sábado, junho 30, 2007

Sobre Cacos


"O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito [o caco] para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata" (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser).


Uma vida pode ser lida como um amultuado de cacos. Se guiada pelo ímpeto da beleza, ela pode acomodar os pedaços, compondo as arrestas irregulares e, sem medo de imperfeições, conceber-se enquanto mosaico. Durante muito tempo esse foi um conceito realativamente aceito de arte, de composição artistica.
O que é uma vida bem vivida? Seria essa a pergunta mais fundamental?
Transformar cacos em beleza talvez seja, no fundo(de onde não me perguntem!), a tarefa de todo ser humano adulto diante de sua própria existência real. Reorganizar em lógica que busca harmonia, as frases, os temas (Jorge, não ria de mim, não sou músico!), que, se o compositor for bom, se fundirão todos em sonata...(em boa sonata). Numa dimensão de totalidade onde as partes interagem entre si de tal forma que não se pode mais notar a natureza fragmentada oriunda dos sons - (caramba, hegelianismo numa fase dessa da vida devia ser estritamente proíbido) , a melodia, ou seja, os cacos de uma vida reagrupados de maneira harmônica (ou harmoniosa), revelam o esforço de apagar dissonâncias (as arestas que são atributos de qualquer caco), e a "beleza" seria assim entendida como a vitória desse errafecer de disformidades sonoras.
Eu gosto de mosaicos. São metáforas formidáveis da existência humana. Nele, talvez esse o segredo do seu belo, os fragmentos não desaparecem: eles se conformam à beleza. As vezes, em momentos de paz, sinto-me um mosaico de mim mesmo.

quinta-feira, junho 28, 2007

“[...] E que o desprezo dos metodólogos por tudo que se distancie tanto dos cânones estreitos que eles mesmos forjaram em termos absolutos do rigor serve frequentemente para mascarar a superficialidade rotineira de uma prática sem imaginação e quase sempre alijada daquilo que constitui a condição verdadeira do verdadeiro rigor: a crítica reflexiva das técnicas e dos procedimentos.” (P. Bourdieu)


Por uma sociologia dos sociólogos recifenses

Primeira Parte

1- Homo Academicus à CFCH: lição de estranhamento


A aula inaugural de Pierre Bourdieu no College de France começa com as seguintes palavras:

“Nós devíamos poder pronunciar uma lição, mesmo que inaugural, sem se perguntar com qual direito: a instituição está aqui para descartar essa interrogação, e a angustia ligada ao arbitrário que se faz presente dentro dos começos.” (Leçon sur la Leçon, les editions de minuit, 1982.p 7)

Bourdieu sabia que era isso mesmo que ele estava fazendo, pronunciando uma aula que lhe era de direito e que lhe atribuía legitimidade. Tanto sabia que usou desse recurso para mostrar que a ciência que ele ali representava estava lá para por em suspenso, ou ao menos em suspeita, algumas das legitimidades ali presentes. A sociologia, dizia ele, " ciência da instituição e da relação, feliz ou infeliz, à instituição, supõe e produz uma distância intransponível, e às vezes insuportável, e não apenas para instituição; ela arranca o estado de inocência que permite de preencher com alegria (grifos do próprio Boudieu) as expectativas da instituição."

Para ele, imagino, jogando com o jogo de palavras e de posições que estão ao seu alcance, fazia-se possível, porque decorre daquilo mesmo que a sociologia exige e produz, uma defesa da reflexividade como propriedade mais fundamental da ciência que assumiu como sua: “todas as proposições que esta ciência enuncia podem e devem se aplicar ao sujeito que faz a ciência”. Não vou aqui discorrer sobre o que, nessa visão, acarretaria na falta de alegria dos intelectuais ao se verem como um objeto de estudo da sociologia. Mas falarei mais de meus incomodos de não poder tomar meu universo como objeto de conhecimento sociológico.

Começar falando de uma aula magistral (e aqui, realmente magistral, porque dada com a presença dos mestres já consagrados da instituição), realizada na França, numa das instituições de maior prestigio daquele país, para falar de meu estranhamento com o universo do CFCH, pode parecer, no mínimo dos mínimos, esdrúxulo. Mas como negar, de minha parte, que, tanto a leitura como o contato direto com uma sociologia tributária dessa perspectiva reflexiva, são fontes constantes de angustias e inquietações com relação aos padrões de produção sociológica do qual hoje faço parte? Mais. Em auto-crítica, ou em esforço disso, pergunto-me se minhas angustias com relação aos tais padrões, já que não estão, como tudo o mais, embasadas (as angustias) em um verdadeiro inventário sociologicamente fundado de razões, pergunto-me se não são elas apenas caprichos arrogantes herdados da assimilação de uma cultura sociológica produzida nos grandes centros de produção acadêmica. O que foi assimilado nesses centros parece ou aparece como deslocado quando transferido para uma região periférica de produção acadêmica. Essa é minha impressão. E estas as questões que dela decorrem: não estaria eu reproduzindo, em moldes um pouco diferentes, uma lógica normativa de imposição de uma maneira de lidar com a sociologia digna de uma mente colonizada? Não estaria assumindo para mim parte daquilo que imagino criticar quando extravaso minhas angustias?
De fato, digo-me, enquanto a angustia permanece em estado latente, como acontece comigo, ela não se torna capaz de elaborar a pergunta que seria a meu ver a única sociologicamente rentável: o padrão de produção da sociologia cefichiana não poderia ser ele, como pede a reflexividade própria à sociologia a qual me inspiro objeto de aplicação do conhecimento sociológico?


Não é sem auto-complacência que se diz que não se entra em sociologia sem esgarçar as aderências e adesões pelas quais integramos um grupo, sem condenar as crenças que são constitutivas do pertencer e renegar toda ligação de afiliação ou filiação. Mas para entrar em sociologia é preciso o quê? Quando e como podemos nos considerar sociólogos e ser considerados como sociólogos? Não seriam essas dúvidas que a instituição deveria neutralizar? Para quem essas questões realmente importam?

Pertencer ao mundo do CFCH para mim é entender que esse estranhamento meu deve encontrar respaldo na sociologia mesma na qual deposito minhas crenças (esperanças de elucidação e esclarecimento do modus operandi do mundo social) e com a qual me esforço de entender o mundo, inclusive o meu mundo de produção (o universo dos intelectuais cefichianos). Mas entender isso significa apenas e não mais do que isso um dizer-se a si mesmo que em um momento ou em outro seria preciso um debruçar-se propriamente sociológico sobre esse mundo, saindo assim de mera doxa intelectualizada com vínculos em visões sociológicas já feitas do mundo, para construção de um discurso real e sociologicamente embasado a respeito das condições de um tipo de produção que hoje de alguma forma desmereço sem conhecer realmente suas razões de ser.

Nas falsas brincadeiras com amigos nas quais falamos de “cefichismo” (doença intelectual com sintomas como “teoréia aguda” ou o “mal da erudição empaca pesquisa”, ou ainda um “antisociologismo crônico”), estamos diante desse estado de coisas cujo meu estranhamento é apenas mais um sintoma: ele é uma vontade de entender por que alguns valores da produção do conhecimento sociológico são postos em questão de maneira concreta, apesar de velada, por todos nós.

Por razões que julgo obvias não tomaria como objeto de estudo os intelectuais das ciências humanas e sociais do CFCH. Tão obvias quantos minhas razões seriam o valor de uma sociologia que, descrevendo nosso mundo de produção sociológica, mais ou menos do jeito que ele é e produz, nos daria os meios de entender, entre outras coisas, porque continuamos a não conseguir querer de fato saber quem nós somos.
Jampa.

quarta-feira, junho 27, 2007

Nuvens, Sonhos e ... Psicanálise.


“Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas – e as pitombas me serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isto me perturbou.” (Graciliano Ramos, Infância, 1945).


Graciliano Ramos intitulou “Nuvens” o primeiro capítulo de suas memórias de infância. O título não se referia aos condensados de água, claro. Nele encontramos mais o atributo da imaginação contido nas nuvens que é em última instância forma que ganha forma através de imagens. Ou melhor dizendo, da imaginação. É aquilo que a literatura faz com o real (mesmo quando realista): ela transforma flocos flutuantes informes em dragões alados, em cachorros fantásticos, em tigres com dentes de sabre. Transforma pitombas em generalização teórica, mundo empírico em um abstrato.

