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sábado, março 28, 2009

Momento Tese

Caramba, é muito difícil para mim ficar tranquilo no momento de criticar uma obra monumental como a de Luiz Costa Lima. A intranquilidade pode existir por uma série de motivos. Por conhecê-la a pouco tempo, sinto-me constragido de situar meu trabalho com tanta ênfase em contraponto ao que Costa Lima vem defendendo há tanto tempo. Na verdade, o impasse aparece mais nitidamente, o mesmo acontece quanto a Antonio Candido(que conheço a mais tempo) , naquilo que a crítica e a teoria literária relegam como tarefa fundamental para sociologia.
Só consigo concordar com o que ele diz a esse respeito quando do lugar da sociologia (lugar de ponto de vista, de ajuda, de suporte à crítica) consegue-se colocar também no seu devido lugar os lugares da crítica e teoria literárias no mundo social.Existe ainda a hipótese de que o desconforto a cima referido ser fruto do peso de disposições cefichianas ( tomadas emprestadas de sua dinâmica conservadora de pesquisa). Quiça seja apenas o respeito por um caminho sincero e respeitável intelectualmente(o de Costa Lima), o que quero e espero que o meu também seja. Como no debate de idéias, respeito não deve corresponder à submissão passiva de argumentos, penso ver nos meus, quando conseguem se livrar do cefichianismo, momentos interessantes da afimação de uma maneira de ver a sociologia trantando de assuntos literários.
Vejam se concordam comigo. O ponto central do que digo está no seguinte, do que Costa Lima defende comento:
É preciso ter todo o cuidado. Mas está dito: não se pode, ao risco da igenuidade mais ignata, ler textos literários como se fossem documentos. Certo. Ao que tudo indica, com os olhos educados pela crítica moderna, " em termo de modernidade", Costa Lima desqualifica, em razão de uma perspectiva teórica de horizonte normativo (como não poderia deixar de ser?), a quase totalidade de leituras feitas da obra de Graciliano Ramos na época de sua publicação.
No subcapítulo intitulado ' Graciliano Ramos e a recusa do caeté' ( Costa Lima, 2007, p. 437-446), após mostrar a semelhança de uma descrição feita por Graciliano a tantas outras feitas e tidas como " relatos realistas", Costa Lima reafirma o veio e o julgamento que caracteriza seu trabalho:


"[É] evidente a procura de documentar até o detalhe. Mas o tipo de realismo de Graciliano não resulta da fidelidade da apresentação de uma procissão interiorana senão a densidade como a cena se compõe: o absoluto distanciamento do narrador diz de forma sintética e pelas brechas entre as palavras da falsa religiosidade da cerimônia alegórica do desfile de ''destaques''. [...] O descritivismo documentalista é superado pela proximidade da náusea e do grotesco. Essa é uma das poucas passagens de Caetés em que o escritor ultrapassa a mera documentação das aflições do medíocre narrador" (Costa Lima, op. cit., p.442).


É passar os olhos na documentação do Arquivo Graciliano Ramos e perceber que o olhar construído pela teoria literária e pela crítica, ao menos na versão aqui estudada, é, na medida em que tenta afirmar a autonomia da obra como critério de leitura mais correto, um contraponto idealizado da realidade histórica de uma época que, esta, é o que revela a análise dos documentos daquele contexto, leu Caetés com os olhos de um realismo chinfrim (chinfrim aos olhos da crítica dos dias de hoje, entenda-se), sociologizado e pouco afeito às nuances do "realmente ficcional" da literatura.
Se
rá que estou extrapolando minha função de sociólogo?

Costa Lima, L. A Trilogia do Controle (2007), Topbooks, Rio de Janeiro.

terça-feira, março 24, 2009

Um texto publicado

Aqui vai um texto de Clarissa Diniz co-escrito por mim que foi publicado ano passado num livro chamado "Souzousareta Geijutsuka". O toque sociológico do texto, que busca entender os mecanismos de desvelamento das lógicas de legitimação encontradas no experimento (explicação aqui ) do artista Yuri Firmeza ( resuminho aqui) são bem interessantes. Espero que gostem. Por não ser sociologia em sentido estreito (a que eu gosto), hesitei um tempinho em colocar no meu currículo (de sociólogo). Pressionado, terminei cedendo.



Firmeza: historieta da contradição legitimadora





As lógicas de legitimação são a um só tempo objeto e sujeito da obra de Yuri Firmeza. Objeto porque é disso que trata seu trabalho, sujeito porque seu trabalho é isso - o debate acerca das lógicas legitimadoras através delas mesmas. Ao falar de através de, o artista faz ver - claramente - o quanto os objetos são constituídos não somente de suas matérias específicas, mas, mormente, dos mecanismos de agenciamento dessas matérias.


