quinta-feira, abril 21, 2005
Por que sinto dor e intraqüilidade a cada texto escrito por mim? Por que insisto em continuar com esse blogue e com o sofrimento de me ver exposto a cada linha, erro, opinião ou postura por mim tomada?Por que tudo se passa como se eu estivesse lutando contra algo dentro de mim, algo latente e pulsante, mistura de certeza de impotência contra forças sociais superiores e sentimento de culpa pela fraca persistência do meu espírito? E se o elemento da impotência é verdadeiro, como é que tais forças vindas da minha origem social agem de maneira tão forte e organizam as formas de me aceitar? A cada tentativa minha de expressar algo pela escrita, pelo jargão sociológico, por formas estranhamente incorporadas no contato prolongado com a disciplina, tudo parece resultado de outro que não eu. Por quê?
Outro dia estava lendo The uses of literacy de Richard Hogart. Esse livro parece dar pistas intrigantes a respeito das resistências sinistras de um "popular" ao conhecimento mais formal. O termo "literacy" que designa propriamente o fato de se saber ler e escrever tem um sentido mais técnico e preciso que o nosso "cultura"(Os anglofones por favor me corrijam se estiver errado). O título sugere um certo desabuso com a questão do uso feito pelas classes populares da alfabetização recebida, como se a questão posta se traduzisse assim: "ensinamo-lhes a ler e a escrever e vejam o que eles fazem-, ou olhem aquilo que a mídia faz-lhes fazer-, desse instrumento de liberação." Mas as análises do livro, as que pude ler até aqui, tentam criticar as imagens intelectuais da chamada " degradação da cultura auteticamente popular". E é nessa tensão onde me reconheço bem e dela penso fazer parte integrante. O autor se esforça de utilizar as ambigüidades entre os tipos de cultura como maneira de contornar o ponto ideológico da questão. Mas para mim, mais analisado que analista, é a impossibilidade de escolher entre uma cultura e outra, entre um valor e outro, é essa impotência vivida enquanto processo de aculturação que é constrangedora.
E se digo essas coisas é porque elas fazem parte do meu dia a dia aqui com vocês. Para meu trabalho nem tanto. Pois escrevo em francês e numa língua estrageira meu sentimento de inconforto é paradoxalmente menor. O blogue virou assim meu espelho de classe. Ele reflete minhas inseguraças e minhas certezas demesuradas. As duas são produtos de um mesmo processo de esforço demasiado de aceitação e rejeição de meios sociais específicos. De um lado, uma vontade importante de se apropriar de ferramentas intelectuais próprias ao meio acadêmico, quase sempre elitista. De outro, um sentimento de impropiedade e de negação daquilo que vai sendo incorporado.
Ao comentar o blogue de Cesar ontém todo o peso desse percurso escolhido me veio a mente. Como não estou conseguindo progredir na minha tese, que de tese só tem até agora o nome, venho aqui reclamar de minhas próprias tolices. Vou morrer vendo meus erros de ortografia e com vergonhas deles. Acho que minha birra com o "eunismo" dos blogues vem também dessa tensão evocada acima. Termino me contradizendo, ecrevo aqui em primeira pessoa.
Abraço a todos,
Jampa.
terça-feira, abril 19, 2005
Planinho: 1- Comentando Júlio; 2 Comentando Cyrille. 3- Respondendo João 4- Violência
1-Acho importante debater a questão de Júlio por várias razões, vou tentar tocar em algumas delas.
a- Apesar de concordar com a opinião segundo a qual na resposta dada por Cavalcanti ele tenta "reduzir a responsabilidade de expor seus pensamentos publicamente", acredito que o debate sobre o "valor e a importância da crônica como gênero textual" deve ser, ele também, contextualizado.
b- Porque no final das contas é tratando da posição social de quem fala que o debate toma corpo: estamos falando de quem diz o que e (de) onde... E por qual estilo?
O primeiro e o segundo pontos são inseparáveis. Eis um elemento de base para se começar um bom debate. De como é preciso se saber "quem fala" e "de onde fala" para se pensar sobre o "peso das palavras e dos estilos de escrita". Será que é por isso que Júlio indica o fato dele ser advogado ter sido "Ministro da Justiça e presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional"? Existe uma instituição atrás de uma palavra? Mais. Não creio, como Júlio, que a crônica seja um "gênero textual dotado de tanta importância e repercussão quanto qualquer outro." Ele pode até produzir efeitos de importância e repercussão, aqui e alí, como os demais gêneros, mas seria preciso dizer mais sobre a "natureza" dos estilos de escrita para nivelá-los assim, sem análise prévia. Também os estilos, os gêneros, são marcados socialmente por valores distintivos e distintos e ocupam posições mais ou menos importantes na hierarquia social dos gostos. Claro, Júlio tem razão ao falar da responsabilidade de um homem escrevendo em um jornal de grande circulação como é o JC. Mas o buraco da questão é mais embaixo, ele é mais escorregadio e menos simétrico. E é por isso que é tão mais intrigante e verdadeiro encontrar o "eu social" de um advogado (ou de qualquer outro ente social) escondido numa "simples crônica" quanto os autores deste estilo de texto se deixam levar pela idéia do que imaginam ser uma crônica: estilo despretensioso onde podemos discorrer livremente sobre a vida cotidiana. Lá onde Cavalcanti lê "só uma crônica" o leitor avisado lê "verdade social implícita". Pois num texto sociológico por exemplo, com os artificios do método entre outros, um autor pode mais facilmente enconder a verdade implícita num recôndito ainda mais imperceptível(cuidado com os sociologos!).
2-Cyrille comenta dizendo que não existe "desculpa sociológica" (excuse sociologique) ao lastimável comentário dos charutos. Repondo dizendo que comentário sociológico não desculpa, mas tenta "apenas" entender as razões pelas quais esse tipo de conduta ganha sentido (prends sens) para quem o faz. Era assim que Weber visualizava o poder compreensivo da sociologia: não se precisa ser Cesar para compreender Cesar. Com isso não quero dizer que não fui normativo em alguns pontos do meu texto, mas apenas evidenciar que o papel específico da análise não era o de fazer um julgamento personalizado do advogado em questão.
3 - João só para ter o teu perdão, devo pedir que releia o texto. Eu aceitei a crítica de Cavalcanti por educação(até quando cordialidade meu Deus!), retribuindo a cordialidade do recado dele. Mas em nenhum momento eu digo que a estátua do Pessoa fica na Baixa Pombalina. Para ser sincero, como não lembrava do nome do bairro, preferi não arriscar. Mas a frase "Fiquei a imaginar só por birra os ladrões do escritório dele indo jantar na baixa pombalina, passando pelo à Brasileira café e querendo levar a estatua do Pessoa sentado para casa" não diz que o A Brasileira fica na Baixa. (Risos!)
4- Acho importante poder discutir a questão da violência dessa maneira. Antes desse debate existiu um nesse blogue sobre a dominação masculina. Ele foi gerado pela leitura do projeto de Valéria, Objeto-Mulher. Também elemento do cotidiano cultural de Recife. Todo tipo de violência deve ser discutido.
Como o texto de Cavalcanti podemos encontrar vários todos os dias nos jornais de nosso Brasil. Como analisá-los? Como criar um debate mais ampliado a respeito desses elementos de nossa cultura de masssa? Do nosso jornalismo? Muxita me aconselha a publicar algo no JC. Mas para voltar a questão inicial, quem é Jampa e quem acha válida a leitura crítica de uma "simples crônica" despretensiosa. Jampa e crônica ocupam espaços específicos nesse mundo velho e cansado de guerra. Crítica é bem vista para rebater outro tipo de matéria. E Jampa é bom para comentário de Blogue. Claro que essas posições não são fixas, mas não me vejo mandando o texto para o JC(razões sociais?). Tentei inclusive mandar para o Ombuds, ainda bem que não responderam. Já havia me arrependido.
Jampa
sexta-feira, abril 15, 2005
Recebi com prazer a seguinte mensagem:
Recebi, do amigo Bernardo Jurema, referência a comentários de autor ignorado. Talvez seja "JAMPA". Não sou do ramo. Tenho relação conflituosa com computadores e outras máquinas. Seja quem for, são belos comentários. Mas meu texto é só uma crônica, o quotidiano da cidade vista pelos olhos de quem a vive. Seja como for, se despertou o interesse de alguém como Jampa, ou que nome tenha, terá valido a pena. Apreciei, vivamente, os comentários que fez. Penso que uma reflexão dele, mais ampla, deveria mesmo ser acessada a mais gente. Como uma contribuição à compreensão sociológica da violência. Vou passar a freqüentar esse blog. Abraço amigoP.S. 1. A "Brasileira" não fica na "baixa pombalina" (arredores do Rossio). Fica no "Chiado".
José Paulo Cavalcanti Filho.
