terça-feira, agosto 10, 2004

Diga ao João...

Ele passou batido. Pensava saber, não sabia.
Deixou de lado o mais importante. Pegou o caminho errado e bifurcou o entroncamento. Cara mais sem lógica.
Como dizia o mestre da malandragem dialética: ele definitivamente peidou na farofa de ovo. Comeu pão com gelo. E depois pediu penico vázio. Um verdadeiro vacuo local. Vá com ele, vá!
Diz pra ele deixar de ser pidão. Ou seja: diga ao infeliz para ele deixar de pedir grande e fazer a cotação do cumprimento aleatório do tatuado alheio.
Ele tem que parar de cantar. Voz triste. Pingueira. Goteira no mesmo penico vázio...
O cara é um desgraçado. Miserável. Só nanceu uma vez e veio daquele jeito. É de se ter pena.
Manda ele largar aquela geringonça a quem ele chama de mulher. Aquele troço é torta e tem uma perna morta e um braço seco que furou num prego e tem um olho cego e só tem uma mão. Acumulou defeitos na vida. O mais importante deles é o João.
Porém diga com calma que ele é um qualquer um. E quando ele perguntar quem foi o emissor, diga-lhe o meu codinome: chamo-me Fax Call 1-800 - help for assistance. Meu apelido é Jhon. Quando em perigo, deprecio os homens chamando-os de João. Por favor... Deixe-me um último pedido. Posso mandar um recado para o João... Juro, depois você pode atirar. Então.
Diga ao João...

quarta-feira, agosto 04, 2004

O que você vai ser quando crescer? Ou a inutilidade da infância.(Sem sociologia)


Ainda no segundo grau li um texto de um protestante chamado Rubem Alvez. Um livro de fábulas intitulado Estórias de quem gosta de ensinar. O autor, talvez pensando em Nietzsche, filósofo sempre citado por ele, quiçá imaginando uma ética pautada numa reflexão humanista do mundo, moralizava a pedagogia tentando dar à vida um sentido metafísico. A pergunta ''o que você vai ser quando crescer?'' engendrava uma constatação obvia aos olhos do fabulador: a inutilidade do que se é na infância. Uma vez que só se vem a ser quando se começa a produzir, a criança, não mais fim em si mesma, mas um meio para se conseguir produzir mais num futuro próximo, deixa de ter valor próprio para se constituir em quanto receptor passivo duma ética do por vir. Associada sempre a um futuro glorioso (geralmente futuros médicos ou advogados para citar os mais comuns), a criança vive o universo lúdico apenas como pano de fundo metodológico para inculcação dos valores de uma sociedade de produção.
Engraçado perceber que para um leitor avisado de filosofia tal argumento pode logo parecer um disparate. O ímpeto anti-metafísico do filósofo alemão é contrário à metafísica, diria tautológicamente. Porém, na época da leitura, por causa do entusiasmo, não tive dúvidas e pus-me a avaliar a pedagogia da escola a partir desse viés religioso, ponderar sobre minha, digamos assim, condição de estudante. E de fato, a filosofia nietszchiana ajuda a colocar alguns pontos sobre os is. A questão é básica: como atribuir valor a uma vida, ou a vida(humana)? Pelo trabalho? Pela beleza estética e física de uma pessoa? Pela média aritimética das diversas qualidades de um individuo? Por sua participação no MESC(movimento eu sou cultural)? No PT? Por ter estudado em Londres, Paris ou grandes centros afins? Qual a unidade de medida de uma existência? Nietzsche é desconcertante nesse sentido e redimensiona o debate. Ele pergunta em tom resignado: poderia o homem aceitar a vida se soubesse que ela é um eterno retornar ao mesmo? Poderia ele dizer sim ao mundo se soubesse da infinita reprodução de sua miséria? Nesse sentido, se bem aprecio a reflexão dele, o valor de um homem estária ligado a sua relação de força diante de sua própria condição. Mas onde estária aqui o valor de uma criança?

Metafísica de criança

Rubem Alves vê na metafísica da criança o super-homem à Nietzsche, ou melhor dizendo a super-criança. O dizer sim ao mundo infantil seria nesse sentido aceitar coisas com um valor em-si-para-si. A estória das duas crianças com destinos diferentes servia de exemplo disso. Nela ele imagina a relação de dois pais com seus respectivos filhos. O primeiro com um menino saudável. O segundo tinha um garoto leucêmico. Se para o pai cuja saúde do filho era impecável a pergunta o que você vai ser quando crescer parece inevitável, para o do menino com leucemia a vida da criança ganhava paradoxalmente um sentido imediato, ela valia em si mesma. Se um imagina futuros gloriosos, o outro tentava viver o presente, respirar a vida do menino, levá-lo ao parque e sorrir ao lado dele. Apesar do peso sentimetal e pouco empirico dos exemplos, guardei para mim um ensinamento: quem figura como ente parece não perdurar como ser na imaginação. Atribuir valor é sem dúvida brincar com a metafísica. Mesmo que a lógica social da taxonimia seja perversa, temos direito de tentar dizer ''sim'' apesar de todos os apesar de... Saudades de ler a Lipector.


sábado, julho 17, 2004

Dialogando com Cesar: Walter, Nietszche sem paidéia

Plano:

Vamos(...), nesse nós retórico e polido, vamos começar pelo O Idiota da Família e a ilusão da biografia total. Mas iniciar o quê? Chamemos isso de conversa. Continuemos em seguida, com porquês comuns, com o problema da petulância como medida da verossimilhança do personagem. E, para por fim ao início da conversa, faremos considerações sobre os limites de nosso diálogo.

1- Dialogo solitário: o existêncialismo é um humanismo sem história

Jampa - Tendo como base as leituras de dois textos de Bourdieu (L'illusion biographique- A ilusão biográfica- e o próprio Les règles de l'art- As regras da arte), acredito que o autor propunha o seguinte: o limite de toda biografia é dado menos pelo fato dela proceder recrutando traços típicos de uma personalidade específica, e mais pela ambição (essa sim real detentora da ilusão biográfica) de reconstruir uma personalidade tal qual em sua totalidade, digamos assim, real e absoluta. De fato no O Idiota da Família Sartre tenta vislumbrar um Flaubert necessariamente Flaubert, esvaziando assim as determinantes socio-históricas da construção de um escritor que se fez, apesar dele, dentro de continuidades e descontinuidades próprias à definição(sociológicamente aceitável) de qualquer personalidade. Para centrar nosso debate proponho situar o necessário estrangular da história feito pelos existencialistas, em particular pelos dois autores citados: Sartre e Nietszche. Tanto um quanto outro preocupavam-se menos com processos socializadores(amores e desamores só podem forjar o homem na medida em que este internaliza e exterioriza de alguma forma elementos desse passado composto-amores e desamores- no presente da existência), e mais com os lampejos de liberdade inspirados por um Eu abstrato e escolhedor de destinos. Quando Nietszche pergunta como um homem se torna aquilo que ele é, ele quer saber menos da socialização(determinante e estrutural por natureza) e mais da vontade(liberadora e audaz em princípio), ele questiona, como Sartre, aquilo que o homem pode fazer com o aquilo que fizeram dele.

2- Walter é existencialista?

Jampa de novo - Colocando o problema nesses termos poderíamos então inferir as seguintes questões com relação ao autor do Diários de motocicleta: que tipo de reconstrução ele quis viabilizar e quais as maneiras de produzir o verossímil dessa ficção?; e, para critério de medida do esforço do autor, uma vez reconhecida a estratégia de reconstrução biográfica, que tipo de verossimilhança é cabida para produzir o efeito estético satisfatório?(Questões pra debate!)
Não creio que Walter tivesse em mente filmar a odicéia do habitus de Che. Por isso, atendo-me aos anseios pavorosos de nosso tempo de ontologia fenomenológica, creditei o verossímil ao personagem sem dúvida caricato do ''aprendiz de revolucionário'' com suas disposições inatas.

3- Limites

Mais uma vez Jampa -Não sei até que pontos essas "visões filosóficas" do mundo ajudam ou prejudicam o bom apreciar do filme. Nós dois gostamos. Porém, gostar explica pouco dos amores e desamores do nosso gosto. Acredito porém na consonância de certos aspectos de nossas opiniões que divergem em níveis diferentes da avaliação do filme. Apostaria nela(na consonância) caso a querela prossiga. Seria preciso situar essas divergencias em um nível específico do debate para que o dialogo se prolongue de maneira profícua.