Com Souzousareta Geijutsuka, interessa a Firmeza demonstrar o quanto, no contexto do sistema de arte, uma obra é, em grande parte, o conjunto de conceitos e verdades socialmente construídas acerca dela. Souzousareta, por exemplo, era menos suas obras (representadas apenas por poucas fotografias) do que seu currículo - o fato de já ter supostamente exposto quatro vezes no Brasil, bem como em Tóquio e Nova Iorque: grandes centros produtores e corroboradores da arte internacional.


Assim, consciente dessas lógicas, Yuri desenvolveu uma ação que visava revelá-las, apostando em seu desvelamento como forma de crítica às práticas excessivamente sociais de arte que, prioritariamente interessadas nas legitimidades das obras com as quais lidam, por vezes negligenciam outros aspectos - habitualmente menos sistêmicos e, quem sabe, mais transcendentais- das mesmas. Ainda que a ênfase da sua crítica estivesse na mídia, sua atitude pode ser estendida a todas as instâncias legitimadoras da produção de arte ( a crítica, curadoria, instituições, mercado, público, entre outras) que, agentes dos processos de construção de reputações e validades sociais, são, na maior parte das vezes- como demonstrou a imprensa cearense-, meros instrumentos desse processo: de algum modo, Yuri fez ver que nós, produtores de legitimidades, somos mais manipulados por tais legitimidades do que de fato as manipulamos.


Também o artista, na dinâmica condição de ser- como todos- simultaneamente produto e produtor do sistema de disputa por legitimidade, dele não se desvia. Ainda que sua obra tenha - ao expor a fragilidade (ou mesmo a falsidade) do processo de construção da verdade midiática - colocado em xeque os jornais de Fortaleza, ela, contudo, não se desvencilhou desses mesmos processos. A partir de uma mentira legítima, Yuri, por sua vez, foi legitimado diante não só da imprensa, como do público, da crítica, etc. E mais: foi legitimado como um questionador das legitimações.


Tal qual sua obra - ao mesmo tempo sujeito e objeto de seu "tema" -, o artista, ao criticar a vulnerabilidade de nosso sistema de arte, foi corroborado por efeito reverso de tal susceptilidade: não fosse a imprensa tão, digamos, "ingênua", Firmeza não teria sido tão legitimado. Sua ação, apesar de ter alcançados tamanha reverberação, não foi capaz, todavia, de instaurar outras dinâmicas legitimadoras para além daquelas por ele criticadas- aquelas em relação às quais ele é, inclusive, "benificiado".


Ao fim do processo, mesmo que estejamos todos ainda completamente filiados ao jogo social colocado em questão, parece-nos, todavia, que dele tomamos maior consciência. O desvelamento intencionado pelo artista aconteceu, e os "mistérios" de um processo legitimador que se faz passar por verdadeiro e justo foram (ao menos parcialmente) "descorbertos". Ainda que por um breve momento, o artista foi capaz de fazer sumir a aura das dinâmicas sociais que fazem parecer imparciais as legitimidades construídas. Abriu-se um espelho sobre nós, e foi impossível negar a realidade refletida a partir de nossas ações.


E, desfeita a ilusão da imparcialidade, resta a crueza da consciência de sabermos, mais uma vez, que somos nós que, de maneira sistêmica, somos os responsáveis por um campo de arte que não só fabrica verdades - como é natural e, provavelmente, inevitável-, como também as falseia. A um só tempo produtos e produtores deste sistema, é preciso que deixemos de lado a infame tentativa de procurar um culpado- como fez a imprensa cearense. Quando a responsabilidade fragmenta-se (como ocorre entre os menbros do campo da arte), a culpa dilui-se. É preciso, portanto e sobretudo, analisar o sistema em sua inteireza.


E analisar o sistema é autoanalisarmo-nos. É falar de através de - questioná-lo ao questionarmo-nos a nós mesmos, recursivamente. Sem maiores pretensões de suceder, é válido e urgente que, tal qual Yuri Firmeza, tentemos. Mudar um é mudar o outro, e isso faz pensar que, talvez, se Souzousareta fosse mais inventor que inventado, as lógicas de legitimação de nosso sistema não tivessem sido "apenas" desveladas, mas também postas, de fato, em entropia.