Primeiramente agradeço a José Paulo Cavalcanti Filho pelo entedimento pacífico da crítica efetuada. Não é sempre que encontramos esse tipo de disposição. Meu texto continha uma tonalidade irônica e seria fácil atrelar a análise feita à ideologia de classe ou coisa parecida. Esse espaço foi criado com a finalidade de poder estabelecer esse tipo de debate aberto e sádio, nada mais gratificante do que vê-lo funcionar.
Para tranqüilizá-lo digo: o autor ignorado é um autor desconhecido. Jampa(João Paulo) é apenas um estudante de sociologia sem publicações nem renome, mas preocupado com a situação de nossas cidades no Brasil. Tentei tratar do texto pelo que ele é: "apenas uma crônica", como dito. Mas o interessante aos olhos do sociólogos é justamente aquilo que parece inofensivo, as coisas que não vemos por estarmos tão imersos na realidade social. Meu texto não seria nem de longe uma contribuição sociológica à compreensão da violência. Conheço pouco da sociologia da violência. Ele é mais um comentário sobre um estado de incompreensão enorme entre classes sociais cindidas. Ao meu modesto entender essa incompreensão é um elemento reprodutor da violência, como tentei ilustrar.
Agradeço mais uma vez pelo entendimento,
Jampa.
quinta-feira, abril 07, 2005
Com a morte do Papa comecei a refletir sobre a dureza das coisas e dos valores. "Um homem duro, mas flexivel", li em algum jornal. Comentário estranho mas cheio de sentido quando tentamos entender alguns fenômenos típicos de nosso tempo.
Vejamos.
Já li alguns textos sobre a importância dos discos rigidos(hard discs) na sociedade informatizada. A física desses seres(coisas) é engraçada. Neles se condensam informações das mais diversas. A dureza deles só não resiste ao risco dos dados, das informações codadas a serem decodadas por programas maleaveis(softs). Como descriptar as senhas secretas da resistência da matéria?
Não faltam artigos sobre a rigidez artificial das bundas brasileiras modeladas por ginástica e cirurgia. O que antes era mole e flácido transforma-se em algo(musculo? silicone?) rijo e seguro. Ploblema: qual o estatuto da natureza e da arte (de Deus, dos homens?) na dureza das matérias restauradas? Mulher bonita e boa e gostosa e tesusa e coisa e tal numa sociedade do mole endurecido é artefato ou símbolo hipostaseado da beleza a qualquer custo? Alguns ficam brigando para poder chamar essas coisas duras de engolir de pós-modernidade. Duro. Mas vejam, como quem olha para o divino, como é dificil de solucionar tais aporias: a natureza da beleza só é natural quando feita por Deus(ou simplesmente quando não feita por homens); a natureza da beleza artificial(podemos dizer artistica?) é produzida pelos homens; a beleza da natureza do natural é um truismo( o belo é bonito porque é natural, então o natural é bonito); a beleza do artificial enquanto natureza provém do fato pouco natural da fabriação do belo. Tudo isso é besteira. Tolerem, não podemos ser tão flexíveis.
Vamos fazer uma comparação.
O Papa é uma santidade, um representante de Deus na terra. Ivo Pitangui(não sei se o nome dele se escreve assim) é artista plástico e médico. Podemos inferir da visão de mundo deles uma relação inversamente proporcinal ao mundo: o primeiro sempre foi rigoroso nas questões relacionadas à moral cristã, mas deu passos enormes em direção ao ecumenismo flexionando a religião católica; o segundo rigoroso no enrigecimento das bundas e peitos, mas flexível na moral estética. Valores não são bundas, refutarão indignados os defensores da rigidez no contrôle das analogias. Mas observem. Observem.Ora bundas! Amém.
Bem. Devo reconhecer antes de dormir... Só escrevi hoje porque não tinha nadegas a declarar!
Abraço galera punk!
sábado, março 26, 2005
Volto a escrever nesse blogue. Motivo: novamente indignação. Quase nunca leio os "artigos" do JC. Hoje li porque um título despertou minha curiosidade. "Chame o ladrão". Curioso para ouvir o autor: José Paulo Cavalcanti Filho, advogado.
Vou tratar deste texto como trato das entrevistas em sociologia: vigiando a "voz de classe", as "visões de classe" ; encontrando no discurso do autor os elementos delimitadores do nosso fosso social.
Então vou proceder da seguinte maneira. Depois da leitura do texto, o "contrôle" do discurso será destacado com letras em outra fonte assim também como meus comentários. Antes de começar é importante dizer que minhas opiniões não terão força sociológica propriamente dita, pois, sendo apenas análise de um texto, ele serveria apenas de indicador para confrontações com outras "vozes" sejam elas de classe ou idividuais. Além disso, eu me posiciono em muitos momentos. E não quis controlar isso...
Vamos ao texto.
Chame o ladrão (O título faz lembrar uma célebre música de Chico Buarque. O Ricardão de olhos verdes a compôs durante o período da ditadura militar. Se o título deste artigo lembra a música, o pano de fundo moral do discurso de Cavalcanti Filho deforma a tonalidade da inrônia com a qual se trata o problema da violência. Se comparamos com a (irônia) de Chico, na qual subentende-se uma crítica social portando sobre o regime totalitário e a incapacidade da polícia de incarnar a legitimidade de seu poder de uso da violência, a de Cavalcanti ilustra apenas um desabuso com um estado de coisas que fogem ao seu contrôle pessoal. Mais. Sem perceber, ele acentua e re-produz de maneira quase expressionista a violência a qual pensa criticar. Veremos.)
Publicado em 25.03.2005
De novo. Agora o furto foi no escritório. Estatisticamente, era mesmo de esperar. O Recife vai ficando difícil de se viver. E ruim nem é ser assaltado. Pior que o assalto em si é a sensação de insegurança que nos acompanha, por toda parte, por tanto tempo mais no futuro. É a falta de pequenos objetos, que não querem dizer nada para os ladrões, e dizem tanto para a gente. É o sentimento de revolta, em nosso íntimo, por ver o suor do rosto, tantas noites sem dormir, tudo embolsado por folgados. Nessas horas, com toda sinceridade, dá vontade de matar um desses miseráveis, se por acaso o tivermos na frente. (grifos meus)
(A indignação do autor passa por vários sentimentos : pela "insegurança",pelo "apego aos pequenos objetos" - sem importância para os ladrões-, pela "revolta". Essas sensações parecem ser legítimas e não revelam por si mesmas a natureza da violência social camuflada. A violência social é presente durante todo o texto sob a forma da incompreensão dos universos sociais cindidos entre si pelo hiato das desigualdades mais diversas. Adjetivando como "folgados" os ladrões, o autor garante desde início a tônica da completa distinção entre especies sociais antinômicas: de um lado a dos homens de trabalho-"noites sem dormir", "suor no rosto"-, do outro lado a dos "miseráveis" que estão tão distantes da do "trabalhador" que a "vontade de matar" do lesado pode até parecer justificável. Na minha opinião é esse fosso social reperável pela ausência de preocupação com as reais causas da violência, é ele um dos maiores responsáveis pelo estado lastimável de nossas cidades no que diz respeito à violência. )
Janeiro passado andei por Lisboa. À noite íamos jantar com amigos em restaurantes tradicionais, quase todos na baixa pombalina - Gambrinos, Pinóchio, As Velhas, Leão D’Oiro, Martinho do Arcada. E voltávamos sempre a pé, para o hotel, no fim da Avenida da Liberdade. Andávamos quase dois quilômetros, passeando. Já madrugada. O tempo de fumar um charuto. E nunca nos sentirmos em risco. Definitivamente, Lisboa não é o Recife.
( Um parágrafo tautológico muito interessante. Não só porque seja ridícula a comparação entre Lisboa e Recife, mas por causa da marca de posição de classe que ela indica. Fiquei a imaginar só por birra os ladrões do escritório dele indo jantar na baixa pombalina, passando pelo à Brasileira café e querendo levar a estatua do Pessoa sentado para casa. Recife não é Lisboa. Com medo e sentado durante a noite na praça do Marco Zero do Recife podemos hoje gritar para ver se português escuta: "Oh Mar salgado quanto do teu sal não são lágrimas da inveja dos recifences abastados vindos de Portugal". Falar de violência sem se perguntar sobre as razões sociais da mesma? Por que Recife não é Lisboa? Por que os ladrões Lisboetas são tão bons, tão simpáticos ora pois?)
Faço inventário do que perdi. Um serviço de som. Não lamento. Até foi bom. Que agora consigo ouvir os barulhos da cidade. E rolinhas, beija-flores, sabiás e bem-te-vis que vêm ao terraço aberto que dá para minha sala, em busca de água com açúcar, alpiste e pão doce. Um pouco de poesia contaminando os interesses econômicos do dia-a-dia. Uma calculadora HP. Também não lamento. Primeiro, porque posso comprar outra igual. Segundo porque, com ela, só contava números. E, não, o inexorável passar do tempo - que é o que conta, em nossa vida breve.
