quarta-feira, agosto 24, 2005

Pequena alegria pessoal em meio a miséria nacional



Feito. Fim de mais um ano acadêmico e o trabalho inicial da tese já pode ser entregue. A Padaria Espirtual figura agora como objetivo de mais três anos de pesquisa e deverá, nos passos seguintes, ser comparada com outros grupos poéticos literários, acho que possívelmente um francês de mesma época, como o "Zutistes"...

Estou feliz. Não é nenhum chef d'oeuvre, mas as análises dos textos dos padeiros rendem boas reflexões sobre tipos de socialização em curso numa sociedade onde a escola é uma instituição que não produz ruptura entre as lógicas da casa e àquelas da rua. Tentei analisar os efeitos de um suposto de tipo de continuidade entre família e escola, continuidade geradora de tipos de sociabilidade específicos, especificamente bem cordiais(afetivos). A heteronomia dos campos intelectual e artistico no Brasil é em muito tributária das lógicas das práticas sociais produzidas por esse tipo de socialização continua no qual valores atribuídos à esfera familiar parecem transbordar em todos os níveis da vida social.

Segue aqui à introdução para os leitores em língua de Mollière:



Le défit pour un sociologue qui veut comprendre une réalité sociale périphérique n’est pas très différent de celui que doit relever le sociologue qui travaille sur les grands centres, en ce qu’il s’agit, dans les deux cas, de respecter la sévérité des contraintes à appliquer en matière de recherche empirique, et de faire preuve de précision et de rigueur dans l’administration de la preuve. De même, il nous semble que dans les deux cas le chercheur doit résister à la recherche permanente de l’originalité. Il doit toutefois toujours reinterroger la pertinence des outils conceptuels et /ou méthodologiques qu’il met en oeuvre. Nous pensons que la confrontation d’un certain nombre d’outils conceptuels et méthodologiques ayant déjà fait leurs preuves appliqués à des réalités européennes, et françaises en particulier, à des objets nouveaux situés dans des contextes différents, peut être une manière de ‘booster’ la sociologie, qui trouve là l’opportunité de questionner critiquement la portée heuristique de ses outils. Ainsi nous trouvons dans la Padaria Espiritual, ou Boulangerie Spirituelle – groupe de poètes brésilien de la fin du XIXe siècle, un objet privilégié pour mener à bien une réflexion sur certains concepts, à travers l’analyse sociologique des pratiques artistiques de ces poètes et de leurs publications.
Dans ce mémoire, nous allons commencer par effectuer une analyse de la génèse de notre propre travail. Nous situerons les possibilités et les limites analytiques de notre cadre théorique vis-à-vis d’un nouvel objet, tout en essayant de montrer sa continuité avec notre travail de Maîtrise. Pour ce faire, nous retracerons les origines de nos préoccupations théorico-méthodologiques dans le processus de construction de notre objet de Maîtrise. Nous essaierons de saisir, à partir des résistances que nous avions perçues de la part de la réalité empirique étudiée, de quelle façon nos outils conceptuels doivent être revisités afin de s’adapter à cette réalité. Pour cela, nous nous appuierons sur des usages réfléchis du cadre bourdieusien effectués par Norbert Bandier pour étudier la Boulangerie Spirituelle, et sur les critiques que Jean-Claude Passeron et Bernard Lahire ont fait à certains usages de la théorie bourdieusienne – nous nous intéresserons en particulier au réalisme conceptuel, c’est à dire à l’usage systématique de notions comme celles de champ et d’habitus tendant à produire des généralisations abusives.
Nous poserons ensuite les bases théorico-épistémologiques de notre réflexion. Nous analyserons les principaux enjeux d’une sociologie de l’art et nous étudierons leurs rapports avec les enjeux d’autres domaines sociologiques, ceci dans le but de nous situer par rapport aux grandes lignes de l’interprétation sociologique lorsqu’il s’agit de traiter des phénomènes culturels, artistiques. Puis, dans ce même but, nous introduirons le débat plus spécifique que notre objet a suscité autour des conditions de transférabilité des concepts sociologiques. Nous étudierons la façon dont le cadre bourdieusien est utilisé au Brésil dans les travaux de Sergio Miceli, principal représentant de l’analyse bourdieusienne au Brésil ; puis nous contrasterons son point de vue avec ceux de Daniel Pécaut et de Simon Schwartzman afin de mesurer l’impact et les spécificités propres aux cadre bourdieusien en termes de critique au Brésil. Enfin, nous nous situerons nous-mêmes par rapport à Miceli en vue d’expliciter les spécificités de notre propos. Nous adopterons une posture particulière par rapport à la sociologie de la domination et de la légitimation afin de rendre explicites les assouplissements théoriques que nous proposons.
Pour finir, nous étudierons les logiques de la pratique intellectuelle des agents du champ intellectuel brésilien à l’époque de la Boulangerie Spirituelle. Pour ce faire, nous analyserons les stratégies d’entrée dans le champ à travers l’étude des stratégies argumentatives de trois intellectuels de l’époque : Thomas Pompeu de Sousa Brasil, Antonio Sales et Jose de Alencar. Nous montrerons que ces logiques d’action ont à voir avec des types de socialisation particuliers, producteurs d’une sociabilité entre les intellectuels liée aux logiques de la sphère privée. Nous mettrons également en évidence une disjonction entre chanp et habitus intellectuel au Brésil. Puis nous verrons, à travers le repérage d’affects, comment ces logiques se manifestent dans la forme même des textes publiés dans O Pâo. Enfin, nous évaluerons la portée heuristique de la notion de disjonction entre champ et habitus par un retour réflexif sur la notion elle-même et par une mise en parallèle de cette notion avec d’autres éléments explicatifs des logiques d’action des acteurs du champ étudié.
O que tiver de ser, será!
Abraços,
Jampa.

sábado, julho 30, 2005

PT saudações PT: corrupção histórica e corrupção petista


Li no Jornal do Cemmercio de ontém um depoimento no mínimo engraçado. Um deputado do PT falava de « corruptos históricos ». Taí uma boa maneira de distinção : pior do que ser corrupto é vir sendo corrupto a muito tempo, é ter uma história de corrupção. Uma idéia cretina e burra além de deslocada e política, no pior sendido que a palavra política pode ter. A crise é reveladora da crise. Parece doença. O partido descobriu um tumor malígno em estado já bastante evoluído. Internamente o cancro parece ser centralizado no campo majoritário(hoje corrupto, só hoje? Só ele?). E tudo indica que se escapar com vida o doente vai precisar de terapeuta. Não é de terapeuta que precisam os que perdem um membro do corpo e começam a sentir as dores das marcas deixadas pela perda ? O PT vai mancar ? Vai usar tapa-olho ? Não seria um erro esse o de condicionar o debate interno ao esforço do PT de amputar a parte do corpo tida como doente?

Essas perguntas não são retóricas. Ela são reflexos (não chegam a ser reflexões) de alguém que acompanhou as últimas campanhas políticas dos candidatos do PT em Recife nas eleiçoões municipais e estaduais. Aparelhamento de sindicatos, lógica capitalista e mercantil de busca e divisão dos votos (inclusive com a prática do clientelismo e da compra de votos) fazem parte do modo de alguns petistas buscarem o espaço no poder. Nesse sentido era incrível e triste perceber no discurso de alguns militantes a idéia segundo a qual sem isso, sem esses instrumentos históricamente desprezados e criticados pelo discurso oficial do partido, as eleições estariam perdidas por antecedencia. E, com a crise, não seria esse tipo de prática que deveria está sendo questionada ? Como o PT veio a ser tudo aquilo que questionava historicamente ? E mesmo se levado a sério o problema da operacionalidade dos instrumentos mediadores por uma disputa efetiva do poder, não parece tal discurso abstrair a história daqueles fundadores do partido, as história dos “piões ganhando eleições”, dos trabalhadores, ainda trabalhadores, disputando os espaços políticos por meios e mecanismos desatrelados do grande capital ?

A ética nunca teve nem nunca terá posição política, eis o que deve ser o maior ensinamento dessa crise aos antigos supostos detentores do « monopólio da ética ». A moralidade de uma instituição e dos individuos que a ela se integram depende de uma prática que só se distingue efetivamente(e não apenas discursivamente) de outras práticas se for concretamente diferente das demais. Pode parecer tautologia o que digo, mas como não ver valor numa redundância reveladora de uma postura tão imprópria como a daqueles que pensam que, pelo fato de ser de esquerda (e ser de esquerda parece que é sempre sinônimo de progressista, gente boa e, por que não dizer ético ?) estariam imunes ao despropósito da corrupção mais cínica ? Ninguém é « éticamente bem sucedido » porque é de esquerda ou porque é do PT. A defesa ridícula de alguém que tenta se defender dizendo que não pode ser acusado de corrupção por « corruptos históricos » me faz pensar nas dificuldades as quais o partido terá de enfrentar se quiser encontrar as boas muletas para sair dessa crise macando, como não poderia deixar de ser, mas com alguma dignidade.
Jampa

quarta-feira, julho 20, 2005

Lula: ou a tentativa inútil de Jampa de ser sociólogo


Dizer que o povo mesmo quando chega ao poder é vítima de si mesmo pode parecer puro miserabilismo. Mas me arrogo à tetativa e ao descuidado e intento dizer que no caso de Lula (homem do povo e presidente da república) nada parece ser mais verdadeiro e sem ismo. Não falo da crise política (que por sinal ninguém parece (se) perguntar se é uma crise da política ou de política ou da falta de política ou da ausência de certas políticas para que no fim tudo pareça apenas um "é tudo política mesmo"), mas da forma com a qual tratamos de salvar em algum sentido o nosso presidente(se confio nas pesquisas de opinião sobre a credibilidade estável dos brasileiros em Lula) ou em criticá-lo. O nosso lider político carismático é vítima de suas ilusões voluntaristas de sindicalista, é vítima de sua ligação direta e não mediada com à retórica(que no seu caso não é um discurso que dá "impressão de improvisação", como num discurso acadêmico, mas é improvisação mesmo), é vítima mesmo das análises sempre "intencionadas" para bem e para mal dos "filósofos" brasileiros de primeira grandeza sempre aptos a dizer para os homens do povo "o bom caminho da razão" nas frases recapitulativas de tipo "eu não disse que ia ser assim" ou, em tom mais condizente com a auto-convicção desses dententores do saber "après-coup", " tá vendo, não quis me escutar quando criticava isso e aquilo outro". Não ignoro as resposabilidades, mas reconhecendo a arbitrariedade de certas lógicas escolho falar da igenuidade e da ignorância.
O povo é vítima do fato de ser povo poderia ser um bom chavão de contorno parcialmente análitico em termos sociológicos e Lula seria seu ideal tipo mais completo. Pois o povo vem sendo vítima do populismo e do miserabilismo do povo. Nada é mais social do que o indivíduo, diz-se em sociologias comtemporaneas. Lula, esse ser social imbuído de povo.
E, do outro lado mas de mesmo lado, esquerda e direita de uma "exterioridade" do poder, nós das opiniões "extra-ordinárias", opiniões do "não-povo", continuaremos em nossa parcialidade cínica de detendores da moral sagrada a criticar até o fim dessa crise a incarnação do mal nas "pessoas corrompidas pelo poder". Nós, vítimas do povo sem ser povo, nós intelectuais íntegros e de reconhecimento, não nos reconhecemos nesse governo de corruptos, dizem os sabichoões.
E Jampa que lê todas essas abobrinhas nos jornais todos os dias parece se apoquentar e, na posição que é a sua, àquela de estudante de sociologia com posição familiar e social privilegiada por causa da história recente de chegada ao poder do PT, não cosegue julgar com a devida distância, porque na sua posição qualquer tomada de posição parecerá indevida em termos de distanciamento, oferece apenas uma divagação sem conseqüencias ao tema de atualidade.

segunda-feira, julho 04, 2005

"Mas a reflexividade - atividade apontada a você como desmistificadora - também não seria assunto de especialista! ?"