Façamos como o japonês que, ao deslocar a verdade do campo da resposta ao da pergunta, fez sacudir as estruturas do sistema. Apostemos, então, no potencial da pergunta, após a historieta de Firmeza, não quer calar: "mas como mudar?".



domingo, novembro 09, 2008

Impressões sobre o Pré-ALAS





Participei como platéia do encontro chamado Pré-ALAS. O ALAS é o congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia que ocorrerá ano que vem no Rio de Janeiro. O evento que se realizou entre 03 e 05 de novembro aqui no Recife tinha como objetivo ser uma espécie de aperitivo ao congresso maior que estar por vir.

Vi pouco e não poderia emitir uma opinião mais ampliada sobre o evento como um todo. Mas gostaria de tecer comentário sobre três atividades as quais tive acesso. A mesa redonda “Uma agenda para os estudos sobre crime e violência no século XXI”(04/11/08, das 8 ao meio dia no auditório do CCSA), o grupo de trabalho (GT) “Pensamento Social na América Latina” (04/11/08, 14 às 17 horas no CFCH) e por último a mesa redonda “Democracia, desigualdade, participação e novos atores na América Latina” (05/11/08, 8 ao meio dia no Centro de Educação).
Opinião sobre mesa redonda sobre crime e violência: agenda social, agenda sociológica


Na mesa redonda sobre a agenda de estudos sobre crime e violência o que mais me impressionou foi perceber o vínculo intervencionista das preocupações das possíveis “agendas científicas”. Se as ciências sociais surgem historicamente em parte por conta do volume e densidade que as sociedades industriais deram à morfologia de suas cidades, e o sem número de fenômenos sociais que vão aparecer em decorrência disso, não deixa de ser interessante perceber o quanto uma idéia de “medicina social” (conhecer para intervir e sanar problemas) permeia os objetivos das agendas ali propostas. Nada contra.

Mas é interessante porque perigoso, eu acrescentaria. Essa definição de agendas nos moldes da relação de heterônomia entre sociologia e política pública de segurança define contornos políticos (na verdade sociais) à agenda científica que passa a pensar seus objetos em função de ideais de diminuição das taxas de criminalidade e violência. Mais uma vez, nada contra o uso do conhecimento sociológico nas agendas políticas dos políticos e governantes. Porém é preciso convir, é preciso ter preocupação com a ciência e sua função específica principal cujo a qual, creio eu, ainda ser aquela de produzir conhecimento sobre as lógicas de funcionamento do mundo social.

Se esse meu receio for real, ou seja, se for verdade que aquelas proposições de agendas de estudo foram estruturadas apenas em função de vínculos com a demanda pública por segurança, numa situação como essa descrita, parece-me que é factível aceitar o declínio da distinção instituinte e instrutiva dada pela própria sociologia entre um problema social e um sociológico. Aparecendo de maneira dissolvida nos moldes para lá de perniciosos dessa razão sociológica (uma sociologia aparentemente desprovida de sua função latente), a sociologia do crime visa encontrar soluções para o crime e para violência (criminologia) sem muitas vezes se ater ao entendimento das lógicas, mecanismos, formas de funcionamento do mundo social que engendram “situações de violência”, “formação de criminosos”, “culturas do crime” etc. Estuda-se polícia, estudam-se políticas de segurança (e querem se estudar seus impactos, onde?, na diminuição ou não das taxas disso e daquilo), mas, e isso me intriga, estudar o caldo sócio-cultural que estrutura essa agenda parece não interessar ninguém. É démodé. Podem me chamar de leigo e conservador, de desconhecer as teorias da janela quebrada ou de suas semelhantes, mas fazer sociologia para mim sem falar sistematicamente de aspectos de socialização sempre vai me parecer algo como fazer bolo de trigo sem colocar margarina: produz algo seco, ruim de digerir e, last but not least, não parece bolo.


Jessé Souza: discurso inaudível, sociologia morta e seus diálogos sem interlocutores



O principal personagem do grupo de trabalho sobre “Pensamento Social na América Latina” e da mesa redonda sobre democracia e desigualdade tem nome: Jessé Souza. Primeiro por fazer uma exposição crítica à idéia de pensamento social num grupo sobre pensamento social. E depois por defender idéias fortes como é a de ralé estrutural, que por sua vez reveste uma crítica por si só já instigante, onde elementos culturais fortemente presentes e aceitos como sendo parte de nossa brasilidade são colocados como elementos de um “mito do Brasil” a ser triturado pela ciência.

O que achei extremamente interessante nos dois momentos foi a impossibilidade de comunicar que se externalizava na hexis corporal de Jessé Souza ao expor, sempre com muita clareza e destreza, o seu pensamento crítico. O suor, os suspiros de impaciência com apresentações que reproduziam contextualizações teóricas de pensamentos teóricos, traduziam o apelo da consciência de alguém que sabia estar falando para um auditório onde os principais interlocutores (os integrantes da mesa) eram surdos ao que ele dizia.

