que avanço em meus estudos, tenho tido a oportunidade de entender meus limites e controlar os desejos extrapolados de entender e explicar o mundo. Paradoxalmente, com mais calma, o meu "mudar a sociedade" parece estar menos necessariamente atrelado ao entendimento sociológico do mundo. Claro que o conhecimento adquirido e produzido pela sociologia pode ser utilizado, na minha opinião, para dar suporte as minhas convicções políticas. Mas ele não engendra necessariamente uma postura normativa do tipo "isso é científico então devemos fazer isso ou aquilo". Penso por fim que é de uma consciência desse tipo, ou bem parecida, de onde o meu orientador tirava seu ar um pouco melancólico, porém satisfeito. No fundo vejo minha felicidade num tipo de serenidade plena de melancolia e esperança, repleta de passado e futuro. E o presente? O presente é para mim moderno, tempo de mudanças, devo estar mudando...
sexta-feira, novembro 12, 2004
Uma padaria mistériosa(Sobre o início de minha pesquisa)
O fato é que não estou conseguindo escrever nada sobre essa danada de Padaria Espiritual. Acho que é por isso venho aqui, dizer o que me intriga. Quem sabe não descubro com vocês as coisas as quais gostaria de poder entender desse grupo de poétas do final do século XIX (1892-1896).
Um descritivo da vida intelectual da Fortaleza da época talvez não seja desprovido de sentido. Assim, talvez, possamos entender a pertinencia de se querer estudar sociologicamente um grupo ou o jornal dele(O pão)em aparência tão desprovidos de interesse.
Fortaleza é nesse tempo uma pequena cidade do Nordeste brasileiro que conta pouco mais de 40 000 habitantes. Entre 1887 e 1900 contava-se 17 000 analfabetos. Em 1880 o ensino secudário acolhe mais ou menos 500 estudantes. Além diso, como podemos constatar nos cenários intelectuais nordestinos da época, literatura e jornalismo estavam imbricados e, junto a essa comunhão, as carreiras políticas também se intrelassava.
Amalgma de campos, coexitencia de dominios, dependência na articulação das esferas de autonomia. Eh nesse contexto que o Jornal O Pão, que tinha como intuito "dar pão do espirito para seu membros, em particullar, e para as pessoas em geral", parece e aparece como fenômeno digno de nota e curiosidade.
Como nota meu orientador Norbert Bandier, "o caso da Padaria Espiritual permite esclarecer a natureza do que está em jogo, das coerções(contraintes), dos conflitos e das relações de força que caracterizam um campo intelectual local na sociedade brasileira do fim do século XIX. Decorrente da estreiteza das camadas cultas, não existe verdadeiramente um público para as criações literárias e de momento constituidas de 'sociedades literárias', de regrupamentos 'corporatistas', sua freqüentação alimenta uma sociabilidade autocentrada. Não exite um campo literário local: nenhuma edidora é identificável em Fortaleza, as edições das obras são feitas por conta do autor ou por 'subinscrição' utilizando uma gráfica pertecente a um jornal local."
O título do artigo de Bandier é o que, de fato, deixa-me mais intrigado: "Esboço de analise socio-histórica de um grupo poético brasileiro: A Padaria Espiritual. Uma luta pela independência da literatura".
Ora, se nos atemos um pouco a história do campo literário francês tal como retraçada por Pierre Bourdieu nas Regras da Arte e, com isso percebemos que,1) nos termos daquela analise, para que haja autonomia do campo e reinvidicação da mesma, é preciso uma configuração social na qual estejam inseridos e se desagregando elementos que delineiam uma relação de fronteiras demarcadas(champ/campo),2) como entender então um grupo que, em configução quase dialmetralmente oposta, aposta quase que utópicamente na busca por essa autonomia?
Perguto-me:seria essa questão pertinete, ou avalia de forma imprecisa o elemento específicamente anacrônico própio as atividades literárias periféricas que, nequela época, ainda viveriam de um mimetismo retadatário das correntes literárias européias?
Do ponto de vista teorico-metodológico a questão se dobra de elementos de imprecisão. A partir de quais condições um conceito pode ser transposto?Um conceito descritivo recebe ou não influencias do "ambiente empírico", do "contexto" no qual foi formulado? Se sim, quais são? E em que sentido podemos manter sua "operacionalidade" diante de um novo contexto? O conceito em questão é, obviamente, o de campo.
Como podem ver, tenho mais perguntas que respostas a dar. Por enquanto o mais incomodo são as datas. Já para semana que vem seria preciso escrever uma boa dezena de páginas a respeito. Dia dez de dezembro vou ter que dissimular meus saberes sobre o assunto diante de professores e alunos durante vinte minutos. Haja coração.
Vou indo. Acho que ja me extendi demais para um post de blogue.
O fato é que não estou conseguindo escrever nada sobre essa danada de Padaria Espiritual. Acho que é por isso venho aqui, dizer o que me intriga. Quem sabe não descubro com vocês as coisas as quais gostaria de poder entender desse grupo de poétas do final do século XIX (1892-1896).
Um descritivo da vida intelectual da Fortaleza da época talvez não seja desprovido de sentido. Assim, talvez, possamos entender a pertinencia de se querer estudar sociologicamente um grupo ou o jornal dele(O pão)em aparência tão desprovidos de interesse.
Fortaleza é nesse tempo uma pequena cidade do Nordeste brasileiro que conta pouco mais de 40 000 habitantes. Entre 1887 e 1900 contava-se 17 000 analfabetos. Em 1880 o ensino secudário acolhe mais ou menos 500 estudantes. Além diso, como podemos constatar nos cenários intelectuais nordestinos da época, literatura e jornalismo estavam imbricados e, junto a essa comunhão, as carreiras políticas também se intrelassava.
Amalgma de campos, coexitencia de dominios, dependência na articulação das esferas de autonomia. Eh nesse contexto que o Jornal O Pão, que tinha como intuito "dar pão do espirito para seu membros, em particullar, e para as pessoas em geral", parece e aparece como fenômeno digno de nota e curiosidade.
Como nota meu orientador Norbert Bandier, "o caso da Padaria Espiritual permite esclarecer a natureza do que está em jogo, das coerções(contraintes), dos conflitos e das relações de força que caracterizam um campo intelectual local na sociedade brasileira do fim do século XIX. Decorrente da estreiteza das camadas cultas, não existe verdadeiramente um público para as criações literárias e de momento constituidas de 'sociedades literárias', de regrupamentos 'corporatistas', sua freqüentação alimenta uma sociabilidade autocentrada. Não exite um campo literário local: nenhuma edidora é identificável em Fortaleza, as edições das obras são feitas por conta do autor ou por 'subinscrição' utilizando uma gráfica pertecente a um jornal local."
O título do artigo de Bandier é o que, de fato, deixa-me mais intrigado: "Esboço de analise socio-histórica de um grupo poético brasileiro: A Padaria Espiritual. Uma luta pela independência da literatura".
Ora, se nos atemos um pouco a história do campo literário francês tal como retraçada por Pierre Bourdieu nas Regras da Arte e, com isso percebemos que,1) nos termos daquela analise, para que haja autonomia do campo e reinvidicação da mesma, é preciso uma configuração social na qual estejam inseridos e se desagregando elementos que delineiam uma relação de fronteiras demarcadas(champ/campo),2) como entender então um grupo que, em configução quase dialmetralmente oposta, aposta quase que utópicamente na busca por essa autonomia?
Perguto-me:seria essa questão pertinete, ou avalia de forma imprecisa o elemento específicamente anacrônico própio as atividades literárias periféricas que, nequela época, ainda viveriam de um mimetismo retadatário das correntes literárias européias?
Do ponto de vista teorico-metodológico a questão se dobra de elementos de imprecisão. A partir de quais condições um conceito pode ser transposto?Um conceito descritivo recebe ou não influencias do "ambiente empírico", do "contexto" no qual foi formulado? Se sim, quais são? E em que sentido podemos manter sua "operacionalidade" diante de um novo contexto? O conceito em questão é, obviamente, o de campo.
Como podem ver, tenho mais perguntas que respostas a dar. Por enquanto o mais incomodo são as datas. Já para semana que vem seria preciso escrever uma boa dezena de páginas a respeito. Dia dez de dezembro vou ter que dissimular meus saberes sobre o assunto diante de professores e alunos durante vinte minutos. Haja coração.
Vou indo. Acho que ja me extendi demais para um post de blogue.
quinta-feira, novembro 11, 2004
O que o acordos políticos explicam?
Paciência precisa ter aquele que nao sente prazer ao ver reduzido à migalha a opinião pouco clara dos seus devaneios de blogleiro. A rapidez do comentário casual é produtora da interlocuçao inesperada, do ador dos cometários mais intrigantes. Nao intrigam, deixo claro, pelo fato de reter e condensar um volume importante de conteudo implicito, mas e mais pela impressao ilusoria da verdade que propoem tais ditos.
Esse é o caso do cometário de Dado sobre a minha "vaga" alusao ao caso Socorro. Quem leu o texto com "olhos de santo", dele entendeu os limites da crítica proposta. E por isso sabe, ou deveria saber, que quando fala-se em instituiçoes, extende-se ao poder público em geral e, a outros porderes em particular, talvez excluindo injustamente poderes menos institucionalizados como os setores da sociedade civil mais ou menos organizados, uma crítica que se sabe geral e abstrata.
Falar de acordo entre os partidos é sem dúvida uma maneira de dar nomes aos bois. Eh dar cadência empirica ao universo formal, como dizemos em estudos de teoria. Porém, paradoxalmente, também é esse tipo de conduta motivo de preocupaçao teórica, pois, se a particularidade do "caso"(acordo político) indentifica os bonvinos, dele é dificil tirar enuciados gerais de explicaçao do fenomeno em questao. E que é que esse fenomeno em questao? Eh o que Jampa blogueiro tentou comentar. Eh o fato escraboso de se esvaziar uma auditoria (seja por acordo ou qualquer coisa que o valha) e nao existir, nem nas instituiçaoes nem fora delas, forma de revolta ou estranhamento com relaçao a isso.
Fica sem ficar o nome do desnome desse problema que de longe, separando o olho do olhar, colaca-me mais uma vez entre o mar e o Brasil/Recife, sem nome próprio.
Paciência precisa ter aquele que nao sente prazer ao ver reduzido à migalha a opinião pouco clara dos seus devaneios de blogleiro. A rapidez do comentário casual é produtora da interlocuçao inesperada, do ador dos cometários mais intrigantes. Nao intrigam, deixo claro, pelo fato de reter e condensar um volume importante de conteudo implicito, mas e mais pela impressao ilusoria da verdade que propoem tais ditos.
Esse é o caso do cometário de Dado sobre a minha "vaga" alusao ao caso Socorro. Quem leu o texto com "olhos de santo", dele entendeu os limites da crítica proposta. E por isso sabe, ou deveria saber, que quando fala-se em instituiçoes, extende-se ao poder público em geral e, a outros porderes em particular, talvez excluindo injustamente poderes menos institucionalizados como os setores da sociedade civil mais ou menos organizados, uma crítica que se sabe geral e abstrata.
Falar de acordo entre os partidos é sem dúvida uma maneira de dar nomes aos bois. Eh dar cadência empirica ao universo formal, como dizemos em estudos de teoria. Porém, paradoxalmente, também é esse tipo de conduta motivo de preocupaçao teórica, pois, se a particularidade do "caso"(acordo político) indentifica os bonvinos, dele é dificil tirar enuciados gerais de explicaçao do fenomeno em questao. E que é que esse fenomeno em questao? Eh o que Jampa blogueiro tentou comentar. Eh o fato escraboso de se esvaziar uma auditoria (seja por acordo ou qualquer coisa que o valha) e nao existir, nem nas instituiçaoes nem fora delas, forma de revolta ou estranhamento com relaçao a isso.
Fica sem ficar o nome do desnome desse problema que de longe, separando o olho do olhar, colaca-me mais uma vez entre o mar e o Brasil/Recife, sem nome próprio.
segunda-feira, novembro 08, 2004
Momento de descanso
Pausa no dia de leitura para escrever um pouco para os ainda fiés leitores do Oxymore.
Não quero hoje fazer reflexões nem me avorar ao meu diletantismo ecrevendo "contos" dos mais pífios. O isolamento tem me deixado tonto e desconectado do mundo real. A reeleiçao de Bush, só para ficar no exemplo, casou-me pouco impacto. Resigno-me a achar que tanto fez tanto faz, nada de novo no horizonte morbido do planeta terra. A quase morte de Arafat aparece na mesma ordem de fatos sem importância revolucionária efectiva. Os dias passam, vão passando os presidentes, os ditadores, os democratas. Sim. Os democratas.
Mesmo as piadinhas, enviadas por Bernardo, do Cassetta, parecem ridiculas demais para rir. Mas me perguntei, por anseio de coerência, se alguém do Cassetta pode, sem fazer auto-referência, acusar outro alguém, como fez o dito cujo, acusando Michael Moore e Sebastiao Salgado de ganhar dinheiro a custa da miséria dos outros. Bem, mas depois disso pensei :só um doido busca coêrencia em causas tão insignificantes. Depois de tal reflexão, só o acindente de ônibus que matou integrantes de uma banda de música que nao conhecia me causou algum espanto. Nao saberia explicar o porquê. Mas acho que é por causa do esvaziamento por parte do Governo de PE no debate sobre um caso dito eleitoral: sendo isso tao obvio, preferi, quase que por repulsao(no sentido de Freud, de repelir a um incognito um inconviniete, um mal estar), encontrar no fato diverso a surpresa imprecisa a qual precisava. A banalidade da morte de desconhecidos pareceu-me mais digna de surpresa que a falta de valor efectivo de nossas instituiçoes quando se trata de averiguar denuncias do maior grau de gravidade como foram as feitas pelo advogado do caso Socorro.
Além dessas balelas, restam apenas as notícias de grande grau de importância em qualquer época. Sao as "novidades" invariantes historicamente, ou, se queremos ser mais precisos, as notícias supra-históricas de valor transcendental. Ao menos, na terra tupiniquim é assim.E foi assim que fiquei sabendo com todo entusiasmo da seguinte informaçao metafísica: Ronaldo, Ronaldinho e Kaka foram indicados ao Oscar do futebol europeu para ganhar a mais que cobiçada bola de ouro. Viva a meta-transcendência divina do futebol penta-campeao.
Viva!
Pausa no dia de leitura para escrever um pouco para os ainda fiés leitores do Oxymore.
Não quero hoje fazer reflexões nem me avorar ao meu diletantismo ecrevendo "contos" dos mais pífios. O isolamento tem me deixado tonto e desconectado do mundo real. A reeleiçao de Bush, só para ficar no exemplo, casou-me pouco impacto. Resigno-me a achar que tanto fez tanto faz, nada de novo no horizonte morbido do planeta terra. A quase morte de Arafat aparece na mesma ordem de fatos sem importância revolucionária efectiva. Os dias passam, vão passando os presidentes, os ditadores, os democratas. Sim. Os democratas.
Mesmo as piadinhas, enviadas por Bernardo, do Cassetta, parecem ridiculas demais para rir. Mas me perguntei, por anseio de coerência, se alguém do Cassetta pode, sem fazer auto-referência, acusar outro alguém, como fez o dito cujo, acusando Michael Moore e Sebastiao Salgado de ganhar dinheiro a custa da miséria dos outros. Bem, mas depois disso pensei :só um doido busca coêrencia em causas tão insignificantes. Depois de tal reflexão, só o acindente de ônibus que matou integrantes de uma banda de música que nao conhecia me causou algum espanto. Nao saberia explicar o porquê. Mas acho que é por causa do esvaziamento por parte do Governo de PE no debate sobre um caso dito eleitoral: sendo isso tao obvio, preferi, quase que por repulsao(no sentido de Freud, de repelir a um incognito um inconviniete, um mal estar), encontrar no fato diverso a surpresa imprecisa a qual precisava. A banalidade da morte de desconhecidos pareceu-me mais digna de surpresa que a falta de valor efectivo de nossas instituiçoes quando se trata de averiguar denuncias do maior grau de gravidade como foram as feitas pelo advogado do caso Socorro.
Além dessas balelas, restam apenas as notícias de grande grau de importância em qualquer época. Sao as "novidades" invariantes historicamente, ou, se queremos ser mais precisos, as notícias supra-históricas de valor transcendental. Ao menos, na terra tupiniquim é assim.E foi assim que fiquei sabendo com todo entusiasmo da seguinte informaçao metafísica: Ronaldo, Ronaldinho e Kaka foram indicados ao Oscar do futebol europeu para ganhar a mais que cobiçada bola de ouro. Viva a meta-transcendência divina do futebol penta-campeao.
