
quinta-feira, maio 24, 2007

quarta-feira, maio 23, 2007
Depois da "fama"
Acho que desde o início desse blogue(Março 05, 2004) tomo de maneira razoavelmente constante os comentários dos amigos como mote paras outros textos. Depois de alguns anos nesse espaço, o mote da "fama" me faz ter vontande de avaliar um pouco dos objetivos desse lugar onde tantas vezes dividi inquietações e alegrias, tristezas e melancolias. Essse meu topus da "retorica de tensão" vem aqui e agora relembrar seu primeiro post e se perguntar se os objetivos ali imaginados foram cumpridos.
O que dizia?:
"Aqui farei meu diário quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as oscilações do espírito, caráter e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoável no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução."
Engraçado perceber que dizia com certo estilo, o que sabia não conseguir faze com destreza, escrever. Mas o fato é que o blogue continua sim(com ou sem mérito formal), acredito, cumprindo sua função de dividir minha miséria com a alheia. Apesar de restrita no alcance, nessa calçada da "fama" voltada para troca de idéias, onde o mérito que fica é a sujeira do concreto entre as unhas pintadas de esmalte vermelho(adoro essa imagem dos holofotes que iluminam as mentes tantas vezes debeis das belas atrizes), segue-se o caminho pouco estrelado do debate sobre o mundo (social, politico, artistico, etc.).
E nesse cineminha, o glamour quer dizer o seguinte: acordar cedo, estudar, ler, escrever, discutir idéias com amigos (pares da sociologia). Assim, vez por outra, quando por alguma circusntância da vida, for abordado por um jornalista por ser "filho de"( e as suposições que esse fato gera), poder dizer com humildade e orgulho do pai que, sim sou "filho de", mas com idéias e opiniões própias também uai! Lição aprendida em casa( inclusive com o próprio pai), mas ampliada e desenvolvida no mundo.
Jampa
terça-feira, maio 15, 2007
ASSALTO E MORTE IIentrevista » Acrísio CoutinhoPublicado em 15.05.2007 (em http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/15/not_231638.php - Para assinantes).
“Eu queria matar os dois”
JC – Como o senhor ficou sabendo o que aconteceu com sua esposa?
JC – O que o senhor pretende fazer?
ACRÍSIO – Não faço idéia de como vai ser a minha vida daqui para a frente. Passamos o fim de semana em Gravatá. Comemoramos o Dia das Mães. Chegamos aqui às 7h e ela foi fazer uma feira rápida. De repente, aconteceu isso. Só quem está passando é quem sabe o tamanho da dor.
sexta-feira, maio 11, 2007
Nada pode denunciar melhor nossa hipocrisia do que os esforços toscos por parte dos membros de nossa elite para “reconhecer” publicamente que alguma coisa está errada (com as atitudes nunca antes contestadas por eles). Esse tipo de meia culpa, é meia, para não dizer medíocre, até quando tenta ponderar sobre dividas sociais históricas das elites com o todo social.
Não deixa de ser engraçado ver gente se rebolindo, inquieto, reclamando das “algemas da democracia” (http://jc.uol.com.br/jornal/2007/05/11/not_231132.php - para assinantes). O texto de José Paulo Cavalcanti Filho, aqui mais uma vez, advogado, cai como luva de aristocrata no Jornal de Pais Mendonça. Ele mais uma vez aparece como condensador de lógicas de classe que, por omitir a posição real de quem o escreve (de membro da elite que agora percebe ser atacada), torna visível e condensada a eterna falta de sensibilidade de nossas elites com os problemas de ordem pública.
É claro que no texto se defende, aparentemente, valores universais:
“Todos devem responder por seus atos, claro. Se for o caso, devem também ir à prisão. Mas só depois do devido processo legal e de sentença judicial. Prisão, antes do processo, só em casos bem específicos: flagrante delito, risco de violência física, coação de testemunhas. Fora disso, resta só um gesto desnecessário e menor de autoritarismo.”
Mas é mais evidente que a preocupação não é com universo social como um todo:
“Na primeira e mais espalhafatosa dessas operações, o presidente da Schincariol foi preso e algemado em seu quarto. De madrugada. Tudo sob as luzes da TV. A acusação (ou pretexto) era a de fraude fiscal – sem que sequer tivesse sido lavrado o correspondente auto de infração, mais isso só se soube mais tarde.”
Claro que numa sociedade como a nossa, dizer as coisas dessa maneira pareceria por demais elitista, então que se faça a meia culpa:
“Para os homens simples do povo, foi quase um delírio. Depois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos. A prática, no imaginário coletivo, funcionou como uma revanche dos oprimidos. Mas foi mesmo legal a operação?, eis a questão.”
Sim, a velha e boa legalidade dos ricos. Aquela feita para proteger:
“Homens sem antecedentes criminais, e com endereço certo[e que agora] são privados da liberdade – sem que representem qualquer perigo à sociedade. Nenhum deles jamais nos assaltaria, pelas esquinas do Recife.”
Exato. Quem nos assaltaria são os pretos, pardos e pobres, para os quais a lei universal não se enquadra da mesma maneira (o novo chefe de segurança de PE já informou sobre o tratamento que ele visa dar aos bandidos e marginais do povo, cadê as manifestações em prol da legalidade?), pois para eles ela funciona apenas no sentido de jogá-los nas celas amontoadas das nossas prisões. Mas diante de um tal estado de coisas, a meia culpa não podia ficar por aí:
“Nem é de hoje, esse autoritarismo. Que esses brasileiros anônimos, por tempo demais, são os mesmos que já sofrem nas cadeias sem mesmo ser condenados. Com nomes anunciados, com estardalhaço, pelas delegacias de polícia. Aviltados, diariamente, em programas policiais de rádio – em que são invariavelmente exibidos como arrombadores e maconheiros, também sem ser antes condenados. Tudo sob o silêncio cúmplice das elites.”
O que se esquece de dizer é que não apenas o silêncio é cúmplice, mas a palavra também. Porque no final das contas, a voz aparece em defesa de um ideal universal, não para responder aos exageros da policia e da imprensa cotidiana contra os mais oprimidos, mas num momento onde membros da elite estão “sofrendo” com possíveis exageros da Policia Federal (com direito, inclusive, a defesa pública de ex-governador - hilariante ver Jarbas falando de “espalhafato” da Policia Federal, porque a mesma prendeu empresários pernambucanos envolvidos com agora mais famoso do que nunca cartel dos combustíveis, diga-se, o objeto central da defesa de José Paulo Cavalcanti Filho).
Por essas e por outras, a crítica legitima dos possíveis exageros das autoridades policiais envolvidas no caso de prisões de ricos se revestem de um particularismo enviesado de classe. Nele, é o fato de “[d]epois de décadas de impunidade, com penitenciárias entulhadas só por pretos, pardos e pobres, agora também ricos eram presos” que influenciou no imaginário coletivo (que é coisa de pobre, de povinho que não pensa, só reage irracionalmente) dando a impressão de “revanche dos oprimidos”. E a lei ? pergunta atônito o autor que pensa nos pobres para salvar os ... seus.
Jampa
sábado, maio 05, 2007
Fui a uma palestra sobre política de segurança pública e sociedade na universidade. Julgo o assunto importante para mim, pessoalmente, por questões muito particulares, de história de vida. Cheguei atrasado e não quis atrapalhar. Ouvi de fora da sala o finalzinho da apresentação do palestrante, e na pausa entre a palestra e o debate, entrei me situando num recanto.
O debate não chegou a me assustar. A sociologia do crime, de alguma maneira desacreditada no discurso do palestrante, eram duas, e as duas, segundo ele, incorriam no mesmo erro: procurar causas primeiras da atitude criminosa, a razão de ser do criminoso. Apoiado em estudos críticos dessas vertentes, ele defendia uma sociologia mais pragmática, ela sim, em condições de ajudar a formular políticas de segurança pública. Uma sociologia que estudasse os agentes facilitadores da ação criminosa, e não suas causas sociais últimas ou primeiras (essas, segundo eles, não ajudam nas formulações de políticas de segurança pública eficazes, porque, pelo que entendi, são obviedades estruturais das quais não se pode tirar proveito).
O discurso me pareceu sóbrio, embasado em dados e em reflexões teóricas, dando ao trabalho ali apresentado alhures de cientificidade inquestionável (o que não quer dizer que o trabalho e as teses defendidas nele sejam inquestionáveis, bem ao contrário.) Apesar de conhecer pouco da literatura sobre a criminologia, a sociologia do crime, a sociologia das políticas de segurança (se é que isso já existe), aventuro-me aqui a comentar, de maneira despretensiosa e rápida (do meu ponto de vista sociológico) aspectos da discussão que participei apenas como expectador. Essa coisa de ser expectador é importante porque todo aquele debate me pareceu de fato espetacular. Feito para ser visto e apreciado como uma mis en scene onde as idéias são postas em tubos de ensaio para ganharem sua roupagem objetiva. Da minha cadeira, meu ponto de vista era de alguém que olha para quem está olhando o objeto de estudo. Eu quis, em exercício quase fenomenológico, pôr em suspensão o sujeito que observa o sujeito observando um objeto (que é também um sujeito, no caso das ciências sociais) para apreciar o debate a partir desse “ângulo inusitado” de uma reflexividade desinteressada.
