quinta-feira, setembro 24, 2009

Toda sua vida para chegar aqui.

Eu e meu amigo Bernardo Jurema passamos um dia inteiro o ano passado passeando pelo Cemitério de Santo Amaro. Tiramos algumas fotos. A idéia era voltar mais vezes. Visitar outros cemitérios, fotografar a vida que vive às proximidades da morte. A atividade causou estranhamento de alguns, o que já era de se esperar. Uns dizendo ser uma bizarrice de nossa parte, outros julgando uma falta de respeito com a memória dos mortos. Ouvimos um pouco de tudo e de tudo um pouco.

O fato é que fomos lá e encontramos coisas muito interessantes. Por trás dos jazigos, tumbas e covas ficam escondidos aqueles traços e troços da vida que só a morte ajuda a decifrar mais um pouquinho. Claro, com o empurrãzinho da consciência amarga dos que ainda estão em vida.

Dia lá dia cá serão postadas aqui algumas fotos. Umas serão comentadas. Já outras, como as que seguem, não. O objetivo: apenas captar aspectos temáticos, para que a imaginação de cada um sugira com mais liberdade aquilo que as fotografias revelam como registro. Uma ironia, um sarcasmo. Tudo vale diante de algo tão indecifrável. Só não vale ter medo da dita cuja... afinal, no final, dia ou outro...

Hoje, começo o trabalho com o Descanço.






A pá inerte.




...




Repouso profundo




...





Apenas descanço




O sebastianismo antenado

quarta-feira, setembro 09, 2009

Cometário Cretino

Li esse comentário no Idéias Cretinas a respeito das pesquisas de opinião sobre a queda de popularidade do presidente Lula. Resolvi escrever um comentário cretino porque... tava com vontade:

Bem. Margem de erro, intervalo de confiança, tudo bem. Mas senti dificuldade no entendimento de como a opinião vira estatística e vice-versa. Pense comigo... Se para verificar se uma sopa que minha mãe fez está boa sem precisar bebe-la toda, eu preciso um método amostral consistente que me leve a mexer bem a bendita (a sopa e não a minha mãe, convenhamos...) para evitar distorções na amostra (colherada que darei com sal devidamente distribuído na totalidade da sopa), por exemplo, imagine o que devo "mexer" quando a "amostra representativa" trata-se de uma opinião sobre algo? A sopa a gente até entende o porquê da mexidinha ser tão importante. Mas como é isso com gente humana assim, tão contraditória? A elegância corretiva da "margem de erro" e do "intervalo de confiança" traduzem bem o que de contraditório pode existir numa "opinião"? Fico tão escasquetado com essas coisas.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Morte de Nascimento do Passo

De Nascimento do Passo lembro de dois momentos: meu pai fazendo aulas de frevo com ele e uma visita que fiz à casa dele com Valéria Vicente.

Hoje vinha ouvindo a CBN no carro e soube de sua morte. Reproduzo aqui um e-mail desabafo de Valéria que penso ser também uma denúncia sobre o trato com nossos artitas.

Gostaria de dividir minha tristeza diante do falecimento do inventor da dança frevo, como conhecemos hoje. Nascimento do Passo foi o grande tradutor de uma dança extremamente subversiva criada no Recife no final do séc. XIX e início do século XX.


O frevo de rua, que de tão debochado ficava fora dos cordões dos clubes de frevo, até meados do séc. XX, foi disseminado através do trabalho pedagógico de Nascimento. Nascimento do Passo defendia o frevo como dança, como ginástica e como terapia. De fato, ao ser afastado da dança que praticamente ressuscitou, morreu. Primeiro afetivamente, depois três AVCs reduziram sua capacidade de movimento e fala. Agora, um câncer no estômago o levou. Antes, uma de suas ex-esposas conseguiu retirar cinqüenta por cento de sua pensão por “abandono de lar”.


Diante da morte:

A sensação de que poderíamos ter sido mais veementes na ajuda financeira e humana. A sensação de injustiça a um homem que deu tudo pela arte e que em troca foi condenado antes do julgamento.

A responsabilidade diante de seu legado.


É importante que se saiba: o Método Nascimento do Passo de ensino de frevo não é mais ensinado na Escola Municipal. A falta de uma política de registro e transmissão para a dança do frevo, respeitando as etapas históricas, suas aquisições e limitações de forma séria, nos coloca como partícipes de uma perda inestimável do nosso patrimônio imaterial. Atualmente, apenas o Grupo Guerreiros do Passo (http://guerreirosdopasso.blogspot.com) mantém o trabalho de transmissão desse método. Curiosamente,este grupo não conta com nenhum apoio público e este ano não desfilou com sua Troça, no carnaval, por falta de patrocínio.

Valéria

sexta-feira, julho 31, 2009

Prêmio Florestan Fernandes: indissiocrasias e instituições na SBS




Eu comentei aqui certa vez minhas impressões sobre o congresso do BRASA que aconteceu ano passado nos EUA. Falei naquele momento das relações de poder entre pesquisadores que, brasileiros ou americanos, dependendo de qual instituição representavam, pareciam se situar dentro de uma relação de dominação muito peculiar, onde os intelectuais fixados em universidades americanas tinham maior relevância e se mostravam impaciêntes com certas práticas oriundas de vícios na forma de pensar tupiniquim.

Pois bem, estou no XIV congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia. E a socialidade dos sociólogos parece revelar aos meus olhos, mais uma vez, as relações também discretas de poder muitas vezes camufladas e apaziguadas pelos ritos formais de apresentação do universo acadêmico.


Silke Weber, FHC e o prêmio Florestan Fernandes



Silke é minha professora na UFPE. É uma pessoa a quem respeito muito, porque exerce com muita seriedade, depois de tanto tempo, as tarefas que lhe são dadas como professora da Pós-Graduação. É esse o lado dela que conheço, o da professora antenta e atenciosa com os estudantes. Acho sim muito comovente o entusiamos com que ela anima o seminário de sociologia do PPGS, que considero por várias razões o melhor momento da formação dentro da pós-graduação em sociologia. Seu discurso, coerente com ela mesma e seus sentimentos, seguiu no seguinte sentido: não entendo porque recebo esse prêmio, porque se fiz algo extraordinário, foi cumprir as tarefas que foram dadas a minha geração de garantir a existência da universadade no sentido de formar quadros capacidados etc... Não lembro ao certo o que foi dito, mas a linha foi essa. O que me emocinou, porque condizia com o que vejo nela.

Fernando Henrique Cardoso. Não vou falar da biografia do príncipe, né? Vou direto a linha do discurso dele: eu aceitei vir receber esse prêmio porque, claro, uma das razões, ele tem o nome do Florestan. Depois com aquela modéstia que lhe é tão característica, disse: para vocês terem uma idéia da minha relação com o Florestan, quando eu era presidente e ele ficou doente, eu fui visitá-lo... etc.

Constraste: Silke se perguntava os porquês de merecer tal prêmio, FHC se dava as razões pelas quais aceitou receber a premiação.

FHC e Silke Weber, que dizem eles de nosso universo de produção intelectual? Esses opostos que podem, é verdade, representar apenas personalidades distintas não poderiam também ser vistos como indicadores de concepções institucionais onde USP e UFPE encarnam suas respectivas representações de si no universo de produção acadêmica? Claro que não, me dirão alguns... o príncipe dos sociólogos quase não ensinou na USP. Depois de sua aposentadoria compulsória, ele nunca mais voltou. Como poderia ele representar isso? É verdade, responderia. Mas a idéia de colocar as coisas dessa maneira me pareceu tão natural quanto a de associar o nome de FHC a da USP que o formou. Aquela mesa USP que ele fala hoje em dia com certo falso desdem, insinuando que não aprendeu nada direito ali porque não entendia as aulas que eram dadas em francês... Aquela mesma USP do Florestan que prezava pelo rigor e a cientificidade... Ah, aquela USP aclamada e invejada pela posteridade que a estuda como verdadeiro pilar da fundação institucional da sociologia no Brasil... Quantos não ditos aí ? Quanto ainda para serem ditos?