Sem mais churumelas. Fico aqui.


4- Cesar ...(ou alguem que queira concordar comigo ou discordar de mim!)




quinta-feira, julho 15, 2004

O Che de Walter

Ontem fui ao cinema do Parque. Eu e Anne-Sophie adoramos o filme. Diários de motocicleta é suave, apesar de alguns lugares comuns pesados. Peso grande na já famosa natação asmática do jovém pré-revolucionário, um nado apagador de divisas simbólicas entre os enfermos e os sãos. Essa foi a parte mais desagradável... Acho que o jovém Che poderia ser ainda menos heróico.
Porém discordo do comentário feito por meu amigo Cesar. Nele o sergipando se referia a um certo monologismo do personagem, se eu bem entendi. De minha parte creio que existe muito daquela arrogância presente em alguns jovens. Com isso não quero dizer que não exista dúvidas no espírito de tais individuos. Mas a maneira de se comportarem enserram uma certeza enorme, prestes a convencer ao mais cético dos homens que a demonstração de segurança embrutecida é, em si mesma, verdadeira. Acho que Walter tornou esse tipo de atitude(a expressão dela) parte integrada do protagonista: existe verossimilhança na atitude incorrompível de Che. A falta de crises não implica uma visão esvaziada da humanidade dele, pois, se referindo a um modo de se dizer (o filme foi baseado nos diários), ela deixa supor que expressar incertezas não era o forte do futuro comandante Ernesto. O que devia ser bem verdade!
Além disso gostei muito da fotografia, muito bem cuidada. Alguns enquadramentos lembrando fotos do Sebastião Salgado(como as fotos dos sem terra, por exeplo). Elas até poderiam ser criticadas pelo mesmo motivo das do Sebastião: estetização da miséria. Porém nunca aceitei de bom grado essas críticas(muito faceis). Pelo que sei do fotógrafo em questão, ele sempre teve muito cuidado com a deontologia da profissão dele(o belo da miséria não é nunca nele uma beleza na miséria, sempre ví nas fotos dele a busca do humano como se dissesse ''mesmo o mais degradado dos homens continua sendo um homem...'' daí o belo).
Devo dizer, para acabar, que o ator foi bem escolhido do ponto de vista estético: o cara é tão gatinho quanto foi o próprio Ernesto. Pero chico, hijo de puta!
Fico com essa.
Hasta la vitoria. Siempre!

quinta-feira, julho 08, 2004

Reflexões sociológicas: o caso Graciliano Ramos


Título nobre. Preciso pela fineza da articulação. Diz tanta coisa de nada e sendo assim, revela-se. Dogma precioso de Cesares ainda desconhecidos. Condiz com o prural de dez, dezes! Deuses! Glande ao gluteo do ateu. Só vai entender quem for artista. Pois existem obras nascidas postumas. O impossível e inexplicavel da palavra tão única e abstrata é seu possível explicavel. Dadaísmo heróico reformulador do mundo desordenador do mundo... Mundo. Mundo! Mudo,calar? Mudo, mudei! Mundo, eu... Arnaldo Antunes de proveta intra-pos-extra-super-hiper-tudo.Eu. O nexo é força de uma palavra solta. Só o irracional salva. Livra. Livro. Eu. Depois de mim, blog. Vida infinda, acabada. Lido isso. Lindo isto. Lírio aquilo. Bíblico. Morto. Sentimetal de cú é rola. Quem matou Lineu? Mortal é nem a vaca torcendo o rabo. De fato: Graciliano Ramos casou. Eis o porque do caso Graciliano. Usei de lógica, merda.
Tou sem sacaros. Icarus. Viparis ordinarius second hand. Debrai solucionarus est cumbilarius foccus cus es bom. Detratrarivai destratarivem vão.
Ainsi spook Jampatustra. Para todo mundo e para nadie. Começei pela multidão, passei pelos escolhidos e cheguei a mim mesmo. Euzinho entendeu mais ou menos.
Os peidos de véia da Ilha do Retiro são prova da vivacidade do morto. Le roi s'est mort. Glauber também. E Tião Macalé não é nojento. Carlinhos Brown é. Arrigo Barnabé não é do Sítio do Pica Pau Amarelo. Tim Tonnes é Chico Anísio, o reverendo. O super-homem vive em cadeira de rodas. Quebra de glicose. Os homossacaridios sacaram que estou sem saco. Heterossacaridios não querem falar dos sacos. E faço versos para quem chora. De desalento, desencanto. Esqueça esse blog quem não tem motivo algum de pranto... Eu faço verso para quem morre.
Lei de espelho blogueiro: OI DODI? Será? O objeto está para imagém assim como a distância do objeto está para a distância da imagém. OI DoDi, tudo bem?
Tá bom.
Até a próxima.

quarta-feira, junho 16, 2004

Auto-defesa do estilo(para Calós)


Agora com tempo, por que não agitar o blogue com polêmicas mais pessoais? Não são elas também universais? Julia responderia afirmativmente e,concordando com ela, vou divagar sobre as críticas de Carlós. Discordando dele vou discorrer em homenagem ao Apollinaire do Onze mil varas , uma delícia de livro.

Como defender-me do LSD (verboragia-essencialmente-irrelevante)? Comparando o texto ao sexo. Claro, fazendo isso não salvo meus escritos dos defeitos contidos neles. Mas escrita enxuta não é sinônimo de boa literatura(Seria isso paradoxo? Vindo de mim que adoro Cabral, Graciliano?). Seria bom lembrar de fodas para estabelecer essa relação. Ir direto ao assunto é, muita vez, como ejaculação precoce:faz-se tudo antes do tempo, não se aproveita nada, tudo vira perda. Uma boa imagem é a do adolescente virgem na hora de comer a Luana Piovanni. Precipita-se e, sem a tocar, esporra...(Merda!)

Uma boa literatura é, ao contrário, como o bom sexo: violenta ou terna, triste ou feliz, ela não se desfaz dela mesma com precocidade, ela degusta-se. Se trata de cú ou de buceta, não o faz sem lubrificar boa parte dos musculos,sem ao menos cuspir sobre a superficie ardida do estilo. Mesmo se pedófila ou necrófila, a escrita violenta os sentidos pela união sangrenta entre a pica Tutiana e o feofó angelical(qualquer um) arti(cu)lados em estilistica medonha. MAs para garantir o bom texto é preciso bem construir esse efeito de contraste entre bilola gigante e cuzinho. Para isso toda figura de estilo é pouca. Elipses e metaforas, oximores e hiperboles, tudo pode garantir a lentidão necessária ao desejo de não morrer em si mesmo antes da hora...

Então entenda-se assim meu "slowmotion" sentimental: ele revela-se dessa "consciencia/medo" da ejaculação precoce do texto que não desfruta de si mesmo e executa-se mecanicamente em extase não vivido concretamente. Na minha opinião mesmo recado de geladeira deveria adotar uma disposição estilistica, virar meta-recado. Porém o mais importante sem dúvidas é que no final das contas, como toda lentidão, a lombra sempre baixe e que a paz seja garantida com orgasmos massacrados pelo cansaço da foda.

Para concluir, digo logo que não creio que meus textos tenham qualidade de boa literatura.Considero-me um péssimo fodedor de textos.Fodo todos eles! Mas não creio que seja por causa da verborragia. Eh mais pela falta de trato com a língua mesmo. Falar em língua...
FIM.

quarta-feira, junho 02, 2004

De tudo um pouco: uma bagunça

Madrugada fria e sem molho no interior da França. Depois de ler o relato-desabafo de Dado sobre alguns "erros" jornalisticos continuo na frente dessa tela que perde em brancura para poder virar texto, uma violência. Tinha assistido na TV francesa um debate sobre o terrorismo.Ontem postei algo sobre a morte. Tudo parece trágico, medonho, tinhoso.

