Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Caxambu em fragmentos 4 : micelianas

Esperei um pouco para escrever esse post. Quis experimentar algo parecido com aquilo que Graciliano Ramos descreveu ao falar da experiência de escrever suas memórias de prisão tantos anos depois do evento, e sem o auxílio de notas. Na verdade, essa impressão de estar vulnerável às imprecisões da memória gera um gostinho voluptuoso de estar reproduzindo fielmente uma verdade quase inventada...


No meu caso o tempo que separa meu texto do evento no qual apresentei meu trabalho são apenas alguns dias. Os dois primeiros dias de GT 30 foram descritos com a parcimônia impaciente do imediato no dito: escrevi minhas impressões logo após a vivência daqueles momentos. A sociabilidade foi aquilo que mais me marcou, o isolamento de ser para aquelas pessoas ilustres um "inútil desconhecido".

Minha apresentação foi um dia depois do contudente posicionamento de Sergio Miceli. Ele havia barbarizado os trabalhos do dia anterior, colocado em questão seus postulados, criticado a maneira leve de lidar com o intelectuais ali sendo analisados. Pontuou a fraqueza metodológica, a secura bibliográfica, o modo de operar. Depois daquele cataclisma o que esperar do depoimento dele para o meu trabalho?

Eu apresentei meu texto depois da Maria Arminda Arruda. O trabalho dela de alguma forma recortava aspectos do meu. Ela busca problematizar, se eu bem entendi, as razões pelas quais a literatura social dos anos trinta se desenvolve na periferia das regiões onde ela supõe que o modernismo se afirmou (São Paulo- Rio) e de alguma forma se difundiu para as regiões periféricas do Brasil(o professor Dimas criticou-a justamente nesse ponto por achar que existe aí uma analise difusionista da cultura que não condiz com a realidade da produção cultural brasileira naquele período). Meu trabalho trata um aspecto mais específico dessa produção, tentando localizar a posição simbólica de uma obra (sua função, seus objetivos, seus conteúdos) a partir da análise documental da maneira que essa obra fôra recebida. Uso o caso emblemático da obra de Graciliano Ramos, que tem sido reverenciada por sua qualidade formal em detrimento de obras que seriam menos cuidadosas nesse sentido (a de Jorge Amado, por exemplo, que seria mais de um realismo chulo), para mostrar que essa obra fôra recebida em função de qualidades pouco ligadas a sua sutileza formal.

O trabalho foi muito bem acolhido. O professor Dimas, que é de literatura na USP, disse que era um trabalho que trazia reflexões importantes para quem exerce o ofício da crítica. Ele ponderou, porém, que no meu texto existia um certo "ímpeto juvenil", uma maneira por demais incisiva de defender certos pontos de vista que podem ser vistos como problemáticos.

Durante a apresentação, lembro agora, eu estava muito nervoso e com medo do Miceli. Tanto, que falei meu texto quase que olhando apenas para ele. As vezes me dava conta do cacuete, e tentava desfazê-lo, o que fazia transparecer ainda mais meu nervosismo nas trepidação de minha voz e no esforço desajeitado de reter a tremulação do microfone em mãos que só queriam ser mais firmes. Como algo do meu trabalho dialoga com elementos do trabalho dele, meu receio era de ser acusado de "uso indevido" ou de "tratamento desarticulado" da sua proposta de trabalho.

Depois do depoimento do Dimas, vi que o Miceli havia pedido a palavra para comentar meu trabalho. Ao contrário de Dimas, mas sem contrapô-lo, elogiou a disposição para "enfrentar os grandes" e a qualidade do trabalho que com uma análise de contexto trazia a obra para narrativa que contemplava elementos importantes de sua inteligibilidade sociológica.

Depois a Lilia Schwarz chegou a ler um trecho do meu texto onde ela dizia estar explícito aquilo que o Dimas havia salientado. Ele diz na página tal " A sociologia não pode titubear quanto ao seu papel...". Dimas havia colocado também como crítica importante, além de meu estilo por demais enfático, que o fato de me servir apenas de uma fonte, o Arquivo Graciliano Ramos, também era problemático do ponto de vista da validação histórica do meu argumento que se daria de forma mais completa, o que concordo plenamente, a partir do cruzamento de diversas fontes. Sugeriu-me que buscasse encontrar os números do Boletim de Ariel (revista de crítica literária talvez a mais importante na época), para tentar confrontar a documentação que tenho com um material mais completo de produção da crítica.