Sim, mas o verdadeiro pensador ironiza a reflexividade assim como o verdadeiro filósofo, como disse Pascal, ridiculariza a filosofia. Assim sendo, é preciso aceitar o desafio inscrito no illusion da escolastica, na pretensão escolastica de universilidade, que é na verdade, quantos já não o disseram?(Nietszche, Witggenstein,etc.), efeito da universalização efetuada pela razão, e, descreditando mesmo se ainda crendo na força dialética dessa razão, ou seja, intrumentalizando a razão escolastica contra si mesma, num racionalismo histórico radicalmente reflexivo, produzir uma compreensão mais real entre as diferenças do "mundo onde vivemos" e do "mundo onde pensamos o mundo". Porque talvez o maior erro da "raison raisonante" seja esse de fazer economia da reflexão sobre as condições socio-históricas da universalização efetuada pela razão mesma. Economia que produz uma auto-confiança desmesurada do homem nos valores emancipadores da verdade propiciados pelo esforço da razão escolastica (principios da Aufklarung em suma) .

Claro que o meu comentário do blogue foi uma crítica fácil que implica a aceitação comum(doxa esclarecida) da superioridade da razão crítica se comparada à opinião pura e simples do senso comum mais banal (doxa stricto senso). Ele visava traçar o intinerário da crítica que tem como obrigação de doxa esclarecida de blogueiro restituir a diferença de nível de reflexividade entre tipos de construção de opinião distintos (as duas doxas em questão) sobre a relidade(episteme) das coisas do mundo(no caso da doxa esclarecida, trantando de diferenciar as coisas do mundo do mundo das coisas).

Não discordo que a reflexividade seja coisa de especialista. Mas não o é (necessariamente) no sentido do absolutismo da especialidade que foge da reflexividade a qual ela(a especialidade) deve se submeter. Uma coisa é aceitar que o sociólogo, munido que está dos instrumentos de reflexão sobre a sociedade e, indo mais além, munido de ferramentas para pensar os instrumentos de sua própria reflexão sobre a mesma sociedade, tenha mais condição, enquanto especialista, de desenvolver um discurso mais condizente com a realidade social do que aqueles que "apenas vivem" o universo estudado. Outra coisa é fazer dessa distância entre tipos de doxa-, distância gerada, entre outras coisas, pelo "tempo escolastico", ou seja, pela temporalidade própria dessa "bricadeira levada a sério"(para falar como Platão) que é pensar-, uma fronteira intransponível entre universos dinâmicos que se confrontam. Teoria e prática também possuem continuidades, graças! Nenhuma teoria teorica pode existir fora de uma prática teorica dessa teoria. Tautologia que rende bons frutos e impede o risco da falsa modestia intelectual (que restando no discurso reflexivo deve reivindicar sua autoridade).
Abraços saudosos,
Jampa.

terça-feira, junho 28, 2005

Pensamento positivo e postura crítica


Quem usa internet já recebeu no mínimo uma dessas mensagens de "auto-ajuda" onde a chamada "confiança de si" aparece como elemento fundamental para "a valorização de si mesmo". No pano de fundo dos argumentos usados nessas correntes cheias de receitas fáceis e mágicas da não menos famosa "auto-realização" encontramos sempre o dito:" se você mesmo não confiar em você, quem vai confiar?" A facilidade na recepção(muita gente gosta e se sente realmente melhor lendo esses textos) e a expansão do receituário de um tal princípio( "só depende de você") talvez venha das estratégias publicitárias presentes na retórica dessa "filosofia da felicidade". Ou seja, sendo uma forma de saber saborosa porque sempre oculta o lado pesado da "sobredeterminação individual" (ele não descreve, por exemplo, os horrores contidos na "responsabilidade do sujeito" diante de um "si mesmo perdido a se achar"), esse conto encantado de existências inexistentes trata, como é próprio do conto, de recriar a realidade a seu prazer e termina por declinar as froteiras do real(como se elas fossem declináveis) deixando ainda mais difícil para os individuos que aceitam um tal discurso de encontrar mecanismos mais eficientes de busca por liberdade.
Exemplo disso é o último texto que recebi nesse sentido. Vejamos. (Meu comentário vai no final)
"O Anel
Um aluno chegou a seu professor com um problema:
- Venho aqui, professor, porque me sinto pouca coisa, por que não tenho forças para fazer nada. Dizem que não sirvo para nada, que não faço nada bem, que sou lerdo e muito idiota. Como posso melhorar? Oque posso fazer para que me valorizem mais?
O professor sem olhá-lo, disse:
- Sinto muito meu jovem, mas agora não posso ajudá-lo, devo primeiro resolver meu próprio problema. Talvez depois.
E fazendo uma pausa falou:
- Se você me ajudar, eu posso resolver meu problema com mais rapidez edepois talvez possa ajudar você a resolver o seu.
- C...Claro, professor, gaguejou o jovem, mas se sentiu outra vez desvalorizado.
O professor tirou um anel que usava no dedo pequeno, deu ao garoto e disse:
- Pegue este anel e vá até o mercado. Você deve vendê-lo porque tenho que pagar uma divida. Eu preciso que obtenha pelo anel o máximo possível, mas não aceite menos que uma moeda de ouro. Vá e volte com a moeda o mais rápido possível.
O jovem pegou o anel e partiu. Mal chegou ao mercado começou a oferecer o anel aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, até quando o jovem dizia o quanto pretendia pelo anel.
Quando o jovem mencionava uma moeda de ouro, alguns riam outros saiam sem ao menos olhar para ele, mas só um velhinho foi amável a ponto de explicar que uma moeda de ouro era muito valiosa para comprar um anel.Tentando ajudar o jovem, chegaram a oferecer uma moeda de prata e mais uma de cobre, mas o jovem seguia as instruções de não aceitar menos que uma moeda de ouro e recusava as ofertas.
Depois de oferecer a jóia a todos que passavam pelo mercado e abatidopelo fracasso, resolveu voltar.
O jovem desejou ter uma moeda de ouro para que ele mesmo pudessecomprar o anel, livrando assim a preocupação de seu professor epodendo receber sua ajuda e conselhos.
Ele entrou na casa e disse:
- Professor, sinto muito, mas é impossível de conseguir o que me pediu. Talvez pudesse conseguir 2 ou 3 moedas de prata, mas não acho que se possa
enganar alguém sobre o valor do anel.
- Importante o que me disse meu jovem, contestou o Professor sorridente.
- Devemos primeiro saber o valor do anel. Vá até o joalheiro. Quem melhor para saber o valor exato do anel? Diga que quer vender o anel e pergunte quanto ele te dá por ele. Mas não importa o quanto ele te ofereça, não o venda. Volte aqui com meu anel.
O jovem foi até o joalheiro e lhe deu o anel para examinar. Ojoalheiro examinou o anel com uma lupa, pesou o anel e disse:
- Diga ao seu professor que, se ele quer vender agora, não posso darmais que 58 moedas de ouro pelo anel.
- 58 MOEDAS DE OURO! Exclamou o jovem.
- Sim, replicou o joalheiro, eu sei que com tempo eu poderia oferecercerca de 70 moedas, mas se a venda é urgente...
O jovem correu emocionado para a casa do professor para contar o que ocorreu.
- Senta, disse o professor depois de ouvir tudo que o jovem lhe contou, e d=isse:
- Você é como esse anel, uma jóia valiosa e única. Só pode ser avaliada por um especialista. Pensava que qualquer um podia descobrir o seu verdadeiro valor?
E dizendo isso voltou a colocar o anel no dedo.
- Todos nós somos como esta jóia. Valiosos e únicos e andamos por todos os mercados da vida pretendendo que pessoas inexperientes nos valorizem.
Repense o seu valor !
Nós valemos muito mais do que imaginamos valer!
Bom dia para todos!!!"

A mensagem é bonitinha, mas infelizmente em nosso mundo, existe uma real economia social dos valores. Na nossa vida real os especialistas em "jóias" são muitos e, como um professor numa escola qualquer, arbritam a quatidade de riqueza (escolar, social, etc.) das crianças colocando-as desde de cedo no mercado do quem vale mais. Pior, esses especialistas explicam e inculcam por quais razões valemos mais ou menos( para ficar no mesmo exemplo da escola, as classificações são numerosas nos quilates das jóias escolares: "inteligente", "trabalhador", "brilhante", "tem facilide, mas não trabalha", "idiota", "burro", etc .)
Apesar de gostar do espírito da mensagem acho bom ponderar sobre seu real siginificado que oculta os mecanismos mais comuns de distinção social como se pudessemos sair do jogo e colocar entre parenteses "a opinião dos outros''. Mesmo com boa vontade o individuo que ocupa uma posição de dominado num espaço social não vai entender porque com todo o seu desejo, com toda sua ''auto-estima',' sua posição naquele universo continuará a não ser valorizada. Se auto-valorizar não parece assim ser solução que tente realmente resolver qualquer problema e tirar o individuo da situação de dominação que é a de depender dos famosos especialistas... Teria ele mais chance de conseguir sua liberdade se, tomando distância dos mecanismos de dominação e se reapropriando dos instrumentos que servem a produzir sua situação de dominado, entrasse de fato no jogo de classificação e reclassificação que dita no mundo social os valores das coisas e das pessoas.
Jampa

domingo, junho 19, 2005

Pausa

... Escrevo. Hoje. Dizer que tudo parece Brasil. Hoje. Comer. E dizer que preocupado com noticias da California. Blogue acalmou. Mas Brasil devora tranquilidade... Brasil canibal parece todo tempo o tempo todo. Na Francofonia lasco-me. Mas noticias tupiniquins piniqueiras doem. Tudo dolorido... o mundo parece o Brasil.
Sem tempo.
Trabalho.
Ate Breve.

quinta-feira, junho 02, 2005

Sobre a saudade do futuro (cuspindo no prato que comeu)