Divertido, mas também tragicômico, encontrar nas questões sérias formuladas ao palestrante, um quê de um pedantismo intelectual que se preocupa com “os limites do conhecimento sociológico” para pensar no uso da sociologia na formulação de políticas públicas de segurança. “As ciências sociais não tendo o mesmo potencial de controle dos fenômenos que estuda, não tendo a mesma capacidade de experimentação, de verificação empírica no sentido estrito do termo, como elas podem ajudar na formulação de políticas que realmente melhorem um estado de coisas dado?” O engraçado é que esse pedantismo se reveste, claramente, de uma aparente modéstia: são os limites da utilidade do pensamento sociológico que estão em questão, é tudo aquilo que barra o potencial de aplicabilidade dos conhecimentos sociológicos no mundo social o que perturba.
Apesar de nunca ter acreditado, nem mesmo no início de minha formação, na neutralidade axiológica, ou na pureza cientifica de uma pesquisa sociológica (nem de outra ordem, apesar de reconhecer hoje que em outras ciências por muitas razões – inclusive sociais – a autonomia das condutas cientificas caracterizadas em ganhos epistemológicos em termos de estatuto de cientificidade é maior nas ciências tidas como exatas e/ou formais), acho que a questão da utilidade prática da sociologia tem mais chances de ser colocada adequadamente quando se assume uma perspectiva reflexiva (auto-reflexiva, com o perdão da redundância) o ponto de vista do sociólogo como, exatamente, o de expectador.
O que me aborrecia naquele debate todo era o constante auto-posicionamento dos seres pensantes na procura de soluções sociológicas para formulação de políticas públicas eficazes para o controle da violência. (Por não conhecer a literatura nem ter lido o livro do palestrante, minha intenção aqui, é menos de fazer uma digressão a respeito da inadequação da formulação teórica do que se defendeu na palestra, do que apontar para alguns pressupostos que, ao meu ver, com muita facilidade, são deixados de lado em nome de uma maior “operacionalidade” de um tipo de análise sociológica que combine políticas de prevenção e repressão da violência. Assim toda sociologia que se preocupe com o estudo das formas e conteúdos de socialização do criminoso, estão fadadas a serem tachadas de inadequadas quase que de imediato, pois não sugerem formas de controle e ou repressão dos agentes potenciais da violência.)
Eu defendi aqui em outro texto a idéia da natureza social da violência. Idéia segundo a qual algumas lógicas sociais, a serem estudadas com mais detalhes, estariam estruturando a conduta de alguns atores situados em posições especificas no mundo social. Seria essas lógicas que ao serem identificadas ao problema da violência justamente produziriam um fator de inteligibilidade sobre o ignorar mesmo das lógicas de classe operando na percepção mesma da gravidade do problema.
Não creio que o que eu penso seja uma heresia sociológica. E não creio que exista de fato incompatibilidade entre concepções da sociologia que prezem por perspectivas mais racionais (que se preocupem em identificar as estratégias de ação dos agentes criminais) e outras que considerem mais elementos históricos, do passado desses agentes, da maneira pela qual o tipo de socialização especifico ao qual foram submetidos tem valor “explicativo” do tipo de conduta adotada. Por mais que possa ser verdadeiro o fato desse conhecimento sobre a socialização não ter “aplicabilidade” para formulação de políticas porque “apenas” constatam dificuldades estruturais (entendi assim o argumento dele, mas é possível que esteja simplificando demais), acredito que, em caso de acumulação sistemática de conhecimento a respeito desses aspectos estruturais podem (se bem elaborados por uma sociologia de viés crítico) conceber conhecimento que sirva de guia para políticas localizadas de prevenção e, porque não, de repressão da violência em alguns casos.
Eu penso, por exemplo, não sei se forçando a analogia, em políticas de tratamento diferenciado que foram aplicadas na escola nacional francesa, depois dos estudos conclusivos da sociologia da educação(décadas de 60 e 70), que identificavam dificuldades escolares ligadas às lógicas de classe social funcionando como filtro seletor no seio dos mecanismos aparentemente meritocráticos da escola republicana. Claro que o problema da violência tem suas especificidades, mas não acredito, como leigo, que sejam singularidades que impeçam estudos sobre socialização dos agentes dos grupos criminosos. Nem que esses estudos sejam de todo incompatíveis com a vontade de tornar utilizável o conhecimento sociológico para fins de aplicabilidade social.
terça-feira, maio 01, 2007
Na adolescência tive o meu primeiro contato com a política não mediada pela vida de meu pai. Do meu pai havia aprendido que ter ética tinha a ver com compromisso com causas coletivas (tinha uma idéia vaga do que isso queria dizer). Havia notado nele, antes disso, que a idéia de compromisso tinha a ver também com cumprimento de todo tipo de acordo, dos mais simples (pagar as contas) aos mais complexos, os que exigem confiança mutua. Alguns chamam isso de honra.
Outro dia, um grande amigo ligou e contou-me: você viu a nota no jornal falando de você? Ela dizia que seu pai quer lhe ver na política. Não havia visto. Fui ver. A nota tinha informações fidedignas. Deve ter sido meu pai, pensei.
Ao longo desse blogue escrito certamente em linhas tortas, venho deixando transparecer razões para o sucesso relativo do meu esforço para incorporar o metier de sociólogo. Numa época a qual vejo que vários amigos chegaram a pensar seriamente na possibilidade de suas candidaturas, é engraçado perceber que ocupando uma posição privilegiada em relação à deles no que diz respeito uma real possibilidade de congraçamento pelas urnas, assumi sempre a idéia segundo a qual em terra de “filhotismos” é legitimo com tudo correndo a favor, nadar contra, em nome também de uma dignidade e de convicções políticas. Alguns próximos dizem: “mas você sabendo disso, não pode evitar os erros do filhotismo. Os filhos de políticos de direita não ficam pensando nessas coisas”. Na minha cabeça de sociólogo, mesmo que barato (sem publicações, sem produção acadêmica), eu tenho clara uma coisa: apesar de entender o porquê de alguns amigos pensarem nisso dessa forma, não acho que a consciência de um mal (o filhotismo), per si, tenha o poder de impedir suas conseqüências. As relações de poder que se estabelecem ao logo de uma vida familiar não podem, pela dimensão mesma da relação parental, se estabelecer de maneira profissional no âmbito de uma política desprovida de confusões entre o público e o privado. Para mim o problema não é saber ou não de minhas qualidades políticas, de minhas competências para agregar pessoas em torno de um projeto (tudo isso talvez exista e seja proveitoso diante de um estado de coisas piores), mas saber da autonomia de uma empreitada como essa diante de lógicas de funcionamento do mundo social que colocariam em cheque ora a relação familiar ora a relação profissional.
A olhos desavisados isso que digo pode parecer resignação diante de condicionamentos sócio-culturais, ou um reconhecimento tosco de um autoritarismo paternal. Muito pelo contrário, vivi sempre numa casa onde o direito de opinar contra era possível e mesmo louvável. E meu esforço é e continua sempre o de encontrar boas maneiras de intervir e construir liberdades possíveis dentro do mundo social violento e obtuso que é o nosso. Porém, não julgo ser possível lutar contra um inimigo de tal envergadura histórica (o filhotismo) com a ingenuidade de uma consciência libertadora em meu favor. Quantas sanções íntimas e invisíveis para mim e para os outros não se fazem porque é o pai e não o homem público quem fica em dificuldades numa campanha eleitoral, ou numa polêmica no que diz respeito à cidade? É o filho ou cidadão o interlocutor?
Quando criança queria ser jogador de futebol, mas não sempre. Hoje, depois de ter levado um soco, mas já tendo beijado algumas namoradas (que amei), além de ter saído da adolescência sem ter participado de política estudantil estrito senso, sonho em me tornar sociólogo com produção e descobrir quem sabe algumas coisas sobre a nova revolução burguesa da classe média de Casa Forte, que por alguma ironia do destino parece estar começando em Boa Viagem, pela reivindicação popular de um parque arborizado e cheio de verde, salvando assim, não só BV do concreto de Niemeyer, mas o mundo do efeito estufa.
quinta-feira, abril 12, 2007
Cheguei numa clínica perto do DETRAN para fazer um exame médico. Sem ele, nada de renovação da carteira de motorista. A espera de mais de uma hora não me incomodava, lia trechos salteados de Memórias do Cárcere com algum interesse. As pessoas que chegaram antes de mim reclamavam:
— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!
— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.
Eu ouvia os comentários sem muito entusiasmo. A demora tediosa rendia mais tempo à leitura. As lembranças de Graciliano Ramos me faziam pensar em coisas desconexas, o Recife e a violência na época de sua passagem como prisioneiro por aqui. Quem seriam os militares que o receberam? Depois ficava resmungando num silêncio ensimesmado “caramba, como sou idiota! Aquelas pessoas, como o Velho Graça, estão hoje mortinhas da silva.” Só lezeira, como se percebe.
Minha vez chegou. O funcionário entreabre a porta e, pela fresta diz: “Sr. João Paulo, sua vez.” Entro. Observo que ainda não era ali, do lado de trás da porta, o consultório. Havia um corredor e mais adiante uma outra porta. O rapaz me indica o caminho.