O problema é que se por um lado Jessé Souza tem toda a razão de se colocar da maneira que se colocou(dando argumento-patada em todos), o limite de sua postura está, a meu ver, na pouca ênfase dada às propriedades sociológicas de seu discurso sociológico. Aceitando discutir os resultados teóricos de seu estudo sobre a ralé estrutural como mais uma teoria sobre o mundo social, perde-se de vista o essêncial de sua crítica, caindo-se assim no mesmo equivoco que torna inaudível a especificidade do discurso que deu vazão a produção dessa teoria: ou seja, o sociológico (Jessé de Souza) não enfatizando que é com sua maneira de investigar que ele produz crítica, ou seja, através de seus métodos, seus recursos técnicos de pesquisa – entrevistas, análise estatística, análise de documentos, uso de conceitos, etc. –, ele perde a oportunidade de interar e fazer entender que a verdade e não apenas a veracidade de suas proposições depende do bom uso desses procedimentos.

Nesse sentido acho típicas as exemplificações de alguns elementos de pesquisas dados durante a sua exposição. A mais característica sendo a que visa explicar a tendência ao fracasso escolar de alunos oriundos da ralé. A capacidade de concentração é algo que se aprende, diz Jessé Souza. Ele acrescenta depois de forma imagética que as pessoas de classe média, quando na idade escolar aprenderam a se concentrar em casa, vendo seus pais lendo jornais e livros, descobrindo a concentração como algo possível.

(O que vou dizer agora pode ser uma injustiça produzida pela temporalidade limitada de uma apresentação de meia hora num evento como o que comento. Mas julgo da pertinência dessa crítica por não ter percebido em nenhum momento uma preocupação que levasse o debate para esse ponto que trato.)



Pois bem, Jessé usa nesse exemplo sobre a concentração um argumento estruturado dentro de uma lógica bourdieusiana do A Reprodução. Parênteses para dizer que esse é um livro aparentemente mal lido no Brasil tendo em vista as acusações tolas de estruturalismo que detêm tanto o interesse de nossos debates acadêmicos. Nesse argumento a inteligibilidade do fenômeno da “burrice” (dos não atentos em sala de aula) aparece quando se sobrepõe (depois de descrições muito detalhadas no caso das pesquisas que deram origem ao livro de Bourdieu e Passeron) a congruência ideologicamente camuflada das estruturas da cultura dominante (porque legitima, a ecolar) e a da classe dominante ( a cultura das famílias mais abastadas sociocultural e economicamente). Até aqui tudo bem.
O problema é que se você omite, como tende também a fazer Jessé Souza, a importância da análise estatística, da etnografia que descreve as relações de aprendizado no seio familiar e escolar, da construção de uma relação específica no uso dos conceitos para a construção de um argumento sociológico interpretando essa base material (por que usar a estatística para “explicar” ou dar “conformidade” ao dito real que a teoria trata?), você acaba por ratificar as “razões da inaudibilidade” do seu discurso. Por isso minha simpatia pelo discurso de Jessé Souza é grande, mas parece esbarrar naquilo que ele critica só até certo ponto, seu vínculo com uma maneira de refutar e conjecturar sobre o mundo social vinculada ao modo de operar do pensamento social.
Atualização: coloco abaixo o texto de Diogo Valença que trata das impressões dele do evento. O texto está nos comentários, mas julguei que ele ilustra bem e dá uma perspectiva a mais (mais completa) ao que disse e "de coup" que era de interesse da maioria.

Jessé Souza e a arrogância da "grande teoria" (por Diogo Valença)
Gostaria de tecer um rápido comentário às impressões do meu amigo Jampa sobre o Pré-ALAS. Primeiro, queria fazer um reparo. O próximo ALAS não será no Rio de Janeiro, mas em Buenos Aires. Quanto à mesa sobre criminalidade, gostei da visão crítica de Jampa e tendo a concordar com o cuidado que ele teve na defesa da especificidade do ponto de vista sociológico. Ele não desconsidera ser legítima a preocupação prática na sociologia, mas tenta colocar as balizas norteadoras desse intento. Como envolver a sociologia em problemas práticos? Eu acho que isso pode ser feito, mas deve ser feito dentro da contribuição que à sociologia pode dar ao conhecimento sobre o mundo social, ou então a sociologia não servirá de nada. Foi assim que entendi o comentário crítico de Jampa. Porém, eu acho que há toda uma discussão na sociologia, que está meio esquecida, sobre a possibilidade de unir o raciocínio pragmático ao raciocínio científico, numa espécie de sociologia aplicada, para usar uma expressão tão cara a Florestan Fernandes. Seria a idéia de que o sociólogo pode atuar nos processos de intervenção social, a partir do prisma de sua especialidade científica, e ao mesmo tempo ser um agente político de transformação. Isso implica, de certo modo, união entre fato e valor no próprio terreno da ciência. Haveria várias perguntas aí, é claro, sobre qual a direção da mudança, a quem interessa essa intervenção social, que cabe à análise sociológica desvendar. Acho que só em processos de intervenção social, nos quais os sociólogos venham a participar, é que essas questões podem ser respondidas e não adianta nada conjecturar sobre isso. Mas acho importante o questionamento de Jampa e esses comentários que agora fiz desejo que sejam vistos apenas como um acréscimo das minhas posições às palavras do amigo.(Continua...)