Já recebi de muitos amigos e-mail com conteúdo nostalgico. E continuo recebendo. Sendo um jovém saudosista tendo a gostar das lembranças trazidas via internet. Saudades de um tempo perdido, de um mundo aparentemente mais seguro, menos desencantado. Contudo, por pura birra comigo e com os da minha geração, insisto em me perguntar: por que é que minha juventude envelheceu tão rápido?
Não julgo a velhice. Percebem? Mas nos velhos esse recuo ao passado parece inevitável. Com a morte pairando como possibilidade presente (nos sentidos temporal e existencial da palavra) reclinar-se no tempo parece ser adequado vista a esperança de vida objetivamente limitada. Em nossos avós ver e escutar com carinhos todas aquelas histórias de um tempo vivido, ora na dor ora na alegria, parece normal. Faz parte da lógica das coisas. Os idosos têm nesse sentido legitimidade ao reivindicar o passado, a saudade do tempo perdido no tempo.
Não tenho a mesma impressão de nós.
Tenho a impressão de sentir falta de uma época onde a palavra futuro fazia parte do presente. Agora entendo melhor o que Cesar quis dizer num texto sobre o horizonte. Falta-nos esse tempo do agora contagiado pela idéia de um plano coletivo, de projeto, de uma projeção. O agora estancou em si. O dia a dia é mais dia a dia do que antes o era. São coisas da violência cotidiana. Um presidente saindo, outro entrando. Tudo naturaliza-se com uma rapidez incrível. A surpreza nunca foi sentimento tão efêmero, quando ainda existente. A esperança venceu o medo e perdeu-se na política econômica: gramática performativa de um crescimento sempre invisível em termos sociais. Mas presente, mais uma vez presente em todos os discursos e sentidos. Tudo é presente. Quando não é, é passado. Parece jogo de palavras. O pior é que não é.
E nós jovéns?
Ficamos a lembrar por quais razões? Por que trazemos ao hoje essas recordações mais ou menos formatadas pela televisão? O que nos leva a ler e a sentir prazer com esses e-mails quase sebastianistas de tão atrelados a vontade da volta do rei-alegria, da rainha-infância? Recondações comuns que vão do TV pirata à Xuxa, de Pirata do Espaço à Caverna do Dragão, do jogo eletrônico Gênius ao Pirocoptero. E por que em nossas lembranças seguras (o passado parece não mudar) fica aquele gostinho de uma alegria que deve ser protegida, guardade com carinho no recôndito de nossa memória?
Julgo que se assim o fazemos é porque o presente apresenta um horizonte macabro onde a felicidade da vida já encontrou uma temporalidade própria: o passado. E num país com tanto a se fazer (não me refiro ao "Brasil: país do futuro" da era Vargas), isso não parece sádio, mesmo quando faz bem ao espírito seduzido pelo paraíso prustiano da paz infato-juvenil.
Acho que deveríamos ser mais críticos dessa realidade resignada, desse "presentismo" impregnado de passado amorfo (mesmo si encantado em nossas memórias). As vezes cuspir no prato que comeu pode apenas indicar a falta de àgua...
Não queria terminar assim: mas no presente defendo a teoria do cuspir no prato. Claro, no sentido de limpar os restos(coisas do passado) para deixar o dito cujo pronto para uma nova refeição(um projeto).

quinta-feira, maio 26, 2005



Variações literárias de um cobrador (tentativa)


Na hora do pico a mente e o corpo são um. Daí a sua capacidade de receber dinheiro de um passageiro, calcular o troco de um outro, sem perder de vista a gostosa sentada ao lado da cadeira do motorista. Moédas, trocados, passageiros : a roleta sempre controlada pelo joelho. E a música…

«… Rema, rema, rema remador. Vou botar no cu do cobrador… »

O time perdendo ou ganhando, não importa. Remador pede cobrador. Rima, explicam.

No fim do expediente sempre existem a fatiga e uma pergunta : o que teria sido se não fosse cobrador?

Sexta-feira, um deles teminou o trabalho. Seguimos o dito cujo. Queremos saber tudo.

Horário pacato, tempo de dar asas a imaginação.

- « E aí cobrador, o que é que você quer ser quando… ? »
- « Um grande escritor. »
- « Como assim grande escritor? explica isso melhor. »
- « Um escritor cobrador, ou um cobrador escritor. Como queiram ! »


Logo em seguinda o inusitado escritor acrescentou de supetão :

- « quero produzir textos para controlar mais da vida. Fazendo uma comparação sabe, dou sempre o exemplo do joelho na roleta. Gosto dessa analogia. Tenho talento. Não quero dizer com isso que só passa quem eu quiser.Não é isso.Se a palavra tiver o passe adequado(como o passageiro), bem, no meu caso é mais se o passe forma a palavra adequada, se ele forma aí vira texto, entendem? Assim é muito parecido com a roleta e os passageiros.»

Depois dessas palavras decidiu continuar(empolgou-se) :

-« alguns sonhos são realidade. »

Desconfiados, fomos atrás de pistas mais seguras para assegurar o depoimento. Uma aula de jornalismo. Encontramos um especialista no assunto. Um crítico que observou o artista e analisou a obra do cobrador. Intelectual requintado nos disse que:

-« a arte dele é de brincadeira. »

Depois completou com uma descrição erudita e meio que entnológica :

-« o cobrador artista brincou com as tabelas de passe estudantil e vale-transporte . Irônico como Voltaire. Com sarcasmo à Machado de Assis. Ele começou a colar os passes A, B e C no papel quadriculado. Como classificá-lo ? Inovador condiz, mas explica pouco sobre a prática do artista. Digo, do cobrador. O chamaria de fundador dos cobradores semi-dadaístas. De sua obra prima, que é sem dúvida o texto em seis letras intitulado ‘B -A- B - A- C- A’, diria ser uma espécie de nova expressão do desespero contido e traduzido pelo dengo silêncioso da cobrança. Todo cobrador cobra. Diria mais, o texto erige uma automanipulação de letras instrumentalizadas passse a passe ».

Voltamos ao cobrador escritor e constatamos seu tino de artista. Como um verdadeiro escritor lamentou o comentário do crítico dizendo :

-« Ele parece um passageiro. Não se pergunta sobre qual a dor do cobrador ? Qual a cobrança ? »

Cansados e sem respostas, acompanhamos o cobrador e artista até o ônibus e o vimos partir. Cremos que pensava nas moédas, trocados e passageiros. Na roleta controlada pelo joelho. Na gostosa ao lado do motorista. Na música… na literatura, quem sabe.

terça-feira, maio 10, 2005

Querendo entender

Vou comentar mais um texto do Observatório sociológico ( http://www.obs.embuste.com.br/ ) para tentar aprofundar os cometários feitos dos textos anteriores. O comentário de Bernardo, por exemplo, deixa-me com pulgas atrás das orelhas, mesmo se concordo com o pano de fundo "histórico" (capital cultural) do argumento usado por ele. No texto abaixo a perspectiva sociológica defendida é de cunho diferente e prefere falar de causas do crime (do problema de como alguém transforma-se em criminoso) como contingência indeterminável pelo raciocínio sociológico devendo o criminoso ser apreciado como dado. Fui e estou sendo formado dentro de uma visão profundamente histórica da sociologia aonde o passado dos indivíduos não pode e não deve ser abstraído ao risco de se perder o significado profundo das ações efetuadas. Como nunca trabalhei com sociologia do crime, não sei se existem problemas intrinsecos aos tipos de objetos estudados em tal disciplina. Contudo é possível vislumbrar, mesmo sem ter lido a respeito, o tipo de conflito existente entre uma sociologia das causas sociais da produção dos criminosos e um tipo de conhecimento sociológico em algum sentido mais pragmático, como no dizer do professor Carlos Augusto, com pretensão não de eliminar mas de controlar o problema. Pessoalmente acho que os dois tipos de visão não são antagônicos e podem ser usados mutuamente para o melhor entendimento da violência. Claro, resta que minha opinião é profundamente tributária de um paradigma específico da minha disciplina. Visão de mundo traduzida da seguinte forma quando se fala sobre a construção social do capital escolar : nada há de mais profundamente desigual, numa sociedade socialmente dividida, do que a igualdade de tratamento entre indivíduos diferentes. Mais. Não se pode entender tais diferenças sem se preocupar com o passado. No caso da violência existe um capital acumulado pelos criminosos na escola da vida. O que me faz pensar que mesmo por razões heurísticas o risco de naturalização é grande se aceitamos o dado(o criminoso) como dado(fato o qual a origem não tem impotância explicativa). Meus comentários serão feitos em mesma fonte, diferente da do texto analisado e entre parenteses.

A ocasião faz o ladrão

Os dois trechos transcritos abaixo demonstram a racionalidade prática que orienta a ação de muitos criminosos. O primeiro é parte de uma entrevista que fiz com um presidiário numa cadeia da região metropolitana de Belo Horizonte. O segundo é parte de uma etnografia feita com arrombadores nas ruas de St. Louis, Missouri, Estados Unidos. Nos dois casos, é possível identificar um certo “conhecimento profissional” desenvolvido pelos criminosos. Uma compreensão mais aprofundada do modo de pensar dos bandidos pode ser útil na orientação de medidas de controle da criminalidade. (Griffos de Jampa)