Viva!
domingo, novembro 07, 2004
terça-feira, outubro 26, 2004
Por uma pedagogia da punheta
Daniel Capeta tinha um ar acadêmico quando ensinava algo. E desse fato provinha a grande eficácia de sua didática. Era um construtivista nato. Tudo nele inspirava uma vocaçao ao ensino: a maneira de falar da imaginaçao, de exemplificá-la; também a forma direta e objetiva de enquadrar o sujeito, sempre objeto de análise acurada, profunda. O método, de tao crítico às rupturas epistemológicas, poderia mesmo ser visto como uma nova poética do movimento didático, uma fenomenologia do ir e vir contínuo no ensino de uma prática. Na verdade, ele foi responsavel por uma nova prática da imaginaçao estruturada a partir da experiência pedagógica em si, com o sujeito recriando o objeto, modelando-o com vigor na luta pelo irresistível.
A maneira dele de ilustrar ilustrando tornava-o uma figura notável entre as crianças daquele lugar. Naqule mundo devastado por um vázio de sentido existêncial, garotos de 10 e 13 anos pareciam estuperfeitos com a sensaçao lúdica da nova cinemática. Para os moleques era poesia aquela ciência dos movimentos tao simples, tao natural (na) mente, nas maos: uma ciência técnica, sem dúvidas. Tal saber teve certamente um futuro durável e glorioso, e, sendo de fácil democratizaçao, gerou prazer curto a uma grande maioria de individuos com vida, muitas vezes, mais que efêmera.
Eh com muito prazer que reproduzimos aqui um dos seus únicos cursos transcrito aqui de maneira muito precária, mas, eperamos, a mais fiél possível a um empreendimento intelectual dessa ordem.
Curso I (Tema: ensinamento do amor, antes do sexo.)
Comentário póstumo do professor ou resumo imaginado(Por Daniel Capeta):
Como os do Socrates de Platao, meus ensinamentos sao fruto de uma prática pedagógica específica. Cada aula, um dialogo. Cada debate, um recriar do mundo. Porém, diferentemente do pensador grego, minhas idéias, apesar de bem difundidas, ainda nao fazem parte do patrimônio universal da cultura humana. Nao sei por qual razao, pois morto também estou. E era até bonito antes das balas perfurarem meu rosto. Espero que gostem do curso apresentado em forma de diálogo pouco platônico.
Aula do curso de didática popular infatil e aplicada. Ministrada por Daniel Capeta (Anos 80, em algum suburbio recifense.)
Um guri chega para mim e diz:
-Ei Capeta. A galera me disse véio, tá ligado? Diz pra mim também, vai lá véio! Diz aí, pô! Eu tou ligado que você já comeu uma nega uma vez. Porra. Conta aí! E aí, faz o que isso? Dá o que na hora?
Penso que todo educador deve ser ao mesmo tempo pragmático e teórico. Deve respeitar as dúvidas mais do que naturais de seus pupilos e encará-las com naturalidade. Porém, para impor um certo respeito e garantir um certo distânciamento próprio à profissao de educador, ele deve colocar o aprendiz no seu devido lugar. Por isso, respondi:
-Primeiro tu tens que encontrar uma nega. Tens uma buceta, um rabo? Nao tens. Entao pronto.
Triste, num primeiro momento sem esperanças, o aprendiz agoniza palavras resignadas:
-Tem jeito nao. Tou fodido entao. Como vou enrabar alguém? Nenhuma nega me quer, sou muito guri. Nao tenho nem bilola, só pitoca.
Depois de ter estimulado o desejo mais profundo de aprender, é que é preciso jogar com o lado mais empírico e trazer o ensinamento para o campo do possível. Entao, refletindo sobre a idade do garoto, e claro, convencido de que ele já entendeu quem ele é em relaçao a mim, sugeri em tom epicureo:
-Ei. Vai com calma que pinto novo tem mais é que exercitar a pinta. Comece batendo uma punheta, pixoto.
Surpreso. O puto(em sentido português!) perguntou:
- Que porra é isso?
Nesse momento um tom altivo é necessário. Nao é preciso voltar à autoridade antiga na qual o professor mantinha o poder pela posiçao específica a qual ocupava. Eh preferível se impor pelo nível esmagador de uma retórica fundada na argumentaçao baseada na sólida e indestrutível aliança entre análise racional e conteúdo empírico. Respondi assim, exemplificando. Sou um ciêntista.
- A coisa nao é difícil. Pega a pica com a mao. Assim. Cospe na cabeça. Você deixa a bicha ficar molhada. E aí tem que ter imaginaçao. Pensar, por exemplo, na Lidiane. Sim. Aquela gostosinha lá da sua rua. Nas pernas roliças dela. No "short" apertadinho fazendo aparecer as marcas da calcinha rendada. Aquela bunda redonda, carnuda, musculosa. E continua a balançar. Assim porra!. E você deve balaçar mais ligeiro. Sim. Quanto mais rápido é o vai-e-vem mais a imaginaçao mistura as partes do corpo dela e o que podemos fazer com elas. Chupar, arreganhar cada buraco. E se sentir ressecar, cospe novamente.
Depois de parar e pensar um pouco no que havia explicado, decidi ampliar minha proposta pedagógica aumentando o conteúdo progamático do ensinamento. Decidi sistematizar minhas opinioes sobre a teoria do cuspe num objeto mais complexo e continuei.(O garoto escutava atentamente.)
- Quando for com uma ninfeta nao faz a mesma coisa nao. Eh parecido, mas nao é igual. Onde eu estava antes? Ah sim, "imaginar". Sim. Antes disso estava no cuspe. Entao. Na hora da cuspida é para cuspir,mas nao cospe mais na rola nao. Primeiro, para mostrar para ela que você é entendido, abre as penas da nega e coloca a mao na buceta dela. Se estiver molhada, você bota pra fuder. Se nao, cospe na mao e coloque a saliva na priquita dela. Depois, só depois, é que você mete o pau. Entendeu?
- Capeta. Tu és fuderoso mesmo.
- Nada, depois você precisa aprender outras coisas.
Com essas palavras, terminei a conversa em acordo com um princípio de modéstia intelectual exigido. Mas pensei ainda em acrescentar uma idéia. Uma lei que desvendei e a qual me deu a reputaçao de cientista e pedagogo. Cientista pelo enunciado. Pedagogo pelo estudo da forma, pelo empreendimento de um aprendizado mais adequado. A lei encontrada por mim? O cu é sempre mais dificil, mas nao é impossível nao. Foi com essa lei que me formei. Transformei-me em homem de ciência. Se me pergunta como fiz para daí passar para pedagogia, diria com ar cínico: vira o cu, palhaço.
Autocrítica de professor.
Nesse dialogo com o guri alguns aspectos falhos de minha prática pedagógica me paracem evidentes. O mais importante deles foi meu pouco tato na hora de aplicar minha tática semi-diretiva de dialogar. Por isso é possível notar uma certa induçao de minha parte ao dizer o que digo querendo ouvir o que quero para assim responder o que bem quis. Nesse sentido continuo tentando induzir, pois, enuciando meu erros possíveis, tendo, de certa forma, a nao querer aceitar outros, talvez encontrados por leitores mais atentos. Atentemos aqui, todos juntos, para o fato de que, em pedagogia, pelo simples fato da centralidade da questao didática, metodológica, o conteúdo perde toda a importância. O que é crucial é que o garoto aprendeu por meios eficazes e (demostradamente mais eficientes)a sua proveitosa punheta...
Ps: Como o autor é tal qual um pré-socratico morreu sem escritos. O dialogo é entao fruto de uma doxografia imprecisa e moderna, oriunda de um disse me disse, de um ouvir daqui escrever alí.
Daniel Capeta tinha um ar acadêmico quando ensinava algo. E desse fato provinha a grande eficácia de sua didática. Era um construtivista nato. Tudo nele inspirava uma vocaçao ao ensino: a maneira de falar da imaginaçao, de exemplificá-la; também a forma direta e objetiva de enquadrar o sujeito, sempre objeto de análise acurada, profunda. O método, de tao crítico às rupturas epistemológicas, poderia mesmo ser visto como uma nova poética do movimento didático, uma fenomenologia do ir e vir contínuo no ensino de uma prática. Na verdade, ele foi responsavel por uma nova prática da imaginaçao estruturada a partir da experiência pedagógica em si, com o sujeito recriando o objeto, modelando-o com vigor na luta pelo irresistível.
A maneira dele de ilustrar ilustrando tornava-o uma figura notável entre as crianças daquele lugar. Naqule mundo devastado por um vázio de sentido existêncial, garotos de 10 e 13 anos pareciam estuperfeitos com a sensaçao lúdica da nova cinemática. Para os moleques era poesia aquela ciência dos movimentos tao simples, tao natural (na) mente, nas maos: uma ciência técnica, sem dúvidas. Tal saber teve certamente um futuro durável e glorioso, e, sendo de fácil democratizaçao, gerou prazer curto a uma grande maioria de individuos com vida, muitas vezes, mais que efêmera.
Eh com muito prazer que reproduzimos aqui um dos seus únicos cursos transcrito aqui de maneira muito precária, mas, eperamos, a mais fiél possível a um empreendimento intelectual dessa ordem.
Curso I (Tema: ensinamento do amor, antes do sexo.)
Comentário póstumo do professor ou resumo imaginado(Por Daniel Capeta):
Como os do Socrates de Platao, meus ensinamentos sao fruto de uma prática pedagógica específica. Cada aula, um dialogo. Cada debate, um recriar do mundo. Porém, diferentemente do pensador grego, minhas idéias, apesar de bem difundidas, ainda nao fazem parte do patrimônio universal da cultura humana. Nao sei por qual razao, pois morto também estou. E era até bonito antes das balas perfurarem meu rosto. Espero que gostem do curso apresentado em forma de diálogo pouco platônico.
Aula do curso de didática popular infatil e aplicada. Ministrada por Daniel Capeta (Anos 80, em algum suburbio recifense.)
Um guri chega para mim e diz:
-Ei Capeta. A galera me disse véio, tá ligado? Diz pra mim também, vai lá véio! Diz aí, pô! Eu tou ligado que você já comeu uma nega uma vez. Porra. Conta aí! E aí, faz o que isso? Dá o que na hora?
Penso que todo educador deve ser ao mesmo tempo pragmático e teórico. Deve respeitar as dúvidas mais do que naturais de seus pupilos e encará-las com naturalidade. Porém, para impor um certo respeito e garantir um certo distânciamento próprio à profissao de educador, ele deve colocar o aprendiz no seu devido lugar. Por isso, respondi:
-Primeiro tu tens que encontrar uma nega. Tens uma buceta, um rabo? Nao tens. Entao pronto.
Triste, num primeiro momento sem esperanças, o aprendiz agoniza palavras resignadas:
-Tem jeito nao. Tou fodido entao. Como vou enrabar alguém? Nenhuma nega me quer, sou muito guri. Nao tenho nem bilola, só pitoca.
Depois de ter estimulado o desejo mais profundo de aprender, é que é preciso jogar com o lado mais empírico e trazer o ensinamento para o campo do possível. Entao, refletindo sobre a idade do garoto, e claro, convencido de que ele já entendeu quem ele é em relaçao a mim, sugeri em tom epicureo:
-Ei. Vai com calma que pinto novo tem mais é que exercitar a pinta. Comece batendo uma punheta, pixoto.
Surpreso. O puto(em sentido português!) perguntou:
- Que porra é isso?
Nesse momento um tom altivo é necessário. Nao é preciso voltar à autoridade antiga na qual o professor mantinha o poder pela posiçao específica a qual ocupava. Eh preferível se impor pelo nível esmagador de uma retórica fundada na argumentaçao baseada na sólida e indestrutível aliança entre análise racional e conteúdo empírico. Respondi assim, exemplificando. Sou um ciêntista.
- A coisa nao é difícil. Pega a pica com a mao. Assim. Cospe na cabeça. Você deixa a bicha ficar molhada. E aí tem que ter imaginaçao. Pensar, por exemplo, na Lidiane. Sim. Aquela gostosinha lá da sua rua. Nas pernas roliças dela. No "short" apertadinho fazendo aparecer as marcas da calcinha rendada. Aquela bunda redonda, carnuda, musculosa. E continua a balançar. Assim porra!. E você deve balaçar mais ligeiro. Sim. Quanto mais rápido é o vai-e-vem mais a imaginaçao mistura as partes do corpo dela e o que podemos fazer com elas. Chupar, arreganhar cada buraco. E se sentir ressecar, cospe novamente.
Depois de parar e pensar um pouco no que havia explicado, decidi ampliar minha proposta pedagógica aumentando o conteúdo progamático do ensinamento. Decidi sistematizar minhas opinioes sobre a teoria do cuspe num objeto mais complexo e continuei.(O garoto escutava atentamente.)
- Quando for com uma ninfeta nao faz a mesma coisa nao. Eh parecido, mas nao é igual. Onde eu estava antes? Ah sim, "imaginar". Sim. Antes disso estava no cuspe. Entao. Na hora da cuspida é para cuspir,mas nao cospe mais na rola nao. Primeiro, para mostrar para ela que você é entendido, abre as penas da nega e coloca a mao na buceta dela. Se estiver molhada, você bota pra fuder. Se nao, cospe na mao e coloque a saliva na priquita dela. Depois, só depois, é que você mete o pau. Entendeu?
- Capeta. Tu és fuderoso mesmo.
- Nada, depois você precisa aprender outras coisas.
Com essas palavras, terminei a conversa em acordo com um princípio de modéstia intelectual exigido. Mas pensei ainda em acrescentar uma idéia. Uma lei que desvendei e a qual me deu a reputaçao de cientista e pedagogo. Cientista pelo enunciado. Pedagogo pelo estudo da forma, pelo empreendimento de um aprendizado mais adequado. A lei encontrada por mim? O cu é sempre mais dificil, mas nao é impossível nao. Foi com essa lei que me formei. Transformei-me em homem de ciência. Se me pergunta como fiz para daí passar para pedagogia, diria com ar cínico: vira o cu, palhaço.
Autocrítica de professor.
Nesse dialogo com o guri alguns aspectos falhos de minha prática pedagógica me paracem evidentes. O mais importante deles foi meu pouco tato na hora de aplicar minha tática semi-diretiva de dialogar. Por isso é possível notar uma certa induçao de minha parte ao dizer o que digo querendo ouvir o que quero para assim responder o que bem quis. Nesse sentido continuo tentando induzir, pois, enuciando meu erros possíveis, tendo, de certa forma, a nao querer aceitar outros, talvez encontrados por leitores mais atentos. Atentemos aqui, todos juntos, para o fato de que, em pedagogia, pelo simples fato da centralidade da questao didática, metodológica, o conteúdo perde toda a importância. O que é crucial é que o garoto aprendeu por meios eficazes e (demostradamente mais eficientes)a sua proveitosa punheta...
Ps: Como o autor é tal qual um pré-socratico morreu sem escritos. O dialogo é entao fruto de uma doxografia imprecisa e moderna, oriunda de um disse me disse, de um ouvir daqui escrever alí.
sábado, outubro 16, 2004
Para descontrair: o cu de Norminha(Fora da norma)
Norminha pediu para Jorge o tapado tirar o dedo. "Jorge, tira o dedo. E quando (re)inserir, faça-o rodar para que eu possa sentir as contraçoes no ventre. E faça devagar, como se fosse um exame de toque retal. Você nao já fez Jorge? Pois entao. Lembre da porra do dedao do médico." Sem paciência. Estou sem paciência, disse Norma Valadares."Puta merda Jorge, o cú nao é a zona nao porra." Sugeriu. " Vai te fuder porra, nem isso tu sabes fazer direito." Jorge o zonzo estava zonzo. Nao sabia porque Norminha insistia com aquela idéia de exercicio erótico. Sou uma pessoa pacata, nao gosto dessas coisas, dizia ele aos seus botoes. Ela faz isso para me atormentar.
Eles estavam a 7 anos de casamento. Norminha, que sempre esteve na norma, decidiu por alguma razao querer ter uma vida mais ativa, mais picante. Ela passou a comprar filmes pornográficos e pedir ao seu marido, Jorge o pacato, que olhasse com ela a objetividade daqueles enquadramentos e closes fixos. Ela analisava tudo muito friamente, como se fosse uma legista. Dava pausa para entender posiçoes e nao se conformava com o irrealismo dos gritos espalhafatosos das atrizes. Dizia ela com certa serenidado a Jorge o incrédulo: "com aqueles orgasmos continuos e ineterruptos que duravam horas e horas aquelas mulheres registram apenas o illusion, o efeito de um real desejado." Realista, ela obrigava Jorge o coitado a produzir coitos como os dos atores dos filmes. Mas nao de maneira ingênua, claro. Ela sabia que esporrar meio litro era impossível na vida real. Entao, como boa cenarísta que era, comprou leite e misturou com açucar e um pouco de àgua. Sexo era aquilo. Ser ejaculada com muito leite com açucar, dizia depois que Jorge o obidiente fazia aquilo que ela madanva.
