segunda-feira, dezembro 15, 2008
"Entrevista" com Gilmar Mendes Links
sábado, dezembro 13, 2008
Teste da foto: memória presente de algumas veredas
Já tentei lembrar o que diabos estavamos vendo nesse dia. Mas desisti. Acho até que Diogo já me lembrou uma vez, mas minha memória é por demais seletiva. Já apaguei da minha a recordação dele. Talvez alguém falando sobre marxismo, ou sobre a sociologia pós-estruturalista, ou sobre alguma bobagem dessa que se vê num auditório cheio de estudantes de graduação em ciências sociais. Mas nada disso importa, mesmo.
Na foto temos, dos que mais convivi, da direita para esquerda (a ordem é quase sempre importante): Dosta, Frávio, Cesar, Jampa e Diogo. Logo atrás, Cunegundes e mestre Giva... Acho que Simone está à esqueda, mais ao fundo, sempre de preto. E penso reconhecer Adriana ainda mais atrás , mas não tenho certeza alguma.
***
Cada um com seu cada um, dizia um amigo da UR-6. Ele repetia essa frase em alguns tipos de situação. Um amigo te traiu, "cada um faz o seu. Cada um com seu cada um. Não é assim não?" Eu achava incrível aquela franqueza individualista. Era uma coisa tupiniquim, violenta. Não confie em ninguém. Seja auto-suficiente, assim você sobrevive melhor. Ainda hoje acho isso raro. Não sei bem a razão, mas essa frase me ficou e acho que individualismo é isso: "cada um com seu cada um" E depois, para piorar, tendo a pensar que essa maneira de ver sempre acompanha um certo naturalismo conservador "não é assim não?". O individualismo, para mim, é fruto do medo naturalizado do outro.
Hoje percebo que aquela maneira de falar de meu amigo da UR-6 era um código. Decifro-o agora: para o pior, que ocorre tão freqüentemente, é sempre bom estar preparado. Cada um com seu cada um é uma vacina que prepara o espirito para a virose chamada mundo. Uma vacina que parecia proteger contra a certeza de um futuro incerto, sem perspectivas onde quem vence é sempre um traidor. Lugar hobbesiano, onde em todos os momentos se vivencia a luta do bem contra o mal, onde uns são bons e outros são maus. Um universo sem muitas palavras "não é assim não é ?"
***
A foto do post traz um mundo sobreposto a esse, espaço onde encontrei as palavras para falar sobre o silêncio que aquele outro sem foto evoca. Uma descrição do meu visual semi-punk, pós-nietzschiano, peseudo-filosófico, pode, com o esforço amigo do leitor, denunciar a tensão existente entre invisíveis co-existindo alí. Em mim, naquela cabeça raspada com uma mecha de cabelo correndo até a orelha esquerda, os dois mundos se degladiavam. E o look debochado, nem totalmente marginal nem perto de ser convencional, era uma maneira de expressar toda a violência daquele momento de aprendizado.
sexta-feira, novembro 28, 2008
Levis-Strauss: Homenagem Estrutural aos seus 100 anos
Senti falta de comentários críticos, mas acho que essas datas comemorativas são assim mesmo. A ciência fica um pouco de lado, talvez infelizmente, e fica o mito... se conseguirmos sobrepor essa linguagem e decifrar a espinha dorsal que a estrutura, fica aquele saborosa sensação de que apesar da continuidade, o mito Lévis-Strauss não é apenas um invariante estrutural dos outros mitos que ele tanto analisou a ponto de propor um método universal para dar inteligibilidade a todos eles!
quinta-feira, novembro 27, 2008
Desvio narrativo ou... o dinheiro dado as putas
Fico com pena da criança. Lembro que ela é uma criança. Ela tem pouca cor e sorrisos cinzas a enfeitam por contraste quando se confrontam ao seu olhar. Algumas pessoas tem ainda coragem de encarar. Meu sorriso é cinza. Dela não se conhece o riso. E isso é julgamento meu. Sempre sou claro, conciso, moral, miserabilista. Rir também não é meu forte.
Não estou no meu carro, isso é raro. E agora me surpreendo vendo as pessoas dentro dos automóveis. Será que sou assim também quando olhado de fora? Aquele homem de oculos. O que ele faz? Ele alonga o braço direito fazendo uma pequena inclinação para baixo com o ombro, suponho que muda a estação de rádio. Nada mais normal. Logicamente está voltando para casa depois de mais um dia trabalhando sei lá onde. Será que esse cara é feliz? Tem filhos? Afasto-me da minha síndrome Marta Suplicy. Afinal, o cara pode estar satisfeito com a vida de muitas formas.
Mas e aquela menina alí. Uma patricinha, deduzo. Deve estar falando com o namorado. O jeito de sorrir ao celular, de morder o pedaço da unha olhando no retrovisor interno e de não dar a mínima para o engarafamento que tira a paciência de outros motoristas menos distraídos, tudo denucia o namorico da moça. Uma formosura.
Sigo andando. Um ônibus abarrotado, ótima amostra representativa. Não lembro a última vez que entrei numa lata apertada daquelas. Observo do chão o jogo de janelas. Uma mulher alta e bonita sentada perto da porta dianteira projeta seus olhos para fora, ela os move em direção ao que se passa em baixo. Alí, numa Mercedes Bens cinza, um homem conversa com uma menina sorrindo no banco traseiro. Ele usa para isso o mesmo artificio da moça apaixonada, mostrando que os espelhos de carro tem muitas funções latentes.
Alguém com uma cara de tijolo vermelho vem perdir esmola no sinal ao homem de janela automática. Esmola é dinheiro encardido, é compra violenta da vergonha esquecida pelo hábito de pedir(e de dar e não dar). O vidro desce e uma nota de cinco reais aparece, sai da mão limpa e passa para uma suja, de cor escura como a do encarnado calçamento. Somos cristãos, compadecemos limpos da miséria alheia empodrecida. Dar dinheiro não é um gesto de compra, diria. Porque essa troca entre a culpa e o cinco reais não revela a elevação maior de nossas relações humanas.
Continuo minha caminhada. Penso no dinheiro. Faço uma pequena digressão filosófica sobre a natureza humana... Da força de trabalho ao corpo da prostituta, do carro importado à passagem do ônibus superlotado, do valor das coisas ao das pessoas, tudo está mediado pela monetarização de nossas sociedades. No caso das putas, essa coisa do dinheiro as coloca em situação ambivalente: na prostituição a relação entre os sexos está submetida absolutamente ao ato sexual( ou sensual no sentido mais amplo), a mulher está aí rebaixada à sua generalidade sem especificidade humana própria, ela representa o que cada exemplar genericamente pode oferecer (nenhum aspecto específico de sua personalidade é levado em conta). O dinheiro aí, como na psicanalise, tem um papel fundamental porque ele é o equivalente econômico dessa relação reificante. Ele, como a mulher prostituta, é o tipo genérico dos valores econômicos. Simmel tem uma frase lapidar a esse respeito:
Deixo a filosofia. Na verdade não existe ambivalência alguma. Chego ao fim da minha caminhada inesperada. Olho meu carro parado na garagem de casa. Vejo-me no retrovisor... as olheiras são o contorno do passeio que fiz. Elas delineiam também o peso dos meus pés calçados por um par de tênes Nike, pesados e sujos com a poeira das culpas de minha condição de classe média.
segunda-feira, novembro 17, 2008
Posições: Cesar, Jampa e uma tese sobre Graciliano Ramos
Minha amiga Wander me enviou recentemente as matérias da Bravo! (não encontrei o link da matéria mesma, mas quem quiser pode me pedir que mando por e-mail) de março de 2003. Naquele momento se comemoravam os 50 anos da morte de Graciliano Ramos e a revista dedicara a capa e alguns artigos ao autor de Vidas Secas. O título presente na capa: “A resistência do camarada Graciliano”. A ele se seguia um complemento: “ Começa a ser relançada a obra do militante que dispensou o discurso panfletário para se tornar um dos maiores romancistas brasileiros”. Ok.