Mas sinto-me paradoxalmente cheio de força para a vida. Talvez nunca tenha tido em minha existência período de tamanha vontade interior de viver. Desejo de abraçar o mundo. Não apenas com ciência, mas com política. Não apenas sabendo-o como é, mas desejando-o como poderia ser se... E a morte nunca esteve tão próxima de meus pensamentos. E jamais senti-me tão perto dela. Sim. E parece ser mais verdadeira a vida medida pelo valor da perda. Perco pouco a pouco o medo da dor. Não por costume, mas porque vive feliz quem consegue comparar sofrimento e alegria aceitando-os como plenitude do ser.Nitszcheano dirão alguns. Talvez. Porém já havia sido mais quando lia nas escuras da adolescencia as palavras cortantes do filósofo alemão. Hoje sinto-me distante das coisas sintomáticas desse tempo. Longe do falso paradoxo entre visões do mundo mais otimistas e pessimistas à Bernardo Jurema: o copo está meio cheio ou meio vazio BJ? Como se o meio isso não fosse já e por definição o meio aquilo. Nem precisar sair da lógica formal é preciso para parar de brincar com coisas sérias. Sei. O copo pela metade não muda o mundo. Mas se ele ajudar a Bernardo a não cair no golpe jornalistico do relativismo do ponto de vista, seria já uma alma burguesa salva do inferno da doxa infra-ideológica do homorelativiticus! E ver Dado querer lutar pela verdade é um prazer. Pois para isso é preciso sair também dessa lógica do cada qual com seu ponto de vista. Nem toda verdade é construida de mesmo modo nem com as mesmas astucias... Jornalistas não criam fatos, muito menos verdades. E as palavras, mesmo não sendo apenas palavras, sabemos a força que elas podem ter, não são correlatas imediatas nem do fato nem da verdade. Daí a palavra ter mais força quando dita de certos lugares sociais, daí a imporância de saber quem diz o quê e aonde, de onde ele diz(em qual jornal, por exemplo)...
Sim. Sinto-me forte. Mais ainda porque penso em fazer pouco. Dar aulas, praticar minha profissão. E fazer política como sempre fiz. Do meu jeito, falando com as pessoas. Discutindo filosofia barata, sociologia de três tostões. Trabalhando com uma profunda motivação interior. Fazendos das questões do mundo minhas questões e das minhas questões questões do mundo. Meu trabalho foi já antes da defesa bastante elogiado. Se tudo der certo, ano que vem posso começar um doutorado. Não me imagino doutor de nada. Ontem me peguei foi em sonho ensinando escolas primárias,adolescentes do segundo grau. Vendo naqueles meninos brutos um reflexo de minha adolescencia(bruta, até ela!). Via-me em sala de aula reconhecendo-me neles, na impossibilidade deles de aprender com os livros, com os números. E como um Graciliano criando Fabianos e Paulo Honorios a sua imagem e semelhança (com qual fineza Graciliano usa a escrita restrita de Paulo Honório como sendo uma projeção objetivada de seu própio estilo denso e utilitário-"a palavra foi feita não para enfeitar mas para dizer"), vi-me dizendo palavras minhas, exortando minhas malditas dificuldades, triunfando ao jogar uma ignorância contra aquelas tantas outras. Sinto-me forte sim. E cheio de amor arrogante e católico. Amor pelos fracos. Decadence! Diria Nietszche. Não me importo. Do Anticristo guardo comigo a impaciência do filósofo para com a hipocrisia sacerdotal. Também não é a fraqueza dos fracos que é produtora de minha misericordia(digamos assim!).
Estou quase cansado desse escrito mal redigido. Estamos por aqui nas vesperas da comemoração do Dia D, 60 anos. Ainda guerra. Meus conhecimentos de história da
Segunda Guerra são tão profundos que me atenho a dizer: os primeiros 20 minutos do Em busca do soldado Ryen é de um realismo terrivel.
Michael Moore é tão idiota quanto Bush.(Dizer isso choca alguém?)
Michael Jackson é inocente: ele nunca comeu niguém, muito menos criancinhas.(Dizer isso choca alguém?)
O terrorismo é uma forma de guerra como qualquer outra.( Dizer isso choca alguém?).
Vamos lá gente força. Com Vampiros ou sem eles, com simplicidade e sem moralismo, a gente chega em algum lugar. Se for no inferno, levamos uma aguardente pro diabo... Se for no céu, pode deixar que eu me ocupo do vinho: tem um tal de Chateau neuf du pape, é um verdadeiro milagre!
Droga: deve realmente existir mais entre o céu e terra do que nossa vã filosofia... Ai de nós!

segunda-feira, maio 31, 2004

A escrita

Escrever é uma atividade artificial. No sentido de ser o resultado final, o texto, um artefato. Tratar de temas sensíveis pela escrita parece sempre deixar no homem um sentimento de traição. Pois ater-se aos sentimentos é fazer jogar a razão contra o sensível: refletimos contra o sentimento da péle que sente a dor quando dói, o ardor na quentura.

Escrever é trair

E mesmo a criação do paragrafo impessoal, sem primeira e única pessoa, é ainda assim um efeito produzido pela tecnica. Construimos o distanciamento, a impressão da distância. Na verdade vê-se nisso uma maneira de tentar encontrar palavras falantes por si mesmas, sem intermédio, sem mediação. Tudo ilusão proposital. Traição.

Traição

Intento, mesmo assim, traindo-me, escrever sobre a morte.


Le retable d'Issenheim

Começo afirmando: viver a morte é caracterizar a existência. Digo isso pensando na arte de Ionesco. Na crítica dele à naturalização da morte feita na modernidade. Sim. O mundo moderno impôs seu hedonismo barato, adotou seu carpem diem coagulado no cinismo e ocultou o apelo do momento mori, que é uma espécie de aproveite o dia com lembrete final: “teu dia chegará”. Le roi s’est mort, anunciou Ionesco falando da vida como se ela fosse uma continuação da morte, não o contrário. Inverteu o sinal da cruz... Como Nietzsche salvando o cristo do cristianismo, Ionesco salva a imagem da morte no seu carater emblemático de prática contestatória: se o cristo é lembrado pelo filósofo alemão como um individuo notável o qual teve como qualidade maior um espírito crítico negador da autoridade sacerdotal, a morte em Ionesco aparece como força de negação de uma vida dada ao além, ela é o presente vivido enquanto perda. Lembrei disso ao ver domingo passado no Museu d’Unterlinden Le Retable d’Issenheim de Grünewald. Uma pintura da crucificação de Jesus. Impressionante. Bacon muito inspirou-se dela para nos seus quadros reproduzir as imagens da dor humana. O sensível da carne sangrenta, dos pregos cravados na palma das mãos expressando a agudez da dor pelo estirar dos dedos recontorcidos para cima, da boca azulada, do expressionismo dos pés rasgados. Tudo estático como se a agônia fosse se enternizar... Sempre tive dificuldade com as artes plásticas... Nunca consigo imaginar o movimento indicado nas obras. Alí vi, por isso, uma grande cristalização da dor. Fotografia da agônia dolorida e infinita.

Lembrança mistica

Lembrei também que Tereza e meu pai sempre expressaram uma concepção mística da morte. Acho que a grandeza da visão deles decorre da recusa de apagar a presença da morte na vida. Os dois associam pela mística o carpem diem e momento mori. Vendo o Retable d’Issenheim entendi um pouco dessa associação. Ela quer dizer algo sobre a vida e sua vocação de ser uma busca constante de sentido. Associar vida e morte é uma maneira de preencher o vazio deixado pela dúvida maior, pelo medo de achar que tudo pode acabar simplesmente acabando...





segunda-feira, maio 24, 2004

Quase de férias

Acabo de entrengar quatro cópias da dissertação na Universidade. Alívio. O cansaço vinha corroendo meu espírito de flagelado intelectual. Intelectual? Raça complicada. Defendo-a. Mas apenas no necessário, na vocação dessa estirpe de ser massa crítica. Digo sim à reflexividade do pensar. Excetuando esse aspecto reflexivo, abomino-a. Triste intelectualidade. Eh Séria demais. Produz alegria profunda, porém dificilmente se pode com ela simplesmente sorrir. A dor? A dor confunde-se com as entranhas do homem. Este, pensando, constroi-se de destruções do dito assim e assado. Levado a dizer não ao obvio para poder estabelecer uma relação de proximidade com uma suposta verdade (seja ela relativa ou universal, coerente ou arbitrária...)o o ser humano busca. E então a liberdade se transforma em designo da crítica que, negando para afirmar, afirma negando pela razão sua função libertadora...

Dialogo entre Paulo Freire, o estatuto do PT, e o Governo Lula, etc.