Um dia Norminha encrecou que queria fazer um "menage à trois". Jorge o sábio, disse que só queria se a terceira parte fosse outra mulher. Norminha aceitou, cinicamente. Contrataram uma prostituta. Fizeram uma escolha pautada na edificaçao da anatomia feminina. A puta era bonita. Jorge o safado olhou a calça jeans dela colada ao corpo. Viu que a marca da calcinha realçava a poupa da nadega. Ergueu a cabeça para perceber os seios rijos que estendiam como duas peras pontudas uma camiseta de malha, sem mangas. Jorge o sem medo pensou por um segundo que essa história de menage é parecido com suruba, temeu pela continuidade das intensoes de Norminha, sua mulher.
Jorge o sonolento, acordou. Olhou para um lado da cama, viu Norminha, sua esposa. Do outro lado, a linda meretriz dormia.
Jorge era professor primário e até o terceiro ano de casamento nao conversava com Norminha, sua mulher. Norminha, mulher de Jorge o seu marido, amava-o muito e sempre quis ama-lo como homem. Norminha e Jorge alugaram muitos filmes pornor e fizemos muitas coisas mais. Jorge dava aulas na escola para crianças e adolescentes e era casado com Norminha. Norminha, cansada de tanta coisa, era dona de casa, e, casada com Jorge o marido dela, pediu para que o mesmo lhe enfiasse o dedo no cú.
Moral da estória: saiu pela perna do pato, quem quiser que conte de quatro.
Norminha pediu para Jorge o tapado tirar o dedo. "Jorge, tira o dedo. E quando (re)inserir, faça-o rodar para que eu possa sentir as contraçoes no ventre. E faça devagar, como se fosse um exame de toque retal. Você nao já fez Jorge? Pois entao. Lembre da porra do dedao do médico." Sem paciência. Estou sem paciência, disse Norma Valadares."Puta merda Jorge, o cú nao é a zona nao porra." Sugeriu. " Vai te fuder porra, nem isso tu sabes fazer direito." Jorge o zonzo estava zonzo. Nao sabia porque Norminha insistia com aquela idéia de exercicio erótico. Sou uma pessoa pacata, nao gosto dessas coisas, dizia ele aos seus botoes. Ela faz isso para me atormentar.
Eles estavam a 7 anos de casamento. Norminha, que sempre esteve na norma, decidiu por alguma razao querer ter uma vida mais ativa, mais picante. Ela passou a comprar filmes pornográficos e pedir ao seu marido, Jorge o pacato, que olhasse com ela a objetividade daqueles enquadramentos e closes fixos. Ela analisava tudo muito friamente, como se fosse uma legista. Dava pausa para entender posiçoes e nao se conformava com o irrealismo dos gritos espalhafatosos das atrizes. Dizia ela com certa serenidado a Jorge o incrédulo: "com aqueles orgasmos continuos e ineterruptos que duravam horas e horas aquelas mulheres registram apenas o illusion, o efeito de um real desejado." Realista, ela obrigava Jorge o coitado a produzir coitos como os dos atores dos filmes. Mas nao de maneira ingênua, claro. Ela sabia que esporrar meio litro era impossível na vida real. Entao, como boa cenarísta que era, comprou leite e misturou com açucar e um pouco de àgua. Sexo era aquilo. Ser ejaculada com muito leite com açucar, dizia depois que Jorge o obidiente fazia aquilo que ela madanva.
Um dia Norminha encrecou que queria fazer um "menage à trois". Jorge o sábio, disse que só queria se a terceira parte fosse outra mulher. Norminha aceitou, cinicamente. Contrataram uma prostituta. Fizeram uma escolha pautada na edificaçao da anatomia feminina. A puta era bonita. Jorge o safado olhou a calça jeans dela colada ao corpo. Viu que a marca da calcinha realçava a poupa da nadega. Ergueu a cabeça para perceber os seios rijos que estendiam como duas peras pontudas uma camiseta de malha, sem mangas. Jorge o sem medo pensou por um segundo que essa história de menage é parecido com suruba, temeu pela continuidade das intensoes de Norminha, sua mulher.
Jorge o sonolento, acordou. Olhou para um lado da cama, viu Norminha, sua esposa. Do outro lado, a linda meretriz dormia.
Jorge era professor primário e até o terceiro ano de casamento nao conversava com Norminha, sua mulher. Norminha, mulher de Jorge o seu marido, amava-o muito e sempre quis ama-lo como homem. Norminha e Jorge alugaram muitos filmes pornor e fizemos muitas coisas mais. Jorge dava aulas na escola para crianças e adolescentes e era casado com Norminha. Norminha, cansada de tanta coisa, era dona de casa, e, casada com Jorge o marido dela, pediu para que o mesmo lhe enfiasse o dedo no cú.
Moral da estória: saiu pela perna do pato, quem quiser que conte de quatro.
sexta-feira, outubro 08, 2004
Recife de dentro pra fora
Chegar na França é como apagar todas as luzes da casa, pegar a lanterna de bolso do Drummond, andar pelos corredores, quartos, salas e, sem medo, quase por prazer, fazer a experiência da luz errante.
Daqui o Recife real parece-me um acaso do meu olhar estranho(chame-o de luz se quiser), ora triste ora contente, porém sempre modelado pelo alcance de uma recordaçao. Ao iluminar apenas seçoes, nunca por inteiro, as dores, os abraços, as alegrias de tantos e em muitos lugares, ele modela pelo limite o ‘visível’ e enquadra a realidade possível. O Recife daqui é focado por uma lanterna doida e triste chamada memória.
Mas o que é o real, perguntava o poeta, senao o acaso da iluminaçao? Minha resposta, contraria ao impeto da poética da lanterna Drummondiana, insiste em ser realista. Parece-me óbvia a existência de uma dor em si, nao dependente de qualquer claridade subjetiva. Posso dar exemplos disso.
Como no reencontro com dona Iracema, lá na UR-6. Encontrei-a lá onde minha memória a havia deixado. Mesmo bairro, mesma casa. As dores pareciam ser menores no passado. Ou talvez fosse a minha lanterninha de criança pouco capaz de focar e clarear tais regioes pouco físicas do espaço humano. Mas lá estava ela, lá na mesma residência.
-Dona Iracema, o que houve com a senhora? Como vao as coisas?
-Meu filho, quanto tempo. Quanto tempo, nao é mesmo? Estou aqui assim, com essa perna assim, meu filho, acabada, sem poder andar.
-O que aconteceu com sua perna dona Iracema? Meu Deus.
-Fui operada três vezes meu filho. O médico errou, a perna está solta, a peça metálica incomoda. Outra equipe médica já indicou a besteira que me fizeram. Minha perna nao tem jeito. Meu filho, Clayton, me abandonou. Nao tenho dinheiro para as dispesas. Nao tenho. Sao muitos os remédios. Muitas as dores.
Nesse momento minha luzinha interna começou a funcionar. Lembrei de Clayton. Brincavamos juntos escorregando no beco coberto de lôdo ao lado da casa dele. Como aquela criança, hoje oficial da aeronautica, veio a ser um homem que deixa sua própria mae se acabar daquele jeito? Imaginei possíveis brigas entre ele e a mae. Talvez uma briga enorme pudesse justificar uma tal situaçao. Penso que nao.A força que movia minha luz se tornou mais forte. Lembrei das peladas com outros amigos. Outras crianças. Sim. Crianças. Hoje, elas sao outra coisa. Ou simplesmente nao sao. A conversa com Vandinho foi assim:
-Porra bicho, quanto tempo. Pai, olha Paulinho. Lembra dele?
-Muito tempo mesmo. Já tens duas filhas! Porra, e grandes desse jeito! Estamos ficando velhos.
-Pois é Paulinho. As duas sao minha vida. Minha e de Claudinha.
Ao ouvir falar de Claudinha me veio a mente o nome do irmao dela, Quênio. Eu tive notícias dele por um outro amigo, mas nao lembrava bem quais. Aí perguntei:
-E Quênio, o que aconteceu com ele? (Nesse momento Claudinha nao estava por perto).
-(Chamando-me um pouco para o lado, mudando o tom da voz e olhando como se estivesse descofiado, descreveu: ) Paulinho, apagaram o cara. Mas o bicho tava foda. Ninguém segurava ele. Claudinha gostava muito dele, mas ele tava foda. Todo mundo queria o gogó dele. Ele tentou matar um capitao da polícia aí. Aí já viu. Ele estava já na entrada da casa dele quando pegaram. Ele tentou fugir, mas acertaram a perna dele. Depois pegaram e acertaram por trás da cabeça, o tiro saiu pelo olho. Ficaram ainda atirando para cima, para comemorar...
Vandinho contava e eu ficava a tentar imaginar o sofrimento da família de Quênio, do de Claudinha, a irma que tanto o amava. Eu joguei bola com Quênio. Eramos crianças. Naquele mesmo lugar, com aquelas mesmas pessoas.
Drumomnd usava a lanterna dele para dar um mergulho no divino. Dizia ele fazer isso até que um dia cansasse e quisesse inventar uma outra dinvindade. Eu, menos poeta, e talvez por isso menos poderoso, gostaria apenas de esconder as pilhas, para nao sofrer com minha luz iluminadora de morbidos inexplicáveis.
Se meu olhar relativisa a dor, se ele é apenas um olhar, dificil é ainda dizer relativo o sofrimento de dona Iracema, daquela perna inferma, da agônia de nao ser ajudada pelo filho.Quem dera poder tirar a pilha, esconder-me da dor de Claudinha...
Apaguem todas as luzes antes de dormir. Apaguem. Claudinha, duma bem e com os anjos.
Jampa.
Chegar na França é como apagar todas as luzes da casa, pegar a lanterna de bolso do Drummond, andar pelos corredores, quartos, salas e, sem medo, quase por prazer, fazer a experiência da luz errante.
Daqui o Recife real parece-me um acaso do meu olhar estranho(chame-o de luz se quiser), ora triste ora contente, porém sempre modelado pelo alcance de uma recordaçao. Ao iluminar apenas seçoes, nunca por inteiro, as dores, os abraços, as alegrias de tantos e em muitos lugares, ele modela pelo limite o ‘visível’ e enquadra a realidade possível. O Recife daqui é focado por uma lanterna doida e triste chamada memória.
Mas o que é o real, perguntava o poeta, senao o acaso da iluminaçao? Minha resposta, contraria ao impeto da poética da lanterna Drummondiana, insiste em ser realista. Parece-me óbvia a existência de uma dor em si, nao dependente de qualquer claridade subjetiva. Posso dar exemplos disso.
Como no reencontro com dona Iracema, lá na UR-6. Encontrei-a lá onde minha memória a havia deixado. Mesmo bairro, mesma casa. As dores pareciam ser menores no passado. Ou talvez fosse a minha lanterninha de criança pouco capaz de focar e clarear tais regioes pouco físicas do espaço humano. Mas lá estava ela, lá na mesma residência.
-Dona Iracema, o que houve com a senhora? Como vao as coisas?
-Meu filho, quanto tempo. Quanto tempo, nao é mesmo? Estou aqui assim, com essa perna assim, meu filho, acabada, sem poder andar.
-O que aconteceu com sua perna dona Iracema? Meu Deus.
-Fui operada três vezes meu filho. O médico errou, a perna está solta, a peça metálica incomoda. Outra equipe médica já indicou a besteira que me fizeram. Minha perna nao tem jeito. Meu filho, Clayton, me abandonou. Nao tenho dinheiro para as dispesas. Nao tenho. Sao muitos os remédios. Muitas as dores.
Nesse momento minha luzinha interna começou a funcionar. Lembrei de Clayton. Brincavamos juntos escorregando no beco coberto de lôdo ao lado da casa dele. Como aquela criança, hoje oficial da aeronautica, veio a ser um homem que deixa sua própria mae se acabar daquele jeito? Imaginei possíveis brigas entre ele e a mae. Talvez uma briga enorme pudesse justificar uma tal situaçao. Penso que nao.A força que movia minha luz se tornou mais forte. Lembrei das peladas com outros amigos. Outras crianças. Sim. Crianças. Hoje, elas sao outra coisa. Ou simplesmente nao sao. A conversa com Vandinho foi assim:
-Porra bicho, quanto tempo. Pai, olha Paulinho. Lembra dele?
-Muito tempo mesmo. Já tens duas filhas! Porra, e grandes desse jeito! Estamos ficando velhos.
-Pois é Paulinho. As duas sao minha vida. Minha e de Claudinha.
Ao ouvir falar de Claudinha me veio a mente o nome do irmao dela, Quênio. Eu tive notícias dele por um outro amigo, mas nao lembrava bem quais. Aí perguntei:
-E Quênio, o que aconteceu com ele? (Nesse momento Claudinha nao estava por perto).
-(Chamando-me um pouco para o lado, mudando o tom da voz e olhando como se estivesse descofiado, descreveu: ) Paulinho, apagaram o cara. Mas o bicho tava foda. Ninguém segurava ele. Claudinha gostava muito dele, mas ele tava foda. Todo mundo queria o gogó dele. Ele tentou matar um capitao da polícia aí. Aí já viu. Ele estava já na entrada da casa dele quando pegaram. Ele tentou fugir, mas acertaram a perna dele. Depois pegaram e acertaram por trás da cabeça, o tiro saiu pelo olho. Ficaram ainda atirando para cima, para comemorar...
Vandinho contava e eu ficava a tentar imaginar o sofrimento da família de Quênio, do de Claudinha, a irma que tanto o amava. Eu joguei bola com Quênio. Eramos crianças. Naquele mesmo lugar, com aquelas mesmas pessoas.
Drumomnd usava a lanterna dele para dar um mergulho no divino. Dizia ele fazer isso até que um dia cansasse e quisesse inventar uma outra dinvindade. Eu, menos poeta, e talvez por isso menos poderoso, gostaria apenas de esconder as pilhas, para nao sofrer com minha luz iluminadora de morbidos inexplicáveis.
Se meu olhar relativisa a dor, se ele é apenas um olhar, dificil é ainda dizer relativo o sofrimento de dona Iracema, daquela perna inferma, da agônia de nao ser ajudada pelo filho.Quem dera poder tirar a pilha, esconder-me da dor de Claudinha...
Apaguem todas as luzes antes de dormir. Apaguem. Claudinha, duma bem e com os anjos.
Jampa.
terça-feira, outubro 05, 2004
Relembrando para recomeçar
Depois de alguns meses fora do ar esse blogue vai recomeçar. Vou manter o mesmo intento de ínicio e por isso recordo com vocês:
Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.
Lembrança curta, para memória de pernilongos. Então está dito e feito: o espaço para tensão da, na e para escrita está de volta.
Depois de alguns meses fora do ar esse blogue vai recomeçar. Vou manter o mesmo intento de ínicio e por isso recordo com vocês:
Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.
Lembrança curta, para memória de pernilongos. Então está dito e feito: o espaço para tensão da, na e para escrita está de volta.
terça-feira, agosto 10, 2004
Diga ao João...
Ele passou batido. Pensava saber, não sabia.
Deixou de lado o mais importante. Pegou o caminho errado e bifurcou o entroncamento. Cara mais sem lógica.
Como dizia o mestre da malandragem dialética: ele definitivamente peidou na farofa de ovo. Comeu pão com gelo. E depois pediu penico vázio. Um verdadeiro vacuo local. Vá com ele, vá!
Diz pra ele deixar de ser pidão. Ou seja: diga ao infeliz para ele deixar de pedir grande e fazer a cotação do cumprimento aleatório do tatuado alheio.
Ele tem que parar de cantar. Voz triste. Pingueira. Goteira no mesmo penico vázio...
O cara é um desgraçado. Miserável. Só nanceu uma vez e veio daquele jeito. É de se ter pena.
Manda ele largar aquela geringonça a quem ele chama de mulher. Aquele troço é torta e tem uma perna morta e um braço seco que furou num prego e tem um olho cego e só tem uma mão. Acumulou defeitos na vida. O mais importante deles é o João.
Porém diga com calma que ele é um qualquer um. E quando ele perguntar quem foi o emissor, diga-lhe o meu codinome: chamo-me Fax Call 1-800 - help for assistance. Meu apelido é Jhon. Quando em perigo, deprecio os homens chamando-os de João. Por favor... Deixe-me um último pedido. Posso mandar um recado para o João... Juro, depois você pode atirar. Então.
Diga ao João...
Ele passou batido. Pensava saber, não sabia.
Deixou de lado o mais importante. Pegou o caminho errado e bifurcou o entroncamento. Cara mais sem lógica.
Como dizia o mestre da malandragem dialética: ele definitivamente peidou na farofa de ovo. Comeu pão com gelo. E depois pediu penico vázio. Um verdadeiro vacuo local. Vá com ele, vá!
Diz pra ele deixar de ser pidão. Ou seja: diga ao infeliz para ele deixar de pedir grande e fazer a cotação do cumprimento aleatório do tatuado alheio.
