sábado, fevereiro 18, 2006

Sobre o 6- Labô-Espetáculo Discute-Cena: Primeiras impressões



Cheguei ao auditório da Livraria Cultura. As exposições já haviam começado. O tema do encontro era Teatro de Grupo: Utopia, Resistência e Renovação. A mesa contava com vários grupos de teatro e, de cabeça, lembro apenas de alguns: Labô-Espetáculo, Totem, Santa Fogo, Marco Zero, Galpão das Artes. Deve estar faltando um ou outro, mas para o que proponho que é comentar e não fazer nenhuma análise com rigorismo ou detalhes, já basta. A idéia é apenas colocar algumas reflexões no papel (tela).

A sociologia vai dizer: a arte, e dentro dela o teatro, é um conceito normativo. E o que é que isso quer dizer? Quer dizer que existe uma disputa social para designar com legitimidade o que é e deixa de ser arte, o que é e o que deixa de ser boa arte? Mas o que ler de um encontro como aquele? Como explicar a existência de momentos tão dissonantes como a calmaria das exposições e a tempestade do debate?

Num debate como o proposto pelo Labô-Espetáculo, que tinha como mote inicial a existência de grupos de teatro no Recife (e em Pernambuco-com a participação de alguém vindo do interior representando o município de Limoeiro), não há como não aparecer algumas tensões latentes do mundo social específico do teatro. Essas tensões são muito representativas do tipo de realidade (realidade simbólica e material) onde os artistas locais desenvolvem seus trabalhos. (Isso precisaria de longos comentários a respeito do como se reprensentar essa realidade, de como entender seu funcionamento!)

A própria dinâmica de ânimos das apresentações calmas destoando do acalorado debate pode indicar muito sobre o espaço social das artes cênicas no Recife. Onde existe polêmica há luta por legitimação, diria. E isso deveria ser investigado.Mas a título especulativo diria que não deveria causar espanto aos olhos avisados ver o fato dos temas mais disputados terem sido aqueles lidando com a questão da profissionalização das artes cênicas, ou da industrialização, da criação do mercado, do fazer ou não fazer arte sem incentivo fiscal. O que é arte de qualidade afinal? Que tipos de relação e organização do trabalho artístico produzem boa arte?(Essa questão eu acho particularmente interessante) O que é ser ator? O que é profissionalizar-se em arte? O que é ter autonomia? O que é depender de um financiamento?

O campo artístico é um campo socialmente dependente de outros campos e todas essas questões o ligam, de maneira relativamente forte, às lógicas dos campos político e econômico. Essa relação de dependência do campo artístico em relação ao político e ao econômico muitas vezes não é vivida como tal pelos agentes interessados(a classe artistica em geral). Isso ocorre porque o elemento de refúgio da lógica propriamente artística do teatro, que tenta com todas as suas forças inverter os valores dos outros campos para legitimar-se como tal (lembro de Virginia falar sobre alguma necessidade quase instintiva do ator ao trabalhar sua expressão), parece nunca ser o suficiente para manter-se constante, mas mesmo nessa insuficiência ela serve para esconder o sistema de dependência escondido na chamada“necessidade de atuar”. Claro que essas considerações são de ordem muito genéricas a respeito de lógicas que organizam de maneira muito ampla os espaços sociais. Seria preciso entender mais e com mais detalhes a história do campo das artes cênicas e de seus agentes (atores, diretores, cenaristas, etc.) em Recife para poder captar as suas lógicas próprias.

Um exemplo de tensão

Pensar a temporalidade do Teatro de Amadores de Pernambuco e não perder de vista os problemas de legitimidade que o próprio campo artístico propõe, eis uma tarefa a ser feita por sociólogos das artes aqui no Recife. Vejam que o TAP foi discutido a partir de uma comparação entre as lógicas dóceis das relações de trabalho do teatro amador em oposição às competitivas e frias lógicas das relações do mundo profissional, ocultando assim, algo que me parece evidente e que apareceu apenas de modo implícito em algum momento no discurso dos próprios interlocutores: que tipo de valor propriamente artístico (relacionado a noção de valor artístico ao trabalho de elaboração com preocupação de cunho estético, etc. ) se atribui geralmente às produções do Teatro de Amadores de Pernambuco? Atribuir qualidades históricas (de tempo e duração institucional de um grupo) ao teatro não é dar-lhe reconhecimento artístico. Eis uma das coisas que é dureza num debate como esse, e que é facilmente colocada para debaixo do tapete da consciência (seja ela consciência artística ou não).

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Esboço de auto-alienação

Quem leu o Alienista de Machado não poderia concordar comigo. Mas como concordar com algo se ainda não se disse nada? Esperem um momento, por favor. Não sejam duros comigo antes do tempo. Vocês bem sabem que a narrativa moderna permite esse tipo de estratégia discursiva. Tem gente até que começa texto com vírgula. Tudo bem, não sou Lispector nem tenho status de Joyce. Não comi a tinta da caneta de um Guimarães Rosa nem me lambuzei na doçura de Drummond. Eu começo assim, e o leitor há de me perdoar.

De toda forma... Bem, ao menos nessa forma que é a minha, justifico-me. Aquele Aquiles leitor da obra machadiana legitimamente vai me contestar. Ele está ciente dos limites da ciência da alienação. Ele colocaria com razão a mim e as minhas idéias numa casa de isolamento. Insanidade mental de cor verde, diria ele em diagnóstico reflexivo. E perguntaria: andas comendo capim?

Mas isso tudo não passa de pura suposição. Não conheço os leitores de Machado. Então vou supor outro leitor, alguém mais conhecido...

Outro leitor exporia meu ridículo alegando falta de rigor na apreciação das causas estruturais da análise. Penso num marxista ortodoxo e imagino que ele me lembraria que alienação tem a ver com a mais-valia, com a divisão mecânica da organização do trabalho e, last but not least, com a luta de classes. Alienação, ele corrigiria em tom magistral, alienação tem a ver com o mundo existindo no antagonismo binário onde tudo é tensão entre força de trabalho e capital. O conflito entre força de trabalho e capital vai progredindo e aumentando paulatinamente com o desenvolvimento do próprio capitalismo gerando cada vez mais antagonismos. O futuro necessário é o socialismo. Claro, dirão alguns, você alienou boa parte da análise de Marx... colocando esse marxista ortodoxo para falar no seu texto. Aí eu fico incucado, pensando comigo mesmo, "é verdade, por que é que não estudei mais profundamente e exclusivamente e exaustivamente a obra de Marx?, eu estaria bem menos alienado. Estaria?"


***

Conheci mais de perto nos últimos meses os amantes da alienação. Vejo-os como pessoas inteligentes que odeiam a inteligência e seus “mestres da suspeita”. A libido sciendi, essa vontade de desvendar o mundo nos seus pormenores mais tinhosos, principalmente quando entendida na linguagem natural como ciência crítica, aparece aos olhos desses seres morosos (amorosos de certo irracionalismo) como um sinal de desafeto com o mundo. Ser crítico significa dizer desconfiar de tudo e de todos. Ser crítico não é uma postura epistemológica, mas uma postura ética, uma disposição moral que torna impossível o gay savoir. Bem, ao menos é assim que essas figuras dizem criticar de maneira acrítica a ciência crítica, seja lá o que isso queira dizer.

Eu do meu lado fico apenas a pensar sobre o fato de pensar não ser lá grande coisa. Na verdade , no fato de pensar que do jeito que eu penso não ser grande coisa. É melhor precisar para não ficar parecendo com aqueles criticados por mim.Vejamos o que temos: uma produção mínima com projetinhos inacabados e com reflexões pouco substantivas. Refletir deveria no mínimo ajudar a reflexão a progredir... Bem, mas isso tudo é “churumela”. Tudo que aliena a ação é alienação, por isso o pensar crítico é importante e constante luta contra si mesmo. O sinônimo disso é a reflexividade que vai incorporando as ferramentas da própria crítica como instrumento de nossa reflexão que vai e deve se voltar contra si mesma e assim por diante. Mas e a ação, que diabos é isso? É entrar no mundo do viver fazendo as coisas e depois se perguntar os porquês? É o agir duas vezes antes de pensar? Qual equilíbrio existe entre esses mundos que se contradizem um ao outro pela própria lógica da relação que estabelecem entre si? Pensar a respeito do valor desse pensar me aliena de todo o resto! É isso que penso ultimamente.
Perdoem-me pelo começo e pelo fim,