(Poesia, ora pois, é uma forma de se distinguir dos ladrões. Prova disso, é que no parágrafo seguinte os ladrões recifenses são caracterizandos pelo fato de não roubarem livros. Em nenhum momento do texto as razões sociais da existência desse tipo de pessoa são evocadas. Isso é um indício forte da cisão social existente entre mundos dispares. E o tipo de texto ensina algo da própria lógica do ciclo de violência que se forma e almenta a cada dia. O outro(sendo o outro do rico o ladrão, e o outro do ladrão o rico) é naturalizado enquanto tal de um lado e de outro de cada mundo. Não existe comunicação possível. )
Ainda um peso francês de papel, lembrança de minha irmã Lia. Saudades de Lia. Não fará falta. Que papéis, depois do ar-condicionado, não voam mais. Livros não levaram. Ladrão recifense não leva livro, nunca. Mesmo sendo raros, ou em outras línguas, não levam. Talões de cheque deixaram pelo chão. Levaram dois, já sustados. Só lamento que estejam dando prejuízo ao comércio recifense, com ele. Foi-se também um tinteiro Mont-Blac. Vazio. Ficou a caneta e levaram o tinteiro. Não dá para entender. Mas também levaram bolachas cream-craker, uma caixa de fósforos longos Fiat-Lux e um tubo quase vazio de Biorene. Mandei comprar outro. Custou três reais. Não dá para entender.
Do que se foi, lamento só duas perdas. Primeiro, meus charutos. O miserável abriu a caixa e levou meus charutos! Sem a caixa. Como se ela não coubesse na mão, e sobrasse espaço nos bolsos. É um absurdo! Onde vamos parar! Ladrão roubando charutos? Deixou canetas caras, (presente de amigos), quadros e inventou logo de levar meus charutos? Atenção Polícia. Se em alguma favela por aí, encontrar desocupado fumando um puro, pode prender. Não tem erro.
(Não sei se todo mundo percebe aquilo que essa frase condensa de violência social e simbólica. Primeiro Cavalcanti não entende e inroniza o ato dos malfeitores (claro, pois o autor acredita que os ladrões são burros porque não reconhecem os mesmos códigos que ele- por que será que eles deixaram as tais "canetas caras"?)-, e depois, de maneira honesta localiza de onde vem o mal, uma favela. Como charuto puro não é coisa de pobre, bem, podem prender o safado que tiver fumando um puro, não tem erro. O fato é que a distância entre as classes sociais nunca poderia ser tão forte e tão violênta. A naturalização da natureza da posição social do outro - uma posição apresentada como puramente geográfica: "alguma favela") é o que oculta o hiato das posições sociais. A socialização produtora de um advogado é tão distinta da do ladrão que o advogado não consegue visualizar num texto nenhum elemento da formação social do outro.)
Mas lamento, sobretudo, por uma pequena faquinha de prata, bem simples, de abrir correspondência. Era do meu pai. Me deu, pouco antes de morrer. Quando um objeto como esse vai embora, é um pedaço da vida da gente que se perde. Esses bandidos jamais terão pressentido o mal que me fizeram, levando aquela faquinha. Se estiverem lendo essas mal traçadas linhas - não é provável, quem sabe se compadecem e devolvem. Desde já agradeço. Com o coração.
Hoje é sexta-feira santa. Dia de milagres impossíveis. Se algum anjo ou milagreiro estiver de plantão, então quem sabe acabe ouvindo as súplicas de um pobre pecador. E por bênção divina, ou por não ter melhor coisa a fazer, então me dará o prêmio de fazer com que a faquinha volte a seu lugar. Que é ao meu lado. Para sempre.
(Não sabe ele o risco de uma tal frase. Vai que milagre existe e o ladrão sabe ler. Vai que leva a faquinha e o para sempre a sério... A morte ainda é universal nesse sentido.)
José Paulo Cavalcanti Filho é advogado. jp@jpc.com.br
domingo, março 20, 2005
domingo, março 13, 2005
Já que a questão da negatividade do raciocínio crítico veio a tona, uma frase de quem da crítica reflexiva não pôde se separar...
"Minha simpatia por Karl Kraus se deve ao fato que ele adicionava à idéia de intelectual tal como Sartre a construiu e impunha uma virtude essêncial, a reflexividade crítica: existem muitos intelectuais que colocam o mundo em questão; muito poucos são os que questionam o mundo intelectual.Isso se compreende facilmente se se vê que não se pode arriscar-se em fazer tais questionamentos sem se expor e ver voltadas contra si mesmo as armas da objetivação(...)"(Pierre Bourdier, em Esquisse pour une auto-analyse- má tradução minha).
sábado, março 12, 2005
Sem tempo para escrever aqui, vou só ficar deixando algumas frases. Só para fazer graça e dar a rir do meu ridículo. No espírito ora hipócrita ora ingênuo(às vezes uma mistura dos dois) do governo Lula, uma tentativa de melhorar a auto-estima -nunca vi piada tão de mau gosto-, de mostrar ao menos que esse blogue quer continuar vivo... Como o Brasil.
Frase escolhida: " Não está ao meu alcance criar uma sociedade ideal. Contudo, está ao meu alcance descrever o que, na sociedade existente, não é ideal para nenhuma espécie de existência humana em sociedade. [...]Minha perspectiva{...} trata-se de equacionar, sociologicamente, a negação de um presente indesejável." (Florestan Fernandes, em prefácil à segunda edição de A Revolução Burguesa no Brasil).
Até mais,
Jampa
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
Sobre Objeto Mulher
Vou refletir sobre a apresentação de Valéria. Dizer minha opinião sobre o como a sociologia deveria tratar as informações dadas, uma vez que nenhum sociólogo pôde ver pessoalmente o evento.
E de início acho logo engraçado perceber o quanto minha atitude pode parecer estranha : analisar, criticar, pensar, elogiar, fazer comentários sobre algo não visto por mim. Mas tenho a meu favor um fato básico da produção de objetos nas ciências sociais : a maioria dos fenômenos estudados por historiadores o são por meio de informações como as que tenho a respeito de Objeto Mulher- texto de jornais, opinião dos agentes sociais envolvidos e documentos diversos, como fotos e a cópia do projeto, por exemplo. Claro, no meu caso minhas opiniões não serão propriamente sociológicas visto o teor pouco sistemático de minhas análises. Porém, quero crer, terão tinta de sociologia na medida em que se interessam às condições sociais da produção artistica e da sua percepção(que não chega a ser uma preocupação com a recepção). Além disso, tentarei dar uma visão baseada em material empírico verificavel, a fonte é única mas variada: o blogue de Valéria com opiniões sobre o projeto Obejto Mulher. Fonte limitada de onde decorre o risco de superinterpretar ou de subestimar os elementos comentados. Espero contudo não descortinar totalmente a janela deixando apenas entrar aqueles raios de sol que claream os objetos sem ofuscar os olhos.
Para mim existe algo de problemático(do ponto de vista sociológico) no pano de fundo da proposta do Objeto Mulher. O que evidentemente não tira em nada o valor propriamente artistico da proposta crítica de Valéria. Porém o sociólogo tenta vislumbrar primeiro aquilo que o artista teve de ocultar(consciente ou não-conscientemente) para produzir o efeito estético desejado. Para e por isso, ele contorna o evento da artista dizendo o não dito, inquerindo sobre os efeitos (analíticos) das escolhas feitas. Esses efeitos dizem mais respeito a um ângulo sociológico de percepção do problema da dominação masculina do que ao trabalho de estetização propriamente dito.
A proposta de crítica da violência masculina praticada contra mulheres, da maneira como foi tratada, erige uma visão abstrata do homem o qual aperece sem atributos outros que o fato de produzir violência num determinado momento e em determinados contextos. Claro, dirão alguns, era o tema a ser abordado. E além disso o artista tem o direito e o dever de escolher traços, construir tipos, alterar a realidade para produzir sua crítica. Sem discordar disso, apenas tento questionar essas escolhas para re-dimensionar aquilo que elas escondem no intuito de capturar alguns condicionantes das leituras do evento.