Existe um site que sempre visito onde as pessoas contam sonhos . Na experiência psicanalítica, como numa grande construção literária dando formas às nuvens de nosso inconsciente, ao verbalizar e tornar visíveis as imagens sonhadas, damo-nos os meios para que nossa imaginação analítica interprete aspectos de nosso mundo psíquico que, naquele momento, torna inteligível, ou ao menos sensível, a natureza informe do universo dos sonhos. Um dos primeiro sonhos que li no site citado me impressionou bastante. Não consegui encontrá-lo novamente, mas o reformulo aqui em liberdade literária. Espero que o dono não venha tirar satisfações comigo de minhas interpretações, afinal de contas, tanto uma (a liberdade literária) como outra (minhas interpretações) são totalmente imaginadas. Então vamos a minha reformulação:

“Um adulto a quem penso ser eu chega para fazer sua análise. Não era bem um consultório, mas uma casa, familiar. A analista pedia para o adulto que ainda penso ser eu tirar a camisa e fechar os olhos. Eu achava, pensando que ele era eu, que ela queria me hipnotizar. Eu senti agora já sabendo de mim umas carícias nas costas e ela me balançava. A psicanalista falava coisas e eu não entendia. Perguntava-me por que eu continuava de olhos abertos. Eu tinha a impressão de fechá-los, mas de continuar sempre vendo.

Depois ela sentou, explicou-me umas coisas que não me lembro se entendi ou não. De repente entrava uma criança no quarto que estávamos. A psicanlista tentava explicar pra o meninote muito afavelmente que estávamos numa análise. Entrava outra criança. Eu tentava encontrar minha camisa. Linda, a analista me passava minha roupa e eu ia me vestir numa espécie de armário. Eu a via conversar com uma mulher enquanto tentava confusamente me vestir. Tinha medo de que alguém me visse naquela situação, mas ao mesmo tempo achava que todo mundo sabia que não havíamos feito nada demais. Só análise. Mesmo assim, achava que as pessoas desconfiavam da psicanálise como subterfúgio para o sexo. Alguma coisa aconteceu e me vi em situação de sair da casa sem conseguir estar vestido.
Vi-me vestido com uma calcinha. Na hora que tentei calçar meus sapatos, vi que já havia sapatos nos meus pés. Tirei-os e calcei os outros. Continuava de calcinha e isso me incomodava.
Ao sair da casa teve a coisa do peixe...
Uma rua que ficava ao lado de um canal ou um rio, não se sabe bem, foi cenário de um espetáculo nuca visto. As pessoas falavam do peixe sol. Observei, admirado, a estranha beleza desse peixe. Ele reluzia a água podre e fétida e ao redor dele, a água parecia pura e límpida. Existia uma particularidade nesse espécime que merece toda uma atenção: ele só morria por causa de uma doença, a gripe. ”


Claro, toda interpretação de sonho precisa de um contexto. Precisa de uma estrutura psíquica, de uma história de vida, que dêem suporte analítico a interpretação daquele sonho. Não conheço o dono do sonho e todas essas informações me são desconhecidas. Como encontrar nexo num peixe que morre de gripe? Ou nas imagens de um adulto com medo de ser julgado por fazer sexo ao fazer psicanálise? E o que dizer de calçar sapatos em pés já calçados? E a calcinha?

Uma pergunta que sempre me fiz e pode ajudar nesse esforço é: como, uma ferramenta tão especifica de análise, como é a da psicanálise, pode dar conta de casos tão diferentes, tão heterogêneos e se conceber, em fim de conta, como uma teoria explicativa de estruturas mais gerais do inconsciente humano. A mesma psicanálise que cuida das neuroses alheias cuida das minhas, que invariâncias psíquicas estão por trás dessa “funcionalidade” psico-analítica? Como pitombas podem virar esferas e “representar” tudo que é redondo no mundo? Como o sonho de outrem pode se transformar em nuvem com formas que dêem vazão a minha imaginação?

Como não tenho respostas, deixo aqui a esperança nublada do resto...

Jampa.

terça-feira, junho 19, 2007

Amor, Passado, Príncipe.


Tenho a mania estranhamente adolescente de guardar as minhas cartas de amor em um recanto. Tanto as escritas por mim quanto as recebidas. Narcisismo? Mais. Vez por outra, nas escondidas, recolho-me a uma leitura atenciosa dos afetos desfeitos. Eu acho um exercício valioso de treinamento sociológico. Objetivação do passado mais profundamente subjetivo. Os “te quero pra sempre ao meu lado”, “ nada na minha vida foi tão profundo do que o que vivemos nessa relação”, “te amo e acho que isso nunca vai acabar”, lidos com a distância do tempo, tem um efeito historicizante, e, e isso não é pouco, desnuda os invariantes estruturais de nossas sempre românticas expectativas amorosas, apaixonadas, colocando-nos secamente no fluxo instável de nossos afetos. Quanto mais sincero o amor, as palavras mais apaixonadas, mais e mais forte é o efeito crítico da percepção de um passado tão único, tão específico, que é estranho pensar naquelas palavras imaginando os sentimentos ali expressados. Sim, eles não existem mais.

Existe nessa bizarra prática algo de profundamente tragicômico: a gente lê, desfruta melancolicamente de um passado perdido para sempre, e, como não dizer, procura nela(na prática) e nele (no passado) refúgio para dilemas mais atuais que, para melhor efeito terapêutico, tenham fonte em mesma verdade profunda daqueles sentimentos de outrora. A história apesar de contextualizar também revela, mesmo que de maneira metafórica, invariâncias estruturais.

Um homem quer ser amado para ser príncipe, pequeno príncipe. Fazer da mulher a encarnação do desejo e do encanto é o imperativo de seu reinado amoroso, no passado e no presente. O bom pequeno príncipe revela-se quando descobre de maneira lírica a abstração que é amar loucamente.

Encontrando um aviador, o príncipe, sempre ingênuo, e por isso mesmo sempre amante, sempre apaixonado, deve pedir: “Aviador, desenha para mim uma mulher linda para que eu possa amar.” E ao olhar o desenho, e ver os traços delineando curvas, exibindo discretamente busto, sugerindo seios, o principezinho deve reclamar: “mas ela parece cansada.” Na esperança de contentar a nobreza do garoto o aviador deve fazer mais uma tentativa. Mais linhas em esboço para expressar com delicadeza as formas femininas. Uma longa silhueta ilustrar uma beleza helênica, proporcional, encantadora. “ Mas ela parece triste”. O aviador não perde a paciência. Reflete um pouco e lembra das ovelhas. Desenha uma bonita casa e diz: “ sua princesa está lá dentro”. O príncipe, feliz da vida, contenta-se com tamanha perfeição.

O passado morto, nunca morre de fato na gente. As emoções passam, as pessoas passam, a vida passa. Mas o menino príncipe guarda o desenho da casa na esperança de que um dia, a princesa saia dali de dentro, sem estar nem triste nem cansada, para depois disso, quem sabe, queimar as cartas do passado e dizer: não é mais meu, tudo isso que passou.
Jampa.
RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
Sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,
Usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
É um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
Nota-se um certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
Mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
Outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
Meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
Numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços de família
Perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
Que um corpo é cheio se surpresas.

A moldura deste retrato
Em vão prende seus personagens.
Estão ali voluntariamente,
Saberiam – se preciso – voar.

Poderiam subtilizar-se
No claro-escuro do salão,
Ir morar no fundo dos móveis
Ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
E papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
Quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
Ele me fita e se contempla
Nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

Os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
Dos que restaram. Percebo apenas
A estranha ideia de família

viajando através da carne.

Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo, 1945

segunda-feira, junho 18, 2007

Impressões sobre Budapeste



Acabo de ler um romance de capa cor de mostarda. Gostei. Imaginei para ele diversos títulos como o piegas “Amar é como aprender uma nova língua” ou “Desamar e esquecer ”, ou “O pêndulo de José Costa”, ou ainda “ Sob o olhar de quem não assina”, e tantos outros que imaginei durante a leitura de Budapeste, de Chico Buarque.