Ele tem que parar de cantar. Voz triste. Pingueira. Goteira no mesmo penico vázio...
O cara é um desgraçado. Miserável. Só nanceu uma vez e veio daquele jeito. É de se ter pena.
Manda ele largar aquela geringonça a quem ele chama de mulher. Aquele troço é torta e tem uma perna morta e um braço seco que furou num prego e tem um olho cego e só tem uma mão. Acumulou defeitos na vida. O mais importante deles é o João.
Porém diga com calma que ele é um qualquer um. E quando ele perguntar quem foi o emissor, diga-lhe o meu codinome: chamo-me Fax Call 1-800 - help for assistance. Meu apelido é Jhon. Quando em perigo, deprecio os homens chamando-os de João. Por favor... Deixe-me um último pedido. Posso mandar um recado para o João... Juro, depois você pode atirar. Então.
Diga ao João...
quarta-feira, agosto 04, 2004
O que você vai ser quando crescer? Ou a inutilidade da infância.(Sem sociologia)
Ainda no segundo grau li um texto de um protestante chamado Rubem Alvez. Um livro de fábulas intitulado Estórias de quem gosta de ensinar. O autor, talvez pensando em Nietzsche, filósofo sempre citado por ele, quiçá imaginando uma ética pautada numa reflexão humanista do mundo, moralizava a pedagogia tentando dar à vida um sentido metafísico. A pergunta ''o que você vai ser quando crescer?'' engendrava uma constatação obvia aos olhos do fabulador: a inutilidade do que se é na infância. Uma vez que só se vem a ser quando se começa a produzir, a criança, não mais fim em si mesma, mas um meio para se conseguir produzir mais num futuro próximo, deixa de ter valor próprio para se constituir em quanto receptor passivo duma ética do por vir. Associada sempre a um futuro glorioso (geralmente futuros médicos ou advogados para citar os mais comuns), a criança vive o universo lúdico apenas como pano de fundo metodológico para inculcação dos valores de uma sociedade de produção.
Engraçado perceber que para um leitor avisado de filosofia tal argumento pode logo parecer um disparate. O ímpeto anti-metafísico do filósofo alemão é contrário à metafísica, diria tautológicamente. Porém, na época da leitura, por causa do entusiasmo, não tive dúvidas e pus-me a avaliar a pedagogia da escola a partir desse viés religioso, ponderar sobre minha, digamos assim, condição de estudante. E de fato, a filosofia nietszchiana ajuda a colocar alguns pontos sobre os is. A questão é básica: como atribuir valor a uma vida, ou a vida(humana)? Pelo trabalho? Pela beleza estética e física de uma pessoa? Pela média aritimética das diversas qualidades de um individuo? Por sua participação no MESC(movimento eu sou cultural)? No PT? Por ter estudado em Londres, Paris ou grandes centros afins? Qual a unidade de medida de uma existência? Nietzsche é desconcertante nesse sentido e redimensiona o debate. Ele pergunta em tom resignado: poderia o homem aceitar a vida se soubesse que ela é um eterno retornar ao mesmo? Poderia ele dizer sim ao mundo se soubesse da infinita reprodução de sua miséria? Nesse sentido, se bem aprecio a reflexão dele, o valor de um homem estária ligado a sua relação de força diante de sua própria condição. Mas onde estária aqui o valor de uma criança?
Metafísica de criança
Rubem Alves vê na metafísica da criança o super-homem à Nietzsche, ou melhor dizendo a super-criança. O dizer sim ao mundo infantil seria nesse sentido aceitar coisas com um valor em-si-para-si. A estória das duas crianças com destinos diferentes servia de exemplo disso. Nela ele imagina a relação de dois pais com seus respectivos filhos. O primeiro com um menino saudável. O segundo tinha um garoto leucêmico. Se para o pai cuja saúde do filho era impecável a pergunta o que você vai ser quando crescer parece inevitável, para o do menino com leucemia a vida da criança ganhava paradoxalmente um sentido imediato, ela valia em si mesma. Se um imagina futuros gloriosos, o outro tentava viver o presente, respirar a vida do menino, levá-lo ao parque e sorrir ao lado dele. Apesar do peso sentimetal e pouco empirico dos exemplos, guardei para mim um ensinamento: quem figura como ente parece não perdurar como ser na imaginação. Atribuir valor é sem dúvida brincar com a metafísica. Mesmo que a lógica social da taxonimia seja perversa, temos direito de tentar dizer ''sim'' apesar de todos os apesar de... Saudades de ler a Lipector.
Ainda no segundo grau li um texto de um protestante chamado Rubem Alvez. Um livro de fábulas intitulado Estórias de quem gosta de ensinar. O autor, talvez pensando em Nietzsche, filósofo sempre citado por ele, quiçá imaginando uma ética pautada numa reflexão humanista do mundo, moralizava a pedagogia tentando dar à vida um sentido metafísico. A pergunta ''o que você vai ser quando crescer?'' engendrava uma constatação obvia aos olhos do fabulador: a inutilidade do que se é na infância. Uma vez que só se vem a ser quando se começa a produzir, a criança, não mais fim em si mesma, mas um meio para se conseguir produzir mais num futuro próximo, deixa de ter valor próprio para se constituir em quanto receptor passivo duma ética do por vir. Associada sempre a um futuro glorioso (geralmente futuros médicos ou advogados para citar os mais comuns), a criança vive o universo lúdico apenas como pano de fundo metodológico para inculcação dos valores de uma sociedade de produção.
Engraçado perceber que para um leitor avisado de filosofia tal argumento pode logo parecer um disparate. O ímpeto anti-metafísico do filósofo alemão é contrário à metafísica, diria tautológicamente. Porém, na época da leitura, por causa do entusiasmo, não tive dúvidas e pus-me a avaliar a pedagogia da escola a partir desse viés religioso, ponderar sobre minha, digamos assim, condição de estudante. E de fato, a filosofia nietszchiana ajuda a colocar alguns pontos sobre os is. A questão é básica: como atribuir valor a uma vida, ou a vida(humana)? Pelo trabalho? Pela beleza estética e física de uma pessoa? Pela média aritimética das diversas qualidades de um individuo? Por sua participação no MESC(movimento eu sou cultural)? No PT? Por ter estudado em Londres, Paris ou grandes centros afins? Qual a unidade de medida de uma existência? Nietzsche é desconcertante nesse sentido e redimensiona o debate. Ele pergunta em tom resignado: poderia o homem aceitar a vida se soubesse que ela é um eterno retornar ao mesmo? Poderia ele dizer sim ao mundo se soubesse da infinita reprodução de sua miséria? Nesse sentido, se bem aprecio a reflexão dele, o valor de um homem estária ligado a sua relação de força diante de sua própria condição. Mas onde estária aqui o valor de uma criança?
Metafísica de criança
Rubem Alves vê na metafísica da criança o super-homem à Nietzsche, ou melhor dizendo a super-criança. O dizer sim ao mundo infantil seria nesse sentido aceitar coisas com um valor em-si-para-si. A estória das duas crianças com destinos diferentes servia de exemplo disso. Nela ele imagina a relação de dois pais com seus respectivos filhos. O primeiro com um menino saudável. O segundo tinha um garoto leucêmico. Se para o pai cuja saúde do filho era impecável a pergunta o que você vai ser quando crescer parece inevitável, para o do menino com leucemia a vida da criança ganhava paradoxalmente um sentido imediato, ela valia em si mesma. Se um imagina futuros gloriosos, o outro tentava viver o presente, respirar a vida do menino, levá-lo ao parque e sorrir ao lado dele. Apesar do peso sentimetal e pouco empirico dos exemplos, guardei para mim um ensinamento: quem figura como ente parece não perdurar como ser na imaginação. Atribuir valor é sem dúvida brincar com a metafísica. Mesmo que a lógica social da taxonimia seja perversa, temos direito de tentar dizer ''sim'' apesar de todos os apesar de... Saudades de ler a Lipector.
sábado, julho 17, 2004
Dialogando com Cesar: Walter, Nietszche sem paidéia
Plano:
Vamos(...), nesse nós retórico e polido, vamos começar pelo O Idiota da Família e a ilusão da biografia total. Mas iniciar o quê? Chamemos isso de conversa. Continuemos em seguida, com porquês comuns, com o problema da petulância como medida da verossimilhança do personagem. E, para por fim ao início da conversa, faremos considerações sobre os limites de nosso diálogo.
1- Dialogo solitário: o existêncialismo é um humanismo sem história
Jampa - Tendo como base as leituras de dois textos de Bourdieu (L'illusion biographique- A ilusão biográfica- e o próprio Les règles de l'art- As regras da arte), acredito que o autor propunha o seguinte: o limite de toda biografia é dado menos pelo fato dela proceder recrutando traços típicos de uma personalidade específica, e mais pela ambição (essa sim real detentora da ilusão biográfica) de reconstruir uma personalidade tal qual em sua totalidade, digamos assim, real e absoluta. De fato no O Idiota da Família Sartre tenta vislumbrar um Flaubert necessariamente Flaubert, esvaziando assim as determinantes socio-históricas da construção de um escritor que se fez, apesar dele, dentro de continuidades e descontinuidades próprias à definição(sociológicamente aceitável) de qualquer personalidade. Para centrar nosso debate proponho situar o necessário estrangular da história feito pelos existencialistas, em particular pelos dois autores citados: Sartre e Nietszche. Tanto um quanto outro preocupavam-se menos com processos socializadores(amores e desamores só podem forjar o homem na medida em que este internaliza e exterioriza de alguma forma elementos desse passado composto-amores e desamores- no presente da existência), e mais com os lampejos de liberdade inspirados por um Eu abstrato e escolhedor de destinos. Quando Nietszche pergunta como um homem se torna aquilo que ele é, ele quer saber menos da socialização(determinante e estrutural por natureza) e mais da vontade(liberadora e audaz em princípio), ele questiona, como Sartre, aquilo que o homem pode fazer com o aquilo que fizeram dele.
2- Walter é existencialista?
Jampa de novo - Colocando o problema nesses termos poderíamos então inferir as seguintes questões com relação ao autor do Diários de motocicleta: que tipo de reconstrução ele quis viabilizar e quais as maneiras de produzir o verossímil dessa ficção?; e, para critério de medida do esforço do autor, uma vez reconhecida a estratégia de reconstrução biográfica, que tipo de verossimilhança é cabida para produzir o efeito estético satisfatório?(Questões pra debate!)
Não creio que Walter tivesse em mente filmar a odicéia do habitus de Che. Por isso, atendo-me aos anseios pavorosos de nosso tempo de ontologia fenomenológica, creditei o verossímil ao personagem sem dúvida caricato do ''aprendiz de revolucionário'' com suas disposições inatas.
3- Limites
Mais uma vez Jampa -Não sei até que pontos essas "visões filosóficas" do mundo ajudam ou prejudicam o bom apreciar do filme. Nós dois gostamos. Porém, gostar explica pouco dos amores e desamores do nosso gosto. Acredito porém na consonância de certos aspectos de nossas opiniões que divergem em níveis diferentes da avaliação do filme. Apostaria nela(na consonância) caso a querela prossiga. Seria preciso situar essas divergencias em um nível específico do debate para que o dialogo se prolongue de maneira profícua.
Sem mais churumelas. Fico aqui.
4- Cesar ...(ou alguem que queira concordar comigo ou discordar de mim!)
Plano:
Vamos(...), nesse nós retórico e polido, vamos começar pelo O Idiota da Família e a ilusão da biografia total. Mas iniciar o quê? Chamemos isso de conversa. Continuemos em seguida, com porquês comuns, com o problema da petulância como medida da verossimilhança do personagem. E, para por fim ao início da conversa, faremos considerações sobre os limites de nosso diálogo.
1- Dialogo solitário: o existêncialismo é um humanismo sem história
Jampa - Tendo como base as leituras de dois textos de Bourdieu (L'illusion biographique- A ilusão biográfica- e o próprio Les règles de l'art- As regras da arte), acredito que o autor propunha o seguinte: o limite de toda biografia é dado menos pelo fato dela proceder recrutando traços típicos de uma personalidade específica, e mais pela ambição (essa sim real detentora da ilusão biográfica) de reconstruir uma personalidade tal qual em sua totalidade, digamos assim, real e absoluta. De fato no O Idiota da Família Sartre tenta vislumbrar um Flaubert necessariamente Flaubert, esvaziando assim as determinantes socio-históricas da construção de um escritor que se fez, apesar dele, dentro de continuidades e descontinuidades próprias à definição(sociológicamente aceitável) de qualquer personalidade. Para centrar nosso debate proponho situar o necessário estrangular da história feito pelos existencialistas, em particular pelos dois autores citados: Sartre e Nietszche. Tanto um quanto outro preocupavam-se menos com processos socializadores(amores e desamores só podem forjar o homem na medida em que este internaliza e exterioriza de alguma forma elementos desse passado composto-amores e desamores- no presente da existência), e mais com os lampejos de liberdade inspirados por um Eu abstrato e escolhedor de destinos. Quando Nietszche pergunta como um homem se torna aquilo que ele é, ele quer saber menos da socialização(determinante e estrutural por natureza) e mais da vontade(liberadora e audaz em princípio), ele questiona, como Sartre, aquilo que o homem pode fazer com o aquilo que fizeram dele.
2- Walter é existencialista?
Jampa de novo - Colocando o problema nesses termos poderíamos então inferir as seguintes questões com relação ao autor do Diários de motocicleta: que tipo de reconstrução ele quis viabilizar e quais as maneiras de produzir o verossímil dessa ficção?; e, para critério de medida do esforço do autor, uma vez reconhecida a estratégia de reconstrução biográfica, que tipo de verossimilhança é cabida para produzir o efeito estético satisfatório?(Questões pra debate!)
Não creio que Walter tivesse em mente filmar a odicéia do habitus de Che. Por isso, atendo-me aos anseios pavorosos de nosso tempo de ontologia fenomenológica, creditei o verossímil ao personagem sem dúvida caricato do ''aprendiz de revolucionário'' com suas disposições inatas.
3- Limites
Mais uma vez Jampa -Não sei até que pontos essas "visões filosóficas" do mundo ajudam ou prejudicam o bom apreciar do filme. Nós dois gostamos. Porém, gostar explica pouco dos amores e desamores do nosso gosto. Acredito porém na consonância de certos aspectos de nossas opiniões que divergem em níveis diferentes da avaliação do filme. Apostaria nela(na consonância) caso a querela prossiga. Seria preciso situar essas divergencias em um nível específico do debate para que o dialogo se prolongue de maneira profícua.
Sem mais churumelas. Fico aqui.
4- Cesar ...(ou alguem que queira concordar comigo ou discordar de mim!)
quinta-feira, julho 15, 2004
O Che de Walter
Ontem fui ao cinema do Parque. Eu e Anne-Sophie adoramos o filme. Diários de motocicleta é suave, apesar de alguns lugares comuns pesados. Peso grande na já famosa natação asmática do jovém pré-revolucionário, um nado apagador de divisas simbólicas entre os enfermos e os sãos. Essa foi a parte mais desagradável... Acho que o jovém Che poderia ser ainda menos heróico.
Porém discordo do comentário feito por meu amigo Cesar. Nele o sergipando se referia a um certo monologismo do personagem, se eu bem entendi. De minha parte creio que existe muito daquela arrogância presente em alguns jovens. Com isso não quero dizer que não exista dúvidas no espírito de tais individuos. Mas a maneira de se comportarem enserram uma certeza enorme, prestes a convencer ao mais cético dos homens que a demonstração de segurança embrutecida é, em si mesma, verdadeira. Acho que Walter tornou esse tipo de atitude(a expressão dela) parte integrada do protagonista: existe verossimilhança na atitude incorrompível de Che. A falta de crises não implica uma visão esvaziada da humanidade dele, pois, se referindo a um modo de se dizer (o filme foi baseado nos diários), ela deixa supor que expressar incertezas não era o forte do futuro comandante Ernesto. O que devia ser bem verdade!
Além disso gostei muito da fotografia, muito bem cuidada. Alguns enquadramentos lembrando fotos do Sebastião Salgado(como as fotos dos sem terra, por exeplo). Elas até poderiam ser criticadas pelo mesmo motivo das do Sebastião: estetização da miséria. Porém nunca aceitei de bom grado essas críticas(muito faceis). Pelo que sei do fotógrafo em questão, ele sempre teve muito cuidado com a deontologia da profissão dele(o belo da miséria não é nunca nele uma beleza na miséria, sempre ví nas fotos dele a busca do humano como se dissesse ''mesmo o mais degradado dos homens continua sendo um homem...'' daí o belo).
Devo dizer, para acabar, que o ator foi bem escolhido do ponto de vista estético: o cara é tão gatinho quanto foi o próprio Ernesto. Pero chico, hijo de puta!