Eu respondi às críticas de maneira honesta. Disse que o meu estilo virulento tinha como origem, além de minha juventude, uma razão institucional, na medida em que o tipo de trabalho que venho defendendo não condiz com o modelo de excelência vigente na instituição na qual desenvolvo meu trabalho. Falei que por conta do tempo, para minimizar os efeitos da seleção dada de textos contidas nos recortes de jornais recolhidos por Graciliano, faço uso de um esquema de análise que considera bons e maus críticos alí contidos da mesma maneira: o critério é identificar que atributos qualificavam a obra como de boa ou má qualidade, o que tornou possível a descrição de um padrão de leitura que condizia com as propriedades da obra que estava sendo avaliada. Dimas também havia criticado o fato de eu não ter anunciado desde início do texto o que vinha a ser sociologia implícita, o que dificultava a tarefa do leitor. Eu concordei com a crítica, e disse que aquela falha era tributária do esforço de alocar no mesmo texto partes díspares de minha tese, o que levou a um condensar de elementos de maneira estruturada em função ainda da construção do objeto de estudo. É a ausência da retórica, que é que produz uma clareza de propósito, a razão do defeito apontado. Na verdade, no meu texto o sentido vem junto com a trajetória do pensamento, ele não é então posterior, mas concomitante ao exercício de reorganizar as idéias depois de uma pesquisa já pronta. No meu artigo não tinha ainda a camuflagem onde os esforços que trazem o rendimento heurístico não mais se encontram, onde a modelagem do texto apaga a luta constante para captar o melhor caminho para produzir a melhor inteligibilidade. Eu concordo, é um defeito dificultar a tarefa para o leitor. Mas quando apagamos os traços de nossas dificuldades em detrimento da clareza retórica do "já descorberto" não estaríamos em nome dessa preocupação sendo desonestos ocultando os processos que nos levaram ao nosso propósito?

Para mim o GT e a Anpocs foram um bom momento de reflexão para minha tese. Talvez o único momento onde tive um retorno crítico importante onde quesões metodológicas e técnicas importantes foram colocadas (sobretudo pelo professor Dimas) para o melhoramento do trabalho. Agora é meter bronca nessa reta final. Pois o locus do trabalho parece não estar equivocado em abosluto.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Caxambu em fragmentos 3

Ontém os trabalhos foram todos de pensamento social brasileiro.Comparação entre Alberto Torres e Rui Barbosa, análise sobre o conceito de mudança social no pensamento de Maria Isaura Pereira de Quiroz, comparação entre Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos.

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Primeiro comentário do debatedor Sergio Miceli: eu não gostei dos trabalhos. Então não vou comentá-los individualmente porque vocês são jovens e eu não quero desencorajá-los. Eu vou apenas dizer o que é que falta no trabalho de todos vocês...

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Existia um clima tenso na sala. Os rostos dos apresentadores estavam sem expressão. Ouviam Miceli dissecar sobre a irrelevância de se comentar os comentaristas já tão comentados. De se fazer isso sem levar em conta a fortuna crítica daquele autor. De aceitar a relevância do autor como dada, sem probelmatizá-la. Cadê a justificativa? Dava para se ouvir os suspiros por conta do silêncio sepulcral que se dera como reflexo das palavras do debatedor. O que faltava naqueles trabalhos?

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E o Miceli usava todo o arsenal bélico e fino da sociologia da cultura para reduzir ao quase nada todos os elementos ainda resistentes de uma história das idéias, segundo ele, extremamente mal feita.

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Não houve resposta em mesmo nível. O que é uma pena. Eu gostaria de ter visto um posicionamento contrário, do Leopoldo W., por exemplo, que apresentara um trabalho engenhoso sobre Villa Lobos no dia anterior e que não recorria sistematicamente aos pressupostos da sociologia da cultura e dos intelectuais. Mais próximo da crítica literária, partindo inclusive de uma reflexão do Antonio Candido do Formação da Literatura Brasileira, ele discorre justamente sobre um ponto de inflexão formal na obra de Villa Lobos que fugiria, naquele ponto, a determinantes externas de cunho social.


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Mas não houve refute individual, só recalque coletivo. Quiseram ler as críticas do Miceli como críticas de ordem metodológicas. Ora, se bem entendo os argumentos ali colocados, e se os levo às suas últimas consequências (que é a própria reflexividade), seria preciso encontrar o argumento institucional não mais apenas na história feita dos intelectuais estudados, mas na história sendo feita daqueles jovens que não escreveram aqueles trabalhos num vázio institucional. A pergunta é: quem são os orientadores daqueles trabalhos, quais são os critérios analíticos oriundos das ementas de aula das instituições que os formaram, identificadores reais das normas as quais guiaram seus esforços reais de interpretação daquelas obras? Sem essa pergunta só tiramos o curativo da ferida e a deixamos descoberta.