Por outro lado como não associar o discurso de Silke às condições particulares de produção do saber sociológico na UFPE? Um departamento que teve sim que se preocupar durante muito tempo com a formação de seus quadros para sua própria manutenção.Um departamento que, excetuando alguns esforços localizados encontrados em textos memorialísticos de Heraldo Solto Maior, não encontra força para reconhecer em si mesmo base para ser pilar de fundação de qualquer sociologia no Brasil. Que obra o PPGS produziu que se tornou referência no Brasil? Já a USP...

Sim, FHC é uma figura autocentrada em si mesmo com requintes egocêntricos megalomaníacos (adoro redundâncias que condizem com a realidade dos fatos). Mas ele representa um estado de espírito uspiano de ser... Como Silke, um modo de ser cefichiano da UFPE. E isso... Digo, e nisso, acho que podemos e devemos pensar.

segunda-feira, julho 20, 2009

Modos de aprender, modos e medos de dizer como se aprende... (Notas sobre a recepção de Bourdieu no Brasil)

Aprendi lendo algo de sociologia da educação certas coisas. Talvez a mais importante delas seja a lição que diz que devemos considerar os modos de apredizado como um elemento importante para identificar processos sociais complexos, como os que se evidenciam na descrição de lógicas violentas de “aceitação de si” em alunos “fracassados”, ou com pouca chance de “vencer na vida” através da escola.

Podemos lembrar que falar de aprendizado é lidar com questões caras a sociologia. O que seria da sociologia sem conceitos como assimilação, por exemplo? Ou como o de aculturação?

Na filigrana dos conceitos pode-se dar acento ao primeiro usando o segundo como suporte semântico. Nesse sentido aculturação é um tipo de assimilação onde se envidencia com mais ênfase a violência das relações pedagógicas presentes nas distâncias sociais que as diferentes culturas (socialmente marcadas e marcantes) produzem. Por exemplo, o fato de filhos de indivíduos com pouco grau de escolaridade terem de enfrentar mais dificuldades no processo de assimilação do conhecimento exigido pela escola por lidarem cotidianamente em suas famílias com uma linguagem por demais distante daquela da sala de aula.

A palavra que explica e justifica o aprendizado de tipo escolar em qualquer lugar do mundo é uma só: pedagogia. Aqui não me atenho a etimologia. Da simples descrição da postura pedagógica e do contraste dela com as maneiras de aprender dadas naturalmente no mundo ( apredizado mimético, por imitação, por repetição mecânica, por tentativa e erro, etc.) –, encontramos em crisálida, sem mais considerações, uma separação estrutural e estruturante que se não explica “replica”, representa, reproduz a estrutura social assim dividida e hierarquizada: o verbo e a teoria de um lado( o de cima), o fazer e a prática de outro (o de baixo).

Existe um texto estupendo a esse respeito que exemplifica bem tudo isso que digo em linguagem teórica. Pena que o contexto que a teoria abarca seja tão diferente do nosso. Aliás, o que é triste é que não façamos do contraste entre os contextos um pretexto para entender melhor como se agencia as lógicas das desigualdades sociais através de nossas escolas pelo Brasil a fora. Mas isso é um outro papo...

O texto a que me refiro é o La Noblesse d’État(1989). Livro que por sinal, incompreensivelmente, ainda não foi traduzido no Brasil. E isso é incompreensível porque o livro retoma e refina teses do La Réproduction (1970) que foram abundantemente usadas e debatidas por aqui, inclusive de maneira muitas vezes inócua, tendo seu conteúdo servido apenas para apresentar suas idéias e teses como mero discurso refratário do estruturalismo reprodutivista, que no final das contas, diziam nesse debate, tinha o grande defeito de não levar em conta o potencial libertador da educação.

Grande balela, o livro velho, datado dos anos setenta, mas em certa medida ainda atual, tinha muitos defeitos, sendo o maior deles, a meus olhos de hoje, o de querer produzir muito precocemente os “elementos para uma teoria do sistema de ensino”. Não os tinha. Porque a Escola francesa não era nem é a Escola. E sim uma, ela representa um sistema de ensino. Mas era um trabalho extraordinariamente contra-intuitivo que tratava o mito da escola republicana francesa de frente, numa época onde isso soaria como blasfêmia, uma afronta ao alicerce do regime replublicano como um todo. Do ponto de vista metodológico o texto descrevia de maneira competente questões de difícil acesso ao sensível. E mérito maior: usava as ferramentas da sociologia - aliadas a uma reflexão lógico-filosófica extremamente exigente(é só lembrar o gráfico que reproduzia as relações lógicas entre as partes do livro)-, para caracterizar a homologia das estruturas que faziam com que a escola republicana ao invés de funcionar como garantia das igualdades de condições, terminasse por ser na verdade a vilã que ajudava a perpetuar a reprodução das desigualdades sociais. Mas me parece que pouco daquela metodologia foi realmente assimilida, quem dera criticamente assimilada, pelo debate acadêmico brasileiro. Parece que o fato de já existir uma separação mais visívil, socialmente marcada, entre a escola pública e a privada, proibiu ou inibiu a vontade de conhecer os mecanismo de funcionamento da estrutura escolar que coadunam ou não (vai saber!) com a da estrutura social correlatamente hierarquizada. Mas uma vez é uma pena. Mas isso é um outro papo...

Nosso papo conta aqui que Bourdieu no Noblesse d’Etat descreveu em nuance algumas contradições insolúveis no processo de seleção da nata intelectual da qual, vejam só, ele mesmo fazia parte. Insolúveis, é preciso dizer, não por serem metafísicas ou paradoxais no sentido teórico do termo, mas por ganharem sentido específico ao designarem os nóis tensos existindo nas avaliações, que marcam e separam, articulam e escamoteiam o social nas avaliações acadêmicas, sempre escolhendo os “melhores”, para e pelas práticas que egendram e estruturam o ensino superior de alto nível na França.

Traduzo aqui uma parte para vocês:

“ As diferenças entre as disciplinas recobrem, em duplo sentido, diferenças sociais: as disciplinas canônicas, como o francês ou letras clássicas e as matemáticas ou a física, socialmente designadas como mais importantes e mais nobres, consagram estudantes mais frequentemente oriundos de familias abastadas tanto por sua posição social quanto por seu capital cultural, mas também proporcionalmente esses estudantes são mais numerósos a terem seguido a via real dos Lycées e as sessões clássicas da 8ª série ao científico e a ter saltado de turma no estudo secundário, e são mais informados das orientações e das carreiras possíveis. Nada de surpriendente dentro dessas condições se a hierarquia escolar das disciplinas coincide com aquela que se estabelece segundo a idade média dos laureados e que vai das matemáticas à física e às ciências naturais dentro das matérias científicas e do francês ou letras clássicas à história e geográfia ou línguas, para as disciplinas literárias.

Uma das melhores provas do privilégio acordado aos valores carismáticos que leva a instituição escolar a ignorar o trabalho propriamente escolar de aquisição é o culto assumido à precocidade, valorisado como índice do “dom”.

A idéia de precocidade é uma construção social que se define apenas na relação entre idade na qual se realiza uma prática e a idade considerada como “normal” para sua realização ou, mais precisamente, a idedade modal a qual ela é realizada dentro da população de referência-, ou seja, em se tratando da precocidade escolar, a idade modal dos indivíduos encontrados em um certo nível de estudo.Se vê imediatamente que, como a idéia de precocidade sexual supõe a diferença a uma definição mais ou menos fortemente instituida da divisão em classe de idade, a idéia de precocidade escolar supõe a existência de um cursus distribuído em classes escolares marcando a mesma quantidade de etapas (gradus) na aquisição progressiva dos conhecimentos e associadas a uma idade determinada: ora, como mostrou Philippe Ariès, uma tal estrutura só se constituiu a partir do início do século XVI. A pedagogia indiferenciada da Idade Média ignorava a idéia de uma relação entre “a estruturação das capacidades e aquela das idades”. A medida em que a estrutura do cursus se precisa e se endurece, particularmente a partir do século XVII, as carreiras precoces se tornam mais raras e é neste momento que elas começam a aparecer como um indício de superioridade e uma promessa de sucesso social.