A matéria agora me interessa pouco. Na verdade, a lembrança da amiga me fez relfetir sobre alguns elementos pessoais que julgo importantes sobre construção de minha tese. Como eles não poderão aparecer de forma real no corpo de meu trabalho, aproveito o tom sempre mais egocentrado do blogue para fazer de mais um dia improdutivo de trabalho, um momento de dividir os dilemas e os percalços de quem se aventura numa empreitada intelectual como esta. Por que diabos escolhi estudar a obra de um autor tão canonizado?
Confessaria que a culpa foi de meu amigo Cesar. Eu cometi esse desvio em direção à literatura por pura falta de conhecimento e pela interlocução que estabelecemos e que continuamos até hoje. Fui ludibriado pelo amigo. E agradeço.
Mas até aqui nenhum problema. Nossos amigos tem todo o dever de nos ajudar a encontrar nossos caminhos, mesmo quando eles não estão conscientes (nem nós) do impacto deles em nossas vidas. Existe algo nessas influências que não são apenas do domínio do anedótico, elas entram no terreno do emblemático. Daqui em diante é esforço de situar minhas tomadas de posição intelectuais (digamos assim) em função das que eu imaginava serem as dele (de Cesar), formulando assim uma parte, não a menos importante, do que me levou chegar até aqui.
Hoje meu trabalho se encontra numa situação interessante e delicada justamente por conta do tipo de relação hesitante que tenho com a literatura (sobretudo em relação à crítica literária, domínio do conhecimento que detém, no Brasil, e não só aqui, uma espécie de monopólio sobre o discurso literário). Na minha busca inicial por legitimação num universo até então desconhecido por mim (o acadêmico), o modelo que tentei seguir, em certo sendido a minha revelia, era o de uma intelectualidade tal como a que incarnava o meu amigo teuto-sergipano. E não creio que isso tenha sido ruim.
Foi assim:
Foi com ele que ouvi pela primeira vez nomes que desconhecia, como o de Roberto Schwarz e, pasmem, Antonio Candido. Foi depois dele que li um pouco desses autores. Sim. E através dele, por conta de suas visitas constantes e intermináveis as bibliotecas, que percebi que o conhecimento não vinha sozinho para nós durantes as aulas. Sim, obrigado. Essas coisas se aprendem. E para mim é sempre engraçado ouvir de outras pessoas testemunhos parecidos com o meu.
Tem mais. A partir dele fui modulando as percepções que eu mesmo tinha e tenho sobre o que a literatura representava para mim. E ter ficado na sociologia parece-me uma maneira embora lacunar, legítima de tentar consolidar as especificidades de um tipo típico de intelectual a habitus clivado. Eu escolhi a literatura, em outras palavras, para poder aceitar mal ou bem as impressões de Jampa sobre Jampa. Eu estou permanentemente seduzido por uma visão de mim mesmo como sendo a de um “intelectual pela metade”, formado pelo esforço de vencer pelcaços, e não pela positividade de um percuso escolar e acadêmico impecável que corroborariam com as expectativas do mundo sobre minha própria intelectualidade.
Essa impressão de imperfeição em mim tem portanto ligação com minha relação de amizade com o amigo (poderia citar outras pessoas como Diogo, ou Mestre Giva no caso dessa minha gênese intelectual, mas fico com Cesar para não complexificar demais o sistema). Tal impressão continua e se acentua no caso da tese na medida em que sou forçado a forjar meu discurso sociológico contra a autonomia perniciosa da crítica literária. Crítica literária que é a profissão par excelence daquele que me enfiou sem saber nessa enrascada dos diabos.
Devo uma explicação quanto ao "perniciosa" dito a respeito da autonomia da crítica literária. Não tenho nada contra a crítica literária e muito menos contra o meu amigo Cesar, muito pelo contrário, retiro dos dois (da crítica e de Cesar) grande parte de minha motivação para dar cabo de meu trabalho. Mas a elaboração da autonomia disciplinar sobre o objeto literário impele meu trabalho a margem do processo de inteleção das obras. E isso porque a crítica é aparentemente invencível, uma vez que, como crítica da sociologia, a crítica literária está sempre se definindo e se redefinindo em refinamento e autenticidade. E isso na medida em que concebe sua autonomia, em redundância cabida, no estudo do que existe de mais autonomo na literatura: suas formas. Quem em sã consciência ousaria dizer que em se trantando de estudos literários, a sociologia não deva ser apenas uma “visão de mundo” que apoia à critica no desvendar dos mistérios literários? Eu heim!
Pois bem, noves fora minha “ousadia” de tentar tratar a obra de Graliano Ramos pelo seu contexto, coisa batida, mas também menosprezada e pouco feita (tendo em vista aqui o desnível do tratamento dado entre os demais elementos do Arquivo Graciliano Ramos no IEB e o dado à serie Recortes, onde se encontram recortes de jornais feitos pelo próprio autor sobre as opiniões críticas aparecidas em jornais sobre sua obra, esta última parte é a que eu estudo), eu ousaria dizer em meu favor o seguinte: em meio a deficiência e a leituras precarias fica a idéia de uma preocupação legítima com os elementos que compõem uma obra para além dela e de seu autor. Coisa que é também batida, sem dúvidas, mas que raramente é feita e que pode ter sua valia independentemente do refinamento alcançado no tratamento analítico da obra ela mesma.
E nesse breve percurso, arrogo-me a dizer: dos muitos escritos que li sobre a obra do Velho Graça, de tão tematizados por adjetivos repetidos, eu diria que esse volume de crítica dedicada a sua obra dá à idéia de “lugar comum” uma semântica toda apropriada onde a redundância chega a ser uma coisa desleal, ela reforça em pleonasmo as coisas que são sempre ditas e reditas a respeito do autor. “Obra indissociavel do homem”, “homem engajado que não se rendeu aos ditames da hortodoxia do realismo socialista”, “um dos maiores romancistas brasileiro”. Não diria que essas coisas são mentiras, ou que estão erradas. Mas elas vem sendo ditas desde do falecimento do autor, em 1953. Por que não se fala no processo de legitimação pública pelo qual sua obra passou durante a comemoração do seu aniversário de 50 anos largamente registrada pela imprensa da época? E depois, com mais intensidade, quando sabida a gravidade de sua doença, no aniversário de 60? Nenhum estudo dessa ordem tiraria dele(Graciliano), a meu ver, a importância e a relevância de sua obra literária(atribuida pelo julgo da crítica), só acrescentaria, mais uma vez a meu ver, um conhecimento sobre os mecanismo que toda obra (grande ou pequena em valor artístico) tem que enfrentar para se tornar grande ou pequena na representação que nos fazemos dela socialmente (o que inclui também, ora bolas, seu valor estético).