A trama do livro se equilibra no fio tenso de uma crise conjugal contada a partir do universo de um "ghost writer": profissional que escreve para outros assinarem em seu lugar. Achei de fato ousado da parte de Chico tomar fio tão tênue para conduzir um romance. Perguntava-me a cada parágrafo se aquele mote manteria a narrativa viva até o fim. Para minha satisfação, o livro é um cuidado só. E, na medida em que tememos a ruptura desse fio de barbante que aparenta segurar a narrativa por um cadinho de nada, percebemos que as coisas vão acontecendo na vida de José Costa.


Como gostaria que as pessoas lessem o livro saboreando e descobrindo o enredo, não vou comentá-lo. Deixo aqui minha vaga e modesta opinião sobre esse equilíbrio tênue da trama como sendo a grande qualidade do livro. Sim. Pois a beleza, a poesia de que falam alguns críticos, provém dessa dilatação do romance que usa um foco aparentemente central como eixo da trama (relacionado à crise conjugal de José Costa e Vanda), mas que, ao atentarmos bem, só ganha sentido através da relação da personagem principal com a linguagem entendida em sentido amplo: sua profissão de escritor anônimo que cria um ponto de vista atravessado pela problemática do reconhecimento autoral, as línguas estranhas e familiares entrecortando as maneiras de conhecer e reconhecer o mundo e a si mesmo, os diferentes códigos culturais, tudo isso são espécies de personagens invisíveis do livro.

Exemplo disso se encontra nos momentos onde a confluência entre linguagem e percepção (da personagem) se exacerba, e vemos até José Costa se “tornar” Zsoze Kósta e Vanda aparecer germanicamente como Wanda.

Vale ainda ressaltar, entre tantas outras coisas do romance, a estrutura pendular na organização dos capítulos: a oscilação de José Costa entre duas mulheres (Vanda e Kriska) e duas cidades (Rio e Budapeste). Nela, os caminhos dos personagens se confundem com linguagens. O “real” é retido, modificado, construído pela palavra, e o jogo ficcional dialoga com ele mesmo, revelando, entre outras coisas, as artimanhas da própria literatura (do escritor), ao usar as palavras contra outras de maneira a exprimir idéias, sentimentos e anseios a respeito dele mesmo e do mundo. Claro, nesse caso, Budapeste também é livro bem cuidado, pois, sendo história contada por um “escritor de anonimato”, bela sacada de Chico, a artimanha dessa empreitada literária parece ganhar também um desvelar singelo. Prática sabida de todos, como quase tudo que é “segredo” no mundo social, o escrever para outrem se torna prática invisível porque, quanto mais sabida, mais (de)negada por ter que ocultar – e é justamente isso que garante sua funcionalidade e efetividade – a maneira que funciona sem ser desvendada. Assim, só um narrador empático ao mundo secreto dos escritores anônimos, um autêntico “ghost writer” poderia ver o que ninguém vê, sentir o que ninguém sente, e, porque não dizer, mostrar o que todos sabem mas ninguém mostra. Um verdadeiro exercício, vou arriscar, de sociologia implícita.
Jampa (será?)

sábado, junho 02, 2007

À Boa Viagem do Lindu de Oscar Niemeyer (Com a licença de João Cabral de Melo Neto).



Eis casas-grandes de engenho,
verticais, escancaradas,
onde se existe em extensão,
e a alma todoaberta se espraia.


Não se sabe se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Jampa
“imensos limites da praia”


ou ginástica(o parque), para ensinar
quem for viver naquelas bandas
um deixar-se, um deixar viver de
alma arejada, não fanática.

quinta-feira, maio 24, 2007



Pernambuco não para de surpreender. Veja o que encontramos no site http://www.pebodycount.com.br/, uma iniciativa que nos mantem em alerta para o volume de assassinatos no estado:
"Procurei ver onde Pernambuco se encaixava nessa tabela e, vejam só: considerando a média de assassinatos por armas de fogo entre 2002 e 2004 (3.639), superamos as baixas de 15 conflitos armados em outros países do mundo, entre eles, a Guerra das Malvinas e a disputa por território entre israelenses e palestinos."
Essa tabelinha do lado, indica isso: numeros de nossa miséria humanda. O que me faz lembrar uma antiga aula de estatistica que tive onde o professor perguntava: o que dizer daquilo que os dados nos dizem? Tarefa prosaica do sociólogo ficar lendo tabelas e "traduzindo" para uma linguagem mundana as taxas, as proporções e percentagens. Muita gente acha fria, desumana uma sociologia que se apoia em números. Para essas pessoas, ela oculta as histórias de sofrimento por trás da roupagem neutra dos simbolos matemáticos. Hoje tenho uma visão mais pragmática da sociologia e acho que numeros, conceitos, e outras ferramentas devem ser usadas conjutamente quando isso traz esclarecimento sobre o mundo. Mas não deixa de ser irônico perceber que certas questões "humanistas" só conseguem vir a tona com a medição e comparação desses "numeros de sofrimento e da dor".
Jampa

quarta-feira, maio 23, 2007

Depois da "fama"



Acho que desde o início desse blogue(Março 05, 2004) tomo de maneira razoavelmente constante os comentários dos amigos como mote paras outros textos. Depois de alguns anos nesse espaço, o mote da "fama" me faz ter vontande de avaliar um pouco dos objetivos desse lugar onde tantas vezes dividi inquietações e alegrias, tristezas e melancolias. Essse meu topus da "retorica de tensão" vem aqui e agora relembrar seu primeiro post e se perguntar se os objetivos ali imaginados foram cumpridos.

O que dizia?:

"Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as oscilações do espírito, caráter e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoável no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução."


Engraçado perceber que dizia com certo estilo, o que sabia não conseguir faze com destreza, escrever. Mas o fato é que o blogue continua sim(com ou sem mérito formal), acredito, cumprindo sua função de dividir minha miséria com a alheia. Apesar de restrita no alcance, nessa calçada da "fama" voltada para troca de idéias, onde o mérito que fica é a sujeira do concreto entre as unhas pintadas de esmalte vermelho(adoro essa imagem dos holofotes que iluminam as mentes tantas vezes debeis das belas atrizes), segue-se o caminho pouco estrelado do debate sobre o mundo (social, politico, artistico, etc.).

E nesse cineminha, o glamour quer dizer o seguinte: acordar cedo, estudar, ler, escrever, discutir idéias com amigos (pares da sociologia). Assim, vez por outra, quando por alguma circusntância da vida, for abordado por um jornalista por ser "filho de"( e as suposições que esse fato gera), poder dizer com humildade e orgulho do pai que, sim sou "filho de", mas com idéias e opiniões própias também uai! Lição aprendida em casa( inclusive com o próprio pai), mas ampliada e desenvolvida no mundo.

Jampa

terça-feira, maio 15, 2007

As palavras por si só falam?



ASSALTO E MORTE IIentrevista » Acrísio CoutinhoPublicado em 15.05.2007 (em http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/15/not_231638.php - Para assinantes).