domingo, janeiro 15, 2006

Uma sugestão para mapear a violência por dentro


Uma maneira de entender a violência é se identificando a ela. Não digo aceitando-a. Seria um despropósito de minha parte. Mas inserido-a na nossa história individual, contextualizando-a em nossas vidas, entendendo como fazemos parte de um processo maior de produção da violência.
Tenho pensado num ditado que minha avó sempre repetia que julgo interessante para pensar mundos invisíveis de nossa violência social: “cachorro que muito anda ou apanha pau ou rabujo”. Ditado que visava limitar o campo de possibilidades do estranhamento antropológico natural da criança-neto, aquele estranhamento possível com a variação mínima existente entre diferentes grupos de pessoas vivendo como subconjuntos de um conjunto mais amplo e homogêneo de uma sociedade. Os grupos existentes na ur-6 poderiam ser classificados em diferentes categorias variando segundo os critérios taxonômicos dos classificadores. Minha avó, católica do jeito que era, tinha mania de posicionar os indivíduos do bem como estando no grupo dos “moços e moças de família”, os do mal eram “filhos e filhas da vida”, os “deixados a esmo”.
Não é minha intenção, naturalmente, fazer um juízo de valor daquilo que minha falecida e amada avozinha dizia. Mas como ponto de reflexão, o fato dela querer no seu discurso, desqualificar socialmente alguns elementos da vida social, pareceu-me relevante. A vontade dela de me proteger dos riscos do desconhecido provável (espécie de reconhecimento de que aquilo que acontece por perto pode nos atingir), dos perigos de um mundo do possível extremamente próximo, mas mantido a distância pela força de um desempenho discursivo, pode dar pistas sobre os modos de apreciação e operação que sustentam uma realidade social vivida como exterior mesmo se compartilhada num espaço físico delimitado e relativamente pequeno. Eis a questão: como é que pessoas de uma mesma localidade, vizinhos geográficos, criam abismos simbólicos entre si que terminam por constituir a invisibilidade social do absurdo da “natureza violenta” de alguns dentre eles? Em outras palavras, o que ler daquilo que ela me dizia para que eu deixasse de lado a “malouqueirada”? O que entender da visão negativa dela sobre a diversão solta e sem controle das ruas? O fundo moral era claro e normativo: cachorro bom, de raça, mora em casa e nela fica. A rua é o lugar do viralatismo sem futuro, lugar de contatos com pulgas perigosas, carrapatos desprovidos de piedade com os caninos de boa índole e família.

Pequena inflexão da soberba sociológica

Pode até parecer sociologia atrasada e barata essa de ficar pensando o mundo social se contrapondo à famosa sabedoria popular. Mas imaginem que desse tipo de visão viralatista da rua, presente no ditado popular, não escapa a sociologia que em raras ocasiões trata de certos aspectos considerados marginais das consideradas margens da vida social. Visão esta em parte responsável pelo que chamamos de miserabilismo na produção sociológica, uma atitude de complacência e condescendência em relação aos mais desprovidos: "pobrezinhos", "coitados", "quão horrível é tal situação". E quando trata de maneira diferente, o faz no mais das vezes naquele sentido meio tosco da crítica que quer sentir-se gloriosa de si mesma, o faz visando o benefício do narrador do qual falava Foucault : aquele sentimento de liberação que o fato de expor em denuncia uma repressão produz em prol do locutor da denuncia. Quando mais atenta, atina para as antinomias de sua própria cegueira: constata em si mesma as variações entre miserabilismo (viralatismo do povo) e populismo (pedigrismo do povo). O populismo que é um miserabilismo invertido, pois, no lugar do « coitadinho », do « pobrezinho », propõe o “bom selvagem”, o “homem de dignidade”, aquele que “mesmo se pobre e lascado” nunca desvirtua. O homem que mesmo semi-alfabetizado “toca rabeca de maneira tão magnífica quanto um bom violinista clássico toca seu violino”, o homem que apesar dos pesares não pesa tanto em suma. O ponderar desses limites analíticos pode ajudar na reflexão.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A ausência


Depois de tanto tempo de descaso, qual o tema necessário? A ausência, claro. Não estive aqui. Renunciei meu direito de escrever besteiras. Deixei de lado o espaço da partilha e fiquei comigo mesmo, ensimesmado. Cara fechada, sem expressões. Falta da dramaturgia no rosto pálido das palavras não ditas, não escritas, silenciadas no âmago do desistir momentaneo. Que brega isso. Mas continuemos. Não estar em lugar nenhum, deseparecer de um espaço, desconhecê-lo. Sim. Esquecer como se faz, como se fez e o como se queria fazer( o blogue). Desprezar todos os textos. Rastejar sem eles. Viver a dialética rarefeita do mundo que se faz da espera. A espera é o ser da ausência. Nem a Lispector diria algo assim. Eu digo. E espero que nem tudo tenha sido falta. Pois não ter conteúdo é falta de consistência nas tripas do espírito. E faltar com a sabedoria é violação da força de vontade. Eximir-se dos erros evitando as tentativas, eis o que de fato é extiguir-se da própria vida.

E volto assim de supetão com essa filosofia de três tostões e um garrincha. Pois Deus é quem fazia dar dribles certos por pernas tortas. Eu, sem pretensão à divindade, entorto filosofias para querer viver com alguma razão(certa ou não). Tratemos de valtar então. Lentamente voltemos. Com toda razão.

Jampa.

sábado, novembro 12, 2005

Carta aberta para todas as mulheres fechadas :
Minha primeira vez : O Organon da minha virgindade


Oi Todas,


Tema difícil, sei. Minhas amigas sempre me falam do “quanto foi dolorido”, do “quanto os primeiros namorados são desajeitados mesmo se cuidadosos”, do “isso e aquilo”. Não. Comigo não foi assim. E penso ser necessário colocar alguns pontos sobre os is. Orgasmo feminino de primeira vez existe. Sou um caso e acho de utilidade pública expor esse tipo de verdade. Galileu disse que a dita cuja era filha do tempo e não da autoridade. Para as pessoas incultas, preciso: o filósofo falava da verdade e não a respeito da utilidade pública. Sou uma pessoa relativamente bem instruída. Por isso concordo com Galileu e afirmo: chegou o dia da verdade. Mas não fiquem pensando que faço isso porque as mulheres gostam de se mostrar diante das outras. Não é isso. Não sou assim. Acho apenas que é necessário mostrar para o mundo que felicidade com prazer é possível desde cedo. Por isso conto, foi assim:

Eu tinha quatorze anos e o nome dele era Carlos. Ele tinha dezoito e gostava de beijar minha boca chupando seu Halls extra forte. Sabor hortelã, claro! Quando as nossas línguas se desgrudavam, ele retinha um pouco do ar gelado na boca para sentir algum sofrimento, e depois, só depois, soltava um sopro suave e cheio de prazer. Eu amava aquele jeito masoquista dele.

Digo mais sobre o Carlos, sei que vocês estão curiosas. Ele era sempre muito cuidadoso e carinhoso comigo. Chamava-me de Béa, de Dengo, Nega (na verdade sou moreninha), de Preta. Eu o chamava de Carlinhos e/ou mãozinha. O que era um paradoxo, pois ele e a mão eram dignos dos aumentativos. Mas o que fazer se carinho requer diminutivos não condizentes com a realidade das coisas? Os seres humanos têm dessas coisas, não é?

Pois bem. Eu e ele estávamos, digamos assim, apaixonados. Todos os dias nós ficávamos horas e horas naquele sarrinho angustiante, aquele conhecido por todos os que “namoram em casa”. Ficávamos no quintal nos amassando e, sempre que ouvíamos algum barulho, o amasso parava e nos torturava...
Nossos corpos tão preenchidos de hormônios e curiosidades se contorciam em busca de um alívio, de um lugar para guardar o desejo. Eu adorava sentir o volume por baixo da calça dele aumentar e isso me excitava, eu ficava louca. Mas me controlava por causa daquilo que poderíamos chamar hoje de “risco pais”, ou seja, a probabilidade de ou meu pai ou minha mãe ou os dois nos dar um flagra. Era uma alegria ter esse medo saudável.

Mas um dia, cansei desse lenga-lenga medonho. Imaginei a mim mesma, talvez pela primeira vez na minha vida, sendo uma mulher decidida e totalmente autônoma. Foi nesse exato dia que cogitei: mas como existir sem transar com o Carlos aqui em casa? Trepar ou não trepar, eis a questão. Podem considerá-la como a primeira e mais importante cotação reflexiva de minha vida. Passei noites e noites em branco. Ficava a imaginar estratégias para dar uma resposta ao meu racionalismo que deduzia sem reduzir meu complexo desejo de experiência empírica. Não há lugares, coisas, palavras a dizer no ouvido que não houvessem passado por meu espírito, minha mente estava formalmente preparada para os tópicos da refutação da sofistica da virgindade. Terminava sempre por me masturbar. Prática que pode ser entendida como uma espécie de misto entre a abstração e o procedimento empírico muito próprio às práticas de validação científica. Com tanto rigor assim, eu gozava. E sempre. Nunca desconfiei do poder efetivo da técnica oriunda de ciência tão refinada.

Voltemos ao nosso assunto. Eu tinha tudo em mente então. Precisava apenas sistematizar os princípios de ação. Escolhi meu vestido. Tudo devia ser calculado. Qual a roupa mais adequada? O vestido. Sim, mas quais as justificativas dessa escolha metodológica? O vestido era a melhor opção porque vinha até meus joelhos. Nas condições empíricas que eram a de minha iniciação sexual, o tamanho da saia importou, pois evitou por antecipação minha, apreensão na família. Mas tudo isso era até então plano meramente formal e ainda em estado mental de realidade. Por indução verifiquei ainda que fosse vantajoso vesti-lo por mais uma razão; uma vez levantada a parte de baixo do vestido, eu era só nudez. E não vesti calcinha, está claro. Vocês já haviam inferido isso, não é? Lógica é algo bom por isso, a partir de alguns princípios podemos entender o resto. Como no sexo, o implícito induz até as últimas conseqüências o que vem a ser explicito. O vestido serviu, assim, para que Carlos entendesse pela ausência (da calcinha) meu desejo de presença (dele dentro de mim). Ele precisava da indução porque às vezes era tão bestinha do ponto de vista da formalidade das coisas. Bestinha, logo ele ficava sempre nos primeiros analíticos (estudos sobre os silogismos) e não conseguia passar para os segundos (as demonstrações).