Como dito, o problema do sociólogo(e não o do artista) é que o apagamento dos atributos sociais do homem, apagamento produzido pela escolha da forma de tratamento dado por Valéria ao tema que visava associar uma visão fenomenológica (trabalhar a percepção imediata da mulher no momento de uma cantada) à ruptura ocasionada pela crítica da violência(o fato de expor um “perceber-se” ocasiona sem mediação outra uma ‘impressão de liberação’), gera redução tipológica da crítica. Ou seja, não se sabe ao certo quem é o homem que diz as cantadas, o importante é saber que quem as diz são homens. O que quero expressar com isso é a idéia segundo a qual essa crítica abstrata (que apaga os atributos sociais dos homens que praticam o tipo de violência em questão) condiciona o tipo de leitura da apresentação. E o faz no seguinte sentido: ela pede a redução em abstração das cantadas masculinas. Exemplo disso encontra-se na opinião da jornalista Olivia Mindêlo quando comenta o fato dos homens serem os mais interessados na apresentação e se apressa no julgamento ao dizer que eles “encarnam aquele modelo o qual a bailarina, autora da intervenção, estava se refenrindo em sua crítica aos assédios sofridos pelas mulheres nas ruas”. Para o sociólogo é importante esse comentário pois ele não pode deixar de fazer algumas associações importantes. Quando ele vê que a jornalista identifica durante a atuação de Valéria o modelo de homem criticado, e nota o tipo de cantada que ela usa como ilustração, o sociólogo é impelido pela pergunta: como não pensar que o “gostosa”, “madurinha”, “fiu,fiu”, por mais que possam parecer “universais”, não são associados geralmente às pessoas de classes sociais menos favorecidas economica e socio-culturalmente? Sem história social, o homem da rua (da Rua da Imperatriz) é sem dúvida aquele das cantadas.
Como sabido, não digo isso para proteger “os homens bem educados” da má reputação. Mas a performação de violência distinta nas cantadas é real socialmente. Os encantos vão de eufemismos mais comuns aos galãs da classe média como “princesa” e “ coração” ao expressionismo clulo da rafaméia popular com seus “bucetuda” , “apetitosa” e “gostosa”, implicando tecnicas diferenciadas de expressão da dominação masculina. Ora, a idéia é fazer pensar a “exposição pública do corpo feminino”. Certo. Mas quem expõe o faz para um público. A exposição certamente é pública, mas o público às vezes é privado- no sentido dele reprensentar apenas uma parte dos elementos realmente performativos da dominação masculina; o homem que passa na rua da Imperatriz dá que tipo de cantada?
Além desse aspecto teria ainda dois outros que um sociólogo(como eu) poderia usar para extrair elementos para uma boa reflexão. Um trantando de outro apagamento similar ao primeiro, mas com relação às mulheres. Outro, se ocupando do funcionamento técnico do trabalho, o respeito por parte do público dos códigos criados pela artista.
Sobre o primeiro ponto, o tom é ainda crítico a respeito da escolha de tratamento analítico no que se refere a uma postura sociológica(Repito, a crítica vale apenas para uma reflexão sobre as formas de tratamento do tema e da problemática, pouco teria a acrescentar à produçaão artistisca, à elaboração estética.) Claro, por um lado faço o julgamento tendo em mente que o posicionamento político de mulher recobre o tom feminista da atuação. Por outro, entendo que na escolha feita um elemento importante da crítica feminina fica de lado: os efeitos de incorporação da violência masculina. Efeitos positivos e negativos: mulheres que aceitam e ou se submetem, ora reproduzindo de maneira passiva o tipo de dominação masculina(só se sente mulher se dominada físicamente, simbolicamente), ora, quando muito, de maneira ativa, tentando dominar a maneira dos homens. Se o exemplo da estudante Soraia revela um tipo de experiência de rejeição às cantadas: “ é isso mesmo que a gente escuta. É uma agressão, faz a gente até ter vergonha de ser mulher”. Outros exemplos poderiam mesmo mostrar o quanto as cantadas, não sei se as mesmas, provavelmente não, são importantes para a construção de uma " identidade feminina". Dou o exemplo desta doutoranda brasileira na Inglaterra que disse-me o seguinte a respeito de uma viagém que fez à Italia: “ foi ótimo ter ido lá. Os homens me desnudavam, me olhavam. Aqui (na Inglaterra) ninguém olha, ninguém dá cantada, a gente nem se sente mulher”. Assim, sem história e sem incorporação, a crítica pode produzir efeito de liberação na mulher ao se identificar com a situação de estar contra o “ser tratada como objeto” em um nível bastante explicito da reificação.Mas lá onde os mecanismos da dominação funcionam com força mais eficaz, lá dentro da mulher mesma, lá onde a mulher já não se pode ver-se mulher sem um “sentir-se dominada”, é alí a região a qual a crítica não chega. E deveria querer chegar...
O segundo ponto é ilustrativo da visão do sociólogo estando atento ao fenômeno artistico como sublimação dos elementos culturais. Com talento(do artista) significando para a sociologia, nesse sentido, o potencial de criação visto como capacidade de trabalhar os elementos codados socialmente para tranformá-los em obra de arte, ou seja, em objeto estético afetando o universo sensível do público. Sendo isso talvez o mais importante, pois, no que diz respeito a obra propriamente dita, o objeto artistico produzido, é a esse nível de reflexão que a sociologia pronucia algumas palavras sobre arte. Apesar de não ter elementos empíricos para responder a questão, pergunto: como e por que os códigos criados por Valéria (em específico a delimitação do espaço) deram certo? Suporia com a sociologia das socializações o seguinte: do lado de Valéria, as socializações diversas que viveu deram a dançarina capacidade de identificar, pelo aprendizado decorrido, a maneira com a qual um público “menos controlado”(fora de um teatro) tende a se comportar, as estratégias usadas por ela funcionam, pois, porque os códigos emplementados estão em acordo com a capacidade do público de renconhecer a codificação; do lado do público, existe na ‘socialização de rua’(todos os aprendizados do estar na rua aprendidos na mesma), a pesar da pouca cultura propriamente teatral dos transeuntes, uma socialização dramática, no sentido de haver nas ruas encenações diárias codificando os ambientes de diferentes formas. Valéria entendendo isso cria certos códigos levando em conta esses aprendizados expontâneos, usando-os e transformado-os em fonte de interesse para os passantes. Sim: ponto para Val.
Jampa.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
Vou partir da frase de Mariana como base de reflexão. Ela diz : "as ciências humanas sofrem pela falta de rigor metodológico, por estar mais imanada à subjetividade...perto daquilo que fica mais claro de ser comprovado racionalmente, de ser compartilhado por fórmulas mais universlizantes, as ciências duras ganham mais credibilidade que suas irmãs mais flexíveis."
Eu discordo em parte do dito. Mais pela formulação abstrata (dentro das ciências humanas se encontram disciplinas de natureza muito distintas) e pelo prejulgamento de credibilidade cientifica ganha com fómulas universalizantes e provas racionais (como se nas humanidades não houvesse esforço racional de explicação e ou compreensão dos fenômenos) do que pelo conteúdo do enunciado. Ou seja, eu acho que seja inegável o fato das ciências duras terem mais credibilidade do que as ciências moles, se credibilidade se limita e aceitamos que ela deve se limitar aos efeitos de "dureza" produzidos pela experimentação(no sentido dado por K.Popper). Porém, creio que ficar nesse nível do debate espistemológico, nível demasiadamente teórico, satisfaz pouco a sede de entender a respeito da questão de saber que tipo de conhecimento uma ciência humana pode produzir e tem produzido. Além disso, como já dito, as ciências humanas possuiem subclassificações como as de "ciências sociais ou da sociedade" e "ciências históricas", por exemplo. E cada uma dessas subdivisões agrega disciplinas tão próximas umas das outras pelo método e tipo de construção de objetos como é, por exemplo, no caso das ciências sociais, a sociologia da antropologia e da história, quanto distantes nos mesmos aspectos, come a economia é da sociologia e da antropologia. O ponto de inflexão do debate vem do fato significativo de que devemos, antes de prejulgar a falta de cientificidade e objetividade de qualquer ciência, permanecer no campo propiamente empirico e vislumbrar o tipo de conhecimento produzido por cada ciência.
O caso da sociologia
Vou me ater ao exemplo da sociologia. Ciência como as outras ou não? Se sim, em que sentido? Alguns amigos talvez achem estranha minha posição. Desde de início do curso de sociologia, ao bem da verdade, hoje sei, sem nenhuma condição de dizer em que consistia o trabalho de um sociólogo, julgava fundamental ter uma base filosófica sólida para dar suporte às questões de cunho sociológico.(Antes achava fundamental, hoje penso ser apenas importante). Mas o que ignorava na época era justamente a natureza das diferenças existentes entre tais disciplinas pelo simples fato de fazer amalgma delas numa idéia abstrata de trabalho intelectual: se tonar sociólogo é ler mais livros de sociologia, se tonar filósofo é ler mais livros de filosofia. Simples e eficaz para quem não é nem sociológo nem filosofo, mas se achava já um pouco os dois. Para mim, naquela época em pleno trabalho de aculturação com relação às praticas acadêmicas, a leitura era o ato que unia os universos distintos das especificidades disciplinares. E o que mudou? Nada de minhas impressões iniciais tornou-se totalmente falso. Claro que a leitura é uma prática comum a qualquer atividade intelectual, acho que dizer isso chega a ser tautológico. Porém, e podem discordar se for o caso, ler é uma prática que, no caso de disciplinas as quais se querem científicas(e empiricas), tem significado especifico (de instrumentalização, de utilização) podendo passar de pura análise de texto ( com tecnicas convensionais de compreensão) à leitura de dados estatíticos (que significa esforço de contrôle no que diz respeito a transposição de tipos de liguagem, etc).