O aluno precoce, que o limite é a “criança prodígio” ou, como se diz hoje, o “superdotado”, atestaria, pela sua rapidez quase miraculosa de seu aprendizado, a extensão dos dons que lhe permitem economizar o lento trabalho de aquisição o qual são destinados os indivíduos ordinários. Na verdade, a precocidade é apenas uma das retraduções escolares do privilégio cultural. Observa-se dessa forma que a parte dos laureados que o pai e a mãe detem um diploma superior ao segundo grau completo passa de 38% e 3% (respectivamente) entre os que tem 18 anos ou mais no penúltimo ano antes do vestibular, ou 19 anos ou mais no último ano, a 39% e 21% para os 17-18 anos, 52% e 31% para os 16-17 anos, 69,5% et 37% pour les 15-16ans (as origens sociais variam segundo a mesma lógica). Nada de surpriendente dentro dessas condições se aquilo que designa-se como precocidade, e que é na realidade uma manifestação da herança cultural, está estreitamente associado a todos os índices de sucesso.

A idéia de dom é tão fortemente ligada a de precocidade que a juventude tende a constituir em si uma garatia de talento. Dessa forma, os jurados da agregação podem reconhecer um concurso “brilhante” da parte dos recem chegados, dos “novos talentos”: “ Ora nós temos visto este ano muitos desses jovens recrutas se distinguir. De vinte-sete recebidos, conta-se quatorze candidatos não tendo ensinado, e oito entre eles são classificados entre os dez primeiros (...). O sucesso deles não nos faz esquecer os méritos dos professores em exercicio que, estando em condições de trabalho menos favoráveis, forneceram um esforço valoroso e triumfaram das dificuldades. Mas aos que se afirmaram desde o seu primeiro concurso nós reconhecemos não apenas de ter animado a prova oral pelo seu entusiamo e seu desejo de convencer, mas também por nos ter fornecido um precioso testemunho” (concurso de agregação de gramática masculina, 1963). “ Na prova oral, os “quadrados” [cadidatos mais jovens] se revelam frequentemente os melhores: mais “vivos” na entrevista, mais “despertados”, mais “disponíveis”. Ao longo do concurso, o peso se substitui pela graça (concurso para entrar na École normale superieur d’Ulm, prova oral de filosofia, 1965). O estudante precoce, criança querida do juri é objeto de uma indulgência especial, suas lacunas e seus erros podem mesmo, a título de “pecado de juventude”, concorrer a provar seu talento: “ Elas são mais jovens que os anos precedentes. Não devemos pensar que muitas pecaram pela falta de maturidade, d’experiência, e que seus defeitos poderiam ser rápidamente corrigidos (...). Sob a falta de destresa [gaucherie] delas, sob a igenuidade delas, as vezes dons e qualidades sérias que são de mesma forma promessas (concurso de agregação de letras modernas feminino, 1965).

Na verdade, a precocidade é apenas um dos indícios, mas um particularmente certo, do modo de aquisição de cultura que privilegia a instituição escolar. Se os sistemas de maneiras que distiguem as taxonomias escolares remtem sempre (qualquer que seja o grau de refinamento) às diferenças sociais, é que em matéria de cultura a maneira de adquirir se perpetua dentro do que é adquirido sob a forma de uma certa maneira de usa-lo. A relação que um indivíduo matem com a Escola, com a cultura que ela transmete e com a língua que ela utiliza e exige depende dentro de sua modalidade da distância entre seu meio familiar e o universo escolar e de suas chances genéricas de sobrevida dentro do sistema, ou seja da probabilidade de acessar uma posição escolar determinada que é objetivamente ligada ao seu grupo de origem. Desta forma, uma vez que acredita-se reconhecer as nuances indefiníveis que definem a “facilidade” ou o “natural” as condutas ou os dicursos que considera-se como autenticamente “cultos” porque eles não carregam nenhuma marca do esforço nem nenhum traço do trabalho de aquisição, refere-se na realidade a um modo particular de aquisição: aquilo que chama-se facilidade é o privilégio daqueles quem, tendo adquirido sua cultura por familiarização insensível no seio mesmo de sua família, tem a cultura acadêmica como cultura materna e pode manter com ela uma relação de familiaridade implicando inconsciência da aquisição. [...] " (p.33-36)


Pierre Boudieu(1970), La reproduction: éléments pour une théorie du système d'enseignement

Pierre Bourdieu (1989), La Noblesse d'Etat: grandes écoles esprit de corps

quinta-feira, julho 16, 2009

Direto de Londres

Meu amigo BJ lembrou de mim lá do reino de Tão Tão Distante. Mandou-me em letras garrafais as seguintes palavras:


O que é oxímoro...

Oxímoro é, segundo o dicionário Houaiss, uma figura de retórica, na qual se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam uma expressão..
Por exemplo:
o grito do silêncio, silêncio ensurdecedor, obscura claridade, contentamento descontente, ilustre desconhecido e por aí vai.
Noutro exemplo, Escola Superior de Guerra é um oxímoro, na opinião de Millor Fernandes.
Segundo ele, sendo de guerra não poderia ser superior.
Pois é.
O Brasil, além de tudo, é mesmo um país "oximoroso". O autor da descoberta é o Professor de português Sérgio Rodrigues.
Há um tremendo oxímoro que não sai das manchetes dos jornais nos últimos dias:

"Conselho de Ética do Senado"

Retórica de tensão é isso... né não!

sábado, junho 27, 2009

Passado

"Jampa,

Existem livros que não podem ser lidos de uma só vez nem de uma vez só

Este é um deles. Por isso eu lembrei de te dar para que você possa saboreá-lo da melhor forma possível.

01 de Setembro de 1995. "

Alguém andava feliz com meu aniversário. Ele se deu o trabalho de comprar o " Morte e Vida Severina e Outros Poemas Para Vozes" e dar um João inteligente para um outro, menos sabido tanto em prosa quanto em verso. Os anos passaram, eu passarinho, continuo um João-Sem-Verso-Nem-Prosa. Fiéis heróricos leitores.Fiéis. Heróicos. Leitores.

Feliz do homem e da mulher que consegue se repensar ao tentar pensar o mundo. Talvez a grande descorberta de Freud não tenha sido o inconsciênte alheio, mas o dele mesmo. É verdade, estamos presos a nós mesmos. 24 horas por dia. Que horror! Sendo assim, nada mais lógico do que aplicarmo-nos em si aquele método que acreditamos ser bom para explicar o outro. Afinal, o conhece a ti mesmo parece ser um elemento condicional da sanidade mental de qualquer saber pós-freudiano. Alguns em plena conscência de si não se sentem asquerosos, ainda. Outros percebem no asco a definição mesma de qualquer eu realmente profundo, só assim identificado. Eu divago e evito o sordidez imperiosa que é aceitar quem sou do jeito que sou. Tento tolerar o fato de estar "resistindo" ao meu objeto de estudo, também por ele dizer quem eu sou. Sentido-me fraco, falta-me a força-sevirina: como é escassa em mim a secura pedagógica da pedra do outro João. Tem João para tudo nessa vida. O meu pede socorro. E com ele o blogue, que definha, como sempre.

De 1995 para cá tanta coisa se passou. Amores. Universidades. Países. Perdido no mundo querendo se encontrar. Encontrando no mundo lugar para ficar perdido. Querendo no mundo encontrar lugar perdido.

Tudo piegas. Brega. Como eu...

terça-feira, junho 16, 2009

... é minha qualificação... um ato "blogueiro petrobras"?

A grande dificuldade de lidar com uma "qualificação" é passar por ela sem entender o seu real siginificado e relevância. Então, não tendo me feito as perguntas nos moldes que me foram feitas, como num questionário sociológico mal construído, tenho que responder questões que não me fiz , e achar que elas são relevantes para meu trabalho, mesmo achando que, da maneira que elas são postas, elas não dizem nada a respeito das fraquezas e possíveis riquezas do meu trabalho...