Paulo Freire:
"Eh então a coerência entre a sua prática e suas opções proclamadas que virá fazendo o PT, enquanto educador, reconhecer-se como educando. Vale repetir: para que o PT assuma o seu papel de educador enquanto partido, coerentemente com as suas opções proclamadas, ele tem de assumir também o papel de educando das massas populares. A sua tarefa formadora, como partido de massas e não de quadros, se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre".
Estatuto do PT:
"O Partido dos Trabalhadores pretende que o povo decida o que fazer da riqueza produzida e dos recursos naturais do País. As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade. Para isto é preciso que as decisãoes sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas estes interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade."
O governo Lula(suprareal):
"Não se pode ser fiel ao estatuto, que é um documento formal.Temos um probléma crônico de anemia. "

FHC: "hahahahahahahahah!!"

Puchkin: " Contra Burguês vote 16! O governo Lula é pós-estruturalista! Fora Lula! Revolução proletária já!"

Jampa: " Isso não é dialogo. Niguém responde a ninguém. Cadê o Sidnay Magal?"

Estou de quase de férias! Valeu Anne-Sophie. Obrigado pela força!
Valeu Cesar, tuas dicas foram uteis.
Valeu Diogo, teu incetivo me foi valioso.
Valeu Pai, Valeu mãe: por tudo!
Helder, Pedro: Saudades!
Val... Vamos estudar juntos!
Ton, curiosity kill's the cat!
Tato: tu vais ficar cheroso pras minas!
João Lima: não vou estar na França quando tu chegares!
Lula: faça a revolução!
Eveline: a chapada nos espera.
Ainton Senna... Xuxa... sim. Xuxa eu te amo!!
Francisco José: Queremos uma onça nova, Fernando de Noronha enche o saco.
Marx: como podemos dizer não ao capitalismo de hoje?
Weber: no fundo, tudo é uma questão de afinidade eletiva: estamos todos fodidos no Brasil.
... Cansei.

terça-feira, maio 18, 2004

Tradução de Introdução(enviada por Ton)

A tradução não está perfeita. Longe disso. Acho que Ton deve ter colocado meu texto num tradutor automático desses da vida. Corrigi os erros mais grosseiros. Perde-se em estilo, mas também um pouco de sentido. A palavra "demarche", por exemplo, deve ser substituida por um grupo de palavras que designe as maneiras de fazer algo especificamente. "Demarche" é a maneira pela qual se usa um método. E a tradução disso é dificil. Mas vou postar a mando de Ton. Assim democratizo mais as minhas lezeiras.

Introdução

Nietzsche, num texto sobre os filósofos pré-socraticos, tentou transformar aquilo que é considerado como um defeito (a ausência de demonstração) numa qualidade.Analisando a frase emblemática de Tales de Mileto "tudo é água", observou que a virtude do primeiro filósofo ocidental era ter encontrado a boa pergunta (que é que tudo é?), sem passar por todas as exigências de verificação empírica. É a intuição que existe uma tensão desta ordem entre a literatura e a Sociologia que conduziu-nos a escrever esta dissertação.

Recordamo-nos igualmente os pensamentos de Nietzsche, de acordo com o qual o homem criou a arte para poder suportar a realidade, e Weber, quem dizia ter escolhido a ciência a fim de verificar até onde poderia suportar esta realidade. Daí um paralelo nos apareceu entre estas duas disciplinas freqüentemente opostas devido às suas diferentes formas de abordagem, a literatura mais livre, ou seja, liberada das exigências metodológicas de representatividade, das demonstrações teóricas e da produções de dados empíricos próprias às ciências.Assim se deu em nós a idéia de um estudo que põe em relação Sociologia e literatura.

Desejávamos, além disso, estudar um autor brasileiro e a nossa escolha levou-se rapidamente sobre Graciliano Ramos, este por várias razões que desenvolveremos na nossa parte consacrada à metodologia. Digamos apenas aqui que é um dos maiores escritores brasileiros século XX e que tem uma maneira específica de criar baseada numa observação meticulosa da sociedade, que reproduz nos seus romances, conferindo a estes um interesse sociológico certo. No entanto, como veremos, é no seu caráter propriamente literário que os seus romances são produtores de uma leitura sociológica da realidade da época. É o que qualificaremos de "reciprocidade explicativa". Toda nosso esforço
visará demonstrar como esta reciprocidade nasce da tensão que existe entre literatura e Sociologia.

A fim de levar a efeito esta investigação, começaremos por mostrar como, na história da Sociologia, surgiu e em seguida se desenvolveu a idéia de uma análise sociológica da literatura. De Comte a Pierre Bourdieu, passando por Durkheim e Wolf Lepenies, o nosso trabalho será destacar a forma como a Sociologia reconheceu gradualmente elementos literários como utilizáveis no âmbito de uma maneira sociológica.

Em seguida explicaremos as posturas metodológicas que adotamos para este estudo. Justificaremos principalmente o cruzamento das nossas referências teóricas (Pierre Bourdieu e Bernard Lahire principalmente), e orientaremos a confrontação da teoria com o objeto, quem é a fonte da construção da nossa problemática.
Por último, analisaremos o romance São Bernardo de Graciliano Ramos a fim de mostrar como funciona nesta livro a reciprocidade explicativa entre literatura e Sociologia. A análise dispositionnalista desenvolvida por Bernard Lahire nos permite mostrar como a verossimilhança literária deste livro nasce da compreensão da sua verossimilhança sociológica.

Itrodução do Mestrado

Estou sem dormir(não quero revelar as razões). Seguindo o exemplo de Cesar posto a introdução do meu trabalho de mestrado. Como o Marti do ultimo comentário de Cesar, meu Paulo Honório se transfomou em homem multiplo, fruto de uma socialização diversa e dos contatos com outros de formação não menos variada. Tento explicar a vida do personagem pela analise (talvez forçada)disposicional, entender a variação de seus atos, a inquietação de seu espirito. Encontro mesmo um argumento razoavel para explicar a escolha de Paulo Honório pela escrita, coisa que poderia parecer estranha vinda de um homem como ele completamente avesso as inclinações artisticas e intelectuais. Meu trabalho foi muito simples, apesar da parafernalha teórica mobilizada para dizer o que foi dito. Infelizmente(?), porque tenho de me preparar para defesa, não terei tempo de traduzi-la e ofereço-a apenas aos amigos que de alguma forma tem contato com o francês. Um abraço a todos e até logo. Pois em breve, jah que vou conseguir entregar a tempo a dissertação, estarei em Recife. Cesar, minha introdução é o puro oposto da prolixia dos sociólogos. Espero que Wander não veja nela "uma contaminação pela pscicologia ou piscanalise" como ela comentou sobre alguns de meus textos. Bem, se assim o for... Não tem problemas, o Freud que li ajoudou a entender muitas coisas na sociologia. Sem mais. Abraços.

Introduction

Nietzsche, dans un texte sur les philosophes pré-socratiques, a essayé de transformer ce qui est considéré comme un défaut (l’absence de démonstration) en une qualité. En analysant la phrase emblématique de Thalès de Millet « Tout est eau », il a remarqué que la vertu du premier philosophe occidental était d’avoir trouvé la bonne question (Qu’est-ce que tout est ?), sans passer par toutes les démarches de vérification empirique. C’est l’intuition qu’il existe une tension de cet ordre entre la littérature et la sociologie qui nous a amené à écrire ce mémoire.
Nous nous sommes également rappelé les pensées de Nietzsche, selon lequel l’homme a crée l’art pour pouvoir supporter la réalité, et de Weber, qui disait avoir choisi la science afin de voir jusqu’où il pourrait supporter cette réalité. Un parallèle nous est alors apparu entre ces deux disciplines souvent opposées du fait de leur démarches respectives, la littérature étant plus libre, c’est à dire libérée des exigences méthodologiques de représentativité, des démonstrations théoriques et des productions de données empiriques propres aux sciences. Ainsi a germé en nous l’idée d’une étude mettant en rapport sociologie et littérature.
Nous désirions par ailleurs étudier un auteur brésilien et notre choix s’est rapidement porté sur Graciliano Ramos, ce pour plusieurs raisons que nous développerons dans notre partie consacrée à la méthodologie. Disons seulement ici que c’est l’un des plus grands écrivains brésiliens du XXe siècle et qu’il a une démarche particulière basée sur une observation minutieuse de la société, qu’il reproduit dans ses romans, leur confèrent ainsi un intérêt sociologique certain. Néanmoins, comme nous le verrons, c’est dans leur caractère proprement littéraire que ses romans sont producteurs d’une lecture sociologique de la réalité de l’époque. C’est ce que nous qualifierons de « réciprocité explicative ». Toute notre démarche visera à démontrer comment cette réciprocité naît de la tension existant entre littérature et sociologie.
Afin de mener à bien cette recherche, nous commencerons par montrer comment, dans l’histoire de la sociologie, a germé puis s’est développée l’idée d’une analyse sociologique de la littérature. De Comte à Bourdieu en passant par Durkheim et Wolf Lepenies, notre effort sera de mettre en évidence la façon dont la sociologie a graduellement reconnue des éléments littéraires comme étant utilisables dans le cadre d’une démarche sociologique.
Puis nous expliquerons les postures méthodologiques que nous avons adoptées pour cette étude. Nous justifierons notamment le croisement de nos références théoriques (Pierre Bourdieu et Bernard Lahire principalement), et nous ciblerons la confrontation de la théorie avec l’objet, qui est la source de la construction de notre problématique.
Enfin, nous analyserons le roman São Bernardo de Graciliano Ramos afin de montrer comment fonctionne dans ce roman la réciprocité explicative entre littérature et sociologie. L’analyse dispositionnaliste développée par Bernard Lahire nous permettra de montrer comment la vraisemblance littéraire de ce livre né de la compréhension de sa vraisemblance sociologique.