Por que digo tudo isso e o que isso tem a ver como a questão do nível de dureza das ciências sociais?
O fato é que acho que as ciências sociais em geral são ciências em sentido especifico naquilo que produzem de conhecimento objetivo e rigoroso nos limites impostos pelo carater histórico das informações no qual tais disciplinas repousam e retiram significado. A sociologia só ganha em sentido e em especificidade naquilo que ela é propriamente histórica (no sentido de Weber), ou seja: quando ela adentra nas singularidades e particularidades, quando ela evoca o método comparativo como próprio a produção do entendimento sociológico.
E a sociologia, onde está com relação as ciências duras?
Ao meu entender a sociologia é uma ciência hibrida em sentido especifico. Ela não entra no espaço de probação popperiano( espaço no qual numa experimentação científica devemos satisfazer as condições ideais de prova: tudo deve se dar de maneira igual em qualquer contexto isolado de mesma maneira). Em sociologia não existe experimentação stricto senso.
Mas por que continuar chamando de ciência uma disciplina que não satisfaz tais critérios ditos de cientificidade?
De minha parte é uma questão de postura quase política. Existe o risco forte e presente nas ciências humanas do relaxamento, do desleixo, da selvageria interpretativa e hermeneutica, do tudo é válido em matéria de ciências humanas. A palavra ciência vem a lembrar a importância do rigor, da produção se não da prova, da argumentação bem fundamentada(empiricamente, metodológicamente, teóricamente).
Por hoje é isso.
Jampa
domingo, fevereiro 06, 2005
O tempo é de resignar. Minha teimosia era a de querer tratar de maneira insuportável das coisas simples. Fui teimoso para não ser reconhecido como blogueiro fajuto, daqueles que aceitam a facilidade de agradar e querer ser amado pelo resultado da carícia textual produzida. A pequena história do meu blogue é uma marca do esforço gorgico para reter a separação entre sedução e argumentação, retórica e ciência, doxa e episteme, derme e epiderme. Vontade tôla e vã de invadir o mundo alheio, de tonar o espaço cibernético um pouco menos repetitivo, de contrariar os "não dá para ser de outra forma" ou "é isso mesmo, é assim mesmo, tinha de ser assim", e, a contragosto, ir infligindo às normas ditadas pelos "esse espaço não é para isso", "niguém suporta ler esse tipo de coisa", "você acha que as pessoas podem entender palavras dificeis", "isso é muito intelectual", etc.
A maioria dos "posts" foram escritos de maneira livre. Mantinha como rigor apenas o esforço de reflexão a respeito do que se ia dizendo. Nos textos mais chegados à crônica, a idéia implícita era de situar e reorganizar fragmentos de minha memória para uma confrontação com o universo mais literário, ou seja, quis dar forma ao conteúdo mal estruturado de minas recordações. Mas a consciência dos meus limites objetivos no lidar com a lingua portuguesa foram minando a boa vontade e o espírito de partilha presentes no intento. A lição fica: quem desse mundo não espera apenas agradar, aprende que, pelo rumo das coisas, a quem ele não agrada, agride.
***
A vinda de Ton à Nancy foi muito agradável. Encontrar um amigo o qual a muito não via dá-me sempre a boa impressão de ver no velho algo novo. Não que ele parecesse envenlhecido, mas nossa amizade começa a fazer seus decênios. E com isso, a ausência acompanhada da distância move nosso olhar na busca de confrontar o presente à lembrança, à memória. O resultado disso é a sensação de ver no mesmo o outro, um claro renovar da amizade.
Engraçado foi perceber os pequenos atritos devidos às formações acadêmicas disntintas. Um Ton físico e um Jampa sociólogo. Dois maristados formatados por caminhos rigorosamente diferentes. Deus nos acuda para as incompreensões mutuas. Leituras de mundo dissonantes, ligadas entre si pelo fio tênue da camaradagem e do respeito. " Preste atenção querid[os], o mundo é um muinho", tinha em mente quando conversavamos, maneira de me conformar. Pois, bom ou mau sociólogo que eu seja, sei bem da posição de "inferioridade acadêmica" da minha disciplina em relação à dele. Expeterza sociológica ou não, o certo era a alegria de vê-lo aplicado ao trabalho científico, sonhando com pés no chão com a carreira que tão bem começou.
sábado, fevereiro 05, 2005
Cronograma do futuro próximo (Ou: de como funciona a cabeça de Jampa)
Amanhã (Sabado de carnaval no Brasil): das 10:00 hs às 12:00 hs, redação de um texto. A tarde, leituras de O Pão. Finalizar leitura de Literatura e Cordialidade. A noite, dependendo do cansaço, traduzir para o francês as passagens de Raizes do Brasil a serem aproveitadas dentro da dinâmica da argumentação visada para análise sociológica de O pão.
Questões a não perder de vista:
Faz sentido falar de cordialidade dentro da pratica dos "padeiros"? Se sim, em qual medida ela (a cordialidade) pode servir de auxilio para uma compreensão mais precisa do processo configuração do "campo literário" existente dentro do campo intelectual ?
Pistas: levar em consideração a cordialidade como espécie de "ethos de classe", ou seja, como visão de mundo relativamente homogênia causada por uma vivência em comum, por uma socialização vivida nos mesmos moldes (no sentido de consonância dos "problemas de uma geração", dos "livros incontunáveis", etc.), é, se estou no bom caminho, tornar mais clara as estratégias dos agentes no que diz respeito às influências de suas motivações na produção da atividade intelectual e literária. Pensar nos efeitos do tipo de formação que boa parte de nossa intelectualidade teve(Não esquecer Antônio Cândido na Formação, e em Literatura e Sociedade: formação que parece uma deformação, mas a deformação-formação vista em comparação a uma formação vista como mais autentica- termina por informar da formação deformada.)
Risco: Reproduzir o discurso normativo segundo o qual teríamos no Brasil uma forma de modernidade incompleta ou a completar, tendo como base uma modernidade autêntica: a da Europa.
Contra-agurmento do risco: Levar em consideração uma tal tipologia perde o seu carater puramente normativo se a utilização do conceito de cordialidade guardar seu carater heurístico e se articular bem, como espécie de habitus intelectual existente, à construção das modalidades de configuração do espaço social analisado.
Questão a responder: em que a cordialidade ajuda a restituir com mais precisão as modalidades do campo intelectual?
Vem pessoal, vem moçada, carnaval começa na frente do computador... As vezes de madrugada!
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Escrevo esse texto motivado por um pequeno debate existente entre mim e meu amigo Júlio. No fundo, uma pequena querela sobre o fenômeno do lixo cultural e das leituras que podemos fazer dele num texto para o "grande público". Além disso, também vou procurar alargar o debate no sentido de analisar a questão de maneira livre, porém me detendo aos pormenores das estruturas analíticas usadas por mim. Coisa que sempre costumo fazer para treinar, mesmo em textos despretensiosos, a pretensiosa prática da reflexividade levada ao extremo: analisar as condições de analise é sempre uma das maneiras mais seguras de tentar controlar o nível de "pré-julgamentos" daquilo que dizemos. Mesmo que isso não nos dê garantia plena da verdade dos nossos ditos, dá ao leitor elementos para entender melhor, em etapa posterior, os erros ocorridos e os preconceitos emitidos, garantido assim, senão a verdade dada pelo o esforço do autor, ao menos a verdade decorrente desse esforço.
A)- A variação entre miserabilismo e populismo em textos acadêmicos
Vou tentar discorrer em tipologia sobre coisas que em realidade só existem de maneira compósita nos textos. Apenas em alguns casos grotescos poderiamos encontrar miserabilismo e populismo de maneira pura, sem as oscilações e variações dos elementos constituintes das duas visões caricaturais do popular decorrentes de tipos de análise especificas do que se diz popular. Como não poderia deixar de ser, os tipos de análise são também variados e ambivalentes nunca aparecendo em estado puro. Motivo pelo qual concordo com a opinião emitida por Júlio quando disse que " é preciso ser cuidadoso para falar sobre esse assunto sem soar preconceituoso. Você vai experimentar e sentir isso." Porém, vejo que é justamente na palavra cuidadoso o lugar onde esconde-se os melhores indicadores para esse debate. Pois o preconceito é para mim geralmente o resultado de uma falta de cuidado. Porém é preciso cuidar do cuidado que devemos ter, se me faço claro. E para isso é preciso recorrer ao entendimento dos elementos constitutivos das formas de encarar a cultura popular no discurso. Além disso, deve-se evidenciar o que se coloca em jogo quando arbritamos entre essas formas.