Aqui vai primeiro quesito com sua resposta:

Justifique suas escolhas teóricas diante das
alternativas possíveis mais relevantes ao seu objeto,
problemas de estudo e objetivos a serem alcançados




Para justificar minhas escolhas teóricas diante das alternativas possíveis
relevantes ao meu objeto, reconstruo de maneira resumida as questões e problemas
sociológicos que acredito estarem ligados aos documentos que analiso. Explico e
justifico porque o meu referencial teórico se encontra difuso no corpo da tese (e não
explicitado em um capítulo autônomo) e identifico a base espistemológica que dá
coerência aos diferentes autores e abordagens que me servem de surporte para dar conta
dos problemas propostos.

Em meu trabalho, parti do princípio que para estabelecer um bom equilíbrio na
argumentação sociológica, eu não poderia fazer minhas escolhas teóricas de maneira
apartada da construção do objeto e problemática de pesquisa. Acredito que o
estabelecimento prévio de um referencial teórico me faria tomar com demasiada
facilidade a teoria como uma pré-explicação do fenômeno estudado.

Evitei me fazer questões do tipo “ a teoria dos campos de Bourdieu poderia me
ajudar a dar conta do objeto literatura no Brasil?”, e partir de tal questão para justificar
uma suposta superioridade teórica da teoria dos campos para integrar tipos de análises
divergentes.

Preferi instrumentalizar boa parte do potencial heurístico contido na
sociologia da socialização e diferenciação social do sociólogo francês, sem pretender
com isso que meu trabalho devesse supor a existência prévia de um campo literário no
Brasil. Ao invés disso, problematizo mais diretamente a realidade social estudada, a
partir da análise documental informada sociologicamente por elementos genéricos da
teoria social como os contidos nesse pilar da sociologia que é a idéia de diferenciação
social. Grande parte de minha verve curiosa está contida na expectativa mesma de
entender melhor como o mundo social funciona em contextos específicos, função que
atribuo à sociologia.

A teoria nesta tese é entendida estando mais próxima de sua origem grega, onde
o verbo theorein queria dizer “olhar para”, “contemplar” (Castro Rocha, 2004, p. 156),
coisa que se perde depois, mas que faz notar desde sua gênese a teoria necessitando
desse contato impuro com a realidade. Acreditando que dessa “relação impura” saiu o
que de melhor a teoria sociológica produziu, uso desse “espaço lógico próprio à
sociologia” para fugir da rigidez formalista que engessaria o trabalho numa falsa
dicotomia do tipo “referencial teórico x pesquisa empirica”. Como tão bem descreveu
Jean-Claude Passeron, a sociologia se efetua num espaço assertórico híbrido onde o
raciocínio sociológico é na prática um tipo de conhecimento muito distante da idéia de
“ciência experimental dos fatos sociais” como a sonhada por Durkheim (Passeron,
2006). A tese não resume sua démarche a um referencial teórico adotado simplesmente
contrapondo-o a outros. O que ela faz é atrelar o objeto às perspectivas sociológicas que
são teórica e epistemologicamente coerentes entre si, confrontando as últimas com a
realidade social, mesmo que isso seja feito em função de problemas ordenados por
questões teóricas oriundas da sociologia clássica (sobretudo Durkheim, Weber e Marx)
e contemporanea (Bourdieu, Passeron e Miceli, por exemplo).

A consequência disso na estruturação do trabalho é que organizei sempre as
partes da tese dividindo-as em capítulos que buscam sempre sair da análise mais
concreta para as teorizações e interpretações de veio sociológico. Acontecendo o mesmo
entre as próprias partes, sendo a última, por exemplo, um esforço de formalização das
análises empíricas e teóricas das duas primeiras (Cf. Sumário).

O referencial teórico usado para dar conta do objeto de estudo e problema
sociológico propostos nesta tese, foi construído em função de critérios epistemológicos
de historicidade e rentabilidade empírica das teorias a disposição da pesquisa. Autores
que fudamentaram teoricamente a sociologia dos intelectuais e das obras dentro de uma
perspectiva histórica de análise relacional e diferencial das disciplinas intelectuais
(Bourdieu, 1998 ; Chamboredon, 1986 ; Lahire, 2004, 2006 ; Lepenies, 1990 ; Moretti,
2008 ; Ramos, 1989) são utilizados de maneira difusa e diversa no corpo da tese,
sempre com precaução de mediar as apropriações feitas também pela leitura crítica dos
esforços interpretativos locais (Candido, 2000a, 2000b ; Guimarães, 2004 ; Lima, 2007 ;
Miceli, 1995, 2001a, 2001b ; Rocha, 1998, 2004 ; Waizbort, 2007) auxiliados pela
instrumentalização da leitura da crítica e história literária sociologicamente informadas
(Bueno, 2006 ; Candido, 1992, 2000a, 2000b ; Dubois, 2000 ; Schwarz, 1992, 2000).

A coerência interna dessas abordagens se encontra na tese na medida em que estão
sendo operadas para descrever, interpretar e objetivar fenômenos em contraposição às
análises formalistas (transhistoricas e/ou ahistóricas) como as presentes sistematicamente nas perspectivas de cunho eminentemente fenomenológico na sociologia da arte (Cf. Dubet , 1994 ; Boltanski, 1990 ; Heinich, 1994,1998, 1999, 2000, 2005) ou de maneira parcial no procedimento da crítica literária mesmo a mais sociolologicamente informada (Candido, 2000a, 2000b ; Lima 2007).

(Continua...)

sexta-feira, junho 05, 2009

A grande imprensa brasileira e o acidente do AF447

Deixo aqui apenas mais um ponto que comprova a histeria dos portais de "informação". Não sei se é necessário existir lição de jornalismo nesses casos onde uma tragédia imensa deixa a todos sem muito norte. No calor das emoções até quem informa melhor fica ansioso quando informações que gostaríamos que fossem verdade aparecem. Mas de fato existe uma afobação muito grande em torno do ocorrido, o que já trouxe algumas declarações erradas porque pautadas em especulações precoces. Em texto de hoje do Le monde o secretário dos transportes Dominique Bussereau é citado em seu pedido de (traduzo): "[...] mais prudência sobre os dados da enquete" e é indicado quando diz "que a prioridade das buscas seja das caixas-pretas". Em tom de simpatia indica o mesmo secretário ainda sinaliza: " não é o caso de incriminar os brasileiros, que são 'irmãos' na dor." O que me deu a impressão de impaciência com a precipitação das autoridades responsáveis brasileiras que, ao contrário das francesas, não se preocupam muito em dizer e depois terem que desdizer as coisas logo em seguida:


"Dans la matinée de jeudi, le général Ramon Cardoso, directeur du département de contrôle de l'espace aérien brésilien, avait annoncé que la marine avait récupéré une première pièce provenant de la soute à bagages de l'Airbus. Mais quelques heures plus tard, il a dû faire machine arrière : "Jusqu'à présent, aucune pièce de l'avion [d'Air France] n'a été récupérée", a-t-il dit à la presse. Il a expliqué que la pièce remontée par un hélicoptère était "en bois" et qu'il "n'existait pas de pièces en bois sur cet avion" (l'Airbus, NDLR). Le général Cardoso a aussi affirmé que l'huile découverte à la surface de la mer était celle "d'un navire, pas d'un avion" car il s'agissait d'huile et pas de kérosène."


Tradução: " Na manhã de quinta-feira, o general Ramon Cardoso, diretor do departamento de controle do espaço aério brasileiro, anunciou que a marinha havia recuperado uma primeira peça oriunda do porta-bagagens do Airbus. Mas algumas horas mais tarde, ele teve que retroceder no que disse: ' Até o presente momento, nehuma peça do avião [da Air France] foi recuperada', ele disse a imprensa. Ele explicou que a peça alçada por um helicoptero era "de madeira" e que ' não existia peças de madeira nesse avião' ( o Airbus, NDLR). O general Cardoso afimou também que o oleo descoberto na superficie do mar era 'de um navio, não de um avião', porque se tratava de oleo e não de querosene."

O interessante é que, antes mesmo desse anúncio, eu já havia ouvido das autoridades francesas que se deveria evitar qualquer tipo de precipitação nesse sentido, visto que na possível área do desaparecimento existe muito destroços desconhecidos de naufrágios de návios ilegais entre outras possibilidades.