Assim realizo e explicito esse meu diálogo implícito com meu amigo Cesar. Um diálogo tão latente quanto a sociologia que analiso na obra e nos leitores que registraram opinião sobre os livros de Graciliano nos jornais. Neles (nos diálogos implícitos) se revelam aspectos de um caminho percorrido (não todos, e nem os que foram salientados se esgotam em si mesmos). Devem continuar ocultando muito(ainda os diálogos), mas, no blogue como na vida, é precisso confiar no processo. E continuar executando as etapas, e se possível melhorar o que produzimos levando em conta o que é possível fazer ao condiderar nossos limites atuais. Assim, mais um texto se finda, mas deixa em aberto, como não poderia deixar de ser, o que deve ser desvelado desse esforço de tentar desvelar tantas coisas.
sexta-feira, novembro 14, 2008
Para não dizer que não postei...
estou sem conseguir parar para postar... Então para não deixar vocês na mão (com o perdão do trocadilho de mau gosto), trago a melhor indrodução de filme pornô jamais produzida.
Via: Na prática a teoria é outra
domingo, novembro 09, 2008
Impressões sobre o Pré-ALAS
Participei como platéia do encontro chamado Pré-ALAS. O ALAS é o congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia que ocorrerá ano que vem no Rio de Janeiro. O evento que se realizou entre 03 e 05 de novembro aqui no Recife tinha como objetivo ser uma espécie de aperitivo ao congresso maior que estar por vir.
Vi pouco e não poderia emitir uma opinião mais ampliada sobre o evento como um todo. Mas gostaria de tecer comentário sobre três atividades as quais tive acesso. A mesa redonda “Uma agenda para os estudos sobre crime e violência no século XXI”(04/11/08, das 8 ao meio dia no auditório do CCSA), o grupo de trabalho (GT) “Pensamento Social na América Latina” (04/11/08, 14 às 17 horas no CFCH) e por último a mesa redonda “Democracia, desigualdade, participação e novos atores na América Latina” (05/11/08, 8 ao meio dia no Centro de Educação).
Na mesa redonda sobre a agenda de estudos sobre crime e violência o que mais me impressionou foi perceber o vínculo intervencionista das preocupações das possíveis “agendas científicas”. Se as ciências sociais surgem historicamente em parte por conta do volume e densidade que as sociedades industriais deram à morfologia de suas cidades, e o sem número de fenômenos sociais que vão aparecer em decorrência disso, não deixa de ser interessante perceber o quanto uma idéia de “medicina social” (conhecer para intervir e sanar problemas) permeia os objetivos das agendas ali propostas. Nada contra.
Mas é interessante porque perigoso, eu acrescentaria. Essa definição de agendas nos moldes da relação de heterônomia entre sociologia e política pública de segurança define contornos políticos (na verdade sociais) à agenda científica que passa a pensar seus objetos em função de ideais de diminuição das taxas de criminalidade e violência. Mais uma vez, nada contra o uso do conhecimento sociológico nas agendas políticas dos políticos e governantes. Porém é preciso convir, é preciso ter preocupação com a ciência e sua função específica principal cujo a qual, creio eu, ainda ser aquela de produzir conhecimento sobre as lógicas de funcionamento do mundo social.
Se esse meu receio for real, ou seja, se for verdade que aquelas proposições de agendas de estudo foram estruturadas apenas em função de vínculos com a demanda pública por segurança, numa situação como essa descrita, parece-me que é factível aceitar o declínio da distinção instituinte e instrutiva dada pela própria sociologia entre um problema social e um sociológico. Aparecendo de maneira dissolvida nos moldes para lá de perniciosos dessa razão sociológica (uma sociologia aparentemente desprovida de sua função latente), a sociologia do crime visa encontrar soluções para o crime e para violência (criminologia) sem muitas vezes se ater ao entendimento das lógicas, mecanismos, formas de funcionamento do mundo social que engendram “situações de violência”, “formação de criminosos”, “culturas do crime” etc. Estuda-se polícia, estudam-se políticas de segurança (e querem se estudar seus impactos, onde?, na diminuição ou não das taxas disso e daquilo), mas, e isso me intriga, estudar o caldo sócio-cultural que estrutura essa agenda parece não interessar ninguém. É démodé. Podem me chamar de leigo e conservador, de desconhecer as teorias da janela quebrada ou de suas semelhantes, mas fazer sociologia para mim sem falar sistematicamente de aspectos de socialização sempre vai me parecer algo como fazer bolo de trigo sem colocar margarina: produz algo seco, ruim de digerir e, last but not least, não parece bolo.
Jessé Souza: discurso inaudível, sociologia morta e seus diálogos sem interlocutores
O principal personagem do grupo de trabalho sobre “Pensamento Social na América Latina” e da mesa redonda sobre democracia e desigualdade tem nome: Jessé Souza. Primeiro por fazer uma exposição crítica à idéia de pensamento social num grupo sobre pensamento social. E depois por defender idéias fortes como é a de ralé estrutural, que por sua vez reveste uma crítica por si só já instigante, onde elementos culturais fortemente presentes e aceitos como sendo parte de nossa brasilidade são colocados como elementos de um “mito do Brasil” a ser triturado pela ciência.
O que achei extremamente interessante nos dois momentos foi a impossibilidade de comunicar que se externalizava na hexis corporal de Jessé Souza ao expor, sempre com muita clareza e destreza, o seu pensamento crítico. O suor, os suspiros de impaciência com apresentações que reproduziam contextualizações teóricas de pensamentos teóricos, traduziam o apelo da consciência de alguém que sabia estar falando para um auditório onde os principais interlocutores (os integrantes da mesa) eram surdos ao que ele dizia.
O problema é que se por um lado Jessé Souza tem toda a razão de se colocar da maneira que se colocou(dando argumento-patada em todos), o limite de sua postura está, a meu ver, na pouca ênfase dada às propriedades sociológicas de seu discurso sociológico. Aceitando discutir os resultados teóricos de seu estudo sobre a ralé estrutural como mais uma teoria sobre o mundo social, perde-se de vista o essêncial de sua crítica, caindo-se assim no mesmo equivoco que torna inaudível a especificidade do discurso que deu vazão a produção dessa teoria: ou seja, o sociológico (Jessé de Souza) não enfatizando que é com sua maneira de investigar que ele produz crítica, ou seja, através de seus métodos, seus recursos técnicos de pesquisa – entrevistas, análise estatística, análise de documentos, uso de conceitos, etc. –, ele perde a oportunidade de interar e fazer entender que a verdade e não apenas a veracidade de suas proposições depende do bom uso desses procedimentos.
Nesse sentido acho típicas as exemplificações de alguns elementos de pesquisas dados durante a sua exposição. A mais característica sendo a que visa explicar a tendência ao fracasso escolar de alunos oriundos da ralé. A capacidade de concentração é algo que se aprende, diz Jessé Souza. Ele acrescenta depois de forma imagética que as pessoas de classe média, quando na idade escolar aprenderam a se concentrar em casa, vendo seus pais lendo jornais e livros, descobrindo a concentração como algo possível.
(O que vou dizer agora pode ser uma injustiça produzida pela temporalidade limitada de uma apresentação de meia hora num evento como o que comento. Mas julgo da pertinência dessa crítica por não ter percebido em nenhum momento uma preocupação que levasse o debate para esse ponto que trato.)
Pois bem, Jessé usa nesse exemplo sobre a concentração um argumento estruturado dentro de uma lógica bourdieusiana do A Reprodução. Parênteses para dizer que esse é um livro aparentemente mal lido no Brasil tendo em vista as acusações tolas de estruturalismo que detêm tanto o interesse de nossos debates acadêmicos. Nesse argumento a inteligibilidade do fenômeno da “burrice” (dos não atentos em sala de aula) aparece quando se sobrepõe (depois de descrições muito detalhadas no caso das pesquisas que deram origem ao livro de Bourdieu e Passeron) a congruência ideologicamente camuflada das estruturas da cultura dominante (porque legitima, a ecolar) e a da classe dominante ( a cultura das famílias mais abastadas sociocultural e economicamente). Até aqui tudo bem.