“Eu queria matar os dois”

Revoltado com a forma banal como a esposa foi assassinada, o executivo Acrísio Coutinho quis entrar na viatura da PM para pegar os dois adolescentes, mas foi contido por parentes. “Queria matar os dois.”
JC – Como o senhor ficou sabendo o que aconteceu com sua esposa?
CRÍSIO COUTINHO – Eu estava em casa. Mas nem em casa a gente consegue se sentir protegido, agora. Há menos de três meses assaltaram e mataram um aposentado na nossa rua. Mesmo assim, nada acontece. Para mim, os culpados por isso tudo são essas pessoas que defendem os direitos humanos. Por causa delas é que ninguém pode fazer nada com esses garotos que matam para roubar. Eu mesmo queria matar os dois, mas não deixaram. Ninguém pode encostar a mão num menino desses. Essa situação só vai mudar quando tragédias desse tipo começarem a acontecer na família desse pessoal.
JC – O que o senhor pretende fazer?
ACRÍSIO – Não faço idéia de como vai ser a minha vida daqui para a frente. Passamos o fim de semana em Gravatá. Comemoramos o Dia das Mães. Chegamos aqui às 7h e ela foi fazer uma feira rápida. De repente, aconteceu isso. Só quem está passando é quem sabe o tamanho da dor.
Opinião de Jampa? Respeito a dor. Mas a lógica do Jornal(na entrevista com o rapaz a "frieza" dele é ressaltada porque voltou para dormir depois de ter atirado numa pessoa), a reação do marido( "eu queria matar os dois, mas não deixaram"), e como tudo é tratado... (com o expanto da naturalidade em vários sentidos: a do adolescente sendo o mal a ser eliminado, a naturalidade com a qual o menino parece falar das sua própria brutalidade, a naturalidade com a qual a reação de querer matar o assassino de sua mulher aparece como um esforço de "fazer justiça com as próprias mãos"), tudo isso corrói demais a alma. Olho por olho, e o mundo acabará cego, dizia o pacifista. Ao que me parece... nossos olhos (espelhos de que alma meu Deus!) já não servem mais pra muita coisa não.

sexta-feira, maio 11, 2007

Opinião de classe: sobre uma autocrítica sem flagrante criminal



Nada pode denunciar melhor nossa hipocrisia do que os esforços toscos por parte dos membros de nossa elite para “reconhecer” publicamente que alguma coisa está errada (com as atitudes nunca antes contestadas por eles). Esse tipo de meia culpa, é meia, para não dizer medíocre, até quando tenta ponderar sobre dividas sociais históricas das elites com o todo social.

Não deixa de ser engraçado ver gente se rebolindo, inquieto, reclamando das “algemas da democracia” (http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/11/not_231132.php - para assinantes). O texto de José Paulo Cavalcanti Filho, aqui mais uma vez, advogado, cai como luva de aristocrata no Jornal de Pais Mendonça. Ele mais uma vez aparece como condensador de lógicas de classe que, por omitir a posição real de quem o escreve (de membro da elite que agora percebe ser atacada), torna visível e condensada a eterna falta de sensibilidade de nossas elites com os problemas de ordem pública.

É claro que no texto se defende, aparentemente, valores universais:

“Todos devem responder por seus atos, claro. Se for o caso, devem também ir à prisão. Mas só depois do devido processo legal e de sentença judicial. Prisão, antes do processo, só em casos bem específicos: flagrante delito, risco de violência física, coação de testemunhas. Fora disso, resta só um gesto desnecessário e menor de autoritarismo.”

Mas é mais evidente que a preocupação não é com universo social como um todo:

“Na primeira e mais espalhafatosa dessas operações, o presidente da Schincariol foi preso e algemado em seu quarto. De madrugada. Tudo sob as luzes da TV. A acusação (ou pretexto) era a de fraude fiscal – sem que sequer tivesse sido lavrado o correspondente auto de infração, mais isso só se soube mais tarde.”

Claro que numa sociedade como a nossa, dizer as coisas dessa maneira pareceria por demais elitista, então que se faça a meia culpa:

“Para os homens simples do povo, foi quase um delírio. Depois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos. A prática, no imaginário coletivo, funcionou como uma revanche dos oprimidos. Mas foi mesmo legal a operação?, eis a questão.”

Sim, a velha e boa legalidade dos ricos. Aquela feita para proteger:
“Homens sem antecedentes criminais, e com endereço certo[e que agora] são privados da liberdade – sem que representem qualquer perigo à sociedade. Nenhum deles jamais nos assaltaria, pelas esquinas do Recife.”
Exato. Quem nos assaltaria são os pretos, pardos e pobres, para os quais a lei universal não se enquadra da mesma maneira (o novo chefe de segurança de PE já informou sobre o tratamento que ele visa dar aos bandidos e marginais do povo, cadê as manifestações em prol da legalidade?), pois para eles ela funciona apenas no sentido de jogá-los nas celas amontoadas das nossas prisões. Mas diante de um tal estado de coisas, a meia culpa não podia ficar por aí:
“Nem é de hoje, esse autoritarismo. Que esses brasileiros anônimos, por tempo demais, são os mesmos que já sofrem nas cadeias sem mesmo ser condenados. Com nomes anunciados, com estardalhaço, pelas delegacias de polícia. Aviltados, diariamente, em programas policiais de rádio – em que são invariavelmente exibidos como arrombadores e maconheiros, também sem ser antes condenados. Tudo sob o silêncio cúmplice das elites.”
O que se esquece de dizer é que não apenas o silêncio é cúmplice, mas a palavra também. Porque no final das contas, a voz aparece em defesa de um ideal universal, não para responder aos exageros da policia e da imprensa cotidiana contra os mais oprimidos, mas num momento onde membros da elite estão “sofrendo” com possíveis exageros da Policia Federal (com direito, inclusive, a defesa pública de ex-governador - hilariante ver Jarbas falando de “espalhafato” da Policia Federal, porque a mesma prendeu empresários pernambucanos envolvidos com agora mais famoso do que nunca cartel dos combustíveis, diga-se, o objeto central da defesa de José Paulo Cavalcanti Filho).
Por essas e por outras, a crítica legitima dos possíveis exageros das autoridades policiais envolvidas no caso de prisões de ricos se revestem de um particularismo enviesado de classe. Nele, é o fato de “[d]epois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos” que influenciou no imaginário coletivo (que é coisa de pobre, de povinho que não pensa, só reage irracionalmente) dando a impressão de “revanche dos oprimidos”. E a lei ? pergunta atônito o autor que pensa nos pobres para salvar os ... seus.

Jampa

sábado, maio 05, 2007

Impressões do Mundo Cão (Sem dar nome aos bois)


Fui a uma palestra sobre política de segurança pública e sociedade na universidade. Julgo o assunto importante para mim, pessoalmente, por questões muito particulares, de história de vida. Cheguei atrasado e não quis atrapalhar. Ouvi de fora da sala o finalzinho da apresentação do palestrante, e na pausa entre a palestra e o debate, entrei me situando num recanto.

O debate não chegou a me assustar. A sociologia do crime, de alguma maneira desacreditada no discurso do palestrante, eram duas, e as duas, segundo ele, incorriam no mesmo erro: procurar causas primeiras da atitude criminosa, a razão de ser do criminoso. Apoiado em estudos críticos dessas vertentes, ele defendia uma sociologia mais pragmática, ela sim, em condições de ajudar a formular políticas de segurança pública. Uma sociologia que estudasse os agentes facilitadores da ação criminosa, e não suas causas sociais últimas ou primeiras (essas, segundo eles, não ajudam nas formulações de políticas de segurança pública eficazes, porque, pelo que entendi, são obviedades estruturais das quais não se pode tirar proveito).

O discurso me pareceu sóbrio, embasado em dados e em reflexões teóricas, dando ao trabalho ali apresentado alhures de cientificidade inquestionável (o que não quer dizer que o trabalho e as teses defendidas nele sejam inquestionáveis, bem ao contrário.) Apesar de conhecer pouco da literatura sobre a criminologia, a sociologia do crime, a sociologia das políticas de segurança (se é que isso já existe), aventuro-me aqui a comentar, de maneira despretensiosa e rápida (do meu ponto de vista sociológico) aspectos da discussão que participei apenas como expectador. Essa coisa de ser expectador é importante porque todo aquele debate me pareceu de fato espetacular. Feito para ser visto e apreciado como uma mis en scene onde as idéias são postas em tubos de ensaio para ganharem sua roupagem objetiva. Da minha cadeira, meu ponto de vista era de alguém que olha para quem está olhando o objeto de estudo. Eu quis, em exercício quase fenomenológico, pôr em suspensão o sujeito que observa o sujeito observando um objeto (que é também um sujeito, no caso das ciências sociais) para apreciar o debate a partir desse “ângulo inusitado” de uma reflexividade desinteressada.

Divertido, mas também tragicômico, encontrar nas questões sérias formuladas ao palestrante, um quê de um pedantismo intelectual que se preocupa com “os limites do conhecimento sociológico” para pensar no uso da sociologia na formulação de políticas públicas de segurança. “As ciências sociais não tendo o mesmo potencial de controle dos fenômenos que estuda, não tendo a mesma capacidade de experimentação, de verificação empírica no sentido estrito do termo, como elas podem ajudar na formulação de políticas que realmente melhorem um estado de coisas dado?” O engraçado é que esse pedantismo se reveste, claramente, de uma aparente modéstia: são os limites da utilidade do pensamento sociológico que estão em questão, é tudo aquilo que barra o potencial de aplicabilidade dos conhecimentos sociológicos no mundo social o que perturba.