Eu assisti os jornais franceses pela TV5 e sou testemunha da chamada que a imprensa e autoridades vem fazendo por lá pela prudência com as informações e especulações feitas a respeito do acidente. Acho que já seria hora de se pedir o mesmo por aqui, das autoridades e da imprensa também.

domingo, abril 26, 2009

Quem com ferro fere...

Gostei muito de assistir essa brincadeira séria sobre o isolamento de genes dos católicos por cientistas gays. Vale a pena.

Por hoje é isso.

segunda-feira, abril 20, 2009

Chavez reabrindo as veias...

Engraçado. Não esperava que o presente do presidente venezuelano a Obama tivesse tanta repercussão. Resultado, As Veias Abertas já é o segundo em vendas na Amazon (via Pedro Dória). Vale ver a caixa de comentário do Alex Castro sobre o mesmo assunto. Nela você encontra questões sobre a atualidade, validade, pertinência, registro de leitura de obras de cunho híbrido como a de Galeano. Lida às vezes sob o registro da história, a crítica é feita ao leitor de esquerda que veria nela não o que ela é (literatura, ensaio sem base empirica que guia a interpretação grosseira da realidade de dominação) e a ergue ao estatuto de obra de ciência histórica. Bom, é a dica do dia.

quarta-feira, abril 15, 2009

2 links feministas

Na internet aprendo muitas coisas importantes. Tenho tentado manter um contato sádio com o feminismo há algum tempo. Li ontém um texto de Sheila, muito bom, que analisa alguns discursos jurídicos sob o prisma de um olhar feminista. E hoje, ah essa blogosfera que não me deixa escrever minha tese, li esse muito inteligente texto sobre pornografia dentro de um olhar feminista bem heterodoxo (heterodoxo para maestreim feminista eu acrescentaria!). Aconselho fortemente a leitura que é, além de interessante, muito agradavel, nada a ver com os post-tijólos encontrados aqui nesse espaço. Um pouquinho para dar vontade:


"Toda vez que resmungo contra a objetificação e a humilhação da mulher nos filmes pornô, tomo o cuidado de escrever “pornô mainstream”. Que é o pornô feito pela “Hollywood xxx” norte-americana, uma indústria multibilionária, e as pequenas empresas que os copiam — tipo o “brasileirinhas”. Estes são os filmes mais conhecidos e acessíveis. Neste tipo de filmes, é comum que a misoginia role solta. É comum que a mulher seja tratada como menos do que uma lata de lixo. Tanto na frente das câmeras quanto nos bastidores. Robert Jensen, da universidade do Texas, fez uma ampla pesquisa sobre o assunto e detalha como isso acontece. Não é a primeira vez que eu linko os artigos dele. Recomento MUITO, embora você precise de estômago para ler. Na primeira vez que li, me senti tão mal pelas mulheres das quais ele fala que chorei feito uma pateta na frente do computador.

No entanto, é como eu disse naquele post ali abaixo. A gente tem de saber contra o que se está lutando. Objetificação, violência e discriminações são consequências da misoginia. Misoginia que nós aprendemos e internalizamos ao sermos submetidos às normas arbitrárias de gênero: “mulher de verdade se porta assim, homem de verdade se porta assado. Todo o resto será marginalizado”. Para acabar com um mal, é necessário cortá-lo pela raiz. Por isso que eu digo que a luta feminista é contra a cultura, não contra os veículos através dos quais esta cultura é reproduzida e reforçada. Nossa luta não é contra a pornografia. É contra a misoginia no mercado pornográfico. São coisas diferentes. Favor não confundir alhos com bugalhos.

Defender o fim da pornografia porque há uma caralhada de filmes misóginos, para mim, faz tanto sentido quanto defender o fim da publicidade porque há uma caralhada de propagandas misóginas. Ou defender o fim do cinema porque há uma caralhada de obras misóginas. Ou o fim da literatura porque há uma caralhada de livros misóginos. E assim por diante."

domingo, abril 12, 2009

UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (Parte II)

Já que promessa é dívida:

Lembrando...


Em novembro de 2008, escrevi uma rápida introdução à reflexão que venho agora terminar. Resumiria da seguinte forma aquele texto introdutório: tendo notado diferenças e semelhaças entre as experiências de estadia na França minha e do professor Luciano Oliveira, vi-me motivado a escrever sobre um “estranhamento” que não entrou no foco de reflexão do belo texto do professor.

Então é um texto de complemento ao que foi dito por Luciano com desdobramentos críticos possíveis, já que reflete especificamente sobre o estranhamento meu com universo acadêmico brasileiro ao voltar do francês.


A gramática de ida de um estranhamento: da UFPE à França


O choque ao entrar na universidade francesa foi imenso. Demorei para entender o sistema de organização da vida acadêmica. A complicação começou para mim, como diriam eles por lá, no começo. Diferentemente da organização do curso de Ciências Sociais no Brasil ( que você tem o primeiro diploma ao final de 4 anos ou 5 anos), lá o curso de sociologia, o que eu escolhi, era divido em diversas etapas mais curtas. Cada uma delas era marcada pela entrega de um diploma que garantia, objetivamente, a possibilidade de se postular vagas de trabalho num determinado nível de emprego, tal como acontece com os concursos públicos brasileiros. Na França, porém, o primeiro diploma você leva com apenas dois anos de universidade.


Então lá fui eu, cursar o que eles chamavam na época de DEUG (Diploma de Estudo Universitário Geral), o tal que tinha duração de 2 anos. Como consegui validar as disciplinas que havia feito na UFPE, entrei já no segundo ano. É engraçado como as vezes a trama oficial de uma instituição pode ser enganosa: ao ler termo a termo as formas de organização, o modelo organizacional das universidades brasileira e francesa, você encontra muito mais semelhanças do que realmente existem na realidade.


As ementas das disciplinas eram, no que diz respeito aos autores, e estranhamente, muito semelhantes às brasileiras. Claro, classico é classico, diriam. Mas toda a dinâmica era diferente. Cursei disciplinas obrigatórias e opcionais. As obrigatórias: sociologia geral, estatística, métodos. As opcionais: sociologia do trabalho, sociologia cognitiva, sociologia das organizações, sociologia da família, sociologia da velhice, etc. A cada semestre você podia escolher duas ou três opcionais. Os cursos eram divididos também em “aulas magistrais” e “trabalho dirigido”.


A aula magistral tinha um tom solene. Era bem expositiva, sem nenhuma interação entre professor e aluno. Nela, por conta disso, era muito grande o volume de conteúdo a ser anotado. Geralmente o que se via nelas eram sínteses históricas mais ou menos bem feitas (dependia do professor) a respeito de cada disciplina. O curso magistral, como era também chamado, era dado nos anfiteatros com a presença massiva de alunos (cheguei a ver aula com mais de trezentos estudantes). Você tanto tinha cursos mais gerais (socialogia geral) que tratavam de expor, de maneira as vezes bem simplificada, o pensamento dos clássicos (Weber, Durkheime, Marx, Mauss, Escola de Chigago, um pouco de Merton, etc.), como também, no mesmo formato, você tinha cursos de sociologias mais específicas, sociologia do trabalho, por exemplo, que situava historicamente como esses clássicos fudavam, naquela especialidade, a perpectiva sociológica.


Na minha cabeça esses cursos magistrais tinham a função de inculcar nos estudantes iniciantes as perspectivas históricas que fundam o raciocinio sociológico. Assim, a maioria deles estava organizada de maneira muito semelhante: começavam por uma descrição sobre como um determinado objeto era analisado ou entendido socialmente num dado momento histórico, passavam por uma contextualização da modernidade e o advento da sociologia a patir das revoluções indutrial e francesa, e concluiam com a especificação sociológica do objeto em questão(que podia ser o trabalho, a velhice, a economia etc.). Claro, esse modelo variava e ganhava ou perdia em sofisticação dependendo da qualidade do professor, mas no geral, isso tinha tom de ladainha, excetuando aí, claro, as aulas magistrais de estatística. Note-se: sssas aulas eram de cultura sociológica, digamos assim, eram aulas para decorar conteúdo tal como dado.