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Os trabalhos eram bons? Todos ficaram de acordo com Miceli: não. Sobrou como sempre para o lado mais fraco: o dos pesquisadores entrantes que se caracterizam pela fragilidade na relação de poder estabelecida com os representantes ilustres do pensamento social brasileiro.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Caxambu em fragmentos 2

Chego à sala vazia. Aos poucos as pessoas vão chegando. Capto conversas desconexas sobre um assunto ou outro. As pessoas se conhecem entre elas. Sorridentes, felizes do reencontro.

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E eu só nesse mundo.


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O GT de pensamento social é um antro feudal da intelectualidade brasileira. Estão todos falando a mesma língua (do pensamento social)? Não importa. É a sociabilidade e não os embates intelectuais que apontam meu desconforto.

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O lugar pode ser descrito como um feudo. Um lugar onde quando os plebeus se arrogam a falar algo, as "besteiras" ditas transparecem no desconforto dos "Senhores" que se apressam a dizer "pode finalizar essa pergunta", o que logo minha tecla sap traduziu por: "vamos discutir algo realmente interessante". Para mais a frente completar: “algo no nosso nível de apreensão”.

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Isso deveria parecer natural para mim. Deveria. Afinal, nas regras do jogo acadêmico, o que está realmente em jogo, ou seja, a qualidade argumentativa própria do "pensamento social'' ali posto, deveria ser tido como prioridade. É verdade, deveria me dizer, não vamos peder tempo com perguntas tôlas e sem sentido. Isso faz parte de uma lógica de produção que gera excelência no pensamento.

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Mas aquela sociabilidade me deixou a flor da pele, angustiado: o que é aquilo? Que desconforto é esse?

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Os trabalhos foram bons, de alta qualidade, mas algo que não saberia descrever bem me incomodou profundamente, mais do que em outros congressos que participei. Sim, as exposições foram muito cuidadosas, com intelectuais experientes, talentosos e porque não dizer: eruditos.

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Eu achava que estava preparado, mas nem na França vi semelhante imagem de autoreferenciamento coletivo. Não é intextualidade. É o comportamento das pessoas entre elas que evidencia a forma endogâmica de um grupo que pouco se mistura, ou, para dizer o mínimo, se se mistura, só o faz com alguns “iguais”.

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Eu entrei mudo e saí calado nesse primeiro dia. E meu calar tão raro nessas ocasiões onde os temas me são tão caros tem a ver com meu espanto em ver de maneira tão explícita a segregação regional da sociologia brasileira. USP, UNICAMP, PUC, definitivamente não são em nada parecidas com as uefepeéis da vida.

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Leopoldo Waizbort apresentou um trabalho novo dele sobre Villa Lobos, solicitando uma leitura formalista da obra do compositor... Segundo comentário dele, já respondendo as perguntas, esse trabalho de conhecimento substantivo da obra é fundamental para garantir um equilibrio entre as análises históricas (segundo ele hegemônicas no caso dos estudos de Villa Lobos) e as análises formalistas.

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Outro trabalho que eu gostei foi o de Paulo Renato Guérios. “O uso de trajetória de vida como estratégia de análise sociológica: o caso de Heitor Villa Lobos”. Aqui minha percepção se concentrou mais no trabalho de reflexão metodológica do autor que lidava com uma reflexão a respeito das formas de integrar estudo de trajetória e o contexto social. Isso a partir de uma comparação entre os estudos de trajetória sociológicos e algumas interpreções de Villa Lobos que levavam em conta seu contexto social.

Domingo, Outubro 25, 2009

Caxambu em fragmentos 1

...caramba, essa viagem não acaba. Esse ônibus continua a ziguezaguear como se estivesse em cima do símbolo matemático do infinito. Não quero vomitar. Não posso passar mal, não peguei a porra do saquinho de plástico. Não entendi porque haviam tantos na entrada. O motorista parecia tão tranquilo. Nada em seu semblante transparecia prever tormento na natureza da viagem...


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A sede havia passado. E o enjôo começou a sumir. Eu tinha a Piauí nas mãos. Li o interessante diário da jovem polonesa Marysia Wróblewska. Ele me fez lembrar de muitas coisas pelo avesso. Com aquela coisa de que as vezes, tentando fugir de clichês, a gente termina se tornando um deles. (Não que a polonesinha seja de todo um clichê, não é isso. Mas não seria um clichê uma jovem inteligente e já culta querer fugir dos clichês ao chegar num país de tantos lugares comuns?) Por outro lado, é muito bom ver os mundos que podem ser descobertos por alguém com uma boa educação: abrir-se para conhecer o outro e aprender mais sobre os próprios limites (a disposição dela ao sair de seu cantinho para conhecer algo tão diferente é muito bonita).