Fico com essa.
Hasta la vitoria. Siempre!
Ontem fui ao cinema do Parque. Eu e Anne-Sophie adoramos o filme. Diários de motocicleta é suave, apesar de alguns lugares comuns pesados. Peso grande na já famosa natação asmática do jovém pré-revolucionário, um nado apagador de divisas simbólicas entre os enfermos e os sãos. Essa foi a parte mais desagradável... Acho que o jovém Che poderia ser ainda menos heróico.
Porém discordo do comentário feito por meu amigo Cesar. Nele o sergipando se referia a um certo monologismo do personagem, se eu bem entendi. De minha parte creio que existe muito daquela arrogância presente em alguns jovens. Com isso não quero dizer que não exista dúvidas no espírito de tais individuos. Mas a maneira de se comportarem enserram uma certeza enorme, prestes a convencer ao mais cético dos homens que a demonstração de segurança embrutecida é, em si mesma, verdadeira. Acho que Walter tornou esse tipo de atitude(a expressão dela) parte integrada do protagonista: existe verossimilhança na atitude incorrompível de Che. A falta de crises não implica uma visão esvaziada da humanidade dele, pois, se referindo a um modo de se dizer (o filme foi baseado nos diários), ela deixa supor que expressar incertezas não era o forte do futuro comandante Ernesto. O que devia ser bem verdade!
Além disso gostei muito da fotografia, muito bem cuidada. Alguns enquadramentos lembrando fotos do Sebastião Salgado(como as fotos dos sem terra, por exeplo). Elas até poderiam ser criticadas pelo mesmo motivo das do Sebastião: estetização da miséria. Porém nunca aceitei de bom grado essas críticas(muito faceis). Pelo que sei do fotógrafo em questão, ele sempre teve muito cuidado com a deontologia da profissão dele(o belo da miséria não é nunca nele uma beleza na miséria, sempre ví nas fotos dele a busca do humano como se dissesse ''mesmo o mais degradado dos homens continua sendo um homem...'' daí o belo).
Devo dizer, para acabar, que o ator foi bem escolhido do ponto de vista estético: o cara é tão gatinho quanto foi o próprio Ernesto. Pero chico, hijo de puta!
Fico com essa.
Hasta la vitoria. Siempre!
quinta-feira, julho 08, 2004
Reflexões sociológicas: o caso Graciliano Ramos
Título nobre. Preciso pela fineza da articulação. Diz tanta coisa de nada e sendo assim, revela-se. Dogma precioso de Cesares ainda desconhecidos. Condiz com o prural de dez, dezes! Deuses! Glande ao gluteo do ateu. Só vai entender quem for artista. Pois existem obras nascidas postumas. O impossível e inexplicavel da palavra tão única e abstrata é seu possível explicavel. Dadaísmo heróico reformulador do mundo desordenador do mundo... Mundo. Mundo! Mudo,calar? Mudo, mudei! Mundo, eu... Arnaldo Antunes de proveta intra-pos-extra-super-hiper-tudo.Eu. O nexo é força de uma palavra solta. Só o irracional salva. Livra. Livro. Eu. Depois de mim, blog. Vida infinda, acabada. Lido isso. Lindo isto. Lírio aquilo. Bíblico. Morto. Sentimetal de cú é rola. Quem matou Lineu? Mortal é nem a vaca torcendo o rabo. De fato: Graciliano Ramos casou. Eis o porque do caso Graciliano. Usei de lógica, merda.
Tou sem sacaros. Icarus. Viparis ordinarius second hand. Debrai solucionarus est cumbilarius foccus cus es bom. Detratrarivai destratarivem vão.
Ainsi spook Jampatustra. Para todo mundo e para nadie. Começei pela multidão, passei pelos escolhidos e cheguei a mim mesmo. Euzinho entendeu mais ou menos.
Os peidos de véia da Ilha do Retiro são prova da vivacidade do morto. Le roi s'est mort. Glauber também. E Tião Macalé não é nojento. Carlinhos Brown é. Arrigo Barnabé não é do Sítio do Pica Pau Amarelo. Tim Tonnes é Chico Anísio, o reverendo. O super-homem vive em cadeira de rodas. Quebra de glicose. Os homossacaridios sacaram que estou sem saco. Heterossacaridios não querem falar dos sacos. E faço versos para quem chora. De desalento, desencanto. Esqueça esse blog quem não tem motivo algum de pranto... Eu faço verso para quem morre.
Lei de espelho blogueiro: OI DODI? Será? O objeto está para imagém assim como a distância do objeto está para a distância da imagém. OI DoDi, tudo bem?
Tá bom.
Até a próxima.
Título nobre. Preciso pela fineza da articulação. Diz tanta coisa de nada e sendo assim, revela-se. Dogma precioso de Cesares ainda desconhecidos. Condiz com o prural de dez, dezes! Deuses! Glande ao gluteo do ateu. Só vai entender quem for artista. Pois existem obras nascidas postumas. O impossível e inexplicavel da palavra tão única e abstrata é seu possível explicavel. Dadaísmo heróico reformulador do mundo desordenador do mundo... Mundo. Mundo! Mudo,calar? Mudo, mudei! Mundo, eu... Arnaldo Antunes de proveta intra-pos-extra-super-hiper-tudo.Eu. O nexo é força de uma palavra solta. Só o irracional salva. Livra. Livro. Eu. Depois de mim, blog. Vida infinda, acabada. Lido isso. Lindo isto. Lírio aquilo. Bíblico. Morto. Sentimetal de cú é rola. Quem matou Lineu? Mortal é nem a vaca torcendo o rabo. De fato: Graciliano Ramos casou. Eis o porque do caso Graciliano. Usei de lógica, merda.
Tou sem sacaros. Icarus. Viparis ordinarius second hand. Debrai solucionarus est cumbilarius foccus cus es bom. Detratrarivai destratarivem vão.
Ainsi spook Jampatustra. Para todo mundo e para nadie. Começei pela multidão, passei pelos escolhidos e cheguei a mim mesmo. Euzinho entendeu mais ou menos.
Os peidos de véia da Ilha do Retiro são prova da vivacidade do morto. Le roi s'est mort. Glauber também. E Tião Macalé não é nojento. Carlinhos Brown é. Arrigo Barnabé não é do Sítio do Pica Pau Amarelo. Tim Tonnes é Chico Anísio, o reverendo. O super-homem vive em cadeira de rodas. Quebra de glicose. Os homossacaridios sacaram que estou sem saco. Heterossacaridios não querem falar dos sacos. E faço versos para quem chora. De desalento, desencanto. Esqueça esse blog quem não tem motivo algum de pranto... Eu faço verso para quem morre.
Lei de espelho blogueiro: OI DODI? Será? O objeto está para imagém assim como a distância do objeto está para a distância da imagém. OI DoDi, tudo bem?
Tá bom.
Até a próxima.
quarta-feira, junho 16, 2004
Auto-defesa do estilo(para Calós)
Agora com tempo, por que não agitar o blogue com polêmicas mais pessoais? Não são elas também universais? Julia responderia afirmativmente e,concordando com ela, vou divagar sobre as críticas de Carlós. Discordando dele vou discorrer em homenagem ao Apollinaire do Onze mil varas , uma delícia de livro.
Como defender-me do LSD (verboragia-essencialmente-irrelevante)? Comparando o texto ao sexo. Claro, fazendo isso não salvo meus escritos dos defeitos contidos neles. Mas escrita enxuta não é sinônimo de boa literatura(Seria isso paradoxo? Vindo de mim que adoro Cabral, Graciliano?). Seria bom lembrar de fodas para estabelecer essa relação. Ir direto ao assunto é, muita vez, como ejaculação precoce:faz-se tudo antes do tempo, não se aproveita nada, tudo vira perda. Uma boa imagem é a do adolescente virgem na hora de comer a Luana Piovanni. Precipita-se e, sem a tocar, esporra...(Merda!)
Uma boa literatura é, ao contrário, como o bom sexo: violenta ou terna, triste ou feliz, ela não se desfaz dela mesma com precocidade, ela degusta-se. Se trata de cú ou de buceta, não o faz sem lubrificar boa parte dos musculos,sem ao menos cuspir sobre a superficie ardida do estilo. Mesmo se pedófila ou necrófila, a escrita violenta os sentidos pela união sangrenta entre a pica Tutiana e o feofó angelical(qualquer um) arti(cu)lados em estilistica medonha. MAs para garantir o bom texto é preciso bem construir esse efeito de contraste entre bilola gigante e cuzinho. Para isso toda figura de estilo é pouca. Elipses e metaforas, oximores e hiperboles, tudo pode garantir a lentidão necessária ao desejo de não morrer em si mesmo antes da hora...
Então entenda-se assim meu "slowmotion" sentimental: ele revela-se dessa "consciencia/medo" da ejaculação precoce do texto que não desfruta de si mesmo e executa-se mecanicamente em extase não vivido concretamente. Na minha opinião mesmo recado de geladeira deveria adotar uma disposição estilistica, virar meta-recado. Porém o mais importante sem dúvidas é que no final das contas, como toda lentidão, a lombra sempre baixe e que a paz seja garantida com orgasmos massacrados pelo cansaço da foda.
Para concluir, digo logo que não creio que meus textos tenham qualidade de boa literatura.Considero-me um péssimo fodedor de textos.Fodo todos eles! Mas não creio que seja por causa da verborragia. Eh mais pela falta de trato com a língua mesmo. Falar em língua...
FIM.
Agora com tempo, por que não agitar o blogue com polêmicas mais pessoais? Não são elas também universais? Julia responderia afirmativmente e,concordando com ela, vou divagar sobre as críticas de Carlós. Discordando dele vou discorrer em homenagem ao Apollinaire do Onze mil varas , uma delícia de livro.
Como defender-me do LSD (verboragia-essencialmente-irrelevante)? Comparando o texto ao sexo. Claro, fazendo isso não salvo meus escritos dos defeitos contidos neles. Mas escrita enxuta não é sinônimo de boa literatura(Seria isso paradoxo? Vindo de mim que adoro Cabral, Graciliano?). Seria bom lembrar de fodas para estabelecer essa relação. Ir direto ao assunto é, muita vez, como ejaculação precoce:faz-se tudo antes do tempo, não se aproveita nada, tudo vira perda. Uma boa imagem é a do adolescente virgem na hora de comer a Luana Piovanni. Precipita-se e, sem a tocar, esporra...(Merda!)
Uma boa literatura é, ao contrário, como o bom sexo: violenta ou terna, triste ou feliz, ela não se desfaz dela mesma com precocidade, ela degusta-se. Se trata de cú ou de buceta, não o faz sem lubrificar boa parte dos musculos,sem ao menos cuspir sobre a superficie ardida do estilo. Mesmo se pedófila ou necrófila, a escrita violenta os sentidos pela união sangrenta entre a pica Tutiana e o feofó angelical(qualquer um) arti(cu)lados em estilistica medonha. MAs para garantir o bom texto é preciso bem construir esse efeito de contraste entre bilola gigante e cuzinho. Para isso toda figura de estilo é pouca. Elipses e metaforas, oximores e hiperboles, tudo pode garantir a lentidão necessária ao desejo de não morrer em si mesmo antes da hora...
Então entenda-se assim meu "slowmotion" sentimental: ele revela-se dessa "consciencia/medo" da ejaculação precoce do texto que não desfruta de si mesmo e executa-se mecanicamente em extase não vivido concretamente. Na minha opinião mesmo recado de geladeira deveria adotar uma disposição estilistica, virar meta-recado. Porém o mais importante sem dúvidas é que no final das contas, como toda lentidão, a lombra sempre baixe e que a paz seja garantida com orgasmos massacrados pelo cansaço da foda.
Para concluir, digo logo que não creio que meus textos tenham qualidade de boa literatura.Considero-me um péssimo fodedor de textos.Fodo todos eles! Mas não creio que seja por causa da verborragia. Eh mais pela falta de trato com a língua mesmo. Falar em língua...
FIM.
quarta-feira, junho 02, 2004
De tudo um pouco: uma bagunça
Madrugada fria e sem molho no interior da França. Depois de ler o relato-desabafo de Dado sobre alguns "erros" jornalisticos continuo na frente dessa tela que perde em brancura para poder virar texto, uma violência. Tinha assistido na TV francesa um debate sobre o terrorismo.Ontem postei algo sobre a morte. Tudo parece trágico, medonho, tinhoso.
Mas sinto-me paradoxalmente cheio de força para a vida. Talvez nunca tenha tido em minha existência período de tamanha vontade interior de viver. Desejo de abraçar o mundo. Não apenas com ciência, mas com política. Não apenas sabendo-o como é, mas desejando-o como poderia ser se... E a morte nunca esteve tão próxima de meus pensamentos. E jamais senti-me tão perto dela. Sim. E parece ser mais verdadeira a vida medida pelo valor da perda. Perco pouco a pouco o medo da dor. Não por costume, mas porque vive feliz quem consegue comparar sofrimento e alegria aceitando-os como plenitude do ser.Nitszcheano dirão alguns. Talvez. Porém já havia sido mais quando lia nas escuras da adolescencia as palavras cortantes do filósofo alemão. Hoje sinto-me distante das coisas sintomáticas desse tempo. Longe do falso paradoxo entre visões do mundo mais otimistas e pessimistas à Bernardo Jurema: o copo está meio cheio ou meio vazio BJ? Como se o meio isso não fosse já e por definição o meio aquilo. Nem precisar sair da lógica formal é preciso para parar de brincar com coisas sérias. Sei. O copo pela metade não muda o mundo. Mas se ele ajudar a Bernardo a não cair no golpe jornalistico do relativismo do ponto de vista, seria já uma alma burguesa salva do inferno da doxa infra-ideológica do homorelativiticus! E ver Dado querer lutar pela verdade é um prazer. Pois para isso é preciso sair também dessa lógica do cada qual com seu ponto de vista. Nem toda verdade é construida de mesmo modo nem com as mesmas astucias... Jornalistas não criam fatos, muito menos verdades. E as palavras, mesmo não sendo apenas palavras, sabemos a força que elas podem ter, não são correlatas imediatas nem do fato nem da verdade. Daí a palavra ter mais força quando dita de certos lugares sociais, daí a imporância de saber quem diz o quê e aonde, de onde ele diz(em qual jornal, por exemplo)...
Sim. Sinto-me forte. Mais ainda porque penso em fazer pouco. Dar aulas, praticar minha profissão. E fazer política como sempre fiz. Do meu jeito, falando com as pessoas. Discutindo filosofia barata, sociologia de três tostões. Trabalhando com uma profunda motivação interior. Fazendos das questões do mundo minhas questões e das minhas questões questões do mundo. Meu trabalho foi já antes da defesa bastante elogiado. Se tudo der certo, ano que vem posso começar um doutorado. Não me imagino doutor de nada. Ontem me peguei foi em sonho ensinando escolas primárias,adolescentes do segundo grau. Vendo naqueles meninos brutos um reflexo de minha adolescencia(bruta, até ela!). Via-me em sala de aula reconhecendo-me neles, na impossibilidade deles de aprender com os livros, com os números. E como um Graciliano criando Fabianos e Paulo Honorios a sua imagem e semelhança (com qual fineza Graciliano usa a escrita restrita de Paulo Honório como sendo uma projeção objetivada de seu própio estilo denso e utilitário-"a palavra foi feita não para enfeitar mas para dizer"), vi-me dizendo palavras minhas, exortando minhas malditas dificuldades, triunfando ao jogar uma ignorância contra aquelas tantas outras. Sinto-me forte sim. E cheio de amor arrogante e católico. Amor pelos fracos. Decadence! Diria Nietszche. Não me importo. Do Anticristo guardo comigo a impaciência do filósofo para com a hipocrisia sacerdotal. Também não é a fraqueza dos fracos que é produtora de minha misericordia(digamos assim!).
Estou quase cansado desse escrito mal redigido. Estamos por aqui nas vesperas da comemoração do Dia D, 60 anos. Ainda guerra. Meus conhecimentos de história da
Segunda Guerra são tão profundos que me atenho a dizer: os primeiros 20 minutos do Em busca do soldado Ryen é de um realismo terrivel.
Michael Moore é tão idiota quanto Bush.(Dizer isso choca alguém?)
Michael Jackson é inocente: ele nunca comeu niguém, muito menos criancinhas.(Dizer isso choca alguém?)
O terrorismo é uma forma de guerra como qualquer outra.( Dizer isso choca alguém?).
Vamos lá gente força. Com Vampiros ou sem eles, com simplicidade e sem moralismo, a gente chega em algum lugar. Se for no inferno, levamos uma aguardente pro diabo... Se for no céu, pode deixar que eu me ocupo do vinho: tem um tal de Chateau neuf du pape, é um verdadeiro milagre!
Droga: deve realmente existir mais entre o céu e terra do que nossa vã filosofia... Ai de nós!