As aulas de trabalho dirigido eram aulas de interpretação de texto, o close reading dos anglossaxonicos. Basicamente treinavamos técnicas e mais técnicas de leitura. Análise estrutural, leitura vertical, etc. Tudo isso, em cima de textos escolhidos dos cursos magistrais. Nelas você tinha um contado maior com o professor havendo mais interação e diálogo. Note-se: aqui tinhamos e podíamos fazer uma distinção muito clara entre o procedimento decoreba das aulas magistrais e o das técnicas de leitura e pesquisa, dois procedimentos que, apesar de relacionados, tinham dinâmicas bem específicas. Essa distinção, como visto, está inscrita nas instituições na maneira mesma de dividir o trabalho de ensino.



Uma outra coisa importante que também notei: a carga horária de aulas é extremamente reduzida se comparada à brasileira. E ela vai diminuindo ainda mais na medida em que você vai passando as etapas. A título de exemplo, no mestrado, por exemplo, eu tinha apenas duas aulas por semana com duas horas de duração cada, e isso durante um semestre. O segundo semestre não havia aulas e você dedicava o seu tempo aos seminários de pesquisa e ao seu próprio trabalho.


O estranhamento em detalhe: ainda lá


Além da lingua francesa e suas especificidades, era para mim muito esquisito no início ver a aplicação com que a maioria dos estudantes simplesmente anotava tudo o que era dito nas aulas. Anotação dos cursos, ou seja, transcrever quase que palavra por palavra tudo que o professor diz, parecia para mim coisa de copista. Mas a transcrição é uma verdadeira instituição escolar à part entière na França.


Para que as notas se realisem por inteiro existem técnicas de abreviação de idéias e palavras e até mesmo de frases inteiras. Essas técnicas são todas assimiladas na escola francesa. Elas funcionam, quando bem feitas, como exercício para articulação lógica do pensamento. Mas para mim que estava acostumado a assistir aula ouvindo sem escrever absolutamente nada, tentando apenas entender o que o professor estava dizendo, aquilo tudo foi um grande tormento, além da surpresa de rever coisas do arco da velha sendo operadas ali naquele meio. Aprender de cor e salteado, era algo que achava não mais ouvir falar na minha vida.


Mas depois dessas surpresas vinheram as provas e entendi a razão de ser daquela técnica.É que os professores fazem provas que são na verdade “maneiras de transcrever o que se falou durante o curso”. O que para mim, ao menos naquele momento, não deixava de ser justo, na medida em que de fato se subentende, sempre, numa situação de avaliação escolar, que o que está sendo avaliado é o conteúdo assimilado durante o curso oferecido. E, falando em justiça, o anonimato das provas, que eram corrigidas identificadas apenas com número de matrícula, não podendo o professor saber julgar por critérios pessoais uma prova de tal ou de qual aluno, também foi algo novo para mim na universidade.



Outra coisa que me marcou foi a presença desse pressuposto pouco didático muito forte no ambiente universitário francês, que ao meu ver, se traduz na fórmula mesma da aula magistral: a distância entre o professor e o aluno é também marcada pela fraqueza de uma relação pedagógica instaurada sob premissa de que os “alunos devem alcançar a seu custo o nível dos professores e não o contrário”, o que faz com que, muitas vezes, pouco ou nenhum esforço seja feito por parte dos mestres para que se retire das diversas “maneiras de dizer a mesma coisa” uma que funcione, como quer a pedagogia, para facilitar a entrada dos alunos naquele universo árido da sua disciplina específica.


Sociologias francesas


Na França estudei em várias universidades, em diferentes cidades, situadas em diferentes regiões do país do fromage, mas também a terra de Durkheim, Bataille, Bourdieu, Aron, Sartre, Koyré, Lévis-Straus, etc. a lista não tem fim. O que percebi? Notei que cada universidade tem uma linha. Cada uma assimila de maneira mais ou menos coerente os incontornaveis dos autores incontornaveis.A cada geração de intelectuais franceses você encontra correspondentes de um pensamento que se tornou necessário. Assim, mesmo com a superioridade econômica e de produção das universidades americanas, dos EUA ao Brasil você encontra essas leituras francesas que se tornaram obrigatórias, em vários sentidos, porque instauraram novos ângulos, novos paradigmas providos de força e autonomia para imanar ao sistema mais geral de produção intelectual referências sem as quais seu trabalho estaria “incompleto”.


Na verdade, o que eu gostaria de salientar é que apesar dessa diversidade de linhas, existe uma estabilidade que é dada pela estrutura geral da educação universitária. Por exemplo, estudei em três cidades diferentes, em três universidades: Nancy, Monpellier e Lyon. As três bem diferentes entre si, mas todas elas trabalham naquele esquema das aulas magistrais e trabalhos dirigidos, efetuando assim, cada uma delas dentro de seu filtro específico, a distinção entre acumulação e produção de conhecimento sociológico.



Na primeira o foco era sociologia do trabalho. Existiam dois grupos que disputavam espaço e poder dentro da universidade e essa disputa também se traduzia nas opções intelectuais, expressas por afinidades ou contrastes com idéias já firmadas dentro universo acadêmico conhecido: de um lado, grosso modo, você tinha uma corrente que se identificava com a tradição durkheimiana orietada pelo viés histórico como a trazida pela obra de Pierre Bourdieu. Do outro, um grupo se indentificava, de maneira mais ou menos explícita, com a orientação de trabalho do individualismo metodologico cujo mais alto representante francês era nanquele momento Raymond Boudon e cuja filiação na tradição francesa se dava no vínculo e imbricação daquele pensamento com a filosofia da liberdade de Sartre.



Na segunda a grande influência era de Michel Marfesolli. A assimilação dos dois grandes expoentes da sociologia francesa (Boudon e Bourdieu) se dava de maneira completamente diferente. Os dois eram lidos como representantes nefastos de uma ciência racionalista, positivista, empiricista,etc. Tive professores como Jean-Marie Brohm, que era de uma erudição enorme, de uma impressionante cultura filosófica, que pautava seus trabalhos nas referencias da fenomenologia, da psicanálise, do marxismo (esse tipo de salada só tinha espaço lá em Montpellier). Foi com ele que fiz meu primeiro trabalho de final de curso, que era uma análise dos cadernos de Nijinsky (gosto deste texto de um psiquiatra sobre o caso do bailarino). Para mim aquilo não era sociologia, mas hoje percebo como o exercicio foi bastante expressivo para mim por conta do contexto daquela universidade. Percebi, com aquilo, que apesar de toda a diferença entre uma e outra universidade, existia um espécie de coeficiente mínimo comum, um denominador comum que fazia da sociologia uma disciplina que era ensinada da mesma maneira nas diversas universidades. Tive aulas de estatística lá, por exemplo, e os professores apesar de defender àquela “filosofização” toda da sociologia, ensinavam os procedimentos técnicos de análise que hoje fazem parte do patrimônio comum da disciplina.



Já em Lyon encontrei um grupo forte trabalhando com sociologia da socialização, o GRS (Groupe de Recherche sur la socialisation).O grupo era e é animado e dirigido pelo sociólogo Bernard Lahire que se auto-intitula um bourdieusiano heterodoxo. Na univesidade de Lyon, no GRS, defini as linhas de trabalho e o enquadramento teorico-medotodologico que hoje guiam o meu trabalho de tese. A universidade também era bem diversa e encontrei, pela primeira vez, um grupo de pesquisa que trabalhava com a sociologia das ciências inspirada na obra de Bruno Latour. Tenho até uma amiga que trabalhava a simetria de não sei o que num contexto onde se discute o impacto na natureza em regiões com turbinas de minério... Sinceramente, nunca entendi do que se tratava.



Vontando à UFPE: descreveria assim meu estranhamento ...



Meu processo de formação na França, que durou 6 anos mais ou menos, gerou uma forte aculturação. Voltei para fazer um doutorado no CFCH e descobri: todo o esforço de assimilação que fiz para entrar naquele universo, de adaptação à cultura e às práticas intelectuais ali operando, causaram um grande impacto em mim.