B) Pequena Reflexão sobre a analise ideológica e da produção do miserabilismo
O que me incomda em certos textos é o fato de se aceitar de maneira acrítica um elemento do discurso recorrente em arte sobre a questão do bom gosto. Lixo cultural, parece-me, como também o kitch, duas faces de um mesmo fenômeno de classificação desvalorizante da produção artistica dita popular. Recorrem os artitas do kitch e do lixo cultural, enquanto ideólogos do discurso da reutilização das "artes menores", ao arbitrário argumento de que existem pessoas capazes de dar verdadeiro valor estético ao que antes se apresentava apenas como "experiência espontanea" da vulgata pseudo-artistica da produção popular. O que deveria obrigar, da parte de quem analisa a questão, seja ele jornalista, sociólogo ou qualquer outra coisa que os valha, uma preocupação sobre as razões e justificativas de um tal argumento.
Para mim, por um lado, é preciso recorrer à uma analise idelógica de corte sociológico para reenquadrar os elementos dessa problemática de maneira mais adequada. Porém sei que, por outro lado, isso seria imcompleto para uma leitura visando o perfeito entendimento do valor das obras produzidas por populares. De fato, além da questão da dominação das "elites culturais" sobre os produtores das "artes menores" existe o fato, ao meu ver pouco contestável hoje, da relativa autonomia entre as culturas. Fato que daria ao produto das artes populares um valor em si digno de nota e que, não poucas vezes, nos discursos demasiadamente relativisticos, incorrem no erro populista de eliminar o fator de dominação para afirmar de maneira errônea a autonomia total das artes populares.
C) Exemplo paraibando em Recife: um caso típico do discurso da reutilização.
Em Recife temos um bom exemplo desse contraste que mereceria um estudo: Ariano Suassuna e seu projeto estético armorial. Mas quem teria a coragem de fazer um trabalho crítico sobre o autor do Alto da compadecida? O fato é que a obra de Ariano é rica por ser produto da tensão entre as duas formas de ver a arte popular sendo também uma tentativa de superá-la. Não seria dificil perceber no projeto mesmo da arte amorial que a fusão do popular e do erudito acontece de maneira tal que os motes populares são estetizados à maneira erudita. A estética é um elemento próprio da erudição(enquanto trabalho refletido sobre o conhecimento de outras formas estéticas) e "populariza-la" seria incorrer em mau gosto. Melhor, mais artistico é fazer o contrário. Eis o conteudo implicito do miserabilismo presente na obra de Ariano. Claro que no discurso dele tudo parece se resolver em frases como: existe bom e mau popular como existem bom e mau erudito. Porém, como creio, isso não elimina o fato das diferentes práticas artisticas em seus respectivos graus de valorização na sociedade(principalmente no campo da arte) continuarem a ser os instrumentos de medida do valor em arte. E quando dou esse exemplo, sei que podemos encontrar no mesmo autor, elementos populistas oriundos de sua admiração da arte popular. Quantas e quantas vezes não vimos Ariano defender a arte do povo pelo simples fato de sua espontaneidade? Ser espontaneo é próprio da cultura popular. Questão de praxis: como averiguar e quem decide o que é o bom e o belo das expressões espotaneas? Ao que vejo só alguns ilustrados, eruditos, na mesma lógica miserabilista de antes, parecem ou aparecem, para conferir valor a tais práticas querendo lhes atribuir valor artistico(talvez o mesmo da arte erudita).
Vejam que não tento resolver aqui o problema, mas e mais apontar para a problemática. Insisto que a tensão é indissolúvel ao meus olhos, contudo acho que a anlise dos limites dela pode ajudar a amenizar os riscos de reprodução do preconceito alheio.
Por hoje é isso que estou cansado.
sábado, janeiro 08, 2005
A Padaria Espiritual foi um grupo literário que existiu no fim do século XIX, em Fortaleza. Existindo em época de grandes transformações estruturais da sociedade brasileira(o programa de instalação da Padaria Espiritual apareceu em maio de 1892 quando República e Abolição eram novidades apreciáveis), o exemplo desse grupo pode servir de indicador das alterações nas maneiras de pensar e agir dos agentes socio-culturais do período.
Como?(Indicações)
A Padaria é o primeiro reagrupamento literário fundado depois da proclamação da República em Fortaleza. E isto, nos diz Nobert Bandier, reforça o traço característico dessa agremiação com relação às outras naquilo que ela aparece como "imediatamente associada à transformação ideológica e cultural do movimento repuplicano no Brasil". E com efeito, encontramos em Antônio Sales, principal organizador da Padaria, a opinião de que existia uma feição boêmia gerada desde os primeiros dias de República gerando alí (no Café Java na Praça Ferreira, onde os integrantes da Padaria se encontravam)o ambiente proprício para "trocas de impressões sobre arte, os comentários sobre leituras". E é pensando nessas indicações que se tenta (re)traçar os "efeitos simbólicos da proclamação da República em Fortaleza". Num colóquio sobre o assunto, foi da relação entre duas formas de cultura, uma de inspiração oral e outra ligada à escrita,que o sociológo "lionais" propunha a hipótese segudo a qual a "modernidade" do período acusa as tensões entre as duas formas de cultura num momento em que a instauração da República reativa dentro do campo intelectual toda uma série de outras contradições.E é de nosso interesse seguir tal pista reorganizando a problemática da modernidade a patir das relações entre formas de cultura em ângulo diferente, redimencionado a compreensão do significado das contradições existentes e caracterizando as tensões socio-culturais enraizadas também na textura de nossas escolhas teóricas...
Para isso, antes de vislumbrar um encaminhamento analítico para o estudo do grupo em questão é preciso, ao meu entender, confrontar-se às dificuldades imbrincadas à escolha da orientação teórica tomada como pano de fundo do estudo ainda em estado de projeto. Força da envidência com a qual incorre em erro o fato de rejeitar, esquecer ou ignorar precauções com relação ao fator de inclinação ideológica com o qual lida qualquer sociologia ao se deparar com a construção de seus objetos, por mais neutros que possam parecer. Particularidades socio-culturais brasileiras constituem assim, naquilo que elas implicam por "antecipação" decorrente do esquema analítico escolhido, uma reflexão sobre a autonomia nos mais diversos sentidos da palavra.
Nesse sentido tentaremos nos escrever em duas frentes teóricas de teor empírico.
Uma Primeira se propondo a realizar o aparante truísmo bourdieusiano se servindo do método comparativo, para comparar: "Analisar diferentes campos(religioso, político, científico, etc.), nas diferentes configurações em que eles podem se encontrar segundo às tradições nacionais, tratando cada um deles como "caso particular" no sentido verdadeiro, ou seja, como um "caso exemplo" entre as configurações possiveis, é conferir toda eficacidade ao método comparativo". Nssa primeira frente o que está em jogo são as modalidades de construção do campo enquanto conceito operacional, o como considerar os elementos objetivos (posições existentes no espaço social, instituições, etc.) e os elementos subjetivos(tomada de posição, estratégias dos agentes,etc.). Uns e outros devem responder nos seus efeitos heuríticos as exigências da especifidade do caso particular enquanto tal.
A outra frente pode ser vista como complementar à primeira. Ela consiste em dar estabilidade a analise comparativa introduzindo uma reflexão "ad doc" que dê suporte às limitações indicadas pelo tema da autonomia relativa do campo seja ela vista como dado objetivo ou objetivo visado pelo grupo a ser analisado. Ela se insere na reflexão sobre a alternância e/ou ambivalência entre miserabilismo e populismo em sociologia e literatura quando se trata de trabalhos sobre temas nos quais deve-se escolher entre análise ideológica(que é cunho sociológico, estudos sobre formas de dominação) e análise cultural(de cunho digamos assim, antropológico: trantando em relativismo cultural, em termos de autonomia cultural,etc.). O primeiro tipo analítico toma como elemento crucial do real a ser estudado a dissimetria do social e o segundo a simetria interna (cultura) do mesmo. Um e outro nunca se apresentam em estado puro e transitam em alternância e ambivalências pelos textos a fora. Lições dessa tensão devem incorrer da natureza mesmo da Padaria Espiritual que, querendo dar pão de espírito ao povo cearence, parecia querer defender uma arte em sua autonomia artística. Um jornal(O pão)foi criado como forma de expressão da Padaria, e não uma revista literária. Populismo? Se sim, em que sentido? Existe traços daquilo que Sergio Buarque chamou de cordialidade na proposta mesma da Padaria? As questões a tratar são muitas: que é que ser intelectual para um brasileiro intelectualizado da época? O que é o povo para ele? O que é ser intelectual para alguém não escolarizado? Em que a resposta a essas questões podem ser importantes para a consideração das modalidades de constituição do campo intelectual e o entendimento por meio do estudo da Padaria da configuração social local da época?
segunda-feira, dezembro 20, 2004
"Seus filosofemas me lembraram o raciocínio de alguns filósofos de que se uma bala fosse atirada contra eles, a bala teria sempre que seguir a metade da trajetória. Quando chegasse na metade, teria que seguir outra metade, e assim por diante. Ou seja, a bala nunca chegaria no filósofo, por causa de infinitas metades que teria que percorrer. Por precaução, esses filósofos nunca foram chegados à empiria de suas teorias." (Cesar)
Uma certeza existe: o formal se mostrou nos mais diversos campos da produção do saber o lugar próprio da produção das verdades mais irrefutáveis já formuladas pelo espírito humano. Verdades, é verdade, por definição desviculadas de qualquer realidade empírica. E quando falta o real concreto toda verdade pode ser de fato acusada de vázia e cínica. Afinal, quais são os reais limites entre a lógica formal e o que esta pode dizer do mundo real? Depois de Marx podemos ainda confundir a lógica das coisas com as coisas da lógica?