Eis então que chegou o dia D.Chegada a hora da vinda de Carlos, e eu estava tão certa de mim mesma que sentia mesmo certa serenidade. Ele chegou, falou com meu pai na entrada da sala, como sempre fez. Cumprimentou minha mãe, beijou-a com doçura. Muito educado meu Carlos. Veio em minha direção, inocente, e beijou-me rotineiramente. Sim, era de hortelã, como de costume. Disse de minha beleza num olhar meio excitado. Um anjo meu Calos.

Fomos para o nosso quintal. No início do sarro pensei, é hoje ou nunca. Sou muito atrevida às vezes. Vocês já perceberam, não é?

Parei um pouco o exercício de esfregar e fui expiar através da janela. Os objetivos da expiada eram rastrear, localizar e identificar os inimigos. Meus pais estavam na sala.
A novela das oito era meu principal indício de presença da ameaça familiar nas proximidades. Se a novela acabasse, o risco de alguém chegar dobrava.
Eles assistiam à televisão, eu matava meu Carlinhos.
Mas voltemos. Deixem-me ir direto ao assunto.
Depois de olhar atentivamente o corpo musculoso de Carlos, peguei as mãos dele com mais força, olhei bem decidida bem dentro dos olhos dele. Sem desviar o olhar, colei as mãos dele contra o meu corpo e apertei, firmemente. Ah, aquelas mãos grandes e bem desenhadas do Carlos! Aqueles dedos longos! Eles sim, poderiam ser astros de filme pornô. Só de lembrar fico arrepiada. Mas vamos lá, estou ficando tão enrolada para contar essa história. Não me reconheço mais.
Mas então vamos, continuemos. Olhando nos olhos dele, fiz conduzir suas mãos até meus seios. Ele fez carinhos com os dedos apertando suavemente minhas tetas. O que era aquela agonia fina e espalhada que tomava conta de meu corpo? Tremi. Depois, contornando minhas ancas alcançou minhas nádegas. Transformara-se em um ser autômato e autônomo. Ele apertou forte a polpa da bunda, o que fez doer, mas eu gostei. Sussurrei no ouvido dele, “um pouco mais forte”, “belisca vai”. Ele estava enlouquecido. Eu completamente úmida embaixo. Sem pensar, abri o zipper da calça Lee dele. Começei a sentir aquele cheiro forte de sexo que tanto amo. Toquei no pênis: mácio, duro, quente, roliço. Esses atributos fazem parte da classificação geral dos órgãos genitais masculinos, mas descrevem de maneira peculiar o membro do meu tesouro. Carlos fechava os olhos como quem não acreditava.
“Vai ser ali”, eu disse para ele apontando para uma árvore enorme atrás de mim. Uma mangueira, nenhum tronco poderia ser mais confortável. Sussurrei mais uma vez para ele, “vai ser ali”. Logicamente, mas sem pensar muito, pus minha bunda contra o tronco da bendita árvore. Ele acariciava com os dedos meus grandes lábios e eu estava completamente doida. Aí saiu de minha boca ardente: enfia o dedo, enfia. Ele introduziu o indicador, lentamente. Senti meu ventre contrair. Senti um desejo ainda maior de ver aquele homem dentro de mim. Entreabri minhas pernas. Ele levantou meu vestido. Eu achava que iria transbordar, inundar o nosso quintal. Quando ele me penetrou, não senti nenhuma dor. Nem sequer sangrei. Acho que a marca do meu hímem era boa, Forum, Gup, algo assim... Senti aquele vai-e-vem gostoso. Nesse momento, como quem não aceita um marasmo qualquer, Carlos elouqueceu de vez. Deu uma tapa forte na minha bunda, e, no ritmo mesmo das penetrações, acariciava com os delos minha vagina. Eu tinha vondade de gritar. Contive, Deus sabe as forças que me fizeram calar. Mas sussurei: vai, vai Carlos, eu sou tua, acaba com minha virgindade, acabe comigo. Muito tempo depois li um livro de Freud onde ele falava de uma tal pulsão de morte, reconheci-me tanto alí. Bem, mas voltando. Ele enfiou, depois de ter umedecido os dedos na minha vagina, o anelar no meu anus. Sempre soube que essa história de dedo anelar tinha algo a ver com o cu. Eu sou uma mulher radical, quando perco alguma coisa, eu perco mesmo. Ou melhor, ganho. Porque perder o vulgarmente conhecido cabaço é ganhar uma vida mais feliz e cheia de prazer. Mas não me deixe fugir do assunto. O fato é que naquele momento senti meu primeiro orgasmo. Meus musculos anais e vaginais latejavam sem arder, até chorei de emoção.
Depois desse dia Carlos e eu transamos todos os dias e de muitas formas diferentes. Nunca fui chegada à monotonia. Para mim ele foi uma boa escola de iniciação. Ele foi bom até eu conhecer o Evaristo. Homem maior e mais preparado tecnicamente. Troquei. Desde que me entendo por Beatriz, sou dada. Depois conto sobre o Evaristo.
Como disse, espero que essas minhas confissões sejam úteis para as mulheres felizes e infelizes. Mais para as infelizes, estas deviam e vão descobrir comigo o prazer que é gostar de gozo. Os homens? Não me importo com o que eles pensam de mim, apenas gosto do que eles fazem de mim. Uma mulher.

Até mais,

Beijinhos,

Béa.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Resumai Estrepitococus Est

Cansado do blogue decidi mudar o estilo: estilei. A pergunta será sempre a mesma... Só muda de estilo quem tem um, você acha realmente que...

Blogueado estou. E por isso transcrevo para os meus parcos leitores ocasionais dos meus textos ocasionalmente postados o resumo da apresentação de uma parte do meu trabalho de mestrado:

Título :Analise disposicionalista de São Bernardo: esboço de um estudo sobre a sociologia implícita na obra de Graciliano Ramos
Autor: João Paulo Lima e Silva Filho
Orientado por: Norbert Bandier e Bernard Lahire para obtenção do mestrado em sociologia.


Existe uma tensão no trato das disciplinas sociologia e literatura de mesma ordem daquela distinguindo virtudes filosóficas de racionalidade sistemática. Sociologia e Literatura são geralmente opostas entre si pelas diferenças existentes entre seus respectivos métodos de construção. A literatura estando de certa maneira livre das exigências metodológicas de representatividade estatística, das demonstrações teórico-metodológicas com a produção e análise dos dados empíricos próprios ao trabalho científico. Daí estimando-se, pela oposição, do valor científico de uma em detrimento da outra. E desse fato produz-se um discurso, quase sempre tautológico, sobre uma ciência científica diante de uma literatura literária. Competição injusta e esquemática mostrando uma oposição entre o belo e o técnico, entre o utilitarismo científico e a gratuidade da arte, quando seria oportuno e mais apropriado analisar a tensão mesma, entendida e tida como resultado de um processo socio-histórico específico, como objeto sociológico em si, de maneira a propor uma sociologia implícita de uma produção literária específica, a do romance de cunho social.
No Brasil, país no qual uma tradição literária ocupou um espaço importante na produção de “leituras da realidade social”, tal exercício pode trazer bons resultados heurísticos para a sociologia.

Propõe-se aqui expor uma reflexão sobre um estudo de caso. Uma análise de um romance de Graciliano Ramos cujo mérito pretendido está na tentativa de captar a partir da análise das relações históricas de tensão entre sociologia e literatura, o interesse sociológico de se fazer um trabalho em termos de uma sociologia implícita do escritor e de sua obra. Serão discutidas questões como a da pertinência da homologia estrutural postulada na maioria dos trabalhos de sociologia do romance e as maneiras de se pensar a utilidade da “instrumentalização sociológica” do romance social como também de se pensar o escritor como um “quase sociólogo”.
A apresentação será no CFCH. O propósito é não ficar parado. A data precisa, ainda não sei. Mas o encontro de ciências sociais é do 8 ao 11 de novembro.
That´s all falks!
Jampa.

sábado, outubro 15, 2005

Barbarie

No Brasil ouvimos com certa freqüencia a idéia auto-contemplatória de sermos um povo alegre ( ''o brasileiro é quem sabe fazer festa '') , pacífico (''o Brasil é que é o país, não tem problema com terrorismo, não brigamos com niguém'') paciente( ''a esperança é a última que morre''), tranqüilo e amigo e caloroso...("eles os estrangeiros são frios, nós não, nós sabemos acolher, estamos sempre com os braços abertos,etc.").

O auto-engano é algo terrível.