Jessé Souza (comentário)Eu também estive presente na apresentação de Jessé Souza no GT Pensamento Social Latino-Americano. Como Jampa, reconheço que Jessé está fazendo um trabalho importante de investigador e simpatizo com as críticas radicais que ele tem feito a vários dos mitos do pensamento social brasileiro. No entanto, o que mais me chamou a atenção na postura dele foi um enorme desconhecimento de toda uma tradição de pensamento desenvolvida na América Latina, não só por cientistas sociais, mas também por pensadores políticos, como Mariátegui, que construíram uma visão original de nossas formações sociais. O que estava em jogo no GT "pensamento social latino-americano", a meu ver, era exatamente isso. Esses autores não são importantes para Jessé porque ele considera que a grande teoria, mais "complexa" (termo que ele utilizou), desenvolvida na Europa, pode dar conta de nossos fenômenos sociais, brasileiros e latino-americanos. Por isso ele não vai ler autores latino-americanos e sim pegar os autores verdadeiramente complexos. Ora, Jessé é um leitor atento de Bourdieu, como bem apontou Jampa, e sabemos que Bourdieu foi um sociólogo que refletia teoricamente a partir de seus objetos de investigação, realizando uma verdadeira construção conceitual na sociologia a partir de elementos concretos, numa simbiose marcante entre teoria e empiria. A meu ver, esse é o verdadeiro caminho na teorização das ciências sociais. Por isso Bourdieu tinha uma forte aversão à grande teoria à la Parsons, ou mesmo à teoria de médio alcance de um Merton. Acho que nesse ponto Jessé não aprendeu a lição do mestre, porque ele deixa de ter a visão da especificidade do concreto quando tenta retirar de Foucault, por exemplo, que ele citou, elementos para entender o poder nas instituições modernas e aplicar esses conceitos ao Brasil. Ele diz, com razão, que o Brasil é uma nação "moderna" e, por isso, a teorização construída na Europa também nos cabe. Nisso estou de acordo, porém se há problemas universais das nações modernas, há problemas específicos de cada uma das nações modernas quando lidamos com as diferenças de suas origens históricas. Isso já é muito sabido e não vou discutir algo que já foi tão debatido pelos cientistas sociais latino-americanos desde os anos 60. Acho que Jessé pensa estar fazendo algo totalmente novo e desconsiderando que a perspectiva de interpretação global que ele tenta levar adiante, criticando o culturalismo e tentando realizar a ponte entre cultura e estrutura, foi algo muito desenvolvido nas ciências sociais latino-americanas a partir de investigações muito concretas, como as de Pablo González Casanova, Anibal Quijano, Orlando Fals Borda, Florestan Fernandes e vários outros. O que ele fez foi algo típico da grande teoria, achar que pode explicar tudo e todos os casos concretos. Penso que na sua prática de pesquisador Jessé possa ter superado essa visão, que, a meu ver, é um índice de colonialismo mental. Basta estudarmos a teoria altamente complexa dos centros hegemônicos de produção cultural e, pronto, seremos capazes de lidar com qualquer problema empírico do Brasil, ou da África, ou da Ásia. Não acredito que esse seja o caminho, porque seria descontextualizar teorias importantes, mas que levam a marca de seu meio social e colocam questões que muitas vezes não podem ter muito sentido para nós. É uma forma de perpetuar relações de dominação que se dão no âmbito internacional dentro da reflexão sociológica. Não sei se Jampa notou, mas muitas vezes Jessé demonstrava estar fazendo algo totalmente novo, inventando a roda e desconsiderando toda uma produção importante feita anteriormente que, em muitos aspectos, foi mais longe do que ele conseguiu, com um "grau menor de complexidade", porque os cientistas sociais latino-americanos foram capazes de superar o complexo de inferioridade do cultivo da "grande teoria" na periferia. Foram cientistas sociais que não tinham as grandes ambições teóricas de Jessé, mas que realizaram estudos concretos da realidade concreta e, por conta disso, deram uma contribuição muito importante à teoria geral, por exemplo, do capitalismo, que tem sido reaproveitada na análise global do capitalismo. É marcante, por exemplo, como Florestan Fernandes apontou certas tendências do capitalismo mundial a partir das análises que ele fez do capitalismo dependente na periferia e, sem o tom arrogante da grande teoria, ele deu uma contribuição muito original a partir de suas pesquisas concretas. Esses comentários nada tendem a desmerecer o trabalho de Jessé, porém acho que há contradições entre seu talento de pesquisador e a sedução que ele sofre pela grande teoria, daí o tom arrogante de achar que ele está fazendo algo totalmente inédito. Sob esse prisma, eu acho que ele não conseguiu fazer uma crítica do pensamento social latino-americano, fez a crítica apenas de uma das vertentes desse pensamento, que ele chama de culturalista, e desconhece outros trabalhos que seriam dignos de nota. Penso que ele não deve ter cuidado para acabar no exercício escolástico de aplicar ao Brasil os o comentário de obras dos autores mais complexos que ele leu e que produziram em outros contextos sociais...