Jessé Souza e a arrogância da "grande teoria" (por Diogo Valença)
Jessé Souza (comentário)Eu também estive presente na apresentação de Jessé Souza no GT Pensamento Social Latino-Americano. Como Jampa, reconheço que Jessé está fazendo um trabalho importante de investigador e simpatizo com as críticas radicais que ele tem feito a vários dos mitos do pensamento social brasileiro. No entanto, o que mais me chamou a atenção na postura dele foi um enorme desconhecimento de toda uma tradição de pensamento desenvolvida na América Latina, não só por cientistas sociais, mas também por pensadores políticos, como Mariátegui, que construíram uma visão original de nossas formações sociais. O que estava em jogo no GT "pensamento social latino-americano", a meu ver, era exatamente isso. Esses autores não são importantes para Jessé porque ele considera que a grande teoria, mais "complexa" (termo que ele utilizou), desenvolvida na Europa, pode dar conta de nossos fenômenos sociais, brasileiros e latino-americanos. Por isso ele não vai ler autores latino-americanos e sim pegar os autores verdadeiramente complexos. Ora, Jessé é um leitor atento de Bourdieu, como bem apontou Jampa, e sabemos que Bourdieu foi um sociólogo que refletia teoricamente a partir de seus objetos de investigação, realizando uma verdadeira construção conceitual na sociologia a partir de elementos concretos, numa simbiose marcante entre teoria e empiria. A meu ver, esse é o verdadeiro caminho na teorização das ciências sociais. Por isso Bourdieu tinha uma forte aversão à grande teoria à la Parsons, ou mesmo à teoria de médio alcance de um Merton. Acho que nesse ponto Jessé não aprendeu a lição do mestre, porque ele deixa de ter a visão da especificidade do concreto quando tenta retirar de Foucault, por exemplo, que ele citou, elementos para entender o poder nas instituições modernas e aplicar esses conceitos ao Brasil. Ele diz, com razão, que o Brasil é uma nação "moderna" e, por isso, a teorização construída na Europa também nos cabe. Nisso estou de acordo, porém se há problemas universais das nações modernas, há problemas específicos de cada uma das nações modernas quando lidamos com as diferenças de suas origens históricas. Isso já é muito sabido e não vou discutir algo que já foi tão debatido pelos cientistas sociais latino-americanos desde os anos 60. Acho que Jessé pensa estar fazendo algo totalmente novo e desconsiderando que a perspectiva de interpretação global que ele tenta levar adiante, criticando o culturalismo e tentando realizar a ponte entre cultura e estrutura, foi algo muito desenvolvido nas ciências sociais latino-americanas a partir de investigações muito concretas, como as de Pablo González Casanova, Anibal Quijano, Orlando Fals Borda, Florestan Fernandes e vários outros. O que ele fez foi algo típico da grande teoria, achar que pode explicar tudo e todos os casos concretos. Penso que na sua prática de pesquisador Jessé possa ter superado essa visão, que, a meu ver, é um índice de colonialismo mental. Basta estudarmos a teoria altamente complexa dos centros hegemônicos de produção cultural e, pronto, seremos capazes de lidar com qualquer problema empírico do Brasil, ou da África, ou da Ásia. Não acredito que esse seja o caminho, porque seria descontextualizar teorias importantes, mas que levam a marca de seu meio social e colocam questões que muitas vezes não podem ter muito sentido para nós. É uma forma de perpetuar relações de dominação que se dão no âmbito internacional dentro da reflexão sociológica. Não sei se Jampa notou, mas muitas vezes Jessé demonstrava estar fazendo algo totalmente novo, inventando a roda e desconsiderando toda uma produção importante feita anteriormente que, em muitos aspectos, foi mais longe do que ele conseguiu, com um "grau menor de complexidade", porque os cientistas sociais latino-americanos foram capazes de superar o complexo de inferioridade do cultivo da "grande teoria" na periferia. Foram cientistas sociais que não tinham as grandes ambições teóricas de Jessé, mas que realizaram estudos concretos da realidade concreta e, por conta disso, deram uma contribuição muito importante à teoria geral, por exemplo, do capitalismo, que tem sido reaproveitada na análise global do capitalismo. É marcante, por exemplo, como Florestan Fernandes apontou certas tendências do capitalismo mundial a partir das análises que ele fez do capitalismo dependente na periferia e, sem o tom arrogante da grande teoria, ele deu uma contribuição muito original a partir de suas pesquisas concretas. Esses comentários nada tendem a desmerecer o trabalho de Jessé, porém acho que há contradições entre seu talento de pesquisador e a sedução que ele sofre pela grande teoria, daí o tom arrogante de achar que ele está fazendo algo totalmente inédito. Sob esse prisma, eu acho que ele não conseguiu fazer uma crítica do pensamento social latino-americano, fez a crítica apenas de uma das vertentes desse pensamento, que ele chama de culturalista, e desconhece outros trabalhos que seriam dignos de nota. Penso que ele não deve ter cuidado para acabar no exercício escolástico de aplicar ao Brasil os o comentário de obras dos autores mais complexos que ele leu e que produziram em outros contextos sociais...
sábado, novembro 01, 2008
UFPE via Universités en France: estranhamento antropológico na experiência acadêmica de um jovem suburbano (I Parte)
Pois bem, essas impressões do homem me ficaram. E a elas se juntaram outras de textos dele que li. Delas (das impressões) retiro motivação para esta pequena reflexão blogueira que pretendo desenvolver em duas partes.Deles (dos textos de Luciano) retiro as nuances do que quero dizer, tomo dalí os elementos nos quais me apoiar. (Essa primeira parte aqui, leitor, é uma justificativa metodológica do texto.)
Num artigo sobre Graciliano Ramos, por exemplo, que infelizmente não posso citar porque não tenho as referências, mas onde, foi assim que o li, com um olhar de “amador” (porque amante da obra e admirador do homem que a escreveu), Lucinano procurava indentificar e decifrar aquilo que a crítica chamou a atenção como sendo a imbricação necessária do homem Graciliano ao escritor. Uma bela homenagem. É um texto que guardo comigo e que com certeza vou usar em minha tese compondo com e contrapondo contra seus argumentos.
Gosto muito de um outro que me foi indicado por Alfredo Cesar. Acho-o fantástico. Um pequeno estudo de caso sobre a opinião de alunos de Direito no Recife sobre a pena de açoite para pichadores. E confesso: o que me mais me encantou nesse texto foi a atitude metodológica de exposição que, mostrando passo a passo o seu desenvolvimento, delineia com verdadeira honestidade os critérios da construção do objeto.
Se me pergunto com sinceridade o que me leva a querer escrever sobre essa minha ínfima relação com o professor Luciano Oliveira, eu diria que mais do que nosso pequeno encontro e os artigos a cima evocados, foi seu texto de blogue que me impulsionou a reagrupar essas impressões e recordações e querer tratá-las de um ponto de vista mais... mais auto-analítico, digamos assim.
Lendo seu Brasil via Paris: descobertas de um estudante brasileiro no país dos bricoleurs senti uma vontade irresistível de entender meu sentimento paradoxal de empatia e estranhamento durante minha leitura deste artigo. Um sentimento daqueles que você tem quando, tendo partilhado uma experiência análoga, termina por perceber os pontos de semelhança e diferença e se perguntar encasquetado: “não sendo a mesma pessoa daquela vivência vivi situações e sensações semelhantes, mas por que algo daquela experiência recontada, portanto tão parecida, escapa a minha compreensão?”