(Para mim racionalidade prática tem a ver com aprendizado. Diz respeito aos tipos de incorporação específicos produzindo um tipo de relação ao conhecimento como também um saber determinado. Por essa razão a compreensão mais aprofundada do modo de pensar dos bandidos não pode ser desvinculada de um estudo aprofundado sobre os tipos de socialização produtores de tais formas de pensar e agir. O situacionismo do título a ocasião faz o ladrão pode dar a entender que é apenas no momento específico de um roubo que o ladrão vem a ser aquilo que é. )
[Entrevista com presidiário]
A gente róba sempre no lugar mais movimentado. Só no centro da cidade. Na Afonso Pena. É muito mais fácil robar no centro, sô. Pelo seguinte: o policial no centro ele só prende quem ele vê correndo, ele não prende quem ele vê andando, não. Ele pega a pessoa muito pela roupa. Se você róba com uma blusa tira a blusa e coloca dentro da bolsa e sai com outra não tem porque ele te parar. Vai andando calmo no centro... nós sempre robamos muito bem vestidos, então eles nunca deu como suspeita. Achava que era office boy, alguma coisa, andando no centro da cidade. A gente no centro. Robô. Entrô no meio do povo, rapidim entrô dentro do carro. Pra casa. Tem problema nenhum. Tanto que eu rodei, fui preso, num lugar que não é tão movimentado. O pessoal acha que roubar no centro é mais difícil, mas é mais fácil.
[Entrevista com arrombador na rua]
Despite precautions, the force required to break a window inevitably results in a certain amount of noise. And while the offenders accepted this, they had a clear idea about how much and what kind of noise was “safe”, that is, unlikely to attract attention. Without exception, they believed that a single, short, sharp sound was much safer than any sort of extended hammering or thumping. One subject, revealing considerable insight into human nature, explained: “Makin’ one noise don’t matter, but you can’t be makin’ two noises. People hear somethin’ they gon say, ‘What is that? You hear somethin’?’ If they don’t hear somethin’ else, they ain’t gon do nothin’.” [in: Wright, R. T & Decker, S. Burglars on the job. Boston: Northeastern University, 1994.]
Durante muito tempo a sociologia procurou entender as causas do crime, especialmente os fatores que fariam com que alguém se tornasse criminoso. O objetivo era conhecer as causas para eliminá-las. Cortar o mal pela raiz. Depois de muita teoria e muita polêmica, a conclusão é que não dá para definir causas ou mesmo fatores. Tornar-se criminoso é resultado de contingências, da associação mais ou menos imprevisível de uma variedade de circunstâncias. Como não é possível definir quais são as causas que levam alguém a se tornar criminoso, o mais sensato é tomar a existência de criminosos como algo dado e, a partir desse ponto, pensar em algum tipo de política de controle do problema que não tenha a pretensão de eliminar as causas profundas do comportamento criminoso.
Desenvolveu-se uma abordagem que parte da idéia de que a oportunidade para a prática do crime se apresenta quando três condições estão dadas: 1) a presença do criminoso, 2) a disponibilidade do alvo, 3) ausência de vigilância. Inicialmente a existência de criminosos foi tomada como um fato evidente e não problemático. Criminosos existem. Ponto. Existindo criminosos, deveríamos então verificar a presença de alvos e a ausência de vigilância (não apenas a vigilância policial, mas também a vigilância que as pessoas exercem umas sobre as outras e sobre o seu patrimônio). A partir da segunda metade do século XX, aumentou muito a disponibilidade de alvos. Eletrodomésticos cada vez menores, aparelhos eletrônicos, automóveis, mais dinheiro em circulação, maior número de lojas, bancos, etc. A vigilância se tornou mais difícil. As mulheres foram trabalhar, as casas passaram a ficar desocupadas durante parte do dia, as pessoas passaram a percorrer distâncias maiores de casa para o trabalho, muitas vezes sozinhas. O anonimato garantido pela cidade grande se consolidou. Enfim, as oportunidades para a prática do crime aumentaram consideravelmente. A questão passou a ser investigar como as rotinas de funcionamento das cidades criam oportunidades (oferecem alvos e dificultam a vigilância) para os criminosos agirem. Descobrindo como as oportunidades se formam, seria possível estabelecer medidas de controle do crime com foco mais preciso. Algumas oportunidades poderiam ser eliminadas, outras poderiam ser, pelo menos, controladas.

(O raciocínio é lógico: estudamos as formas dos criminosos pensarem as oportunidades do crime, descobrindo como elas se formam, seria possível de se estabelecer medidas de contrôle mais precisas. Tudo bem. Mas ao ler a entrevista com o ladrão duas perspectivas me pareceram evidentes: uma é a de que a maneira como ele percebe e analisa a sua própria prática é tributária de um aprendizado feito pela experiência do roubo [como é que ele desenvolveu esse saber contra-intuitivo do roubar sempre no lugar mais movimentado?], a outra, mais individualista, é a de que a prática do roubo é pensada em relação à ação policial["ele pega a pessoa muito pela roupa"]. Nas duas perspectivas a reflexividade da prática do ladrão é evidente e a "situação" do roubo é um produto de uma história. Os agentes sociais usam de seu conhecimento do prejulgamento alheio [os ladrões parecem entender que no Brasil pobreza e marginalidade se misturam na cabeça das pessoas] para criar situações favoráveis a sua atividade. Ora, não vejo por que não se interessar sobre as causas [fatores de socialização] da produção dos tipos criminosos e dos tipos policiais [já que existe uma ação social no sentido weberiano do termo, uns agem visando às ações dos outros] se isso ajuda a entender os porquês da "situação de roubo", que por sinal não são os mesmos em contextos históricos específicos. )
Mas não basta entender como as oportunidades se constituem, é preciso entender como os criminosos percebem a existência das oportunidades. Afinal de contas, são eles que estão nas ruas de olhos abertos em busca da ocasião que faz o ladrão. Daí o estudo sobre “o crime do ponto de vista do criminoso”. Esse tipo de pesquisa é muito comum nos Estados Unidos e agora está chegando ao Brasil. Os dois trechos citados são apenas um pequeno exemplo das informações que podem ser obtidas em entrevistas com os profissionais da área.
(Resumindo: acho que não é preciso jogar fora os acumulos feitos por análises realisadas em termos de socialização dos criminosos, mesmo se algumas utilizações desse tipo de sociologia se tornem anacrônicas para alguns.)

sábado, maio 07, 2005


Taxa de mortes por armas de fogo

Só agora consegui descobrir como postar um gráfico nesse troço. Como podemos observar pelos números a quantidade de mortes por suicidio e por acidente é realmente relativamente baixa. O que indica muita coisa sobre o tipo de violência a qual lidamos. Porém esses dados mais genéricos não nos dizem muita coisa sobre os espaços sociais dessa violência(quem morre por homicídios e onde?) nem das modalidades sociais caracteríticas (que "tipos socais" e em quais espaços?) codadas pelos números. A importância dessas informações mais precisas é de localisação sociológica da violência. Somente através de um tal desmembramento de dados as análises dos mesmos poderiam ganhar real sentindo sociológico desvendando, a posteriori, uma lógica social que explica a lógica da violência.
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sexta-feira, maio 06, 2005

Para quem gosta de números

Desarmamento
Dados divulgados pela UNESCO colocam o Brasil em segundo lugar em mortes por armas de fogo. Em 2002 ocorreram 21,72 mortes para cada grupo de 100.000 habitantes no país. Com base nessa informação, a UNESCO pede à Câmara dos Deputados pressa na votação do referendo sobre a proibição de venda de armas. Veja o gráfico publicado pelo Globo com os números dos 57 países pesquisados:
A proibição da comercialização de armas, caso seja aprovada, será bem-vinda. Armas nas mãos de pessoas despreparadas representam um grande perigo. No entanto, a proibição não deve ser vista como A SOLUÇÃO do problema das mortes por armas de fogo no Brasil. Programas específicos de apreensão das armas que estão nas mãos de criminosos e de controle do tráfico de armas são tão ou mais importantes que a proibição de comercialização para civis. Mesmo porque bandidos não compram armas nas casas de caça e pesca.
Os mesmos dados da UNESCO mostram que o número de mortes por acidentes com armas de fogo ( 0,18 por cem mil) e de suicídios (0,78 por cem mil) é relativamente pequeno e menor do que o de muitos países. Não é possível tirar conclusões definitivas desses números, mas eles nos permitem afirmar que, apesar de importante e necessária, a proibição da comercialização de armas deve ser vista como UMA das medidas de controle dos homicídios, não como a única ou a principal. (Texto do http://www.obs.embuste.com.br/ )

segunda-feira, maio 02, 2005

Autobiografia de um desclassificado(Plágio auto-autorizado)


O normal é escrever esse tipo de auto-denuncia de si em primeira pessoa. Bom para o blogue: eu isso, eu aquilo, eu também. Mas num estilo indireto talvez a impressão da distância seja reveladora de uma condição menos individual. Bem, o leitor é quem dirá. Esse texto é uma forma de dizer mais explicitamente(principalmente para Lenina) como deviam ser entendidas minhas confissões blogueiras.

Venho falar desse cara desterrado e insastisfeito. Sujeito caracterizado por uma atitude em relação à cultura de inegável desconforto e a quem o mal estar se apresenta por uma inadaptação fundamental: ele se sente bem superior à classe de origem dele para partilhar a complacência resignada e feliz dos outros membros da referida classe com respeito a eles mesmos. Nele a insastifação e ansiedade que percorrem todas as classes são levadas ao paroxismo, pois ele é sentimentalmente cortado de seu ambiente original por qualidades que, como a vivacidade de imaginação e espírito crítico, lhe dão uma consciência aguda e mais dolorosa da ambigüidade de sua condição. Esse "desclassificado por cima" não é necessariamente um nevrotico, mas possue esse desequilibrio patológico implícito de um individuo de vida aparentemente normal e que conquistou uma situação mais ou menos bem estabelecida.

Todo garoto de origem popular que consegue dar continuidade a seus estudos até a universidade é levado, mais cedo ou mais tarde, a entrar em conflito com o universo familiar. Talvez no Brasil esse menino possa vir de outras classes, visto a quantidade de incultos em todas as classes sociais. Mas nos atenhamos ao desterrado de classe. Ele se encontra, com efeito, no ponto de (des)encontro entre duas culturas. Ele pode ser um bom exemplo analítico. Pois tal qual uma arvore transplantada, o intelectual de origem popular reage mais rapidamente às novidades do que uma arvore de mesma espécie não transportada. O exemplo dele é típico do fenômeno de ajustamento social, mas é também específico. Evidentemente teríamos que distinguir entre dois tipos de desterrados: aqueles de origem popular que conseguiram fazer de sua adaptação à escola algo de apenas suficiente para cortar o cordão umbilical de classe e aqueles sujeitos que chegaram a ter uma "bela carreira". Estes últimos traduzem sua inadaptação por uma tendencia à uma atuação carismática da personalidade, por um retorno interminável às maneiras rudes e aos gestos rusticos, pelo gosto da proeza verbal. Muitos são os casos intermediários, tentemos descrevê-los.

Quem é(são)? Como se fez(fazem)?

Imaginemos que durante toda sua infância, depois sua adolescência, ele vai progressivamente se distanciando da vida contidiana do seu meio de origem. Ele é um estudante marcado tanto pelos elogios dos professores primários quanto pelos dos familiares. Dizem com admiração: "brilhante", "ele tem um cerebro", "é uma cabeça", "ele trabalha bem na escola". Ele é o tipo de estudante que obedece, mais do que qualquer outro, a influência dos valores escolares. Não seria exagerado dizer que é resistindo a qualidade principal da vida de sua classe popular, resistindo à intensidade das trocas familiares, que o aluno vai dando seus passos em direção a uma longa caminhada em direção da solidão, ou, talvez, a caminho de uma integração a outro grupo. Paradoxalmente esse esforço é mais duro e necessário na medida em que se vive em um ambiente familiar feliz, pois as casas mais equilibradas são ao mesmo tempo, freqüentemente, aquelas onde a vida comunitária é mais intensa.

Mas podemos imaginá-lo de maneira diferente. Como caso tardivo. Descreditado pela experiência escolar primária, ele enfrenta a sensação de atraso, de inconforto com a solidão por causa da plena participação e aceitação inicial aos valores de sua classe de origem durante o período de alfabetização. Mesmo sendo um fracasso escolar, ele vai assimilando um conhecimento básico que no futuro será seu suporte tecnico para o mundo universitário. Contudo, como no caso do estudante brilhante, ele vive entre dois mundos que quase nada têm em comum entre si: o da escola(onde o ambiente é burguês e pequeno burguês, possivelmente numa escola particular) e o da comunidade familiar(onde o mesmo ambiente escolar não é vivido da mesma maneira, possivelmente fora vivido numa escola pública). No segundo grau ele aprende rapidamente a utilizar os dois sotaques(comunitário e escolar-burguês), talvez mesmo a se transformar em dois personagens e a obedecer em alternância dois códigos culturais. Seu desejo mais profundo é o de comunicar os dois mundos. Por isso, de vez em quando, tenta falar da universidade em casa, daquilo que aprendeu por intermédio de um professor. As pessoas escutam-lhe com o maior interesse, mesmo sem entender muita coisa. Estilhaçado por dentro ele insiste, seu desejo mais profundo é mesmo o da conciliação entre os dois universos.