{Violência

Assaltante de ônibus é linchado até a morte no Recife
Publicado em 14.10.2005, às 20h04
Do JC OnLineCom informações de Sílvio Menezes, do JC

Um assalto a um ônibus ocorrido no final da tarde desta sexta-feira, na BR-101, nas proximidades da Mangabeira, Zona Norte do Recife, deixou um saldo de duas pessoas mortas e uma ferida. Entre as vítimas fatais está um passageiro e um dos assaltantes, que foi rendido por um grupo de passageiros e linchado até a morte. Cerca de 30 pessoas estavam no ônibus interestadual da empresa Progresso, que ia do Recife para João Pessoa, na Paraíba.
Dois homens armados subiram no coletivo, que vinha do Terminal Integrado de Passageiros (TIP), em um ponto de ônibus localizado nas proximidades do terminal da Macaxeira. Pouco tempo depois, já na Mangabeira, eles anunciaram o assalto. Um deles se posicionou na parte da frente do veículo, de onde começou a recolher os pertences dos passageiros, e outro na parte de trás. Um dos passageiros discutiu com o bandido na traseira do veículo, sendo ameaçado com uma arma na cabeça. O irmão da vítima, o vigilante Gilmar Raimundo da Silva, 25 anos, ficou assustado e reagiu. Ele foi baleado na boca e morreu no local.
Na confusão, um grupo de passageiros conseguiu render um dos assaltantes e linchá-lo. O bandido morreu a caminho do hospital. O motorista do veículo também foi ferido com um tiro no pé, mas está fora de perigo. Já o outro assaltante conseguiu fugir com o dinheiro e pertences dos passageiros.}

... Não, violentos são os dinamarqueses. Os "cidadões de bem" do Brasil não cometeriam um crime tão ignóbil quanto o do assaltante tido como "mau elemento". Não. O linchamento, apenas uma brincadeira lúdica no país do futebol, é brincar de quem chega primeiro na casa de Jesus. Por isso vamos armar ou deixar armados os nossos tais "cidadões de bem'', fazedores de justiça com as próprias mãos! Digamos sim, com o não, ao nosso paraíso hobbesiano! Nunca uma frase parece fazer tanta ressonância: olho por olho e o mundo(brasileiro) terminará cego. Uma nação de sega-vidas! E então é verdade que o prefixo cida da palavra cidadão equivale mais, no Brasil, ao sufixo cida da palavra homicida, aquele que mata... Votar sim não mudará muita coisa, mas votar não tem um significado simbólico importante: estamos na terra do salve-se quem puder!

quarta-feira, outubro 05, 2005

Recife e o medo da Etnologia

O cara chega cansado. Os olhos fundos. O sorriso pesado e difícil. Não dedica o tempo necessário ás observações. Os indícios, percebidos e memorizados de maneira precária, indicam a pouca solidariedade do mundo real com fatiga do ponto de vista. O olhar não basta. O descrever, ato necessário mas não suficiente, é e antecipa a dor e a nervura do real.

O doido chega e vai ao cinema MESC da cidade. (Ele é um Mesc, mas se considera um desprovido de mesquindade, a eidade de quem é mesc sem os atributos do MESC. Sem o habitus, sem esse eu adequadamente mediado por disposições duráveis de esvaziamento do ser, o cinema da Fundação se apresenta como um "chez soi" acolhedor, como um espaço percebido e por isso memo "apropriado" - sem próprios ou propri- etários, só propri-otários. Quem são os interlocutores?) O filme foi suavemente percebido, apreciado. Um filme asiático aí, disse na saída com ar mesquinho, ou seja, com uma pequena inclinação Mesc. Depois tinha o filme do Glauber, mas na avalição da proposta de ver Terra em Transe, o maluco hipostasiado pelo fuso pensou: "sem os comentários de Renato, o Glauber não parecerá mais o mesmo... saudade negligente da França e do amigo brasileiro que lá ficara ou medo provisório do presente contido na virulência (violenta?) estética e política do Cinema Novo? Desistiu.

Queria um ônibus, mas terminou pegando um taxi. Na fenomenologia do taxi o eu transcendental, a cada etapa da epoché, vai se desfazendo dos atributos concretos da coisa taxi para "expor" (pôr para fora, extrair) os elementos da "taxieidade" (experiência imediata do taxi) no momento mesmo da percepção. Eis o dialogo com o taxista( taxista entendido como atributo de difícil abstração no processo da redução fenomenológica do taxi, a dificuldade vindo de propriedades-atributo que lhes são próprias, históricas e presentes nele e "percebidas" pelo Mesc sem atributos mesquinhos):

Mesc sem atributos buscando redução fennomenológica (MescSABRF): " E aí, como vai o movimento?" Muito Mesc a pergunta.

Taxista com habitus: " A gente só anda com medo. O problema é que nós não paramos mais para todo mundo. Parei pra vocês porque ví de onde saíram." (Pensei, ser Mesc salva quase sem salvo engano...)

MescSABRF: " O senhor tem poucos clientes?" Olhe, ser Mesc é uma coisa triste.

Taxista com habitus: " Ontém mesmo levaram um por mais de 400 km na mala. Depois deixaram o pobre diabo. Eu não paro mais à noite para jovens, nem para adulto homem. Parei para vocês porque além de ser um casal, ví de onde saíram." (Fiquei impressionado com os atributos 'positivos' da mesqui(n)dade, cheghei até, por distração, a ter ogulho Mesc...)

Taxista com habitus: " Desce logo que aqui é perigoso a essa hora. De todo jeito, onde não é?"

MescSABRF: "Obrigado. Pode ficar com o troco."

Subindo para casa pensei pensando no blogue: Porra, Recife não é mais um retrato na parede (do banheiro), mas como dói. Mas não é a dor uma experiência fenomenológica? Abstrai nego, abstrai.

Jampa.

domingo, outubro 02, 2005

Em Frases

Volta ao Brasil: Recife não será mais apenas um retrato na parede, mais ainda assim, como dói!

Volta na Itália: uma Pompei vulcanizada, uma Florença deslumbrante e imponente; um brasileiro, nordestino e idiota embabacado pela imponencia de uma cultura estranha... O museo da ciência de Florença é pau: instrumentos usados pelos primeiros cientistas modernos (Galileu, Torriceli), e depois a evolução desses instrumentos que vão inscrevendo - não apenas numa mudança na maneira de fazer a ciência, mas também de conceber uma relação do homem com a realidade, com a verdade, sempre e mais do que nunca querendo ser filha do tempo e não da autoridade-, nas modificações e aperfeiçoamentos, as marcas de uma construção: a da ciência como disciplina e rigor autonoma em relação às outras formas de discurso sobre a verdade, como a religiosa ou puramente filosofica (especulativa), por exemplo. Não, florença não é resumível numa frase...

Volta ao mundo cruel: chegar em Paris e pisar numa merda de cachorro de uma parisience dondonca filha da puta e burguesa!

Volta ao blogue: fazia tempo. Mas o tempo é filho da verdade. E a verdade é filha do tempo. Nessa putaria entre Deuses (em específico, safadeza de Cronos com a derme da Episteme!), o tempo some o tempo todo para ficar fornicando com a mãe da verdade. Aí o Blogue, filho de um modesto filho dos espaços físicamente medidos em termos de "horas", "minutos", "segundos", "fração de segundos", não encontra a justa medida para a mesura de suas inquietações mais mundanas... Em quantas frações de segundos um homem pode denegar seu tempo perdido o tempo todo?

Sem volta: recomeço pois e a saga continua. Mais uma volta sem volta: escrever é preciso, ecrever não é preciso.

Saudações Jampianas...

quarta-feira, agosto 24, 2005

Pequena alegria pessoal em meio a miséria nacional



Feito. Fim de mais um ano acadêmico e o trabalho inicial da tese já pode ser entregue. A Padaria Espirtual figura agora como objetivo de mais três anos de pesquisa e deverá, nos passos seguintes, ser comparada com outros grupos poéticos literários, acho que possívelmente um francês de mesma época, como o "Zutistes"...

Estou feliz. Não é nenhum chef d'oeuvre, mas as análises dos textos dos padeiros rendem boas reflexões sobre tipos de socialização em curso numa sociedade onde a escola é uma instituição que não produz ruptura entre as lógicas da casa e àquelas da rua. Tentei analisar os efeitos de um suposto de tipo de continuidade entre família e escola, continuidade geradora de tipos de sociabilidade específicos, especificamente bem cordiais(afetivos). A heteronomia dos campos intelectual e artistico no Brasil é em muito tributária das lógicas das práticas sociais produzidas por esse tipo de socialização continua no qual valores atribuídos à esfera familiar parecem transbordar em todos os níveis da vida social.