Distraído, a leitura me levou para as palavras de pessoas amadas que aterrizaram nessa terra incrível e quase inexplicável que é o Brasil e seus tantos brasis. Palavras que descrevem com espanto o centro de gravidade do corpo feminino estando na bunda, palavras que titubeiam a dor quase sempre disfarçada dos brasileiros ao falarem de sua alegria real, mas sem sal. Afinal, ninguém consegue assumir que ninguém é capaz de assumir completamente o fardo que é viver em meio a nossa violência urbana. Quem sofre, cuida. Mas cuidar termina sendo se manter no medo ao tentar evitar o pior. Padecemos nessa redundância sem sentido.


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Bebi na fonte da Majestade Leopoldina, logo senti os benefícios da realeza: grandes poderes trazem maiores responsabilidades. Daí sentei ainda sentido dos saculejos no juízo causados pela viagem. Fiquei num banquinho esperando o efeito terapêutico da àgua chegar.


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Ainda estava cansado. Mas ainda assim li a matéria sobre Serra. Gostei bastante. Mas talvez porque por demais acostumado com o jornalismo ora marketeiro ora detratante de nossa grande imprensa, achei que o equilíbrio dado por Daniela Pinheiro ao retratar um Serra mais complexo, menos caricato, tendia um pouco em desfavor do pré-candidato. As vozes em off denuciavam com muita ênfase os esforços naturais de pessoas próximas e queridas ao tentarem proteger seu ente de possíveis usos impróprios de suas palavras. Esse recurso técnico, muito usado em entrevistas sociológicas e em descrições entnográficas para contextualizar elementos discursivos de entrevistas, tem um incrível efeito de aclarar as intenções por trás da fala. Em todo caso, é uma matéria de bom, muito bom jornalismo. Ela traça um perfil do lado de Serra, jogando meio que contra ele, através desses recursos do qual eu cito um (a descrição das vozes em off), o que é uma meneira a meu ver muito inteligente de equilibrar uma matéria onde a voz inimiga não pode dar o contraponto realmente ponderado sobre o assunto.


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Hoje acordei às cinco da manhã. Jorge foi novamente super atencioso comigo. Tomamos o café da manhã juntos. Havia um taxi me esperando embaixo para me levar até a rodoviária. Entrei sim, no que viria a ser o inferno das curvas sem fim...

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Toda sua vida para chegar aqui.

Eu e meu amigo Bernardo Jurema passamos um dia inteiro o ano passado passeando pelo Cemitério de Santo Amaro. Tiramos algumas fotos. A idéia era voltar mais vezes. Visitar outros cemitérios, fotografar a vida que vive às proximidades da morte. A atividade causou estranhamento de alguns, o que já era de se esperar. Uns dizendo ser uma bizarrice de nossa parte, outros julgando uma falta de respeito com a memória dos mortos. Ouvimos um pouco de tudo e de tudo um pouco.

O fato é que fomos lá e encontramos coisas muito interessantes. Por trás dos jazigos, tumbas e covas ficam escondidos aqueles traços e troços da vida que só a morte ajuda a decifrar mais um pouquinho. Claro, com o empurrãzinho da consciência amarga dos que ainda estão em vida.

Dia lá dia cá serão postadas aqui algumas fotos. Umas serão comentadas. Já outras, como as que seguem, não. O objetivo: apenas captar aspectos temáticos, para que a imaginação de cada um sugira com mais liberdade aquilo que as fotografias revelam como registro. Uma ironia, um sarcasmo. Tudo vale diante de algo tão indecifrável. Só não vale ter medo da dita cuja... afinal, no final, dia ou outro...

Hoje, começo o trabalho com o Descanço.






A pá inerte.




...




Repouso profundo




...





Apenas descanço




O sebastianismo antenado

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Cometário Cretino

Li esse comentário no Idéias Cretinas a respeito das pesquisas de opinião sobre a queda de popularidade do presidente Lula. Resolvi escrever um comentário cretino porque... tava com vontade:

Bem. Margem de erro, intervalo de confiança, tudo bem. Mas senti dificuldade no entendimento de como a opinião vira estatística e vice-versa. Pense comigo... Se para verificar se uma sopa que minha mãe fez está boa sem precisar bebe-la toda, eu preciso um método amostral consistente que me leve a mexer bem a bendita (a sopa e não a minha mãe, convenhamos...) para evitar distorções na amostra (colherada que darei com sal devidamente distribuído na totalidade da sopa), por exemplo, imagine o que devo "mexer" quando a "amostra representativa" trata-se de uma opinião sobre algo? A sopa a gente até entende o porquê da mexidinha ser tão importante. Mas como é isso com gente humana assim, tão contraditória? A elegância corretiva da "margem de erro" e do "intervalo de confiança" traduzem bem o que de contraditório pode existir numa "opinião"? Fico tão escasquetado com essas coisas.