Esse cara pode ser o mesmo engalfinhado por não participar integralmente ao mundo com o qual começou a se indetificar. Ele tem capacidade suficiente para entender sua posição. Percebe, jogou-se de corpo inteiro em leituras desordenadas esperando da literatura coisa a mais do que ela poderia lhe dar. Em resumo ele joga o pequeno jogo que é esvaziar o balão da razão sistemática, mas lhe faltam a facilidade e a desenvoltura dos cinicos que têm certeza de suas capacidades intelectuais. Um eterno romântico frustrado. Alguém penetrado da necessidade de engajamento (intelectual e outro), mas realizando-o raramente, pois é dificil ainda acreditar que o seu caminho tenha valido a pena: ele continua em cima de uma bordura e se transforma em um nostalgico "que poderia ter sido, se tivesse desejado".

Jampa.

Ps: Claro, isso não é tudo. Mas deu preguiça.

quinta-feira, abril 21, 2005

ET CETERAS


Por que sinto dor e intraqüilidade a cada texto escrito por mim? Por que insisto em continuar com esse blogue e com o sofrimento de me ver exposto a cada linha, erro, opinião ou postura por mim tomada?Por que tudo se passa como se eu estivesse lutando contra algo dentro de mim, algo latente e pulsante, mistura de certeza de impotência contra forças sociais superiores e sentimento de culpa pela fraca persistência do meu espírito? E se o elemento da impotência é verdadeiro, como é que tais forças vindas da minha origem social agem de maneira tão forte e organizam as formas de me aceitar? A cada tentativa minha de expressar algo pela escrita, pelo jargão sociológico, por formas estranhamente incorporadas no contato prolongado com a disciplina, tudo parece resultado de outro que não eu. Por quê?

Outro dia estava lendo The uses of literacy de Richard Hogart. Esse livro parece dar pistas intrigantes a respeito das resistências sinistras de um "popular" ao conhecimento mais formal. O termo "literacy" que designa propriamente o fato de se saber ler e escrever tem um sentido mais técnico e preciso que o nosso "cultura"(Os anglofones por favor me corrijam se estiver errado). O título sugere um certo desabuso com a questão do uso feito pelas classes populares da alfabetização recebida, como se a questão posta se traduzisse assim: "ensinamo-lhes a ler e a escrever e vejam o que eles fazem-, ou olhem aquilo que a mídia faz-lhes fazer-, desse instrumento de liberação." Mas as análises do livro, as que pude ler até aqui, tentam criticar as imagens intelectuais da chamada " degradação da cultura auteticamente popular". E é nessa tensão onde me reconheço bem e dela penso fazer parte integrante. O autor se esforça de utilizar as ambigüidades entre os tipos de cultura como maneira de contornar o ponto ideológico da questão. Mas para mim, mais analisado que analista, é a impossibilidade de escolher entre uma cultura e outra, entre um valor e outro, é essa impotência vivida enquanto processo de aculturação que é constrangedora.

E se digo essas coisas é porque elas fazem parte do meu dia a dia aqui com vocês. Para meu trabalho nem tanto. Pois escrevo em francês e numa língua estrageira meu sentimento de inconforto é paradoxalmente menor. O blogue virou assim meu espelho de classe. Ele reflete minhas inseguraças e minhas certezas demesuradas. As duas são produtos de um mesmo processo de esforço demasiado de aceitação e rejeição de meios sociais específicos. De um lado, uma vontade importante de se apropriar de ferramentas intelectuais próprias ao meio acadêmico, quase sempre elitista. De outro, um sentimento de impropiedade e de negação daquilo que vai sendo incorporado.

Ao comentar o blogue de Cesar ontém todo o peso desse percurso escolhido me veio a mente. Como não estou conseguindo progredir na minha tese, que de tese só tem até agora o nome, venho aqui reclamar de minhas próprias tolices. Vou morrer vendo meus erros de ortografia e com vergonhas deles. Acho que minha birra com o "eunismo" dos blogues vem também dessa tensão evocada acima. Termino me contradizendo, ecrevo aqui em primeira pessoa.

Abraço a todos,

Jampa.

terça-feira, abril 19, 2005

Crônica, sociologia e violência: importância do discurso e discurso de importância

Planinho: 1- Comentando Júlio; 2 Comentando Cyrille. 3- Respondendo João 4- Violência

1-Acho importante debater a questão de Júlio por várias razões, vou tentar tocar em algumas delas.

a- Apesar de concordar com a opinião segundo a qual na resposta dada por Cavalcanti ele tenta "reduzir a responsabilidade de expor seus pensamentos publicamente", acredito que o debate sobre o "valor e a importância da crônica como gênero textual" deve ser, ele também, contextualizado.
b- Porque no final das contas é tratando da posição social de quem fala que o debate toma corpo: estamos falando de quem diz o que e (de) onde... E por qual estilo?

O primeiro e o segundo pontos são inseparáveis. Eis um elemento de base para se começar um bom debate. De como é preciso se saber "quem fala" e "de onde fala" para se pensar sobre o "peso das palavras e dos estilos de escrita". Será que é por isso que Júlio indica o fato dele ser advogado ter sido "Ministro da Justiça e presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional"? Existe uma instituição atrás de uma palavra? Mais. Não creio, como Júlio, que a crônica seja um "gênero textual dotado de tanta importância e repercussão quanto qualquer outro." Ele pode até produzir efeitos de importância e repercussão, aqui e alí, como os demais gêneros, mas seria preciso dizer mais sobre a "natureza" dos estilos de escrita para nivelá-los assim, sem análise prévia. Também os estilos, os gêneros, são marcados socialmente por valores distintivos e distintos e ocupam posições mais ou menos importantes na hierarquia social dos gostos. Claro, Júlio tem razão ao falar da responsabilidade de um homem escrevendo em um jornal de grande circulação como é o JC. Mas o buraco da questão é mais embaixo, ele é mais escorregadio e menos simétrico. E é por isso que é tão mais intrigante e verdadeiro encontrar o "eu social" de um advogado (ou de qualquer outro ente social) escondido numa "simples crônica" quanto os autores deste estilo de texto se deixam levar pela idéia do que imaginam ser uma crônica: estilo despretensioso onde podemos discorrer livremente sobre a vida cotidiana. Lá onde Cavalcanti lê "só uma crônica" o leitor avisado lê "verdade social implícita". Pois num texto sociológico por exemplo, com os artificios do método entre outros, um autor pode mais facilmente enconder a verdade implícita num recôndito ainda mais imperceptível(cuidado com os sociologos!).

2-Cyrille comenta dizendo que não existe "desculpa sociológica" (excuse sociologique) ao lastimável comentário dos charutos. Repondo dizendo que comentário sociológico não desculpa, mas tenta "apenas" entender as razões pelas quais esse tipo de conduta ganha sentido (prends sens) para quem o faz. Era assim que Weber visualizava o poder compreensivo da sociologia: não se precisa ser Cesar para compreender Cesar. Com isso não quero dizer que não fui normativo em alguns pontos do meu texto, mas apenas evidenciar que o papel específico da análise não era o de fazer um julgamento personalizado do advogado em questão.

3 - João só para ter o teu perdão, devo pedir que releia o texto. Eu aceitei a crítica de Cavalcanti por educação(até quando cordialidade meu Deus!), retribuindo a cordialidade do recado dele. Mas em nenhum momento eu digo que a estátua do Pessoa fica na Baixa Pombalina. Para ser sincero, como não lembrava do nome do bairro, preferi não arriscar. Mas a frase "Fiquei a imaginar só por birra os ladrões do escritório dele indo jantar na baixa pombalina, passando pelo à Brasileira café e querendo levar a estatua do Pessoa sentado para casa" não diz que o A Brasileira fica na Baixa. (Risos!)

4- Acho importante poder discutir a questão da violência dessa maneira. Antes desse debate existiu um nesse blogue sobre a dominação masculina. Ele foi gerado pela leitura do projeto de Valéria, Objeto-Mulher. Também elemento do cotidiano cultural de Recife. Todo tipo de violência deve ser discutido.
Como o texto de Cavalcanti podemos encontrar vários todos os dias nos jornais de nosso Brasil. Como analisá-los? Como criar um debate mais ampliado a respeito desses elementos de nossa cultura de masssa? Do nosso jornalismo? Muxita me aconselha a publicar algo no JC. Mas para voltar a questão inicial, quem é Jampa e quem acha válida a leitura crítica de uma "simples crônica" despretensiosa. Jampa e crônica ocupam espaços específicos nesse mundo velho e cansado de guerra. Crítica é bem vista para rebater outro tipo de matéria. E Jampa é bom para comentário de Blogue. Claro que essas posições não são fixas, mas não me vejo mandando o texto para o JC(razões sociais?). Tentei inclusive mandar para o Ombuds, ainda bem que não responderam. Já havia me arrependido.

Jampa

sexta-feira, abril 15, 2005

Comentário do comentário

Recebi com prazer a seguinte mensagem:


Recebi, do amigo Bernardo Jurema, referência a comentários de autor ignorado. Talvez seja "JAMPA". Não sou do ramo. Tenho relação conflituosa com computadores e outras máquinas. Seja quem for, são belos comentários. Mas meu texto é só uma crônica, o quotidiano da cidade vista pelos olhos de quem a vive. Seja como for, se despertou o interesse de alguém como Jampa, ou que nome tenha, terá valido a pena. Apreciei, vivamente, os comentários que fez. Penso que uma reflexão dele, mais ampla, deveria mesmo ser acessada a mais gente. Como uma contribuição à compreensão sociológica da violência. Vou passar a freqüentar esse blog. Abraço amigoP.S. 1. A "Brasileira" não fica na "baixa pombalina" (arredores do Rossio). Fica no "Chiado".
José Paulo Cavalcanti Filho.


Primeiramente agradeço a José Paulo Cavalcanti Filho pelo entedimento pacífico da crítica efetuada. Não é sempre que encontramos esse tipo de disposição. Meu texto continha uma tonalidade irônica e seria fácil atrelar a análise feita à ideologia de classe ou coisa parecida. Esse espaço foi criado com a finalidade de poder estabelecer esse tipo de debate aberto e sádio, nada mais gratificante do que vê-lo funcionar.