Segue aqui à introdução para os leitores em língua de Mollière:



Le défit pour un sociologue qui veut comprendre une réalité sociale périphérique n’est pas très différent de celui que doit relever le sociologue qui travaille sur les grands centres, en ce qu’il s’agit, dans les deux cas, de respecter la sévérité des contraintes à appliquer en matière de recherche empirique, et de faire preuve de précision et de rigueur dans l’administration de la preuve. De même, il nous semble que dans les deux cas le chercheur doit résister à la recherche permanente de l’originalité. Il doit toutefois toujours reinterroger la pertinence des outils conceptuels et /ou méthodologiques qu’il met en oeuvre. Nous pensons que la confrontation d’un certain nombre d’outils conceptuels et méthodologiques ayant déjà fait leurs preuves appliqués à des réalités européennes, et françaises en particulier, à des objets nouveaux situés dans des contextes différents, peut être une manière de ‘booster’ la sociologie, qui trouve là l’opportunité de questionner critiquement la portée heuristique de ses outils. Ainsi nous trouvons dans la Padaria Espiritual, ou Boulangerie Spirituelle – groupe de poètes brésilien de la fin du XIXe siècle, un objet privilégié pour mener à bien une réflexion sur certains concepts, à travers l’analyse sociologique des pratiques artistiques de ces poètes et de leurs publications.
Dans ce mémoire, nous allons commencer par effectuer une analyse de la génèse de notre propre travail. Nous situerons les possibilités et les limites analytiques de notre cadre théorique vis-à-vis d’un nouvel objet, tout en essayant de montrer sa continuité avec notre travail de Maîtrise. Pour ce faire, nous retracerons les origines de nos préoccupations théorico-méthodologiques dans le processus de construction de notre objet de Maîtrise. Nous essaierons de saisir, à partir des résistances que nous avions perçues de la part de la réalité empirique étudiée, de quelle façon nos outils conceptuels doivent être revisités afin de s’adapter à cette réalité. Pour cela, nous nous appuierons sur des usages réfléchis du cadre bourdieusien effectués par Norbert Bandier pour étudier la Boulangerie Spirituelle, et sur les critiques que Jean-Claude Passeron et Bernard Lahire ont fait à certains usages de la théorie bourdieusienne – nous nous intéresserons en particulier au réalisme conceptuel, c’est à dire à l’usage systématique de notions comme celles de champ et d’habitus tendant à produire des généralisations abusives.
Nous poserons ensuite les bases théorico-épistémologiques de notre réflexion. Nous analyserons les principaux enjeux d’une sociologie de l’art et nous étudierons leurs rapports avec les enjeux d’autres domaines sociologiques, ceci dans le but de nous situer par rapport aux grandes lignes de l’interprétation sociologique lorsqu’il s’agit de traiter des phénomènes culturels, artistiques. Puis, dans ce même but, nous introduirons le débat plus spécifique que notre objet a suscité autour des conditions de transférabilité des concepts sociologiques. Nous étudierons la façon dont le cadre bourdieusien est utilisé au Brésil dans les travaux de Sergio Miceli, principal représentant de l’analyse bourdieusienne au Brésil ; puis nous contrasterons son point de vue avec ceux de Daniel Pécaut et de Simon Schwartzman afin de mesurer l’impact et les spécificités propres aux cadre bourdieusien en termes de critique au Brésil. Enfin, nous nous situerons nous-mêmes par rapport à Miceli en vue d’expliciter les spécificités de notre propos. Nous adopterons une posture particulière par rapport à la sociologie de la domination et de la légitimation afin de rendre explicites les assouplissements théoriques que nous proposons.
Pour finir, nous étudierons les logiques de la pratique intellectuelle des agents du champ intellectuel brésilien à l’époque de la Boulangerie Spirituelle. Pour ce faire, nous analyserons les stratégies d’entrée dans le champ à travers l’étude des stratégies argumentatives de trois intellectuels de l’époque : Thomas Pompeu de Sousa Brasil, Antonio Sales et Jose de Alencar. Nous montrerons que ces logiques d’action ont à voir avec des types de socialisation particuliers, producteurs d’une sociabilité entre les intellectuels liée aux logiques de la sphère privée. Nous mettrons également en évidence une disjonction entre chanp et habitus intellectuel au Brésil. Puis nous verrons, à travers le repérage d’affects, comment ces logiques se manifestent dans la forme même des textes publiés dans O Pâo. Enfin, nous évaluerons la portée heuristique de la notion de disjonction entre champ et habitus par un retour réflexif sur la notion elle-même et par une mise en parallèle de cette notion avec d’autres éléments explicatifs des logiques d’action des acteurs du champ étudié.
O que tiver de ser, será!
Abraços,
Jampa.

sábado, julho 30, 2005

PT saudações PT: corrupção histórica e corrupção petista


Li no Jornal do Cemmercio de ontém um depoimento no mínimo engraçado. Um deputado do PT falava de « corruptos históricos ». Taí uma boa maneira de distinção : pior do que ser corrupto é vir sendo corrupto a muito tempo, é ter uma história de corrupção. Uma idéia cretina e burra além de deslocada e política, no pior sendido que a palavra política pode ter. A crise é reveladora da crise. Parece doença. O partido descobriu um tumor malígno em estado já bastante evoluído. Internamente o cancro parece ser centralizado no campo majoritário(hoje corrupto, só hoje? Só ele?). E tudo indica que se escapar com vida o doente vai precisar de terapeuta. Não é de terapeuta que precisam os que perdem um membro do corpo e começam a sentir as dores das marcas deixadas pela perda ? O PT vai mancar ? Vai usar tapa-olho ? Não seria um erro esse o de condicionar o debate interno ao esforço do PT de amputar a parte do corpo tida como doente?

Essas perguntas não são retóricas. Ela são reflexos (não chegam a ser reflexões) de alguém que acompanhou as últimas campanhas políticas dos candidatos do PT em Recife nas eleiçoões municipais e estaduais. Aparelhamento de sindicatos, lógica capitalista e mercantil de busca e divisão dos votos (inclusive com a prática do clientelismo e da compra de votos) fazem parte do modo de alguns petistas buscarem o espaço no poder. Nesse sentido era incrível e triste perceber no discurso de alguns militantes a idéia segundo a qual sem isso, sem esses instrumentos históricamente desprezados e criticados pelo discurso oficial do partido, as eleições estariam perdidas por antecedencia. E, com a crise, não seria esse tipo de prática que deveria está sendo questionada ? Como o PT veio a ser tudo aquilo que questionava historicamente ? E mesmo se levado a sério o problema da operacionalidade dos instrumentos mediadores por uma disputa efetiva do poder, não parece tal discurso abstrair a história daqueles fundadores do partido, as história dos “piões ganhando eleições”, dos trabalhadores, ainda trabalhadores, disputando os espaços políticos por meios e mecanismos desatrelados do grande capital ?

A ética nunca teve nem nunca terá posição política, eis o que deve ser o maior ensinamento dessa crise aos antigos supostos detentores do « monopólio da ética ». A moralidade de uma instituição e dos individuos que a ela se integram depende de uma prática que só se distingue efetivamente(e não apenas discursivamente) de outras práticas se for concretamente diferente das demais. Pode parecer tautologia o que digo, mas como não ver valor numa redundância reveladora de uma postura tão imprópria como a daqueles que pensam que, pelo fato de ser de esquerda (e ser de esquerda parece que é sempre sinônimo de progressista, gente boa e, por que não dizer ético ?) estariam imunes ao despropósito da corrupção mais cínica ? Ninguém é « éticamente bem sucedido » porque é de esquerda ou porque é do PT. A defesa ridícula de alguém que tenta se defender dizendo que não pode ser acusado de corrupção por « corruptos históricos » me faz pensar nas dificuldades as quais o partido terá de enfrentar se quiser encontrar as boas muletas para sair dessa crise macando, como não poderia deixar de ser, mas com alguma dignidade.
Jampa

quarta-feira, julho 20, 2005

Lula: ou a tentativa inútil de Jampa de ser sociólogo


Dizer que o povo mesmo quando chega ao poder é vítima de si mesmo pode parecer puro miserabilismo. Mas me arrogo à tetativa e ao descuidado e intento dizer que no caso de Lula (homem do povo e presidente da república) nada parece ser mais verdadeiro e sem ismo. Não falo da crise política (que por sinal ninguém parece (se) perguntar se é uma crise da política ou de política ou da falta de política ou da ausência de certas políticas para que no fim tudo pareça apenas um "é tudo política mesmo"), mas da forma com a qual tratamos de salvar em algum sentido o nosso presidente(se confio nas pesquisas de opinião sobre a credibilidade estável dos brasileiros em Lula) ou em criticá-lo. O nosso lider político carismático é vítima de suas ilusões voluntaristas de sindicalista, é vítima de sua ligação direta e não mediada com à retórica(que no seu caso não é um discurso que dá "impressão de improvisação", como num discurso acadêmico, mas é improvisação mesmo), é vítima mesmo das análises sempre "intencionadas" para bem e para mal dos "filósofos" brasileiros de primeira grandeza sempre aptos a dizer para os homens do povo "o bom caminho da razão" nas frases recapitulativas de tipo "eu não disse que ia ser assim" ou, em tom mais condizente com a auto-convicção desses dententores do saber "après-coup", " tá vendo, não quis me escutar quando criticava isso e aquilo outro". Não ignoro as resposabilidades, mas reconhecendo a arbitrariedade de certas lógicas escolho falar da igenuidade e da ignorância.
O povo é vítima do fato de ser povo poderia ser um bom chavão de contorno parcialmente análitico em termos sociológicos e Lula seria seu ideal tipo mais completo. Pois o povo vem sendo vítima do populismo e do miserabilismo do povo. Nada é mais social do que o indivíduo, diz-se em sociologias comtemporaneas. Lula, esse ser social imbuído de povo.
E, do outro lado mas de mesmo lado, esquerda e direita de uma "exterioridade" do poder, nós das opiniões "extra-ordinárias", opiniões do "não-povo", continuaremos em nossa parcialidade cínica de detendores da moral sagrada a criticar até o fim dessa crise a incarnação do mal nas "pessoas corrompidas pelo poder". Nós, vítimas do povo sem ser povo, nós intelectuais íntegros e de reconhecimento, não nos reconhecemos nesse governo de corruptos, dizem os sabichoões.
E Jampa que lê todas essas abobrinhas nos jornais todos os dias parece se apoquentar e, na posição que é a sua, àquela de estudante de sociologia com posição familiar e social privilegiada por causa da história recente de chegada ao poder do PT, não cosegue julgar com a devida distância, porque na sua posição qualquer tomada de posição parecerá indevida em termos de distanciamento, oferece apenas uma divagação sem conseqüencias ao tema de atualidade.

segunda-feira, julho 04, 2005

"Mas a reflexividade - atividade apontada a você como desmistificadora - também não seria assunto de especialista! ?"