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Morte de Nascimento do Passo

De Nascimento do Passo lembro de dois momentos: meu pai fazendo aulas de frevo com ele e uma visita que fiz à casa dele com Valéria Vicente.

Hoje vinha ouvindo a CBN no carro e soube de sua morte. Reproduzo aqui um e-mail desabafo de Valéria que penso ser também uma denúncia sobre o trato com nossos artitas.

Gostaria de dividir minha tristeza diante do falecimento do inventor da dança frevo, como conhecemos hoje. Nascimento do Passo foi o grande tradutor de uma dança extremamente subversiva criada no Recife no final do séc. XIX e início do século XX.


O frevo de rua, que de tão debochado ficava fora dos cordões dos clubes de frevo, até meados do séc. XX, foi disseminado através do trabalho pedagógico de Nascimento. Nascimento do Passo defendia o frevo como dança, como ginástica e como terapia. De fato, ao ser afastado da dança que praticamente ressuscitou, morreu. Primeiro afetivamente, depois três AVCs reduziram sua capacidade de movimento e fala. Agora, um câncer no estômago o levou. Antes, uma de suas ex-esposas conseguiu retirar cinqüenta por cento de sua pensão por “abandono de lar”.


Diante da morte:

A sensação de que poderíamos ter sido mais veementes na ajuda financeira e humana. A sensação de injustiça a um homem que deu tudo pela arte e que em troca foi condenado antes do julgamento.

A responsabilidade diante de seu legado.


É importante que se saiba: o Método Nascimento do Passo de ensino de frevo não é mais ensinado na Escola Municipal. A falta de uma política de registro e transmissão para a dança do frevo, respeitando as etapas históricas, suas aquisições e limitações de forma séria, nos coloca como partícipes de uma perda inestimável do nosso patrimônio imaterial. Atualmente, apenas o Grupo Guerreiros do Passo (http://guerreirosdopasso.blogspot.com) mantém o trabalho de transmissão desse método. Curiosamente,este grupo não conta com nenhum apoio público e este ano não desfilou com sua Troça, no carnaval, por falta de patrocínio.

Valéria

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Sarney por Glauber (1966)




Via: Pedro Doria

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Prêmio Florestan Fernandes: indissiocrasias e instituições na SBS




Eu comentei aqui certa vez minhas impressões sobre o congresso do BRASA que aconteceu ano passado nos EUA. Falei naquele momento das relações de poder entre pesquisadores que, brasileiros ou americanos, dependendo de qual instituição representavam, pareciam se situar dentro de uma relação de dominação muito peculiar, onde os intelectuais fixados em universidades americanas tinham maior relevância e se mostravam impaciêntes com certas práticas oriundas de vícios na forma de pensar tupiniquim.

Pois bem, estou no XIV congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia. E a socialidade dos sociólogos parece revelar aos meus olhos, mais uma vez, as relações também discretas de poder muitas vezes camufladas e apaziguadas pelos ritos formais de apresentação do universo acadêmico.


Silke Weber, FHC e o prêmio Florestan Fernandes



Silke é minha professora na UFPE. É uma pessoa a quem respeito muito, porque exerce com muita seriedade, depois de tanto tempo, as tarefas que lhe são dadas como professora da Pós-Graduação. É esse o lado dela que conheço, o da professora antenta e atenciosa com os estudantes. Acho sim muito comovente o entusiamos com que ela anima o seminário de sociologia do PPGS, que considero por várias razões o melhor momento da formação dentro da pós-graduação em sociologia. Seu discurso, coerente com ela mesma e seus sentimentos, seguiu no seguinte sentido: não entendo porque recebo esse prêmio, porque se fiz algo extraordinário, foi cumprir as tarefas que foram dadas a minha geração de garantir a existência da universadade no sentido de formar quadros capacidados etc... Não lembro ao certo o que foi dito, mas a linha foi essa. O que me emocinou, porque condizia com o que vejo nela.

Fernando Henrique Cardoso. Não vou falar da biografia do príncipe, né? Vou direto a linha do discurso dele: eu aceitei vir receber esse prêmio porque, claro, uma das razões, ele tem o nome do Florestan. Depois com aquela modéstia que lhe é tão característica, disse: para vocês terem uma idéia da minha relação com o Florestan, quando eu era presidente e ele ficou doente, eu fui visitá-lo... etc.