Pensei, pensei, pensei. Por que não esboçar um paralelo? Algo do tipo contrastar alguns elementos do que julguei essencial no texto do Professor Luciano Oliveira, que é esse revelar a importância da viagem para construção de um olhar antropológico, de estranhamento a respeito do mundo que antes nos parecia familiar, comparando com minha própria experiência de estadia na França. Melhor. Que tal falar de um aspecto deixado de lado no relato/análise dele e que talvez mais do que todos os outros represente o calo recalcado de quem sai e volta de uma experiência acadêmica num país tido como desenvolvido: o estranhamento com o próprio meio universitário e acadêmico.
Traçar uma “comparação” com esse viés específico tem duas vantagens:
sexta-feira, outubro 31, 2008
BJ para prefeito
Um lugar aprazível, aberto, com plantas, pessoas interagindo do lado de fora...e até dá pra ver o céu! Nem parece Recife.Agora, logo após as votações do primeiro turno, ficamos sabendo que os armazéns lá no São José foram vendidos para a Moura Dubeux. Por ali, passa a segunda malha férrea mais antiga do Brasil. Mais um patrimônio arquitetônico da cidade vai ser demolido, aniquilado, apagado do mapa sem deixar rastro, e não tem um único grito, manifestação, protesto, choro, o que quer que seja, em defesa da memórial material da nossa comunidade. Viva o progresso? Morra a cidade.
Já abordei esse assunto antes:- Recife ruirá- Privatizaram o horizonte!- Utopia recifense- A Terra Prometida da casta-média brasileira
terça-feira, outubro 28, 2008
Meu Nome é Lisa
Via Pedro Doria
Gostei muito desse pequeno vídeo. Tem humor, trata de um tema difícil, é sensível. Espero que gostem.
domingo, outubro 26, 2008
Dialogo com o feminismo: ainda sobre o caso Santo André
Eu começaria dizendo que acho legítimo o esforço de fugir do efeito de ratificação do real que seria negar a presença das mediações dos esquemas de dominação masculina no caso de Lindemberg. Negar isso, seria ignorar um problema de ordem maior na estruturação das relações sociais que pesa, em todos os niveis da hieraquia social, sob a posição de subordinação das mulheres em relação aos homens. Não se trata de negar isso.
Porém, acredito ser preciso ponderar sobre o peso da análise desse tipo de fenômeno pelas feministas no caso da morte de Eloá(três opiniões aqui). Não raro, para fugir do efeito paradoxal que o descrever os efeitos negativos da dominação masculina e ou da exploração de mulheres por homens gera, somos impelidos a usar os recursos analíticos da análise feminista admitindo que é preciso “deixar de lado a análise da submissão, por medo de que, ao admitir a participação da mulher na relação de dominação, não se leve a tranferir dos homens para as mulheres a carga de responsabilidade”(J.Benjamin, 1988. p9*).
No caso dos textos feministas aqui comentados, “a culpabilização das vítimas” e a “vitimização dos culpados” aparecem como elementos centrais do tratamento equivocado dado ao crime visto que “[c]rime passional não existe! [O] crime é a misoginia do sequestrador, dos policiais, do governador e da mídia! As mulheres morrem porque os homens odeiam quando elas são mulheres, elas mesmas, em vez de SUAS namoradas, SUAS esposas, SUAS mães.”( Ana Reis, A "crise amorosa" do Coronel Felix); ou ainda que “eles não são apenas crimes passionais, eles podem [ser] situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição” (Sandra Raquew, Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem).
Sem negar que esses menanismos sociais balizados pela diferença de sexo estão em funcionamento no momento da crise, no seu desenvolvimento e final, acho que não podemos/devemos perder de vista uma coisa: do ponto de vista da sociologia, o por em evidência a influencia da dominação masculina sobre as culturas do masculino (habitus masculinos na terminologia bourdieusiana), não é, em nenhuma instância, tentar desculpar os homens. Como disse Bourdieu é mais, naquilo que uma perspectiva analítica pode ter de engajada “mostrar que o esforço no sentido de libertar as mulheres da dominação, isto é, das estruturas objetivas e incorporadas que se lhes impõem, não pode se dar sem um esforço paralelo no sentido de liberar os homens dessas mesmas estruturas que fazem com que eles contribuam para impô-la.”(Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, 2007.p 136).**
Ao ler os textos feministas com esse conteúdo tenho a impressão de entender melhor porque o militantismo às vezes torna delicada uma abordagem não apenas articulada com o particularismo político dela proviniente. O melhor dos movimentos políticos, nesse sentido, está fadado a fazer má ciência, isso, caso não consiga transformar suas disposições subversivas em instrumentos realmente reflexivos, em ferramentas de uma auto-crítica. Mais uma vez tento esclarecer que o objeto de minha reflexão é essa confusão: todo esforço de descrever a verdade da relação entre os sexos torna-se, numa visão particularista, sempre uma maneira de ser condescendente com as mulheres agora que pode se tratar, justamente, de uma decrição de como as mulheres terminam sendo objetos de codescendência.
Nesse sentido, e em outros ainda, continuo achando que outras lógicas sociais foram mais importantes para o resultado do caso. Lindemberg deve ser julgado pelos crimes que cometeu. Mas não apenas por representar o machismo de nossa sociedade, que do ponto de vista da análise de sua presença no mundo social, enquanto estrutura objetiva que ordena também elementos da subjetividade de homens e mulheres, torna a leitura desse código(o machismo) problemática já que homens e mulheres podem estar reproduzindo esse esquema de dominação masculina inscrito nos códigos socio-culturais mesmo com toda boa vontade(inclusive dentro de uma visão feminista). Como condenar estruturas cognitivas presente e difusas no mundo social por crimes por elas ocasionados? O crime será julgado pelo fato de ser crime. Deveria a polícia ter atirado no rapaz em nome dos direitos das mulheres e contra o androcentrismo? Acho sinceramente que os critérios de uma decisão como essa deveriam ser outros.
Continuo pensando que a mídia (razões de lógica de mercado, audiência, etc.) e a polícia (por incompetência) são as duas principais responsáveis pelo final trágico da história. E isso porque foram as instituições que mediaram os elementos dessa realidade social dada (mediando inclusive às lógicas machistas operando na visão de amor de Lindemberg).
Obs. Também fico indignado com a corbetura novelistica do assunto. O Jornal do Commercio (para assinantes) e o Diario de Pernambuco deste domingo (26/10/2008) trazem matérias com essa melosa e melodramatica visão de amor romântico, os que os pais devem fazer etc...
Ps: achei interessante esse exemplo ainda da visão feminista , ver nesta carta.
* J. Benjamin, The Bonds of Love, Psychoanalysis, Feminisme and the Problem of Domination, New York, Pantheon Books.
** Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.
quarta-feira, outubro 22, 2008
Crise tira defunto da cova
Crise aumenta procura por obras de Karl Marx na Alemanha
Só no mês passado, foram vendidas 200 cópias, o mesmo número que, no passado, costumava ser vendido em um ano.
A Dietz não é a única editora a publicar obras de Marx, mas, segundo a imprensa alemã, lojas ao redor da Alemanha têm visto um aumento de 300% na venda do livro nos últimos meses.
O correspondente da BBC David Bamford afirma que muitos vêem a atual crise como um fracasso do capitalismo e que a obra de Marx poderia ajudar a entender o que deu errado. Segundo Bamford, o número de visitantes a Trier, na Alemanha, cidade natal de Marx, subiu neste ano para 40 mil.
O curador do museu da cidade afirma que já perdeu as contas de quantos visitantes ele ouviu dizer que Marx estava, afinal, certo em suas críticas ao capitalismo.
“Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.” (Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)
terça-feira, outubro 21, 2008
Tragédia de Santo André: a culpa é dos Deuses gregos?
Ledo engano, Shakespeare, em bom leitor dos gregos sabia que a dimensão propriamente trágica do gênero estava nessa ruptura, nesse fosso existente entre o mundo da vida e suas expectativas mais nobres. O amor em pleno mundo hostil só pode se realizar plenamente ao eliminar sua possibilidade mesma. É preciso destruir os agentes da mediação chamada amor, é preciso matar os amantes. Destino por definição inelutável, obra silenciosa de acasos pré-ocasionados por maldições, por deuses furiosos, por forças conhecidamente desconhecidas às quais homens e mulheres se conformam com ou sem relutância, a tragédia não produziria efeito de força dramática sem o desfecho esperado (apesar de não desejado, nem pelos leitores nem pelos personagens).
Graças a mídia (sobretudo a cobertura da Globo e da TV Record) O caso de Santo André trouxe elementos trágicos da ficção para mundo real. Contudo é preciso reforçar algo: a ficção por mais realista que seja não é nunca mais do que a produção de um efeito do real. Ou seja, ela é a produção de um efeito de conformidade ao real fundado na sobreposição formal das normas sociais que aderimos num dado momento como sendo reais. A mídia “jornalística” (sobretudo a televisiva) criminosamente jogou com esses efeitos da relação entre mundo real e fictício. Mas, a meu ver criminosamente, o fez em sentido inverso. O efeito de ficção, que é bem real em seus efeitos foi nesse caso como em outros bastante desastroso.
O cineasta Bruno Barreto vendo a centralidade da mídia para entender o seqüestro disse o seguinte sobre o caso:
“Li tudo a respeito desse seqüestro em Santo André nos jornais. A presença que a mídia tem é muito grande na vida das pessoas, vejo a intersecção das duas histórias por aí [entre a história de Eloá e a que ele reconta em seu novo filme, o Última Parada 174.] A necessidade que Lindemberg [Fernandes Alves] tinha de ser visível também aconteceu com o ônibus, das pessoas verem sua dor. Esse é um dos subtextos presentes no filme."
Subtexto ao mesmo tempo do filme e do mundo a mídia agiu de maneira irresponsável no local da crise. Para mim ela foi enquanto visão de mídia não apenas um subtexto, mas um pré-texto do crime, agindo como principal responsável junto à polícia da tragédia real. Foi a mídia televisa quem deu o tom e contorno de coisa já vista.
Na sua relação corrosiva com o real (porque sensacionalista) trouxeram como marca das transmissões ao vivo do caso a arrogância dos que crêem “formar opiniões” ou acreditam “criar ou recriar o real”. A mídia televisiva (sobretudo as coberturas da Globo e Record) eliminando os registros da linguagem informativa insistiram na narrativização da situação tornando a realidade um "mero" efeito de ficção. A responsabilidade da mídia sensacionalista precisa ser discutida e apurada.
Na ficção do real a potência de evocação de um estilo produz, pelos princípios de apreensão do real dados pela linguagem para linguagem, o efeito de decifração do mundo, e, em sentido inverso ao efeito de ficção trazido pela espetacularização da vida real, dá acesso inteligível aos desígnios das trajetórias de vida por ele sendo narradas e ou descritas. No efeito de ficção a vida mundana ganha contornos extra-ordinários e a simples presença da mídia televisiva superdimensiona os fatos. Narrativa da Narrativa Assim...
No caso dessa tragédia real não shakespeariana, Eloá não amava mais Lindemberg. Inconformado, o rapaz partiu para o tudo ou nada do sentimento de posse. Como um Paulo Honório urbano Lidemberg não admitia dividir Eloá com ninguém. Covarde, preferiu coloca-la em cativeiro e depois mata-la a ceder os desígnios do acaso amoroso. Pressionado por todos (mídia, policia, entre outros),o amor doentio do jovem se desfez em dor sem volta e sem reparo. Para ele, para ela. De quem é a culpa? Claro, do rapaz.
Mas indo além da obviedade de que Lidemberg deve responder pelos crimes por ele cometidos, existe algo mais a se pensar para compreensão do ocorrido em termos do interesse público do caso: em que medida não foi o próprio criminoso também vítima de uma orquestração de forças (sociais, psíquicas, dos deuses gregos da mídia, da polícia) que o levaram a por fim de maneira tão covarde ao amor de sua vida? A essa pergunta nós deveríamos debater para procurar respostas a respeito da irreversibilidade e redundância de nossos destinos de brasileiros miseráveis (miserável aqui em sentido social da palavra).Digo de antemão não crer existir nessa proposição uma intenção de vitimizar o criminoso.
Pessoalmente acredito que os responsáveis institucionais dessa tragédia particular são no mínimo dois: a polícia incompetente que não soube lidar com a pressão da mídia cedendo à espetacularização do crime e a mídia irresponsável que na ânsia de audiência não soube manter-se em sua função. (ver comentários a esse respeito aqui –cf comentários). E mais, isso porque borrar as fronteiras entre ficção e realidade sem mostrar quem está mediando a estrangulação desses limites deveria ser considerado crime...
Claro que outras lógicas operaram no caso. Para o Colcha de Retalhos, por exemplo, a questão de gênero mediou o sentimento de posse do rapaz o que explicaria em certa medida o final trágico. Tudo bem, eu acredito que o fato de ser homem deve ter em alguma instância impactado no tipo de desespero de Lindemberg. Mas volto à inversão da lógica do real pela do ficcional: se considero a origem simples de Lidemberg, origem real de um jovem pobre saindo da adolescência, fica difícil não acreditar que a mídia não tenha sido o trunfo final do destino trágico dessa história, na sua operação de produzir a ficção do real. O que ela continua fazendo sem dó no decorrer de sua cobertura. Acuado, superdimencionando suas próprias atitudes em cadeia nacional, Lidemberg fez o que fez. Culpado, sim. Deve pagar pelos crimes que cometeu, sim.
Mas a culpa, dizia Camus, tem algo de supra-jurídico. A ignorância a atenua em direito, mas não em consciência, como no caso de Édipo Rei. Eu diria mais, a culpa tem algo de extra-social (ela é mais social ainda) no que ela tem de social nos indivíduos. Existindo em Lidemberg, não se encerra nele. E é sobre essa culpabilidade extensiva ao mundo social que o debate público deveria se ater mais fortemente. Pois a mídia e a polícia nos devem explicações, assim como os malvados deuses gregos... Afinal, mídia e polícia foram, a meu ver, os representantes modernos da hostilidade do mundo que, como numa peça de Shakespeare, apareciam como mediadores da esperança de um final diferente, mas foram, finalmente e verdadeiramente, os fatores da obstinação do destino. Destino de Eloá. Destino de Lidemberg. E nosso destino também. Porque o problema para nós cidadãos continua o mesmo: nossa impotência diante de certos Deuses...
sábado, setembro 13, 2008
O mundo gira : Papa visita Sarko
Enquanto o mundo continua a girar em seu ritmo frenético ca estou eu, na França, sem pressa pra nada.
Leio lentamente e desatento meus blogues preferidos, meus portais, meus e-mails. Penso na tese, na familia, na modernidade (à) brasileira ( mais à brasileira que modernidade), no meu pé torcido, no livro do Julio Ramos sobre uma tal “vontade de autonomia” presente em tantos escritores latino-americanos, nas eleições para prefeito...
Lento. Penso nessas coisas sem refletir, elas aparecem sem conexão, apartadas pela preguiça perene.