quinta-feira, maio 13, 2004

Jah que não tenho tempo de escrever eu mesmo, deixo pra vocês opiniões de amigos sobre temas atuais. Abraço.

Liberdade de imprensa e democracia(Por Diogo Valença)


As manifestações de repúdio à cassação do visto do jornalista norte-americano Larry Rother, autor de artigo calunioso e desrespeitos à imagem do Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, são, no mínimo, hipócritas e farisaicas, típicas do pensamento elitista e conservador brasileiro, “dos que sabem mais”, “dos que sabem governar”, “dos políticos profissionais”, “doutos na arte do diálogo” e “paladinos da democracia”, ou melhor, dos “defensores da normalidade democrática, da ordem e da paz social”. Não sou favorável ao Governo Lula, não por motivos de incompetência ou de irresponsabilidade ou burrice ou amadorismo da administração petista. Meus motivos estão relacionados com o que se poderia de chamar de “cretinismo parlamentar” do PT, o seu jogo desastroso de alianças políticas, que não são estratégicas para uma alternativa popular de poder, com a sua submissão ao ideário burguês, já demonstrado na prática pela manutenção da política econômica de nítidos contornos neoliberais e a sua colocação como esquerda da burguesia, ao assumir a tarefa de uma transição histórica que a direita não tinha mais forças para realizar. Porém, minhas discordâncias são de caráter político e não estão relacionadas aos estigmas e aos preconceitos das origens sociais do Presidente Lula, que se expressam nas piadas de mal gosto sobre o nível formação do Presidente, sua incapacidade, sua burrice, seu hábito de beber, que seria típico do homem do povo, bêbado e vagabundo. O pensamento elitista brasileiro concede apenas às elites a capacidade de pensar, de governar, de ser competente e profissional, ao mesmo tempo em que a massa de miseráveis deve ser guiada e governada porque não sabe pensar e só entende a linguagem do mandonismo e da violência. O mais lamentável nisso tudo não é fato de um repórter norte-americano escrever o que escreveu sobre o Presidente, mas o fato de isso ser uma crença íntima de muitos brasileiros acéfalos, de mente turva e preconceitos arcaicos.
As manifestações de repúdio nada mais significaram do que uma demonstração do conservadorismo e do arcaísmo do pensamento elitista brasileiro, não se poupando qualificações de burrice, amadorismo político, autoritarismo (safa!) e falta de respeito aos princípios democráticos da parte de quem mais esteve ao lado da repressão e da institucionalização da repressão no Brasil, ao lado dos interesses do grande capital internacional e da burguesia nacional títere e pró-imperialista, em suma, de quem contribuiu para uma tão apregoada transição democrática, a chamada Nova República, que, na verdade, foi um engodo e uma perpetuação da ditadura militar por outros meios. Esse acontecimento, como não podia deixar de ser, foi um prato cheio para a imprensa e os órgãos que defendem a sua liberdade de expressão. O Jornal do Commercio, apenas para citar um exemplo, ocupou duas páginas quase que inteiramente para tachar de burra a atitude do Presidente, engrossando o coro de uma suposta causa da democracia. Ora, só alguém muito ingênuo para acreditar que as notícias veiculadas pela grande imprensa não estão destinadas a manipular a opinião pública a favor dos interesses das oligarquias brasileiras. Não estamos falando aqui de uma imprensa verdadeira, mas de uma imprensa que serve a interesses bem específicos e que procuram perpetuar os preconceitos mais nojentos contra os movimentos sociais populares. Essa imprensa não merece nenhum respeito e não tem moral para criticar uma atitude enérgica, necessária e indispensável. A cassação do visto do norte-americano foi a melhor atitude que se devia tomar, não porque o jornalista tenha sujado o nome do presidente aos bons olhos da opinião pública internacional, mas porque não podemos deixar que qualquer um, seja ele quem for, perpetue preconceitos contra os países latino-americanos, africanos e asiáticos. Yankee go home!

sábado, maio 01, 2004

Acerto de contas e pequeno adeus do blogue

Dado é para mim um grande amigo. Exagerado como só ele, parece às vezes não medir a força das palavras. O engraçado é vê-lo diante de suas próprias hiperboles, vivenciando sempre a posteriori(depois de ter dito, claro!) as mais diversas e adversas situações de constragimento. Porém nem tudo nessa caracteristica dele é excessivo em excesso. Este acerto de contas é uma pequena tentativa de mostrar algo de bom de uma relação amical impestada de conflitos cômicos. Talvez seja mesmo uma forma de agradecer explicando as razões pelas quais as coisas não podiam ser de outra forma.

O segundo ponto deste post é um aviso. Um adeus provisório do blogue que ficará algumas semanas inativo.

Como diria Paulo Honório: Continuemos. Conheci Dado ainda no Marista e pela razão mais esquisita do mundo: o cara era a fim de minha namorada! Não liguei, nem tive raiva. Convencido de viver uma relação extremamente sólida, dizia-me: aquele gordinho playboizinho de Casa Forte não tem nenhuma chance. Soube inclusive das investidas dele, paquerando, tentando impressionar a gatinha, levei tudo na onda porque achava-o "gente fina", mesmo tendo uns quilinhos a mais. Até aqui tudo tranquilo. Egraçado foi o primeiro conflito. Ainda hoje não entendo a razão daquela agressão de Eduardo. Estavamos em Casa Amarela e eu estava completamente perdido entre o entusiasmo de começar algo novo e um vazio enorme deixado pelo fim de uma relação duradoura. Dado chega e diz umas brutalidades, afirma meu machismo, acusa-me de comedor de criancinhas, devorador da predação alheia. Não lembro se respondi de imediato àquelas palavras duras, acho mesmo que na minha confusão aceitei todas as acusações como sendo verdadeiras. Furei meus olhos. Parti para um exílio, uma caminhada a procura do lugar onde Edipos esquecem as suas Jocastas. Neste lugar distante do inferno terrestre, o exílio da alma como dizia Vitor Hugo, encontrei a paz para mim e meu amigo. Alguns meses depois conversamos, pedimo-nos desculpas e prosseguimos.
Uma outra marca é a contínua birra de Dado com a minha decisão de prosseguir meus estudos acadêmicos. Outro dia, cansado do meus devaneios diários, estava percorrendo os blogues indicados como links no "Sangue de Barata" e descobri o de Carlós. Nele vi um comentário de Eduardo dizendo o seguinte: "Queria ter sabido dizer isso sobre a necessidade que ser filho de quem somos causa. Eu já tentei falar sobre isso para Jampa (mas queria que ele tomasse para si a responsabilidade de ser melhor que o pai - que talvez seja demais até para Jesus). A vida é essa coisa mutante mesmo e resumos sobre o Todo servem só para encher o bolso dos que os vendem." Sempre entendi essa posição crítica dele sem concordar. Não segui a política por várias razões. Mas nunca vi de fato incongruência entre leituras mais ou menos acadêmicas do mundo e a tomada de postura política, prática, atuante e atual. Podemos e devemos, como diria e disse Marx, não confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas. Isso sim seria e é motivo de deturpação da ordem das coisas(da lógica e do mundo). Estudando, imagino, tomo posição em favor de um tipo de postura pro liberdade possível, aquela que vincula consciência da impossibilidade de ser completamente livre com o esforço de entender os motivos desses limites para deles tentar se desfazer. Não acho por isso que a vida deva ser necessáriamente mediada por livros científicos ou filosóficos. Não acredito em Acrópoles ou utopias afins! A intriga do amigo foi e é bem recebida, pois é verdade a fragilidade do espirito humano diante do encanto de seu próprio engenho. E essa insistência do Amorim sempre me fez lembrar daquele algo básico que aprendi em família com as pessoas simples e pouco escolarizadas que me rodeavam: ao valor de uma vida não se tem mesura intelectual apropriada. A matemática prática de meu avô era tão importante nele, quanto as caretas que nos faziam tanto rir. As rezas de minha avó eram tanto expressão de sua fé, quanto seu amor estranho e maternal pelo marido doente era digno de um respeito crédulo. Dessas pessoas carrego em mim mais do que qualquer livro lido. Na falta delas aprendi a fazer o retorno ao início e pela saudade refletir os avanços e recuos das escolhas feitas. E é pensando neles e em outros que julgo importante entender o que eles não podiam e não puderam compreender. E dividir isso tudo parece ser a única forma de tonar essas crenças mais verdadeiras para mim. Pois do contrário, acredito, todo esse esforço para se tornar homem seria apenas mais uma luta vã e pequeno-burguesa para construir um lugar onde pudesse viver minha felicidade encantada com os frutos de minha própria inteligência(mesmo a conseiderando sem substancia, sinto-me capaz de seduzir-me pelo que ela é capaz de produzir). Findo, mesmo em certa tristeza, sempre agradecendo a Dado pela exageração de seus propósitos. Neles encontro alimento pra uma coerência limitada minha, porém cheia de sentido.
Para bem e para mal, acaba aqui o acerto de contas fraterno e carinhoso.