Sim, mas o verdadeiro pensador ironiza a reflexividade assim como o verdadeiro filósofo, como disse Pascal, ridiculariza a filosofia. Assim sendo, é preciso aceitar o desafio inscrito no illusion da escolastica, na pretensão escolastica de universilidade, que é na verdade, quantos já não o disseram?(Nietszche, Witggenstein,etc.), efeito da universalização efetuada pela razão, e, descreditando mesmo se ainda crendo na força dialética dessa razão, ou seja, intrumentalizando a razão escolastica contra si mesma, num racionalismo histórico radicalmente reflexivo, produzir uma compreensão mais real entre as diferenças do "mundo onde vivemos" e do "mundo onde pensamos o mundo". Porque talvez o maior erro da "raison raisonante" seja esse de fazer economia da reflexão sobre as condições socio-históricas da universalização efetuada pela razão mesma. Economia que produz uma auto-confiança desmesurada do homem nos valores emancipadores da verdade propiciados pelo esforço da razão escolastica (principios da Aufklarung em suma) .

Claro que o meu comentário do blogue foi uma crítica fácil que implica a aceitação comum(doxa esclarecida) da superioridade da razão crítica se comparada à opinião pura e simples do senso comum mais banal (doxa stricto senso). Ele visava traçar o intinerário da crítica que tem como obrigação de doxa esclarecida de blogueiro restituir a diferença de nível de reflexividade entre tipos de construção de opinião distintos (as duas doxas em questão) sobre a relidade(episteme) das coisas do mundo(no caso da doxa esclarecida, trantando de diferenciar as coisas do mundo do mundo das coisas).

Não discordo que a reflexividade seja coisa de especialista. Mas não o é (necessariamente) no sentido do absolutismo da especialidade que foge da reflexividade a qual ela(a especialidade) deve se submeter. Uma coisa é aceitar que o sociólogo, munido que está dos instrumentos de reflexão sobre a sociedade e, indo mais além, munido de ferramentas para pensar os instrumentos de sua própria reflexão sobre a mesma sociedade, tenha mais condição, enquanto especialista, de desenvolver um discurso mais condizente com a realidade social do que aqueles que "apenas vivem" o universo estudado. Outra coisa é fazer dessa distância entre tipos de doxa-, distância gerada, entre outras coisas, pelo "tempo escolastico", ou seja, pela temporalidade própria dessa "bricadeira levada a sério"(para falar como Platão) que é pensar-, uma fronteira intransponível entre universos dinâmicos que se confrontam. Teoria e prática também possuem continuidades, graças! Nenhuma teoria teorica pode existir fora de uma prática teorica dessa teoria. Tautologia que rende bons frutos e impede o risco da falsa modestia intelectual (que restando no discurso reflexivo deve reivindicar sua autoridade).
Abraços saudosos,
Jampa.

terça-feira, junho 28, 2005

Pensamento positivo e postura crítica


Quem usa internet já recebeu no mínimo uma dessas mensagens de "auto-ajuda" onde a chamada "confiança de si" aparece como elemento fundamental para "a valorização de si mesmo". No pano de fundo dos argumentos usados nessas correntes cheias de receitas fáceis e mágicas da não menos famosa "auto-realização" encontramos sempre o dito:" se você mesmo não confiar em você, quem vai confiar?" A facilidade na recepção(muita gente gosta e se sente realmente melhor lendo esses textos) e a expansão do receituário de um tal princípio( "só depende de você") talvez venha das estratégias publicitárias presentes na retórica dessa "filosofia da felicidade". Ou seja, sendo uma forma de saber saborosa porque sempre oculta o lado pesado da "sobredeterminação individual" (ele não descreve, por exemplo, os horrores contidos na "responsabilidade do sujeito" diante de um "si mesmo perdido a se achar"), esse conto encantado de existências inexistentes trata, como é próprio do conto, de recriar a realidade a seu prazer e termina por declinar as froteiras do real(como se elas fossem declináveis) deixando ainda mais difícil para os individuos que aceitam um tal discurso de encontrar mecanismos mais eficientes de busca por liberdade.
Exemplo disso é o último texto que recebi nesse sentido. Vejamos. (Meu comentário vai no final)
"O Anel
Um aluno chegou a seu professor com um problema:
- Venho aqui, professor, porque me sinto pouca coisa, por que não tenho forças para fazer nada. Dizem que não sirvo para nada, que não faço nada bem, que sou lerdo e muito idiota. Como posso melhorar? Oque posso fazer para que me valorizem mais?
O professor sem olhá-lo, disse:
- Sinto muito meu jovem, mas agora não posso ajudá-lo, devo primeiro resolver meu próprio problema. Talvez depois.
E fazendo uma pausa falou:
- Se você me ajudar, eu posso resolver meu problema com mais rapidez edepois talvez possa ajudar você a resolver o seu.
- C...Claro, professor, gaguejou o jovem, mas se sentiu outra vez desvalorizado.
O professor tirou um anel que usava no dedo pequeno, deu ao garoto e disse:
- Pegue este anel e vá até o mercado. Você deve vendê-lo porque tenho que pagar uma divida. Eu preciso que obtenha pelo anel o máximo possível, mas não aceite menos que uma moeda de ouro. Vá e volte com a moeda o mais rápido possível.
O jovem pegou o anel e partiu. Mal chegou ao mercado começou a oferecer o anel aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, até quando o jovem dizia o quanto pretendia pelo anel.
Quando o jovem mencionava uma moeda de ouro, alguns riam outros saiam sem ao menos olhar para ele, mas só um velhinho foi amável a ponto de explicar que uma moeda de ouro era muito valiosa para comprar um anel.Tentando ajudar o jovem, chegaram a oferecer uma moeda de prata e mais uma de cobre, mas o jovem seguia as instruções de não aceitar menos que uma moeda de ouro e recusava as ofertas.
Depois de oferecer a jóia a todos que passavam pelo mercado e abatidopelo fracasso, resolveu voltar.
O jovem desejou ter uma moeda de ouro para que ele mesmo pudessecomprar o anel, livrando assim a preocupação de seu professor epodendo receber sua ajuda e conselhos.
Ele entrou na casa e disse:
- Professor, sinto muito, mas é impossível de conseguir o que me pediu. Talvez pudesse conseguir 2 ou 3 moedas de prata, mas não acho que se possa
enganar alguém sobre o valor do anel.
- Importante o que me disse meu jovem, contestou o Professor sorridente.
- Devemos primeiro saber o valor do anel. Vá até o joalheiro. Quem melhor para saber o valor exato do anel? Diga que quer vender o anel e pergunte quanto ele te dá por ele. Mas não importa o quanto ele te ofereça, não o venda. Volte aqui com meu anel.
O jovem foi até o joalheiro e lhe deu o anel para examinar. Ojoalheiro examinou o anel com uma lupa, pesou o anel e disse:
- Diga ao seu professor que, se ele quer vender agora, não posso darmais que 58 moedas de ouro pelo anel.
- 58 MOEDAS DE OURO! Exclamou o jovem.
- Sim, replicou o joalheiro, eu sei que com tempo eu poderia oferecercerca de 70 moedas, mas se a venda é urgente...
O jovem correu emocionado para a casa do professor para contar o que ocorreu.
- Senta, disse o professor depois de ouvir tudo que o jovem lhe contou, e d=isse:
- Você é como esse anel, uma jóia valiosa e única. Só pode ser avaliada por um especialista. Pensava que qualquer um podia descobrir o seu verdadeiro valor?
E dizendo isso voltou a colocar o anel no dedo.
- Todos nós somos como esta jóia. Valiosos e únicos e andamos por todos os mercados da vida pretendendo que pessoas inexperientes nos valorizem.
Repense o seu valor !
Nós valemos muito mais do que imaginamos valer!
Bom dia para todos!!!"