O médico é um senhor de cara simpática. Pediu para que eu sentasse e ficasse a vontade. Sentei, mas não quis me sentir a vontade. Ele lê minha ficha e, olhando por cima dos óculos pendurado à ponta do nariz, comenta: “quer dizer que você é sociólogo, que coisa boa rapaz! Como nosso ex-presidente, o Fernando Henrique Cardoso.” Visto o ar de simpatia que ele quis passar com aquelas palavras pensei comigo: “Essa cara é um incompetente! Médico de verdade só se interessa por informações clínicas e tudo que sai desse terreno e se assemelhe ao humanismo, à pena, à misericórdia, sei lá, coisas de uma ordem pouco ou nada racional, ele não considera como importante. Por que diabo esse médico quer dar uma de gente boa?” Depois dessas acusações interiores, ponderei e decidi refletir de maneira menos pulsional.
De repente, não mais que de repente, tive a impressão de entender por que ele demorava tanto nas consultas lembrando das reclamações das pessoas na ante-sala de espera.
— Cada pessoa que entra passa mais de trinta minutos lá dentro, ele está fazendo cirurgia, é? Um exame desse, não tem nada pra fazer!
— Esse último que entrou vai demorar ainda mais. Acho que é amigo do médico, não viu os dois se cumprimentarem na hora de entrar no consultório.
Acho que as pessoas devem estar pensando que o médico é meu melhor amigo, pensei. Quis esquecer o julgamento inicial, mas fiquei pensando nas pessoas que ainda estavam lá, esperando.
Antes de começar a fazer os exames, que um bom sociólogo não saberia dizer se ele fizera bem ou mal, Dr. Kleber passou uns vinte minutos a me dar conselhos sobre o que eu deveria fazer para entender melhor a sociedade. E aqui eu chego ao ponto da história do meu dia de paciente que merece alguma reflexão. Aproveito para mudar o tom da narrativa e para dizer que o que interessa de fato nesse texto começa aqui.
O médico me disse em tom de conselheiro: “mas por que você, como sociólogo, não pega um gravador, e sai recolhendo e registrando as informações do dia a dia das pessoas. Porque a sociedade somos nós. Você compra um gravador e coloca no bolso. Aí você encontra um fulano na rua, hoje mesmo vinha passando na Rosa e Silva e tinha os Sem Terra parando o trânsito lá. Você chega como quem não quer nada, começa a conversar com as pessoas envolvidas, registra. E vai fazendo isso. [...]” Na hora agradeci os conselhos, sem comentá-los. Disse-lhe apenas educadamente que ele tinha razão e, pensando na teoréica cefichiana, que era uma pena não termos muitos sociólogos dispostos a estudar a nossa realidade mais concreta.
Mas já voltando para casa, caiu minha ficha. Quem aquele médico filho da mãe pensa que é para achar que um sociólogo não sabe como fazer e desempenhar bem sua profissão? Não, ponderei em seguida, era preciso justamente provar para mim mesmo a eficácia de minha disciplina. Eu devia mais uma vez refletir sociologicamente. A boa pergunta a se fazer era: por quais razões um profissional de outra área se julga no direito de propor uma metodologia intuitiva para a sociologia a um sociólogo? Por que, no momento em que ele estava me propondo as suas sugestões, eu não reagi e achei até natural tais proposições? Por que eu não comecei a dizer: “senhor Dr. K. acho que seu diagnostico seria mais eficiente se, ao invés de conversar tanta potoca, o senhor ponderasse sobre os sinais múltiplos de alguma possível deficiência nervosa que eu pudesse ter ou coisa dessa natureza etc. e que me habilitariam ou não a renovar a porra da carteira?”
Pensando nestas questões lembrei de um vídeo que assisti ainda quando estava na França sobre a sociologia de Pierre Bourdieu. No final do documentário que seguia os passos do cotidiano do sociólogo vemo-lo numa situação inusitada. Ele está dando uma palestra numa comunidade periférica no subúrbio de Paris e se vê pressionado por um morador que, no debate final, acusa o sociólogo de intelectualismo e pergunta: “ você acha que porque é Bourdieu é Deus (Deus em francês é Dieu, como o final do nome de Bourdieu) e por isso sabe mais de nossas vidas do que nós mesmos. Mas somos nós que a vivemos, somos nós que sabemos o que vivemos. Você acha que sabe mais de nossas vidas do que nós?” Pierre Bourdieu, com uma voz tremula e que denunciava um certo nervosismo de sua parte respondeu com empenho a pergunta. Ele disse que o que ia dizer poderia parecer pedante, mas ele achava que sabia sim, mais sobre vida do rapaz, de certo ponto de vista, do que o rapaz mesmo. Ele passara a vida dele se dedicando a estudar o mundo social, a vida das pessoas, como elas viviam e em que condições. E que era justamente o fato, de ter abdicado de boa parte de viver a vida para poder pensar como a vida era vivida pelas pessoas, que, acreditava ele, lhe dava condições de dizer coisas interessantes sobre a vida dessas pessoas. E em tom mais emocionado ainda, falava de um outro sociólogo, para não mais falar em favor próprio, que segundo ele teria estudado com muita seriedade as condições de vida dos emigrantes na França e concluiu mais ou menos assim: “se em nome de um anti-intelectualismo qualquer você se nega a ler uma pessoa como ele, que fez um trabalho sério, e que pode ajudar a entender melhor as razões sociais pelas quais existe sofrimento na sua vida, então eu digo sem medo que você é um idiota.” Mas os que isso tem a ver com a sua história com o médico, vocês podem estar se perguntando.
Bem, as pessoas em geral, como o interlocutor de Bourdieu no debate e o médico que me atendia, acham, também geralmente, que o fato de pertencer ao mundo social lhes dá, imediatamente, uma espécie de legitimidade sociológica. Eu vivo minha vida, eu sei a respeito de mim mesmo. Ninguém sabe mais de mim do que eu mesmo. Esse tipo de idéia, que é justamente um dos principais mecanismos sociais que dificultam a aceitação da sociologia como uma disciplina cientifica, age de maneira constante e dificulta o entendimento daquilo que chamamos de ruptura epistemológica em sociologia. Essa ruptura nada mais é do que a diferença entre a experiência da vida (entendida como percepção, tal como estudada pela fenomenologia de maneira geral) e o pensar essa experiência (que se daria num movimento de objetivação, de distanciamento das coisas vividas). Dessa forma é que, num consultório médico para renovar minha carteira de motorista, recebi conselhos de um médico de como ser bom sociólogo. E se eu fizesse o mesmo e desse ao doutor sugestões de como tratar clinicamente seus pacientes... Bem, acho que isso seria socialmente um absurdo.
terça-feira, abril 03, 2007
Viver é negocio muito perigoso. Exatos são os tempos incertos, neles sentem tudo assim, titim por titim. Será vigia de seqüela, não será? Existe Sertão realmente em tudo? E aquele... Que-Diga? Não diz. Vai que existe.
Veseja sem versejar. Essa não tinha no João. Mas comporta. Tinha sem ter.Nonada agora vem no meio. Mire veja. O João é torto, sem sagarana. Não existe astúcia em dizer assim a verdade. Ao contrario do difícil. Agouro de assim encontrar questão da morte: repetição, imitação. Só de muda só, sem ajunta. Diga se homem, qualquer sem nó, assim sozim, sozinho, não se quer assim ao lado?
Verde longe. Não gosto. Nenhuma presença quer tirar solução de mundo, dessa terra seca. O Sertão de um homenzinho assim de mim, meu sentimento. Imenso. Isso seja. Euzim, nem pra tanto. Agora, queria que queria. Mas do propósito maior desvantagem da vontade. Nem de longe quanto mais perto o senhorio estudado e doutor com glosa decora acordo. Discorda com a dose de onde sou chinfrim. Não é de dó de coisas ditas. São muito em mim assim, como mesmo.
Queria ser João. E assim Desdeus parou em mim. Não quero. Sirva de pagina de coisa blogueira, caso o fracasso assim acoite olhos de desaprovação. Queira não. Seja. Mas ser assim dói, comove. E como disse ele próprio de Rosa:
“Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: -- ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.”
Nem tudo que se diz faz assim, doer comigo. Sertão se sou, não careço de mim! Dera jeito de morrer varias vezes no viveiro das veredas. O grande peito era tudinho amor. Não sarava. Que-Diga! Tragamim Deus. Nonada. Já dissera: “O diabo não há! É o que digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”
Jampim. Fim.
sexta-feira, março 30, 2007
Reginaldo Rossi:
É impossível acabar um amor por decreto de palavras.
Amado Batista:
Ela será uma pessoa inesquecível pra você, pra sempre. Assim como pra ela não será fácil esquecer você, mesmo que arranje outro alguém. Virou uma tatuagem.
Genival Lacerda:
Tatuagem sim. Daquelas que quando você tenta passar o laser para apagá-la, ficam aquelas marcas feias de lembrança.
O rei:
Então, seria melhor guardar o colorido da tatuagem?
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Eu já disse aqui em outro momento que falar de si mesmo é quase sempre um exercício narcisista. Acredito hoje, porem, que existem maneiras de recontar uma historia pessoal e tira-la de seu particularismo egocêntrico.