Para tranqüilizá-lo digo: o autor ignorado é um autor desconhecido. Jampa(João Paulo) é apenas um estudante de sociologia sem publicações nem renome, mas preocupado com a situação de nossas cidades no Brasil. Tentei tratar do texto pelo que ele é: "apenas uma crônica", como dito. Mas o interessante aos olhos do sociólogos é justamente aquilo que parece inofensivo, as coisas que não vemos por estarmos tão imersos na realidade social. Meu texto não seria nem de longe uma contribuição sociológica à compreensão da violência. Conheço pouco da sociologia da violência. Ele é mais um comentário sobre um estado de incompreensão enorme entre classes sociais cindidas. Ao meu modesto entender essa incompreensão é um elemento reprodutor da violência, como tentei ilustrar.

Agradeço mais uma vez pelo entendimento,

Jampa.

quinta-feira, abril 07, 2005

Quando não temos nem nadegas a declarar


Com a morte do Papa comecei a refletir sobre a dureza das coisas e dos valores. "Um homem duro, mas flexivel", li em algum jornal. Comentário estranho mas cheio de sentido quando tentamos entender alguns fenômenos típicos de nosso tempo.

Vejamos.

Já li alguns textos sobre a importância dos discos rigidos(hard discs) na sociedade informatizada. A física desses seres(coisas) é engraçada. Neles se condensam informações das mais diversas. A dureza deles só não resiste ao risco dos dados, das informações codadas a serem decodadas por programas maleaveis(softs). Como descriptar as senhas secretas da resistência da matéria?

Não faltam artigos sobre a rigidez artificial das bundas brasileiras modeladas por ginástica e cirurgia. O que antes era mole e flácido transforma-se em algo(musculo? silicone?) rijo e seguro. Ploblema: qual o estatuto da natureza e da arte (de Deus, dos homens?) na dureza das matérias restauradas? Mulher bonita e boa e gostosa e tesusa e coisa e tal numa sociedade do mole endurecido é artefato ou símbolo hipostaseado da beleza a qualquer custo? Alguns ficam brigando para poder chamar essas coisas duras de engolir de pós-modernidade. Duro. Mas vejam, como quem olha para o divino, como é dificil de solucionar tais aporias: a natureza da beleza só é natural quando feita por Deus(ou simplesmente quando não feita por homens); a natureza da beleza artificial(podemos dizer artistica?) é produzida pelos homens; a beleza da natureza do natural é um truismo( o belo é bonito porque é natural, então o natural é bonito); a beleza do artificial enquanto natureza provém do fato pouco natural da fabriação do belo. Tudo isso é besteira. Tolerem, não podemos ser tão flexíveis.

Vamos fazer uma comparação.

O Papa é uma santidade, um representante de Deus na terra. Ivo Pitangui(não sei se o nome dele se escreve assim) é artista plástico e médico. Podemos inferir da visão de mundo deles uma relação inversamente proporcinal ao mundo: o primeiro sempre foi rigoroso nas questões relacionadas à moral cristã, mas deu passos enormes em direção ao ecumenismo flexionando a religião católica; o segundo rigoroso no enrigecimento das bundas e peitos, mas flexível na moral estética. Valores não são bundas, refutarão indignados os defensores da rigidez no contrôle das analogias. Mas observem. Observem.Ora bundas! Amém.

Bem. Devo reconhecer antes de dormir... Só escrevi hoje porque não tinha nadegas a declarar!

Abraço galera punk!

sábado, março 26, 2005

Lamento lastimável

Volto a escrever nesse blogue. Motivo: novamente indignação. Quase nunca leio os "artigos" do JC. Hoje li porque um título despertou minha curiosidade. "Chame o ladrão". Curioso para ouvir o autor: José Paulo Cavalcanti Filho, advogado.

Vou tratar deste texto como trato das entrevistas em sociologia: vigiando a "voz de classe", as "visões de classe" ; encontrando no discurso do autor os elementos delimitadores do nosso fosso social.


Então vou proceder da seguinte maneira. Depois da leitura do texto, o "contrôle" do discurso será destacado com letras em outra fonte assim também como meus comentários. Antes de começar é importante dizer que minhas opiniões não terão força sociológica propriamente dita, pois, sendo apenas análise de um texto, ele serveria apenas de indicador para confrontações com outras "vozes" sejam elas de classe ou idividuais. Além disso, eu me posiciono em muitos momentos. E não quis controlar isso...

Vamos ao texto.

Chame o ladrão (O título faz lembrar uma célebre música de Chico Buarque. O Ricardão de olhos verdes a compôs durante o período da ditadura militar. Se o título deste artigo lembra a música, o pano de fundo moral do discurso de Cavalcanti Filho deforma a tonalidade da inrônia com a qual se trata o problema da violência. Se comparamos com a (irônia) de Chico, na qual subentende-se uma crítica social portando sobre o regime totalitário e a incapacidade da polícia de incarnar a legitimidade de seu poder de uso da violência, a de Cavalcanti ilustra apenas um desabuso com um estado de coisas que fogem ao seu contrôle pessoal. Mais. Sem perceber, ele acentua e re-produz de maneira quase expressionista a violência a qual pensa criticar. Veremos.)
Publicado em 25.03.2005

JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

De novo. Agora o furto foi no escritório. Estatisticamente, era mesmo de esperar. O Recife vai ficando difícil de se viver. E ruim nem é ser assaltado. Pior que o assalto em si é a sensação de insegurança que nos acompanha, por toda parte, por tanto tempo mais no futuro. É a falta de pequenos objetos, que não querem dizer nada para os ladrões, e dizem tanto para a gente. É o sentimento de revolta, em nosso íntimo, por ver o suor do rosto, tantas noites sem dormir, tudo embolsado por folgados. Nessas horas, com toda sinceridade, dá vontade de matar um desses miseráveis, se por acaso o tivermos na frente. (grifos meus)

(A indignação do autor passa por vários sentimentos : pela "insegurança",pelo "apego aos pequenos objetos" - sem importância para os ladrões-, pela "revolta". Essas sensações parecem ser legítimas e não revelam por si mesmas a natureza da violência social camuflada. A violência social é presente durante todo o texto sob a forma da incompreensão dos universos sociais cindidos entre si pelo hiato das desigualdades mais diversas. Adjetivando como "folgados" os ladrões, o autor garante desde início a tônica da completa distinção entre especies sociais antinômicas: de um lado a dos homens de trabalho-"noites sem dormir", "suor no rosto"-, do outro lado a dos "miseráveis" que estão tão distantes da do "trabalhador" que a "vontade de matar" do lesado pode até parecer justificável. Na minha opinião é esse fosso social reperável pela ausência de preocupação com as reais causas da violência, é ele um dos maiores responsáveis pelo estado lastimável de nossas cidades no que diz respeito à violência. )

Janeiro passado andei por Lisboa. À noite íamos jantar com amigos em restaurantes tradicionais, quase todos na baixa pombalina - Gambrinos, Pinóchio, As Velhas, Leão D’Oiro, Martinho do Arcada. E voltávamos sempre a pé, para o hotel, no fim da Avenida da Liberdade. Andávamos quase dois quilômetros, passeando. Já madrugada. O tempo de fumar um charuto. E nunca nos sentirmos em risco. Definitivamente, Lisboa não é o Recife.

( Um parágrafo tautológico muito interessante. Não só porque seja ridícula a comparação entre Lisboa e Recife, mas por causa da marca de posição de classe que ela indica. Fiquei a imaginar só por birra os ladrões do escritório dele indo jantar na baixa pombalina, passando pelo à Brasileira café e querendo levar a estatua do Pessoa sentado para casa. Recife não é Lisboa. Com medo e sentado durante a noite na praça do Marco Zero do Recife podemos hoje gritar para ver se português escuta: "Oh Mar salgado quanto do teu sal não são lágrimas da inveja dos recifences abastados vindos de Portugal". Falar de violência sem se perguntar sobre as razões sociais da mesma? Por que Recife não é Lisboa? Por que os ladrões Lisboetas são tão bons, tão simpáticos ora pois?)

Faço inventário do que perdi. Um serviço de som. Não lamento. Até foi bom. Que agora consigo ouvir os barulhos da cidade. E rolinhas, beija-flores, sabiás e bem-te-vis que vêm ao terraço aberto que dá para minha sala, em busca de água com açúcar, alpiste e pão doce. Um pouco de poesia contaminando os interesses econômicos do dia-a-dia. Uma calculadora HP. Também não lamento. Primeiro, porque posso comprar outra igual. Segundo porque, com ela, só contava números. E, não, o inexorável passar do tempo - que é o que conta, em nossa vida breve.

(Poesia, ora pois, é uma forma de se distinguir dos ladrões. Prova disso, é que no parágrafo seguinte os ladrões recifenses são caracterizandos pelo fato de não roubarem livros. Em nenhum momento do texto as razões sociais da existência desse tipo de pessoa são evocadas. Isso é um indício forte da cisão social existente entre mundos dispares. E o tipo de texto ensina algo da própria lógica do ciclo de violência que se forma e almenta a cada dia. O outro(sendo o outro do rico o ladrão, e o outro do ladrão o rico) é naturalizado enquanto tal de um lado e de outro de cada mundo. Não existe comunicação possível. )

Ainda um peso francês de papel, lembrança de minha irmã Lia. Saudades de Lia. Não fará falta. Que papéis, depois do ar-condicionado, não voam mais. Livros não levaram. Ladrão recifense não leva livro, nunca. Mesmo sendo raros, ou em outras línguas, não levam. Talões de cheque deixaram pelo chão. Levaram dois, já sustados. Só lamento que estejam dando prejuízo ao comércio recifense, com ele. Foi-se também um tinteiro Mont-Blac. Vazio. Ficou a caneta e levaram o tinteiro. Não dá para entender. Mas também levaram bolachas cream-craker, uma caixa de fósforos longos Fiat-Lux e um tubo quase vazio de Biorene. Mandei comprar outro. Custou três reais. Não dá para entender.

Do que se foi, lamento só duas perdas. Primeiro, meus charutos. O miserável abriu a caixa e levou meus charutos! Sem a caixa. Como se ela não coubesse na mão, e sobrasse espaço nos bolsos. É um absurdo! Onde vamos parar! Ladrão roubando charutos? Deixou canetas caras, (presente de amigos), quadros e inventou logo de levar meus charutos? Atenção Polícia. Se em alguma favela por aí, encontrar desocupado fumando um puro, pode prender. Não tem erro.

(Não sei se todo mundo percebe aquilo que essa frase condensa de violência social e simbólica. Primeiro Cavalcanti não entende e inroniza o ato dos malfeitores (claro, pois o autor acredita que os ladrões são burros porque não reconhecem os mesmos códigos que ele- por que será que eles deixaram as tais "canetas caras"?)-, e depois, de maneira honesta localiza de onde vem o mal, uma favela. Como charuto puro não é coisa de pobre, bem, podem prender o safado que tiver fumando um puro, não tem erro. O fato é que a distância entre as classes sociais nunca poderia ser tão forte e tão violênta. A naturalização da natureza da posição social do outro - uma posição apresentada como puramente geográfica: "alguma favela") é o que oculta o hiato das posições sociais. A socialização produtora de um advogado é tão distinta da do ladrão que o advogado não consegue visualizar num texto nenhum elemento da formação social do outro.)