Ligo a TV. Sarkozi paira onipresente. Deus francês casado com musa italiana recebe Papa. Bentinho veio à França discutir o que ele chama de “laicidade tolerante” ou algo dessa natureza. Quanto sarcasmo. No meu modo relutante de ver programas de televisão pensei: Sarko merecia ser questionado pela pompa com a qual recebe o Papa, pois ele nem sequer recebeu pessoalmente o Dalaï Lama, lider politico do Tibete. Hum... lembro de lembrança televisual sem link que vira algum comentarista dizer à época que o presidente da Republica Francesa não fora porque politica não deve se confundir com religião... Lembrando ainda sem link, Sarko foi à China para abertura dos Jogos Olimpicos de Beijin Beijin Tchau Tchau porque não se deve confundir Esporte e Politica. Infelizmente teve que se deslocar de maneira antecipada porque imprevistos sempre acontecem na vida de quem esta frenteando a União Européia, e bombas russas nunca se sabe onde podem cair (a candida candidata a vice de Mcain deu declações intrigantes sobre isso em entrevista televisiva... Guerra contra Russia; huhum que legal! Que saudade da Guerra Fria!) Fiquei com tanta pena de Sarko que pergunto: por que sera que ninguém diz que não podemos confundir questões de guerra com politica? Afinal a autonomia das esferas tem que ser respeitada! E que fique claro, quando o papa diz que a religião é imprescindivel para o desenvolvimento moral dos seres humanos(que é algo individual, da esfera intima de casa pessoa humana), ele não esta pontificando a obvieidade de que sem religião (sem a catotilica inclusive) estariamos todos fadados a não discernir mais o bem do mal... Apesar de não conseguir inferir outra coisa da palavra “imprescindivel” que a sua implicação univesalisante com a “necessidade”, não creio que ele queira ensinar missa ao... ops... laicismo ao francês. Ele deve estar querendo apenas fazer religião e não politica, falar aos seus e não a todos... A logica do escuta quem quer, é politica?
Desligo a TV.
Deslento. Desalento. Eu faço prosa como quem chora. Saia do Oxymore se não tens motivo algum de pranto. O meu pé dolorido. Uma saudade corroida do Recife mantem o blogue à vista.
Não digo adeus, digo até logo.
quinta-feira, setembro 04, 2008
Pequena Pausa
(E vamos que vamos,
No Recife,
Parace que João... e rapaz, não é que parece que vai dar João.)
quarta-feira, agosto 27, 2008
Misoginia de blogue: de pessoa e/ou instituição
É claro que Pierre Lucena, cidadão sorridente e bem vestido, tem todo o direito de expressar suas opiniões sobre as qualidades que ele mais aprecia numa mulher (e não é preciso ir muito longe para entender que tipo de “visão de mulher” ele tem). Mas o problema é que Pierre Lucena fala enquanto professor da UFPE, que, se fosse instituição de respeito, pediria satisfação a respeito de opiniões expressadas publicamente tão desprovidas de valor\rigor\seriedade acadêmica, fato que coloca em jogo e em questão a própria instituição.
Volto à tautologia “as pessoas de um modo geral têm seus gostos” e ao importante adendo “intelectualizadas ou não”. Eu concordo plenamente com o argumento de Cynthia Hamilin ao mesmo tempo que reflito sobre o significado que a ruptura que ele pressupõe revela: o machismo estrutural que se desvela de maneira violenta nas maneiras de apreciar (a palavra mais apropriada seria depreciar) as mulheres exposta na enquête revela ao mesmo tempo a fragilidade da assimilação dos valores da mulher como ser humano pleno (pautados no feminismo ou além dele) no tecido social e o pouco respaldo que o debate contra a misoginia alcançou na estrutura de poder das relações universitárias. Nesse sentido, quero crer, o caso não é de feminismo pura e simplesmente, mas algo mais sério, no mínimo de denúncia de falta de decorro profissional onde alguém, em certo sentido, usando do status atribuído por uma instituição (Professor da UFPE), diz coisas não sensatas (adoro eufemismos) a respeito de seu modo de depreciar mulheres.
quarta-feira, agosto 20, 2008
Digressão sobre minhas atitudes blogueiras: em dois pontos
Instalei sem muita reflexão um programa de monitoramento estatístico no meu blogue (o modelo que instalei vocês podem encontrar aqui). Encontrei o site visitando um blogueiro amigo e quis fazer um teste, para ter uma idéia mais concreta de quantas pessoas visitavam meu modesto universo de interação.
Estou usando o Free Trial de trinta dias e estou em dúvida se devo ou não renovar por algumas razões. Devo reconher, na verdade, que a principal delas é que lido mal com a situação de poder “visualizar” as localidades das pessoas que acessam meu blogue. Mais. Ter acesso ao “referer” que é o link que levou o internauta ao meu espaço, apesar de me parecer algo importante e construtivo, entre outra coisas, para uma avaliação dos tipos de leitores que você tem (numa construção positiva em oposição aos que você imaginava ter), traz-me algumas questões e hesitações a respeito da privacidade dos internautas. E, last but not least, o serviço é pago.
Primeira atitude depois do desconforto, é avisar aos meus caros leitores que essa ferramenta monitora meu blogue já faz uma semana. Ela é um centro de gráficos e reagrupamento de dados estatísticos relativamente relevantes em relação ao site. Vê-se frqüência de acesso por dia, semana, mês, hora, e tudo isso em função de algumas variáveis simples, como recorrencia ou não do visitante, ou pelo tipo de acesso (se direto ou via google, por exemplo). Ela traz também informações como IP, a localidade de acesso, o tipo de Browser (se Firefox, Internet Explorer, etc.), o tipo de sistema (se XP, Vista, alternativo).
Exemplo de Estranhamento
Não deixa de ser estranho, engraçado e ao mesmo tempo doido e interessante ver que pessoas entraram no seu blogue procurando no google a partir das seguintes palavras-chave: “cabeça da pica molhada com cuspe”, “Bundas muito grandes e paus enormes”, “priquito de ninfeta”. Quase nada contra sites pornográficos, mas eu me vi na situação de querer que essas pessoas tivessem se decepcionado com o que leram (e possívelmente não leram) nos meus textos.
Acho que é porque apesar de terem um teor inventado, são textos que poderiam ser bem lidos como crônicas tiradas de minha memória de garoto vivido em suburbio recifense. Não são contos eróticos. Falam de uma depravação real, de maneiras de encarar a sexualidade que conheci e convivi de perto. A pedagogia da punheta, texto que a busca pela “cabeça de pica molhada com cuspe” dava acesso no google, não buscava ser uma apologia da reificação do sexo (como suponho ser a da busca pura e simples por um conhecimento tecnico da masturbação, de uma visualização que excite os sentidos ou coisas dessa natureza), mas uma reelaboração, que não diria literária por conta de minhas limitações tecnicas em literatura, porém uma reelaboração sim, através da escrita, de uma modalidade de percepção da sexualidade vivida por muitos adolescentes nos suburbios recifensesÉ inclusive um texto que escrevi quando morava na França e tentava repensar minha experiência e minha relação de distância e proximidade com todo aquele ambiente da periferia. Texto sem acentos (por conta do teclado estrangeiro), sem cuidados maiores. Apesar disso, não creio que seja pornográfico.
Momento 2: mudanças no blogue
Como vocês já devem ter notado o blogue tá de cara nova. Acho que mais bonitinho, mesmo que eu não tenha conseguido guardar como gostaria os comentários de cada post passado. Aceitei o convite de ser blogue parceiro do Amálgma, que é onde meu saudoso exilado Cesar, do lento mais boníssimo Don Quijote, escreve agora coisas sobre Cinema. Por isso está colocado em canto muito visível do meu layout o script do site pareceiro, do qual faço propaganda, segundo o acordo tácito feito entre mim e o Daniel, editor do referido site de blogagem coletiva e agora parceiro na blogueatividade. Normalmente meu “retorno” vão ser mais leitores para as torturantes linhas que escrevo com o cuidado de um elefante catando piolho num porco espinho.