Constraste: Silke se perguntava os porquês de merecer tal prêmio, FHC se dava as razões pelas quais aceitou receber a premiação.

FHC e Silke Weber, que dizem eles de nosso universo de produção intelectual? Esses opostos que podem, é verdade, representar apenas personalidades distintas não poderiam também ser vistos como indicadores de concepções institucionais onde USP e UFPE encarnam suas respectivas representações de si no universo de produção acadêmica? Claro que não, me dirão alguns... o príncipe dos sociólogos quase não ensinou na USP. Depois de sua aposentadoria compulsória, ele nunca mais voltou. Como poderia ele representar isso? É verdade, responderia. Mas a idéia de colocar as coisas dessa maneira me pareceu tão natural quanto a de associar o nome de FHC a da USP que o formou. Aquela mesa USP que ele fala hoje em dia com certo falso desdem, insinuando que não aprendeu nada direito ali porque não entendia as aulas que eram dadas em francês... Aquela mesma USP do Florestan que prezava pelo rigor e a cientificidade... Ah, aquela USP aclamada e invejada pela posteridade que a estuda como verdadeiro pilar da fundação institucional da sociologia no Brasil... Quantos não ditos aí ? Quanto ainda para serem ditos?

Por outro lado como não associar o discurso de Silke às condições particulares de produção do saber sociológico na UFPE? Um departamento que teve sim que se preocupar durante muito tempo com a formação de seus quadros para sua própria manutenção.Um departamento que, excetuando alguns esforços localizados encontrados em textos memorialísticos de Heraldo Solto Maior, não encontra força para reconhecer em si mesmo base para ser pilar de fundação de qualquer sociologia no Brasil. Que obra o PPGS produziu que se tornou referência no Brasil? Já a USP...

Sim, FHC é uma figura autocentrada em si mesmo com requintes egocêntricos megalomaníacos (adoro redundâncias que condizem com a realidade dos fatos). Mas ele representa um estado de espírito uspiano de ser... Como Silke, um modo de ser cefichiano da UFPE. E isso... Digo, e nisso, acho que podemos e devemos pensar.

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Modos de aprender, modos e medos de dizer como se aprende... (Notas sobre a recepção de Bourdieu no Brasil)

Aprendi lendo algo de sociologia da educação certas coisas. Talvez a mais importante delas seja a lição que diz que devemos considerar os modos de apredizado como um elemento importante para identificar processos sociais complexos, como os que se evidenciam na descrição de lógicas violentas de “aceitação de si” em alunos “fracassados”, ou com pouca chance de “vencer na vida” através da escola.

Podemos lembrar que falar de aprendizado é lidar com questões caras a sociologia. O que seria da sociologia sem conceitos como assimilação, por exemplo? Ou como o de aculturação?

Na filigrana dos conceitos pode-se dar acento ao primeiro usando o segundo como suporte semântico. Nesse sentido aculturação é um tipo de assimilação onde se envidencia com mais ênfase a violência das relações pedagógicas presentes nas distâncias sociais que as diferentes culturas (socialmente marcadas e marcantes) produzem. Por exemplo, o fato de filhos de indivíduos com pouco grau de escolaridade terem de enfrentar mais dificuldades no processo de assimilação do conhecimento exigido pela escola por lidarem cotidianamente em suas famílias com uma linguagem por demais distante daquela da sala de aula.

A palavra que explica e justifica o aprendizado de tipo escolar em qualquer lugar do mundo é uma só: pedagogia. Aqui não me atenho a etimologia. Da simples descrição da postura pedagógica e do contraste dela com as maneiras de aprender dadas naturalmente no mundo ( apredizado mimético, por imitação, por repetição mecânica, por tentativa e erro, etc.) –, encontramos em crisálida, sem mais considerações, uma separação estrutural e estruturante que se não explica “replica”, representa, reproduz a estrutura social assim dividida e hierarquizada: o verbo e a teoria de um lado( o de cima), o fazer e a prática de outro (o de baixo).

Existe um texto estupendo a esse respeito que exemplifica bem tudo isso que digo em linguagem teórica. Pena que o contexto que a teoria abarca seja tão diferente do nosso. Aliás, o que é triste é que não façamos do contraste entre os contextos um pretexto para entender melhor como se agencia as lógicas das desigualdades sociais através de nossas escolas pelo Brasil a fora. Mas isso é um outro papo...

O texto a que me refiro é o La Noblesse d’État(1989). Livro que por sinal, incompreensivelmente, ainda não foi traduzido no Brasil. E isso é incompreensível porque o livro retoma e refina teses do La Réproduction (1970) que foram abundantemente usadas e debatidas por aqui, inclusive de maneira muitas vezes inócua, tendo seu conteúdo servido apenas para apresentar suas idéias e teses como mero discurso refratário do estruturalismo reprodutivista, que no final das contas, diziam nesse debate, tinha o grande defeito de não levar em conta o potencial libertador da educação.