Mas lamento, sobretudo, por uma pequena faquinha de prata, bem simples, de abrir correspondência. Era do meu pai. Me deu, pouco antes de morrer. Quando um objeto como esse vai embora, é um pedaço da vida da gente que se perde. Esses bandidos jamais terão pressentido o mal que me fizeram, levando aquela faquinha. Se estiverem lendo essas mal traçadas linhas - não é provável, quem sabe se compadecem e devolvem. Desde já agradeço. Com o coração.

Hoje é sexta-feira santa. Dia de milagres impossíveis. Se algum anjo ou milagreiro estiver de plantão, então quem sabe acabe ouvindo as súplicas de um pobre pecador. E por bênção divina, ou por não ter melhor coisa a fazer, então me dará o prêmio de fazer com que a faquinha volte a seu lugar. Que é ao meu lado. Para sempre.

(Não sabe ele o risco de uma tal frase. Vai que milagre existe e o ladrão sabe ler. Vai que leva a faquinha e o para sempre a sério... A morte ainda é universal nesse sentido.)


José Paulo Cavalcanti Filho é advogado. jp@jpc.com.br


Jampa.

domingo, março 20, 2005

Frase do domingão


" Wittgenstein disse: daquilo que não se sabe falar, é necessário calar-se a respeito.
Eu creio que pode-se dizer com a mesma justeza: daquilo que não se sabe falar, é necessário procurar saber."

Nobert Elias. (Mozart: sociologie d'un génie, má tradução minha.)

domingo, março 13, 2005

Frase de Domingão

Já que a questão da negatividade do raciocínio crítico veio a tona, uma frase de quem da crítica reflexiva não pôde se separar...


"Minha simpatia por Karl Kraus se deve ao fato que ele adicionava à idéia de intelectual tal como Sartre a construiu e impunha uma virtude essêncial, a reflexividade crítica: existem muitos intelectuais que colocam o mundo em questão; muito poucos são os que questionam o mundo intelectual.Isso se compreende facilmente se se vê que não se pode arriscar-se em fazer tais questionamentos sem se expor e ver voltadas contra si mesmo as armas da objetivação(...)"(Pierre Bourdier, em Esquisse pour une auto-analyse- má tradução minha).

sábado, março 12, 2005

Sem tempo


Sem tempo para escrever aqui, vou só ficar deixando algumas frases. Só para fazer graça e dar a rir do meu ridículo. No espírito ora hipócrita ora ingênuo(às vezes uma mistura dos dois) do governo Lula, uma tentativa de melhorar a auto-estima -nunca vi piada tão de mau gosto-, de mostrar ao menos que esse blogue quer continuar vivo... Como o Brasil.

Frase escolhida: " Não está ao meu alcance criar uma sociedade ideal. Contudo, está ao meu alcance descrever o que, na sociedade existente, não é ideal para nenhuma espécie de existência humana em sociedade. [...]Minha perspectiva{...} trata-se de equacionar, sociologicamente, a negação de um presente indesejável." (Florestan Fernandes, em prefácil à segunda edição de A Revolução Burguesa no Brasil).

Até mais,

Jampa

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Sobre Objeto Mulher

Vou refletir sobre a apresentação de Valéria. Dizer minha opinião sobre o como a sociologia deveria tratar as informações dadas, uma vez que nenhum sociólogo pôde ver pessoalmente o evento.

E de início acho logo engraçado perceber o quanto minha atitude pode parecer estranha : analisar, criticar, pensar, elogiar, fazer comentários sobre algo não visto por mim. Mas tenho a meu favor um fato básico da produção de objetos nas ciências sociais : a maioria dos fenômenos estudados por historiadores o são por meio de informações como as que tenho a respeito de Objeto Mulher- texto de jornais, opinião dos agentes sociais envolvidos e documentos diversos, como fotos e a cópia do projeto, por exemplo. Claro, no meu caso minhas opiniões não serão propriamente sociológicas visto o teor pouco sistemático de minhas análises. Porém, quero crer, terão tinta de sociologia na medida em que se interessam às condições sociais da produção artistica e da sua percepção(que não chega a ser uma preocupação com a recepção). Além disso, tentarei dar uma visão baseada em material empírico verificavel, a fonte é única mas variada: o blogue de Valéria com opiniões sobre o projeto Obejto Mulher. Fonte limitada de onde decorre o risco de superinterpretar ou de subestimar os elementos comentados. Espero contudo não descortinar totalmente a janela deixando apenas entrar aqueles raios de sol que claream os objetos sem ofuscar os olhos.

Para mim existe algo de problemático(do ponto de vista sociológico) no pano de fundo da proposta do Objeto Mulher. O que evidentemente não tira em nada o valor propriamente artistico da proposta crítica de Valéria. Porém o sociólogo tenta vislumbrar primeiro aquilo que o artista teve de ocultar(consciente ou não-conscientemente) para produzir o efeito estético desejado. Para e por isso, ele contorna o evento da artista dizendo o não dito, inquerindo sobre os efeitos (analíticos) das escolhas feitas. Esses efeitos dizem mais respeito a um ângulo sociológico de percepção do problema da dominação masculina do que ao trabalho de estetização propriamente dito.

A proposta de crítica da violência masculina praticada contra mulheres, da maneira como foi tratada, erige uma visão abstrata do homem o qual aperece sem atributos outros que o fato de produzir violência num determinado momento e em determinados contextos. Claro, dirão alguns, era o tema a ser abordado. E além disso o artista tem o direito e o dever de escolher traços, construir tipos, alterar a realidade para produzir sua crítica. Sem discordar disso, apenas tento questionar essas escolhas para re-dimensionar aquilo que elas escondem no intuito de capturar alguns condicionantes das leituras do evento.

Como dito, o problema do sociólogo(e não o do artista) é que o apagamento dos atributos sociais do homem, apagamento produzido pela escolha da forma de tratamento dado por Valéria ao tema que visava associar uma visão fenomenológica (trabalhar a percepção imediata da mulher no momento de uma cantada) à ruptura ocasionada pela crítica da violência(o fato de expor um “perceber-se” ocasiona sem mediação outra uma ‘impressão de liberação’), gera redução tipológica da crítica. Ou seja, não se sabe ao certo quem é o homem que diz as cantadas, o importante é saber que quem as diz são homens. O que quero expressar com isso é a idéia segundo a qual essa crítica abstrata (que apaga os atributos sociais dos homens que praticam o tipo de violência em questão) condiciona o tipo de leitura da apresentação. E o faz no seguinte sentido: ela pede a redução em abstração das cantadas masculinas. Exemplo disso encontra-se na opinião da jornalista Olivia Mindêlo quando comenta o fato dos homens serem os mais interessados na apresentação e se apressa no julgamento ao dizer que eles “encarnam aquele modelo o qual a bailarina, autora da intervenção, estava se refenrindo em sua crítica aos assédios sofridos pelas mulheres nas ruas”. Para o sociólogo é importante esse comentário pois ele não pode deixar de fazer algumas associações importantes. Quando ele vê que a jornalista identifica durante a atuação de Valéria o modelo de homem criticado, e nota o tipo de cantada que ela usa como ilustração, o sociólogo é impelido pela pergunta: como não pensar que o “gostosa”, “madurinha”, “fiu,fiu”, por mais que possam parecer “universais”, não são associados geralmente às pessoas de classes sociais menos favorecidas economica e socio-culturalmente? Sem história social, o homem da rua (da Rua da Imperatriz) é sem dúvida aquele das cantadas.

Como sabido, não digo isso para proteger “os homens bem educados” da má reputação. Mas a performação de violência distinta nas cantadas é real socialmente. Os encantos vão de eufemismos mais comuns aos galãs da classe média como “princesa” e “ coração” ao expressionismo clulo da rafaméia popular com seus “bucetuda” , “apetitosa” e “gostosa”, implicando tecnicas diferenciadas de expressão da dominação masculina. Ora, a idéia é fazer pensar a “exposição pública do corpo feminino”. Certo. Mas quem expõe o faz para um público. A exposição certamente é pública, mas o público às vezes é privado- no sentido dele reprensentar apenas uma parte dos elementos realmente performativos da dominação masculina; o homem que passa na rua da Imperatriz dá que tipo de cantada?

Além desse aspecto teria ainda dois outros que um sociólogo(como eu) poderia usar para extrair elementos para uma boa reflexão. Um trantando de outro apagamento similar ao primeiro, mas com relação às mulheres. Outro, se ocupando do funcionamento técnico do trabalho, o respeito por parte do público dos códigos criados pela artista.

Sobre o primeiro ponto, o tom é ainda crítico a respeito da escolha de tratamento analítico no que se refere a uma postura sociológica(Repito, a crítica vale apenas para uma reflexão sobre as formas de tratamento do tema e da problemática, pouco teria a acrescentar à produçaão artistisca, à elaboração estética.) Claro, por um lado faço o julgamento tendo em mente que o posicionamento político de mulher recobre o tom feminista da atuação. Por outro, entendo que na escolha feita um elemento importante da crítica feminina fica de lado: os efeitos de incorporação da violência masculina. Efeitos positivos e negativos: mulheres que aceitam e ou se submetem, ora reproduzindo de maneira passiva o tipo de dominação masculina(só se sente mulher se dominada físicamente, simbolicamente), ora, quando muito, de maneira ativa, tentando dominar a maneira dos homens. Se o exemplo da estudante Soraia revela um tipo de experiência de rejeição às cantadas: “ é isso mesmo que a gente escuta. É uma agressão, faz a gente até ter vergonha de ser mulher”. Outros exemplos poderiam mesmo mostrar o quanto as cantadas, não sei se as mesmas, provavelmente não, são importantes para a construção de uma " identidade feminina". Dou o exemplo desta doutoranda brasileira na Inglaterra que disse-me o seguinte a respeito de uma viagém que fez à Italia: “ foi ótimo ter ido lá. Os homens me desnudavam, me olhavam. Aqui (na Inglaterra) ninguém olha, ninguém dá cantada, a gente nem se sente mulher”. Assim, sem história e sem incorporação, a crítica pode produzir efeito de liberação na mulher ao se identificar com a situação de estar contra o “ser tratada como objeto” em um nível bastante explicito da reificação.Mas lá onde os mecanismos da dominação funcionam com força mais eficaz, lá dentro da mulher mesma, lá onde a mulher já não se pode ver-se mulher sem um “sentir-se dominada”, é alí a região a qual a crítica não chega. E deveria querer chegar...