Apesar de nunca ter acreditado, nem mesmo no início de minha formação, na neutralidade axiológica, ou na pureza cientifica de uma pesquisa sociológica (nem de outra ordem, apesar de reconhecer hoje que em outras ciências por muitas razões – inclusive sociais – a autonomia das condutas cientificas caracterizadas em ganhos epistemológicos em termos de estatuto de cientificidade é maior nas ciências tidas como exatas e/ou formais), acho que a questão da utilidade prática da sociologia tem mais chances de ser colocada adequadamente quando se assume uma perspectiva reflexiva (auto-reflexiva, com o perdão da redundância) o ponto de vista do sociólogo como, exatamente, o de expectador.

O que me aborrecia naquele debate todo era o constante auto-posicionamento dos seres pensantes na procura de soluções sociológicas para formulação de políticas públicas eficazes para o controle da violência. (Por não conhecer a literatura nem ter lido o livro do palestrante, minha intenção aqui, é menos de fazer uma digressão a respeito da inadequação da formulação teórica do que se defendeu na palestra, do que apontar para alguns pressupostos que, ao meu ver, com muita facilidade, são deixados de lado em nome de uma maior “operacionalidade” de um tipo de análise sociológica que combine políticas de prevenção e repressão da violência. Assim toda sociologia que se preocupe com o estudo das formas e conteúdos de socialização do criminoso, estão fadadas a serem tachadas de inadequadas quase que de imediato, pois não sugerem formas de controle e ou repressão dos agentes potenciais da violência.)

Eu defendi aqui em outro texto a idéia da natureza social da violência. Idéia segundo a qual algumas lógicas sociais, a serem estudadas com mais detalhes, estariam estruturando a conduta de alguns atores situados em posições especificas no mundo social. Seria essas lógicas que ao serem identificadas ao problema da violência justamente produziriam um fator de inteligibilidade sobre o ignorar mesmo das lógicas de classe operando na percepção mesma da gravidade do problema.

Não creio que o que eu penso seja uma heresia sociológica. E não creio que exista de fato incompatibilidade entre concepções da sociologia que prezem por perspectivas mais racionais (que se preocupem em identificar as estratégias de ação dos agentes criminais) e outras que considerem mais elementos históricos, do passado desses agentes, da maneira pela qual o tipo de socialização especifico ao qual foram submetidos tem valor “explicativo” do tipo de conduta adotada. Por mais que possa ser verdadeiro o fato desse conhecimento sobre a socialização não ter “aplicabilidade” para formulação de políticas porque “apenas” constatam dificuldades estruturais (entendi assim o argumento dele, mas é possível que esteja simplificando demais), acredito que, em caso de acumulação sistemática de conhecimento a respeito desses aspectos estruturais podem (se bem elaborados por uma sociologia de viés crítico) conceber conhecimento que sirva de guia para políticas localizadas de prevenção e, porque não, de repressão da violência em alguns casos.

Eu penso, por exemplo, não sei se forçando a analogia, em políticas de tratamento diferenciado que foram aplicadas na escola nacional francesa, depois dos estudos conclusivos da sociologia da educação(décadas de 60 e 70), que identificavam dificuldades escolares ligadas às lógicas de classe social funcionando como filtro seletor no seio dos mecanismos aparentemente meritocráticos da escola republicana. Claro que o problema da violência tem suas especificidades, mas não acredito, como leigo, que sejam singularidades que impeçam estudos sobre socialização dos agentes dos grupos criminosos. Nem que esses estudos sejam de todo incompatíveis com a vontade de tornar utilizável o conhecimento sociológico para fins de aplicabilidade social.

terça-feira, maio 01, 2007

Sobre a consciência das pequenas coisas



Quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas não sempre. Tive vontade mesmo, daquelas bem grandes, de brincar para sempre. Subir e descer as ladeiras gigantes, salvar a menininha linda que, em seguida, se apaixonaria por mim. (Tentei uma vez um ato heróico com a vizinha mais linda do mundo. Levei um murro. Até hoje desconfio de minha vocação de salvador daqui, dali, ou de qualquer lugar). O namorado dela, meu inimigo, fazia uma arte marcial. Passei dias com uma dor no rosto. Meses com vergonha. E guardo até hoje uma ferida na alma.


Na adolescência tive o meu primeiro contato com a política não mediada pela vida de meu pai. Do meu pai havia aprendido que ter ética tinha a ver com compromisso com causas coletivas (tinha uma idéia vaga do que isso queria dizer). Havia notado nele, antes disso, que a idéia de compromisso tinha a ver também com cumprimento de todo tipo de acordo, dos mais simples (pagar as contas) aos mais complexos, os que exigem confiança mutua. Alguns chamam isso de honra.

Outro dia, um grande amigo ligou e contou-me: você viu a nota no jornal falando de você? Ela dizia que seu pai quer lhe ver na política. Não havia visto. Fui ver. A nota tinha informações fidedignas. Deve ter sido meu pai, pensei.

Ao longo desse blogue escrito certamente em linhas tortas, venho deixando transparecer razões para o sucesso relativo do meu esforço para incorporar o metier de sociólogo. Numa época a qual vejo que vários amigos chegaram a pensar seriamente na possibilidade de suas candidaturas, é engraçado perceber que ocupando uma posição privilegiada em relação à deles no que diz respeito uma real possibilidade de congraçamento pelas urnas, assumi sempre a idéia segundo a qual em terra de “filhotismos” é legitimo com tudo correndo a favor, nadar contra, em nome também de uma dignidade e de convicções políticas. Alguns próximos dizem: “mas você sabendo disso, não pode evitar os erros do filhotismo. Os filhos de políticos de direita não ficam pensando nessas coisas”. Na minha cabeça de sociólogo, mesmo que barato (sem publicações, sem produção acadêmica), eu tenho clara uma coisa: apesar de entender o porquê de alguns amigos pensarem nisso dessa forma, não acho que a consciência de um mal (o filhotismo), per si, tenha o poder de impedir suas conseqüências. As relações de poder que se estabelecem ao logo de uma vida familiar não podem, pela dimensão mesma da relação parental, se estabelecer de maneira profissional no âmbito de uma política desprovida de confusões entre o público e o privado. Para mim o problema não é saber ou não de minhas qualidades políticas, de minhas competências para agregar pessoas em torno de um projeto (tudo isso talvez exista e seja proveitoso diante de um estado de coisas piores), mas saber da autonomia de uma empreitada como essa diante de lógicas de funcionamento do mundo social que colocariam em cheque ora a relação familiar ora a relação profissional.

A olhos desavisados isso que digo pode parecer resignação diante de condicionamentos sócio-culturais, ou um reconhecimento tosco de um autoritarismo paternal. Muito pelo contrário, vivi sempre numa casa onde o direito de opinar contra era possível e mesmo louvável. E meu esforço é e continua sempre o de encontrar boas maneiras de intervir e construir liberdades possíveis dentro do mundo social violento e obtuso que é o nosso. Porém, não julgo ser possível lutar contra um inimigo de tal envergadura histórica (o filhotismo) com a ingenuidade de uma consciência libertadora em meu favor. Quantas sanções íntimas e invisíveis para mim e para os outros não se fazem porque é o pai e não o homem público quem fica em dificuldades numa campanha eleitoral, ou numa polêmica no que diz respeito à cidade? É o filho ou cidadão o interlocutor?

Quando criança queria ser jogador de futebol, mas não sempre. Hoje, depois de ter levado um soco, mas já tendo beijado algumas namoradas (que amei), além de ter saído da adolescência sem ter participado de política estudantil estrito senso, sonho em me tornar sociólogo com produção e descobrir quem sabe algumas coisas sobre a nova revolução burguesa da classe média de Casa Forte, que por alguma ironia do destino parece estar começando em Boa Viagem, pela reivindicação popular de um parque arborizado e cheio de verde, salvando assim, não só BV do concreto de Niemeyer, mas o mundo do efeito estufa.
Jampa.

quinta-feira, abril 12, 2007

Sem reciprocidade: refletindo sobre as sugestões sociológicas de um médico



Cheguei numa clínica perto do DETRAN para fazer um exame médico. Sem ele, nada de renovação da carteira de motorista. A espera de mais de uma hora não me incomodava, lia trechos salteados de Memórias do Cárcere com algum interesse. As pessoas que chegaram antes de mim reclamavam:

— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!

— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.


Eu ouvia os comentários sem muito entusiasmo. A demora tediosa rendia mais tempo à leitura. As lembranças de Graciliano Ramos me faziam pensar em coisas desconexas, o Recife e a violência na época de sua passagem como prisioneiro por aqui. Quem seriam os militares que o receberam? Depois ficava resmungando num silêncio ensimesmado “caramba, como sou idiota! Aquelas pessoas, como o Velho Graça, estão hoje mortinhas da silva.” Só lezeira, como se percebe.

Minha vez chegou. O funcionário entreabre a porta e, pela fresta diz: “Sr. João Paulo, sua vez.” Entro. Observo que ainda não era ali, do lado de trás da porta, o consultório. Havia um corredor e mais adiante uma outra porta. O rapaz me indica o caminho.

O médico é um senhor de cara simpática. Pediu para que eu sentasse e ficasse a vontade. Sentei, mas não quis me sentir a vontade. Ele lê minha ficha e, olhando por cima dos óculos pendurado à ponta do nariz, comenta: “quer dizer que você é sociólogo, que coisa boa rapaz! Como nosso ex-presidente, o Fernando Henrique Cardoso.” Visto o ar de simpatia que ele quis passar com aquelas palavras pensei comigo: “Essa cara é um incompetente! Médico de verdade só se interessa por informações clínicas e tudo que sai desse terreno e se assemelhe ao humanismo, à pena, à misericórdia, sei lá, coisas de uma ordem pouco ou nada racional, ele não considera como importante. Por que diabo esse médico quer dar uma de gente boa?” Depois dessas acusações interiores, ponderei e decidi refletir de maneira menos pulsional.

De repente, não mais que de repente, tive a impressão de entender por que ele demorava tanto nas consultas lembrando das reclamações das pessoas na ante-sala de espera.

— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!

— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.


Acho que as pessoas devem estar pensando que o médico é meu melhor amigo, pensei. Quis esquecer o julgamento inicial, mas fiquei pensando nas pessoas que ainda estavam lá, esperando.

Antes de começar a fazer os exames, que um bom sociólogo não saberia dizer se ele fizera bem ou mal, Dr. Kleber passou uns vinte minutos a me dar conselhos sobre o que eu deveria fazer para entender melhor a sociedade. E aqui eu chego ao ponto da história do meu dia de paciente que merece alguma reflexão. Aproveito para mudar o tom da narrativa e para dizer que o que interessa de fato nesse texto começa aqui.

O médico me disse em tom de conselheiro: “mas por que você, como sociólogo, não pega um gravador, e sai recolhendo e registrando as informações do dia a dia das pessoas. Porque a sociedade somos nós. Você compra um gravador e coloca no bolso. Aí você encontra um fulano na rua, hoje mesmo vinha passando na Rosa e Silva e tinha os Sem Terra parando o trânsito lá. Você chega como quem não quer nada, começa a conversar com as pessoas envolvidas, registra. E vai fazendo isso. [...]” Na hora agradeci os conselhos, sem comentá-los. Disse-lhe apenas educadamente que ele tinha razão e, pensando na teoréica cefichiana, que era uma pena não termos muitos sociólogos dispostos a estudar a nossa realidade mais concreta.

Mas já voltando para casa, caiu minha ficha. Quem aquele médico filho da mãe pensa que é para achar que um sociólogo não sabe como fazer e desempenhar bem sua profissão? Não, ponderei em seguida, era preciso justamente provar para mim mesmo a eficácia de minha disciplina. Eu devia mais uma vez refletir sociologicamente. A boa pergunta a se fazer era: por quais razões um profissional de outra área se julga no direito de propor uma metodologia intuitiva para a sociologia a um sociólogo? Por que, no momento em que ele estava me propondo as suas sugestões, eu não reagi e achei até natural tais proposições? Por que eu não comecei a dizer: “senhor Dr. K. acho que seu diagnostico seria mais eficiente se, ao invés de conversar tanta potoca, o senhor ponderasse sobre os sinais múltiplos de alguma possível deficiência nervosa que eu pudesse ter ou coisa dessa natureza etc. e que me habilitariam ou não a renovar a porra da carteira?”

Pensando nestas questões lembrei de um vídeo que assisti ainda quando estava na França sobre a sociologia de Pierre Bourdieu. No final do documentário que seguia os passos do cotidiano do sociólogo vemo-lo numa situação inusitada. Ele está dando uma palestra numa comunidade periférica no subúrbio de Paris e se vê pressionado por um morador que, no debate final, acusa o sociólogo de intelectualismo e pergunta: “ você acha que porque é Bourdieu é Deus (Deus em francês é Dieu, como o final do nome de Bourdieu) e por isso sabe mais de nossas vidas do que nós mesmos. Mas somos nós que a vivemos, somos nós que sabemos o que vivemos. Você acha que sabe mais de nossas vidas do que nós?” Pierre Bourdieu, com uma voz tremula e que denunciava um certo nervosismo de sua parte respondeu com empenho a pergunta. Ele disse que o que ia dizer poderia parecer pedante, mas ele achava que sabia sim, mais sobre vida do rapaz, de certo ponto de vista, do que o rapaz mesmo. Ele passara a vida dele se dedicando a estudar o mundo social, a vida das pessoas, como elas viviam e em que condições. E que era justamente o fato, de ter abdicado de boa parte de viver a vida para poder pensar como a vida era vivida pelas pessoas, que, acreditava ele, lhe dava condições de dizer coisas interessantes sobre a vida dessas pessoas. E em tom mais emocionado ainda, falava de um outro sociólogo, para não mais falar em favor próprio, que segundo ele teria estudado com muita seriedade as condições de vida dos emigrantes na França e concluiu mais ou menos assim: “se em nome de um anti-intelectualismo qualquer você se nega a ler uma pessoa como ele, que fez um trabalho sério, e que pode ajudar a entender melhor as razões sociais pelas quais existe sofrimento na sua vida, então eu digo sem medo que você é um idiota.” Mas os que isso tem a ver com a sua história com o médico, vocês podem estar se perguntando.

Bem, as pessoas em geral, como o interlocutor de Bourdieu no debate e o médico que me atendia, acham, também geralmente, que o fato de pertencer ao mundo social lhes dá, imediatamente, uma espécie de legitimidade sociológica. Eu vivo minha vida, eu sei a respeito de mim mesmo. Ninguém sabe mais de mim do que eu mesmo. Esse tipo de idéia, que é justamente um dos principais mecanismos sociais que dificultam a aceitação da sociologia como uma disciplina cientifica, age de maneira constante e dificulta o entendimento daquilo que chamamos de ruptura epistemológica em sociologia. Essa ruptura nada mais é do que a diferença entre a experiência da vida (entendida como percepção, tal como estudada pela fenomenologia de maneira geral) e o pensar essa experiência (que se daria num movimento de objetivação, de distanciamento das coisas vividas). Dessa forma é que, num consultório médico para renovar minha carteira de motorista, recebi conselhos de um médico de como ser bom sociólogo. E se eu fizesse o mesmo e desse ao doutor sugestões de como tratar clinicamente seus pacientes... Bem, acho que isso seria socialmente um absurdo.

terça-feira, abril 03, 2007

Sertaozim: veredinhas de Jampa (sozim)


Viver é negocio muito perigoso. Exatos são os tempos incertos, neles sentem tudo assim, titim por titim. Será vigia de seqüela, não será? Existe Sertão realmente em tudo? E aquele... Que-Diga? Não diz. Vai que existe.
Veseja sem versejar. Essa não tinha no João. Mas comporta. Tinha sem ter.Nonada agora vem no meio. Mire veja. O João é torto, sem sagarana. Não existe astúcia em dizer assim a verdade. Ao contrario do difícil. Agouro de assim encontrar questão da morte: repetição, imitação. Só de muda só, sem ajunta. Diga se homem, qualquer sem nó, assim sozim, sozinho, não se quer assim ao lado?