Madrugada fria e sem molho no interior da França. Depois de ler o relato-desabafo de Dado sobre alguns "erros" jornalisticos continuo na frente dessa tela que perde em brancura para poder virar texto, uma violência. Tinha assistido na TV francesa um debate sobre o terrorismo.Ontem postei algo sobre a morte. Tudo parece trágico, medonho, tinhoso.
Mas sinto-me paradoxalmente cheio de força para a vida. Talvez nunca tenha tido em minha existência período de tamanha vontade interior de viver. Desejo de abraçar o mundo. Não apenas com ciência, mas com política. Não apenas sabendo-o como é, mas desejando-o como poderia ser se... E a morte nunca esteve tão próxima de meus pensamentos. E jamais senti-me tão perto dela. Sim. E parece ser mais verdadeira a vida medida pelo valor da perda. Perco pouco a pouco o medo da dor. Não por costume, mas porque vive feliz quem consegue comparar sofrimento e alegria aceitando-os como plenitude do ser.Nitszcheano dirão alguns. Talvez. Porém já havia sido mais quando lia nas escuras da adolescencia as palavras cortantes do filósofo alemão. Hoje sinto-me distante das coisas sintomáticas desse tempo. Longe do falso paradoxo entre visões do mundo mais otimistas e pessimistas à Bernardo Jurema: o copo está meio cheio ou meio vazio BJ? Como se o meio isso não fosse já e por definição o meio aquilo. Nem precisar sair da lógica formal é preciso para parar de brincar com coisas sérias. Sei. O copo pela metade não muda o mundo. Mas se ele ajudar a Bernardo a não cair no golpe jornalistico do relativismo do ponto de vista, seria já uma alma burguesa salva do inferno da doxa infra-ideológica do homorelativiticus! E ver Dado querer lutar pela verdade é um prazer. Pois para isso é preciso sair também dessa lógica do cada qual com seu ponto de vista. Nem toda verdade é construida de mesmo modo nem com as mesmas astucias... Jornalistas não criam fatos, muito menos verdades. E as palavras, mesmo não sendo apenas palavras, sabemos a força que elas podem ter, não são correlatas imediatas nem do fato nem da verdade. Daí a palavra ter mais força quando dita de certos lugares sociais, daí a imporância de saber quem diz o quê e aonde, de onde ele diz(em qual jornal, por exemplo)...
Sim. Sinto-me forte. Mais ainda porque penso em fazer pouco. Dar aulas, praticar minha profissão. E fazer política como sempre fiz. Do meu jeito, falando com as pessoas. Discutindo filosofia barata, sociologia de três tostões. Trabalhando com uma profunda motivação interior. Fazendos das questões do mundo minhas questões e das minhas questões questões do mundo. Meu trabalho foi já antes da defesa bastante elogiado. Se tudo der certo, ano que vem posso começar um doutorado. Não me imagino doutor de nada. Ontem me peguei foi em sonho ensinando escolas primárias,adolescentes do segundo grau. Vendo naqueles meninos brutos um reflexo de minha adolescencia(bruta, até ela!). Via-me em sala de aula reconhecendo-me neles, na impossibilidade deles de aprender com os livros, com os números. E como um Graciliano criando Fabianos e Paulo Honorios a sua imagem e semelhança (com qual fineza Graciliano usa a escrita restrita de Paulo Honório como sendo uma projeção objetivada de seu própio estilo denso e utilitário-"a palavra foi feita não para enfeitar mas para dizer"), vi-me dizendo palavras minhas, exortando minhas malditas dificuldades, triunfando ao jogar uma ignorância contra aquelas tantas outras. Sinto-me forte sim. E cheio de amor arrogante e católico. Amor pelos fracos. Decadence! Diria Nietszche. Não me importo. Do Anticristo guardo comigo a impaciência do filósofo para com a hipocrisia sacerdotal. Também não é a fraqueza dos fracos que é produtora de minha misericordia(digamos assim!).
Estou quase cansado desse escrito mal redigido. Estamos por aqui nas vesperas da comemoração do Dia D, 60 anos. Ainda guerra. Meus conhecimentos de história da
Segunda Guerra são tão profundos que me atenho a dizer: os primeiros 20 minutos do Em busca do soldado Ryen é de um realismo terrivel.
Michael Moore é tão idiota quanto Bush.(Dizer isso choca alguém?)
Michael Jackson é inocente: ele nunca comeu niguém, muito menos criancinhas.(Dizer isso choca alguém?)
O terrorismo é uma forma de guerra como qualquer outra.( Dizer isso choca alguém?).
Vamos lá gente força. Com Vampiros ou sem eles, com simplicidade e sem moralismo, a gente chega em algum lugar. Se for no inferno, levamos uma aguardente pro diabo... Se for no céu, pode deixar que eu me ocupo do vinho: tem um tal de Chateau neuf du pape, é um verdadeiro milagre!
Droga: deve realmente existir mais entre o céu e terra do que nossa vã filosofia... Ai de nós!
segunda-feira, maio 31, 2004
A escrita
Escrever é uma atividade artificial. No sentido de ser o resultado final, o texto, um artefato. Tratar de temas sensíveis pela escrita parece sempre deixar no homem um sentimento de traição. Pois ater-se aos sentimentos é fazer jogar a razão contra o sensível: refletimos contra o sentimento da péle que sente a dor quando dói, o ardor na quentura.
Escrever é trair
E mesmo a criação do paragrafo impessoal, sem primeira e única pessoa, é ainda assim um efeito produzido pela tecnica. Construimos o distanciamento, a impressão da distância. Na verdade vê-se nisso uma maneira de tentar encontrar palavras falantes por si mesmas, sem intermédio, sem mediação. Tudo ilusão proposital. Traição.
Traição
Intento, mesmo assim, traindo-me, escrever sobre a morte.
Le retable d'Issenheim
Começo afirmando: viver a morte é caracterizar a existência. Digo isso pensando na arte de Ionesco. Na crítica dele à naturalização da morte feita na modernidade. Sim. O mundo moderno impôs seu hedonismo barato, adotou seu carpem diem coagulado no cinismo e ocultou o apelo do momento mori, que é uma espécie de aproveite o dia com lembrete final: “teu dia chegará”. Le roi s’est mort, anunciou Ionesco falando da vida como se ela fosse uma continuação da morte, não o contrário. Inverteu o sinal da cruz... Como Nietzsche salvando o cristo do cristianismo, Ionesco salva a imagem da morte no seu carater emblemático de prática contestatória: se o cristo é lembrado pelo filósofo alemão como um individuo notável o qual teve como qualidade maior um espírito crítico negador da autoridade sacerdotal, a morte em Ionesco aparece como força de negação de uma vida dada ao além, ela é o presente vivido enquanto perda. Lembrei disso ao ver domingo passado no Museu d’Unterlinden Le Retable d’Issenheim de Grünewald. Uma pintura da crucificação de Jesus. Impressionante. Bacon muito inspirou-se dela para nos seus quadros reproduzir as imagens da dor humana. O sensível da carne sangrenta, dos pregos cravados na palma das mãos expressando a agudez da dor pelo estirar dos dedos recontorcidos para cima, da boca azulada, do expressionismo dos pés rasgados. Tudo estático como se a agônia fosse se enternizar... Sempre tive dificuldade com as artes plásticas... Nunca consigo imaginar o movimento indicado nas obras. Alí vi, por isso, uma grande cristalização da dor. Fotografia da agônia dolorida e infinita.
Lembrança mistica
Lembrei também que Tereza e meu pai sempre expressaram uma concepção mística da morte. Acho que a grandeza da visão deles decorre da recusa de apagar a presença da morte na vida. Os dois associam pela mística o carpem diem e momento mori. Vendo o Retable d’Issenheim entendi um pouco dessa associação. Ela quer dizer algo sobre a vida e sua vocação de ser uma busca constante de sentido. Associar vida e morte é uma maneira de preencher o vazio deixado pela dúvida maior, pelo medo de achar que tudo pode acabar simplesmente acabando...
Escrever é uma atividade artificial. No sentido de ser o resultado final, o texto, um artefato. Tratar de temas sensíveis pela escrita parece sempre deixar no homem um sentimento de traição. Pois ater-se aos sentimentos é fazer jogar a razão contra o sensível: refletimos contra o sentimento da péle que sente a dor quando dói, o ardor na quentura.
Escrever é trair
E mesmo a criação do paragrafo impessoal, sem primeira e única pessoa, é ainda assim um efeito produzido pela tecnica. Construimos o distanciamento, a impressão da distância. Na verdade vê-se nisso uma maneira de tentar encontrar palavras falantes por si mesmas, sem intermédio, sem mediação. Tudo ilusão proposital. Traição.
Traição
Intento, mesmo assim, traindo-me, escrever sobre a morte.
Le retable d'Issenheim
Começo afirmando: viver a morte é caracterizar a existência. Digo isso pensando na arte de Ionesco. Na crítica dele à naturalização da morte feita na modernidade. Sim. O mundo moderno impôs seu hedonismo barato, adotou seu carpem diem coagulado no cinismo e ocultou o apelo do momento mori, que é uma espécie de aproveite o dia com lembrete final: “teu dia chegará”. Le roi s’est mort, anunciou Ionesco falando da vida como se ela fosse uma continuação da morte, não o contrário. Inverteu o sinal da cruz... Como Nietzsche salvando o cristo do cristianismo, Ionesco salva a imagem da morte no seu carater emblemático de prática contestatória: se o cristo é lembrado pelo filósofo alemão como um individuo notável o qual teve como qualidade maior um espírito crítico negador da autoridade sacerdotal, a morte em Ionesco aparece como força de negação de uma vida dada ao além, ela é o presente vivido enquanto perda. Lembrei disso ao ver domingo passado no Museu d’Unterlinden Le Retable d’Issenheim de Grünewald. Uma pintura da crucificação de Jesus. Impressionante. Bacon muito inspirou-se dela para nos seus quadros reproduzir as imagens da dor humana. O sensível da carne sangrenta, dos pregos cravados na palma das mãos expressando a agudez da dor pelo estirar dos dedos recontorcidos para cima, da boca azulada, do expressionismo dos pés rasgados. Tudo estático como se a agônia fosse se enternizar... Sempre tive dificuldade com as artes plásticas... Nunca consigo imaginar o movimento indicado nas obras. Alí vi, por isso, uma grande cristalização da dor. Fotografia da agônia dolorida e infinita.
Lembrança mistica
Lembrei também que Tereza e meu pai sempre expressaram uma concepção mística da morte. Acho que a grandeza da visão deles decorre da recusa de apagar a presença da morte na vida. Os dois associam pela mística o carpem diem e momento mori. Vendo o Retable d’Issenheim entendi um pouco dessa associação. Ela quer dizer algo sobre a vida e sua vocação de ser uma busca constante de sentido. Associar vida e morte é uma maneira de preencher o vazio deixado pela dúvida maior, pelo medo de achar que tudo pode acabar simplesmente acabando...
segunda-feira, maio 24, 2004
Quase de férias
Acabo de entrengar quatro cópias da dissertação na Universidade. Alívio. O cansaço vinha corroendo meu espírito de flagelado intelectual. Intelectual? Raça complicada. Defendo-a. Mas apenas no necessário, na vocação dessa estirpe de ser massa crítica. Digo sim à reflexividade do pensar. Excetuando esse aspecto reflexivo, abomino-a. Triste intelectualidade. Eh Séria demais. Produz alegria profunda, porém dificilmente se pode com ela simplesmente sorrir. A dor? A dor confunde-se com as entranhas do homem. Este, pensando, constroi-se de destruções do dito assim e assado. Levado a dizer não ao obvio para poder estabelecer uma relação de proximidade com uma suposta verdade (seja ela relativa ou universal, coerente ou arbitrária...)o o ser humano busca. E então a liberdade se transforma em designo da crítica que, negando para afirmar, afirma negando pela razão sua função libertadora...
Dialogo entre Paulo Freire, o estatuto do PT, e o Governo Lula, etc.
Paulo Freire:
"Eh então a coerência entre a sua prática e suas opções proclamadas que virá fazendo o PT, enquanto educador, reconhecer-se como educando. Vale repetir: para que o PT assuma o seu papel de educador enquanto partido, coerentemente com as suas opções proclamadas, ele tem de assumir também o papel de educando das massas populares. A sua tarefa formadora, como partido de massas e não de quadros, se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre".
Estatuto do PT:
"O Partido dos Trabalhadores pretende que o povo decida o que fazer da riqueza produzida e dos recursos naturais do País. As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade. Para isto é preciso que as decisãoes sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas estes interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade."
O governo Lula(suprareal):
"Não se pode ser fiel ao estatuto, que é um documento formal.Temos um probléma crônico de anemia. "
FHC: "hahahahahahahahah!!"
Puchkin: " Contra Burguês vote 16! O governo Lula é pós-estruturalista! Fora Lula! Revolução proletária já!"
Jampa: " Isso não é dialogo. Niguém responde a ninguém. Cadê o Sidnay Magal?"
Estou de quase de férias! Valeu Anne-Sophie. Obrigado pela força!
Valeu Cesar, tuas dicas foram uteis.
Valeu Diogo, teu incetivo me foi valioso.
Valeu Pai, Valeu mãe: por tudo!
Helder, Pedro: Saudades!
Val... Vamos estudar juntos!
Ton, curiosity kill's the cat!
Tato: tu vais ficar cheroso pras minas!
João Lima: não vou estar na França quando tu chegares!
Lula: faça a revolução!
Eveline: a chapada nos espera.
Ainton Senna... Xuxa... sim. Xuxa eu te amo!!
Francisco José: Queremos uma onça nova, Fernando de Noronha enche o saco.
Marx: como podemos dizer não ao capitalismo de hoje?
Weber: no fundo, tudo é uma questão de afinidade eletiva: estamos todos fodidos no Brasil.
... Cansei.
Acabo de entrengar quatro cópias da dissertação na Universidade. Alívio. O cansaço vinha corroendo meu espírito de flagelado intelectual. Intelectual? Raça complicada. Defendo-a. Mas apenas no necessário, na vocação dessa estirpe de ser massa crítica. Digo sim à reflexividade do pensar. Excetuando esse aspecto reflexivo, abomino-a. Triste intelectualidade. Eh Séria demais. Produz alegria profunda, porém dificilmente se pode com ela simplesmente sorrir. A dor? A dor confunde-se com as entranhas do homem. Este, pensando, constroi-se de destruções do dito assim e assado. Levado a dizer não ao obvio para poder estabelecer uma relação de proximidade com uma suposta verdade (seja ela relativa ou universal, coerente ou arbitrária...)o o ser humano busca. E então a liberdade se transforma em designo da crítica que, negando para afirmar, afirma negando pela razão sua função libertadora...
Dialogo entre Paulo Freire, o estatuto do PT, e o Governo Lula, etc.
Paulo Freire:
"Eh então a coerência entre a sua prática e suas opções proclamadas que virá fazendo o PT, enquanto educador, reconhecer-se como educando. Vale repetir: para que o PT assuma o seu papel de educador enquanto partido, coerentemente com as suas opções proclamadas, ele tem de assumir também o papel de educando das massas populares. A sua tarefa formadora, como partido de massas e não de quadros, se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre".
Estatuto do PT:
"O Partido dos Trabalhadores pretende que o povo decida o que fazer da riqueza produzida e dos recursos naturais do País. As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade. Para isto é preciso que as decisãoes sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas estes interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade."
O governo Lula(suprareal):
"Não se pode ser fiel ao estatuto, que é um documento formal.Temos um probléma crônico de anemia. "
FHC: "hahahahahahahahah!!"
Puchkin: " Contra Burguês vote 16! O governo Lula é pós-estruturalista! Fora Lula! Revolução proletária já!"
Jampa: " Isso não é dialogo. Niguém responde a ninguém. Cadê o Sidnay Magal?"
Estou de quase de férias! Valeu Anne-Sophie. Obrigado pela força!
Valeu Cesar, tuas dicas foram uteis.
Valeu Diogo, teu incetivo me foi valioso.
Valeu Pai, Valeu mãe: por tudo!
Helder, Pedro: Saudades!
Val... Vamos estudar juntos!
Ton, curiosity kill's the cat!
Tato: tu vais ficar cheroso pras minas!
João Lima: não vou estar na França quando tu chegares!
Lula: faça a revolução!
Eveline: a chapada nos espera.
Ainton Senna... Xuxa... sim. Xuxa eu te amo!!
Francisco José: Queremos uma onça nova, Fernando de Noronha enche o saco.
Marx: como podemos dizer não ao capitalismo de hoje?
Weber: no fundo, tudo é uma questão de afinidade eletiva: estamos todos fodidos no Brasil.