O segundo ponto é ilustrativo da visão do sociólogo estando atento ao fenômeno artistico como sublimação dos elementos culturais. Com talento(do artista) significando para a sociologia, nesse sentido, o potencial de criação visto como capacidade de trabalhar os elementos codados socialmente para tranformá-los em obra de arte, ou seja, em objeto estético afetando o universo sensível do público. Sendo isso talvez o mais importante, pois, no que diz respeito a obra propriamente dita, o objeto artistico produzido, é a esse nível de reflexão que a sociologia pronucia algumas palavras sobre arte. Apesar de não ter elementos empíricos para responder a questão, pergunto: como e por que os códigos criados por Valéria (em específico a delimitação do espaço) deram certo? Suporia com a sociologia das socializações o seguinte: do lado de Valéria, as socializações diversas que viveu deram a dançarina capacidade de identificar, pelo aprendizado decorrido, a maneira com a qual um público “menos controlado”(fora de um teatro) tende a se comportar, as estratégias usadas por ela funcionam, pois, porque os códigos emplementados estão em acordo com a capacidade do público de renconhecer a codificação; do lado do público, existe na ‘socialização de rua’(todos os aprendizados do estar na rua aprendidos na mesma), a pesar da pouca cultura propriamente teatral dos transeuntes, uma socialização dramática, no sentido de haver nas ruas encenações diárias codificando os ambientes de diferentes formas. Valéria entendendo isso cria certos códigos levando em conta esses aprendizados expontâneos, usando-os e transformado-os em fonte de interesse para os passantes. Sim: ponto para Val.

Jampa.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Sobre minha opinião a respeito das ciências humanas (mais as sociais): o caso da sociologia


Vou partir da frase de Mariana como base de reflexão. Ela diz : "as ciências humanas sofrem pela falta de rigor metodológico, por estar mais imanada à subjetividade...perto daquilo que fica mais claro de ser comprovado racionalmente, de ser compartilhado por fórmulas mais universlizantes, as ciências duras ganham mais credibilidade que suas irmãs mais flexíveis."


Eu discordo em parte do dito. Mais pela formulação abstrata (dentro das ciências humanas se encontram disciplinas de natureza muito distintas) e pelo prejulgamento de credibilidade cientifica ganha com fómulas universalizantes e provas racionais (como se nas humanidades não houvesse esforço racional de explicação e ou compreensão dos fenômenos) do que pelo conteúdo do enunciado. Ou seja, eu acho que seja inegável o fato das ciências duras terem mais credibilidade do que as ciências moles, se credibilidade se limita e aceitamos que ela deve se limitar aos efeitos de "dureza" produzidos pela experimentação(no sentido dado por K.Popper). Porém, creio que ficar nesse nível do debate espistemológico, nível demasiadamente teórico, satisfaz pouco a sede de entender a respeito da questão de saber que tipo de conhecimento uma ciência humana pode produzir e tem produzido. Além disso, como já dito, as ciências humanas possuiem subclassificações como as de "ciências sociais ou da sociedade" e "ciências históricas", por exemplo. E cada uma dessas subdivisões agrega disciplinas tão próximas umas das outras pelo método e tipo de construção de objetos como é, por exemplo, no caso das ciências sociais, a sociologia da antropologia e da história, quanto distantes nos mesmos aspectos, come a economia é da sociologia e da antropologia. O ponto de inflexão do debate vem do fato significativo de que devemos, antes de prejulgar a falta de cientificidade e objetividade de qualquer ciência, permanecer no campo propiamente empirico e vislumbrar o tipo de conhecimento produzido por cada ciência.

O caso da sociologia


Vou me ater ao exemplo da sociologia. Ciência como as outras ou não? Se sim, em que sentido? Alguns amigos talvez achem estranha minha posição. Desde de início do curso de sociologia, ao bem da verdade, hoje sei, sem nenhuma condição de dizer em que consistia o trabalho de um sociólogo, julgava fundamental ter uma base filosófica sólida para dar suporte às questões de cunho sociológico.(Antes achava fundamental, hoje penso ser apenas importante). Mas o que ignorava na época era justamente a natureza das diferenças existentes entre tais disciplinas pelo simples fato de fazer amalgma delas numa idéia abstrata de trabalho intelectual: se tonar sociólogo é ler mais livros de sociologia, se tonar filósofo é ler mais livros de filosofia. Simples e eficaz para quem não é nem sociológo nem filosofo, mas se achava já um pouco os dois. Para mim, naquela época em pleno trabalho de aculturação com relação às praticas acadêmicas, a leitura era o ato que unia os universos distintos das especificidades disciplinares. E o que mudou? Nada de minhas impressões iniciais tornou-se totalmente falso. Claro que a leitura é uma prática comum a qualquer atividade intelectual, acho que dizer isso chega a ser tautológico. Porém, e podem discordar se for o caso, ler é uma prática que, no caso de disciplinas as quais se querem científicas(e empiricas), tem significado especifico (de instrumentalização, de utilização) podendo passar de pura análise de texto ( com tecnicas convensionais de compreensão) à leitura de dados estatíticos (que significa esforço de contrôle no que diz respeito a transposição de tipos de liguagem, etc).

Por que digo tudo isso e o que isso tem a ver como a questão do nível de dureza das ciências sociais?


O fato é que acho que as ciências sociais em geral são ciências em sentido especifico naquilo que produzem de conhecimento objetivo e rigoroso nos limites impostos pelo carater histórico das informações no qual tais disciplinas repousam e retiram significado. A sociologia só ganha em sentido e em especificidade naquilo que ela é propriamente histórica (no sentido de Weber), ou seja: quando ela adentra nas singularidades e particularidades, quando ela evoca o método comparativo como próprio a produção do entendimento sociológico.

E a sociologia, onde está com relação as ciências duras?

Ao meu entender a sociologia é uma ciência hibrida em sentido especifico. Ela não entra no espaço de probação popperiano( espaço no qual numa experimentação científica devemos satisfazer as condições ideais de prova: tudo deve se dar de maneira igual em qualquer contexto isolado de mesma maneira). Em sociologia não existe experimentação stricto senso.

Mas por que continuar chamando de ciência uma disciplina que não satisfaz tais critérios ditos de cientificidade?

De minha parte é uma questão de postura quase política. Existe o risco forte e presente nas ciências humanas do relaxamento, do desleixo, da selvageria interpretativa e hermeneutica, do tudo é válido em matéria de ciências humanas. A palavra ciência vem a lembrar a importância do rigor, da produção se não da prova, da argumentação bem fundamentada(empiricamente, metodológicamente, teóricamente).

Por hoje é isso.

Jampa




domingo, fevereiro 06, 2005

Blogue, Visita de Ton e coisas da vida


O tempo é de resignar. Minha teimosia era a de querer tratar de maneira insuportável das coisas simples. Fui teimoso para não ser reconhecido como blogueiro fajuto, daqueles que aceitam a facilidade de agradar e querer ser amado pelo resultado da carícia textual produzida. A pequena história do meu blogue é uma marca do esforço gorgico para reter a separação entre sedução e argumentação, retórica e ciência, doxa e episteme, derme e epiderme. Vontade tôla e vã de invadir o mundo alheio, de tonar o espaço cibernético um pouco menos repetitivo, de contrariar os "não dá para ser de outra forma" ou "é isso mesmo, é assim mesmo, tinha de ser assim", e, a contragosto, ir infligindo às normas ditadas pelos "esse espaço não é para isso", "niguém suporta ler esse tipo de coisa", "você acha que as pessoas podem entender palavras dificeis", "isso é muito intelectual", etc.

A maioria dos "posts" foram escritos de maneira livre. Mantinha como rigor apenas o esforço de reflexão a respeito do que se ia dizendo. Nos textos mais chegados à crônica, a idéia implícita era de situar e reorganizar fragmentos de minha memória para uma confrontação com o universo mais literário, ou seja, quis dar forma ao conteúdo mal estruturado de minas recordações. Mas a consciência dos meus limites objetivos no lidar com a lingua portuguesa foram minando a boa vontade e o espírito de partilha presentes no intento. A lição fica: quem desse mundo não espera apenas agradar, aprende que, pelo rumo das coisas, a quem ele não agrada, agride.

***

A vinda de Ton à Nancy foi muito agradável. Encontrar um amigo o qual a muito não via dá-me sempre a boa impressão de ver no velho algo novo. Não que ele parecesse envenlhecido, mas nossa amizade começa a fazer seus decênios. E com isso, a ausência acompanhada da distância move nosso olhar na busca de confrontar o presente à lembrança, à memória. O resultado disso é a sensação de ver no mesmo o outro, um claro renovar da amizade.

Engraçado foi perceber os pequenos atritos devidos às formações acadêmicas disntintas. Um Ton físico e um Jampa sociólogo. Dois maristados formatados por caminhos rigorosamente diferentes. Deus nos acuda para as incompreensões mutuas. Leituras de mundo dissonantes, ligadas entre si pelo fio tênue da camaradagem e do respeito. " Preste atenção querid[os], o mundo é um muinho", tinha em mente quando conversavamos, maneira de me conformar. Pois, bom ou mau sociólogo que eu seja, sei bem da posição de "inferioridade acadêmica" da minha disciplina em relação à dele. Expeterza sociológica ou não, o certo era a alegria de vê-lo aplicado ao trabalho científico, sonhando com pés no chão com a carreira que tão bem começou.


sábado, fevereiro 05, 2005

Notas

Cronograma do futuro próximo (Ou: de como funciona a cabeça de Jampa)

Amanhã (Sabado de carnaval no Brasil): das 10:00 hs às 12:00 hs, redação de um texto. A tarde, leituras de O Pão. Finalizar leitura de Literatura e Cordialidade. A noite, dependendo do cansaço, traduzir para o francês as passagens de Raizes do Brasil a serem aproveitadas dentro da dinâmica da argumentação visada para análise sociológica de O pão.

Questões a não perder de vista:

Faz sentido falar de cordialidade dentro da pratica dos "padeiros"? Se sim, em qual medida ela (a cordialidade) pode servir de auxilio para uma compreensão mais precisa do processo configuração do "campo literário" existente dentro do campo intelectual ?

Pistas: levar em consideração a cordialidade como espécie de "ethos de classe", ou seja, como visão de mundo relativamente homogênia causada por uma vivência em comum, por uma socialização vivida nos mesmos moldes (no sentido de consonância dos "problemas de uma geração", dos "livros incontunáveis", etc.), é, se estou no bom caminho, tornar mais clara as estratégias dos agentes no que diz respeito às influências de suas motivações na produção da atividade intelectual e literária. Pensar nos efeitos do tipo de formação que boa parte de nossa intelectualidade teve(Não esquecer Antônio Cândido na Formação, e em Literatura e Sociedade: formação que parece uma deformação, mas a deformação-formação vista em comparação a uma formação vista como mais autentica- termina por informar da formação deformada.)

Risco: Reproduzir o discurso normativo segundo o qual teríamos no Brasil uma forma de modernidade incompleta ou a completar, tendo como base uma modernidade autêntica: a da Europa.

Contra-agurmento do risco: Levar em consideração uma tal tipologia perde o seu carater puramente normativo se a utilização do conceito de cordialidade guardar seu carater heurístico e se articular bem, como espécie de habitus intelectual existente, à construção das modalidades de configuração do espaço social analisado.

Questão a responder: em que a cordialidade ajuda a restituir com mais precisão as modalidades do campo intelectual?

Vem pessoal, vem moçada, carnaval começa na frente do computador... As vezes de madrugada!

Quem sou eu (no blogue)

Recife, Pernambuco, Brazil
Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.