O estranhamento do retorno se deu de maneira muito intensa e forte nos primeiros momentos. Eu voltei querendo desbravar sociologicamente o Recife, Pernambuco, o Brasil, mas encontro um ambiente intelectual extremamente avesso ao trabalho rasteiro, mas extremamente importante, da sociologia empirica. Sinto-me isolado, apesar de ter sido acolhido com entusiasmo pelos professores e orientadores. As práticas de produção do programa me pareceram ancoradas muito fortemente numa perspectiva que não distingue com devida ênfase o trabalho de acumulação do saber do de produção de conhecimento através da pesquisa: base forte de minha formação francesa. Assim, fui acolhido no seio do PPGS (program de pós-graduação em sociologia) sendo avaliado por um projeto de pesquisa, e, durante o percorrer do doutorado, o primeiro ano é todo dedicado a disciplinas teóricas, me vi tendo que reviver um processo reflexivo que ancora seu procedimento na acumulação de cultura sociológica de maneira completamente apartada do universo da pesquisa.



Essa apartação é extremamente nociva porque produz trabalhos quando empiricos, vázios de propósito sociológico proprimente dito (são muitas vezes mera sociografia em linguagem estatística rasteira formulada nas tabelas do SPSS). Quando teóricos, são apenas isso, ou seja, são teóricos em demasia, o que se tranforma em suma, em sua grande maioria, na generalizão precoce de explicações que ainda não fizeram sua prova em contextos como o do nordeste brasileiro. O que ocorre nesses casos é a impultação da explicabilidade formal da teoria a um contexo exogeno ao de sua aplicação inicial. O que implica, bem das vezes, num reforço à situação de colonialismo mental a qual nos submetemos de muito bom grado aos grandes centros de produção acadêmica.


Diria mais, não é só na quase absoluta falta de disciplinas que estudem , digamos assim, a tradição sociológica brasileira e os problemas específicos que um sociólogo precisa enfrentar aqui na periferia para produzir conhecimento válido a respeito do mundo social que me sentia só, mas na postura mesma de inquerir o mundo social sem “tocar” nele, jogando conceitos de la para cá e de cá para lá, sem a responsabilidade cosequente de contruir interpretações válidas a partir de fatos sociais verificáveis do ponto de vista de “experimentação empirica”, ou seja, de dados que possam ser analisados de maneira independente do ponto de vista que vai analisá-los. Seria por isso, e apenas nesse sentido, que a sociologia trabalharia dentro de um quandro onde suas teses podem ser refutadas e ou validadas. Não conheço outra forma. Com isso, quero crer, não é preciso entrar numa sangria desatada na busca de uma cientificidade popperiana ou coisa dessa natureza. O propósito híbrido da construção da episteme sociologica admite um espaço assertivo mais ameno, onde a idéia de verificação anda de mãos dadas com a certeza de que a linguagem sociológica só anda para frente diante do arbitrio que representa a interpretação em liguagem corrente, ou seja, fora do jargão mais formalizado, por exemplo, da estatística, usada pelos sociólogos como ferramenta.



Mas não me arrependo da volta. É nesse estranhamento aqui que vou descobrindo empiricamente o significado profundo do que são as chamadas condições sociais (materiais e simbólicas) de produção do conhecimento sociológico em Pernambuco (ao menos, no que diz respeito ao meu realmente amado CFCH). Sem esta experiência tenho a impressão de que minha sociologia seria uma espécie de paisagismo exótico do Brasil para francês ver. Claro, hoje as relações de dominação intelectuais são bem mais complexas do que a simples idéia de colonialismo cultural poderia dar conta, mas sendo colonialismo cultural ou outro nome que se queira dar, parece-me claro o quanto precisamos percorrer para nos livrar de algumas dessas práticas para obter mais autonomia. É isso em todo caso que meu estranhamento diz...

sexta-feira, abril 10, 2009

Notícula sobre Blogosfera: ela me impressiona

O mundo dos blogues é dos universos que entrei em contato nos últimos anos o mais surpriendente de todos, para mim. Falo mais do brasileiro, aquele que acompanho mais, mesmo que, esse “mais”, seja um “nem tanto assim”. O que me impressiona: volume de informação, a maneira como se discute abertamente sobre as maneiras mais corretas e adequadas de ser um bom “blogueiro”, a força palpitante dos debates acolorados existindo muitas vezes de maneira imediata aos fenômenos que desencadearam questões, o como a blogosfera se tornou um lugar onde jornalistas discutem blogueiramente seu papel, função, mérito, etc., e como tudo isso revela, ao mesmo tempo em que apaga, é verdade, fronteiras entre práticas jornalísticas (antes obscuras aos profissionais exteriores ao universo da imprensa) e outras práticas intelectuais de nossos dias. Tudo isso acho muito bom, apura nosso senso crítico. O jornalismo, por exemplo, aos meus olhos se abriu enquanto prática como nunca havia feito antes. Existem muitos jornalismos, e ainda, alguns jornalistas.


Meu último post mais “informativo” do que o de hábito me fez pensar nessas coisas. Não sou um “blogueiro” decente, admito. Descobri que tinha que ser, lendo blogues de excelente qualidade, que postulavam como “postura mínima”, no caso de textos com elementos não opinativos, a transparência das fontes, o esforço da demonstração do fato, coisas que são, acredito, qualidades do que se convencionou chamar de “bom jornalismo”. Não sou bom com essas coisas, seria um péssimo jornalista.


Mas eu adoro meu blogue. E embora respeite e admire muito quem consegue “informar”(opinando, pensando em cima de fatos, analisando e recompondo contextos), um blogue é um blogue oras, e, é claro, pode ser outras coisas que um blogue jornalístico (de opinião ou denuncia, de reportagem ou especulativo). Bem. Isso é mais uma justificativa para manter meu espaço diante de minha apurada incapacidade de ser bom como tantos outros. Continuarei tentando sê-lo, de outras formas também.

terça-feira, abril 07, 2009

A Folha de S. Paulo e Dilma (Reprodução da carta aberta de Antonio Roberto Espinosa)

(De Antonio Roberto Espinosa
Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam. – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe. )

Caros amigos,

A Folha de São Paulo preparou uma "armadilha" para a Dilma usando uma entrevista que concedi a uma das suas repóteres da sucursal de Brasília. Encaminhei a carta abaixo à redação. E peço que todos os amigos que a façam chegar a quem acharem necessário: redações de jornais, revistas, emissoras de TV e pessoas que talvez possam ser afetadas ou se sintam indignadas pela má fé dos editores do jornal. Como sabem, sou favorável à transparência, por achar que a verdade é sempre o melhor caminho e, no fundo, revolucionária.

Á coluna painel do leitor Seguem cópias para o Ombudsman e para a redação. Vou enviar cópias também a toda a imprensa nacional. Peço que esta carta seja publicada na próxima edição. Segue abaixo:

Prezados senhores,

Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa "Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto", e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no "Painel do Leitor" (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:
Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em "investigações" telefônicas;
Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;
Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas).

A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:

1) A VAR-Palmares não era o "grupo da Dilma", mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;
2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;
3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que "informação política" é algo completamente distinto de "informação factual". Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como "vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?". O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;
4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou "doutorando em Relações Internacionais", mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que "a ação chegou a ter data e local definidos". Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;
5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;
6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.