Sempre tentei nos meus escritos ter muito cuidado com as palavras. Afinal de contas elas, salvo engano, foram feitas para dizer. Leva-las a serio, sendo exercício pouco modesto e trabalhoso, principalmente para os profissionais da escrita, torna-se uma tortura, pois, ao que tudo indica, o artifício da atividade parece quase sempre matar a espontaneidade do escritor (que talvez devesse ter escolhido oficio de improvisador de palavras, que não sei bem se existe no mercado). Sejamos sempre espontâneos então meu deus! Nada mais chato do que um texto artificial, não é? Do que um texto acadêmico! Eu nunca consegui ter espontaneidade com a escrita...
Mas falar da palavra num texto que queria falar de mim, de um eu, não seria fuga? Não seria mais uma vez recusa da individualidade de Jampa?
Comecei a fazer uma psicanálise depois de alguns anos relutância pessoal e sociológica. O esforço de concentrar e entender o mundo (ou de criar vários mundos em mim) que uma e outra disciplina trazem de maneira tensa e rica tem sido uma nova descoberta de Jampa consigo mesmo. É engraçado estranhar através do dizer-me (e às vezes do silenciar, tão importante também nos processos tanto psicanalítico como no sócio-analítico) as maneiras de me perceber como homem (sim, aqui não no sentido de ser humano, mas de alguém do sexo masculino mesmo). Esse eu garoto socializado com valores e virtudes masculinas (juntas com minhas pulsões latentes), esse eu com seus conflitos com aspectos de feminilidade também incorporados (pela convivência com a mãe, com tias, etc.), esse eu em suma contrastado pela experiência subjetiva do Jampa no mundo hoje, todos eles (os eus de jampa) coexistindo no presente com suas ambigüidades de alguém que “entranha estranhar”. Entranho estranhar porque é o mais incógnito de mim, que não dizia nem pra mim mesmo, que sai do estranhar minhas entranhas. Coisa bizarra isso.
O que isso tem a ver com cuidar das palavras e ser responsável com elas? O que isso tem a ver com o transcender a condição de individuo atomizado e o compartilhar uma experiência de mundo com tantas outras existentes?
O mundo social parece nos oferecer obstáculos comuns (mas oferece mais entre pessoas pertencentes a agrupamentos sociais com padrões de homogeneidade) que explicitados pelos sociólogos, através da analise de contextos e da escuta sociológica das pessoas, possibilitam um compartilhar objetivado da experiência subjetiva do mundo. Acredito que o mundo psíquico, menos desvinculado do que se pode imaginar do mundo social, parece proporcionar limitações semelhantes. Nesse sentido, a experiência da psicanálise oferece oportunidade, através da escuta de elementos sociais e pessoais contidos em lugares inusitados do individuo (a psicanálise chama o mais famoso de inconsciente), de partilhar comigo mesmo um eu que não é mais tolhido de conexões com outros eus e com o mundo... um eu em grande parte criado dentro de mim a revelia de outros mundos.
quinta-feira, novembro 23, 2006
A morte não é uma entidade moral nem metafísica. Ela é numa sociedade de classes como a nossa uma questão de inclusão/exclusão social, de integração/desintegração de parcelas da população a um todo estruturado do universo social, e, portanto, é algo necessariamente relacionado à esfera publica de uma ordem social dada. Em suma, é um problema de todos e que não pode ser tratado simplesmente como uma ameaça às parcelas favorecidas de um dado meio. Mas sabendo disso, onde estaria o ponto cego produtor dessa passividade diante de problemas tão estruturalmente fundadores de nossa sociedade? Por que ninguém toca no assunto da degradação de agrupamentos inteiros da sociedade como indicador objetivo da produção de nossa violência urbana? Talvez não tenha elementos para responder as razoes de tal denegação coletiva de uma verdade social certamente dura demais para ser aceita e/ou encarada diretamente. Nesse texto, contudo, apoiado em alguns exemplos trágicos de nossa vida cotidiana, gostaria apenas de defender a idéia segundo a qual em nossa sociedade continuamos enfrentando o problema da violência e de sua conseqüência mais brutal (a morte de seres humanos) como se fosse uma questão de esfera privada num nível puramente moral. O que é a meu ver um erro, pois, vista a gravidade e a natureza social das mortes ocasionadas e de nossas reações diante delas, seria preciso entender que o buraco da bala é indissociável do nosso fosso social.
O jovem Rafael morre assassinado aos 21 anos. A imprensa noticia, evidencia os índices inaceitáveis de violência, as pessoas aparecem revoltadas, afinal perde-se uma vida valiosa, uma existência importante. Qual é o problema “ético” por trás do debate sobre essa noticia? Era uma morte que não deveria ter acontecido e absurdamente aconteceu. Tudo bem. Foi um crime horrendo. Mas e as outras mortes? Aquelas que aparecem diariamente nos cadernos policiais? Não, essas não fazem parte do “problema da violência”, pois, como sabido, não são mortes absurdas, a existência de “marginais”, de “almas sebosas”, de “assassinos” tem seu tempo contado. São mortes “naturais”. O que essa discrepância de tratamento das mídias, mas também, porque não aceitar, do nosso em relação ao mesmo fenômeno (a morte) tem a ver com idéia defendida nesse texto da natureza social da violência e do tratamento privado de um problema publico?
Vejamos.
Sem querer estuprar meu argumento com um paralelismo exagerado, não acho um desproposito falar, como Florestan Fernandes falava do problema da integração do negro na sociedade de classes, da violência urbana do Recife em termos de um “protesto mudo” oriundo de uma rale que responde, agora, aos desesperos ocasionados, desde outrora, por uma profunda “desilusão social”. Digo isso porque algumas perguntas não param de soar como sinos em minha cabeça: será que ainda é preciso se perguntar por que a questão da violência não pode ser desvinculada da questão da desigualdade social? É necessário ainda lembrar da existência do fosso social e da apartação entre as classes sociais no Recife e no Brasil? Não é suficiente se perguntar de onde veio esse homem (muitas vezes ainda nem mesmo em idade adulta, um adolescente) capaz de matar sem titubear ou sem aparentar dilemas morais mais sérios diante de uma execução para perceber que estamos diante de um problema profundamente, estruturalmente social? Por que insistimos em “privatizar” nossos problemas e nos “vitimizar” fugindo do enfretamento direto com o problema real de ordem publica que é o de que o assassino existe porque uma classe de desprovidos de valor foi produzida por nossa sociedade excludente de classes? Ou não seria uma nova classe uma categoria de pessoa sem valor nos dois sentidos que não ter nenhum valor pode ter: o de grupo de pessoas que não tem valor social (e que por isso suas mortes são aceitas sem mais estardalhaço da mídia) e no sentido de pessoas sem valor moral(e que por isso matam sem prejuízo de consciência)?
Tenho consciência de que com esse tipo de reflexão eu posso ser acusado de estar reificando a sociedade, hipostasiando-a com atributos e responsabilidades que são dos homens, dos indivíduos. Mas gostaria que atinassem para o fato que viso apenas colocar a centralidade do deslocamento do problema da esfera de soluções privadas, para que a violência seja tratada com alguma propriedade.
Peguemos assim um outro exemplo daquilo que acho ser indicador dos invariantes estruturais do comportamento social contido nas maneiras que as classes sociais mais abastadas no Recife universilizam suas particularidades.
Estava eu conversando com um amigo e ele me disse o seguinte:
“hoje uso bicicleta como principal meio de transporte. Só que a classe media usa como hobbie e querem ter seus direitos como ciclistas... Mas não vêem que tem milhões de ciclistas pobres que andam por recife porque a bicicleta são seus meios de transportes.
ou seja, eu resolvo o meu... o resto que se foda!”
Eis um exemplo de como um problema publico, o das ciclovias, que deveria ser um problema de todos os ciclistas, torna-se um problema dos ciclistas da classe media. Isso se tratando de lazer. Mas poderíamos lembrar da água que também era um problema de ordem publica e que foi tratado com a perfuração de poços (privados) nos prédios da nossa classe media alta? E o estado de nossas escolas publicas? Dos hospitais? Não sei se nesses casos qualquer semelhança é mera coincidência.
A morte do jovem Rafael talvez não tenha nada a ver com essas coisas levantadas, como proponho. Talvez, as passeatas pela paz que já vi alguns defenderem após a noticia da morte do rapaz possa surtir efeitos e tenham algum sentido a mais do que ser mais uma alternativa recalcada (de classe media) para um problema publico (que deveria envolver todos os setores e parcelas das diferentes classes, na medida que isso fosse possível). E dizer que é um problema de todos significa aceitar a natureza social dessa tragédia e suas implicacoes(algumas indicadas no corpo desse texto) Ate quando iremos fugir?
sábado, outubro 28, 2006
terça-feira, outubro 17, 2006
Fazer uma leitura despretensiosa de um romance nem sempre é uma tarefa fácil para quem tenta se dedicar à sociologia da literatura. Para um sociólogo o prazer do texto parece vir não mais de um “entregar-se às tramas” dentro de um esquecimento quase intencional das possíveis suspensões (feitas pelo olhar sociológico) de plausíveis “pactos ficcionais”, mas de um estranhamento continuo com o registro literário que de alguma forma, através da forma para ser mais preciso, traria registros de inteligibilidade especifica do mundo social.