sábado, novembro 01, 2008

UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (I Parte)

Conheço pouco Luciano Oliveira. De encontro, lembro de uma única vez. Em sua sala marcamos para conversarmos acerca de Graciliano Ramos, personagem central de uma tese tratando da relação complexa entre sociologia e literatura no Brasil. Na ocasião eu percebi duas coisas dele. Por um lado, sua amabilidade para comigo. Ele me pareceu um sujeito extremamente educado, prestando atenção no que eu lhe falava mesmo deixando transparecer que considerava minhas preocupações um pouco tolas. (Elas devem ser de fato) Lembro que quando falei da polêmica que analisara em meu mestrado a respeito da verossimilhança de Paulo Honório, ele me disse em tom de brincadeira: “Paulo Honório escrevia do jeito que Graciliano imaginou e pronto”. Eu achei engraçado e amigável aquela maneira de relevar minhas preocupações. Não existia desrespeito, mas era como se ele me dissesse: “não tente tirar leite de pedra menino”. Como cabeça dura que sou, disse-me, meu propósito foi legítimo. Por outro lado, senti certo descontentamento da parte dele com o universo universitário. Algo no que ele me dizia soava aos meus ouvidos como: “não faço parte disso aqui”. As vezes me sinto assim também.


Pois bem, essas impressões do homem me ficaram. E a elas se juntaram outras de textos dele que li. Delas (das impressões) retiro motivação para esta pequena reflexão blogueira que pretendo desenvolver em duas partes.Deles (dos textos de Luciano) retiro as nuances do que quero dizer, tomo dalí os elementos nos quais me apoiar. (Essa primeira parte aqui, leitor, é uma justificativa metodológica do texto.)

Num artigo sobre Graciliano Ramos, por exemplo, que infelizmente não posso citar porque não tenho as referências, mas onde, foi assim que o li, com um olhar de “amador” (porque amante da obra e admirador do homem que a escreveu), Lucinano procurava indentificar e decifrar aquilo que a crítica chamou a atenção como sendo a imbricação necessária do homem Graciliano ao escritor. Uma bela homenagem. É um texto que guardo comigo e que com certeza vou usar em minha tese compondo com e contrapondo contra seus argumentos.


Gosto muito de um outro que me foi indicado por Alfredo Cesar. Acho-o fantástico. Um pequeno estudo de caso sobre a opinião de alunos de Direito no Recife sobre a pena de açoite para pichadores. E confesso: o que me mais me encantou nesse texto foi a atitude metodológica de exposição que, mostrando passo a passo o seu desenvolvimento, delineia com verdadeira honestidade os critérios da construção do objeto.
Nesses textos coerentemente com as minhas impressões do encontro percebo o mesmo contraste: algo que me aproxima do olhar e ao mesmo tempo me distancia na postura. Seria essa dupla impressão fruto de nossas experiências ao mesmo tempo similares e tão dispares?

Se me pergunto com sinceridade o que me leva a querer escrever sobre essa minha ínfima relação com o professor Luciano Oliveira, eu diria que mais do que nosso pequeno encontro e os artigos a cima evocados, foi seu texto de blogue que me impulsionou a reagrupar essas impressões e recordações e querer tratá-las de um ponto de vista mais... mais auto-analítico, digamos assim.