Grande balela, o livro velho, datado dos anos setenta, mas em certa medida ainda atual, tinha muitos defeitos, sendo o maior deles, a meus olhos de hoje, o de querer produzir muito precocemente os “elementos para uma teoria do sistema de ensino”. Não os tinha. Porque a Escola francesa não era nem é a Escola. E sim uma, ela representa um sistema de ensino. Mas era um trabalho extraordinariamente contra-intuitivo que tratava o mito da escola republicana francesa de frente, numa época onde isso soaria como blasfêmia, uma afronta ao alicerce do regime replublicano como um todo. Do ponto de vista metodológico o texto descrevia de maneira competente questões de difícil acesso ao sensível. E mérito maior: usava as ferramentas da sociologia - aliadas a uma reflexão lógico-filosófica extremamente exigente(é só lembrar o gráfico que reproduzia as relações lógicas entre as partes do livro)-, para caracterizar a homologia das estruturas que faziam com que a escola republicana ao invés de funcionar como garantia das igualdades de condições, terminasse por ser na verdade a vilã que ajudava a perpetuar a reprodução das desigualdades sociais. Mas me parece que pouco daquela metodologia foi realmente assimilida, quem dera criticamente assimilada, pelo debate acadêmico brasileiro. Parece que o fato de já existir uma separação mais visívil, socialmente marcada, entre a escola pública e a privada, proibiu ou inibiu a vontade de conhecer os mecanismo de funcionamento da estrutura escolar que coadunam ou não (vai saber!) com a da estrutura social correlatamente hierarquizada. Mas uma vez é uma pena. Mas isso é um outro papo...

Nosso papo conta aqui que Bourdieu no Noblesse d’Etat descreveu em nuance algumas contradições insolúveis no processo de seleção da nata intelectual da qual, vejam só, ele mesmo fazia parte. Insolúveis, é preciso dizer, não por serem metafísicas ou paradoxais no sentido teórico do termo, mas por ganharem sentido específico ao designarem os nóis tensos existindo nas avaliações, que marcam e separam, articulam e escamoteiam o social nas avaliações acadêmicas, sempre escolhendo os “melhores”, para e pelas práticas que egendram e estruturam o ensino superior de alto nível na França.

Traduzo aqui uma parte para vocês:

“ As diferenças entre as disciplinas recobrem, em duplo sentido, diferenças sociais: as disciplinas canônicas, como o francês ou letras clássicas e as matemáticas ou a física, socialmente designadas como mais importantes e mais nobres, consagram estudantes mais frequentemente oriundos de familias abastadas tanto por sua posição social quanto por seu capital cultural, mas também proporcionalmente esses estudantes são mais numerósos a terem seguido a via real dos Lycées e as sessões clássicas da 8ª série ao científico e a ter saltado de turma no estudo secundário, e são mais informados das orientações e das carreiras possíveis. Nada de surpriendente dentro dessas condições se a hierarquia escolar das disciplinas coincide com aquela que se estabelece segundo a idade média dos laureados e que vai das matemáticas à física e às ciências naturais dentro das matérias científicas e do francês ou letras clássicas à história e geográfia ou línguas, para as disciplinas literárias.

Uma das melhores provas do privilégio acordado aos valores carismáticos que leva a instituição escolar a ignorar o trabalho propriamente escolar de aquisição é o culto assumido à precocidade, valorisado como índice do “dom”.

A idéia de precocidade é uma construção social que se define apenas na relação entre idade na qual se realiza uma prática e a idade considerada como “normal” para sua realização ou, mais precisamente, a idedade modal a qual ela é realizada dentro da população de referência-, ou seja, em se tratando da precocidade escolar, a idade modal dos indivíduos encontrados em um certo nível de estudo.Se vê imediatamente que, como a idéia de precocidade sexual supõe a diferença a uma definição mais ou menos fortemente instituida da divisão em classe de idade, a idéia de precocidade escolar supõe a existência de um cursus distribuído em classes escolares marcando a mesma quantidade de etapas (gradus) na aquisição progressiva dos conhecimentos e associadas a uma idade determinada: ora, como mostrou Philippe Ariès, uma tal estrutura só se constituiu a partir do início do século XVI. A pedagogia indiferenciada da Idade Média ignorava a idéia de uma relação entre “a estruturação das capacidades e aquela das idades”. A medida em que a estrutura do cursus se precisa e se endurece, particularmente a partir do século XVII, as carreiras precoces se tornam mais raras e é neste momento que elas começam a aparecer como um indício de superioridade e uma promessa de sucesso social.