Pois bem, dito isso, convido-me a tentar comentar um romance de Jean-Christophe Rufin lido de maneira leve, na postura do “quase esquecimento” do controle disciplinador da sociologia. O romance chama-se La Salamandre e a trama se passa em Recife. O livro reconta a historia de Catherine, uma mulher cuja vida se organizava em torno do trabalho (ela odiava os domingos), do uso de soníferos, da companhia de um gato, e que vai dar as costas para França para ir morar no Brasil. A capital pernambucana é a cidade que vai servir de pano de fundo para a trama que se desenvolve através do envolvimento de Catherine com Gil, um jovem habitante de uma favela nas proximidades de Boa Viagem.
Meu comentário a respeito do livro é o seguinte
É interessante perceber que com um mote como esse o romancista poderia com muita facilidade cair em “clichê” sobre a condição do turista de primeiro mundo perdido no emaranhado de informações novas a respeito da miséria de um país subdesenvolvido numa cidade fétida do Nordeste. Acredito que ao contrario disso, Rufin consegue construir uma problemática romanesca situando conexões inesperadas entre “misérias ocidentais” fazendo do encontro entre as duas personagens uma ocasião para fugir de uma visão puramente idealizada (exótica ou miserabilista) do terceiro mundo.
Tragédia moderna, livro de profunda dor trazida pelos contrastes extremos entre reconstrução e destruição de si mesma da personagem principal, La Salamandre faz lembrar (ao sociólogo cefchiano que sou) o quão importante é uma simples descrição de ambientes e situações que podem dizer muito das relações das pessoas com o mundo. Das descrições, das informações a respeito da construção da verossimilhança das personagens nas suas relações com os ambientes sociais, de tudo isso se pode tirar lições a respeito desse romance que informa sobre aspectos sabidos, mas de alguma forma ocultos e ocultados da realidade social recifense.
Outra coisa (também meio sociológica), tratando de amor o romance tensiona a temática da liberdade envolvendo aspectos muito interessantes da socialização das personagens. O fato de Catherine seguir uma espécie de lei profunda de seu ser que a leva a se destruir e a se sentir realizada ao mesmo tempo complexifica a trama fazendo um possível maniqueísmo determinista datado funcionar como fonte de “escolhas limitadas” não pelo inelutável destino (do Realismo, do Naturalismo nos termos mais estereotipados), mas por mecanismos ao mesmo tempo pessoais e sociais de tolhimento de condutas onde o mundo e a pessoa humana expressam juntos um doce e amargo conflito.
Vejo que ainda vou ter que lutar mais contra minhas disposições sociológicas para me ater mais ao romance. Quem sabe não volto com outros comentários a respeito do livro numa outra ocasião.
Jampa.
sábado, outubro 07, 2006
A selecao brasileria eh recebida com festa nos paises arabes. Por isso, e a logica eh clara, Lula nao vai ter muita forca num possivel segundo mandato. As aliancas feitas com deus e o diabo nessa terra de sol indicam apenas uma coisa: futebol eh muito importante em epoca de eleicoes.
Sobre esse quadro eu gosto mais de chama-lo de cenario politico. O teatro, o espetaculo, tudo nessa metafora de 'mise en scene' parece ser mais apropriado para se referir aa tragedia tragicomica de nossa dramaturgia brasileira...
Bem, na verdade nao sei o que dizer sobre essas coisas.
E, seguindo o conselho de Wittegenstein: das coisas as quais nao sei falar com seguranca, calo.
Abracao.
segunda-feira, outubro 02, 2006
sábado, junho 24, 2006
sexta-feira, maio 05, 2006
Olá Pessoal,
domingo, abril 23, 2006
Aproveitando o ensejo de Wander, vou aprofundar a crise importada de um habitus maldito. Agradecido senhora Wander... Estou começando com Anderson a fazer uma pequena pesquisa sobre o campo teatral do Recife. Estamos na fase inicial, fazendo a escolha do material empírico e de ferramentas sociológicas para dar conta desse universo específico. Quais são nossas motivações?
Olha, eu vou falar por mim e por Anderson sem ter autorização dele, mas o faço, apenas tentando captar o espírito de nossas conversas iniciais, de algumas de nossas afinidades eletivas.
Acho que a motivação principal para essa pesquisa é antes de tudo, digamos assim, vocacional. Vocacional no sentido de buscar o sentido desse chamado que diz respeito ao ofício de sociólogo que pensamos ser por formação sem realizá-lo( efetivação prática do saber sociológico incorporado). Entender porque levamos tanto tempo num período de formação tão longo para entender que muitas vezes ignoramos a diferença fundamental entre o saber-feito e o saber-sendo-feito, próprio da elaboração científica, da produção do conhecimento.E daqui se tira um dos motivos para justificar o vocabulário inicialmente impregnado de termos ligados à sociologia de Pierre Bourdieu. Talvez junto com Elias Bourdieu seja ( a diferença de Giddens, Habermmas e os ilustres teorizadores à Alexander) um dos principais defensores de uma sociologia que trabalha a partir dos fundamentos empíricos da sociologia, traduzindo um aspecto daquilo que sentimos mais falta por aqui. Não sei se estamos certos, mas achamos que não existe muita coisa sendo produzida a respeito das lógicas de funcionamento da sociedade a qual temos acesso mais direto ( esse acesso direto é sabidamente mediado por nossas preocupações e categorias e, nesse sentido específico, é um acesso indireto): a recifense, por exemplo... Então a idéia era pergar um material empírico e trabalhá-lo na construção de um objeto sociológico confrontando questões ao mesmo tempo empíricas e teóricas.
A idéia de trabalhar o teatro veio por causa da existência de um material inicial bastante instigador: a existência de videos com debates entre pessoas envolvidas no mundo do teatro. A possibilidade de trabalhar esse material, de problematizá-lo, de tornar inteligível uma série de debates onde pessoas dizem e defendem idéias muitas vezes contraditórias, de entender como funciona esse universo sem tomar como certo o seu modo de funcionamento por via puramente teórica, ou por via de decalque da realidade alheia, foi essa possibilidade que nos motivou a começar nesse projeto.
Esse ponto comum espero que dê energia suficiente para vencer as limitações do meio e as nossas próprias(mais particulares). Não temos uma visão uniforme do que deva ser o trabalho do sociólogo, nem sei se temos realmente uma visão propriamente dita a esse respeito, mas esse esforço de leitura do mundo social, de confrontação com o material, é o fomentador de nosso desejo de produzir conhecimento sociológico nesse momento.
Para efeito de propaganda: aceitamos colaborações de voluntários corajosos pois as transcrições dos videos já começaram.
Gostaria também, antes de ir, de comentar a pergunta de Hammer com relação aos amantes da alienação.
Chamei de amantes da alienação os críticos da atitude crítica nas ciências sociais. É umas posição extremista minha, mas que é uma posição na qual acredito. Alienado são aqueles que aceitam o mundo da vida (no sentido Hurssel) da ciência e criticam a reflexividade que é a única capaz de deter os efeitos do mundo tido com tal (take for granted) da própria produção científica. Alienados são os homens de ciência que pensam que seu estatuto de cientista, com as práticas científicas que fazem parte desse mundo tido como naturalmente reflexivo, é suficiente para garantir a reflexividade necessária para o melhoramento da produção cinentífica. Era nesse sentido específico que eu falava de amor a alienação: no sentido da aceitação passiva da parcialidade do conhecimento que às posições críticas só aceitam de maneira mais controlada. Acho que é isso.
Abraços.
Jampa.
sábado, fevereiro 18, 2006
Cheguei ao auditório da Livraria Cultura. As exposições já haviam começado. O tema do encontro era Teatro de Grupo: Utopia, Resistência e Renovação. A mesa contava com vários grupos de teatro e, de cabeça, lembro apenas de alguns: Labô-Espetáculo, Totem, Santa Fogo, Marco Zero, Galpão das Artes. Deve estar faltando um ou outro, mas para o que proponho que é comentar e não fazer nenhuma análise com rigorismo ou detalhes, já basta. A idéia é apenas colocar algumas reflexões no papel (tela).
A sociologia vai dizer: a arte, e dentro dela o teatro, é um conceito normativo. E o que é que isso quer dizer? Quer dizer que existe uma disputa social para designar com legitimidade o que é e deixa de ser arte, o que é e o que deixa de ser boa arte? Mas o que ler de um encontro como aquele? Como explicar a existência de momentos tão dissonantes como a calmaria das exposições e a tempestade do debate?
Num debate como o proposto pelo Labô-Espetáculo, que tinha como mote inicial a existência de grupos de teatro no Recife (e em Pernambuco-com a participação de alguém vindo do interior representando o município de Limoeiro), não há como não aparecer algumas tensões latentes do mundo social específico do teatro. Essas tensões são muito representativas do tipo de realidade (realidade simbólica e material) onde os artistas locais desenvolvem seus trabalhos. (Isso precisaria de longos comentários a respeito do como se reprensentar essa realidade, de como entender seu funcionamento!)