Lendo seu Brasil via Paris: descobertas de um estudante brasileiro no país dos bricoleurs senti uma vontade irresistível de entender meu sentimento paradoxal de empatia e estranhamento durante minha leitura deste artigo. Um sentimento daqueles que você tem quando, tendo partilhado uma experiência análoga, termina por perceber os pontos de semelhança e diferença e se perguntar encasquetado: “não sendo a mesma pessoa daquela vivência vivi situações e sensações semelhantes, mas por que algo daquela experiência recontada, portanto tão parecida, escapa a minha compreensão?”


Pensei, pensei, pensei. Por que não esboçar um paralelo? Algo do tipo contrastar alguns elementos do que julguei essencial no texto do Professor Luciano Oliveira, que é esse revelar a importância da viagem para construção de um olhar antropológico, de estranhamento a respeito do mundo que antes nos parecia familiar, comparando com minha própria experiência de estadia na França. Melhor. Que tal falar de um aspecto deixado de lado no relato/análise dele e que talvez mais do que todos os outros represente o calo recalcado de quem sai e volta de uma experiência acadêmica num país tido como desenvolvido: o estranhamento com o próprio meio universitário e acadêmico.


Traçar uma “comparação” com esse viés específico tem duas vantagens:
1) eliminar em parte o problema segundo o qual seria inapropriado tornar inteligível esse contraste entre a minha experiência e a dele na França porque se tratam de vivências que não se deram em mesmo tempo histórico e que foram vividas entre pessoas muito diferentes. Nesse sentido, contra esse argumento, eu diria que é justamente porque não se trata de uma comparação termo a termo, mas sim de uma avaliação a respeito da ausência ou quase ausência no olhar antropológico de Luciano Oliveira sobre o estranhamento com o mundo acadêmico mesmo (o nosso universo de produção cultural por excelência, a UFPE), que nos traria de quebra, em nosso favor, elementos para avaliar uma condição que é a nossa( a de intelectuais de um país periférico, num estado periférico). Claro, não se pode deixar de ter em mente o seguinte: em 1986, ano do início do doutorado de Luciano Oliveira na França, eu ainda estava me confrontando com meus dilemas de adolescente suburbano. Morando em um bairro de subúrbio violentíssimo (Ur-6 Ibura), entrando numa escola de classe média (Marista Recife), e, no período em que ele se tornava doutor, não sei nem se sabia onde era a França no mapa do mundo). Contudo, a Education Nationale continuou basicamente a mesma e as políticas de educação na França pouco se alteraram com as alternâncias de governo, como Luciano bem situou, educação na França é responsabilidade de Estado, fazendo com que a escolha de tratar do nosso estranhamento em função da experiência universitária seja uma fonte riquíssima de reflexividade. E isso porque se perguntar realmente sobre as condições de possibilidade da sociologia no Brasil, em Pernambuco e em Recife passa necessáriamente por uma preocupação sobre o tipo de sociologia que é produzida num país onde a educação não é (ao menos em sentido francês, do republicanismo francês, uma questão de Estado)
2) assim, mesmo sendo difícil comparar a França de 2000 (ano em que fui para lá) a de 1986(ano em que o Luciano Oliveira foi) – e sempre tendo em mente que no horizonte de comparação temos como mediadores do estranhamento antropológico um jovem estudante de graduação oriundo de classe popular marcado por uma trajetória de fracasso escolar recente e um mestre oriundo da classe média –, a escolha pelo contraste no próprio universo acadêmico pode ser extremamente interessante justamente por servir de reflexão a respeito não mais de generalidades da cultura brasileira, mas de elementos práticos de compatibilidade e incompatibilidade entre ethos acadêmicos do centro e da periferia do mundo de produção intelectual.
to be continue...
( A ser editado com o decorrer da análise).

quarta-feira, agosto 13, 2008

Clássico: receita de bolo? Para sociólogos e simpatizantes (S&S)




–No meu trabalho de doutorado uso documentos históricos, como devo proceder senhor clássico?


Mauss: “ No que se refere aos documentos históricos ou etnológicos , a sociologia deve adotar, grosso modo, os processos da ‘crítica histórica’. Não pode servir-se de fatos inventados e, por conseguinte, deve estabelecer a verdade das informações de que se serve. [...] Não há necessidade de conhecer a data de um fato social, de um ritual de orações para servir-se dele em sociologia, contanto que se conheçam seus antecedentes, seus concomitantes e seus conseqüentes, numa palavra, todo quadro social que o cerca. Para servir-se de um fato social determinado não é necessário o conhecimento integral de uma história, de uma língua, de uma civilização. O conhecimento relativo, mas exato, deste fato é suficiente para que possa e deva entrar no sistema que a sociologia quer edificar.”