Osasco, 5 de abril de 2009Antonio Roberto EspinosaJornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.

sábado, março 28, 2009

Momento Tese

Caramba, é muito difícil para mim ficar tranquilo no momento de criticar uma obra monumental como a de Luiz Costa Lima. A intranquilidade pode existir por uma série de motivos. Por conhecê-la a pouco tempo, sinto-me constragido de situar meu trabalho com tanta ênfase em contraponto ao que Costa Lima vem defendendo há tanto tempo. Na verdade, o impasse aparece mais nitidamente, o mesmo acontece quanto a Antonio Candido(que conheço a mais tempo) , naquilo que a crítica e a teoria literária relegam como tarefa fundamental para sociologia.
Só consigo concordar com o que ele diz a esse respeito quando do lugar da sociologia (lugar de ponto de vista, de ajuda, de suporte à crítica) consegue-se colocar também no seu devido lugar os lugares da crítica e teoria literárias no mundo social.Existe ainda a hipótese de que o desconforto a cima referido ser fruto do peso de disposições cefichianas ( tomadas emprestadas de sua dinâmica conservadora de pesquisa). Quiça seja apenas o respeito por um caminho sincero e respeitável intelectualmente(o de Costa Lima), o que quero e espero que o meu também seja. Como no debate de idéias, respeito não deve corresponder à submissão passiva de argumentos, penso ver nos meus, quando conseguem se livrar do cefichianismo, momentos interessantes da afimação de uma maneira de ver a sociologia trantando de assuntos literários.
Vejam se concordam comigo. O ponto central do que digo está no seguinte, do que Costa Lima defende comento:
É preciso ter todo o cuidado. Mas está dito: não se pode, ao risco da igenuidade mais ignata, ler textos literários como se fossem documentos. Certo. Ao que tudo indica, com os olhos educados pela crítica moderna, " em termo de modernidade", Costa Lima desqualifica, em razão de uma perspectiva teórica de horizonte normativo (como não poderia deixar de ser?), a quase totalidade de leituras feitas da obra de Graciliano Ramos na época de sua publicação.
No subcapítulo intitulado ' Graciliano Ramos e a recusa do caeté' ( Costa Lima, 2007, p. 437-446), após mostrar a semelhança de uma descrição feita por Graciliano a tantas outras feitas e tidas como " relatos realistas", Costa Lima reafirma o veio e o julgamento que caracteriza seu trabalho:


"[É] evidente a procura de documentar até o detalhe. Mas o tipo de realismo de Graciliano não resulta da fidelidade da apresentação de uma procissão interiorana senão a densidade como a cena se compõe: o absoluto distanciamento do narrador diz de forma sintética e pelas brechas entre as palavras da falsa religiosidade da cerimônia alegórica do desfile de ''destaques''. [...] O descritivismo documentalista é superado pela proximidade da náusea e do grotesco. Essa é uma das poucas passagens de Caetés em que o escritor ultrapassa a mera documentação das aflições do medíocre narrador" (Costa Lima, op. cit., p.442).


É passar os olhos na documentação do Arquivo Graciliano Ramos e perceber que o olhar construído pela teoria literária e pela crítica, ao menos na versão aqui estudada, é, na medida em que tenta afirmar a autonomia da obra como critério de leitura mais correto, um contraponto idealizado da realidade histórica de uma época que, esta, é o que revela a análise dos documentos daquele contexto, leu Caetés com os olhos de um realismo chinfrim (chinfrim aos olhos da crítica dos dias de hoje, entenda-se), sociologizado e pouco afeito às nuances do "realmente ficcional" da literatura.
Se
rá que estou extrapolando minha função de sociólogo?

Costa Lima, L. A Trilogia do Controle (2007), Topbooks, Rio de Janeiro.

terça-feira, março 24, 2009

Um texto publicado

Aqui vai um texto de Clarissa Diniz co-escrito por mim que foi publicado ano passado num livro chamado "Souzousareta Geijutsuka". O toque sociológico do texto, que busca entender os mecanismos de desvelamento das lógicas de legitimação encontradas no experimento (explicação aqui ) do artista Yuri Firmeza ( resuminho aqui) são bem interessantes. Espero que gostem. Por não ser sociologia em sentido estreito (a que eu gosto), hesitei um tempinho em colocar no meu currículo (de sociólogo). Pressionado, terminei cedendo.



Firmeza: historieta da contradição legitimadora





As lógicas de legitimação são a um só tempo objeto e sujeito da obra de Yuri Firmeza. Objeto porque é disso que trata seu trabalho, sujeito porque seu trabalho é isso - o debate acerca das lógicas legitimadoras através delas mesmas. Ao falar de através de, o artista faz ver - claramente - o quanto os objetos são constituídos não somente de suas matérias específicas, mas, mormente, dos mecanismos de agenciamento dessas matérias.


Com Souzousareta Geijutsuka, interessa a Firmeza demonstrar o quanto, no contexto do sistema de arte, uma obra é, em grande parte, o conjunto de conceitos e verdades socialmente construídas acerca dela. Souzousareta, por exemplo, era menos suas obras (representadas apenas por poucas fotografias) do que seu currículo - o fato de já ter supostamente exposto quatro vezes no Brasil, bem como em Tóquio e Nova Iorque: grandes centros produtores e corroboradores da arte internacional.


Assim, consciente dessas lógicas, Yuri desenvolveu uma ação que visava revelá-las, apostando em seu desvelamento como forma de crítica às práticas excessivamente sociais de arte que, prioritariamente interessadas nas legitimidades das obras com as quais lidam, por vezes negligenciam outros aspectos - habitualmente menos sistêmicos e, quem sabe, mais transcendentais- das mesmas. Ainda que a ênfase da sua crítica estivesse na mídia, sua atitude pode ser estendida a todas as instâncias legitimadoras da produção de arte ( a crítica, curadoria, instituições, mercado, público, entre outras) que, agentes dos processos de construção de reputações e validades sociais, são, na maior parte das vezes- como demonstrou a imprensa cearense-, meros instrumentos desse processo: de algum modo, Yuri fez ver que nós, produtores de legitimidades, somos mais manipulados por tais legitimidades do que de fato as manipulamos.


Também o artista, na dinâmica condição de ser- como todos- simultaneamente produto e produtor do sistema de disputa por legitimidade, dele não se desvia. Ainda que sua obra tenha - ao expor a fragilidade (ou mesmo a falsidade) do processo de construção da verdade midiática - colocado em xeque os jornais de Fortaleza, ela, contudo, não se desvencilhou desses mesmos processos. A partir de uma mentira legítima, Yuri, por sua vez, foi legitimado diante não só da imprensa, como do público, da crítica, etc. E mais: foi legitimado como um questionador das legitimações.


Tal qual sua obra - ao mesmo tempo sujeito e objeto de seu "tema" -, o artista, ao criticar a vulnerabilidade de nosso sistema de arte, foi corroborado por efeito reverso de tal susceptilidade: não fosse a imprensa tão, digamos, "ingênua", Firmeza não teria sido tão legitimado. Sua ação, apesar de ter alcançados tamanha reverberação, não foi capaz, todavia, de instaurar outras dinâmicas legitimadoras para além daquelas por ele criticadas- aquelas em relação às quais ele é, inclusive, "benificiado".


Ao fim do processo, mesmo que estejamos todos ainda completamente filiados ao jogo social colocado em questão, parece-nos, todavia, que dele tomamos maior consciência. O desvelamento intencionado pelo artista aconteceu, e os "mistérios" de um processo legitimador que se faz passar por verdadeiro e justo foram (ao menos parcialmente) "descorbertos". Ainda que por um breve momento, o artista foi capaz de fazer sumir a aura das dinâmicas sociais que fazem parecer imparciais as legitimidades construídas. Abriu-se um espelho sobre nós, e foi impossível negar a realidade refletida a partir de nossas ações.


E, desfeita a ilusão da imparcialidade, resta a crueza da consciência de sabermos, mais uma vez, que somos nós que, de maneira sistêmica, somos os responsáveis por um campo de arte que não só fabrica verdades - como é natural e, provavelmente, inevitável-, como também as falseia. A um só tempo produtos e produtores deste sistema, é preciso que deixemos de lado a infame tentativa de procurar um culpado- como fez a imprensa cearense. Quando a responsabilidade fragmenta-se (como ocorre entre os menbros do campo da arte), a culpa dilui-se. É preciso, portanto e sobretudo, analisar o sistema em sua inteireza.


E analisar o sistema é autoanalisarmo-nos. É falar de através de - questioná-lo ao questionarmo-nos a nós mesmos, recursivamente. Sem maiores pretensões de suceder, é válido e urgente que, tal qual Yuri Firmeza, tentemos. Mudar um é mudar o outro, e isso faz pensar que, talvez, se Souzousareta fosse mais inventor que inventado, as lógicas de legitimação de nosso sistema não tivessem sido "apenas" desveladas, mas também postas, de fato, em entropia.


Façamos como o japonês que, ao deslocar a verdade do campo da resposta ao da pergunta, fez sacudir as estruturas do sistema. Apostemos, então, no potencial da pergunta, após a historieta de Firmeza, não quer calar: "mas como mudar?".



Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.