A própria dinâmica de ânimos das apresentações calmas destoando do acalorado debate pode indicar muito sobre o espaço social das artes cênicas no Recife. Onde existe polêmica há luta por legitimação, diria. E isso deveria ser investigado.Mas a título especulativo diria que não deveria causar espanto aos olhos avisados ver o fato dos temas mais disputados terem sido aqueles lidando com a questão da profissionalização das artes cênicas, ou da industrialização, da criação do mercado, do fazer ou não fazer arte sem incentivo fiscal. O que é arte de qualidade afinal? Que tipos de relação e organização do trabalho artístico produzem boa arte?(Essa questão eu acho particularmente interessante) O que é ser ator? O que é profissionalizar-se em arte? O que é ter autonomia? O que é depender de um financiamento?
O campo artístico é um campo socialmente dependente de outros campos e todas essas questões o ligam, de maneira relativamente forte, às lógicas dos campos político e econômico. Essa relação de dependência do campo artístico em relação ao político e ao econômico muitas vezes não é vivida como tal pelos agentes interessados(a classe artistica em geral). Isso ocorre porque o elemento de refúgio da lógica propriamente artística do teatro, que tenta com todas as suas forças inverter os valores dos outros campos para legitimar-se como tal (lembro de Virginia falar sobre alguma necessidade quase instintiva do ator ao trabalhar sua expressão), parece nunca ser o suficiente para manter-se constante, mas mesmo nessa insuficiência ela serve para esconder o sistema de dependência escondido na chamada“necessidade de atuar”. Claro que essas considerações são de ordem muito genéricas a respeito de lógicas que organizam de maneira muito ampla os espaços sociais. Seria preciso entender mais e com mais detalhes a história do campo das artes cênicas e de seus agentes (atores, diretores, cenaristas, etc.) em Recife para poder captar as suas lógicas próprias.
Um exemplo de tensão
Pensar a temporalidade do Teatro de Amadores de Pernambuco e não perder de vista os problemas de legitimidade que o próprio campo artístico propõe, eis uma tarefa a ser feita por sociólogos das artes aqui no Recife. Vejam que o TAP foi discutido a partir de uma comparação entre as lógicas dóceis das relações de trabalho do teatro amador em oposição às competitivas e frias lógicas das relações do mundo profissional, ocultando assim, algo que me parece evidente e que apareceu apenas de modo implícito em algum momento no discurso dos próprios interlocutores: que tipo de valor propriamente artístico (relacionado a noção de valor artístico ao trabalho de elaboração com preocupação de cunho estético, etc. ) se atribui geralmente às produções do Teatro de Amadores de Pernambuco? Atribuir qualidades históricas (de tempo e duração institucional de um grupo) ao teatro não é dar-lhe reconhecimento artístico. Eis uma das coisas que é dureza num debate como esse, e que é facilmente colocada para debaixo do tapete da consciência (seja ela consciência artística ou não).
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Quem leu o Alienista de Machado não poderia concordar comigo. Mas como concordar com algo se ainda não se disse nada? Esperem um momento, por favor. Não sejam duros comigo antes do tempo. Vocês bem sabem que a narrativa moderna permite esse tipo de estratégia discursiva. Tem gente até que começa texto com vírgula. Tudo bem, não sou Lispector nem tenho status de Joyce. Não comi a tinta da caneta de um Guimarães Rosa nem me lambuzei na doçura de Drummond. Eu começo assim, e o leitor há de me perdoar.
De toda forma... Bem, ao menos nessa forma que é a minha, justifico-me. Aquele Aquiles leitor da obra machadiana legitimamente vai me contestar. Ele está ciente dos limites da ciência da alienação. Ele colocaria com razão a mim e as minhas idéias numa casa de isolamento. Insanidade mental de cor verde, diria ele em diagnóstico reflexivo. E perguntaria: andas comendo capim?
Mas isso tudo não passa de pura suposição. Não conheço os leitores de Machado. Então vou supor outro leitor, alguém mais conhecido...
Outro leitor exporia meu ridículo alegando falta de rigor na apreciação das causas estruturais da análise. Penso num marxista ortodoxo e imagino que ele me lembraria que alienação tem a ver com a mais-valia, com a divisão mecânica da organização do trabalho e, last but not least, com a luta de classes. Alienação, ele corrigiria em tom magistral, alienação tem a ver com o mundo existindo no antagonismo binário onde tudo é tensão entre força de trabalho e capital. O conflito entre força de trabalho e capital vai progredindo e aumentando paulatinamente com o desenvolvimento do próprio capitalismo gerando cada vez mais antagonismos. O futuro necessário é o socialismo. Claro, dirão alguns, você alienou boa parte da análise de Marx... colocando esse marxista ortodoxo para falar no seu texto. Aí eu fico incucado, pensando comigo mesmo, "é verdade, por que é que não estudei mais profundamente e exclusivamente e exaustivamente a obra de Marx?, eu estaria bem menos alienado. Estaria?"
***
Conheci mais de perto nos últimos meses os amantes da alienação. Vejo-os como pessoas inteligentes que odeiam a inteligência e seus “mestres da suspeita”. A libido sciendi, essa vontade de desvendar o mundo nos seus pormenores mais tinhosos, principalmente quando entendida na linguagem natural como ciência crítica, aparece aos olhos desses seres morosos (amorosos de certo irracionalismo) como um sinal de desafeto com o mundo. Ser crítico significa dizer desconfiar de tudo e de todos. Ser crítico não é uma postura epistemológica, mas uma postura ética, uma disposição moral que torna impossível o gay savoir. Bem, ao menos é assim que essas figuras dizem criticar de maneira acrítica a ciência crítica, seja lá o que isso queira dizer.
Eu do meu lado fico apenas a pensar sobre o fato de pensar não ser lá grande coisa. Na verdade , no fato de pensar que do jeito que eu penso não ser grande coisa. É melhor precisar para não ficar parecendo com aqueles criticados por mim.Vejamos o que temos: uma produção mínima com projetinhos inacabados e com reflexões pouco substantivas. Refletir deveria no mínimo ajudar a reflexão a progredir... Bem, mas isso tudo é “churumela”. Tudo que aliena a ação é alienação, por isso o pensar crítico é importante e constante luta contra si mesmo. O sinônimo disso é a reflexividade que vai incorporando as ferramentas da própria crítica como instrumento de nossa reflexão que vai e deve se voltar contra si mesma e assim por diante. Mas e a ação, que diabos é isso? É entrar no mundo do viver fazendo as coisas e depois se perguntar os porquês? É o agir duas vezes antes de pensar? Qual equilíbrio existe entre esses mundos que se contradizem um ao outro pela própria lógica da relação que estabelecem entre si? Pensar a respeito do valor desse pensar me aliena de todo o resto! É isso que penso ultimamente.
Perdoem-me pelo começo e pelo fim,
domingo, janeiro 15, 2006
Uma maneira de entender a violência é se identificando a ela. Não digo aceitando-a. Seria um despropósito de minha parte. Mas inserido-a na nossa história individual, contextualizando-a em nossas vidas, entendendo como fazemos parte de um processo maior de produção da violência.
Tenho pensado num ditado que minha avó sempre repetia que julgo interessante para pensar mundos invisíveis de nossa violência social: “cachorro que muito anda ou apanha pau ou rabujo”. Ditado que visava limitar o campo de possibilidades do estranhamento antropológico natural da criança-neto, aquele estranhamento possível com a variação mínima existente entre diferentes grupos de pessoas vivendo como subconjuntos de um conjunto mais amplo e homogêneo de uma sociedade. Os grupos existentes na ur-6 poderiam ser classificados em diferentes categorias variando segundo os critérios taxonômicos dos classificadores. Minha avó, católica do jeito que era, tinha mania de posicionar os indivíduos do bem como estando no grupo dos “moços e moças de família”, os do mal eram “filhos e filhas da vida”, os “deixados a esmo”.
Não é minha intenção, naturalmente, fazer um juízo de valor daquilo que minha falecida e amada avozinha dizia. Mas como ponto de reflexão, o fato dela querer no seu discurso, desqualificar socialmente alguns elementos da vida social, pareceu-me relevante. A vontade dela de me proteger dos riscos do desconhecido provável (espécie de reconhecimento de que aquilo que acontece por perto pode nos atingir), dos perigos de um mundo do possível extremamente próximo, mas mantido a distância pela força de um desempenho discursivo, pode dar pistas sobre os modos de apreciação e operação que sustentam uma realidade social vivida como exterior mesmo se compartilhada num espaço físico delimitado e relativamente pequeno. Eis a questão: como é que pessoas de uma mesma localidade, vizinhos geográficos, criam abismos simbólicos entre si que terminam por constituir a invisibilidade social do absurdo da “natureza violenta” de alguns dentre eles? Em outras palavras, o que ler daquilo que ela me dizia para que eu deixasse de lado a “malouqueirada”? O que entender da visão negativa dela sobre a diversão solta e sem controle das ruas? O fundo moral era claro e normativo: cachorro bom, de raça, mora em casa e nela fica. A rua é o lugar do viralatismo sem futuro, lugar de contatos com pulgas perigosas, carrapatos desprovidos de piedade com os caninos de boa índole e família.