Quando estiver com mais tempo vou organizar melhor os links e os blogues que visito. Mas já coloquei, como podem perceber, uma lista que atualiza em tempo real as postagem mais recentes dos blogues por mim visitados, o que facilita bastante a busca por coisas novas na blogosfera.
Estou devendo um comentário sobre o anexo do A Dominação Masculina, de Bourdieu, que prentendo fazer em breve.
Acho que por hoje é isso.
sexta-feira, agosto 15, 2008
Claire Laribe
Jampa, é verdade. Que poeta? Qual musa?
Quem dera Claire não fosse perfeita, quem dera fosse idealizada.
A distância no globo só a do mapa, e a voz no scype: toada.
Vida, traga-a de volta, sem moita e sem carne: inteira.
Oh vida, sem silêncio nem ode, só ela e seus olhos: alma.
Ela e eu.
Apenas.
...
quarta-feira, agosto 13, 2008
Clássico: receita de bolo? Para sociólogos e simpatizantes (S&S)
–No meu trabalho de doutorado uso documentos históricos, como devo proceder senhor clássico?
Mauss: “ No que se refere aos documentos históricos ou etnológicos , a sociologia deve adotar, grosso modo, os processos da ‘crítica histórica’. Não pode servir-se de fatos inventados e, por conseguinte, deve estabelecer a verdade das informações de que se serve. [...] Não há necessidade de conhecer a data de um fato social, de um ritual de orações para servir-se dele em sociologia, contanto que se conheçam seus antecedentes, seus concomitantes e seus conseqüentes, numa palavra, todo quadro social que o cerca. Para servir-se de um fato social determinado não é necessário o conhecimento integral de uma história, de uma língua, de uma civilização. O conhecimento relativo, mas exato, deste fato é suficiente para que possa e deva entrar no sistema que a sociologia quer edificar.”
—Caramaba Mauss, você parece um pouco old fashion depois dos pós-estruturalistas e do relativismo estrato-quântico historicista apoteótico das novas correntes sociológicas. Mas eu continuo gostando de você. Dá mais uma dica aí, daquelas que a gente não deve esquecer nunca, mesmo depois das mortes de Marx, Durkhiem, Weber e Floresntan! Vai, por favor!
Mauss: “ A sociologia não especula, como não faz qualquer outra ciência, sobre puras idéias e não se limita a registrar os fatos”.
– Ah Mauss, você tá de sacanagem comigo... vamos parar por aqui.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Sobre Very Important News
Claro, trata-se de algo humorístico. Claro, as notícias não são “sérias” e são encontradas na rede em locais reservados à “bizarrice” e às “futilidades”. Mas não deixa de ser interessante de ver essas notícias duvidosas, estranhas, fúteis, agora todas selecionadas e reunidas num só local, de ver como elas elaboram, pelo simples fato de estarem reunidas, um dialogo grotesco com o jornalismo em geral, onde a seriedade e o pitoresco se misturam tão comumente com o nosso bizzarro jeito de entender o que sejam as “verdades no mundo”.
Resumo: o efeito que a leitura de tantas coisas desprovidas de “seriedade” juntas dá é muito interessante, e eu gostaria de fazer uma pequena digressão (tragicômica?) a respeito.
Da futilidade e do questionamento da utilidade do inútil
Se eu fosse filósofo teria futuro. Com um título como esse poderia concorrer a muitos prêmios pelo bom uso de oximoros para introduzir textos desprovidos de interesse sociológico. Mas deixemos isso de lado. Meu sucesso em filosofia muito dependerá de minha aguçada sensibilidade para deixá-la de lado. Pois bem, o fato não filosófico que nos interessa é que uma pergunta decorre da inutilidade aparente dos fatos inúteis quando estes são descritos num meio de comunicação de grande alcance: para quem e para que serve saber que “banheiro para transexuais é sucesso em escola na Tailândia”?
É útil saber que um oximoro (figura de retórica que consiste em reunir, no mesmo conceito, palavras de sentido oposto ou contraditório — como dizer do silêncio de alguém que este é expressivo, um “silêncio expressivo”) não é um oxiúro (que é um verme que faz os seres humanos coçarem sem paz suas respectivas regiões “oiticias” – claro, a coceira só ocorre quando se está parasitado pelos ínfimos nematodes)? Ora, acho que seja importante o discernimento entre as duas coisas para algumas classes de seres humanos: a começar pelos filósofos, passando pelos sociólogos e pelos poetas (principalmente os poetas sociólogos ou os sociólogos poetas), caminhando pelos críticos de arte, todas essas categorias de seres, não tem o direito de confundir sem conseqüências intestinais uma figura de linguagem com um verme.
Nesse sentido voltemos ao nosso site (eu adoro fazer transições bruscas): “Chefe proíbe cueca e calcinha suja no trabalho” nos diz uma outra manchete interessante. Só uma pessoa com discernimento entre a forma literária e a realidade do intestino contaminado com oximores poderia achar sem interesse uma matéria tão importante. Na matéria vemos que o senhor Milomir Gligorijevic, chefe de uma empresa servia, afirma que “ficou de saco cheio de ver pessoas sem higiene pessoal básica”. Notem: saco cheio e não saco sujo, o que seria uma contradição em termos e não um oximoro. Sendo um homem de empreendimento, ele não ficou de mãos abanando cabisbaixo com a sujeira alheia: “enviou um memorando que alerta para os profissionais escovarem os dentes, tomarem banho e trocarem a roupa íntima, todos os dias. Ele ainda não sabe se a medida é seguida, mas alertou que ela pode ficar ainda mais rígida.”
Um homem de negócios desse calibre sabe dos efeitos dos oximoros intestinais, como também, para não pensarem que estou filosofando, dos oxiúros retóricos que infectam a inteligência de tanta gente.
Dito dessa forma fica fácil entender porque o Very Important News é tão visitado por mim: rir de suas próprias vermes é uma maneira também de pensar sobre as consistentes inconsistências do mundo que nos cerca. Um mundo sério e obtuso esse nosso. Risível.
Ps: não citei o nome da moça minha amiga porque, não tendo no próprio site o nome dela, não me senti autorizado.
Quem sou eu (no blogue)
- Jampa
- Recife, Pernambuco, Brazil
- Aqui farei meu diario quase intimo. Mentirei quando preciso. Escreverei em português e, mal ou bem, seguirei com certa coerência as ocilações do espirito, carater e gosto. Desprovido de inteligência precisa, justa será apenas o nome da medida que busca o razoavel no dito. Esperançoso. Jovem gasto, figura preguiçosa e de melancolia tropical sem substância. Porém, como já exprimido em primeiro adjetivo, qualificado e classificado na etiqueta quixotesca. Com Dulceneas e figuras estranhas o "oxymore" pode ser visto como ode a uma máxima de realismo outro do de Cervantes: "bien écrire le médiocre", dizia Flaubert. Mediocres serão meus dizeres. Bem ditos, duvido. Por isso convenho: os grandes nomes citados não devem causar efeito de legitimação. E previno: o estilo do autor das linhas prometidas é tosco, complicado e chato. O importante é misturar minha miséria com outras. Assim o bem dito será o nome de uma vontade de partilhar uma condição e não o da sutileza formal. A bem dizer, aqui findo com minha introdução.