Verde longe. Não gosto. Nenhuma presença quer tirar solução de mundo, dessa terra seca. O Sertão de um homenzinho assim de mim, meu sentimento. Imenso. Isso seja. Euzim, nem pra tanto. Agora, queria que queria. Mas do propósito maior desvantagem da vontade. Nem de longe quanto mais perto o senhorio estudado e doutor com glosa decora acordo. Discorda com a dose de onde sou chinfrim. Não é de dó de coisas ditas. São muito em mim assim, como mesmo.

Queria ser João. E assim Desdeus parou em mim. Não quero. Sirva de pagina de coisa blogueira, caso o fracasso assim acoite olhos de desaprovação. Queira não. Seja. Mas ser assim dói, comove. E como disse ele próprio de Rosa:

“Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: -- ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.”


Nem tudo que se diz faz assim, doer comigo. Sertão se sou, não careço de mim! Dera jeito de morrer varias vezes no viveiro das veredas. O grande peito era tudinho amor. Não sarava. Que-Diga! Tragamim Deus. Nonada. Já dissera: “O diabo não há! É o que digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”

Jampim. Fim.

sexta-feira, março 30, 2007

Falso Brega Amoroso

Reginaldo Rossi:

É impossível acabar um amor por decreto de palavras.

Amado Batista:

Ela será uma pessoa inesquecível pra você, pra sempre. Assim como pra ela não será fácil esquecer você, mesmo que arranje outro alguém. Virou uma tatuagem.

Genival Lacerda:

Tatuagem sim. Daquelas que quando você tenta passar o laser para apagá-la, ficam aquelas marcas feias de lembrança.

O rei:

Então, seria melhor guardar o colorido da tatuagem?

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Jampa: da sócio-analise `a psicanálise com ponderações sociológicas.



Eu já disse aqui em outro momento que falar de si mesmo é quase sempre um exercício narcisista. Acredito hoje, porem, que existem maneiras de recontar uma historia pessoal e tira-la de seu particularismo egocêntrico.

Sempre tentei nos meus escritos ter muito cuidado com as palavras. Afinal de contas elas, salvo engano, foram feitas para dizer. Leva-las a serio, sendo exercício pouco modesto e trabalhoso, principalmente para os profissionais da escrita, torna-se uma tortura, pois, ao que tudo indica, o artifício da atividade parece quase sempre matar a espontaneidade do escritor (que talvez devesse ter escolhido oficio de improvisador de palavras, que não sei bem se existe no mercado). Sejamos sempre espontâneos então meu deus! Nada mais chato do que um texto artificial, não é? Do que um texto acadêmico! Eu nunca consegui ter espontaneidade com a escrita...

Mas falar da palavra num texto que queria falar de mim, de um eu, não seria fuga? Não seria mais uma vez recusa da individualidade de Jampa?

Comecei a fazer uma psicanálise depois de alguns anos relutância pessoal e sociológica. O esforço de concentrar e entender o mundo (ou de criar vários mundos em mim) que uma e outra disciplina trazem de maneira tensa e rica tem sido uma nova descoberta de Jampa consigo mesmo. É engraçado estranhar através do dizer-me (e às vezes do silenciar, tão importante também nos processos tanto psicanalítico como no sócio-analítico) as maneiras de me perceber como homem (sim, aqui não no sentido de ser humano, mas de alguém do sexo masculino mesmo). Esse eu garoto socializado com valores e virtudes masculinas (juntas com minhas pulsões latentes), esse eu com seus conflitos com aspectos de feminilidade também incorporados (pela convivência com a mãe, com tias, etc.), esse eu em suma contrastado pela experiência subjetiva do Jampa no mundo hoje, todos eles (os eus de jampa) coexistindo no presente com suas ambigüidades de alguém que “entranha estranhar”. Entranho estranhar porque é o mais incógnito de mim, que não dizia nem pra mim mesmo, que sai do estranhar minhas entranhas. Coisa bizarra isso.

O que isso tem a ver com cuidar das palavras e ser responsável com elas? O que isso tem a ver com o transcender a condição de individuo atomizado e o compartilhar uma experiência de mundo com tantas outras existentes?

O mundo social parece nos oferecer obstáculos comuns (mas oferece mais entre pessoas pertencentes a agrupamentos sociais com padrões de homogeneidade) que explicitados pelos sociólogos, através da analise de contextos e da escuta sociológica das pessoas, possibilitam um compartilhar objetivado da experiência subjetiva do mundo. Acredito que o mundo psíquico, menos desvinculado do que se pode imaginar do mundo social, parece proporcionar limitações semelhantes. Nesse sentido, a experiência da psicanálise oferece oportunidade, através da escuta de elementos sociais e pessoais contidos em lugares inusitados do individuo (a psicanálise chama o mais famoso de inconsciente), de partilhar comigo mesmo um eu que não é mais tolhido de conexões com outros eus e com o mundo... um eu em grande parte criado dentro de mim a revelia de outros mundos.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Defendendo uma visão de natureza social da violência no Recife


A morte não é uma entidade moral nem metafísica. Ela é numa sociedade de classes como a nossa uma questão de inclusão/exclusão social, de integração/desintegração de parcelas da população a um todo estruturado do universo social, e, portanto, é algo necessariamente relacionado à esfera publica de uma ordem social dada. Em suma, é um problema de todos e que não pode ser tratado simplesmente como uma ameaça às parcelas favorecidas de um dado meio. Mas sabendo disso, onde estaria o ponto cego produtor dessa passividade diante de problemas tão estruturalmente fundadores de nossa sociedade? Por que ninguém toca no assunto da degradação de agrupamentos inteiros da sociedade como indicador objetivo da produção de nossa violência urbana? Talvez não tenha elementos para responder as razoes de tal denegação coletiva de uma verdade social certamente dura demais para ser aceita e/ou encarada diretamente. Nesse texto, contudo, apoiado em alguns exemplos trágicos de nossa vida cotidiana, gostaria apenas de defender a idéia segundo a qual em nossa sociedade continuamos enfrentando o problema da violência e de sua conseqüência mais brutal (a morte de seres humanos) como se fosse uma questão de esfera privada num nível puramente moral. O que é a meu ver um erro, pois, vista a gravidade e a natureza social das mortes ocasionadas e de nossas reações diante delas, seria preciso entender que o buraco da bala é indissociável do nosso fosso social.


O jovem Rafael morre assassinado aos 21 anos. A imprensa noticia, evidencia os índices inaceitáveis de violência, as pessoas aparecem revoltadas, afinal perde-se uma vida valiosa, uma existência importante. Qual é o problema “ético” por trás do debate sobre essa noticia? Era uma morte que não deveria ter acontecido e absurdamente aconteceu. Tudo bem. Foi um crime horrendo. Mas e as outras mortes? Aquelas que aparecem diariamente nos cadernos policiais? Não, essas não fazem parte do “problema da violência”, pois, como sabido, não são mortes absurdas, a existência de “marginais”, de “almas sebosas”, de “assassinos” tem seu tempo contado. São mortes “naturais”. O que essa discrepância de tratamento das mídias, mas também, porque não aceitar, do nosso em relação ao mesmo fenômeno (a morte) tem a ver com idéia defendida nesse texto da natureza social da violência e do tratamento privado de um problema publico?

Vejamos.