... Cansei.
terça-feira, maio 18, 2004
Tradução de Introdução(enviada por Ton)
A tradução não está perfeita. Longe disso. Acho que Ton deve ter colocado meu texto num tradutor automático desses da vida. Corrigi os erros mais grosseiros. Perde-se em estilo, mas também um pouco de sentido. A palavra "demarche", por exemplo, deve ser substituida por um grupo de palavras que designe as maneiras de fazer algo especificamente. "Demarche" é a maneira pela qual se usa um método. E a tradução disso é dificil. Mas vou postar a mando de Ton. Assim democratizo mais as minhas lezeiras.
Introdução
Nietzsche, num texto sobre os filósofos pré-socraticos, tentou transformar aquilo que é considerado como um defeito (a ausência de demonstração) numa qualidade.Analisando a frase emblemática de Tales de Mileto "tudo é água", observou que a virtude do primeiro filósofo ocidental era ter encontrado a boa pergunta (que é que tudo é?), sem passar por todas as exigências de verificação empírica. É a intuição que existe uma tensão desta ordem entre a literatura e a Sociologia que conduziu-nos a escrever esta dissertação.
Recordamo-nos igualmente os pensamentos de Nietzsche, de acordo com o qual o homem criou a arte para poder suportar a realidade, e Weber, quem dizia ter escolhido a ciência a fim de verificar até onde poderia suportar esta realidade. Daí um paralelo nos apareceu entre estas duas disciplinas freqüentemente opostas devido às suas diferentes formas de abordagem, a literatura mais livre, ou seja, liberada das exigências metodológicas de representatividade, das demonstrações teóricas e da produções de dados empíricos próprias às ciências.Assim se deu em nós a idéia de um estudo que põe em relação Sociologia e literatura.
Desejávamos, além disso, estudar um autor brasileiro e a nossa escolha levou-se rapidamente sobre Graciliano Ramos, este por várias razões que desenvolveremos na nossa parte consacrada à metodologia. Digamos apenas aqui que é um dos maiores escritores brasileiros século XX e que tem uma maneira específica de criar baseada numa observação meticulosa da sociedade, que reproduz nos seus romances, conferindo a estes um interesse sociológico certo. No entanto, como veremos, é no seu caráter propriamente literário que os seus romances são produtores de uma leitura sociológica da realidade da época. É o que qualificaremos de "reciprocidade explicativa". Toda nosso esforço
visará demonstrar como esta reciprocidade nasce da tensão que existe entre literatura e Sociologia.
A fim de levar a efeito esta investigação, começaremos por mostrar como, na história da Sociologia, surgiu e em seguida se desenvolveu a idéia de uma análise sociológica da literatura. De Comte a Pierre Bourdieu, passando por Durkheim e Wolf Lepenies, o nosso trabalho será destacar a forma como a Sociologia reconheceu gradualmente elementos literários como utilizáveis no âmbito de uma maneira sociológica.
Em seguida explicaremos as posturas metodológicas que adotamos para este estudo. Justificaremos principalmente o cruzamento das nossas referências teóricas (Pierre Bourdieu e Bernard Lahire principalmente), e orientaremos a confrontação da teoria com o objeto, quem é a fonte da construção da nossa problemática.
Por último, analisaremos o romance São Bernardo de Graciliano Ramos a fim de mostrar como funciona nesta livro a reciprocidade explicativa entre literatura e Sociologia. A análise dispositionnalista desenvolvida por Bernard Lahire nos permite mostrar como a verossimilhança literária deste livro nasce da compreensão da sua verossimilhança sociológica.
A tradução não está perfeita. Longe disso. Acho que Ton deve ter colocado meu texto num tradutor automático desses da vida. Corrigi os erros mais grosseiros. Perde-se em estilo, mas também um pouco de sentido. A palavra "demarche", por exemplo, deve ser substituida por um grupo de palavras que designe as maneiras de fazer algo especificamente. "Demarche" é a maneira pela qual se usa um método. E a tradução disso é dificil. Mas vou postar a mando de Ton. Assim democratizo mais as minhas lezeiras.
Introdução
Nietzsche, num texto sobre os filósofos pré-socraticos, tentou transformar aquilo que é considerado como um defeito (a ausência de demonstração) numa qualidade.Analisando a frase emblemática de Tales de Mileto "tudo é água", observou que a virtude do primeiro filósofo ocidental era ter encontrado a boa pergunta (que é que tudo é?), sem passar por todas as exigências de verificação empírica. É a intuição que existe uma tensão desta ordem entre a literatura e a Sociologia que conduziu-nos a escrever esta dissertação.
Recordamo-nos igualmente os pensamentos de Nietzsche, de acordo com o qual o homem criou a arte para poder suportar a realidade, e Weber, quem dizia ter escolhido a ciência a fim de verificar até onde poderia suportar esta realidade. Daí um paralelo nos apareceu entre estas duas disciplinas freqüentemente opostas devido às suas diferentes formas de abordagem, a literatura mais livre, ou seja, liberada das exigências metodológicas de representatividade, das demonstrações teóricas e da produções de dados empíricos próprias às ciências.Assim se deu em nós a idéia de um estudo que põe em relação Sociologia e literatura.
Desejávamos, além disso, estudar um autor brasileiro e a nossa escolha levou-se rapidamente sobre Graciliano Ramos, este por várias razões que desenvolveremos na nossa parte consacrada à metodologia. Digamos apenas aqui que é um dos maiores escritores brasileiros século XX e que tem uma maneira específica de criar baseada numa observação meticulosa da sociedade, que reproduz nos seus romances, conferindo a estes um interesse sociológico certo. No entanto, como veremos, é no seu caráter propriamente literário que os seus romances são produtores de uma leitura sociológica da realidade da época. É o que qualificaremos de "reciprocidade explicativa". Toda nosso esforço
visará demonstrar como esta reciprocidade nasce da tensão que existe entre literatura e Sociologia.
A fim de levar a efeito esta investigação, começaremos por mostrar como, na história da Sociologia, surgiu e em seguida se desenvolveu a idéia de uma análise sociológica da literatura. De Comte a Pierre Bourdieu, passando por Durkheim e Wolf Lepenies, o nosso trabalho será destacar a forma como a Sociologia reconheceu gradualmente elementos literários como utilizáveis no âmbito de uma maneira sociológica.
Em seguida explicaremos as posturas metodológicas que adotamos para este estudo. Justificaremos principalmente o cruzamento das nossas referências teóricas (Pierre Bourdieu e Bernard Lahire principalmente), e orientaremos a confrontação da teoria com o objeto, quem é a fonte da construção da nossa problemática.
Por último, analisaremos o romance São Bernardo de Graciliano Ramos a fim de mostrar como funciona nesta livro a reciprocidade explicativa entre literatura e Sociologia. A análise dispositionnalista desenvolvida por Bernard Lahire nos permite mostrar como a verossimilhança literária deste livro nasce da compreensão da sua verossimilhança sociológica.
Itrodução do Mestrado
Estou sem dormir(não quero revelar as razões). Seguindo o exemplo de Cesar posto a introdução do meu trabalho de mestrado. Como o Marti do ultimo comentário de Cesar, meu Paulo Honório se transfomou em homem multiplo, fruto de uma socialização diversa e dos contatos com outros de formação não menos variada. Tento explicar a vida do personagem pela analise (talvez forçada)disposicional, entender a variação de seus atos, a inquietação de seu espirito. Encontro mesmo um argumento razoavel para explicar a escolha de Paulo Honório pela escrita, coisa que poderia parecer estranha vinda de um homem como ele completamente avesso as inclinações artisticas e intelectuais. Meu trabalho foi muito simples, apesar da parafernalha teórica mobilizada para dizer o que foi dito. Infelizmente(?), porque tenho de me preparar para defesa, não terei tempo de traduzi-la e ofereço-a apenas aos amigos que de alguma forma tem contato com o francês. Um abraço a todos e até logo. Pois em breve, jah que vou conseguir entregar a tempo a dissertação, estarei em Recife. Cesar, minha introdução é o puro oposto da prolixia dos sociólogos. Espero que Wander não veja nela "uma contaminação pela pscicologia ou piscanalise" como ela comentou sobre alguns de meus textos. Bem, se assim o for... Não tem problemas, o Freud que li ajoudou a entender muitas coisas na sociologia. Sem mais. Abraços.
Introduction
Nietzsche, dans un texte sur les philosophes pré-socratiques, a essayé de transformer ce qui est considéré comme un défaut (l’absence de démonstration) en une qualité. En analysant la phrase emblématique de Thalès de Millet « Tout est eau », il a remarqué que la vertu du premier philosophe occidental était d’avoir trouvé la bonne question (Qu’est-ce que tout est ?), sans passer par toutes les démarches de vérification empirique. C’est l’intuition qu’il existe une tension de cet ordre entre la littérature et la sociologie qui nous a amené à écrire ce mémoire.
Nous nous sommes également rappelé les pensées de Nietzsche, selon lequel l’homme a crée l’art pour pouvoir supporter la réalité, et de Weber, qui disait avoir choisi la science afin de voir jusqu’où il pourrait supporter cette réalité. Un parallèle nous est alors apparu entre ces deux disciplines souvent opposées du fait de leur démarches respectives, la littérature étant plus libre, c’est à dire libérée des exigences méthodologiques de représentativité, des démonstrations théoriques et des productions de données empiriques propres aux sciences. Ainsi a germé en nous l’idée d’une étude mettant en rapport sociologie et littérature.
Nous désirions par ailleurs étudier un auteur brésilien et notre choix s’est rapidement porté sur Graciliano Ramos, ce pour plusieurs raisons que nous développerons dans notre partie consacrée à la méthodologie. Disons seulement ici que c’est l’un des plus grands écrivains brésiliens du XXe siècle et qu’il a une démarche particulière basée sur une observation minutieuse de la société, qu’il reproduit dans ses romans, leur confèrent ainsi un intérêt sociologique certain. Néanmoins, comme nous le verrons, c’est dans leur caractère proprement littéraire que ses romans sont producteurs d’une lecture sociologique de la réalité de l’époque. C’est ce que nous qualifierons de « réciprocité explicative ». Toute notre démarche visera à démontrer comment cette réciprocité naît de la tension existant entre littérature et sociologie.
Afin de mener à bien cette recherche, nous commencerons par montrer comment, dans l’histoire de la sociologie, a germé puis s’est développée l’idée d’une analyse sociologique de la littérature. De Comte à Bourdieu en passant par Durkheim et Wolf Lepenies, notre effort sera de mettre en évidence la façon dont la sociologie a graduellement reconnue des éléments littéraires comme étant utilisables dans le cadre d’une démarche sociologique.
Puis nous expliquerons les postures méthodologiques que nous avons adoptées pour cette étude. Nous justifierons notamment le croisement de nos références théoriques (Pierre Bourdieu et Bernard Lahire principalement), et nous ciblerons la confrontation de la théorie avec l’objet, qui est la source de la construction de notre problématique.
Enfin, nous analyserons le roman São Bernardo de Graciliano Ramos afin de montrer comment fonctionne dans ce roman la réciprocité explicative entre littérature et sociologie. L’analyse dispositionnaliste développée par Bernard Lahire nous permettra de montrer comment la vraisemblance littéraire de ce livre né de la compréhension de sa vraisemblance sociologique.
Estou sem dormir(não quero revelar as razões). Seguindo o exemplo de Cesar posto a introdução do meu trabalho de mestrado. Como o Marti do ultimo comentário de Cesar, meu Paulo Honório se transfomou em homem multiplo, fruto de uma socialização diversa e dos contatos com outros de formação não menos variada. Tento explicar a vida do personagem pela analise (talvez forçada)disposicional, entender a variação de seus atos, a inquietação de seu espirito. Encontro mesmo um argumento razoavel para explicar a escolha de Paulo Honório pela escrita, coisa que poderia parecer estranha vinda de um homem como ele completamente avesso as inclinações artisticas e intelectuais. Meu trabalho foi muito simples, apesar da parafernalha teórica mobilizada para dizer o que foi dito. Infelizmente(?), porque tenho de me preparar para defesa, não terei tempo de traduzi-la e ofereço-a apenas aos amigos que de alguma forma tem contato com o francês. Um abraço a todos e até logo. Pois em breve, jah que vou conseguir entregar a tempo a dissertação, estarei em Recife. Cesar, minha introdução é o puro oposto da prolixia dos sociólogos. Espero que Wander não veja nela "uma contaminação pela pscicologia ou piscanalise" como ela comentou sobre alguns de meus textos. Bem, se assim o for... Não tem problemas, o Freud que li ajoudou a entender muitas coisas na sociologia. Sem mais. Abraços.
Introduction
Nietzsche, dans un texte sur les philosophes pré-socratiques, a essayé de transformer ce qui est considéré comme un défaut (l’absence de démonstration) en une qualité. En analysant la phrase emblématique de Thalès de Millet « Tout est eau », il a remarqué que la vertu du premier philosophe occidental était d’avoir trouvé la bonne question (Qu’est-ce que tout est ?), sans passer par toutes les démarches de vérification empirique. C’est l’intuition qu’il existe une tension de cet ordre entre la littérature et la sociologie qui nous a amené à écrire ce mémoire.
Nous nous sommes également rappelé les pensées de Nietzsche, selon lequel l’homme a crée l’art pour pouvoir supporter la réalité, et de Weber, qui disait avoir choisi la science afin de voir jusqu’où il pourrait supporter cette réalité. Un parallèle nous est alors apparu entre ces deux disciplines souvent opposées du fait de leur démarches respectives, la littérature étant plus libre, c’est à dire libérée des exigences méthodologiques de représentativité, des démonstrations théoriques et des productions de données empiriques propres aux sciences. Ainsi a germé en nous l’idée d’une étude mettant en rapport sociologie et littérature.
Nous désirions par ailleurs étudier un auteur brésilien et notre choix s’est rapidement porté sur Graciliano Ramos, ce pour plusieurs raisons que nous développerons dans notre partie consacrée à la méthodologie. Disons seulement ici que c’est l’un des plus grands écrivains brésiliens du XXe siècle et qu’il a une démarche particulière basée sur une observation minutieuse de la société, qu’il reproduit dans ses romans, leur confèrent ainsi un intérêt sociologique certain. Néanmoins, comme nous le verrons, c’est dans leur caractère proprement littéraire que ses romans sont producteurs d’une lecture sociologique de la réalité de l’époque. C’est ce que nous qualifierons de « réciprocité explicative ». Toute notre démarche visera à démontrer comment cette réciprocité naît de la tension existant entre littérature et sociologie.
Afin de mener à bien cette recherche, nous commencerons par montrer comment, dans l’histoire de la sociologie, a germé puis s’est développée l’idée d’une analyse sociologique de la littérature. De Comte à Bourdieu en passant par Durkheim et Wolf Lepenies, notre effort sera de mettre en évidence la façon dont la sociologie a graduellement reconnue des éléments littéraires comme étant utilisables dans le cadre d’une démarche sociologique.
Puis nous expliquerons les postures méthodologiques que nous avons adoptées pour cette étude. Nous justifierons notamment le croisement de nos références théoriques (Pierre Bourdieu et Bernard Lahire principalement), et nous ciblerons la confrontation de la théorie avec l’objet, qui est la source de la construction de notre problématique.
Enfin, nous analyserons le roman São Bernardo de Graciliano Ramos afin de montrer comment fonctionne dans ce roman la réciprocité explicative entre littérature et sociologie. L’analyse dispositionnaliste développée par Bernard Lahire nous permettra de montrer comment la vraisemblance littéraire de ce livre né de la compréhension de sa vraisemblance sociologique.
quinta-feira, maio 13, 2004
Jah que não tenho tempo de escrever eu mesmo, deixo pra vocês opiniões de amigos sobre temas atuais. Abraço.
Liberdade de imprensa e democracia(Por Diogo Valença)
As manifestações de repúdio à cassação do visto do jornalista norte-americano Larry Rother, autor de artigo calunioso e desrespeitos à imagem do Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, são, no mínimo, hipócritas e farisaicas, típicas do pensamento elitista e conservador brasileiro, “dos que sabem mais”, “dos que sabem governar”, “dos políticos profissionais”, “doutos na arte do diálogo” e “paladinos da democracia”, ou melhor, dos “defensores da normalidade democrática, da ordem e da paz social”. Não sou favorável ao Governo Lula, não por motivos de incompetência ou de irresponsabilidade ou burrice ou amadorismo da administração petista. Meus motivos estão relacionados com o que se poderia de chamar de “cretinismo parlamentar” do PT, o seu jogo desastroso de alianças políticas, que não são estratégicas para uma alternativa popular de poder, com a sua submissão ao ideário burguês, já demonstrado na prática pela manutenção da política econômica de nítidos contornos neoliberais e a sua colocação como esquerda da burguesia, ao assumir a tarefa de uma transição histórica que a direita não tinha mais forças para realizar. Porém, minhas discordâncias são de caráter político e não estão relacionadas aos estigmas e aos preconceitos das origens sociais do Presidente Lula, que se expressam nas piadas de mal gosto sobre o nível formação do Presidente, sua incapacidade, sua burrice, seu hábito de beber, que seria típico do homem do povo, bêbado e vagabundo. O pensamento elitista brasileiro concede apenas às elites a capacidade de pensar, de governar, de ser competente e profissional, ao mesmo tempo em que a massa de miseráveis deve ser guiada e governada porque não sabe pensar e só entende a linguagem do mandonismo e da violência. O mais lamentável nisso tudo não é fato de um repórter norte-americano escrever o que escreveu sobre o Presidente, mas o fato de isso ser uma crença íntima de muitos brasileiros acéfalos, de mente turva e preconceitos arcaicos.