A ciência moderna, como sabemos, tentou burlar essa tensão maldita entre razão de pura abstração e razão empírica. Minha querida sociologia quer ser uma ciência humana e talvez seja mesmo a disciplina mais bem posicionada para equacionar um tal dilema. Por um lado, se simplificamos o assunto, podemos dizer que a sociologia no seu uso da estatística seja uma ciência visando um grau de formalização específico através de ferramentas matemáticas. Por um outro, se somos mais atentos, podemos encará-la como uma disciplina que reconhece no uso mesmo de tais ferramentas e na necessidade de tranferência da "liguagem estatística" à "liguagem natural" o interesse do "arbritio sociológico" que necessita abdicar do formalismo das informações para dar sentido histórico(Weberiano isso não?) ao que se quer dizer...(Esta é por sinal a sociologia que acredito possível, histórica e contingente).
Por que diabos digo isso?
Meus filosofemas podem fazer pensar a filosofias criadoras de falsos paradoxos, mas se revestem de uma certa consciência da matéria mais ou menos abstrata dos seus dizeres. Se muro e arvore são elementos imaginários para um filosofema amorfo, a verdadeira lição empírica se encontra na marreta. Todo curioso de plantão(e não à Platão) devia usar tal ferramenta para justamente parar de ficar se perguntando se atrás de um muro existe ou não um arbusto. Com ou sem dialética derrubar o muro é única solução científica(?) para um tal "problema". Mas problemas lógicos são como chifres, "são coisas que colocam na sua cabeça". E "chifres" é "numeros" em francês.
Claro, no caso de uma bala atirada o enigma da incongruência entre argumento formal e realidade pode trazer conseqüâncias mais sérias para os filósofos de Platão(digo, dos que crêem no realismo das idéias). Vacinado, acho que a razão e mesmo a lógica podem encontrar caminhos mais seguros de evitar uma morte prematura ou cinismo conscientemente concebido.
segunda-feira, dezembro 13, 2004
Uma arvore atrás de um muro alto. O curioso quer saber o que há além daquele obstáculo. A própria dúvida leva-o à hipótese da existência de algo. Por que não um arbusto? Se eu creio que ele pode existir antes mesmo de apreender qualquer atributo dele em minha consciência, sou realista. Se diz a si mesmo, curiosamente.
Um realista é todo homem ou mulher crente em formas de existência independentes da razão. Ou relativamente independentes, pois, tais pessoas podem se dar conta da relativa igenuidade dessa crença. Do que vale o fato das coisas idependerem de meu modo de pensá-las se sempre que as penso verifico a integração dependente entre mim e elas? Objetos pensados são objetos construidos. Mas só isso?
A imbricação mutua entre sujeito e objeto não elimina a relação de resistência deste para com aquele. Mas o que isso quer dizer?
Quer dizer por exemplo que Jampa(sujeito), cansado e triste, vem para o seu blogue testar a paciência(objeto) dos seus poucos leitores(também objetos) para com assuntos completamente desprovidos de interesse(mais objetos que a paciência e que os leitores). O sujeito (Jampa), como vemos, não tem total contrôle sobre os objetos (leitores, assuntos desinteressantes e paciência). Nesse caso o elemento de objetificação não funciona como devido.Ou seja, o esforço de distanciamento entre o sujeito(Eu) e objeto(Vocês, etc.), responsável do trato epistemológico de ruptura entre um e outro(sujeito/objeto), não é efetivado. Isso ocorre porque de fato vocês e eu fazemos parte de um mesmo corpus de humanidade. Em resumo isso tudo ficaria assim: eu sujeito, sujeito vocês objetos-sujeitos a serem apenas objetos pora fins científicos(de paciência).
A arvore existe sem minha autorização cognitiva. Fico indignado com esse fato. Acho que ela só existe pensada. Pois que é que existe fora do pensamento racional ou não? Mas o pensamento imagina o mundo antes da Razão, da cultura, dos homens...
O curioso olha o muro. Ele se diz, sabe de uma coisa, na dúvida eu vou pegar é minha marreta...
segunda-feira, dezembro 06, 2004
Num texto postado logo após minha volta para os ares franceses falei de minhas angustias usando uma lanterna, ela era emprestada. Era do Drummond. Então resolvi mostrá-la com o dono. Como vocês poderão notar, ela é mais bonitinha sem as sombras do emprestimo. Abraço carinhoso. Jampa.
A lanterninha
APAGUEI TODAS AS LUZES, e não foi por economia; foi porque me deram uma lanterna de bolso, e tive a idéia de fazer a experiência da luz errante.
A casa, com seus corredores, portas, móveis e ângulos que recebiam iluminação plena, passou a ser um lugar estranho, variável, em que só se viam seções de paredes e objetos, nunca a totalidade. E as seções giravam, desapareciam, transformavam-se. Isso me encantou. Eudescobria outra casa dentro da casa.
A lanterna passava pelas coisas com uma fantasia criativa e destrutiva que subvertia o real. Mas o que é o real, senão o acaso da iluminação? Apurei que as coisas não existem por si, mas pela claridade que as modela e projeta em nossa percepção visual. E que a luz é Deus.
A patir daí entronizei minha lanterninha em pequeno nincho colocado na estante, e dispensei-me de ler os tratados que me perturbavam a consciência.Todas as noites retio-a de lá e mergulho no divino. Até que um dia me canse e tenha de inventar uma outra divindade.
domingo, novembro 28, 2004
Não sou de ficar lendo jornais e verificando erros de português desse ou daquele jornalista, até porque sei que faço os meus com certa freqüência. Mas como deixar de registrar uma jóia rara como é este parágrafo sobre as divergências internas do PT:
"O deputado federal pernambucano Paulo Rubem Santiago e o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, e a equipe econômica do governo, a ex-secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Social, Ana Fonseca, e o ministro Patrus Ananias, o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, e Palocci têm divergências."
(http://jc.uol.com.br/jornal/2004/11/28/not_117080.php) In: BRIGAS INTERNAS II - PT: moderados e radicais sempre em choque
Gostei do final: "e Pallocci têm divergências". Pois o "têm divergências" no plural dá à concordancia verbo-nominal o seu carater pleno: ele mostra que a pluraridade de nomes mal coordenados dificilmente desvenda o mistério de saber quem discorda de quem. Texto mistérioso. Acho que alguns filosofos desconstrucionistas encotrarão nele uma forma intrigante de dizer as coisas desdizendo: "no fundo ele revela o fato de não se poder entender os desentendimentos internos" dirão eles. Têm divergências é o mais importante final de parágrafo que li nesses ultimos dias.
Tá vendo, têm divergências gente!
Concordam?
sábado, novembro 27, 2004
Tive minha primeira conversa com meu orientador de pesquisa. Boas horas de Padaria Espiritual, de questões sobre os poderes heurísticos de certos "conceitos bourdivinos"( Arron brincava assim falando das noções do jovém Bourdieu), de propostas e programas de análise para "O pão" e, talvez esta a melhor parte, de trocas mais pessoais sobre os diferentes percursos do aluno, agora pesquisador, e do ainda estudante, quem sabe um dia profissional da pesquisa.
Assim conto as coisas ditas.
Ele falou-me do porquê começou a fazer sociologia. Na época, disse ele, acreditava poder mudar o mundo através da ciência. Como a disciplina aparecia-lhe naquele período como altamente revolucionária, isso foi motivo suficiente para deixar a universidade de medicina e se engajar naquela ciência do social subversiva e potencialmente transformadora. Disse-me ainda que não continuaria os estudos começados sobre a Padaria Espiritual por causa da limitação dele com relação ao português. Expressou alegria com meu entusiasmo e motivou-me a continuar. Pareceu-me um sociológo extremamente tímido e pouco vaidoso.