Pequena inflexão da soberba sociológica
Pode até parecer sociologia atrasada e barata essa de ficar pensando o mundo social se contrapondo à famosa sabedoria popular. Mas imaginem que desse tipo de visão viralatista da rua, presente no ditado popular, não escapa a sociologia que em raras ocasiões trata de certos aspectos considerados marginais das consideradas margens da vida social. Visão esta em parte responsável pelo que chamamos de miserabilismo na produção sociológica, uma atitude de complacência e condescendência em relação aos mais desprovidos: "pobrezinhos", "coitados", "quão horrível é tal situação". E quando trata de maneira diferente, o faz no mais das vezes naquele sentido meio tosco da crítica que quer sentir-se gloriosa de si mesma, o faz visando o benefício do narrador do qual falava Foucault : aquele sentimento de liberação que o fato de expor em denuncia uma repressão produz em prol do locutor da denuncia. Quando mais atenta, atina para as antinomias de sua própria cegueira: constata em si mesma as variações entre miserabilismo (viralatismo do povo) e populismo (pedigrismo do povo). O populismo que é um miserabilismo invertido, pois, no lugar do « coitadinho », do « pobrezinho », propõe o “bom selvagem”, o “homem de dignidade”, aquele que “mesmo se pobre e lascado” nunca desvirtua. O homem que mesmo semi-alfabetizado “toca rabeca de maneira tão magnífica quanto um bom violinista clássico toca seu violino”, o homem que apesar dos pesares não pesa tanto em suma. O ponderar desses limites analíticos pode ajudar na reflexão.
quarta-feira, janeiro 11, 2006
E volto assim de supetão com essa filosofia de três tostões e um garrincha. Pois Deus é quem fazia dar dribles certos por pernas tortas. Eu, sem pretensão à divindade, entorto filosofias para querer viver com alguma razão(certa ou não). Tratemos de valtar então. Lentamente voltemos. Com toda razão.
Jampa.
sábado, novembro 12, 2005
Minha primeira vez : O Organon da minha virgindade
Oi Todas,
Tema difícil, sei. Minhas amigas sempre me falam do “quanto foi dolorido”, do “quanto os primeiros namorados são desajeitados mesmo se cuidadosos”, do “isso e aquilo”. Não. Comigo não foi assim. E penso ser necessário colocar alguns pontos sobre os is. Orgasmo feminino de primeira vez existe. Sou um caso e acho de utilidade pública expor esse tipo de verdade. Galileu disse que a dita cuja era filha do tempo e não da autoridade. Para as pessoas incultas, preciso: o filósofo falava da verdade e não a respeito da utilidade pública. Sou uma pessoa relativamente bem instruída. Por isso concordo com Galileu e afirmo: chegou o dia da verdade. Mas não fiquem pensando que faço isso porque as mulheres gostam de se mostrar diante das outras. Não é isso. Não sou assim. Acho apenas que é necessário mostrar para o mundo que felicidade com prazer é possível desde cedo. Por isso conto, foi assim:
Eu tinha quatorze anos e o nome dele era Carlos. Ele tinha dezoito e gostava de beijar minha boca chupando seu Halls extra forte. Sabor hortelã, claro! Quando as nossas línguas se desgrudavam, ele retinha um pouco do ar gelado na boca para sentir algum sofrimento, e depois, só depois, soltava um sopro suave e cheio de prazer. Eu amava aquele jeito masoquista dele.
Digo mais sobre o Carlos, sei que vocês estão curiosas. Ele era sempre muito cuidadoso e carinhoso comigo. Chamava-me de Béa, de Dengo, Nega (na verdade sou moreninha), de Preta. Eu o chamava de Carlinhos e/ou mãozinha. O que era um paradoxo, pois ele e a mão eram dignos dos aumentativos. Mas o que fazer se carinho requer diminutivos não condizentes com a realidade das coisas? Os seres humanos têm dessas coisas, não é?
Pois bem. Eu e ele estávamos, digamos assim, apaixonados. Todos os dias nós ficávamos horas e horas naquele sarrinho angustiante, aquele conhecido por todos os que “namoram em casa”. Ficávamos no quintal nos amassando e, sempre que ouvíamos algum barulho, o amasso parava e nos torturava...
Nossos corpos tão preenchidos de hormônios e curiosidades se contorciam em busca de um alívio, de um lugar para guardar o desejo. Eu adorava sentir o volume por baixo da calça dele aumentar e isso me excitava, eu ficava louca. Mas me controlava por causa daquilo que poderíamos chamar hoje de “risco pais”, ou seja, a probabilidade de ou meu pai ou minha mãe ou os dois nos dar um flagra. Era uma alegria ter esse medo saudável.
Mas um dia, cansei desse lenga-lenga medonho. Imaginei a mim mesma, talvez pela primeira vez na minha vida, sendo uma mulher decidida e totalmente autônoma. Foi nesse exato dia que cogitei: mas como existir sem transar com o Carlos aqui em casa? Trepar ou não trepar, eis a questão. Podem considerá-la como a primeira e mais importante cotação reflexiva de minha vida. Passei noites e noites em branco. Ficava a imaginar estratégias para dar uma resposta ao meu racionalismo que deduzia sem reduzir meu complexo desejo de experiência empírica. Não há lugares, coisas, palavras a dizer no ouvido que não houvessem passado por meu espírito, minha mente estava formalmente preparada para os tópicos da refutação da sofistica da virgindade. Terminava sempre por me masturbar. Prática que pode ser entendida como uma espécie de misto entre a abstração e o procedimento empírico muito próprio às práticas de validação científica. Com tanto rigor assim, eu gozava. E sempre. Nunca desconfiei do poder efetivo da técnica oriunda de ciência tão refinada.
Voltemos ao nosso assunto. Eu tinha tudo em mente então. Precisava apenas sistematizar os princípios de ação. Escolhi meu vestido. Tudo devia ser calculado. Qual a roupa mais adequada? O vestido. Sim, mas quais as justificativas dessa escolha metodológica? O vestido era a melhor opção porque vinha até meus joelhos. Nas condições empíricas que eram a de minha iniciação sexual, o tamanho da saia importou, pois evitou por antecipação minha, apreensão na família. Mas tudo isso era até então plano meramente formal e ainda em estado mental de realidade. Por indução verifiquei ainda que fosse vantajoso vesti-lo por mais uma razão; uma vez levantada a parte de baixo do vestido, eu era só nudez. E não vesti calcinha, está claro. Vocês já haviam inferido isso, não é? Lógica é algo bom por isso, a partir de alguns princípios podemos entender o resto. Como no sexo, o implícito induz até as últimas conseqüências o que vem a ser explicito. O vestido serviu, assim, para que Carlos entendesse pela ausência (da calcinha) meu desejo de presença (dele dentro de mim). Ele precisava da indução porque às vezes era tão bestinha do ponto de vista da formalidade das coisas. Bestinha, logo ele ficava sempre nos primeiros analíticos (estudos sobre os silogismos) e não conseguia passar para os segundos (as demonstrações).
Eis então que chegou o dia D.Chegada a hora da vinda de Carlos, e eu estava tão certa de mim mesma que sentia mesmo certa serenidade. Ele chegou, falou com meu pai na entrada da sala, como sempre fez. Cumprimentou minha mãe, beijou-a com doçura. Muito educado meu Carlos. Veio em minha direção, inocente, e beijou-me rotineiramente. Sim, era de hortelã, como de costume. Disse de minha beleza num olhar meio excitado. Um anjo meu Calos.
Fomos para o nosso quintal. No início do sarro pensei, é hoje ou nunca. Sou muito atrevida às vezes. Vocês já perceberam, não é?
Parei um pouco o exercício de esfregar e fui expiar através da janela. Os objetivos da expiada eram rastrear, localizar e identificar os inimigos. Meus pais estavam na sala.
A novela das oito era meu principal indício de presença da ameaça familiar nas proximidades. Se a novela acabasse, o risco de alguém chegar dobrava.
Eles assistiam à televisão, eu matava meu Carlinhos.
Mas voltemos. Deixem-me ir direto ao assunto.
Depois de olhar atentivamente o corpo musculoso de Carlos, peguei as mãos dele com mais força, olhei bem decidida bem dentro dos olhos dele. Sem desviar o olhar, colei as mãos dele contra o meu corpo e apertei, firmemente. Ah, aquelas mãos grandes e bem desenhadas do Carlos! Aqueles dedos longos! Eles sim, poderiam ser astros de filme pornô. Só de lembrar fico arrepiada. Mas vamos lá, estou ficando tão enrolada para contar essa história. Não me reconheço mais.
Até mais,
Beijinhos,
Béa.
sexta-feira, novembro 04, 2005
Cansado do blogue decidi mudar o estilo: estilei. A pergunta será sempre a mesma... Só muda de estilo quem tem um, você acha realmente que...
Blogueado estou. E por isso transcrevo para os meus parcos leitores ocasionais dos meus textos ocasionalmente postados o resumo da apresentação de uma parte do meu trabalho de mestrado:
Autor: João Paulo Lima e Silva Filho
Orientado por: Norbert Bandier e Bernard Lahire para obtenção do mestrado em sociologia.
Existe uma tensão no trato das disciplinas sociologia e literatura de mesma ordem daquela distinguindo virtudes filosóficas de racionalidade sistemática. Sociologia e Literatura são geralmente opostas entre si pelas diferenças existentes entre seus respectivos métodos de construção. A literatura estando de certa maneira livre das exigências metodológicas de representatividade estatística, das demonstrações teórico-metodológicas com a produção e análise dos dados empíricos próprios ao trabalho científico. Daí estimando-se, pela oposição, do valor científico de uma em detrimento da outra. E desse fato produz-se um discurso, quase sempre tautológico, sobre uma ciência científica diante de uma literatura literária. Competição injusta e esquemática mostrando uma oposição entre o belo e o técnico, entre o utilitarismo científico e a gratuidade da arte, quando seria oportuno e mais apropriado analisar a tensão mesma, entendida e tida como resultado de um processo socio-histórico específico, como objeto sociológico em si, de maneira a propor uma sociologia implícita de uma produção literária específica, a do romance de cunho social.