A mensagem é bonitinha, mas infelizmente em nosso mundo, existe uma real economia social dos valores. Na nossa vida real os especialistas em "jóias" são muitos e, como um professor numa escola qualquer, arbritam a quatidade de riqueza (escolar, social, etc.) das crianças colocando-as desde de cedo no mercado do quem vale mais. Pior, esses especialistas explicam e inculcam por quais razões valemos mais ou menos( para ficar no mesmo exemplo da escola, as classificações são numerosas nos quilates das jóias escolares: "inteligente", "trabalhador", "brilhante", "tem facilide, mas não trabalha", "idiota", "burro", etc .)
Apesar de gostar do espírito da mensagem acho bom ponderar sobre seu real siginificado que oculta os mecanismos mais comuns de distinção social como se pudessemos sair do jogo e colocar entre parenteses "a opinião dos outros''. Mesmo com boa vontade o individuo que ocupa uma posição de dominado num espaço social não vai entender porque com todo o seu desejo, com toda sua ''auto-estima',' sua posição naquele universo continuará a não ser valorizada. Se auto-valorizar não parece assim ser solução que tente realmente resolver qualquer problema e tirar o individuo da situação de dominação que é a de depender dos famosos especialistas... Teria ele mais chance de conseguir sua liberdade se, tomando distância dos mecanismos de dominação e se reapropriando dos instrumentos que servem a produzir sua situação de dominado, entrasse de fato no jogo de classificação e reclassificação que dita no mundo social os valores das coisas e das pessoas.
Jampa

domingo, junho 19, 2005

Pausa

... Escrevo. Hoje. Dizer que tudo parece Brasil. Hoje. Comer. E dizer que preocupado com noticias da California. Blogue acalmou. Mas Brasil devora tranquilidade... Brasil canibal parece todo tempo o tempo todo. Na Francofonia lasco-me. Mas noticias tupiniquins piniqueiras doem. Tudo dolorido... o mundo parece o Brasil.
Sem tempo.
Trabalho.
Ate Breve.

quinta-feira, junho 02, 2005

Sobre a saudade do futuro (cuspindo no prato que comeu)


Já recebi de muitos amigos e-mail com conteúdo nostalgico. E continuo recebendo. Sendo um jovém saudosista tendo a gostar das lembranças trazidas via internet. Saudades de um tempo perdido, de um mundo aparentemente mais seguro, menos desencantado. Contudo, por pura birra comigo e com os da minha geração, insisto em me perguntar: por que é que minha juventude envelheceu tão rápido?
Não julgo a velhice. Percebem? Mas nos velhos esse recuo ao passado parece inevitável. Com a morte pairando como possibilidade presente (nos sentidos temporal e existencial da palavra) reclinar-se no tempo parece ser adequado vista a esperança de vida objetivamente limitada. Em nossos avós ver e escutar com carinhos todas aquelas histórias de um tempo vivido, ora na dor ora na alegria, parece normal. Faz parte da lógica das coisas. Os idosos têm nesse sentido legitimidade ao reivindicar o passado, a saudade do tempo perdido no tempo.
Não tenho a mesma impressão de nós.
Tenho a impressão de sentir falta de uma época onde a palavra futuro fazia parte do presente. Agora entendo melhor o que Cesar quis dizer num texto sobre o horizonte. Falta-nos esse tempo do agora contagiado pela idéia de um plano coletivo, de projeto, de uma projeção. O agora estancou em si. O dia a dia é mais dia a dia do que antes o era. São coisas da violência cotidiana. Um presidente saindo, outro entrando. Tudo naturaliza-se com uma rapidez incrível. A surpreza nunca foi sentimento tão efêmero, quando ainda existente. A esperança venceu o medo e perdeu-se na política econômica: gramática performativa de um crescimento sempre invisível em termos sociais. Mas presente, mais uma vez presente em todos os discursos e sentidos. Tudo é presente. Quando não é, é passado. Parece jogo de palavras. O pior é que não é.
E nós jovéns?
Ficamos a lembrar por quais razões? Por que trazemos ao hoje essas recordações mais ou menos formatadas pela televisão? O que nos leva a ler e a sentir prazer com esses e-mails quase sebastianistas de tão atrelados a vontade da volta do rei-alegria, da rainha-infância? Recondações comuns que vão do TV pirata à Xuxa, de Pirata do Espaço à Caverna do Dragão, do jogo eletrônico Gênius ao Pirocoptero. E por que em nossas lembranças seguras (o passado parece não mudar) fica aquele gostinho de uma alegria que deve ser protegida, guardade com carinho no recôndito de nossa memória?
Julgo que se assim o fazemos é porque o presente apresenta um horizonte macabro onde a felicidade da vida já encontrou uma temporalidade própria: o passado. E num país com tanto a se fazer (não me refiro ao "Brasil: país do futuro" da era Vargas), isso não parece sádio, mesmo quando faz bem ao espírito seduzido pelo paraíso prustiano da paz infato-juvenil.
Acho que deveríamos ser mais críticos dessa realidade resignada, desse "presentismo" impregnado de passado amorfo (mesmo si encantado em nossas memórias). As vezes cuspir no prato que comeu pode apenas indicar a falta de àgua...
Não queria terminar assim: mas no presente defendo a teoria do cuspir no prato. Claro, no sentido de limpar os restos(coisas do passado) para deixar o dito cujo pronto para uma nova refeição(um projeto).

quinta-feira, maio 26, 2005



Variações literárias de um cobrador (tentativa)


Na hora do pico a mente e o corpo são um. Daí a sua capacidade de receber dinheiro de um passageiro, calcular o troco de um outro, sem perder de vista a gostosa sentada ao lado da cadeira do motorista. Moédas, trocados, passageiros : a roleta sempre controlada pelo joelho. E a música…

«… Rema, rema, rema remador. Vou botar no cu do cobrador… »

O time perdendo ou ganhando, não importa. Remador pede cobrador. Rima, explicam.

No fim do expediente sempre existem a fatiga e uma pergunta : o que teria sido se não fosse cobrador?

Sexta-feira, um deles teminou o trabalho. Seguimos o dito cujo. Queremos saber tudo.

Horário pacato, tempo de dar asas a imaginação.

- « E aí cobrador, o que é que você quer ser quando… ? »
- « Um grande escritor. »
- « Como assim grande escritor? explica isso melhor. »
- « Um escritor cobrador, ou um cobrador escritor. Como queiram ! »


Logo em seguinda o inusitado escritor acrescentou de supetão :

- « quero produzir textos para controlar mais da vida. Fazendo uma comparação sabe, dou sempre o exemplo do joelho na roleta. Gosto dessa analogia. Tenho talento. Não quero dizer com isso que só passa quem eu quiser.Não é isso.Se a palavra tiver o passe adequado(como o passageiro), bem, no meu caso é mais se o passe forma a palavra adequada, se ele forma aí vira texto, entendem? Assim é muito parecido com a roleta e os passageiros.»

Depois dessas palavras decidiu continuar(empolgou-se) :

-« alguns sonhos são realidade. »

Desconfiados, fomos atrás de pistas mais seguras para assegurar o depoimento. Uma aula de jornalismo. Encontramos um especialista no assunto. Um crítico que observou o artista e analisou a obra do cobrador. Intelectual requintado nos disse que:

-« a arte dele é de brincadeira. »

Depois completou com uma descrição erudita e meio que entnológica :

-« o cobrador artista brincou com as tabelas de passe estudantil e vale-transporte . Irônico como Voltaire. Com sarcasmo à Machado de Assis. Ele começou a colar os passes A, B e C no papel quadriculado. Como classificá-lo ? Inovador condiz, mas explica pouco sobre a prática do artista. Digo, do cobrador. O chamaria de fundador dos cobradores semi-dadaístas. De sua obra prima, que é sem dúvida o texto em seis letras intitulado ‘B -A- B - A- C- A’, diria ser uma espécie de nova expressão do desespero contido e traduzido pelo dengo silêncioso da cobrança. Todo cobrador cobra. Diria mais, o texto erige uma automanipulação de letras instrumentalizadas passse a passe ».

Voltamos ao cobrador escritor e constatamos seu tino de artista. Como um verdadeiro escritor lamentou o comentário do crítico dizendo :

-« Ele parece um passageiro. Não se pergunta sobre qual a dor do cobrador ? Qual a cobrança ? »

Cansados e sem respostas, acompanhamos o cobrador e artista até o ônibus e o vimos partir. Cremos que pensava nas moédas, trocados e passageiros. Na roleta controlada pelo joelho. Na gostosa ao lado do motorista. Na música… na literatura, quem sabe.

terça-feira, maio 10, 2005

Querendo entender

Vou comentar mais um texto do Observatório sociológico ( http://www.obs.embuste.com.br/ ) para tentar aprofundar os cometários feitos dos textos anteriores. O comentário de Bernardo, por exemplo, deixa-me com pulgas atrás das orelhas, mesmo se concordo com o pano de fundo "histórico" (capital cultural) do argumento usado por ele. No texto abaixo a perspectiva sociológica defendida é de cunho diferente e prefere falar de causas do crime (do problema de como alguém transforma-se em criminoso) como contingência indeterminável pelo raciocínio sociológico devendo o criminoso ser apreciado como dado. Fui e estou sendo formado dentro de uma visão profundamente histórica da sociologia aonde o passado dos indivíduos não pode e não deve ser abstraído ao risco de se perder o significado profundo das ações efetuadas. Como nunca trabalhei com sociologia do crime, não sei se existem problemas intrinsecos aos tipos de objetos estudados em tal disciplina. Contudo é possível vislumbrar, mesmo sem ter lido a respeito, o tipo de conflito existente entre uma sociologia das causas sociais da produção dos criminosos e um tipo de conhecimento sociológico em algum sentido mais pragmático, como no dizer do professor Carlos Augusto, com pretensão não de eliminar mas de controlar o problema. Pessoalmente acho que os dois tipos de visão não são antagônicos e podem ser usados mutuamente para o melhor entendimento da violência. Claro, resta que minha opinião é profundamente tributária de um paradigma específico da minha disciplina. Visão de mundo traduzida da seguinte forma quando se fala sobre a construção social do capital escolar : nada há de mais profundamente desigual, numa sociedade socialmente dividida, do que a igualdade de tratamento entre indivíduos diferentes. Mais. Não se pode entender tais diferenças sem se preocupar com o passado. No caso da violência existe um capital acumulado pelos criminosos na escola da vida. O que me faz pensar que mesmo por razões heurísticas o risco de naturalização é grande se aceitamos o dado(o criminoso) como dado(fato o qual a origem não tem impotância explicativa). Meus comentários serão feitos em mesma fonte, diferente da do texto analisado e entre parenteses.