Ele contava essas coisinhas de sua carreira com uma certa alegria. Um ar vivo de uma acumulação feita por decepções e descorbertas. Quando eu falava de minha impressão de inadaptação ao "ofício de sociólogo"(fazendo referência ao livro "metier de siciologue"), tratou logo de acalmar-me dizendo que sentia ainda hoje o mesmo, depois de tantos anos de pesquisa.E acrescentou: há alguns colegas de trabalho que por algum motivo insistem em mentir para os estudantes, mas se somos honestos conosco,devemos admitir que essa impressão de inadaptação é parte integrante de nossa profissão.
Depois ele falou um pouco de uma crise teórica dele. Da relação dele com a sociologia de Bourdieu e dos limites e qualidades da mesma. Foi um excelentre encontro.
Assim conto da introspecção.(O que pensei depois da conversa)
Alí pensei nos passos dados por mim. Como cheguei na sociologia. E o que me fez continuar apesar de todo o sentimento de impotência diante dos livros, da escrita, da erudiação alheia. Digo isso sem esquecer de minha fortuna inicial. Estudei em colégio particular e nele tive oportunidade de reunir alguns elementos necessários para a vida acadêmica. Contudo, o sentimento de incompetência e de preguiça adam sempre de par com a certeza da impotência diante da violência que é aprender(para mim). Dizer sim ao arbitrário da cultura escolar, coisa que fiz apenas em parte, é ceder de maneira resignada a um outro arbitrário, o da autoridade pedagógica e seus ilustres representantes( em geral professores no caso da instituição escolar e pais no caso da familiar).E é sim por causa dessa dupla de arbitrários que toda ação pedagógica, em teoria, é uma violência simbólica: ela é imposição de uma cultura "escolhida" (mas escolhida sem niguém escolher)aos individuos a serem educados. Passo necessário(socialmente) e difícil (individualmente) a "aceitação" da cultura escolar (que é sempre imcompleta) é, objetivamente, mais dificil para uns que para outros por causa das lógicas de reprodução das desigualdades existentes. Pois numa sociedade na qual se opera de maneira mais ou menos rígida, num determinado período da sua história, o vínculo entre duas formas de reprodução, a escolar e a social,nela, é possível notar a centralidade da relação de tipo cultura dominante/cultura dos dominates...
E relembrava pensando: Sociologia para que? No início, ainda na UFPE, tentava entender as razões dos diferentes destinos dos seres humanos. Pobres, por que pobres? Ricos, por que ricos? E também, talvez mais ainda, por que alguns pobres ficam ricos e outros não? Por que alguns ricos ficam pobres e outros não? O que impede, o que torna possível? Mudança, reprodução. O mesmo, mas outro. O outro, mas ainda assim, o mesmo.
Acho que já por essas questões e constatações cheguei a ir com Cesar à UR-6, ainda no primeiro período do curso, se a memória é boa, para entrevistar uma amiga sobre o tema da morte ou algo assim. Lembro que Cesar se impressionou com a "naturalidade" com a qual eram tradados a violência, o assassinato, o extermínio, os crimes em geral. Minha amiga dizia: "ah, fulaninho, aquele alí morreu assim e assado. Ah, beltrano, aquele alí tinha mais jeito não, pegaram ele e fizeram isso e aquilo..." E os nomes e as formas de matar e morrer e mais nomes e mais mortes e mais formas e tudo o mais entrava no discurso como se ela estivesse falando de um capítulo da última novela. Creio que depois desistimos: talvez nunca se esteja pronto pra uma sociologia da verdade de verdade. Não sabia ainda o que um sociólogo fazia, mas o mundo real que um cientista deveria "desvendar" pareceu-me perto daquilo alí. Depois, vindo mais para o presente, acho que tenho perdido essa ilusão positivista da sociologia e do mundo social que ela tenta abarcar. Aos poucos e aos trancos e barrancos, na medida em que avanço em meus estudos, tenho tido a oportunidade de entender meus limites e controlar os desejos extrapolados de entender e explicar o mundo. Paradoxalmente, com mais calma, o meu "mudar a sociedade" parece estar menos necessariamente atrelado ao entendimento sociológico do mundo. Claro que o conhecimento adquirido e produzido pela sociologia pode ser utilizado, na minha opinião, para dar suporte as minhas convicções políticas. Mas ele não engendra necessariamente uma postura normativa do tipo "isso é científico então devemos fazer isso ou aquilo". Penso por fim que é de uma consciência desse tipo, ou bem parecida, de onde o meu orientador tirava seu ar um pouco melancólico, porém satisfeito. No fundo vejo minha felicidade num tipo de serenidade plena de melancolia e esperança, repleta de passado e futuro. E o presente? O presente é para mim moderno, tempo de mudanças, devo estar mudando...
sexta-feira, novembro 12, 2004
O fato é que não estou conseguindo escrever nada sobre essa danada de Padaria Espiritual. Acho que é por isso venho aqui, dizer o que me intriga. Quem sabe não descubro com vocês as coisas as quais gostaria de poder entender desse grupo de poétas do final do século XIX (1892-1896).
Um descritivo da vida intelectual da Fortaleza da época talvez não seja desprovido de sentido. Assim, talvez, possamos entender a pertinencia de se querer estudar sociologicamente um grupo ou o jornal dele(O pão)em aparência tão desprovidos de interesse.
Fortaleza é nesse tempo uma pequena cidade do Nordeste brasileiro que conta pouco mais de 40 000 habitantes. Entre 1887 e 1900 contava-se 17 000 analfabetos. Em 1880 o ensino secudário acolhe mais ou menos 500 estudantes. Além diso, como podemos constatar nos cenários intelectuais nordestinos da época, literatura e jornalismo estavam imbricados e, junto a essa comunhão, as carreiras políticas também se intrelassava.
Amalgma de campos, coexitencia de dominios, dependência na articulação das esferas de autonomia. Eh nesse contexto que o Jornal O Pão, que tinha como intuito "dar pão do espirito para seu membros, em particullar, e para as pessoas em geral", parece e aparece como fenômeno digno de nota e curiosidade.
Como nota meu orientador Norbert Bandier, "o caso da Padaria Espiritual permite esclarecer a natureza do que está em jogo, das coerções(contraintes), dos conflitos e das relações de força que caracterizam um campo intelectual local na sociedade brasileira do fim do século XIX. Decorrente da estreiteza das camadas cultas, não existe verdadeiramente um público para as criações literárias e de momento constituidas de 'sociedades literárias', de regrupamentos 'corporatistas', sua freqüentação alimenta uma sociabilidade autocentrada. Não exite um campo literário local: nenhuma edidora é identificável em Fortaleza, as edições das obras são feitas por conta do autor ou por 'subinscrição' utilizando uma gráfica pertecente a um jornal local."
O título do artigo de Bandier é o que, de fato, deixa-me mais intrigado: "Esboço de analise socio-histórica de um grupo poético brasileiro: A Padaria Espiritual. Uma luta pela independência da literatura".
Ora, se nos atemos um pouco a história do campo literário francês tal como retraçada por Pierre Bourdieu nas Regras da Arte e, com isso percebemos que,1) nos termos daquela analise, para que haja autonomia do campo e reinvidicação da mesma, é preciso uma configuração social na qual estejam inseridos e se desagregando elementos que delineiam uma relação de fronteiras demarcadas(champ/campo),2) como entender então um grupo que, em configução quase dialmetralmente oposta, aposta quase que utópicamente na busca por essa autonomia?
Perguto-me:seria essa questão pertinete, ou avalia de forma imprecisa o elemento específicamente anacrônico própio as atividades literárias periféricas que, nequela época, ainda viveriam de um mimetismo retadatário das correntes literárias européias?
Do ponto de vista teorico-metodológico a questão se dobra de elementos de imprecisão. A partir de quais condições um conceito pode ser transposto?Um conceito descritivo recebe ou não influencias do "ambiente empírico", do "contexto" no qual foi formulado? Se sim, quais são? E em que sentido podemos manter sua "operacionalidade" diante de um novo contexto? O conceito em questão é, obviamente, o de campo.
Como podem ver, tenho mais perguntas que respostas a dar. Por enquanto o mais incomodo são as datas. Já para semana que vem seria preciso escrever uma boa dezena de páginas a respeito. Dia dez de dezembro vou ter que dissimular meus saberes sobre o assunto diante de professores e alunos durante vinte minutos. Haja coração.
Vou indo. Acho que ja me extendi demais para um post de blogue.
Quem sou eu (no blogue)
- Jampa
- Recife, Pernambuco, Brazil
- Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.