Propõe-se aqui expor uma reflexão sobre um estudo de caso. Uma análise de um romance de Graciliano Ramos cujo mérito pretendido está na tentativa de captar a partir da análise das relações históricas de tensão entre sociologia e literatura, o interesse sociológico de se fazer um trabalho em termos de uma sociologia implícita do escritor e de sua obra. Serão discutidas questões como a da pertinência da homologia estrutural postulada na maioria dos trabalhos de sociologia do romance e as maneiras de se pensar a utilidade da “instrumentalização sociológica” do romance social como também de se pensar o escritor como um “quase sociólogo”.
sábado, outubro 15, 2005
No Brasil ouvimos com certa freqüencia a idéia auto-contemplatória de sermos um povo alegre ( ''o brasileiro é quem sabe fazer festa '') , pacífico (''o Brasil é que é o país, não tem problema com terrorismo, não brigamos com niguém'') paciente( ''a esperança é a última que morre''), tranqüilo e amigo e caloroso...("eles os estrangeiros são frios, nós não, nós sabemos acolher, estamos sempre com os braços abertos,etc.").
O auto-engano é algo terrível.
{Violência
Assaltante de ônibus é linchado até a morte no Recife
Publicado em 14.10.2005, às 20h04
Do JC OnLineCom informações de Sílvio Menezes, do JC
Um assalto a um ônibus ocorrido no final da tarde desta sexta-feira, na BR-101, nas proximidades da Mangabeira, Zona Norte do Recife, deixou um saldo de duas pessoas mortas e uma ferida. Entre as vítimas fatais está um passageiro e um dos assaltantes, que foi rendido por um grupo de passageiros e linchado até a morte. Cerca de 30 pessoas estavam no ônibus interestadual da empresa Progresso, que ia do Recife para João Pessoa, na Paraíba.
Dois homens armados subiram no coletivo, que vinha do Terminal Integrado de Passageiros (TIP), em um ponto de ônibus localizado nas proximidades do terminal da Macaxeira. Pouco tempo depois, já na Mangabeira, eles anunciaram o assalto. Um deles se posicionou na parte da frente do veículo, de onde começou a recolher os pertences dos passageiros, e outro na parte de trás. Um dos passageiros discutiu com o bandido na traseira do veículo, sendo ameaçado com uma arma na cabeça. O irmão da vítima, o vigilante Gilmar Raimundo da Silva, 25 anos, ficou assustado e reagiu. Ele foi baleado na boca e morreu no local.
Na confusão, um grupo de passageiros conseguiu render um dos assaltantes e linchá-lo. O bandido morreu a caminho do hospital. O motorista do veículo também foi ferido com um tiro no pé, mas está fora de perigo. Já o outro assaltante conseguiu fugir com o dinheiro e pertences dos passageiros.}
... Não, violentos são os dinamarqueses. Os "cidadões de bem" do Brasil não cometeriam um crime tão ignóbil quanto o do assaltante tido como "mau elemento". Não. O linchamento, apenas uma brincadeira lúdica no país do futebol, é brincar de quem chega primeiro na casa de Jesus. Por isso vamos armar ou deixar armados os nossos tais "cidadões de bem'', fazedores de justiça com as próprias mãos! Digamos sim, com o não, ao nosso paraíso hobbesiano! Nunca uma frase parece fazer tanta ressonância: olho por olho e o mundo(brasileiro) terminará cego. Uma nação de sega-vidas! E então é verdade que o prefixo cida da palavra cidadão equivale mais, no Brasil, ao sufixo cida da palavra homicida, aquele que mata... Votar sim não mudará muita coisa, mas votar não tem um significado simbólico importante: estamos na terra do salve-se quem puder!
quarta-feira, outubro 05, 2005
O cara chega cansado. Os olhos fundos. O sorriso pesado e difícil. Não dedica o tempo necessário ás observações. Os indícios, percebidos e memorizados de maneira precária, indicam a pouca solidariedade do mundo real com fatiga do ponto de vista. O olhar não basta. O descrever, ato necessário mas não suficiente, é e antecipa a dor e a nervura do real.
O doido chega e vai ao cinema MESC da cidade. (Ele é um Mesc, mas se considera um desprovido de mesquindade, a eidade de quem é mesc sem os atributos do MESC. Sem o habitus, sem esse eu adequadamente mediado por disposições duráveis de esvaziamento do ser, o cinema da Fundação se apresenta como um "chez soi" acolhedor, como um espaço percebido e por isso memo "apropriado" - sem próprios ou propri- etários, só propri-otários. Quem são os interlocutores?) O filme foi suavemente percebido, apreciado. Um filme asiático aí, disse na saída com ar mesquinho, ou seja, com uma pequena inclinação Mesc. Depois tinha o filme do Glauber, mas na avalição da proposta de ver Terra em Transe, o maluco hipostasiado pelo fuso pensou: "sem os comentários de Renato, o Glauber não parecerá mais o mesmo... saudade negligente da França e do amigo brasileiro que lá ficara ou medo provisório do presente contido na virulência (violenta?) estética e política do Cinema Novo? Desistiu.
Queria um ônibus, mas terminou pegando um taxi. Na fenomenologia do taxi o eu transcendental, a cada etapa da epoché, vai se desfazendo dos atributos concretos da coisa taxi para "expor" (pôr para fora, extrair) os elementos da "taxieidade" (experiência imediata do taxi) no momento mesmo da percepção. Eis o dialogo com o taxista( taxista entendido como atributo de difícil abstração no processo da redução fenomenológica do taxi, a dificuldade vindo de propriedades-atributo que lhes são próprias, históricas e presentes nele e "percebidas" pelo Mesc sem atributos mesquinhos):
Mesc sem atributos buscando redução fennomenológica (MescSABRF): " E aí, como vai o movimento?" Muito Mesc a pergunta.
Taxista com habitus: " A gente só anda com medo. O problema é que nós não paramos mais para todo mundo. Parei pra vocês porque ví de onde saíram." (Pensei, ser Mesc salva quase sem salvo engano...)
MescSABRF: " O senhor tem poucos clientes?" Olhe, ser Mesc é uma coisa triste.
Taxista com habitus: " Ontém mesmo levaram um por mais de 400 km na mala. Depois deixaram o pobre diabo. Eu não paro mais à noite para jovens, nem para adulto homem. Parei para vocês porque além de ser um casal, ví de onde saíram." (Fiquei impressionado com os atributos 'positivos' da mesqui(n)dade, cheghei até, por distração, a ter ogulho Mesc...)
Taxista com habitus: " Desce logo que aqui é perigoso a essa hora. De todo jeito, onde não é?"
MescSABRF: "Obrigado. Pode ficar com o troco."
Subindo para casa pensei pensando no blogue: Porra, Recife não é mais um retrato na parede (do banheiro), mas como dói. Mas não é a dor uma experiência fenomenológica? Abstrai nego, abstrai.
Jampa.
domingo, outubro 02, 2005
Volta ao Brasil: Recife não será mais apenas um retrato na parede, mais ainda assim, como dói!
Volta na Itália: uma Pompei vulcanizada, uma Florença deslumbrante e imponente; um brasileiro, nordestino e idiota embabacado pela imponencia de uma cultura estranha... O museo da ciência de Florença é pau: instrumentos usados pelos primeiros cientistas modernos (Galileu, Torriceli), e depois a evolução desses instrumentos que vão inscrevendo - não apenas numa mudança na maneira de fazer a ciência, mas também de conceber uma relação do homem com a realidade, com a verdade, sempre e mais do que nunca querendo ser filha do tempo e não da autoridade-, nas modificações e aperfeiçoamentos, as marcas de uma construção: a da ciência como disciplina e rigor autonoma em relação às outras formas de discurso sobre a verdade, como a religiosa ou puramente filosofica (especulativa), por exemplo. Não, florença não é resumível numa frase...
Volta ao mundo cruel: chegar em Paris e pisar numa merda de cachorro de uma parisience dondonca filha da puta e burguesa!
Volta ao blogue: fazia tempo. Mas o tempo é filho da verdade. E a verdade é filha do tempo. Nessa putaria entre Deuses (em específico, safadeza de Cronos com a derme da Episteme!), o tempo some o tempo todo para ficar fornicando com a mãe da verdade. Aí o Blogue, filho de um modesto filho dos espaços físicamente medidos em termos de "horas", "minutos", "segundos", "fração de segundos", não encontra a justa medida para a mesura de suas inquietações mais mundanas... Em quantas frações de segundos um homem pode denegar seu tempo perdido o tempo todo?
Sem volta: recomeço pois e a saga continua. Mais uma volta sem volta: escrever é preciso, ecrever não é preciso.
Saudações Jampianas...
Quem sou eu (no blogue)
- Jampa
- Recife, Pernambuco, Brazil
- Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.