A ocasião faz o ladrão

Os dois trechos transcritos abaixo demonstram a racionalidade prática que orienta a ação de muitos criminosos. O primeiro é parte de uma entrevista que fiz com um presidiário numa cadeia da região metropolitana de Belo Horizonte. O segundo é parte de uma etnografia feita com arrombadores nas ruas de St. Louis, Missouri, Estados Unidos. Nos dois casos, é possível identificar um certo “conhecimento profissional” desenvolvido pelos criminosos. Uma compreensão mais aprofundada do modo de pensar dos bandidos pode ser útil na orientação de medidas de controle da criminalidade. (Griffos de Jampa)

(Para mim racionalidade prática tem a ver com aprendizado. Diz respeito aos tipos de incorporação específicos produzindo um tipo de relação ao conhecimento como também um saber determinado. Por essa razão a compreensão mais aprofundada do modo de pensar dos bandidos não pode ser desvinculada de um estudo aprofundado sobre os tipos de socialização produtores de tais formas de pensar e agir. O situacionismo do título a ocasião faz o ladrão pode dar a entender que é apenas no momento específico de um roubo que o ladrão vem a ser aquilo que é. )
[Entrevista com presidiário]
A gente róba sempre no lugar mais movimentado. Só no centro da cidade. Na Afonso Pena. É muito mais fácil robar no centro, sô. Pelo seguinte: o policial no centro ele só prende quem ele vê correndo, ele não prende quem ele vê andando, não. Ele pega a pessoa muito pela roupa. Se você róba com uma blusa tira a blusa e coloca dentro da bolsa e sai com outra não tem porque ele te parar. Vai andando calmo no centro... nós sempre robamos muito bem vestidos, então eles nunca deu como suspeita. Achava que era office boy, alguma coisa, andando no centro da cidade. A gente no centro. Robô. Entrô no meio do povo, rapidim entrô dentro do carro. Pra casa. Tem problema nenhum. Tanto que eu rodei, fui preso, num lugar que não é tão movimentado. O pessoal acha que roubar no centro é mais difícil, mas é mais fácil.
[Entrevista com arrombador na rua]
Despite precautions, the force required to break a window inevitably results in a certain amount of noise. And while the offenders accepted this, they had a clear idea about how much and what kind of noise was “safe”, that is, unlikely to attract attention. Without exception, they believed that a single, short, sharp sound was much safer than any sort of extended hammering or thumping. One subject, revealing considerable insight into human nature, explained: “Makin’ one noise don’t matter, but you can’t be makin’ two noises. People hear somethin’ they gon say, ‘What is that? You hear somethin’?’ If they don’t hear somethin’ else, they ain’t gon do nothin’.” [in: Wright, R. T & Decker, S. Burglars on the job. Boston: Northeastern University, 1994.]
Durante muito tempo a sociologia procurou entender as causas do crime, especialmente os fatores que fariam com que alguém se tornasse criminoso. O objetivo era conhecer as causas para eliminá-las. Cortar o mal pela raiz. Depois de muita teoria e muita polêmica, a conclusão é que não dá para definir causas ou mesmo fatores. Tornar-se criminoso é resultado de contingências, da associação mais ou menos imprevisível de uma variedade de circunstâncias. Como não é possível definir quais são as causas que levam alguém a se tornar criminoso, o mais sensato é tomar a existência de criminosos como algo dado e, a partir desse ponto, pensar em algum tipo de política de controle do problema que não tenha a pretensão de eliminar as causas profundas do comportamento criminoso.
Desenvolveu-se uma abordagem que parte da idéia de que a oportunidade para a prática do crime se apresenta quando três condições estão dadas: 1) a presença do criminoso, 2) a disponibilidade do alvo, 3) ausência de vigilância. Inicialmente a existência de criminosos foi tomada como um fato evidente e não problemático. Criminosos existem. Ponto. Existindo criminosos, deveríamos então verificar a presença de alvos e a ausência de vigilância (não apenas a vigilância policial, mas também a vigilância que as pessoas exercem umas sobre as outras e sobre o seu patrimônio). A partir da segunda metade do século XX, aumentou muito a disponibilidade de alvos. Eletrodomésticos cada vez menores, aparelhos eletrônicos, automóveis, mais dinheiro em circulação, maior número de lojas, bancos, etc. A vigilância se tornou mais difícil. As mulheres foram trabalhar, as casas passaram a ficar desocupadas durante parte do dia, as pessoas passaram a percorrer distâncias maiores de casa para o trabalho, muitas vezes sozinhas. O anonimato garantido pela cidade grande se consolidou. Enfim, as oportunidades para a prática do crime aumentaram consideravelmente. A questão passou a ser investigar como as rotinas de funcionamento das cidades criam oportunidades (oferecem alvos e dificultam a vigilância) para os criminosos agirem. Descobrindo como as oportunidades se formam, seria possível estabelecer medidas de controle do crime com foco mais preciso. Algumas oportunidades poderiam ser eliminadas, outras poderiam ser, pelo menos, controladas.

(O raciocínio é lógico: estudamos as formas dos criminosos pensarem as oportunidades do crime, descobrindo como elas se formam, seria possível de se estabelecer medidas de contrôle mais precisas. Tudo bem. Mas ao ler a entrevista com o ladrão duas perspectivas me pareceram evidentes: uma é a de que a maneira como ele percebe e analisa a sua própria prática é tributária de um aprendizado feito pela experiência do roubo [como é que ele desenvolveu esse saber contra-intuitivo do roubar sempre no lugar mais movimentado?], a outra, mais individualista, é a de que a prática do roubo é pensada em relação à ação policial["ele pega a pessoa muito pela roupa"]. Nas duas perspectivas a reflexividade da prática do ladrão é evidente e a "situação" do roubo é um produto de uma história. Os agentes sociais usam de seu conhecimento do prejulgamento alheio [os ladrões parecem entender que no Brasil pobreza e marginalidade se misturam na cabeça das pessoas] para criar situações favoráveis a sua atividade. Ora, não vejo por que não se interessar sobre as causas [fatores de socialização] da produção dos tipos criminosos e dos tipos policiais [já que existe uma ação social no sentido weberiano do termo, uns agem visando às ações dos outros] se isso ajuda a entender os porquês da "situação de roubo", que por sinal não são os mesmos em contextos históricos específicos. )
Mas não basta entender como as oportunidades se constituem, é preciso entender como os criminosos percebem a existência das oportunidades. Afinal de contas, são eles que estão nas ruas de olhos abertos em busca da ocasião que faz o ladrão. Daí o estudo sobre “o crime do ponto de vista do criminoso”. Esse tipo de pesquisa é muito comum nos Estados Unidos e agora está chegando ao Brasil. Os dois trechos citados são apenas um pequeno exemplo das informações que podem ser obtidas em entrevistas com os profissionais da área.
(Resumindo: acho que não é preciso jogar fora os acumulos feitos por análises realisadas em termos de socialização dos criminosos, mesmo se algumas utilizações desse tipo de sociologia se tornem anacrônicas para alguns.)

sábado, maio 07, 2005


Taxa de mortes por armas de fogo

Só agora consegui descobrir como postar um gráfico nesse troço. Como podemos observar pelos números a quantidade de mortes por suicidio e por acidente é realmente relativamente baixa. O que indica muita coisa sobre o tipo de violência a qual lidamos. Porém esses dados mais genéricos não nos dizem muita coisa sobre os espaços sociais dessa violência(quem morre por homicídios e onde?) nem das modalidades sociais caracteríticas (que "tipos socais" e em quais espaços?) codadas pelos números. A importância dessas informações mais precisas é de localisação sociológica da violência. Somente através de um tal desmembramento de dados as análises dos mesmos poderiam ganhar real sentindo sociológico desvendando, a posteriori, uma lógica social que explica a lógica da violência.
Posted by Hello

sexta-feira, maio 06, 2005

Para quem gosta de números

Desarmamento
Dados divulgados pela UNESCO colocam o Brasil em segundo lugar em mortes por armas de fogo. Em 2002 ocorreram 21,72 mortes para cada grupo de 100.000 habitantes no país. Com base nessa informação, a UNESCO pede à Câmara dos Deputados pressa na votação do referendo sobre a proibição de venda de armas. Veja o gráfico publicado pelo Globo com os números dos 57 países pesquisados:
A proibição da comercialização de armas, caso seja aprovada, será bem-vinda. Armas nas mãos de pessoas despreparadas representam um grande perigo. No entanto, a proibição não deve ser vista como A SOLUÇÃO do problema das mortes por armas de fogo no Brasil. Programas específicos de apreensão das armas que estão nas mãos de criminosos e de controle do tráfico de armas são tão ou mais importantes que a proibição de comercialização para civis. Mesmo porque bandidos não compram armas nas casas de caça e pesca.
Os mesmos dados da UNESCO mostram que o número de mortes por acidentes com armas de fogo ( 0,18 por cem mil) e de suicídios (0,78 por cem mil) é relativamente pequeno e menor do que o de muitos países. Não é possível tirar conclusões definitivas desses números, mas eles nos permitem afirmar que, apesar de importante e necessária, a proibição da comercialização de armas deve ser vista como UMA das medidas de controle dos homicídios, não como a única ou a principal. (Texto do http://www.obs.embuste.com.br/ )

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.