O aluno precoce, que o limite é a “criança prodígio” ou, como se diz hoje, o “superdotado”, atestaria, pela sua rapidez quase miraculosa de seu aprendizado, a extensão dos dons que lhe permitem economizar o lento trabalho de aquisição o qual são destinados os indivíduos ordinários. Na verdade, a precocidade é apenas uma das retraduções escolares do privilégio cultural. Observa-se dessa forma que a parte dos laureados que o pai e a mãe detem um diploma superior ao segundo grau completo passa de 38% e 3% (respectivamente) entre os que tem 18 anos ou mais no penúltimo ano antes do vestibular, ou 19 anos ou mais no último ano, a 39% e 21% para os 17-18 anos, 52% e 31% para os 16-17 anos, 69,5% et 37% pour les 15-16ans (as origens sociais variam segundo a mesma lógica). Nada de surpriendente dentro dessas condições se aquilo que designa-se como precocidade, e que é na realidade uma manifestação da herança cultural, está estreitamente associado a todos os índices de sucesso.

A idéia de dom é tão fortemente ligada a de precocidade que a juventude tende a constituir em si uma garatia de talento. Dessa forma, os jurados da agregação podem reconhecer um concurso “brilhante” da parte dos recem chegados, dos “novos talentos”: “ Ora nós temos visto este ano muitos desses jovens recrutas se distinguir. De vinte-sete recebidos, conta-se quatorze candidatos não tendo ensinado, e oito entre eles são classificados entre os dez primeiros (...). O sucesso deles não nos faz esquecer os méritos dos professores em exercicio que, estando em condições de trabalho menos favoráveis, forneceram um esforço valoroso e triumfaram das dificuldades. Mas aos que se afirmaram desde o seu primeiro concurso nós reconhecemos não apenas de ter animado a prova oral pelo seu entusiamo e seu desejo de convencer, mas também por nos ter fornecido um precioso testemunho” (concurso de agregação de gramática masculina, 1963). “ Na prova oral, os “quadrados” [cadidatos mais jovens] se revelam frequentemente os melhores: mais “vivos” na entrevista, mais “despertados”, mais “disponíveis”. Ao longo do concurso, o peso se substitui pela graça (concurso para entrar na École normale superieur d’Ulm, prova oral de filosofia, 1965). O estudante precoce, criança querida do juri é objeto de uma indulgência especial, suas lacunas e seus erros podem mesmo, a título de “pecado de juventude”, concorrer a provar seu talento: “ Elas são mais jovens que os anos precedentes. Não devemos pensar que muitas pecaram pela falta de maturidade, d’experiência, e que seus defeitos poderiam ser rápidamente corrigidos (...). Sob a falta de destresa [gaucherie] delas, sob a igenuidade delas, as vezes dons e qualidades sérias que são de mesma forma promessas (concurso de agregação de letras modernas feminino, 1965).

Na verdade, a precocidade é apenas um dos indícios, mas um particularmente certo, do modo de aquisição de cultura que privilegia a instituição escolar. Se os sistemas de maneiras que distiguem as taxonomias escolares remtem sempre (qualquer que seja o grau de refinamento) às diferenças sociais, é que em matéria de cultura a maneira de adquirir se perpetua dentro do que é adquirido sob a forma de uma certa maneira de usa-lo. A relação que um indivíduo matem com a Escola, com a cultura que ela transmete e com a língua que ela utiliza e exige depende dentro de sua modalidade da distância entre seu meio familiar e o universo escolar e de suas chances genéricas de sobrevida dentro do sistema, ou seja da probabilidade de acessar uma posição escolar determinada que é objetivamente ligada ao seu grupo de origem. Desta forma, uma vez que acredita-se reconhecer as nuances indefiníveis que definem a “facilidade” ou o “natural” as condutas ou os dicursos que considera-se como autenticamente “cultos” porque eles não carregam nenhuma marca do esforço nem nenhum traço do trabalho de aquisição, refere-se na realidade a um modo particular de aquisição: aquilo que chama-se facilidade é o privilégio daqueles quem, tendo adquirido sua cultura por familiarização insensível no seio mesmo de sua família, tem a cultura acadêmica como cultura materna e pode manter com ela uma relação de familiaridade implicando inconsciência da aquisição. [...] " (p.33-36)


Pierre Boudieu(1970), La reproduction: éléments pour une théorie du système d'enseignement

Pierre Bourdieu (1989), La Noblesse d'Etat: grandes écoles esprit de corps

Quem sou eu (no blogue)

Jampa
Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.
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