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Aviso aos navegantes que nas próximas três semanas ou mais não haverá post neste blogue maldito. Razões: o mestrado. Um abraço a todos os amigos, um outro, um pouco diferente para os "inimigos"(Puchkin e companhia!).

Ps: Porra: Puchkin é muito mais violento no blogue de Carlós do que no meu.

domingo, abril 25, 2004

A festa dos dinossauros

Ontem foi o aniversário de meu irmão Pedro. Hoje vai ser a festa para comemorá-lo. Queria tanto estar lá para desejar ao pequeno algo de bom, pessoalmente. Com todo amor que tenho por ele, tentaria abraça-lo e expressar pelo olhar meu apego a todas as nossas diferenças e semelhanças.

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Diferentes/Iguais

Somos diferentes sim, porém iguais. Sempre o tratei como um igual. Desagradava-me sempre o exageiro dos próximos com seus cuidados em damasia. Pedro é uma rocha. E sempre foi. Desde quando o vi pela primeira vez, quando voltei de Cuba, entendi sua disposição de carater estabelecida pela força :tinha menos de um mês e se fazia reconhecer pela potência inegualável do grito conciso, cortante.


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Dinossauro(de Pedro): ou a fidelidade.


O carinho dele pelos dinossauros é de uma fidelidade pouco comum em tempos de pouca fé como o nosso. Não lembro de ter sido fiél assim na minha infância.Talvez minha primeira fidelidade tenha sido Valéria. Não. Já devia ter aprendido algo sobre essa insistência do mesmo, na escola. Mas para mim era como se a fidelidade fosse uma mémoria necessária de uma preferência minha. Ela consistia, se formulada em palavras de Pedro, no fazer esforço para reencontrar os dinossauros e de manter e reproduzir em mim os sentimentos de desejo fundamental, aquele que nos dá vontade de continuar a ir ao encontro de todos os repteis com mais de 20 metros de altura. Desde do primeiro pedido até hoje, Pedro sempre me pediu dinossauros de presente.


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Pedro, Helder(Lorão), Eu e socialização

Acho incrível o fato dele viver na mesma familia a qual vivi e ter uma socialização tão diversa da minha e da de Helder. Está claro, Lorão e eu somos diferentes, mas nossas socializações têm semelhanças que nos explicam mutuamente e esclarecem tanto as distâncias como as proximidades de comportamento entre nós. Eh evidente as causas dessa diferença: as mudanças de posição social do núcleo familiar coloca Pedro em situações sociais as quais nunca nem eu nem Helder vivenciamos em nossa infância.


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Bolsas Company e objetividade de classe


Pedro, espero, nunca vai precisar chorar e fazer chatagem emocional para os pais a fim de pressioná-los a comprar uma bolsa "Company" no shopping. Eh amargo depois descobrir que o fato de ter a bolsa não é suificiente para mudança de classe social desejada. Peupeu não precisa desejar mudar de classe social, pois ele é burguês e tem hábitos quase autênticos de burguês.(Um dia ele terá consciencia disso.)
A diferença de Peupeu no Capiparibe, para mim e Helder ter isso ou aquilo era um disfarce social necessário para nossa boa integração aos outros alunos do colégio Marista. Mas, para nossa triteza(temporária), o fazer de conta intrisseco ao fato de dois gorotos da UR-6 possuirem as tais bolsas da moda foi logo desmascarado. Desmoronou-se diante da resposta violenta da divisão objetiva das classes, diria um sociologo. Helder e eu, voltando para casa, chorando depois de um assalto o qual o ladrão colocara em evidência nosso plano de fingir ser como os outros da escola, eis um golpe forte. Descobrimos então o porquê dos estudantes do Marista possuirem bolsas "Company": os pais deles possuiam carros, eles voltavam seguros para casa. Podiamos ser classificados nesse momento como "novos classe média" fazendo analogia aos "novos ricos". Os "novos ricos" tem o dinheiro necessário para serem ricos, mas falta-lhes os modos de agir, as sabedorias do que se deve e não de se deve fazer, e eles terminam por trair a própria riqueza na falta de trato com os habitos aristocráticos ainda visados como forma de distinção social. Apenas pelo apredizado dessas "maneiras" o "novo rico" poderia objetivar sua nova classe social e ser socialmente aceito como rico sem aspas. Eu e Helder, inconcientes das forças sociais em questão, queriamos parecer crianças da classe média. Ora, não eramos isso e o esforço para parecer, aparecia. Hoje chamaria isso de sofrimento social, pois gerado por mecanismos própios a uma sociedade dividida em clases onde o risco de classificação(numa ou outra classe) é também um risco de desclassificação. Só o tempo e leitura crítica para curar as feridas e destruir o desejo tôlo de ser uma "criança burguesa".

quarta-feira, abril 21, 2004

Separação sujeito-objeto(à Julia)

Outro dia lembrava-me com carinho de um debate já antigo: Eu, Julia e Rafa discutiamos sobre cobras e largatos. Meu último post fez vir a tona essa lembrança, aproveito dela para considerar os comentários.

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Aproveitando

Estavamos não sei onde (também desconheço o motivo e o porquê) e falavamos algo sobre "a verdade", "o necessário relativismo", etc. Julia, já na UFPE e cursando psicologia, Eu e Rafa ainda naquele lenga lenga de cursinho para fazer vestibular. Não deixa de ser engraçado tentar lembrar dos recursos, dos esforços, das estripulias de uma forma de pensar diletante e intuitiva diante da maior lucidez de uma lógica regrada(para não dizer sistematizada, pois imagino que isso seja um passo a mais). E é assim como vem a lembrança: de um lado Julia com exemplos precisos, justos, organizados pela razão; de outro Eu e Rafa, mais eu porque sou teimoso e não era irmão, tentando juntar fragmentos de nossa "experiência escolar" com outros de outra ordem, para negar a verdade de Julia(que era relativa para ela) e deveria ser universal, para nós.
Claro, nenhum detalhe da conversa me ficou. Porém, por lembrar da época, advinho qual argumento eu devo ter tentado usar para provar a verdade última: a velha e boa matématica. Devo ter dito indignado e enfurecido com a superioridade de Julia: "mas dois mais dois são quatro em qualquer lugar do mundo, isso não é relativo!é?" Hoje teria vergonha de cair nesse "realismo platônico"(quase pitagórico), porém é preciso responder aos comentários explicando os avanços(?) dados por mim em busca de um realismo outro, a fim de explicitar o meu ponto de vista sem reduzi-lo.