As manifestações de repúdio nada mais significaram do que uma demonstração do conservadorismo e do arcaísmo do pensamento elitista brasileiro, não se poupando qualificações de burrice, amadorismo político, autoritarismo (safa!) e falta de respeito aos princípios democráticos da parte de quem mais esteve ao lado da repressão e da institucionalização da repressão no Brasil, ao lado dos interesses do grande capital internacional e da burguesia nacional títere e pró-imperialista, em suma, de quem contribuiu para uma tão apregoada transição democrática, a chamada Nova República, que, na verdade, foi um engodo e uma perpetuação da ditadura militar por outros meios. Esse acontecimento, como não podia deixar de ser, foi um prato cheio para a imprensa e os órgãos que defendem a sua liberdade de expressão. O Jornal do Commercio, apenas para citar um exemplo, ocupou duas páginas quase que inteiramente para tachar de burra a atitude do Presidente, engrossando o coro de uma suposta causa da democracia. Ora, só alguém muito ingênuo para acreditar que as notícias veiculadas pela grande imprensa não estão destinadas a manipular a opinião pública a favor dos interesses das oligarquias brasileiras. Não estamos falando aqui de uma imprensa verdadeira, mas de uma imprensa que serve a interesses bem específicos e que procuram perpetuar os preconceitos mais nojentos contra os movimentos sociais populares. Essa imprensa não merece nenhum respeito e não tem moral para criticar uma atitude enérgica, necessária e indispensável. A cassação do visto do norte-americano foi a melhor atitude que se devia tomar, não porque o jornalista tenha sujado o nome do presidente aos bons olhos da opinião pública internacional, mas porque não podemos deixar que qualquer um, seja ele quem for, perpetue preconceitos contra os países latino-americanos, africanos e asiáticos. Yankee go home!
Liberdade de imprensa e democracia(Por Diogo Valença)
As manifestações de repúdio à cassação do visto do jornalista norte-americano Larry Rother, autor de artigo calunioso e desrespeitos à imagem do Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, são, no mínimo, hipócritas e farisaicas, típicas do pensamento elitista e conservador brasileiro, “dos que sabem mais”, “dos que sabem governar”, “dos políticos profissionais”, “doutos na arte do diálogo” e “paladinos da democracia”, ou melhor, dos “defensores da normalidade democrática, da ordem e da paz social”. Não sou favorável ao Governo Lula, não por motivos de incompetência ou de irresponsabilidade ou burrice ou amadorismo da administração petista. Meus motivos estão relacionados com o que se poderia de chamar de “cretinismo parlamentar” do PT, o seu jogo desastroso de alianças políticas, que não são estratégicas para uma alternativa popular de poder, com a sua submissão ao ideário burguês, já demonstrado na prática pela manutenção da política econômica de nítidos contornos neoliberais e a sua colocação como esquerda da burguesia, ao assumir a tarefa de uma transição histórica que a direita não tinha mais forças para realizar. Porém, minhas discordâncias são de caráter político e não estão relacionadas aos estigmas e aos preconceitos das origens sociais do Presidente Lula, que se expressam nas piadas de mal gosto sobre o nível formação do Presidente, sua incapacidade, sua burrice, seu hábito de beber, que seria típico do homem do povo, bêbado e vagabundo. O pensamento elitista brasileiro concede apenas às elites a capacidade de pensar, de governar, de ser competente e profissional, ao mesmo tempo em que a massa de miseráveis deve ser guiada e governada porque não sabe pensar e só entende a linguagem do mandonismo e da violência. O mais lamentável nisso tudo não é fato de um repórter norte-americano escrever o que escreveu sobre o Presidente, mas o fato de isso ser uma crença íntima de muitos brasileiros acéfalos, de mente turva e preconceitos arcaicos.
As manifestações de repúdio nada mais significaram do que uma demonstração do conservadorismo e do arcaísmo do pensamento elitista brasileiro, não se poupando qualificações de burrice, amadorismo político, autoritarismo (safa!) e falta de respeito aos princípios democráticos da parte de quem mais esteve ao lado da repressão e da institucionalização da repressão no Brasil, ao lado dos interesses do grande capital internacional e da burguesia nacional títere e pró-imperialista, em suma, de quem contribuiu para uma tão apregoada transição democrática, a chamada Nova República, que, na verdade, foi um engodo e uma perpetuação da ditadura militar por outros meios. Esse acontecimento, como não podia deixar de ser, foi um prato cheio para a imprensa e os órgãos que defendem a sua liberdade de expressão. O Jornal do Commercio, apenas para citar um exemplo, ocupou duas páginas quase que inteiramente para tachar de burra a atitude do Presidente, engrossando o coro de uma suposta causa da democracia. Ora, só alguém muito ingênuo para acreditar que as notícias veiculadas pela grande imprensa não estão destinadas a manipular a opinião pública a favor dos interesses das oligarquias brasileiras. Não estamos falando aqui de uma imprensa verdadeira, mas de uma imprensa que serve a interesses bem específicos e que procuram perpetuar os preconceitos mais nojentos contra os movimentos sociais populares. Essa imprensa não merece nenhum respeito e não tem moral para criticar uma atitude enérgica, necessária e indispensável. A cassação do visto do norte-americano foi a melhor atitude que se devia tomar, não porque o jornalista tenha sujado o nome do presidente aos bons olhos da opinião pública internacional, mas porque não podemos deixar que qualquer um, seja ele quem for, perpetue preconceitos contra os países latino-americanos, africanos e asiáticos. Yankee go home!
sábado, maio 01, 2004
Acerto de contas e pequeno adeus do blogue
Dado é para mim um grande amigo. Exagerado como só ele, parece às vezes não medir a força das palavras. O engraçado é vê-lo diante de suas próprias hiperboles, vivenciando sempre a posteriori(depois de ter dito, claro!) as mais diversas e adversas situações de constragimento. Porém nem tudo nessa caracteristica dele é excessivo em excesso. Este acerto de contas é uma pequena tentativa de mostrar algo de bom de uma relação amical impestada de conflitos cômicos. Talvez seja mesmo uma forma de agradecer explicando as razões pelas quais as coisas não podiam ser de outra forma.
O segundo ponto deste post é um aviso. Um adeus provisório do blogue que ficará algumas semanas inativo.
Como diria Paulo Honório: Continuemos. Conheci Dado ainda no Marista e pela razão mais esquisita do mundo: o cara era a fim de minha namorada! Não liguei, nem tive raiva. Convencido de viver uma relação extremamente sólida, dizia-me: aquele gordinho playboizinho de Casa Forte não tem nenhuma chance. Soube inclusive das investidas dele, paquerando, tentando impressionar a gatinha, levei tudo na onda porque achava-o "gente fina", mesmo tendo uns quilinhos a mais. Até aqui tudo tranquilo. Egraçado foi o primeiro conflito. Ainda hoje não entendo a razão daquela agressão de Eduardo. Estavamos em Casa Amarela e eu estava completamente perdido entre o entusiasmo de começar algo novo e um vazio enorme deixado pelo fim de uma relação duradoura. Dado chega e diz umas brutalidades, afirma meu machismo, acusa-me de comedor de criancinhas, devorador da predação alheia. Não lembro se respondi de imediato àquelas palavras duras, acho mesmo que na minha confusão aceitei todas as acusações como sendo verdadeiras. Furei meus olhos. Parti para um exílio, uma caminhada a procura do lugar onde Edipos esquecem as suas Jocastas. Neste lugar distante do inferno terrestre, o exílio da alma como dizia Vitor Hugo, encontrei a paz para mim e meu amigo. Alguns meses depois conversamos, pedimo-nos desculpas e prosseguimos.
Uma outra marca é a contínua birra de Dado com a minha decisão de prosseguir meus estudos acadêmicos. Outro dia, cansado do meus devaneios diários, estava percorrendo os blogues indicados como links no "Sangue de Barata" e descobri o de Carlós. Nele vi um comentário de Eduardo dizendo o seguinte: "Queria ter sabido dizer isso sobre a necessidade que ser filho de quem somos causa. Eu já tentei falar sobre isso para Jampa (mas queria que ele tomasse para si a responsabilidade de ser melhor que o pai - que talvez seja demais até para Jesus). A vida é essa coisa mutante mesmo e resumos sobre o Todo servem só para encher o bolso dos que os vendem." Sempre entendi essa posição crítica dele sem concordar. Não segui a política por várias razões. Mas nunca vi de fato incongruência entre leituras mais ou menos acadêmicas do mundo e a tomada de postura política, prática, atuante e atual. Podemos e devemos, como diria e disse Marx, não confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas. Isso sim seria e é motivo de deturpação da ordem das coisas(da lógica e do mundo). Estudando, imagino, tomo posição em favor de um tipo de postura pro liberdade possível, aquela que vincula consciência da impossibilidade de ser completamente livre com o esforço de entender os motivos desses limites para deles tentar se desfazer. Não acho por isso que a vida deva ser necessáriamente mediada por livros científicos ou filosóficos. Não acredito em Acrópoles ou utopias afins! A intriga do amigo foi e é bem recebida, pois é verdade a fragilidade do espirito humano diante do encanto de seu próprio engenho. E essa insistência do Amorim sempre me fez lembrar daquele algo básico que aprendi em família com as pessoas simples e pouco escolarizadas que me rodeavam: ao valor de uma vida não se tem mesura intelectual apropriada. A matemática prática de meu avô era tão importante nele, quanto as caretas que nos faziam tanto rir. As rezas de minha avó eram tanto expressão de sua fé, quanto seu amor estranho e maternal pelo marido doente era digno de um respeito crédulo. Dessas pessoas carrego em mim mais do que qualquer livro lido. Na falta delas aprendi a fazer o retorno ao início e pela saudade refletir os avanços e recuos das escolhas feitas. E é pensando neles e em outros que julgo importante entender o que eles não podiam e não puderam compreender. E dividir isso tudo parece ser a única forma de tonar essas crenças mais verdadeiras para mim. Pois do contrário, acredito, todo esse esforço para se tornar homem seria apenas mais uma luta vã e pequeno-burguesa para construir um lugar onde pudesse viver minha felicidade encantada com os frutos de minha própria inteligência(mesmo a conseiderando sem substancia, sinto-me capaz de seduzir-me pelo que ela é capaz de produzir). Findo, mesmo em certa tristeza, sempre agradecendo a Dado pela exageração de seus propósitos. Neles encontro alimento pra uma coerência limitada minha, porém cheia de sentido.
Para bem e para mal, acaba aqui o acerto de contas fraterno e carinhoso.
***
Aviso aos navegantes que nas próximas três semanas ou mais não haverá post neste blogue maldito. Razões: o mestrado. Um abraço a todos os amigos, um outro, um pouco diferente para os "inimigos"(Puchkin e companhia!).
Ps: Porra: Puchkin é muito mais violento no blogue de Carlós do que no meu.
Dado é para mim um grande amigo. Exagerado como só ele, parece às vezes não medir a força das palavras. O engraçado é vê-lo diante de suas próprias hiperboles, vivenciando sempre a posteriori(depois de ter dito, claro!) as mais diversas e adversas situações de constragimento. Porém nem tudo nessa caracteristica dele é excessivo em excesso. Este acerto de contas é uma pequena tentativa de mostrar algo de bom de uma relação amical impestada de conflitos cômicos. Talvez seja mesmo uma forma de agradecer explicando as razões pelas quais as coisas não podiam ser de outra forma.
O segundo ponto deste post é um aviso. Um adeus provisório do blogue que ficará algumas semanas inativo.
Como diria Paulo Honório: Continuemos. Conheci Dado ainda no Marista e pela razão mais esquisita do mundo: o cara era a fim de minha namorada! Não liguei, nem tive raiva. Convencido de viver uma relação extremamente sólida, dizia-me: aquele gordinho playboizinho de Casa Forte não tem nenhuma chance. Soube inclusive das investidas dele, paquerando, tentando impressionar a gatinha, levei tudo na onda porque achava-o "gente fina", mesmo tendo uns quilinhos a mais. Até aqui tudo tranquilo. Egraçado foi o primeiro conflito. Ainda hoje não entendo a razão daquela agressão de Eduardo. Estavamos em Casa Amarela e eu estava completamente perdido entre o entusiasmo de começar algo novo e um vazio enorme deixado pelo fim de uma relação duradoura. Dado chega e diz umas brutalidades, afirma meu machismo, acusa-me de comedor de criancinhas, devorador da predação alheia. Não lembro se respondi de imediato àquelas palavras duras, acho mesmo que na minha confusão aceitei todas as acusações como sendo verdadeiras. Furei meus olhos. Parti para um exílio, uma caminhada a procura do lugar onde Edipos esquecem as suas Jocastas. Neste lugar distante do inferno terrestre, o exílio da alma como dizia Vitor Hugo, encontrei a paz para mim e meu amigo. Alguns meses depois conversamos, pedimo-nos desculpas e prosseguimos.
Uma outra marca é a contínua birra de Dado com a minha decisão de prosseguir meus estudos acadêmicos. Outro dia, cansado do meus devaneios diários, estava percorrendo os blogues indicados como links no "Sangue de Barata" e descobri o de Carlós. Nele vi um comentário de Eduardo dizendo o seguinte: "Queria ter sabido dizer isso sobre a necessidade que ser filho de quem somos causa. Eu já tentei falar sobre isso para Jampa (mas queria que ele tomasse para si a responsabilidade de ser melhor que o pai - que talvez seja demais até para Jesus). A vida é essa coisa mutante mesmo e resumos sobre o Todo servem só para encher o bolso dos que os vendem." Sempre entendi essa posição crítica dele sem concordar. Não segui a política por várias razões. Mas nunca vi de fato incongruência entre leituras mais ou menos acadêmicas do mundo e a tomada de postura política, prática, atuante e atual. Podemos e devemos, como diria e disse Marx, não confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas. Isso sim seria e é motivo de deturpação da ordem das coisas(da lógica e do mundo). Estudando, imagino, tomo posição em favor de um tipo de postura pro liberdade possível, aquela que vincula consciência da impossibilidade de ser completamente livre com o esforço de entender os motivos desses limites para deles tentar se desfazer. Não acho por isso que a vida deva ser necessáriamente mediada por livros científicos ou filosóficos. Não acredito em Acrópoles ou utopias afins! A intriga do amigo foi e é bem recebida, pois é verdade a fragilidade do espirito humano diante do encanto de seu próprio engenho. E essa insistência do Amorim sempre me fez lembrar daquele algo básico que aprendi em família com as pessoas simples e pouco escolarizadas que me rodeavam: ao valor de uma vida não se tem mesura intelectual apropriada. A matemática prática de meu avô era tão importante nele, quanto as caretas que nos faziam tanto rir. As rezas de minha avó eram tanto expressão de sua fé, quanto seu amor estranho e maternal pelo marido doente era digno de um respeito crédulo. Dessas pessoas carrego em mim mais do que qualquer livro lido. Na falta delas aprendi a fazer o retorno ao início e pela saudade refletir os avanços e recuos das escolhas feitas. E é pensando neles e em outros que julgo importante entender o que eles não podiam e não puderam compreender. E dividir isso tudo parece ser a única forma de tonar essas crenças mais verdadeiras para mim. Pois do contrário, acredito, todo esse esforço para se tornar homem seria apenas mais uma luta vã e pequeno-burguesa para construir um lugar onde pudesse viver minha felicidade encantada com os frutos de minha própria inteligência(mesmo a conseiderando sem substancia, sinto-me capaz de seduzir-me pelo que ela é capaz de produzir). Findo, mesmo em certa tristeza, sempre agradecendo a Dado pela exageração de seus propósitos. Neles encontro alimento pra uma coerência limitada minha, porém cheia de sentido.
Para bem e para mal, acaba aqui o acerto de contas fraterno e carinhoso.
***
Aviso aos navegantes que nas próximas três semanas ou mais não haverá post neste blogue maldito. Razões: o mestrado. Um abraço a todos os amigos, um outro, um pouco diferente para os "inimigos"(Puchkin e companhia!).
Ps: Porra: Puchkin é muito mais violento no blogue de Carlós do que no meu.
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Quem sou eu (no blogue)
- Jampa
- Recife, Pernambuco, Brazil
- Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.