—Caramaba Mauss, você parece um pouco old fashion depois dos pós-estruturalistas e do relativismo estrato-quântico historicista apoteótico das novas correntes sociológicas. Mas eu continuo gostando de você. Dá mais uma dica aí, daquelas que a gente não deve esquecer nunca, mesmo depois das mortes de Marx, Durkhiem, Weber e Floresntan! Vai, por favor!


Mauss: “ A sociologia não especula, como não faz qualquer outra ciência, sobre puras idéias e não se limita a registrar os fatos”.

– Ah Mauss, você tá de sacanagem comigo... vamos parar por aqui.

segunda-feira, abril 28, 2008

Antes da entrevista com Cesar




Antes de publicar algo, como havia prometido, da minha conversa com Cesar, gostaria de atentar para algumas idéias norteadoras que deram origem a entrevista. Faço isso porque acho importante falar de onde parto para tratar as informações deixadas no material, uma vez que as perguntas foram formuladas no sentido de trazer elementos para dar respostas a algumas dessas inquietações mais gerais. E por achar também que isso não gera problemas para trabalho em si, no sentido de pessoas que ainda não foram entrevistadas lerem esse texto e isso criar um enviesamento na mini-pesquisa. Acho que traria apenas mais reflexividade às resposta o que não seria de todo ruim. Claro, a entrevista com Cesar vai valer por por si só como leitura. A sociologia chega apenas como “maneira de adentrar” nesse universo e problematiza-lo. Ela bem poderia ser lida de outra forma, e a validade não seria necessariamente menor por isso.

Então vejamos: a entrevista foi realizada na intenção de recolher informações sobre os processos sociais agindo no momento da formação intelectual de alguns alunos do CFCH. A escolha de Cesar como “personagem” dessa análise tem como justificativa principal o enquadramento dele, em termos objetivos, nas categorias escolhidas como pertinentes para inteligibilidade de nosso argumento. Tais categorias existem para e na construção sociológica de nosso estudo na medida em que são empiricamente reconhecíveis no percurso escolar (agora sociologicamente enquadrado) e universitário da pessoa entrevistada. Como se trata de problematizar as relações sociais que influenciam no percurso acadêmico lidando com questões de legitimidade (queremos descrever os momentos das escolhas intelectuais salientando as tomadas de posição diante de um cenário de possibilidades existentes), as categorias retidas como operacionais são as que indicam, de alguma maneira, o que podemos chamar de modelo de excelência nos resultados escolar-acadêmicos. Dessa forma a “amostra” de entrevistados leva em conta a rentabilidade escolar dos escolhidos (que o são em função dessa mesma rentabilidade) e de suas respectivas trajetórias de “sucesso reconhecido” dentro da instituição. “Rentabilidade escolar” e “sucesso reconhecido” são categorias operacionais para nós na medida em que aceitamos, ou melhor, na medida em que se é aceito a legitimidade do sistema de notas e avaliação no qual as capacidades dos estudantes são postas a prova e reconhecidas formalmente pela instituição como sendo válidas. Não sou eu, Jampa, quem diz da rentabilidade ou sucesso escolar, são as notas, o currículo, o capital escolar medido em função desse desempenho de ordem formal.

Nas entrevistas nos interessamos por todas as informações que tratem das estratégias de posicionamento no meio, que digam respeito ao ambiente de aceitação de certas idéias e posturas e, claro, rejeição de outras. As expectativas de aceitação no meio (que tipo de estudante é tido como melhor? Que tipo de trabalho é melhor, mais inteligente?) podem servir como “indicadores sociológicos” ou “indícios de um processo de socialização escolar-acadêmico” onde hierarquias de objetos, assuntos, maneiras de encarar a sociologia e outras disciplinas são estabelecidas.

Com suas construções hierárquicas sendo operadas por um jogo sutil de aceitação e acomodação sociais das potencialidades dos estudantes em universo universitário, essas lógicas de construção social operam no sentido de se camuflar e, socialmente, aparecem apenas como intelectualmente estabelecidas. Na verdade, fazemos hipótese, é o pertencimento mesmo ao mundo dado, pré-reflexivo num universo de reflexão, que explica alguns porquês dos sociólogos terem tanta dificuldade em aceitar que o mundo da sociologia também é regido por condicionamentos de ordem social. Com esse recorte teórico de material empírico específico (as entrevistas, que além da de Cesar pretendemos trazer outras de perfis diferentes) esperamos encontrar surpresas muito interessantes sobre as formas de funcionamento social de um universo que imagina se auto-conhecer e usa, não poucas vezes, a própria sociologia como recurso velador dos processos sociais que operam na produção de sociólogos e de suas respectivas sociologias.

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.