Sem querer estuprar meu argumento com um paralelismo exagerado, não acho um desproposito falar, como Florestan Fernandes falava do problema da integração do negro na sociedade de classes, da violência urbana do Recife em termos de um “protesto mudo” oriundo de uma rale que responde, agora, aos desesperos ocasionados, desde outrora, por uma profunda “desilusão social”. Digo isso porque algumas perguntas não param de soar como sinos em minha cabeça: será que ainda é preciso se perguntar por que a questão da violência não pode ser desvinculada da questão da desigualdade social? É necessário ainda lembrar da existência do fosso social e da apartação entre as classes sociais no Recife e no Brasil? Não é suficiente se perguntar de onde veio esse homem (muitas vezes ainda nem mesmo em idade adulta, um adolescente) capaz de matar sem titubear ou sem aparentar dilemas morais mais sérios diante de uma execução para perceber que estamos diante de um problema profundamente, estruturalmente social? Por que insistimos em “privatizar” nossos problemas e nos “vitimizar” fugindo do enfretamento direto com o problema real de ordem publica que é o de que o assassino existe porque uma classe de desprovidos de valor foi produzida por nossa sociedade excludente de classes? Ou não seria uma nova classe uma categoria de pessoa sem valor nos dois sentidos que não ter nenhum valor pode ter: o de grupo de pessoas que não tem valor social (e que por isso suas mortes são aceitas sem mais estardalhaço da mídia) e no sentido de pessoas sem valor moral(e que por isso matam sem prejuízo de consciência)?

Tenho consciência de que com esse tipo de reflexão eu posso ser acusado de estar reificando a sociedade, hipostasiando-a com atributos e responsabilidades que são dos homens, dos indivíduos. Mas gostaria que atinassem para o fato que viso apenas colocar a centralidade do deslocamento do problema da esfera de soluções privadas, para que a violência seja tratada com alguma propriedade.

Peguemos assim um outro exemplo daquilo que acho ser indicador dos invariantes estruturais do comportamento social contido nas maneiras que as classes sociais mais abastadas no Recife universilizam suas particularidades.

Estava eu conversando com um amigo e ele me disse o seguinte:

“hoje uso bicicleta como principal meio de transporte. Só que a classe media usa como hobbie e querem ter seus direitos como ciclistas... Mas não vêem que tem milhões de ciclistas pobres que andam por recife porque a bicicleta são seus meios de transportes.
ou seja, eu resolvo o meu... o resto que se foda!”



Eis um exemplo de como um problema publico, o das ciclovias, que deveria ser um problema de todos os ciclistas, torna-se um problema dos ciclistas da classe media. Isso se tratando de lazer. Mas poderíamos lembrar da água que também era um problema de ordem publica e que foi tratado com a perfuração de poços (privados) nos prédios da nossa classe media alta? E o estado de nossas escolas publicas? Dos hospitais? Não sei se nesses casos qualquer semelhança é mera coincidência.

A morte do jovem Rafael talvez não tenha nada a ver com essas coisas levantadas, como proponho. Talvez, as passeatas pela paz que já vi alguns defenderem após a noticia da morte do rapaz possa surtir efeitos e tenham algum sentido a mais do que ser mais uma alternativa recalcada (de classe media) para um problema publico (que deveria envolver todos os setores e parcelas das diferentes classes, na medida que isso fosse possível). E dizer que é um problema de todos significa aceitar a natureza social dessa tragédia e suas implicacoes(algumas indicadas no corpo desse texto) Ate quando iremos fugir?
Jampa

sábado, outubro 28, 2006

Recado do Coração: de Jampa, da ur-6, para Drummond de Itabira...
O Amor Antigo
***
O amor antigo vive de si mesmo,
Não de cultivo alheio ou de presença,
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
***
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
***
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porem, nunca fenece
e cada dia surge mais amante.
***
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
***
(C. Drummond de Andrade, em Amar se Aprende Amando)
***
Drummond, caro Drummond. Porque és um otimista do entardecer desnudas a maturidade sem descuidar da noite. E ai, lendo teu verso, o jovem homem, meio descuidado, não tão vivido em vida, menos ainda em poesia, vislumbra o envelhecer do amor tentando ignorar a causalidade invertida pela posição de teus versos. Ou não seria a causa do amor antigo ter vencido a dor o fato dele mesmo, em tempo remoto, ter sido feito de sofrimento e beleza? Drummond, caro Drummond. Não busco respostas na tua poesia, mas que aqui fique bem dito: o amadurecer de um homem (não sei se o da mulher...) depende do acaso e continuo sofrimento dado pela experiência-amor (e tu dizes isso tão bem, “amar se aprende amando”). Amar é a solidificação do sofrer no tempo.
Obrigado Drummond,
Do eterno amante de sua poesia,
Jampa.

terça-feira, outubro 17, 2006

Comentários sobre La Salamandre (Romance de Jean-Christophe Rufin)

Fazer uma leitura despretensiosa de um romance nem sempre é uma tarefa fácil para quem tenta se dedicar à sociologia da literatura. Para um sociólogo o prazer do texto parece vir não mais de um “entregar-se às tramas” dentro de um esquecimento quase intencional das possíveis suspensões (feitas pelo olhar sociológico) de plausíveis “pactos ficcionais”, mas de um estranhamento continuo com o registro literário que de alguma forma, através da forma para ser mais preciso, traria registros de inteligibilidade especifica do mundo social.
Pois bem, dito isso, convido-me a tentar comentar um romance de Jean-Christophe Rufin lido de maneira leve, na postura do “quase esquecimento” do controle disciplinador da sociologia. O romance chama-se La Salamandre e a trama se passa em Recife. O livro reconta a historia de Catherine, uma mulher cuja vida se organizava em torno do trabalho (ela odiava os domingos), do uso de soníferos, da companhia de um gato, e que vai dar as costas para França para ir morar no Brasil. A capital pernambucana é a cidade que vai servir de pano de fundo para a trama que se desenvolve através do envolvimento de Catherine com Gil, um jovem habitante de uma favela nas proximidades de Boa Viagem.

Meu comentário a respeito do livro é o seguinte

É interessante perceber que com um mote como esse o romancista poderia com muita facilidade cair em “clichê” sobre a condição do turista de primeiro mundo perdido no emaranhado de informações novas a respeito da miséria de um país subdesenvolvido numa cidade fétida do Nordeste. Acredito que ao contrario disso, Rufin consegue construir uma problemática romanesca situando conexões inesperadas entre “misérias ocidentais” fazendo do encontro entre as duas personagens uma ocasião para fugir de uma visão puramente idealizada (exótica ou miserabilista) do terceiro mundo.
Tragédia moderna, livro de profunda dor trazida pelos contrastes extremos entre reconstrução e destruição de si mesma da personagem principal, La Salamandre faz lembrar (ao sociólogo cefchiano que sou) o quão importante é uma simples descrição de ambientes e situações que podem dizer muito das relações das pessoas com o mundo. Das descrições, das informações a respeito da construção da verossimilhança das personagens nas suas relações com os ambientes sociais, de tudo isso se pode tirar lições a respeito desse romance que informa sobre aspectos sabidos, mas de alguma forma ocultos e ocultados da realidade social recifense.
Outra coisa (também meio sociológica), tratando de amor o romance tensiona a temática da liberdade envolvendo aspectos muito interessantes da socialização das personagens. O fato de Catherine seguir uma espécie de lei profunda de seu ser que a leva a se destruir e a se sentir realizada ao mesmo tempo complexifica a trama fazendo um possível maniqueísmo determinista datado funcionar como fonte de “escolhas limitadas” não pelo inelutável destino (do Realismo, do Naturalismo nos termos mais estereotipados), mas por mecanismos ao mesmo tempo pessoais e sociais de tolhimento de condutas onde o mundo e a pessoa humana expressam juntos um doce e amargo conflito.
Vejo que ainda vou ter que lutar mais contra minhas disposições sociológicas para me ater mais ao romance. Quem sabe não volto com outros comentários a respeito do livro numa outra ocasião.
Jampa.

sábado, outubro 07, 2006

Sobre o quadro politico nacional


A selecao brasileria eh recebida com festa nos paises arabes. Por isso, e a logica eh clara, Lula nao vai ter muita forca num possivel segundo mandato. As aliancas feitas com deus e o diabo nessa terra de sol indicam apenas uma coisa: futebol eh muito importante em epoca de eleicoes.

Sobre esse quadro eu gosto mais de chama-lo de cenario politico. O teatro, o espetaculo, tudo nessa metafora de 'mise en scene' parece ser mais apropriado para se referir aa tragedia tragicomica de nossa dramaturgia brasileira...

Bem, na verdade nao sei o que dizer sobre essas coisas.

E, seguindo o conselho de Wittegenstein: das coisas as quais nao sei falar com seguranca, calo.

Abracao.

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.