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Racionalismo aplicado

Pois bem. Não creio que o esforço de objetivação, que passa necessáriamente por um tipo de separação sujeito-objeto, seja contestável de todo. Se implosão dessa separação foi feita, tenho a impressão de vê-la apenas na crítica incontestável da fenomenologia ao estatuto positivista da desvinculação entre os dois, em absoluto. Ou seja: o que antes era dado pelos positivistas como dado(os famosos fatos), agora tem que ser visto como construido(para alegria dos jornalistas que podem pensar às vezes que a realidade é construida por eles!) .Porém, se é verdade que "o ponto de vista cria o objeto", não é menos que não o pode criar a sua imagem e semelhança(como fazem alguns jornalistas e ciêntistas sociais mais ou menos bem informados!), e é nesse sentido que não me conformo na fenomenologia(tenho cuidado com os usos dela), e busco alcançar outros parametros epistemologicos de concepção do real.

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Exemplo da sociologia


Bourdieu dizia que o progresso nas ciências sociais dependia de um progresso nas condições de conhecimento. Para isso são nessarias, dizia ele, idas e vindas aos memos objetos, ocasioões para objetivar a relação subjetiva e objetiva ao objeto.
A sociologia que se diz fenomenológica, ao meu entender, faz meio trabalho e dificulta o trabalho de elaboração de objetos mais condizentes com a realidade empirica por não aceitar o trabalho necessário de objetificação das relações subjetivas e objetivas que mantemos com o objeto. Um exemplo disso em termos mais metodologicos que epistemologicos é a etnometodologia. Nela se fala até de "generosidade epistemologica" em oposição à tradicional "ruptura epistemológica". "Os atores são conscientes de si[nesse sentido a psicanalise ajuda-me a dizer não a certos exageros!], o esforço do sociologo deve ser descritivo e não analítico, etc." Todos esses argumentos que, de uma maneira ou de outra, nivelam formas de pensar diferentes em nome de um falso humanismo, são por mim rejeitados. Pois não vejo como a ciência pode não estar em oposição ao senso comum. E Husserl em pessoa, como também Bergson(representante maior do elitismo itelectual na França deve demorar em aparecer!) opunham suas formas de pensar ao "vulgato ordinário".

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Voltando ao individuo, ao "eu socializado"

Falando da "teoria da personalidade" Luicien Sève diz o seguinte: " é naquilo que sua personalidade tem de mais essencialmente social que o individuo é mais singular, naquilo que ela(a personalidade) tem de essencialmente singular que ela é mais social". A grande dificuldade a superar é essa. Acho porém que podemos nos pensar como individuos sociais e socializados. E isso para o bem de nossa psicologia. Mesmo sendo aqui uma psciqué um pouco blogueira e cheia de narcisismo. Pois é isso.

segunda-feira, abril 12, 2004

Coisas do amor (sentimentalismo livresco, entre outros)

A coisa mais irritante de um blogue é esse aspecto puramente autobiografico, egocêntrico, egoísta, "eu isso e eu aquilo", que na maioria das vezes parece inevitável na construção desses espaços virtuais do narcisismo mais vil e concreto de nosso tempo. Pode parecer inútil a busca desse distânciamento de si, desse esforço de objectivação de si, numa tetativa de mostrar que o importante é misturar uma miséria individual com outras, onde elas (as misérias) se transformam em fenômeno coletivo, se não social. Talvez não seja nunca vão relembrar,e vou fazê-lo sempre que possível, que quando escrevo em primeira pessoa, nesse eu teatralizado, não é de mim que falo, mas de um objeto, distanciado na mesura do possível no intento mesmo de não ser reduzida a minha existência recontada ao fardo dessa irreductibilidade, dessa unicidade tão única que proibe toda forma de troca simbólica.

E não foi por outra razão, falo do sentimento de antipatia para comigo mesmo ao atender a esse eunismo blogueiro, que li ontem de maneira um pouco compulsiva um livro de um sociólogo o qual não consigo esconder meu entusiasmo. Intitulado Esquisse pour une auto-analyse( Esboço para uma auto-análise), esse pequeno texto de pouco mais de cem páginas de Pierre Bourdieu, encheu minha fraca cultura de franca empatia, único sentimento possível para um estudante como eu diante de uma confissão tão sensível aos valores da ciência, da sociologia. Sem sentir-me mais inteligente ou capaz que outros, não pude não sentir uma emoção profunda ao ler as frases finais do livro: " Je n'ai jamais pensé que je commettais un acte d'arrogance sacrilège lorsque je posais, sans me prendre pour lui pour autant, comme tant de critiques inspirés, que Flaubert ou Manet était qulqu'un comme moi. Et rien ne me rendrait plus heureux que d'avoir réussi à faire que certains de mes lecteurs ou lectrices reconnaissent leurs expériences, leurs difficultés, leurs interrogations, leurs souffrances,etc., dans les miennes et qu'ils tirent de cette identification réaliste, qui est tout à fait à l'opposé d'une projection exaltée, des moyens de faire et de vivre un tout petit peu mieux ce qu'ils vivent et ce qu'ils font."( Eu nunca pensei cometer um ato de arrogância quando colocava, sem me colocar como ele, como tantos criticos inspirados, que Flaubert ou Manet era alguém como eu. E nada me faria mais feliz do que ter conseguido fazer que alguns de meus leitores ou leitoras reconhecendo suas experiencias, suas dificuldades, suas interogações, seus sofrimentos,etc., nas minhas, tirassem dessa identificação realista, que é exatamente o oposto de uma projeção exaltada, os meios para fazer e viver um pouco melhor o que vivem e o que fazem.)
Talvez pudesse dizer diante dessa minha juventude preguiçosa o quão o desejo do grande sociólogo francês parece próximo de meu desejo empacado(não vou divagar sobre as razões) de transformar-me num estudante aplicado.
Não sei da natureza das forças produtoras de minha lerdeza, porém ainda não desisti. Dentro desse percurso um pouco dolorido de construção de caminho, tento me inspirar desses textos condensadores da experiência alheia... Tento encontrar algo de mim lá dentro. Porém não de mim sozinho, isolado. Mas desse "eu" configurado na experiencia mesma do mundo, com outros tantos eus sigunlarmente comuns.

sexta-feira, abril 09, 2004

"Cronologicamente a situação era a seguinte: um homem(sujeito) e uma mulher (obejeto) estavam casados"(Clarice Lispector)

Um texto de um não-filosofo
Na UFPE escutei pela primeira vez uma critica clara do positivismo. Lembro bem. Foi numa aula de introdução à Antropologia. Na época, incorporei bem e com entusiasmo àquela postura de negação da "arrogância iluminista", da "pretenção de descrever o real do mundo", do "mito do evolucionismo". Graças a não sei que Deus, não fui até o fim dessa caminhada. Tive oportunidade de rever alguns exageros. E assim, pude ler nessa união matrimonial entre sujeito e objeto, realizada na critica do "objetivismo positivista" , traços de uma arrogancia talvez mais brutal que a precedente.

A arrogância do primeiro consistia numa crença desmesurada na razão e na tecnica. Porém, o mundo restava timidamente uma realidade exterior ao homem que tentava desvendar seus mistérios. Na segunda, se aceitamos certos exageiros idealistas, o mundo existe apenas a partir de uma espécie de dependência entre o sujeito e sua consciência do mundo em questão. A realidade é tida como um dado imbricado ao sujeito/objeto, agora em uno. Ora, na minha opinião tentar descobrir um mundo que independe de mim é mais modesto, digamos, que aceitar uma verdade a qual precisa de mim para existir em si. Não acham?

Mas é preciso afinar ainda mais essa coisa toda. A fenomenologia é mais subtil e refinada e esquiva-se dos antigos quadros de disputa entre o idealismo vs matérialismo(realismo). Husserl faz uma leitura muito fina dos mecanismos de subjetivação e objetivação no sujeito. Constroi um "eu" todo especial para dar suporte a esse novo casamento entre sujeito e objeto. Porém, como diria Clarice Lispector, meu "eu" nunca é esse "em si" que responde livremente e faz escolhas. E é nesse sentido que essa filosofia da vida (mãe do existêncialismo de Heidegger a Sartre) parece tender a um universalismo emagador da historia. Eh assim que ela tenta lutar contra o determinismo forçando a produção teorica desse homem livre, um escolhedor de destinos. Eh engraçado ver como diferentes humanismos tentam atingir o mesmo obejtivo, a liberdade. Marx, por exemplo, também falava em homem como sujeito de sua propria historia. Porém, estudou os mecanismos externos da prisão de homens, produtores internos da ilusão de liberdade. Alain Touraine também fala de sujeito: homem que tem consciencia de sua historicidade. Que enfrenta a fragmentação do "moi" e constroi uma identidade na alteridade. A exceção de Marx, todos leram Husserl... Bem se não leram(falo da Clarice e de Touraine), tudo bem. Tem outro francês que leu, um tal de Michel Henry. Ele escreveu um livro que se chama Marx. Não sei se é irônia: mas é um estudo fenomenologico do barbudo.

Agora que disse todas essas asneiras sem nenhum controle. Termino sem conclusão. Para os que tiveram coragem de ler esses três paragrafos: boa noite.

terça-feira, abril 06, 2004

Les Choristes


Acabo de chegar do cinema. Vi muita beleza. Fazia tempo que procurava ternura na sétima arte em vão. Quanta vida recontada, e com qual graça e lirismo! Chorei porque fazia tempo que não via tantos sentimentos bons sem sentimentalismo. Saudade.

O filme reconta a historia de Clémont Mathieu, um educador. Um professor de musica fracassado, desempregado e aceito como "auxiliar de professor" num internato no periodo do pos-guerra. Logo na chegada Mathieu encontra um ambiente pedagogico repressivo. Não vou alongar em detalhes... Revelo logo, o bonito do filme é o seguinte: ele vai aos poucos, através do canto, mudando a forma de encarar as crianças dificeis la internadas. Mas mudando mesmo. Antes da chegada dele, os garotos eram violentos em e por principio aos olhos do diretor do estabelecimento, e aos do expectador também um pouco. Diante do olhar sereno do recem chegado, a meninada ganhava um outro sentido. Ela dava um sentido. E tudo isso mediado por um canto cheio ternura... Se eu pudesse escrever o canto, se pudesse cantar aqui, reproduzir a beleza, o som. Ah palavras inuteis!
Acho que fiquei apaixonado pelo personagem. Tudo nele me pareceu encantador. Talvez esse encanto, pondero, tenha sido fruto dessa estranha utopia dele a qual sinto-me atachado, a da educação. As vezes sinto vontade de me deixar levar por esse sonho de ensinar o fundamental, o basico e largar todo o resto. Ir ao contato do mundo em seu estado bruto, não se deixar levar pela dureza dos encontros. Educar. Verbo misterioso, sem sentido. Falar do prazer de aprender e apreender as coisas. Das dores e agonias geradas por isso. Voltar e dizer sobre a realidade da caverna produzida pelo efeito da luz. Luminosidade que machuca os olhos. Coisa da filosofia, dessa vontade de entender... Serah que isso se ensina? Tavez não.
Eita. Vi que foi empolgação demais por hoje. Terminei sem comentar o filme direito. Mas espero que vocês possam assisti-lo. Vale a pena. Boa noite!

domingo, abril 04, 2004

Poça de Lama

Descrição de personagens

Raul, irmão de Romero e Ricardo. Filho do meio, como se diz, de Isabel e Raimundo. Criança de olho triste, fundo. Quase negro.Tem jeito de trombadinha. A mãe, apesar disso, além de o achar bonito, insiste em chama-lo de Meu Rei, de Meu Rico, de Meu Reino. Taxonomia nobre, de profunda demonstração de carinho para com o garoto de pobreza tão evidente.Sim, o corpo dele é fino, sem esperança. Mesmo assim, bateu peladas no Buracão.

Romero, irmão menor e mais chato, é tão magro que mesmo a maldade dele em periodo de odio é mingua e fraca. Ele tem cacimbas la onde outros seres humanos calculam ter saboneteiras. Coisa incrivel, nele, entre o ombro e o peito, pode-se guardar um pouco de agua em épocas de chuva. Penoso. Tapado. Carniçeiro. Urubu. Uma criança como tantas outras daquele lugar. Ele também jogou bola no Buracão.

Ricardo. A ameaça do maior e do mais forte. Dentes de cavalo. Cascudo adulto, defensor da prole moribunda. Autoridade arbitraria. Um tirano. Menos magro. Ainda menos negro. Ja transa com garotas. Se não faz, ensina uma tal de punheta. Diz ser quase o mesmo que foder. Sim, foi atacante no Buracão.

Descrição do local

O Buracão é um campo de futebol nos cafundois do Judas. Situa-se entre o fim de mundo e o começo de um outro fim, mais duradouro. Depois dessa região limitrofe, existe apenas uma linha de trem onde mortos aparecem de quando em vez. Individuos sem importância, pois aprende-se rapido a razão da morte deles: são pessoas màs, gente ligada ao trafico. Sujeitos fadados a esse tipo de destino.


Finalmente a poça

Paulinho jogava bola com alguns amigos na quadra da UR-6. O chão pegava fogo, o sol era de rachar, e todos continuavam naquela danação de pelada. Imagino que Dante não poderia ver crianças em inferno daqueles.
Os pés dos pequenos demonios, ja acostumados com toda dor, so esperavam tocar na bola para driblar e mostrar mais pericia.
Entre os de seu time, Queinho, Raul e Piu. Entre os inimigos Dinho, Ricardo e Daniel Capeta. Depois de horas a fio de futebol violento, sangrento, e idas e vindas aos bancos de espera, Helder, irmão do tal Paulinho voltou para casa. Nesse momento alguns grandes chegaram expulsando os menores, mais ou menos às 4:00 horas da tarde. Era sempre assim, na hora que o sol decia e a temperatura ficava amena os maiores usavam da lei do mais forte.
Nesse dia os pequenos decidiram continuar o jogo no famoso e temido Buracão. O problema é que o tempo mudara rapidamente e o sol dera lugar a nunves negras. A chuva era certa. Mas a vontade de jogar talvez fosse ainda mais. Então os mais teimosos, cheios de medo, partiram pela primeira vez sozinhos para o campo dos grandes. Afinal, sair de um inferno seco para um molhado, não poderia ser tão horrivel assim.
Pelada de gigantes na lama. Do pescoço para baixo era canela. Porrada não faltou. Porém, nenhuma pancada podia ser maior do que a da bola parada na poça de lama...
Momento tenso. Raul, o menor dentre todos naquele lugar imenso foi buscar a bola encharcada.Paulinho olhava tudo, perplexo. Pegando nela com a mão, o menino com jeito de trobadinha sente um pé encravado na terra. Aquele negro pequeno e magro gritava, não queria mais jogar. Tinha visto um morto. Daqueles sem importancia. O grito de pavor parecia indicar uma consciencia esquisita: quem teria o mesmo destino?
O presente mostrou o seguinte:
Piu, morto com tiro na frente de casa. Dinho, perseguido, acuado e não se sabe se continua vivo. Daniel foi assassinado de maneira cruel e o corpo deixado na frente da casa da madrasta. Raul, Romero e Ricardo devem estar bem, graças a deus. Paulinho conta a historia em terceira pessoa, com medo do pavor intimo de toda confissão.

quinta-feira, abril 01, 2004

Clarice: amante de Cesar amante de livros

Puchkin parece impressinado com a intertextualidade dos blogs. Por isso decidi falar de um outro blog o qual gosto muito de ler. Além daquele de Dado, adoro ler o do amigo Cesar.(Nao vou dar o endereço para os chatos!)
Li outro dia alguns textos antigos, pois cheguei atrasado no universo do blogue dele. Encontrei um texto engraçado no qual reconheci uma Clarice um pouco modificada da minha. Cesar a tomava como amante, assim como ela fazia com o livro do Lobato, As reinaçoes de Narizinho, no conto Felicidade Clantdestina. Como por amizade lembrei que sempre vi no amigo com cabeça de sergipano aquela imagem de devorador de livros. Alguém com a capacidade de fingir que nao tinha um livro so para depois tomar o susto de o ter...
Dormir com a Clarice (Macabeia). Depois acordar com ela. Parece sonho falar assim. Intriga pensar nisso como uma outra forma de fingir(ler) um livro. Porém, em empatia, sinto-me livre para chamar isso de literatura. Pois transfigurada a imagem do real, o sonho quixotesco do blogue parece mais humano e vivo.
Vou indo. Acabou minha aula de informatica. Fim de tempo nesse espaço intertextual.

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.